30 de novembro de 2011

5 Músicas do Coração


No momento em que eu recebi as pautas dos próximos textos para esta página, o tema deste post já me deixou preocupado. Como elencar um “Top 5 de músicas para animar o dia” depois de décadas ouvindo música apaixonadamente? Tarefa impossível, especialmente porque acredito que a mesma música nunca soa da mesma forma quando ouvida mais de uma vez – afinal, isso depende muito de como estamos nos sentindo naquele momento.

Foi justamente aí que tive a resposta: o ideal seria eu fazer o meu Top 5 baseado no que está na minha playlist atual, sem ordem específica.

É claro que algumas das músicas listadas abaixo estão gravadas em pedra na minha vida, enquanto outras vêm sendo tocadas à exaustão, e daqui a um tempo serão colocadas de lado, até serem “descobertas” novamente. Mas todas elas fazem parte da minha vida – e, consequentemente, do meu dia – de forma muito importante.

(leia mais aqui)

29 de novembro de 2011

Top 5 - #TerapiaHQ

Com tudo o que aconteceu este ano, o tempo voou.

Assim, de repente eu acordo um dia e percebo que estou começando a escrever o terceiro arco (ou capítulo, como queiram) de Terapia, a HQ que desenvolvo junto com os ilustres @yellowsubmarina e @mariocau. Terceiro arco. Ou seja, com uma página por semana, estamos falando de quase meio ano (cada arco tem 12 páginas, e entre cada arco há uma página solta). É muita coisa já publicada.

Com isso, achei que seria legar dar uma revisitada nas páginas já produzidas e comecei a reler toda a série, desde o início. Fiz isso umas três ou quatro vezes nas últimas semanas e tive a ideia de fazer um Top 5 com as minhas páginas preferidas, e dividir com vocês.

A tarefa não foi fácil. De todos os trabalhos que estou fazendo, esta série é, certamente, um dos que mais me enche de orgulho. Então, tive que pensar e repensar e deixar de páginas que adoro de fora, mas, ao final, consegui chegar a o meu Top 5 atual – “atual” porque eu sei que neste terceiro arco terão páginas que certamente entrarão na próxima vez que eu fizer esta lista.

Mas, sem mais enrolação, vamos logo ao Top 5 - Páginas Preferidas da HQ Terapia (na ordem de publicação), com alguns comentários sobre o roteiro, e todos extremamente pessoais e nada técnicos.


1. Página 06
Quando escrevi esta página, vi que estava começando a acertar o tom da coisa. Ao descrever os dois últimos quadrinhos, reparei que estava começando a pensar no espaço da página e na arte, brincando com isso – nas páginas anteriores, acho que tinha escrito “somente” diálogos.

Foi com esta página que eu percebi que estava escrevendo uma HQ de verdade, e não uma crônica que seria desenhada. Foi aqui que eu finalmente consegui, pela primeira vez, passar a ideia desejada brincando com a arte da página, e não usando somente texto. E gosto demais do contraste entre os dois últimos quadros, com a “confusão mental” desembocando no “vazio emocional” que o personagem central sente.


2. Página 14
Acho que esta é uma das páginas mais ricas que o Mario desenhou. O roteiro indicava apenas que o arco II abriria com o personagem chegando ao terapeuta e uma briga do menino com a namorada ao mesmo tempo – a ideia era trazermos elementos da vida dele pela visão do leitor, e não somente pelas conversas entre ele e o terapeuta.

A solução do Mario foi primorosa: a briga corta a página em dois, como perturbando personagem, e os traços distorcidos dos quadros ao redor apenas reforçam isso. Além disso, a página tem detalhes primorosos, como o garoto andando na direção contrária à indicada pela seta, e com a cara fechada ao lado do adesivo do “smile”. Mas a minha preferida é a integração dele com as bolhas de água no último quadro. Ah, a letra da música é um trecho de I Can’t Be Satisfied, de Muddy Waters, que você ouve aqui.


3. Página 17
Difícil começar a falar sobre esta página. Como conteúdo, ela é extremamente importante, pois começa a apresentar dicas sobre o personagem central e sobre sua criação – ou seja, a respeito da sua personalidade. A única especificação “técnica” do roteiro era que a página seria um flashback e que o porta-retratos era bastante importante, pois uma referência a ele ele iria aparecer na página seguinte.

Partindo disso, o Mário criou uma página totalmente “impressa” como os antigos gibis dos anos 60 e 70, nos quadros “pontilhados” – eu praticamente sinto o cheiro ruim da tinta sempre que olho essas imagens. Mas o grande charme, para mim, são justamente os porta-retratos, que ganham uma textura impressionante e acabam sendo o elemento central da página, especialmente em termos de narrativa, passando justamente a ideia que eu e a Marina havíamos pensado.


4. Página 18
E eis um porta-retratos novamente, completando a referência da página anterior - a que falei acima. E aqui entra outra sacada genial do Mario. É uma imagem única, e os quadros que deveriam ser o diálogo entre o menino e o terapeuta tornaram-se detalhes do móvel, que possui uma riqueza de detalhes impressionante.

E o grande charme é que a avó do garoto e sua namorada se contrapõem no centro da página, como havia acontecido na arte que mostra a briga entre os dois. Esta foi uma das páginas que eu mal sabia como comentar com o Mário, quando recebi a arte.


