30 de junho de 2011

O Post da Abelha

Foi semana passada. Eu estava no trabalho e, ao acabar algo que eu precisava fazer, me espreguicei na cadeira e resolvi descer para fumar um cigarro. Abri o maço: tinha apenas um.

Ok, vamos descontar o fato de que eu tinha outro maço cheio no bolso da jaqueta. Se você é fumante, sabe que o ultimo cigarro do maço é algo especial. Se você não é fumante – e é bem provável que não seja, já que os consumidores de tabaco são, hoje em dia, a minoria mais desprezada do planeta – vou tentar explicar aqui de forma resumida.

Todos os maços de cigarro contêm dois cigarros diferentes. São fabricados com fumo de altíssima qualidade, cultivado em fazendas na Indonésia – a localização precisa é segredo. O tabaco é plantado por virgens holandesas que correm pelos campos usando somente vestidos brancos e molhados. Após ser colhido, o fumo é tostado cuidadosamente em fornalhas controladas pelos anões que fabricaram as armas místicas dos deuses nórdicos. No último estágio, os cigarros são enrolados num papel especial, umedecido com néctar e aromatizado com chocolate suíço.

Todos os maços de cigarro contêm dois cigarros diferentes: o primeiro e o último. Pergunte a qualquer fumante.

Assim, eu deveria me preparar para fumar o último cigarro do maço da forma mais respeitosa que conseguisse, já que o ritual deve ser respeitado. Se eu estivesse em casa, provavelmente terial apagado as luzes, colocado um smoking e colocado Beethoven para tocar. Mas, no trabalho, meus recursos eram mais escassos.

Fiz o melhor que pude: passei na copa, enchi um baldinho de café e fui para a calçada do prédio, tomando cuidado para não me queimar no caminho, pois descer três lances de escada com um copo de café quente nas mãos não é algo exatamente fácil. Claro que eu poderia procurar uma alternativa mais moderna, mas a última vez que peguei elevador com um copo de café nas mãos as pessoas me olhavam como se eu fosse um imbecil, e tenho certeza de que falaram mal de mim depois que eu desci.

Mas o trajeto ocorreu sem grandes problemas. Cheguei à calçada, me encostei a um murinho próximo à escada e respirei fundo. Era hora. Dei um gole no café, procurando deixar a cafeína mergulhar de forma quase obscena nas minhas papilas gustativas. Acendi o cigarro e dei a primeira tragada, com gosto, paixão e volúpia (e aquele ar de mafioso que todo mundo diz e que não consigo evitar enquanto fumo).

Dei a segunda tragada. O néctar do papel começou a correr pelas minhas veias, como ouro líquido. A fragrância do chocolate invadiu minhas narinas, entorpecendo meu cérebro. Fechei os olhos. Meu cérebro explodiu em luz e cores e eu quase podia sentir o delicado toque das virgens holandesas na minha nuca, me convidando a correr com elas pelos campos.

Eu estava quase fora de mim, levitando de prazer na calçada. Abri os olhos – afinal eu estava na rua, à luz do dia e tem certas coisas que não pega bem você sentir no meio da rua. O poder do nectar no meu sangue se acalmou, e o aroma do chocolate voltou a ser um perfume leve e discreto. Meu cérebro voltou a normal. Mas o toque das virgens, delicado e sensível, continuava acariciando minha nuca. Algo realmente estava tocando em mim.

Coloquei o cigarro nos lábios, levei a mão à nuca e meus dedos apanharam algo. Mas era pequeno demais para ser uma virgem. Claro que na mesma hora eu pensei que “quem sou eu para julgar isso, com a minha altura?”, mas mesmo assim o que eu tinha entre os dedos não parecia ser uma virgem. Na verdade, não parecia ser nem um ser humano.


Aproximei o conteúdo dos olhos para examinar com cuidado, mas não tive tempo. Pouco antes de ver uma enorme mancha preta e amarela fugindo da minha mão, senti uma pontada aguda no dedo.

- Abelha filha da puta!

Pelo que entendi, ela estava na minha nuca colocando um maiô e uma touca, antes de saltar do meu ombro para mergulhar no copo de café. Ou seja, além de folgada, era meio retardada, já que eu tomo meu café puro, sem açúcar. Pensei em expor isso a ela, mas era tarde.

Ela já havia ido embora.

Ou não. Eu ainda estava chupando meu dedo para aliviar a dor, tomando cuidado para não me queimar com o cigarro (porque se algum dia você ouvir falar a respeito de uma pessoa que queimou o olho com um cigarro ao chupar o dedo, entre correndo neste blog, porque certamente fui eu) quando ouvi um zumbido vindo da minha frente. Levantei os olhos e vi a porra do inseto voando na minha direção, fazendo uma curva e assumindo posição de ataque, ao som de A Cavalgada das Valquírias.

Eu não ia entregar meu café sem luta. Assim, coloquei o cigarro entre os lábios para deixar uma das mãos livrei e girei o corpo, protegendo o copo. Sem saber como lidar com meu movimento, ela alterou o curso e manobrou para ficar de frente ao meu rosto, parada no ar, me encarando como se fosse um pistoleiro dos filmes do Sergio Leone.

Foi aí que eu percebi que as manchas em seu rosto deixavam-na parecida com o Darth Maul. Era só o que faltava: eu havia arrumado confusão com uma abelha entregue ao lado Negro. Provavelmente, o nome dela era Darth Mel, mas não me atrevi a perguntar nada – mesmo porque eu não iria conseguir fazer isso sem rir, e ela tinha toda a pinta de que levaria isso para o lado pessoal. Aí sim eu iria me fuder de verde e amarelo. Ou melhor, de amarelo e preto.

Mas era hora de tomar a iniciativa, e não abrir espaço para o ataque. Era minha vez. Segurei o cigarro com força entre os dentes e tomei com o café. A Darth continuava me encarando. Não pensei duas vezes: fechei o punho e dei-lhe um murro na boca, que certamente a jogou do outro lado da rua, nocauteada.

Ou, ao menos, foi o que achei. Antes que eu pudese sair pulando pela calçada, comemorando e gritando que “Yo, Adrian! I did it!”, a porra da abelha já estava de volta.

E, desta vez, visivelmente emputecida.

Não era mais o café. A questão, agora, era pessoal. Cada bater de asas, cada centímetro percorrido no ar e cada zumbido tinham apenas um objetivo: a minha morte. Se aquela conversa sobre o poder dos cavaleiros Sith aumentarem quando eles sentem ódio for verdade, ela estava emputecida de verdade. Eu nunca vi uma abelha voar tão rápido, ziguezagueando em direção certeira aos meus olhos. Se eu pudesse vê-la de perto, aposto que ela estaria com fones de ouvido escutando Seek & Destroy, do Metallica – e seu olhar deixava claro que, no refrão da música, ela era o sujeito da sentença; eu, evidentemente, o objeto direto.

Eu precisava de uma arma. Claro que eu poderia jogar o café quente na cara dela, mas não seria muito esperto – dada às devidas proporções, seria como tentar se livrar de um assalto jogando a carteira no ladrão. Assim, apelei para o único recurso em mãos: o cigarro.

Esperei ela se aproximar e comecei a fumar rapidamente, jogando a fumaça ao redor de mim. Se eu não conseguia matar o bicho na porrada, iria matar asfixiado. Ou, ao menos, deixá-la cega o suficiente para conseguir escapar. Ignorei o aperto que senti no coração por desperdiçar boa parte de um “último cigarro” (néctar, chocolate, virgens) com uma porra de uma abelha, mas paciência. Se eu escapasse vivo dali, novos “últimos cigarros” apareceriam na minha vida.

Em segundos, eu estava rodeado de fumaça. Baixinho, careca e envolto em fumaça. Se alguém estivesse olhando para mim, certamente acharia que o coquetel de lançamento de um DVD do Snoopy estava rolando na calçada, já que eu havia me tornado o Chiqueirinho.

