16 de maio de 2010

Adeus, Ronnie James Dio

Ronnie James Dio
10/07/1942 - 16/05/2010

Caro Ronnie James Dio:

Um dos meus pecados dentro da minha paixão por heavy metal, que nasceu quando eu tinha por volta de 15 anos, foi ter conhecido algumas bandas e artistas tarde demais. Eu sempre tive esse problema – tenho uma fidelidade quase canina às coisas que gosto, o que cria uma enorme barreira para eu conhecer coisas novas. Assim, não posso negar que só conheci o trabalho de alguns artistas que hoje estão entre meus prediletos depois dos vinte anos; alguns, quase com trinta.

E você foi um deles.

Entretanto, não vejo isso como um erro ou falha da minha parte, mas sim como sorte. Porque hoje eu sei que, com 14 ou 15 anos, eu não tinha maturidade para apreciar seu trabalho da forma que ele merecia. Enquanto eu era cru demais, suas canções eram refinadas demais.

Sim, o termo é esse: refinado. Não há outra maneira de descrevê-lo. Suas canções, apesar de pesadas e agressivas, mostram uma elegância que poucos artistas do gênero conseguem transmitir. Eu, com 15 anos, teria dito apenas “porra, que voz” e mais nada. Ou seja, teria ficado no óbvio. Mas, com 30 e poucos anos, ouço suas músicas (e, se vale como desculpa, há um punhado delas que eu ouço com bastante freqüência) e não consigo deixar de me encantar com a riqueza de tudo que você criou.



Cada vez que ouço um de seus discos, descubro algo novo. Cada vez que ouço, gosto mais. E cada vez que ouço, me orgulho ainda mais de ter a honra de ser seu fã.

Agora, aposto que ser chamado de refinado nunca foi surpresa para você. Sim, porque se você nasceu em Nova York, sabiamente escolheu fugir do glam que dominava os Estados Unidos e resolveu cruzar o Atlântico, sabendo que o heavy metal de verdade era feito ali, naquela ilha. E foi lá que você escreveu seu nome ao lado de outras lendas da música, como Richie Blackmore e Tony Iommi. Foi a partir de lá que sua voz – espantosamente potente para uma figura tão diminuta – ressoou para ser ouvida pelo mundo inteiro.

E quando sua voz entrou na minha casa e, consequentemente, na minha vida eu, como fã de música, como fã de rock, percebi que havia descoberto um tesouro.

Mas a minha admiração por você cresceu, de verdade, quando eu comecei a assistir algumas entrevistas suas, em documentários. Antes disso, você era um excelente cantor, mas suas declarações me mostravam que, antes de tudo, você era uma pessoa, jamais assumindo o papel de astro. E isso se mostra em toda sua carreira. Você sempre respeito os colegas de trabalho – mesmo aqueles com quem você teve rusgas – e, principalmente, os fãs. E, em cada frase sua, em cada atitude sua, via-se que não se tratava apenas de profissionalismo, mas sim de amor pelo que fazia.

Tratava-se amor pela música.

E por isso que você foi (e sempre será) tão respeitado no meio. Se o mundo cometeu uma injustiça, foi o de manter seu nome preso entre o círculo de fãs de heavy metal. Diferente de um Metallica ou um Iron Maiden, seu nome não é conhecido pelo público em geral. Assim, pouca gente sabe, por exemplo, que você organizou o Hear N’Aid (uma versão heavy metal da ação We Are the World), que também visava combater a fome na África.



Por outro lado, seu nome, dentro do mundo do heavy metal, é, desculpe o trocadilho, sagrado. E sempre será. Pois, em todos estes anos, eu nunca vi um alguém (seja fã ou músico) falando mal de você. E isso não se deve a somente o seu trabalho, mas principalmente a à forma com que você desempenhava esse trabalho.

Você, literalmente, deu sua vida em nome de um estilo musical, defendendo-o não apenas com unhas e dentes, mas especialmente, com inteligência, educação e classe. E bom humor, pois não posso evitar rir sempre que me lembro da sua entrevista explicando que aprendeu a fazer os famosos “chifrinhos” com os dedos (algo que eu faço instintivamente em qualquer show de metal) com sua avó italiana, que fazia o mesmo sinal para se defender de mau olhado.

Alguns juram que foi você quem criou esse símbolo do heavy metal; outros dizem que não. Você mesmo já deve ter visto a ilustração do John Lennon fazendo isso na capa do Yellow Submarine. Faz diferença? Nenhuma. Seu nome não está na história do heavy metal por causa de um gesto, mas de vários, que você apresentava a cada disco, a cada música, a cada show.