5. Página 27
Confesso que este Top 5 deveria ter entrado no ar semana passada, para comemorar o lançamento do Arco III. Mas, quando vi esta página desenhada, resolvi adiar os planos por uma semana, já que seria injusto deixá-la de fora. Ela fugiu um pouco da ideia inicial – que não posso ainda revelar qual era, já que estragaria alguma surpresa – mas toda a essência do que eu e a Marina queríamos está aí: um clima totalmente diferente do apresentado até o momento, numa situação absurdamente estranha: uma refeição no meio de um descampado, quase como uma cena de um filme do Buñuel.

E o preto e branco dela, para mim, é totalmente opressivo – mesmo com um cenário aberto e que sangra para fora da página, eu a enxergo como algo extremamente claustrofóbico.

E, sim, existem duas luas no céu.

***********

Sem fazer propaganda barata, este terceiro arco promete. Afinal, com uma página de abertura como essa... Bem, não posso revelar mais por enquanto.

Mas queria aproveitar para agradecer, não somente em meu nome, mas em nome do Mario e da Marina, todos os elogios que temos recebido e que estão superando nossas expectativas. Muito obrigado a todos, e não percam as próximas páginas, toda quarta-feira, no Petisco.

28 de novembro de 2011

Em 2012 O Mundo Vai Ter Tcherê!

É engraçado como as coisas acontecem.

Sábado eu postei um texto sobre fazer compras no Pão de Açúcar, com o tecladista do supermercado (sim, isso existe) tocando Djavan. Muitos leitores comentaram aqui dizendo que poderia ser pior, e deram diversas opções de músicas mais insuportáveis.

Certo.

Ontem eu fui ao Pão de Açúcar novamente. Mas, desta vez, no lendário Pão de Açúcar aqui ao lado de casa. Fui com a Namorada comprar algo para jantar, mas me esqueci de um pequeno detalhe. Nas noites de domingo, o Pão de Açúcar da Teodoro é um lugar esquecido, abandonado e renegado por Deus. Todas as Suas criações que não deram certo são colocadas ali até que Ele decida o que fazer com ela.

Por exemplo: ontem, em cinco minutos, encontramos a Mulher com o Cabelo Mais Sujo da Cidade (que, na verdade, parecia mais uma moeda que uma mulher, visto que ela tinha um metro e meio e pesava uns 350 kg), e um mendigo – usando a tradicional calça de mendigos, amarrada com uma corda e um pedaço da bunda exposto – que cortou caminho pelos caixas em busca de um lugar para mijar, de uma caixa nova para dormir, ou ambos, deixando seu doce cheiro de jaula por todo o ambiente.

Mas o pior aconteceu na fila do caixa.

Estávamos começando a passar as compras quando eles chegaram. Um homem e uma mulher. Até aí, tudo bem. Ambos na faixa dos 25 anos. Até aí, tudo bem. Estavam comprando Coca-Cola e chocolate. Até aí tudo bem. E começaram a olhar as revistas expostas naquela arara ao lado da fila. Até aí tudo bem. E começaram a conversar.

E aí a coisa desandou.

Uma daquelas revistas de fofoca trazia dois moleques na capa, e a manchete “os novos reis do sertanejo”, ou algo assim. A menina mostrou para o rapaz, que respondeu que “isso é bom demais”, e começou a explicar a ela como esses dois meninos são bons, e que as músicas deles são sensacionais, e que o CPF deles é todo baseado em estudos de numerologia, e que os shows deles são demais.

A menina insistiu dizendo que não conhecia a dupla, e ele resolveu ilustrar sua explanação com um exemplo prático. Ou seja, ele abriu a boca, colocou os pulmões para trabalhar, e começou a cantar no meio do Pão de Açúcar – num volume como se estivesse se apresentando no Theatro Municipal – algo parecido com:

- Eu consertei meu carro e arrumei o som e hoje a noite vai ter Tcherê-Tcherê-Tcherê-Tcherê!

Eu confesso que não prestei atenção à letra. Toda a parte entre “eu” e “ter” da frase acima, pode estar errada (mas estou certo de que tinha as palavras “carro” e “som”), mas a parte do Tcherê foi reproduzida de forma precisa, em escala 1:1 aqui no blog. Acredite em mim, eu não estou enrolando porque não sei o final do verso. É “Tcherê-Tcherê-Tcherê-Tcherê!” mesmo. Quatro tcherês, todos animadinhos porque alguém consertou o carro.

No segundo tcherê meu estômago começou a embulhar, e o resto do cheiro do mendigo não ajudava tudo. Mas o pior foi a dificuldade de pensar, já que todos os meus neurônios saíram correndo para dentro um quarto no meu cérebro, ligaram Seasons in the Abyss do Slayer no máximo e me deixaram ali sozinho, à mercê dos Tcherês à queima-roupa.

Tudo o que eu poderia fazer era implorar para que os Tcherês passassem. E eles passaram. Ou, melhor dizendo, eles deram lugar a algo pior. Eles se transformaram no diálogo mais horrendo que ouvi em todos os meus 36 anos. Esqueça Ricardo III. Esqueça Laranja Mecânica. Esqueça as histórias em quadrinhos da antiga revista Cripta. Pois nada superaria a seguinte frase:

- Então, não está tudo certo e não quero comemorar ainda, mas é 99% de chances de que ano que vem eu trabalhe na produção dos shows do Luan Santana.

Meus neurônios rapidamente ligaram mais três caixas de som dentro do quartinho, e o Tom Araya passou a gritar que “Close your eyes look deep in your soul, step outside yourself and let your mind go!” Aliás, pelo barulho, alguns neurônios haviam aberto uma roda dentro do quarto e estavam se chutando alucinadamente.