Mas não havia sinal da abelha. Sufocada, cega, não importa. Estava fora de combate. A vitória era minha! Encostei novamente no murinho e dei mais um gole no café, pensando que “adoro o cheiro de nicotina pela manhã”. Mas, antes mesmo de conseguir fumar, comecei a ouvir zumbidos vindos da fumaça. Zumbidos cada vez mais altos.

Ela surgiu de dentro da fumaça, voando a uma velocidade que rompia a barreira do som. Provavelmente, havia aproveitado estes momentos para colocar seu ferrão de adamantium. E, no ferrão, havia um nome escrito. O meu.

Bilhões de insetos no mundo e eu havia arrumado confusão com uma abelha geneticamente alterada e com superpoderes. Ô fase.

Não tive tempo nem de me preparar. Lembram-se dos desenhos do Scooby-Doo, quando os personagens ficavam correndo de um lado para o outro, entrando e saindo de portas num corredor? Bem, foi exatamente isso que aconteceu. A abelha era todos os personagens enquanto eu era o corredor. Ela entrou pelo meu ouvido e saiu pela boca, entrou por uma narina e saiu pelo olho, entrou novamente na boca e saiu pela outra narina, zumbido enfurecidamente a frase “You are beaten! Don’t make me destroy you” durante todo o processo.

Eu?

Eu larguei o café e o cigarro e saí correndo e gritando para dentro do prédio, com a cabeça baixa e sacudindo as mãos ao redor do rosto. Provavelmente, o porteiro deve estar até agora achando que havia algo no meu café e eu estava sofrendo de alucinações e totalmente histérico. Não me importei. Entrei no prédio e subi correndo as escadas de volta para minha mesa.

Não faço ideia de onde eu estava quando o zumbido parou. Acho que próximo ao segundo andar. Ou seja, a abelha ainda está lá. Por isso que eu não uso mais as escadas do prédio, subo e desço de elevador o tempo inteiro, e de preferência acompanhado.

Mas, todo dia de manhã, abro discretamente a porta da escada e deposito, num cantinho, um copo com café e entupido de açúcar, em sinal de respeito.



28 de junho de 2011

O Dia em que o Champ Quase Morreu

Então, doeu no começo. Mas é Beatles, né? Valeu muito a pena, eu sempre quis isso. Se você quiser, eu passo o telefone do cara, ele é bom pra caralho. Eu vou ter que ir lá retocar, você vai comigo. Vamos tomar a saideira? Beleza. Campeão, mais dois aqui! O meu com gelo. Valeu. Então, deixa eu te contar uma coisa. Aconteceu há uns dias. Quer dizer, na verdade quase aconteceu. Bom, não tem como dizer isso de modo fácil. Eu quase apaguei meu blog. Juro. Os blogs, na verdade. Quase apaguei os dois. Foi sábado passado, acho. Não, esse não, o outro, antes do feriado. Eu estava em casa conversando sobre mim, sobre minha vida, e de repente eu perdi o tesão de escrever, sabe? Não, se eu sentasse e tentasse escrever, escreveria. Não era falta de ideia, era falta de vontade. Falta de tesão mesmo. Amigão, o meu é com gelo. Duas pedras. Isso. Valeu. Então, sabe o que é engraçado? Nunca tinha sentido isso, sentido falta de tesão de escrever. De repente, ali, não via mais propósito nisso. E me senti vazio pra caralho, sem isso. É a coisa que eu mais gosto de fazer na vida, mas, de repente... Não sei. De repente, não importava mais, acho. De repente, nada do que eu escrevi ali valia a pena. Não é exagero, me senti vazio demais. Não sei explicar direito. Sabe, eu estou inteiro naqueles dois blogs. Tudo o que sinto está ali. E de repente... Não sei... Acho que hoje eu estou escrevendo para procurar respostas que não existem para algumas perguntas. Porque eu sempre escrevi para me divertir ou para entender as coisas, e estou tentando entender coisas que não serão entendidas. Estou procurando nos textos respostas que não existem... Ou talvez respostas que não sejam minhas. E de repente cansei. Cansei disso. Cara, vamos fumar? Deixa as coisas aí, não tem problema. Mas pega o copo. Campeão? Nós vamos fumar lá fora, vamos deixar a mochila aqui, ok? Valeu! Então... Me senti cansado. Como se nada do que eu tivesse escrito ou feito tivesse valido a pena. Empresta o fogo aí. E de repente eu olhei para o blog... Estava aberto na minha frente, na porra do notebook, e não vi mais nada de especial nele. E disse pra ela que se tivesse coragem, apagaria. Mas não tive. Ia doer pra caralho apagar aquilo, eu sei disso. Então, eu sei que estou vivendo dele hoje, que os frilas estão rolando, tem coisas aparecendo... Mas nem pensei nisso na hora. Estava pensando apenas na forma que eu estava me sentindo. Leitores? Não sei... Mais de quinhentos cadastrados. No Twitter, uns mil. Então, mas sabe o que eu acho? Ok, meu blog é bom, mas é porque ele está no ar. Se eu apagar, em duas semanas, vinte dias, ninguém nem lembra mais dele. Talvez os amigos mais próximos. As pessoas esquecem fácil, ainda mais essas coisas. Acabou o cigarro? Não enrola, meu, está frio demais. Não, mas claro que fiquei feliz de não ter apagado. Ainda bem que ela não deixou, cara. Ainda bem. Mas, cara, vou te falar... Nunca imaginei que eu fosse me sentir tão vazio assim. Não dessa forma. E eu ia apagar tudo. Blogs, twitter, tudo. Mas não apaguei. Termina essa merda de cigarro, vamos entrar. Então, não tive coragem. Foda-se. Mesmo me sentindo dessa forma, aquilo é importante pra caralho pra mim. Tem anos e anos da minha vida ali. E sempre com muita sinceridade. Aliás, neguinho fala que eu escrevo pra caralho. Escrevo pra caralho porra nenhuma, eu sou sincero, só isso. Ok, tenho meia dúzia de piadas no bolso, mas o lance ali é sinceridade. Por isso que eu vejo os leitores como amigos, e acho que vice-versa. Já me falaram que ver meus leitores como amigos é hipocrisia da minha parte. Desculpa, hipocrisia é o caralho. Tem gente ali que quando o comentário bate na caixa de e-mail, eu já sei o que esperar, só de olhar o nome. Eu conheço as pessoas e elas me conhecem, e a gente nunca se viu. E nunca precisei inventar histórias pra isso. Enfim... Eu não apaguei nada. Mas fiquei preocupado com isso. Aquela porra é meu sonho, e de repente estava ali, com cara de cu, e sem vontade de escrever mais. Foi foda. Foi bem foda. Vamos fechar? Então, mas não sei ao certo o que faço. Ele continua ali. Os dois continuam. Eu escrevo nos dois, mas me sinto errado. Como assim? É, talvez seja esse lance de escrever em busca de respostas. Talvez seja isso. Mas, porra, é que aconteceu tanta coisa... Mas talvez seja isso. 60 paus. Caralho. Você paga? Eu pago? Feito. O próximo eu pago. Então, o que você acha que eu faço? Porra, você acha que eu não sinto falta de textos assim? Claro que sinto. Lembra aquele das Carolinas? O da viagem pra Vitória? O do Toddynho? Neguinho adorou aquilo! Eu ria alto escrevendo aquilo! Claro que sinto saudade de escrever isso, mas não me vejo mais assim. Ou não tenho tentado, não sei. Oi? O que a história da abelha tem a ver com isso? Isso foi semana passada, nunca coloquei no blog. Não, é só uma história. É uma porra de uma abelha, mais nada. Não consigo mais, não sei. É... As outras eram somente histórias também, né? Bom, posso tentar. É, acho que é o jeito que eu conto... Talvez seja isso. Eu vou tentar. Cara, e se eu perdi a mão? Sim, eu vi o quanto ela estava rindo enquanto eu contava o negócio da abelha. Mas a questão é que eu não posso escrever essas coisas para... Isso. Isso. Exatamente o que eu ia dizer! O lance é voltar a escrever pra mim, pra achar o tesão de novo. Cara, eu gargalhava com meus textos antes de postar... É isso que precisa rolar de novo. Chega de ficar em busca de respostas pra tudo o que rolou. Você tem razão, preciso me divertir com o blog. Eu sei que esse sempre foi o lance que tornava ele especial. Mas naquela época eu também colocava textos mais reflexivos. Sim, era menos que hoje, eu sei. Traz a máquina do Visa, por favor? Mas você tem razão. É hora de fazer o que eu sei fazer. E os textos mais reflexivos, mais poéticos, sairão na hora certa, e, principalmente, sobre os assuntos certos. Você tem razão, cara. Eu não me perdi, mas cismei com isso e resolvi me procurar em textos. E eu esqueci que sempre estive nos textos. Até mesmo nos mais leves. Ou principalmente nos mais leves. É hora de voltar. Vamos. Como é mesmo a porra da música? Porque eu fui o primeiro e já passou tanto janeiro, mas se todos gostam eu vou voltar. Isso é Raul Seixas, babaca. Enfim, você tem razão. Hora de voltar a brincar no blog. Isso sempre me fez bem. Você tem razão. E todo mundo gosta. Vou tentar. Só espero mesmo que eu não tenha perdido a mão. Mas olha, no Chronicles eu ainda vou falar dessas coisas. Do meu jeito, mas vou. Veado é a puta que pariu, eu gosto pra caralho daquele blog. Enfim, vamos embora, tá tarde pra caralho. Eu vou tentar escrever sobre o lance da abelha, vamos ver o que sai. Ainda não sei como, qual o formato, mas vou tentar. Mas já me animei, sim. O caminho é esse. Aliás, você sabe que eu vou colocar essa nossa conversa no blog, né? Sim, pra marcar isso. Problema seu. Porque eu não quero esquecer isso. Você acabou de me mostrar uma coisa. Eu não quero esquecer nada que está ali. Pelo contrário, eu quero mais. Eu quero o Rob Gordon de volta, cara. Aquele Rob Gordon. Eu sei, é hora de fazer as pazes comigo mesmo. Eu sei. Eu sei disso. Vou tentar. E se eu perdi a mão, você me avisa? Beleza. Beleza, feito. Se cuida.

