Não fui à primeira edição do SWU, por diversos motivos – o principal é que não havia nenhuma banda que me interessasse o suficiente para me tirar de São Paulo. Mas este ano foi diferente. Este ano, a vontade começou a surgir quando o nome do Megadeth foi confirmado, e comecei a ficar de olho nas notícias sobre a venda dos ingressos.
Foi quando explodiu a bomba: o Faith No More encerraria o festival. Era tudo o que eu precisava ouvir – e antes de continuarmos eu preciso explicar um pouco minha relação com Faith no More, especialmente com o álbum The Real Thing. E ele permanece como um dos meus discos preferidos de todos os tempos, tanto em termos musicais, mas principalmente, em termos emocionais. Foi um dos discos que marcou muito meus 14, 15 anos. O disco é pesado, experimental, ousado, agressivo – mas, aos meus ouvidos, ele sempre soa doce. Sempre.
E eu nunca havia conseguido assistir a um show do Faith No More. Nem do Megadeth. Oportunidades não faltaram, mas nunca deu certo, por diversos motivos. Era hora de acertar minha dívida com estas duas bandas.
E foi com este espírito que cheguei à Paulínia ontem, ao lado da namorada, de um amigo de longa data, e debaixo de muita chuva. Assim que saímos do carro, vimos que o clima estava mais para Woodstock que para um festival que prega a sustentabilidade. Lama. Lama por todos os lados. Lama a ponto de fazer seu pé afundar, escorregar, grudar no barro.
Felizmente, lá dentro, apesar de tudo molhado, as coisas estavam melhores – mas o sinal de como a noite seria começou antes mesmo de entramos. Ainda no estacionamento, ouvíamos It’s So Easy, do Guns, sendo interpretada pela banda do baixista Duff McKagan. Era a prova cabal de que a noite seria, definitivamente, uma volta ao passado da minha vida.
Isso se comprovou por volta das 21h00min, quando o Megadeth recebeu a primeira grande ovação do dia – até então, as demais bandas haviam sido apenas um passatempo para a multidão, especialmente aqueles que estampavam camisetas pretas com longos das mais diversas bandas.
Slayer. Iron Maiden. Motörhead. Judas Priest. Saxon. Não havia dúvidas: todas as camisetas pretas de Paulínia estavam ali para ver a banda de Dave Mustaine. Ou, melhor dizendo, o próprio Dave Mustaine. Apesar de contar com a presença do baixista David Ellefson, da formação clássica do grupo, o vocalista e guitarrista da banda é o grande atrativo.

Um dos nomes mais respeitados do heavy metal (pela imprensa e pelo público), Mustaine consegue a proeza de se manter fiel à sua habitual mistura de thrash metal e speed metal, fazendo seu som evoluir cada vez mais, sem jamais fazer concessões comerciais, seguindo o caminho oposto aos seus (antigos) inimigos pessoais do Metallica, que hoje se assemelham a um enorme arranha-céu cujas fundações parecem ter sido esquecidas.
Atualmente, o Megadeth faz um som mais verdadeiro, e traz uma atitude de palco muito mais verdadeira. E se você é fã de heavy metal, você sabe a importância disso. Aparentemente, meu coração sabia. Nas primeiras músicas, cantei, aplaudi e pulei como em qualquer outro show.
Mas algo aconteceu.
Eu não sei explicar ao certo o que, mas algo aconteceu. Depois de um ano bastante difícil, ele decidiu que era o momento de exorcizar muita coisa. Muita coisa mesmo. Ali, bem perto do palco, vendo Mustaine solando em velocidades espantosas e cantando com sua voz de vilão de anime, eu deixei de ter 36 anos, e voltei magicamente aos 16.
Não sei ao certo quando aconteceu. Não sei em qual música, em qual solo, mas aconteceu. Foi então que eu fiz algo que não fazia há muitos e muitos anos. A tout le monde, a tout mes amis. Ao invés de apenas cantar e pular, como tenho feito nos últimos anos, abri minhas pernas, finquei os pés no chão e comecei a bater cabeça. Alucinadamente. Hello me, it’s nice talking to myself. Com uma velocidade que eu não sabia mais que tinha. Com uma força que eu sabia que estava escondida em algum lugar dentro de mim. Just like the Pied Piper, led rats through the streets.

Aliás, o termo não era “força”, mas sim “tesão”. Não existe maneira melhor de definir. Peace sells... But who’s buying? Ali, no meio da plateia sem sequer me importar se alguém estava vendo aquele baixinho velho, sem cabelo algum, batendo cabeça alucinadamente, socando o ar e urrando as letras das músicas. Waaaaaaaaaaaage a war... Against organized crime!