Eu e você nos encontramos apenas uma vez e brevemente, em 15 de julho de 2006. Lembro-me como se fosse hoje. Você entrou no palco, sem grandes micagens, sem efeitos especiais e começou a executar clássicos atrás de clássicos.

Mas o que mais me chamou a atenção era a sinceridade com quem você agradecia a platéia entre uma música e outra, como um gentleman. Você nunca escondeu o amor pelo palco, nem pelas suas músicas. E você nunca escondeu o amor que sentia por nós, que estávamos ali aplaudindo, cantando e esquecendo os nossos problemas durante duas horas.

Afinal, mais que um cantor, você era um fã de heavy metal, exatamente como nós. Talvez o maior fã de heavy metal de todos os tempos. E todas as pessoas que acreditam que este estilo musical é acéfalo e agressivamente sem propósito deveriam ter a sorte de ter contato com você, ou com seu trabalho, durante apenas alguns minutos.

Por diversos motivos este show mudou minha vida. Nem todos eles estão ligados diretamente a você (o mais importante deles pertence somente a mim e a Sra. Gordon), mas, naquela noite, meu respeito e minha admiração por você se multiplicaram. Naquela noite, você deixou de ser alguém que eu via como um excelente cantor para se tornar um dos meus ídolos, pela integridade, honestidade e respeito que você mostrava a cada segundo.




E, se você nunca se colocou como um astro, mas sim como uma pessoa comum, nada mais dolorosamente justo que você tenha morrido como uma pessoa comum. Você não morreu de uma maneira exótica ou bizarra, mas sim de câncer, como pode acontecer a qualquer um de nós. Você se recusou a ser estrela até mesmo na última hora, perdendo esta última e amarga batalha que o afastou dos palcos com uma honra e uma coragem admiráveis.

E é justamente por se recusar a ser estrela em vida que sua estrela irá brilhar para sempre.

Eu não sei onde você está agora. Não sei se no céu (pelo bem que você fez ao público) ou no inferno (porque o pessoal do Paraíso não deve ir muito com a cara de alguém que fazia o sinal de Satã com os dedos a cada minuto). Mas, sinceramente, não faz diferença. Porque você era tão grande, mas tão grande, que acredito que você não caberia em apenas um deles.

Não, eu aposto que você está nos dois. Céu e Inferno. Mas tenho certeza de que você não está sozinho, pois, assim que você começar a cantar, sua voz será responsável por abrir um enorme Arco-Íris no Escuro.

E nós? Mesmo sentindo muito sua falta, continuaremos nos lembrando sempre de você e do seu trabalho. Afinal, como você mesmo disse: Vida Longa ao Rock’n’Roll.

Adeus. E muito, muito obrigado mesmo. Por tudo.

Sinceramente, Rob.

16 comentários:

Bia disse...

Rob, assim que soube da notícia da morte do Dio, meu coração parou por alguns segundos... Consegui apenas escrever um pequeno desabafo em meu blog e assim que publiquei vi que vc tinha escrito algo tbm... "Algo" é apenas uma maneira de dizer, pois vc conseguiu retratar um sentimento que, apesar de seu, é um pouco de todos (guardada as devidas proporções e ocasiões). Enfim, hoje perdemos um grande ídolo, um grande homem... Meus sentimentos!

Pedro Lucas Rocha Cabral de Vasconcellos disse...

Bye, Dio.

Chantinon disse...

Já notou que não existe uma renovação dos mestres da música definida como Rock?
Até na música clássica grandes artistas continuam surgindo. Mas o Rock vem ficando apenas com os bons, acabaram-se os excelentes.

RIP DIO!

Dani disse...

Gelei quando li a notícia. Fiquei (e ainda estou) sem palavras pra comentar.

RIP Dio

Varotto disse...

Cara, fiquei sabendo da notícia agora, pelo seu texto. Realmente uma pena.

Um amigo meu da EMI que, além de fã desde a adolescência, conhecia Dio pessoalmente, já tinha me confirmado que essa imagem de cara legal era real, ao contrário de outros contratados da gravadora, como o Coverdale que é uma diva mimada.

E isso, nesse meio, é artigo raro.

Enfim, é a vida. Pelo menos o cara deixou o nome escrito na história.

Igor Fioli disse...

Lindo o texto. RIP DIO!

V disse...

Não leio o Blog a muito tempo, mas voltei hoje porquê sabia que ia ter um post sobre a morte do Dio. Lá se vai um grande cara. Para sempre lembrado.