26 de junho de 2011

Catú

Você nem faz ideia disso, mas esta semana o grande assunto da minha família foi você.

Na verdade, você é o grande assunto desde o dia daquele Brasil X Holanda. Mas, esta semana, algo diferente aconteceu. Eu não estava lá para ver, mas já fiquei sabendo. Todos nós soubemos que, em algum momento desta semana, você apontou o dedo na direção do gatinho da sua avó e disse:

– Catú!

É uma palavra pequena e que nem mesmo faz muito sentido (apesar de ser extremamente gostosa de ser dita), mas que nos ensinou muita coisa. Mais do que provar que você está aprendendo a falar, mostrou a nós que o tempo realmente passa para todo mundo. Até mesmo para você que, por ser tão pequenininho e inocente, sempre havia passado a impressão de desafiar – e vencer – os ponteiros do relógio que insistem em virar.

Porque foi com esta palavrinha que percebemos que já faz meses que você está aqui. Quase um ano, na verdade. E isso foi tempo suficiente para você escolher uma única palavra, “Catú”, que será a primeira de tantas outras que você irá falar na vida.

Logo, você começará a aprender os nossos nomes, os nomes das cores e dos números, os nomes dos seus brinquedinhos. Vai descobrir que tudo ao seu redor tem um nome. Até mesmo você. Com o passar dos anos, você irá se apaixonar por trechos de livros, frases de filmes e versos de músicas.

Assim, você descobrirá palavras novas todos os dias.

Assim, você encontrará as suas próprias palavras.

Exatamente como qualquer pessoa. Exatamente como seu tio.

Você ainda não sabe disso, mas sou apaixonado por palavras. E talvez eu tenha me apaixonado desta forma no momento em que descobri ser impossível viver sem elas. Elas são meu elemento natural. Na verdade, posso dizer que minha vida não são apenas palavras, mas que palavras são a minha vida.

Espero que, se um dia você ler algo que escrevi, sinta orgulho. Mas que este orgulho não seja pela forma que uso as palavras, que não esteja ligado a elas serem bonitas ou ordenadas de forma elegante, mas sim por serem sinceras. Porque eu, seu tio, sou exatamente aquilo que sinto; e o que sinto é exatamente aquilo que escrevo.

Mas não é porque sou apaixonado pelas palavras que isso quer dizer que eu as domine. Aliás, eu não faço questão de dominá-las. Gosto de usá-las, de brincar com elas, até mesmo de me expor por meio delas, mas jamais dominá-las. Mesmo apaixonado por elas, existem momentos nos quais eu acho difícil encontrar a palavra certa. Nem sempre consigo, mas jamais tento forçá-las a se transformarem em algo que elas não são Seria capricho da minha parte.

Sou apaixonado por elas, e o segredo de estar apaixonado é justamente não tentar dominar ou transformar, mas sim (e apenas) querer se entregar.

Sou apaixonado por ela e, por isso, quero dar um conselho a você: jamais se esqueça de que as palavras são algumas das coisas mais importantes da vida. Pense sempre antes de usá-las, e use-as sempre da forma mais verdadeira do mundo.

Porque palavras podem ser fortes. Muito mais fortes e poderosas do que você imagina.

Palavras podem formar poemas, músicas e textos lindos. Mas palavras podem partir um coração e esvaziar a alma de alguém. Palavras podem cativar um sorriso que durará por anos, mas também podem provocar rios de lágrimas. Algumas palavras podem destruir um sonho, enquanto outras acolherão mais que um abraço. Existem palavras duras e palavras macias; existem palavras ásperas e palavras amorosas. Mas elas sempre precisam ser verdadeiras.

Por outro lado, às vezes você descobrirá que as palavras são desnecessárias. Existirão ocasiões em que um abraço, um olhar ou um entrelaçar de dedos dirá mais que qualquer palavra. Às vezes, você descobrirá que elas são insuficientes. Nunca criaram uma palavra para descrever plenamente o amor, a tristeza ou a saudade, por exemplo.

Mas, na maior parte das vezes, as palavras funcionarão muito bem. Use-as com sabedoria e com amor. Cada palavra que você usar precisa ser escolhida com cuidado e carregada de amor, porque não existe nada mais sincero no mundo inteiro que o amor. A sinceridade de suas palavras nada mais é que a consequência da sinceridade que você sente. Seja sincero com você mesmo e suas palavras serão sinceras, sempre.

Pense antes de escolher suas palavras, mas escolha-as sempre com o coração.

Neste exato momento, enquanto escrevo isso, é bem provável que seus melhores amigos e o amor de sua vida estejam aprendendo as suas primeiras palavras. Com o tempo, eles, assim como você, descobrirão outras. E as palavras deles serão tão importantes, na sua vida, quanto as suas próprias.

Com palavras sinceras você se aproximará dos seus amigos e conquistará o amor da sua vida. Com palavras sinceras você confortará seus amigos e cuidará do amor de sua vida. Com palavras sinceras você gargalhará numa mesa de bar com seus amigos e sonhará abraçado com o amor da sua vida.

Com palavras sinceras você será amigo para sempre e amará eternamente.

Com palavras sinceras você será feliz. Com palavras sinceras e carregadas de amor, você será feliz todos os dias, mesmo naqueles em que as derrotas lhe deixarão sem palavras. Afinal, mais que do que serem simples palavras, "amor" e "sinceridade" são a forma correta de usar todas as outras palavras que você descobrir.

Amor e sinceridade: a única regra gramatical que não pode ser ignorada jamais.

Curiosamente, eu, que sou tão apaixonado por palavras, não sei qual foi a primeira que falei. Não faço ideia de qual foi a palavra que deu origem a tudo o que me tornei hoje. Nestes dias, cheguei até mesmo a perguntar para sua a avó, mas ela também não se lembra. Assim, eu posso apenas esperar ter acertado em todas as outras que vieram depois. E saber que fiz o melhor que pude.