Naquele momento, Mustaine estava tocando para mim. Ou melhor, para o menino de 16 anos que ainda mora em mim. E não havia mais ninguém ali. Senti o suor escorrendo pela minha testa conforme minha cabeça dançava sozinha; senti meus punhos se fechando a cada vez que eu socava o ar. Eu sabia que meu pescoço estaria destruído no dia seguinte, mas não me importei.
De repente eu estava no primeiro show de heavy metal da minha vida. De repente, eu me senti como se pudesse começar tudo de novo. Tudo.
Obrigado por isso, Megadeth.
Quando a banda se despediu, eu ainda estava ofegante – e confesso, um pouco surdo, já que a qualidade do áudio era espantosamente boa. Mas de alma lavada, como há muito tempo não me sentia. De repente, eu me senti como se pudesse conquistar qualquer coisa. De repente, depois de muito tempo, eu era eu de novo. Mesmo que por alguns minutos, eu era eu novamente.
E eu não queria deixar de ter 16 anos. Nunca mais. E a receita para isso era apenas uma: me entregar de corpo e alma ao show do Faith No More. E a melhor maneira de fazer isso seria conquistando algo que nunca havia feito na vida: colar o peito na grade. Era algo que eu devia a mim, especialmente depois de tudo que passei nos últimos meses.
Assim, no momento em que o show do Alice in Chains começou no palco oposto, nós três fomos para frente do palco central. Faltavam duas horas para começar o show do Faith No More, e já havia gente ali. Mas conseguimos o que queríamos: lugares na grade. E lá ficamos debaixo de chuva, esperando, pacientemente, que as luzes se apagassem e a banda entrasse no palco.
Quer dizer, “pacientemente” é forma de expressão. Eu simplesmente não conseguia acreditar que estava na grade. 70 mil pessoas no lugar, e eu na grade. Tentava não pensar muito a respeito disso, e agia normalmente, mas me sentia novamente um menino de 16 anos capaz de conquistar o mundo.
E conquistei, quando o show começou. Com os figurinos e a cenografia inspirados em umbanda, o show abriu com a instrumental Woodpeckers from Mars que, logo em seguida, deu lugar a furiosa From Out of Nowhere, de longe a minha música predileta deles.
A banda estava disposta a me ganhar de qualquer forma. Mas confesso que não seria preciso muito esforço. Todos os quatro músicos são fantásticos, mas Mike Patton está em outro patamar. Se, com vinte e poucos anos ele era um vocalista fantástico, hoje ele tem um pé no genial – e isso vale para tudo: presença de palco, voz, interação com a plateia.
Com seu jeito surtado (seja cantando enquanto dança, soca, pula, se agacha, corre; ou fazendo tudo isso enquanto berra, grunhe e rosna das formas mais diferentes possíveis), ele se transforma no show em poucos minutos. Quem dá as cartas é Patton que, me arrisco a dizer, talvez seja o maior vocalista de rock da atualidade.

E começam os clássicos. Last Cup of Sorrow. Midlife Crisis. E eu ali, na grade, vendo tudo acontecendo na minha frente tranquilamente. Isso, claro, até a metade de Easy, quando duas garotas empurraram todo mundo e entraram ao nosso lado, gritando, chacoalhando a cabeça e fazendo questão de mostrar que gostavam mais de Faith no More que qualquer um ali.
Usavam shortinhos, camisetinhas de caveiras com lantejoulas e sapatinhos fofos. Lembram-se do post sobre o show do Eric Clapton, quando eu falei sobre este tipo de gente, e ainda expliquei melhor nos comentários dizendo que “nem todas as meninas que se vestem assim estão num show para aparecer, mas toda menina que está num show para aparecer se veste assim”? Bem, depois de ontem, a promotoria encerra, excelência.
Claro que começou o quebra-pau. Todos ao redor brigando com elas: duas meninas ao nosso lado pareciam dispostas a jogá-las no fosso; eu, do outro lado, usava meu cotovelo como aríete tentando arrombar a caixa torácica da imbecil. Pessoas atrás gritavam com elas. E quando a garota veio tirar satisfações comigo, por causa do cotovelo, seu bafo de cachaça denunciava que não haveria lógica que resolvesse aquilo.
Tentei ignorar e continuar vendo o show, mas, na terceira vez que o cabelo molhado dela explodiu na minha cara, não aguentei.
Eu estava com o nariz entupido, depois de dez horas de chuva, direto. Guarde esta informação que iremos usar em breve. No momento em que ela se virou de costas para mim – chutando o meu pé pela sexta ou sétima vez e fazendo o cabelo explodir novamente na minha cara – dei a maior fungada da vida e...
