17 de junho de 2011

Ser (Cliente) ou não Ser?

Já faz algumas semanas que dia sim, dia também, uma menina de uma construtora me liga para fazer uma pesquisa de opinião comigo. Nas primeiras vezes, eu expliquei a ela que não sou cliente. Ela continuou ligando. Esta semana, foram três vezes. Em todas elas, eu expliquei que não sou cliente e que não queria mais ser incomodado.

Hoje ela ligou de novo, pela manhã. E, para azar dela, eu estava com tempo.

- Senhor Gordon?

- Oi.

- Aqui é da construtora XPJ e gostaríamos de fazer uma pesquisa de opinião com o senhor.

- Ok.

- Qual o seu grau de satisfação a respeito da construtora XPJ?

- Mínimo. Na verdade, é o pior possível.

- Entendo. Existe um motivo específico?

- Existe. O motivo é você.

- Como assim, senhor?

- Eu não sou cliente da construtora. Você me liga a cada dois dias querendo fazer a pesquisa e eu explico que não sou cliente. Aparentemente, ou você tem alguma dificuldade em lidar com esta informação, ou não acredita em mim, porque você sempre me liga de volta. Hoje você me ligou de novo e eu decidi responder.

- Senhor...

- Só um minuto. A minha dúvida é a seguinte: se eu estou respondendo a isso, agora eu sou cliente, certo?

- Certo.

- Que bom. Se eu não fosse cliente, eu teria que desligar o telefone. Fico feliz porque podemos continuar conversando. Mas, então, vamos resolver essa sua pesquisa. Sou um cliente insatisfeito.

- Por qual motivo?

- Por causa dessas pesquisas de opinião que vocês fazem. Qual o valor real disso? Porque eu, como cliente, não gostaria que as minhas respostas tivessem o mesmo peso de alguém que não é cliente, como, por exemplo, eu.

- Mas o senhor não é cliente?

- Eu estou respondendo a sua pesquisa. E tudo porque você me ligou. Logo, eu devo ser cliente. Veja bem, eu estou confiando em você aqui, não quero me decepcionar. Então, estou acreditando em você, quando você me diz que sou cliente. E, como cliente, exijo o direito de responder uma pesquisa feita somente com clientes.

- Mas nós ligamos somente para clientes.

- Eu não acredito em você. Por exemplo, eu não sou cliente, mas estou respondendo à pesquisa. Qual a credibilidade disso? Quem garante que eu, como não cliente, não vá responder tudo de sacanagem, para confundir vocês e, de quebra, desvalorizando as respostas que dei como cliente?

- Mas se o senhor não é cliente...

- Se eu não sou cliente, eu não deveria estar respondendo a esta pesquisa. Ou eu sou um cliente insatisfeito e respondo a pesquisa da pior forma possível, ou eu não sou cliente e não respondo a pesquisa. Você escolhe.

- É...

- Não, espere! Tem uma terceira alternativa. Eu posso não ser cliente mas fingir que sou e responder tudo de forma mentirosa. Mas claro que eu não avisaria você disso, porque iria perder a graça. Mas é sempre bom você ficar sabendo que este risco existe.

- O contato do senhor consta no nosso banco de dados de clientes.

- Bom, o nome da sua empresa não consta no meu banco de dados de fornecedores de imóveis. Na verdade, eu nunca havia ouvido falar da sua empresa até você começar a me ligar. Mas agora eu gostei de ser cliente de vocês, quero continuar sendo.

- Que bom.

- Mas ainda assim estou insatisfeito. Por tudo isso que eu disse.

- Entendi.

- Sério? Porque eu me perdi uns dois minutos atrás. Capaz de eu desligar sem saber se eu estava apenas falando com você porque você é insistente, ou se eu realmente comprei um apartamento de vocês e me esqueci.

- Mas o senhor já comprou um apartamento conosco?

- Não. Quer dizer, até onde eu sei, não. Mas, se eu estou respondendo a esta pesquisa, é porque sou cliente. Logo, capaz de eu ter comprado. Aliás, preciso checar isso. Vamos fazer o seguinte... Eu vou desligar e procurar por um apartamento aqui dentro do meu apartamento. Se eu encontrá-lo, é porque sou cliente. Aí eu ligo de volta. Combinado?

- Sim, senhor.

- Obrigado, agora eu me sinto um pouco mais satisfeito como cliente, mesmo não sendo cliente. Até logo.

- Até logo, senhor Gordon.

Desliguei e fiquei cinco minutos rindo. Quando me acalmei, percebi que me enrolei tanto que não conseguia mais saber se era cliente deles ou não. Mas acho que não. Mesmo. Acho.