Quanto a você... Bem, você ainda não precisa se preocupar com isso. Com o tempo você não apenas encontrará as suas palavras, e, principalmente, descobrirá quais as pessoas que merecerão ouvi-las, e que darão o valor adequado a cada uma elas.

Mas você não precisa pensar nisso agora. Você tem todo o tempo do mundo, exatamente como eu já tive um dia. Mas quero que saiba que a palavrinha que você escolheu para começar tudo isso, estará guardada aqui, neste blog. Para sempre.

“Catú”.

Esta foi só a primeira. Que venham as próximas.


Words are flowing out like endless rain into a paper cup,
They slither while they pass they slip away across the universe.


23 de junho de 2011

Sonhos de Kurosawa Gordon XI

Eu era criança e devia ter por volta de doze anos.

O mundo (ou o Brasil, não sei ao certo) vivia momentos de tensão, com a proximidade de uma guerra. Assim, era bastante difícil conseguir sair de casa, já que a qualquer momento São Paulo poderia ser bombardeada.

Mas eu estava na rua. Havia conseguido permissão da minha mãe e estava andando com meu primo – que agora tinha a mesma idade que eu e não era o meu primo – pela Avenida Rebouças. Mas não podíamos demorar, já que choveria em breve. Lembro-me de olhar para o céu e ver as nuvens se fechando, e pensar que “em breve as chuvas serão radioativas e todos nós iremos morrer”.

Contudo a guerra ainda não havia começado, apesar de ser iminente. Então, andávamos pela calçada, com carros e caminhões passando ao nosso lado, chutando pedras e conversando coisas sem importância. Mas dificilmente meu primo estava ao meu lado; ele estava sempre metros à frente ou metros atrás de mim.

Mas ele estava ao meu lado quando me disse:

- Hoje é aniversário do John Lennon. Nós temos que fazer algo.

Não consigo me recordar se era aniversário ou aniversário da morte do John Lennon, mas fui contra. Disse a ele que deveríamos voltar para casa antes da chuva (ou antes da guerra), mas ele insistiu, dizendo que a data era especial. Assim, entreguei os pontos.

- Ok, mas vamos fazer algo rápido, precisamos voltar para casa. O que você quer fazer?

- Podemos acender uma vela ou colocar uma pedra bonita em algum lugar alto.
Assim, continuamos andando pela avenida procurando uma vela ou uma pedra pelas calçadas, mas não encontrávamos nada. Uma hora, passamos por um posto de gasolina e meu primo, que novamente andava à frente ou atrás de mim, apareceu ao meu lado com uma vela.

- Achei na rua.

Era uma vela de aniversário, daquelas que, ao ser acesa, solta faíscas e estrelinhas. Estava queimada até a metade.

Disse a ele que isso não iria adiantar nada, já que esta vela queima em poucos segundos. Assim, ele saiu procurando nas calçadas ao nosso redor por outra coisa e, após alguns momentos, reapareceu com uma pedra.

Era bonita. Preta, lisa e de formato oval. Mas ainda assim era apenas uma pedra. E foi isso que eu disse a ele. Ele respondeu:

- Mas se colocássemos num lugar bem alto...

- Não, esqueça a pedra.

Olhei ao redor. Do outro lado da avenida, uma padaria estava aberta. Parecia ser bem ruim, minúscula, mas estava lotada. Na mesma hora, entendi que ela estava cheia de gente, pois era um dos poucos lugares abertos. Todos estavam com medo da guerra e o comércio estava fechado. Assim, as pessoas estavam indo àquela padaria para comprar alimentos e estocar em casa.

- Vou até aquela padaria ver se eles têm velas. Enquanto isso, já procure um lugar alto para acendermos isso. Um lugar que seja alto e fácil de subir, porque precisamos voltar para casa.

Tentei entrar na padaria, mas fui impedido por uma mulher enorme, de cerca de 60 anos de idade, que estava saindo, com sacolas, pela porta de entrada. Tentei desviar dela, mas não consegui. Ficamos os dois parados na porta, um de frente para o outro. Foi quando eu vi que ela tinha uma espécie de barba, branca feito neve, abaixo da boca. Olhei com cuidado e vi que era creme. Ela deveria ter tomado café lá dentro.

De repente, eu estava dentro da padaria, que parecia estar em reforma. Apenas uma divisória de madeira, com meio metro de altura, separava as pessoas que entravam daquelas que estavam na fila para pagar. Eu estava com pressa e não poderia pegar aquela fila enorme caso eles não vendessem velas.

Assim, me apoiei na divisória e chamei o funcionário do caixa, que ficava sentado num nível abaixo do chão.

- Vocês têm vela?

- Não sei, porque eu nunca estou aqui na hora que eles abrem a padaria.

- Mas você não pode me olhar aí ao seu redor e me dizer se vocês tem vela para vender?

- Não, não tenho.

Não conseguiríamos fazer nada. Era hora de voltar para casa. A chuva e a guerra iria começar em instantes.

Acordei antes de sair da padaria e falar com meu primo.

20 de junho de 2011

Ilusão

O corredor era escuro e abafado. Ambos estavam encostados em uma das paredes.

– Será que dá?

– É arriscado. Lembra no outro corredor? Já ficaram olhando feio para a gente.

– A gente faz rapidinho.

– Você é louca. Você sabe que não pode.

– Eu sei! Mas a vontade é grande demais para controlar!

– Vai dar merda. Vão expulsar a gente daqui.

– Não importa. Eu quero tentar.

– Você é louca. Você sabe disso, certo?

– Fica de olho, veja se alguém está olhando.

– O que você está fazendo?

– Fica de olho!

– Meu Deus.

– Venha aqui. Fica atrás de mim.

– As pessoas estão olhando!

– Fala baixo. Ninguém vai ver.

– Fecha o casaco! O segurança está vindo.

– Eu falei para você ficar de olho! Será que ele viu?

– Não, acho que não. Vamos embora?

– Não, eu quero agora. Fica de olho.

– Sério...

– Vai. Vai avisando. Posso?

– Pode. Não. Espera. Ele está olhando. Vai. Não.

– Vou ou não?

– Vai. Mas por baixo do casaco mesmo. Vai. Vai.

– Vai um pouco para trás! Você está me esmagando na parede!

– Vai logo!

– Estou tentando!

– Vai! Vai! Não precisa ser a melhor da vida! Vamos acabar logo com isso!

– Quase... Só mais um pouquinho.

– Vai. Vai. Agora. Vai!

– Estou quase conseguindo...

– Vai! Vai logo, está vindo gente!

– Pronto! Pronto! Consegui!

– Fale mais baixo!

– Vamos! Vamos embora.

– Que tal? Gostou?

– Se gostei? Achei ótima!

– Agora, vamos embora antes que dê merda?

– Vamos.

– Fecha esse casaco!

Sim, eu sei que não podia fotografar a exposição.
Sim, a foto é do original.


Nota: Aproveitando, postei no Chronicles um pequeno texto baseado no quadro. Clique aqui para ler.

17 de junho de 2011

Ser (Cliente) ou não Ser?

Já faz algumas semanas que dia sim, dia também, uma menina de uma construtora me liga para fazer uma pesquisa de opinião comigo. Nas primeiras vezes, eu expliquei a ela que não sou cliente. Ela continuou ligando. Esta semana, foram três vezes. Em todas elas, eu expliquei que não sou cliente e que não queria mais ser incomodado.

Hoje ela ligou de novo, pela manhã. E, para azar dela, eu estava com tempo.

- Senhor Gordon?

- Oi.

- Aqui é da construtora XPJ e gostaríamos de fazer uma pesquisa de opinião com o senhor.

- Ok.

- Qual o seu grau de satisfação a respeito da construtora XPJ?

- Mínimo. Na verdade, é o pior possível.

- Entendo. Existe um motivo específico?

- Existe. O motivo é você.

- Como assim, senhor?

- Eu não sou cliente da construtora. Você me liga a cada dois dias querendo fazer a pesquisa e eu explico que não sou cliente. Aparentemente, ou você tem alguma dificuldade em lidar com esta informação, ou não acredita em mim, porque você sempre me liga de volta. Hoje você me ligou de novo e eu decidi responder.