Do lado de fora do meu cérebro, minha vontade era que alguém me chutasse também, mas para fora do mercado. Mas eu sei que nada disso iria acontecer, então comecei a considerar a hipótese de pegar uma das sacolas de plástico do Pão de Açúcar, colocar na cabeça e esperar pela asfixia que, quando eu era pequeno, meus pais garantiam que aconteceria.

Mas o diálogo foi mais rápido que eu. Antes mesmo que eu encontrasse as sacolas, a menina respondeu ao quase novo empregado do Luan Santana.

- Você vai se dar bem! Ele vai fazer shows no mundo inteiro!

Mundo inteiro? Meus olhos ficaram brancos, como se eu estivesse possuído por um demônio e comecei a tremer. Imagens de capas de discos com os nomes “Luan Santana – Live at Donnington”, “Luan Santana – Made in Japan” e “Luan – No Sleep ‘til Hammersmith” começaram a dançar na minha mente.

Ao mesmo tempo, um lampejo de consciência fez com que eu percebesse que um dos neurônios estava fora da sala. Era gordo e careca, e estava sentado nas sombras, em silêncio. Ao perceber que havia sido notado, ele simplesmente passou a mão na cabeça e resmungou algo como “O horror... O horror...” (Apocalypse Now mode: on).

Mas o meu neurônio Brando não imaginava que o horror ainda estava longe de terminar. Meus olhos voltaram ao normal ainda a tempo de ouvir o sujeito comentando sobre seus planos grandiosos de ajudar o Luan Santana a conquistar o planeta. Se eu possuísse uma arma, teria assassinado o sujeito ali mesmo e me sacrificado em nome do resto do planeta. Mas tudo o que eu poderia fazer era continuar ouvindo o Genghis Khan sertanejo.

- Ontem eu fui num rodeio animal! Teve show do Fernando e Sorocaba, foi demais!

Se eu estivesse em condições, teria perguntado a ele qual foi o critério usado para batizar esta dupla. Porque, até onde eu sei, as duplas sertanejas são sempre Nome & Nome, Apelido & Apelido, Cidade & Cidade. Fernando e Sorocaba rompe com tudo isso e usa a fórmula Nome & Cidade. É uma revolução sertaneja. E, de acordo com o roadie do Luan Santana, eles são demais!

- Eles tocam muito. Agitei muito no rodeio! Acho bem louco!

FROZEN EYES STARE DEEP IN YOUR MIND AS YOU DIIIIIE!, gritava Tom Araya dentro do quartinho no canto do meu cérebro, fazendo meu crânio tremer. Mas o som estava um pouco abafado. Provavelmente os neurônios lá dentro estavam vedando as frestas da porta com pedaços de pano para impedir que qualquer som do diálogo do casal alcançasse o local.

Pensei em pedir refúgio a eles, mas minha presença era necessária no mundo exterior. Afinal, o Hernán Cortés sertanejo ainda tinha muito a falar sobre rodeios.

- Eu gosto de ir nos rodeio para ver os bois se fuder. Acho bem louco.

Assim mesmo, com essa concordância, e eliminando o fato de que não são bois, são touros. Sua companheira disse que morria de pena dos animais, mas antes disso acontecer eu automaticamente estiquei meu braço e puxei de volta a Namorada, que estava em pleno ar, voando na direção do sujeito com uma faca nos dentes e granadas presas ao peito.

Felizmente, tudo estava se acabando. Quer dizer, partindo do princípio que o Luan Santana fará shows no mundo inteiro, o inferno ainda está longe de terminar, mas, pensando a curto prazo, meu inferno particular estava quase terminando. Paguei e guardei meu cartão e fui em direção à porta do mercado – onde a Namorada já estava me esperando, andando de um lado para o outro como um animal enjaulado.

Mas, a poucos passos da liberdade, eu ainda recebo o golpe de misericórdia, visto que a frase “eu desencanei de samba, para mim samba acabou, o que liga agora é sertanejo” veio correndo na minha direção e me golpeou na cabeça, fazendo o aparelho de som quebrar e o Tom Araya ficar mudo.

Não sei mais o que aconteceu. Apenas acordei hoje de manhã na minha cama, com febre e enxaqueca e a certeza de que sim, o mundo acabará em 2012, e eu fui o Escolhido para ter o conhecimento de como isso irá acontecer.

A partir de hoje, eu sou Rob Gordon, o Profeta do Apocalipse. Prazer.

E, da próxima vez, tomem mais cuidado com o que vocês comentam aqui no blog, por favor.

26 de novembro de 2011

Djavan e a Língua do Jabba

- A gente ainda demora? Eu cansei de brincar de fazer as compras do mês.

- Faltam só as carnes.

- Apenas as carnes?

- Sim.

- Nada de vegetais?

- Não. Só as carnes.

- Certo. Carne é importante. Carne eu espero.

- Por que você não me ajuda e pega uma fraldinha ali naquele canto?

- Certo. Já venho.

- Ok.

(...)

- Voltei.

- Já? E a fraldinha?

- Eu não posso pegar a fraldinha.

- Como assim?

- Tem uma língua ali. Eu não consigo chegar perto.

- Sim, é a língua do boi.

- Não, é a língua de um boi zumbi! Ela é toda preta!

- Deixa de bobagem.

- E é enorme! Nem a Cicciolina tinha uma língua assim.

- Pega logo a fraldinha.

- Eu não vou chegar lá perto. É a coisa mais nojenta que eu já vi. Parece a língua
do Jabba.

- Você é muito exagerado!