17 comentários:

Filipe Ribeiro disse...

Eu me perdi lá no "Mas o senhor não é cliente?"...

André hp disse...

Genial, como sempre!

IsabelVeronica disse...

Meu Deus!
Que confusão. Depois desta não sei nem quem EU sou!

Hally disse...

Será que eu sou cliente? O.o

Hahahahahahaha, tava sentindo muita falta do teu relacionamento com o telemarketing!

C N disse...

Inspirador! Um dia desses quando uma dessas empresas que eu nunca ouvi falar ligar me pedindo para fazer atualização do cadastro irei fazer

Lilian disse...

Palhaço. HAHAHAHAHAHAHAH

(Eu queria ter esse seu sangue frio com atendentes. Nunca consigo pensar nessas coisas.)

Varotto disse...

Cara, você já escutou aquele CD que eu te dei?

Você tem de ser contratado para fazer um trio com os caras.

P.S.: Para quem não quiser ficar boiando no que eu falei, o CD é este aqui:

http://www.guitar.com/articles/favored-nations-release-terrorizing-telemarketers-vol-5

Wi disse...

hahahahaha

Vc pode criar uma empresa de consultoria em melhores respostas para atendentes idiotas.
Ia ficar rico, porque, se a gente não consegue se livrar desse povo, que pelo menos dê pra rir da cara deles. :P

Elise disse...

"Vamos fazer o seguinte... Eu vou desligar e procurar por um apartamento aqui dentro do meu apartamento. Se eu encontrá-lo, é porque sou cliente."

Melhor resposta EVER! Minha mãe até se assustou, perguntando do que é que eu ria tanto!
Hahahahaha genial, genial!

.a que congemina disse...

AAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA!


Sabe qual a maior graça de tudo pra mim? Imaginar a cara da moça.


Mas, e aí, achou um apartamento dentro do seu apartamento?

Lunnafe disse...

Muito bom!!! Queria ter uns RobGordonFellings desse de vez em quando pra responder a alguns telefonemas de ansos como esse aí.

Mas ,olha, se vocÊ achar um apto dentro do seu apartamento, me avisa que eu quero um igual! ;D

Tyler Bazz disse...

Cara, da última vez que eu fui aí, eu vi algo parecido com um apartamento. Não lembro se atrás do sofá ou se perto ali da prateleira de cds.

OBVIAMENTE seu cachorro demoníaco tem algo a ver com isso. Eu teria cuidado.

Nelson disse...

Meus pais foram embora de São Paulo em outubro. Obviamente, o telemarketing quando liga pra eles é avisado que eles não moram mais aqui e não, eu não vou passar o número de contato deles.
Mas teve uma exceção, que era um caso de uma dívida da minha mãe, e ela me pediu que eu passasse o telefone certo pra mulher.

Depois de uma semana a tal da Cintia me ligando 3 vezes por dia (ela estando em posse do telefone certo, obviamente), eu estourei:
- Moça, eu já te passei o telefone certo mais de 10 vezes.
- Mas eu liguei lá agora e ninguém atende.
- Engraçado. Eu liguei também e atenderam. Pq vc não tenta de novo? Quem sabe dessa vez você tem a competência de discar o DDD e eles atendem?
- Senhor, o senhor será processado por desacato à autoridade.
- Hã. E qual autoridade você é?
- Desculpe senhor?
- Bom, eu pensei que você, como aspirante a advogada deve saber que desacato só se aplica a autoridades legitimadas. Eu quero saber que autoridade você é, pq por lei você já deveria ter se identificado.
*caiu a linha*

Eu adoria ter o seu bom humor Rob. Seria mais divertido e menos estressante.

Pri disse...

Será?? Será que o Rob comprou um ap e esqueceu devido a idade avançada?? rsrsrsrs

Dee disse...

"- Entendi.
- Sério? Porque eu me perdi uns dois minutos atrás."

HAHAHAHAHAHA, muito bom. Dei uma crise de riso nessa parte e quase engasguei. :P

Jacques disse...

Ótimo texto.
Mas esse pessoal que faz estas ligações malditas é assim mesmo, você tira o tempo deles o tempo inteiro (trocadilho involuntário, foi mal) e eles nem percebem...
Até a próxima.

G7 disse...

Pense na limitação da caixa encefálica dessa ameba que te ligou. Voce abusou... Para alguem despreparado para qualquer coisa fora do script, a vida desse ser deve ter se tornado uma eterna tela azul.