- Senhor...

- Só um minuto. A minha dúvida é a seguinte: se eu estou respondendo a isso, agora eu sou cliente, certo?

- Certo.

- Que bom. Se eu não fosse cliente, eu teria que desligar o telefone. Fico feliz porque podemos continuar conversando. Mas, então, vamos resolver essa sua pesquisa. Sou um cliente insatisfeito.

- Por qual motivo?

- Por causa dessas pesquisas de opinião que vocês fazem. Qual o valor real disso? Porque eu, como cliente, não gostaria que as minhas respostas tivessem o mesmo peso de alguém que não é cliente, como, por exemplo, eu.

- Mas o senhor não é cliente?

- Eu estou respondendo a sua pesquisa. E tudo porque você me ligou. Logo, eu devo ser cliente. Veja bem, eu estou confiando em você aqui, não quero me decepcionar. Então, estou acreditando em você, quando você me diz que sou cliente. E, como cliente, exijo o direito de responder uma pesquisa feita somente com clientes.

- Mas nós ligamos somente para clientes.

- Eu não acredito em você. Por exemplo, eu não sou cliente, mas estou respondendo à pesquisa. Qual a credibilidade disso? Quem garante que eu, como não cliente, não vá responder tudo de sacanagem, para confundir vocês e, de quebra, desvalorizando as respostas que dei como cliente?

- Mas se o senhor não é cliente...

- Se eu não sou cliente, eu não deveria estar respondendo a esta pesquisa. Ou eu sou um cliente insatisfeito e respondo a pesquisa da pior forma possível, ou eu não sou cliente e não respondo a pesquisa. Você escolhe.

- É...

- Não, espere! Tem uma terceira alternativa. Eu posso não ser cliente mas fingir que sou e responder tudo de forma mentirosa. Mas claro que eu não avisaria você disso, porque iria perder a graça. Mas é sempre bom você ficar sabendo que este risco existe.

- O contato do senhor consta no nosso banco de dados de clientes.

- Bom, o nome da sua empresa não consta no meu banco de dados de fornecedores de imóveis. Na verdade, eu nunca havia ouvido falar da sua empresa até você começar a me ligar. Mas agora eu gostei de ser cliente de vocês, quero continuar sendo.

- Que bom.

- Mas ainda assim estou insatisfeito. Por tudo isso que eu disse.

- Entendi.

- Sério? Porque eu me perdi uns dois minutos atrás. Capaz de eu desligar sem saber se eu estava apenas falando com você porque você é insistente, ou se eu realmente comprei um apartamento de vocês e me esqueci.

- Mas o senhor já comprou um apartamento conosco?

- Não. Quer dizer, até onde eu sei, não. Mas, se eu estou respondendo a esta pesquisa, é porque sou cliente. Logo, capaz de eu ter comprado. Aliás, preciso checar isso. Vamos fazer o seguinte... Eu vou desligar e procurar por um apartamento aqui dentro do meu apartamento. Se eu encontrá-lo, é porque sou cliente. Aí eu ligo de volta. Combinado?

- Sim, senhor.

- Obrigado, agora eu me sinto um pouco mais satisfeito como cliente, mesmo não sendo cliente. Até logo.

- Até logo, senhor Gordon.

Desliguei e fiquei cinco minutos rindo. Quando me acalmei, percebi que me enrolei tanto que não conseguia mais saber se era cliente deles ou não. Mas acho que não. Mesmo. Acho.


Your Mother Should Know

- Você precisa mudar algumas coisas em você.

- Eu sei.

- E não porque é errado.

- Não?

- Não. Talvez seja até certo. Aliás, provavelmente é.

Nó.

- Então por que mudar?

- Porque você se machuca desta forma.

- Eu sei.

- Você se machuca demais por causa disso. Você precisa mudar.

- Eu sei. Eu só não sei como fazer isso. Não sei nem como começar.

- Você precisa encontrar um modo.

Dificuldade de respirar.

- Sim, eu sei.

- E você vai conseguir.

- Sabe,eu sempre tive dificuldade em conversar sobre essas coisas com você, mãe.

- Você sabe que eu vou sempre tentar ajudar da forma mais sincera do mundo.

- Sim, eu sei. Não é esse o motivo.

- E qual é?

- Não sei ao certo. Talvez eu não queira que você me veja dessa forma.

Nó apertando.

- Mas não tem motivo para isso.

- Não sei. Talvez eu não goste de você saber que me sinto dessa forma. Talvez seja medo de decepcionar você.

Nó estrangulando.

- Rob?

- Eu.

- Você faz idéia do orgulho que eu sinto por ser mãe de uma pessoa como você?

Foi aí que eu desmoronei.

15 de junho de 2011

In Treatment II

(ou: Porque Minha Psicóloga é a Melhor do Mundo)

- O nosso horário acabou...

- Eu sei.

- Não quer um lenço mesmo?

- Não. Não vai adiantar nada.

- Sabe...

- Diga.

- Saia daqui e vá para sua casa. Abra um uísque, tome um porre e vai dormir.

- Você pode dar um conselho desses?

- Não. Mas não importa. Apenas faça isso.

13 de junho de 2011

With a Big Help From My Friends

Quem acompanha este blog sabe que minha paixão por música vive de fases. Já escrevi sobre isso antes.

No centro de tudo está o heavy metal. Passei boa parte do meu tempo ouvindo Iron Maiden, Judas Priest, Black Sabbath, Metallica. Mas, às vezes, fujo das guitarras distorcidas e durante semanas, mergulho de forma quase obsessiva nas sinfonias de Beethoven, nas letras de Chico Buarque, na guitarra adocicada de Eric Clapton, nos lamentos de Robert Johnson. Mas sempre volto ao heavy metal, o estilo musical que faz com que eu me sinta em casa.

Mas, em todos os momentos da minha vida, não importa o que eu esteja ouvindo, os Beatles estão ao meu redor. Ou, melhor dizendo, ao meu lado.

Eles apareceram na minha vida há mais de vinte anos. Na verdade, acho que eles estão ao meu lado desde que nasci, mas fomos apresentados de verdade pouco antes de eu completar quinze anos, quando comprei meu primeiro cassete deles.

De lá para cá, passaram-se duas décadas e eles continuam ao meu lado, em todas as diferentes fases que vivi – nas boas e nas ruins. Em alguns momentos, apagava a luz do quarto à noite e prestava atenção no que eles tinham para me dizer até cair no sono; em outros, corria para começar a conversar com eles logo que meu dia começava.

O relacionamento que eu tenho com a banda – e especialmente com muitas de suas músicas – vai muito além de admiração, e cai no campo emocional, onde tudo é mais difícil (e menos necessário) de ser explicado.

Talvez (aliás, o correto seria “é provável que”) eu tenha passado mais horas da minha ouvindo Iron Maiden, outra grande e antiga paixão musical que tenho. Já assisti a três shows da banda, conheço a discografia de cor e salteado (incluindo aí ano de lançamento de cada disco e, em alguns casos, a ordem das músicas do álbum). É quase certo dizer que minha banda preferida é Iron, que também acompanha meus passos desde moleque.

Mas não estou falando aqui de gosto musical. John, Paul, George e Ringo não formam a melhor banda que eu ouvi na vida simplesmente porque faz anos que – ao contrário do que acontece com Iron Maiden – não consigo mais enxergar os Beatles como uma banda.

Qualidade musical? Qualquer coisa que eu fale aqui sobre isso seria redundante, pois tudo o que poderia ser afirmado sobre o talento ou a importância dos Beatles (seja como músicos ou como ícones culturais) já foi dito ou falado.

A questão aqui é a importância de Beatles dentro da minha vida.

Tenho toda a discografia deles no meu iPod. Já assisti diversas vezes aos DVDs do Anthology. Faz anos que saboreio com cuidado a biografia escrita pelo Bob Spitz. Não consigo ainda explicar o significado do show do Paul McCartney na minha vida, e – talvez seja coincidência – meu post de maior sucesso no Chronicles é justamente sobre isso.