- Não! É verdade! Você não se lembra da cena que ele quase esfrega a língua na Leia? É no Retorno de Jedi. É a mesma língua. Aposto que se você olhar na etiqueta não vai estar “língua de boi”, vai estar “língua de hutt”.

- Eu vou pegar a fraldinha.

- É sério que as pessoas comem isso? Como podem? Elas estão praticamente ficando com o boi.

- Me ajuda aqui. Quanto pesa aquela?

- Sério, a coisa é indecente. Mas não é igual ao porco. O porco, as pessoas comem a língua e depois o rabo. Será que é daí que vem o termo “prazer carnal”?

- Eu estou esquecendo alguma coisa...

- Espera. Você está ouvindo esse som?

- Que som?

- Aquele sujeito que toca teclado perto do café. Sabe?

- Sim.

- Escute com cuidado.

- Hum...

- É Djavan!

- Sim, acho que é. Não consigo ouvir direito.

- É sim! Vamos embora! Rápido!

- Calma!

- Não, vamos! Esse mercado se tornou o palácio do Jabba, mas ao invés daquela banda de alienígenas tem um cara tocando teclado e cantando Djavan!

- Ok! Estou indo!

- Rápido! Ele já vai começar com os Iô! Iô! Iô! Iô! do Djavan! Toda música do Djavan tem os Iô! Iô! Iô Iô!

- Calma. Já estamos no caixa!

- Cliente Mais?

- Sim, senhora.

- Nota Paulista?

- Sim, senhora. Olhe, tem essa Ruffles e essa Coca Zero que estão abertas. Foi ela que consumiu. Ela não consegue se controlar, sempre faz isso. Mas nós vamos pagar essas mercadorias.

- Foi você que comeu e bebeu isso!

- Além de tudo, ela é mentirosa compulsiva. Mas ela já está se tratando, por ficar tranquila. A senhora pode apressar as coisas? Está tocando Djavan!



(Este post é dedicado à Ana Claudia, cujo nome, em algum idioma, certamente significar "paciência. Mas, sendo sincero, ela bem que riu a maior parte do tempo.)


25 de novembro de 2011

O Meu Quebra-Cabeça


Outro dia, encontrei um amigo de infância, daqueles que não via há anos. Conversa vai, conversa vem, ele me solta:

– Difícil de acreditar que aquele menino baixinho e bom de bola se tornou escritor.

Isso porque, como ficamos anos sem nos encontrar, ele continuou com a mesma imagem que tinha de mim na infância: um garoto que jogava pelo lado direito do campo e sonhava em ser jogador profissional. Ele sequer se lembrava de que, mesmo naquela época, eu já adorava ler e contar histórias.

(leia mais aqui)

21 de novembro de 2011

Acusado de Homicídio, Escritor é Preso na Fronteira com Paraguai

Aparentemente, o caso do mouse morto por afogamento algumas semanas atrás, chegou a um desfecho. A tragédia aconteceu no dia 29 de outubro, na casa do escritor Rob Gordon, no bairro de Pinheiros. Poucos dias após o ocorrido, Gordon desapareceu sem deixar vestígios, o que aumentou ainda mais as suspeitas de homicídio.

Procurado pela polícia, o escritor teria suspostamente enviado uma carta à imprensa implorando por clemência e alegando ser inocente. Contudo, o caso sofreu nova reviravolta quando evidências encontradas no local do crime indicavam que o cão Besta-Fera, principal testemunha do caso, havia elaborado o documento em nome do escritor.

Mesmo assim, as buscas por Gordon não cessaram. A Polícia Federal, suspeitando de que ele pudesse deixar o país disfarçado, passou a vigiar as fronteiras e aeroportos em busca do suspeito. A investigação rendeu frutos na noite deste domingo, quando, após uma denúncia anônima, Gordon foi encontrado tentando atravessar a fronteira com o Paraguai usando uma peruca e disfarçado de vendedor de artesanato.

Após ser arrastado pela delegacia ao som de “yo no soy Gordon, porra!”, o escritor foi levado a uma delegacia e autuado. Agora, ele aguarda o momento de ser transferido para São Paulo, onde deverá ser julgado por homicídio.

Gordon ri, demonstrando
seu descaso pela justiça.

À porta da delegacia, centenas de mouses e outros periféricos de computadores – muitos oriundos do Paraguai – protestam por justiça e prometem linchar o escritor na primeira oportunidade.

Procurado pela reportagem para comentar o caso, Besta-Fera não foi localizado.

Rrrrrrrrrroly Wars

- Rrrrrrrrrrob?

- Oi, mãe. Tudo bom?

- Tudo e você?

- Tudo.

- Gostaram do show?

- Muito, adoramos os dois shows!

- Eu vi um na TV e fiquei procurando você e a Ana no meio das pessoas!

- Mas qual show você viu?

- O do Megadeth!

- Mãe, como você conhece Megadeth?

- Ah, Rrrrrrrrrrob, eles falaram o nome na TV!

- Tem razão.

- Eu gostei, sabia?

- Oi?

- É, aquele rrrrrrrrrruivão cabeludo. Achei legal, viu?

- Oi?

- Ele tem cara de bravo, né?

- Oi?

- Gostei da música deles! Achei muito legal!

- ...

- Rrrrrrrrrrob? Você está aí?

- Sim.

- Você ficou mudo.

- Eu não sei se vou aí abraçar você e falar que você é a mãe dos sonhos, ou se conto isso para minha psicóloga.

- Rrrrrrrrrrob! Deixe de bobagem!

- Acho que vou fazer os dois.