Bem, você consegue imaginar o resto. Como foi tudo muito rápido, vou descrever apenas o resultado: uma gosma verde no cabelo dela. E ela ali, a trinta centímetros de mim, não percebeu, ficando com seu cabelo catarrado – e eu com a minha alma vingada – até decidir ir embora, três músicas depois.
Infantil? Sim. Grotesco? Com certeza. Mas tem horas que é a melhor coisa que você faz na vida é ligar o foda-se. E eu liguei o meu e não cuspi somente na menina, mas cuspi em muita coisa que passei nos últimos tempos. Cuspi com raiva e desprezo. Cuspi com gosto.
Momentos depois, no meio de uma música, Mike Patton virou-se para o telão e disse: “relax, it’s just a phase”.
Eu sei. Obrigado por isso, Faith no More.
O resto do show transcorreu sem maiores problemas, com um set list que, se não fez jus à primeira metade do espetáculo, passou longe de ser fraco, com grandes clássicos e somente uma grande ausência (We Care a Lot). E, quando a banda se despediu, por volta das 03h30min da manhã, uma das maiores noites da minha vida havia acabado.

E eu continuava com 16 anos.
Quer dizer, a noite ainda não acabara. Com a chuva, dezenas de carros que tentavam sair do estacionamento enlameado começaram a atolar – e isso aconteceu com o nosso. Enquanto tentávamos dar um jeito nisso, ficamos isolados, nós e um grupo de umas quinze pessoas, no meio do mato. Por mim, já nos reuniríamos para discutir estratégias de sobrevivência, pois o cenário era quase igual ao que imagino num apocalipse zumbi. Sim, eu perco bastante tempo da minha vida pensando nisso, e, se você acha isso estranho, lembre-se que eu cuspo nas pessoas.
Enfim, ficamos quase uma hora atolados, sem socorro algum por parte da organização do festival. Roubamos as placas do estacionamento para tentar desatolar os carros, e nada. Até que decidimos nos unir e desatolar os carros no braço, um por um. Enquanto uma pessoa guiava os carros, outras dez ou doze pessoas empurravam o veículo. Éramos uma equipe, mesmo sem saber os nomes uns dos outros.
Em pouco tempo, estávamos livres e no caminho para São Paulo, aonde chegamos por volta das 07h00min. E, ao sair do banho e me deitar, observei minha namorada e me lembrei do dia que tive com ela.
Lembrei-me de que, ao enlouquecer com o som do Megadeth, ela filmou minhas músicas preferidas, sem se importar em namorar um homem de 16 anos, mas sim feliz por ver o namorado feliz. Lembrei-me de afastá-la da menina no show do Faith No More quando ela pegou a imbecil pelo rosto e disse “encoste em mim mais uma vez e você morre”, temendo dar merda de verdade ali no meio - e troquei de lugar com ela, para que ela pudesse ver o show de um lugar melhor.
Lembrei-me de ela ter me falado que “se você não aguentar ficar na grade por causa da multidão, nós escapamos por ali”, sem sequer cogitar em me deixar sozinho e permanecer na grade. Lembrei-me do cuidado que ela tomou comigo na hora da saída, quando tive que tomar remédio por causa da multidão, algo que ainda não sei lidar.
Lembrei-me de todas as risadas que demos entre os shows, de todos os gritos que demos durante os shows, de todas as voltas que demos ou as vezes em que paramos para descasar, com um respeitando o pique do outro.
E lembrei-me dos carros atolados e da farra que fizemos. Quando eu disse acima que dez ou doze pessoas empurravam um carro e outra pessoa guiava, adivinhem quem estava guiando pelo menos uns quatro destes carros, trocando olhares de "amanhã nós vamos rir tanto disso" comigo?
E foi quando eu percebi que, mesmo tendo ido a diversos shows este ano, este foi o nosso primeiro show. Pois eram bandas que adoramos (ela chegou a ir ao Chile somente para ver o Faith No More, tal seu grau de fanatismo), mas também por ser longe de tudo. Longe de São Paulo, longe dos problemas, longe de encheções de saco. Longe de tudo.
E foi deitado na cama e me lembrando disso que eu descobri porque nos damos tão bem: somos dois adultos que sabem ser adolescentes na hora certa, sem colocarmos as responsabilidades e de lado e, principalmente, cuidando e respeitando o jeito de ser do outro.
- Você é a melhor namorada que eu poderia ter, disse a ela.
Ela sorriu e adormeceu.
E, aí sim, no meio deste sorriso, terminou uma das maiores noites da minha vida.
Obrigado por isso, Ana Claudia.