Meu disco preferido deles muda a cada dia, da mesma forma que meu Beatle preferido. Sou apaixonado por dezenas de músicas (cujos significados mudam conforme eu amadureço) e praticamente obcecado por A Day in the Life, I Am the Walrus e Strawberry Fields Forever – e a cada vez que as escuto, tenho a sensação de que ainda não consigo compreendê-las totalmente, mesmo sabendo de cor a história por trás delas.

Mas existe algo mais importante que isso. Foi ouvindo o que eles me diziam que eu, ao longo dos anos, sorri e chorei, pensei e sonhei. Foi com eles que aprendi muito do que sei sobre amor, sobre paixão, saudade, sofrimento. Ouvindo Beatles me transformei no homem que sou hoje.

Porque Beatles para mim não é música. É um estilo de vida.

E aí chegamos a outro assunto: minha vida de forma geral.

De uns meses para cá, minha vida mudou radicalmente, tanto no campo pessoal quanto no profissional. Não é a primeira vez que isso acontece, e é bem provável que não seja a última.

Por um lado, foi assustador demais. Mudanças de percurso normalmente acontecem em meio às tempestades e, além disso, é difícil ver sua vida mudando totalmente de rumo quando você tem 35 anos e acredita que tudo já está encaminhado.

Contudo, em situações como essa sempre vem um aprendizado. E, como eu mergulhei em Beatles – eu sempre me afogo em Beatles em busca de respostas quando minha vida parece estar fora dos eixos – aprendi algo que eles estão tentando me ensinar desde que eu era adolescente:

Don't carry the world upon your shoulders.


Mais que um verso bonito de uma música cantada em estádios mundo afora, isto era algo que eu precisava ouvir. Ou, fazendo mais um paralelo com a letra, era uma frase que eu precisava deixar entrar no meu coração, para começar a me sentir melhor. Ou melhor ainda, para me entender melhor.

Mais uma vez, foram eles que me salvaram.

E foi em algum momento das últimas semanas que eu percebi que quando as coisas apertam, especialmente no lado emocional, são eles que correm para me socorrer – ou, ao menos, me confortar.

Desta vez, eu precisava agradecer. Assim, semanas atrás, a decisão: no momento em que eu colocasse a mão no meu Fundo de Garantia, iria realizar um sonho que me acompanha desde moleque. Sempre tive esta imagem na cabeça, mas confesso que ela não era a minha prioridade (a “prioridade” em questão está guardada aqui para outro momento).

Semanas atrás, veio a certeza de que era o momento desta imagem. Por tudo o que eles significam para mim, por tudo o que eles fizeram por mim. E também para simbolizar algo que descobri.

Eu não sei onde estarei amanhã. Não sei quem estará ao meu lado ou o que estarei fazendo da vida. Novas mudanças sempre podem acontecer. Mas não importa o que acontecer, a partir de agora eles estarão sempre comigo.

Este texto (contando este parágrafo) tem exatamente 1000 palavras. Como dizem que uma imagem vale mais que 1000 palavras, segue a foto.

Keep walking.


10 de junho de 2011

Café

- Oi.

- Oi, tudo bem?

- Tudo, e você?

- Tudo também.

- Desculpe, mas... Nós nos conhecemos?

- Não, acho que não.

- Quem é você?

- Eu não tenho nome. Ao menos, ainda. E você?

- Eu também não. Na verdade, nem sei como cheguei aqui.

- Eu também. Não lembro onde estava antes, mas, de repente, eu apareci aqui.

- Faz tempo?

- Não, foi quando a gente se encontrou lá em cima. Lá no “oi”.

- Que engraçado.

- Eu acho que sei onde estamos.

- Onde?

- Numa crônica do Rob Gordon.

- Quem?

- Rob Gordon. Ele faz isso às vezes. Ele não sabe o que escrever, então começa a digitar um diálogo ao acaso.

- Assim, sem planejamento? Sem pensar em nada?

- Sim. Ele apenas coloca duas pessoas conversando e vê o que sai disso. Eu já tinha ouvido falar que ele faz isso.

- Que bizarro. Como ele pode escrever um texto sem assunto?

- Parece que ele acha o assunto no meio do caminho. Ou descobre o assunto.

- Descobre?

- Sim, há quem diga que o assunto de uma crônica está nela desde a primeira linha. Basta o escritor descobrir.

- Qual será o nosso assunto?

- Não faço ideia.

- E por que diálogos?

- Não sei também. Talvez sejam mais leves. Ou talvez ele esteja precisando conversar com alguém, e invente uma conversa.

- Não é mais fácil mandar um e-mail para a pessoa que ele quer conversar?

- Às vezes nem é uma pessoa específica. Ele quer apenas conversar.

- Será que é isso?

- Bom, se o caso for conversar com uma pessoa específica, talvez seja melhor perguntarmos para a psicóloga dele. Ela deve saber quem é e o que ele quer dizer. Mas duvido que ela apareça por aqui. Ele guarda a psicóloga para outros textos, somente com ele e ela.

- Sim, ele jamais teria coragem de colocar eu, você ou qualquer outro personagem junto com a psicóloga dele. Nós sabemos muito sobre ele.

- Você sentiu isso?

- O quê?

- Um pequeno tremor. E um vento.

- Senti.

- Eu acho que sei o que foi isso.

- Diga.

- Ele estava escrevendo este texto para colocar no Chronicles. Mas, como começamos a falar dele, ele mudou de ideia e resolveu colocar no Champ.

- Sério?

- Sim. Nós deixamos oficialmente de ser ficção e nos tornamos parte do Rob Gordon. Eu sou uma parte, você é outra.

- Isso está ficando complexo demais. Bom, pelo menos o papo está fluindo.

- Sim, ele escreve diálogos de forma muita rápida. Sempre fez isso.

- Mas é meio pobrinho, né? Não tem uma descrição do cenário, nós não temos nomes...

- Mas a ideia é essa. Se nós somos parte dele, ele não quer que ninguém saiba quais partes somos. Não quer que ninguém que leia isso saiba também.

- E se nós formos outras pessoas da vida dele? Por exemplo, quem garante que eu não sou ele e você é alguém de quem ele sente saudade?

- E ele estaria escrevendo isso apenas para se sentir perto da pessoa?

- Exato.

- Talvez. Faz sentido. Mas duvido que ele admita isso aqui.

- Impressionante como ele escreve isso rápido mesmo. Não sei como isso vai ficar no blog, mas, no Word, já estamos na terceira página.

- Sim. Ele escreve diálogos absurdamente rápidos. Mas ele tem um truque.

- Qual?

- Não posso falar. Ele está olhando.

- Espera, o que é aquilo que apareceu lá em cima. Café?

- É o título. Ele não tinha pensado num título ainda.

- Mas porque Café? Não tem café aqui.

- Olha para trás de você. Para fora do monitor.

- O quê?

- Aquele copo ao lado do teclado. É café.

- Não estou vendo.

- Ali, à sua esquerda.

- ah, vi! Por isso chama Café?

- Sim, ele está escrevendo este diálogo enquanto toma café. Para começar o dia.

- Que absurdo. Eu demoraria horas para fazer isso, e ele faz enquanto toma café.

- Sim, como eu disse, ele tem um truque. Mas não posso dizer aqui. Ele me mataria, ou pior ainda, desistiria de publicar o texto.

- Será?

- Claro. Ele jamais contaria o truque dele para escrever diálogos tão rapidamente assim.

- Mas é engraçado isso... Essa necessidade de fazer diálogos que ele sente.

- Coisa dele. Ih... Acabou o café.

- Sério?

- Sim, olha o copo vazio ali.

- Ou seja...

- Melhor nos despedirmos.

- Será que ele não nos dá mais uns minutos de vida? E encerra o diálogo enquanto fuma?

- Não, ele está num lugar em que não pode fumar. Ele vai ter que se levantar. E duvido que ele deixe este texto para finalizar depois.

- Pior que ele quer fumar, olha como ele esta digitando mais rápido.

- Será que a pessoa para quem ele escreveu este texto vai ler?

- Não sei. Será que ele escreveu para alguma pessoa? Ou para ele mesmo, para ligar o cérebro?