(Para entender a quantidade de "R"s deste post, leia este texto aqui)

20 de novembro de 2011

Aquarela Cotidiana




“Rotina”. Atualmente, poucas palavras são tão mal utilizadas como esta. De algum tempo para cá, a rotina se tornou uma das maiores vilãs do mundo moderno. Casais se separam alegando que o relacionamento caiu na rotina; pessoas comentam o tempo inteiro que precisam escapar da rotina. Odeia-se a rotina do trabalho, a rotina dos relacionamentos, a rotina do dia a dia. Aparentemente, só não odeiam a rotina de reclamar da rotina.

O grande problema é que a rotina se tornou sinônimo de tédio. E nada poderia estar mais errado que isso. Rotina e tédio são dois conceitos totalmente diferentes, mas que as pessoas colocaram sob um mesmo enorme guarda-chuva batizado de “chatice”. A rotina está longe de ser chata; basta que a pessoa saiba ver graça nas pequenas coisas que compõem seu dia.

Casais se separam por causa da rotina ou porque o amor acabou? Pessoas reclamam da rotina do trabalho, mas será que não estão apenas desencantadas do emprego atual? Muito fácil colocar a culpa na rotina em vez de admitir que o relacionamento ou o emprego tornou-se algo entediante por algum outro motivo.

(leia mais aqui)

18 de novembro de 2011

Post de Ação de Graças

Antes de continuarmos com a vida, algumas novidades e informações.

Meu segundo livro, 24 Horas, 48 Crônicas, ganhou uma menção no boletim cultural B.Coolt (nesta página aqui). Este blog agradece muito toda a equipe da revista semanal – que merece ser conferida sempre graças às excelentes dicas que surgem ali – pela oportunidade e prestígio.

Aproveitando, algumas pessoas vieram me perguntar no Twitter como comprar cópias autografadas dos meus livros: basta apenas mandar um mail para o blog, no endereço champ.vinyl.blog@gmail.com, entrando em contato direto comigo.

Outra novidade: agora, além de colaborar com o Malvadezas (já leram meus textos por lá, certo?), estou escrevendo também para o Papo de Homem. O primeiro texto foi publicado hoje: O Primeiro “Nada”. Agradeço o prestígio e os comentários de vocês, leitores, lá no PdH - e claro, à toda equipe do site pelo convite!

E, agora, de volta à rotina normal deste blog!

15 de novembro de 2011

A Night to Remember

Não fui à primeira edição do SWU, por diversos motivos – o principal é que não havia nenhuma banda que me interessasse o suficiente para me tirar de São Paulo. Mas este ano foi diferente. Este ano, a vontade começou a surgir quando o nome do Megadeth foi confirmado, e comecei a ficar de olho nas notícias sobre a venda dos ingressos.

Foi quando explodiu a bomba: o Faith No More encerraria o festival. Era tudo o que eu precisava ouvir – e antes de continuarmos eu preciso explicar um pouco minha relação com Faith no More, especialmente com o álbum The Real Thing. E ele permanece como um dos meus discos preferidos de todos os tempos, tanto em termos musicais, mas principalmente, em termos emocionais. Foi um dos discos que marcou muito meus 14, 15 anos. O disco é pesado, experimental, ousado, agressivo – mas, aos meus ouvidos, ele sempre soa doce. Sempre.

E eu nunca havia conseguido assistir a um show do Faith No More. Nem do Megadeth. Oportunidades não faltaram, mas nunca deu certo, por diversos motivos. Era hora de acertar minha dívida com estas duas bandas.

E foi com este espírito que cheguei à Paulínia ontem, ao lado da namorada, de um amigo de longa data, e debaixo de muita chuva. Assim que saímos do carro, vimos que o clima estava mais para Woodstock que para um festival que prega a sustentabilidade. Lama. Lama por todos os lados. Lama a ponto de fazer seu pé afundar, escorregar, grudar no barro.

Felizmente, lá dentro, apesar de tudo molhado, as coisas estavam melhores – mas o sinal de como a noite seria começou antes mesmo de entramos. Ainda no estacionamento, ouvíamos It’s So Easy, do Guns, sendo interpretada pela banda do baixista Duff McKagan. Era a prova cabal de que a noite seria, definitivamente, uma volta ao passado da minha vida.

Isso se comprovou por volta das 21h00min, quando o Megadeth recebeu a primeira grande ovação do dia – até então, as demais bandas haviam sido apenas um passatempo para a multidão, especialmente aqueles que estampavam camisetas pretas com longos das mais diversas bandas.

Slayer. Iron Maiden. Motörhead. Judas Priest. Saxon. Não havia dúvidas: todas as camisetas pretas de Paulínia estavam ali para ver a banda de Dave Mustaine. Ou, melhor dizendo, o próprio Dave Mustaine. Apesar de contar com a presença do baixista David Ellefson, da formação clássica do grupo, o vocalista e guitarrista da banda é o grande atrativo.



Um dos nomes mais respeitados do heavy metal (pela imprensa e pelo público), Mustaine consegue a proeza de se manter fiel à sua habitual mistura de thrash metal e speed metal, fazendo seu som evoluir cada vez mais, sem jamais fazer concessões comerciais, seguindo o caminho oposto aos seus (antigos) inimigos pessoais do Metallica, que hoje se assemelham a um enorme arranha-céu cujas fundações parecem ter sido esquecidas.

Atualmente, o Megadeth faz um som mais verdadeiro, e traz uma atitude de palco muito mais verdadeira. E se você é fã de heavy metal, você sabe a importância disso. Aparentemente, meu coração sabia. Nas primeiras músicas, cantei, aplaudi e pulei como em qualquer outro show.