Vinicius disse...

Belo texto. Mas eu preferia que ele tivesse sido escrito daqui uns vinte anos, com Dio morrendo de velhice, depois de ter superado vigorosamente sua batalha contra o câncer. Eu tenho certeza que o conteúdo seria o mesmo, porque Dio era maior que um momento. A coisa fica ainda mais doída quando sabemos que o cara era uma pessoa muito legal, pois raros são os artistas que não se tornam esnobes/metidos. Meus olhos marejaram muito ontem, e se eu continuar escrevendo, vão marejar de novo, então chega.
Que Deus reine no Céu e no Inferno!

Tiago J. Fonseca disse...

Olá! Ótimo texto! Mas acho que estamos precisando de mais uma carta aberta http://noticias.r7.com/blogs/andre-forastieri/2010/05/17/ronnie-james-dio-o-deus-ridiculo-do-rock/

Varotto disse...

Acabei de ler o texto que o Tiago recomendou, e a coisa é a seguinte: esse tal de forastieri gosta mesmo é de fazer polêmica para aparecer.

Não tenho nada contra nadar contra a maré. Eu mesmo tenho minha porção iconoclasta, mas não é a primeira vez que eu vejo este mané tentando aparecer.

Uma vez li um texto dele tão babaca e paradoxal, que já estava preparando uma resposta bem embasada para destruir o cara (Rob Gordon mode: ON), mas aí vi que o post era antigo e não perdi o meu tempo.

Não ouvi mais falar do cara até hoje, e, sinceramente, acho que o melhor seria se ele não tivesse recebido comentário nenhum, em vez da montanha que recebeu.

Posso até estar enganado, mas acho que o claro objetivo da figura é aparecer a qualquer custo, o famoso clichê "falem mal, mas falem de mim".

Ridículo por ridículo, pelo menos ele considerou o Dio um Deus, e para o patético autor do texto, o que sobrou?

Monica disse...

Rob, teu texto sobre o DIO me emocionou. Sou fã desta lenda desde a época do Rainbow.
Uma sugestão: enviei seu texto para o Whiplash.net, acredito que mais pessoas se emocionarão, como foi o meu caso. Além disso, te agradeço por me poupar de responder a este imbecil chamado André Forastieri.
Fica com Deus. Um Abraço! Metal Forerver
P.S: Comentário postado por Carlos Henrique

Monica disse...

Corrigindo: Rob, seu texto sobre o DIO me emocionou. Sou fã desta lenda desde a época do Rainbow.
Uma sugestão: envie seu texto para o Whiplash.net, acredito que mais pessoas se emocionarão, como foi o meu caso. Além disso, te agradeço por me poupar de responder a este imbecil chamado André Forastieri.
Fica com Deus. Um Abraço! Metal Forerver
P.S: Comentário postado por Carlos Henrique

TRICLONAGENADOS disse...

Amigo, sinceramente você arrancou lágrimas de mim, eu me emocionei profundamente, como músico, como ser humano, e como um fã, não tenho nada a fazer além de lamentar, e isso meu amigo, é siplesmente sublime é único, esta sua sensibilidade de encantar com suas palavras, com esse poder você vai longe meu amigo!
um abraço do Triclonagenados, e lamento muito a nossa perda!

Carlos disse...

Esse clip de Hear N’Aid dá uma boa medida de como o trabalho de Dio influenciou o metal do início dos anos 80:quase todos os vocalistas que aparecem tem um pouco ou muito de seu estilo característico de interpretação. E olha que a maioria dos vocalistas que apareceram ali eram americanos. Na bandas do NWOBHM a influência dele era ainda muito mais evidente.

emerson disse...

ROB... bom dia

PORRA cara, vc me fez chorar( de novo ) por causa do Dio.

Tudo bem, pq me emociono mesmo com aqueles que adoro.

O problema é que estou no trampo...kkkk

Mas valeu cara. Muito Obrigado

Ele era sem dúvida um grande cara... e vc com certeza também é ...

Abraço - Heavy Metal forever.

Hally disse...

Caraca... ando desatualizada mesmo. Sabia que o Dio estava com câncer, mas nem sabia que ele tinha morrido. Soube agora pelo seu texto, e só não chorei por estar no trabalho. Mas cara, que dor imensa, quase insuportável!

"E é justamente por se recusar a ser estrela em vida que sua estrela irá brilhar para sempre. "

Sem mais a acrescentar, até mesmo porque me faltam as palavras...