- Boa pergunta. Aliás, será que nós vamos ser publicados?

- Tenho certeza. Se ele não fosse publicar, teríamos sido abandonados no momento em que começamos a falar dele, de saudade, da terapia. Ao invés disso, ele decidiu nos colocar no Champ. O tremor, lembra?

- Sim.

- O que foi isso?

- Ele abriu a janela do Blogger. Nós vamos ser postados.

- Ele está logando.

- Qual será a sensação de ser publicado?

- Não faço ideia. Nunca passei por isso antes.

- O QUE FOI ISSO?

- Entramos no blog. Ele estava copiando o texto para cá.

- Nem acredito que vou ser publicado.

- Parabéns, você merece. E eu também. Ele gostou do nosso diálogo.

- Mas o diálogo não é nosso. É dele.

- Até ele colocar no blog. No momento em que ele nos colocou aqui, nos tornamos pessoas reais, mesmo sem nome. Deixamos de existir na cabeça dele e ganhamos vida.

- Que demais esse negio de escrever, né?

- Negio?

- Ne-gó-cio. Desculpe, este pedaço ele já está digitando na janela do Blogger, e ele odeia isso. Ele prefere o Word.

- Agora ele colocou o título lá em cima e pegou o maço de cigarros.

- Sim, é a nossa deixa. Arrume seu cabelo que nós estamos indo para o ar.

- Será que as pessoas vão gostar de nós?

- Não faço ideia. Ele aparentemente gostou. É um começo.

- Antes de irmos, quero que saiba que adorei isso. Adorei conversar com você e adorei ser o passatempo dele durante o café.

- Eu também. Olhe, ele está colocando as tags. Chegou a hora.

- Vamos?

- Vamos.

- Boa sorte.

- Para você também.

7 de junho de 2011

Carta Aberta a Minha Primeira Namorada

Oi, tudo bem?

Faz tanto tempo que não nos vemos... Não sei exatamente quantos anos, mas calculei que deve estar perto de duas décadas.

Que idades nós tínhamos quando namoramos? Eu me lembro de ter dezesseis para dezessete... Você deveria ter quinze. Hoje, eu estou com 35. Passou tudo tão rápido... A última vez que tive notícias suas, fiquei sabendo que você havia se formado em Biologia, estava casada e indo viajar para a Europa. Enfim, espero que tudo esteja bem.

Mas estou escrevendo esta carta porque tenho pensado bastante em você, e senti saudade. E, como o Dia dos Namorados é neste final de semana, resolvi aproveitar para escrever e lhe dar um presente, que jamais poderia ter lhe dado quando estávamos namorando.

Fiquei com vontade de dar a você o homem que me tornei. Porque acho que você ficaria orgulhosa de mim.

Muito do que eu sou hoje, você viu nascer. São pequenas coisas que aprendi com você e com seu amor, que estão todos os dias em mim. E são graças a elas que, mesmo errando às vezes, eu ainda tenho a mesma vontade de acertar. Da mesma forma que acertei com você.

Hoje, sei que amei você como amaria todas as outras vezes na minha vida: para sempre. É a única forma que conheço, e aprendi com você. Sempre que estou apaixonado, me torno aquele mesmo menino de dezesseis anos que se sentia brilhando ao seu lado e cujo coração disparava no momento em que você segurava minha mão ou me abraçava escondendo a cabeça no meu peito.

Lembra do menino que você namorou? Ele ainda esta aqui. Ele trabalha, paga as contas, cresceu e virou homem. Mas um homem de dezesseis anos.

Sorrio de amor e choro de saudade o tempo todo. Morro de paixão, sem tentar disfarçar. Escrevo cartas e poemas, apenas pela sensação de estar perto da pessoa que amo enquanto escrevo. Às vezes, coloco a música preferida da pessoa apenas para fingir que ela está em casa e vai aparecer do meu lado a qualquer minuto. E ainda desejo “boa noite e dorme bem”, baixinho na cama, antes de dormir, mesmo quando durmo sozinho.

Graças a você, me tornei um homem que ama como se tivesse dezesseis anos. Resolvo problemas e toco minha vida da forma mais madura que conheço, mas amo e me apaixono como se ainda fosse um adolescente. Como se fosse de novo a primeira vez.

Ainda faço tudo isso da mesma forma que eu fazia vinte anos atrás, com você.

E, da mesma forma que fazia com você, eu peço para a pessoa não ir embora nunca, porque quero que cada momento com ela seja para sempre. E, mesmo triste depois do beijo de despedida, volto para casa com vontade de pular pelas calçadas, de cantar alto. Engraçado isso... Quando estamos apaixonados, queremos dançar até quando estamos tristes.

Mas, quando estou com a pessoa, explodo de felicidade. Ainda tiro a pessoa que amo para dançar no meio da rua, pois quero que o mundo inteiro veja como ela fica dançando. Cubro de beijos e protejo em abraços, e canto baixinho no ouvido dela, jurando que eu vou amar para sempre.

Porque quando a gente ama de verdade, é para sempre.

Graças a você descobri que amo a sensação de estar apaixonado.

Ela me faz forte e me faz doce, me faz grande e me faz frágil. Ela me faz completo comigo mesmo e nada sem você. Apaixonado, vejo o mundo com os outros olhos, descubro cores e formas que não existem normalmente. Leio o nome da pessoa escrito ao meu redor, sinto o perfume dela a cada vez que respiro, e fique procurando a mão dela dentro da minha, enquanto caminho sozinho.

Este é meu presente. Gostaria que você soubesse que você me transformou nisso. Pois foi com você, meu Primeiro Amor, que descobri que, quando estamos apaixonados, todos os beijos são os primeiros e cada abraço é eterno.

Graças a você que, sempre que me apaixono, ainda me transformo no mesmo menino de dezesseis anos que você namorou. Quando estou apaixonado, ainda tenho aquele sorriso de quem está aprontando algo, ainda tenho aquele brilho de criança no olhar, e me sinto preso num fim de tarde morno, daqueles de primavera.

Talvez com dezesseis anos não exista outro modo de se apaixonar. Mas, para mim, até hoje não existe outro modo.

Você ficaria orgulhosa de mim. Mas quero que sinta orgulho de você mesma.

Este é meu presente de Dia dos Namorados para você: que você saiba que, quando brincávamos dizendo que ficaríamos juntos para sempre, você nem imaginava que isso me tornaria eterno. Um eterno homem de dezesseis anos, um eterno menino que ama.

Um menino de dezesseis anos que morreria por amor todos os dias, depois que aprendeu, desde que segurou sua mão pela primeira vez, que não existe nada melhor que viver por amor. E ter me transformado neste menino foi o melhor presente que você poderia ter me dado.

Feliz Dia dos Namorados.

Rob.


Fiz esse texto a convite de O Boticário, que encontrou outras formas de celebrar o amor no Dia dos Namorados, com este site e esta página no Facebook.


1 de junho de 2011

Nasceu! [2]

“E se tentássemos Blues?
Daqueles antigos e empoeirados,
que ninguém ouve mais?”




Foi meses atrás, poucos dias após o lançamento do Anônimos e Urbanos.

Eu ainda estava totalmente mergulhado na publicação do livro. Minha vida, á época, era bastante diferente de hoje. Eu ainda trabalhava dentro de uma redação e era lá de dentro que eu divulgava o livro, conversava com leitores e dava entrevistas para outros sites e blogs. Tudo isso enquanto trabalhava.

E foi nesta época que um leitor falou, no Twitter, que muitos dos meus textos (especialmente os do Chronicles) eram bastante parecidos com o trabalho que o Mario Cau fazia com sua série Pieces.

Olhem, se um dia este texto for publicado numa edição luxuosa e com capa dura, daquelas vendidas na seção de arte das livrarias, prometo que serei mais elegante na introdução e escreverei nesta parte do texto, que “aquilo certamente foi um sinal, pois eu e o Mário já havíamos conversado diversas vezes e sempre tínhamos pensado em fazer algo junto”. Mas, como estamos entre amigos, eu posso ser sincero: eu não conhecia nem o Mário nem o Pieces.