Mas algo aconteceu.

Eu não sei explicar ao certo o que, mas algo aconteceu. Depois de um ano bastante difícil, ele decidiu que era o momento de exorcizar muita coisa. Muita coisa mesmo. Ali, bem perto do palco, vendo Mustaine solando em velocidades espantosas e cantando com sua voz de vilão de anime, eu deixei de ter 36 anos, e voltei magicamente aos 16.

Não sei ao certo quando aconteceu. Não sei em qual música, em qual solo, mas aconteceu. Foi então que eu fiz algo que não fazia há muitos e muitos anos. A tout le monde, a tout mes amis. Ao invés de apenas cantar e pular, como tenho feito nos últimos anos, abri minhas pernas, finquei os pés no chão e comecei a bater cabeça. Alucinadamente. Hello me, it’s nice talking to myself. Com uma velocidade que eu não sabia mais que tinha. Com uma força que eu sabia que estava escondida em algum lugar dentro de mim. Just like the Pied Piper, led rats through the streets.


Aliás, o termo não era “força”, mas sim “tesão”. Não existe maneira melhor de definir. Peace sells... But who’s buying? Ali, no meio da plateia sem sequer me importar se alguém estava vendo aquele baixinho velho, sem cabelo algum, batendo cabeça alucinadamente, socando o ar e urrando as letras das músicas. Waaaaaaaaaaaage a war... Against organized crime!

Naquele momento, Mustaine estava tocando para mim. Ou melhor, para o menino de 16 anos que ainda mora em mim. E não havia mais ninguém ali. Senti o suor escorrendo pela minha testa conforme minha cabeça dançava sozinha; senti meus punhos se fechando a cada vez que eu socava o ar. Eu sabia que meu pescoço estaria destruído no dia seguinte, mas não me importei.

De repente eu estava no primeiro show de heavy metal da minha vida. De repente, eu me senti como se pudesse começar tudo de novo. Tudo.

Obrigado por isso, Megadeth.

Quando a banda se despediu, eu ainda estava ofegante – e confesso, um pouco surdo, já que a qualidade do áudio era espantosamente boa. Mas de alma lavada, como há muito tempo não me sentia. De repente, eu me senti como se pudesse conquistar qualquer coisa. De repente, depois de muito tempo, eu era eu de novo. Mesmo que por alguns minutos, eu era eu novamente.

E eu não queria deixar de ter 16 anos. Nunca mais. E a receita para isso era apenas uma: me entregar de corpo e alma ao show do Faith No More. E a melhor maneira de fazer isso seria conquistando algo que nunca havia feito na vida: colar o peito na grade. Era algo que eu devia a mim, especialmente depois de tudo que passei nos últimos meses.

Assim, no momento em que o show do Alice in Chains começou no palco oposto, nós três fomos para frente do palco central. Faltavam duas horas para começar o show do Faith No More, e já havia gente ali. Mas conseguimos o que queríamos: lugares na grade. E lá ficamos debaixo de chuva, esperando, pacientemente, que as luzes se apagassem e a banda entrasse no palco.

Quer dizer, “pacientemente” é forma de expressão. Eu simplesmente não conseguia acreditar que estava na grade. 70 mil pessoas no lugar, e eu na grade. Tentava não pensar muito a respeito disso, e agia normalmente, mas me sentia novamente um menino de 16 anos capaz de conquistar o mundo.

E conquistei, quando o show começou. Com os figurinos e a cenografia inspirados em umbanda, o show abriu com a instrumental Woodpeckers from Mars que, logo em seguida, deu lugar a furiosa From Out of Nowhere, de longe a minha música predileta deles.

A banda estava disposta a me ganhar de qualquer forma. Mas confesso que não seria preciso muito esforço. Todos os quatro músicos são fantásticos, mas Mike Patton está em outro patamar. Se, com vinte e poucos anos ele era um vocalista fantástico, hoje ele tem um pé no genial – e isso vale para tudo: presença de palco, voz, interação com a plateia.

Com seu jeito surtado (seja cantando enquanto dança, soca, pula, se agacha, corre; ou fazendo tudo isso enquanto berra, grunhe e rosna das formas mais diferentes possíveis), ele se transforma no show em poucos minutos. Quem dá as cartas é Patton que, me arrisco a dizer, talvez seja o maior vocalista de rock da atualidade.



E começam os clássicos. Last Cup of Sorrow. Midlife Crisis. E eu ali, na grade, vendo tudo acontecendo na minha frente tranquilamente. Isso, claro, até a metade de Easy, quando duas garotas empurraram todo mundo e entraram ao nosso lado, gritando, chacoalhando a cabeça e fazendo questão de mostrar que gostavam mais de Faith no More que qualquer um ali.

Usavam shortinhos, camisetinhas de caveiras com lantejoulas e sapatinhos fofos. Lembram-se do post sobre o show do Eric Clapton, quando eu falei sobre este tipo de gente, e ainda expliquei melhor nos comentários dizendo que “nem todas as meninas que se vestem assim estão num show para aparecer, mas toda menina que está num show para aparecer se veste assim”? Bem, depois de ontem, a promotoria encerra, excelência.

Claro que começou o quebra-pau. Todos ao redor brigando com elas: duas meninas ao nosso lado pareciam dispostas a jogá-las no fosso; eu, do outro lado, usava meu cotovelo como aríete tentando arrombar a caixa torácica da imbecil. Pessoas atrás gritavam com elas. E quando a garota veio tirar satisfações comigo, por causa do cotovelo, seu bafo de cachaça denunciava que não haveria lógica que resolvesse aquilo.

Tentei ignorar e continuar vendo o show, mas, na terceira vez que o cabelo molhado dela explodiu na minha cara, não aguentei.

Eu estava com o nariz entupido, depois de dez horas de chuva, direto. Guarde esta informação que iremos usar em breve. No momento em que ela se virou de costas para mim – chutando o meu pé pela sexta ou sétima vez e fazendo o cabelo explodir novamente na minha cara – dei a maior fungada da vida e...

Bem, você consegue imaginar o resto. Como foi tudo muito rápido, vou descrever apenas o resultado: uma gosma verde no cabelo dela. E ela ali, a trinta centímetros de mim, não percebeu, ficando com seu cabelo catarrado – e eu com a minha alma vingada – até decidir ir embora, três músicas depois.

Infantil? Sim. Grotesco? Com certeza. Mas tem horas que é a melhor coisa que você faz na vida é ligar o foda-se. E eu liguei o meu e não cuspi somente na menina, mas cuspi em muita coisa que passei nos últimos tempos. Cuspi com raiva e desprezo. Cuspi com gosto.

Momentos depois, no meio de uma música, Mike Patton virou-se para o telão e disse: “relax, it’s just a phase”.

Eu sei. Obrigado por isso, Faith no More.

O resto do show transcorreu sem maiores problemas, com um set list que, se não fez jus à primeira metade do espetáculo, passou longe de ser fraco, com grandes clássicos e somente uma grande ausência (We Care a Lot). E, quando a banda se despediu, por volta das 03h30min da manhã, uma das maiores noites da minha vida havia acabado.


E eu continuava com 16 anos.

Quer dizer, a noite ainda não acabara. Com a chuva, dezenas de carros que tentavam sair do estacionamento enlameado começaram a atolar – e isso aconteceu com o nosso. Enquanto tentávamos dar um jeito nisso, ficamos isolados, nós e um grupo de umas quinze pessoas, no meio do mato. Por mim, já nos reuniríamos para discutir estratégias de sobrevivência, pois o cenário era quase igual ao que imagino num apocalipse zumbi. Sim, eu perco bastante tempo da minha vida pensando nisso, e, se você acha isso estranho, lembre-se que eu cuspo nas pessoas.

Enfim, ficamos quase uma hora atolados, sem socorro algum por parte da organização do festival. Roubamos as placas do estacionamento para tentar desatolar os carros, e nada. Até que decidimos nos unir e desatolar os carros no braço, um por um. Enquanto uma pessoa guiava os carros, outras dez ou doze pessoas empurravam o veículo. Éramos uma equipe, mesmo sem saber os nomes uns dos outros.

Em pouco tempo, estávamos livres e no caminho para São Paulo, aonde chegamos por volta das 07h00min. E, ao sair do banho e me deitar, observei minha namorada e me lembrei do dia que tive com ela.

Lembrei-me de que, ao enlouquecer com o som do Megadeth, ela filmou minhas músicas preferidas, sem se importar em namorar um homem de 16 anos, mas sim feliz por ver o namorado feliz. Lembrei-me de afastá-la da menina no show do Faith No More quando ela pegou a imbecil pelo rosto e disse “encoste em mim mais uma vez e você morre”, temendo dar merda de verdade ali no meio - e troquei de lugar com ela, para que ela pudesse ver o show de um lugar melhor.

Lembrei-me de ela ter me falado que “se você não aguentar ficar na grade por causa da multidão, nós escapamos por ali”, sem sequer cogitar em me deixar sozinho e permanecer na grade. Lembrei-me do cuidado que ela tomou comigo na hora da saída, quando tive que tomar remédio por causa da multidão, algo que ainda não sei lidar.

Lembrei-me de todas as risadas que demos entre os shows, de todos os gritos que demos durante os shows, de todas as voltas que demos ou as vezes em que paramos para descasar, com um respeitando o pique do outro.

E lembrei-me dos carros atolados e da farra que fizemos. Quando eu disse acima que dez ou doze pessoas empurravam um carro e outra pessoa guiava, adivinhem quem estava guiando pelo menos uns quatro destes carros, trocando olhares de "amanhã nós vamos rir tanto disso" comigo?

E foi quando eu percebi que, mesmo tendo ido a diversos shows este ano, este foi o nosso primeiro show. Pois eram bandas que adoramos (ela chegou a ir ao Chile somente para ver o Faith No More, tal seu grau de fanatismo), mas também por ser longe de tudo. Longe de São Paulo, longe dos problemas, longe de encheções de saco. Longe de tudo.

E foi deitado na cama e me lembrando disso que eu descobri porque nos damos tão bem: somos dois adultos que sabem ser adolescentes na hora certa, sem colocarmos as responsabilidades e de lado e, principalmente, cuidando e respeitando o jeito de ser do outro.

- Você é a melhor namorada que eu poderia ter, disse a ela.

Ela sorriu e adormeceu.

E, aí sim, no meio deste sorriso, terminou uma das maiores noites da minha vida.

Obrigado por isso, Ana Claudia.

12 de novembro de 2011

Hoje, Amanhã e Sempre

Daqui a muitos e muitos anos, você estará com cabelos brancos, com a vista um pouco cansada e um punhado de memórias.

Você será um avô.

Seus netos, pequenos e graciosos como todos os netos, correrão pela casa, fugindo de você e atrás de você, presenteando sua esposa com pequenas flores colhidas no jardim, investigando a prateleira mais alta do armário e preenchendo todo o seu entardecer com cores alegres e sons de risadas.