Assim, fui atrás para conferir. E fiquei meio chocado com o que vi. Como alguém podia comparar o que eu escrevia com aquilo?

Basicamente, eu me via apenas como alguém que estava brincando de escrever – e ainda me vejo assim a maior parte do tempo – enquanto o Mario estava criando mundos inteiros, habitados por personagens absurdamente reais e desenhados de uma forma que me fazia ficar admirando cada detalhe a ponto do meu cérebro se esquecer de ir para o quadrinho seguinte (este trecho ficou bonito e vou usá-lo também na introdução do livro, daqui a alguns anos, mas esta parte é verdade, juro).

Ganhei meu dia.

Mas o dia ainda não havia terminado. Logo depois, vi o Mario Cau falando (também no Twitter) que conhecia meu trabalho e havia acabado de comprar o livro. Neste momento eu desliguei o computador e fui para casa dormir, com medo de estragar o resto do dia.

Claro que começamos a conversar em algum momento das semanas seguintes. E claro que a ideia de produzirmos algo em parceria surgiu cinco minutos depois. E o Mário já tinha até mesmo tudo pronto dentro da sua cabeça: a história de um jovem comum e parecido com qualquer jovem de uma grande cidade (basicamente, um “anônimo e urbano”), que leva uma vida perfeita, com família, namorada e faculdade, a não ser por um detalhe: ele não se sente feliz e discute todos os aspectos de sua rotina com um terapeuta, em busca de respostas para perguntas que ele nem sabe ao certo quais são.

O nome não poderia ser mais direto: Terapia.

A ideia era um projeto que o Mario estava começando a desenvolver com a Marina para o site Petisco, que publica séries de quadrinhos com atualizações semanais. Quase um misto de quadrinhos com novelas. E eles estavam começando a desenvolver isso quando entrei. Ou seja, o projeto já existia quando eu apareci. Eu fui um mero intruso, entrando de bicão. Mas ao menos tive a delicadeza de entrar ainda no comecinho da festa, e pedindo licença para todos. E tive a delicadeza, também, de avisar o Mário:

– Eu nunca escrevi uma história em quadrinhos na vida.

E era verdade. Eu aprendi a ler com quadrinhos, passei boa parte da minha vida lendo HQs, mas nunca havia escrito uma. Já havia sonhado diversas vezes com isso, mas nunca havia feito. E não fazia sequer ideia da mecânica da coisa, de como era o processo de trabalho.

E, mais importante, eu nunca havia escrito algo para o blog em parceria com alguém. Sempre sentado e sozinho, sempre comigo mesmo. Como eu disse acima, brincando de escrever. E, quando o Mario respondeu algo como “não temos regras, vamos escrevendo” eu vi que estava em casa.

A partir daí, começaram as trocas de e-mails e de ideias. Mas a coisa começou a fluir de verdade em dois momentos.

O primeiro foi quando emperramos em um problema. Precisávamos de uma válvula de escape para o jovem, algo que o tornasse único e que fosse sua grande comunicação com o mundo. E nada parecia legal.

Assim, aproveitei que estava numa fase em que ouvia blues o dia inteiro, me identificando cada vez mais com as letras das músicas, e sugeri a frase que abre este post. O blues o tornaria diferente de todos ao seu redor e faria sua intensidade e sensibilidade ganharem sentido. Porque uma pessoa que ouve blues pode não ser sensível, mas uma pessoa sensível cedo ou tarde se apaixona por blues. Com o blues, as páginas ganharam mais vida. Mais emoção. E começaram a fluir, já que o blues encaixou tudo o que ele sentia. O blues se tornou não a trilha da história, mas o clima - quem gosta de blues sabe que isso é possível.

A partir daí, a coisa decolou de verdade, ganhando mais forma ainda quando passei uma tarde inteira tomando com café com a Marina e escrevendo, dissecando o personagem.

A Marina, aliás, é o nosso contato com a realidade. Além de escrever, ela estuda psicologia, o que transforma o nosso segundo personagem mais importante – o terapeuta – em um terapeuta de verdade. Sem ela, a história teria se encerrado depois das primeiras páginas, pois nosso terapeuta já teria seu diploma caçado.

Nesta tarde, eu e ela mergulhamos fundo na história do garoto, montando boa parte do seu passado, tentando entender seus problemas. E, em alguns momentos, eu precisava sair do café para fumar um cigarro e sentia um pouco de pena do garoto. Mas, ao mesmo tempo, eu sentia amor por ele e queria ver ele se sair bem, pois a melhor coisa de brincar de escrever é se apaixonar pelo personagem.

Não sei se ele vai se sair bem. Nós estamos desenvolvendo a história conforme ela acontece e ainda não sabemos como ela vai acabar (sim, já temos muitas páginas escritas, mas estão bem guardadas aqui, na mesa da Marina ou na prancheta do Mário).

Mas tomara que ele, em algum momento, tenha a mesma sensação que tive ao abrir o e-mail algumas semanas atrás e encontrar as primeiras páginas finalizadas e me fez gritar que:

– Cara, eu estou escrevendo uma história em quadrinhos!

Poucas vezes fiquei tão orgulhoso de ver o resultado de algo em participei. Às vezes, eu nem me lembrava de que isso seria publicado e que as pessoas iriam ler. Mesmo com o Mario e com a Marina ao lado, eu, até uns dias atrás, estava fazendo aquilo para mim, sem pensar se vai fazer sucesso ou não. Era um sonho de moleque.

Tomara que o menino encontre esta sensação em pelo menos algumas páginas.

E tomara que vocês também. Tomara que, assim como nós três, vocês se apaixonem por ele, pelo seu mundo, pelos seus problemas – e por suas músicas. Porque ele vai ficar por aí por bastante tempo.

E agora é hora de mostrar a vocês a mecânica da coisa – afinal, não vou fazer o trabalho sujo sozinho. Se eu tive que aprender a escrever quadrinhos, vocês terão que aprender a ler uma webcomic.

Terapia será publicado no Petisco, site que traz outras séries semanais de quadrinhos. Especialmente hoje, por ser o dia do lançamento, a seção Terapia (clique aqui ou no banner lá em cima) ganhará três páginas (enquanto escrevo isso, duas já estão lá). A partir daí, uma nova página será publicada toda quarta-feira, aos poucos formando arcos fechados e apresentando muitos dilemas – e algumas soluções – para o nosso personagem.

Assim, semana a semana, queremos que vocês entrem cada vez mais no mundo deste menino, acompanhando suas dúvidas, paixões e questionamentos. Ouvindo blues, mas ouvindo rock, ouvindo MPB. Nós escolhemos o blues para escrever, mas você pode (e deve) escolher a sua trilha para ler.

E queremos a resposta de vocês a tudo isso. Assim, comentem na página do Petisco, espalhem para os amigos e no Twitter. Como sempre, peço a ajuda dos blogueiros amigos na divulgação. Entrevistas? Informações adicionais? Indicações de discos de blues antigos? Basta gritar no email lá na barra superior do blog. Imagens das páginas ainda não publicadas? Não, nem perca seu tempo, o Mário me mata. Melhor até mudar de assunto antes que ele veja isso.

Mas antes de tudo: queremos que leia. Queremos que leia e conheça um pouco mais do rapaz que criamos. Porque esta história tem um pouco de nós três, mas, como alguém que brincar de escrever, quero que ela tenha um pouco de você também. E posso falar isso também em nome do Mario e da Marina. Afinal, nossa ideia nunca foi transformar a HQ em nossas próprias sessões de terapia – muito menos fazer isso com vocês.

Nossa intenção foi, antes de tudo, criar uma história que valesse a pena ser contada.

Pois não existe melhor maneira de compreender a vida do que contando histórias, algo que estou tendo a honra de fazer ao lado de duas pessoas fantásticas. Algo que estou tendo a honra de fazer para vocês, mais uma vez. E agora com imagens.

E, caso em alguma página o seu cérebro fique admirando um único quadrinho e se esquecendo de pular para o seguinte, não se preocupe.

Aconteceu comigo também.