Antes disso, você verá seus filhos se casando. Cada um em seu caminho, cada um com a felicidade que escolheu. Ao lado do altar, você perceberá que fez o melhor possível por cada um deles, ensinando-os, junto com sua esposa, a ser pessoas melhores a cada dia de suas vidas.

E as lembranças de muitos destes dias se confundirão com as palavras do padre. Lembranças da vontade de proteger sua filha de todos os perigos e tristezas do mundo; lembranças da primeira vez que seu filho andou, ali, no corredor da sua casa; lembranças da queda da bicicleta, do primeiro gol no campeonato da escola, lembranças de tardes e mais tardes jogando videogame com eles no chão da sala. Você e eles, todos da mesma idade.

Não serão apenas lembranças infantis, como o primeiro banho ou as primeiras palavras. Mas também lembranças mais adultas, como o diploma de faculdade, o primeiro coração partido, o primeiro porre, o primeiro show juntos. Lembrança de cada aniversário com amigos espalhados pela casa, de cada natal com papeis de presentes espalhados pelo chão, lembranças de almoços de domingo com você sentado à cabeceira da mesa.

Algumas lembranças ainda são preocupantes, como a febre que ela teve com nove anos, ou aquele ano em que ele quase repetiu de quatro matérias. Mas mesmo estas lembranças, ali no altar, se tornarão doces, com sabor de missão cumprida. Com sabor de uma vida feliz.

Mas ainda é muito cedo para isso. Pois hoje, quem estará à frente do altar é você, e sua noiva. Hoje, vocês começarão a construir não apenas uma vida juntos, mas sim a vida de seus filhos e netos, que ainda nem sonham em existir, mas já amam vocês dois incondicionalmente.

Hoje tem início tudo o que eu escrevi aqui. E, mesmo sem nunca ter olhado nos seus olhos, tenho certeza de que este “tudo” será muito, muito mais feliz que este simples texto.

A cada dia, a cada hora, a cada minuto.

Para sempre.


Este texto é um humilde presente deste blog a um de seus leitores mais especiais, Nelson, que se casa hoje.

11 de novembro de 2011

Você e Nada Mais


Vai para uma ilha deserta? Então faça suas malas.

Eu te ajudo.

Na mala maior, coloque suas roupas – nada muito quente, e não se esqueça das roupas de banho e das toalhas. Coloque também um par de chinelos e outro de tênis, além de utensílios de higiene pessoal. E mais nada.

A menor precisa ser quase uma bolsa, pois você andará com ela o tempo inteiro. E, mesmo sendo a menor, ela é a mais importante.

Dentro dela, coloque suas melhores lembranças.

(leia mais aqui)

6 de novembro de 2011

Reviravoltas no Caso do Mouse Afogado

Neste final de semana, o caso envolvendo a misteriosa morte de um mouse em Pinheiros sofreu novas reviravoltas. As novidades surgiram por conta da presença de membros da perícia no apartamento de Rob Gordon, escritor paulistano acusado de participar da morte do pequeno periférico, afogado após cair em um balde de água suja.

Durante a semana, Gordon teria supostamente enviado uma carta aos jornais, confeccionada com recortes de revistas e assinadas com seu próprio nome – o que caracterizaria uma das ações mais estúpidas nos anais do crime. No dia seguinte, o canino Besta-Fera, uma das testemunhas-chave do caso, publicou um anúncio produzido nos mesmos moldes e ofendendo o escritor.

Membros da polícia suspeitavam da veracidade da carta de Gordon, e esta desconfiança ganhou ares de verdade na tarde de ontem. Ao investigarem o local da morte, foi descoberta uma tesoura velha e em estado avançado de deterioração, que seria de propriedade de Besta-Fera. O objeto pode ter sido usado para a elaboração da carta de Gordon enviada aos jornais. A possibilidade de ter sido utilizada na confecção do anúncio resposta foi descartada, já que a peça foi produzida por uma pequena agência de publicidade contratada pelo pequeno animal.

A tesoura encontrada pela polícia (foto: Reuters)

Questionado sobre o assunto, Fera afirmou que a tesoura é realmente sua, mas a usa somente para fins estéticos. “Sou obrigado a tosar meus próprios pelos, pois Gordon se recusa a me levar a um pet shop”, informou. Além disso, ele declarou que isso é apenas uma amostra do regime de escravidão que é forçado a aceitar, se alimentando somente de sacos de pão e morando em uma caixa de papelão na varanda. Contudo, nenhuma evidência disso foi encontrada no local.

A tesoura foi apreendida pela polícia, que espera ligar o objeto à carta publicada nos jornais. Gordon permanece desaparecido, e a polícia promete apertar o certo nos próximos dias. “Temos fontes confiáveis alegando que ele está andando disfarçado e com identidade falsa”, alegou uma fonte policial.

4 de novembro de 2011

O Último Grande Herói

Caros leitores,

Amanhã eu devo responder com calma a todos os comentários do blog. Estou um pouco atrasado com isso. Mas, antes de qualquer outra coisa, gostaria de compartilhar com vocês o e-mail que recebi de um dos leitores mais especiais que eu ou este blog poderíamos ter.

Segue abaixo.


"Rob Gordon,

Algumas coisas para meditar:
Seja o que você é, e não o que os outros gostariam que você fosse.
Nunca pense no passado, ele não pode ser mudado. Planeje o futuro, você o está construindo.
Analise seus erros passados e os evite no futuro. A máxima diz: "errar é humano"; no meu ponto de vista, "ser humano é privilégio, e não desculpa".
Seu avô dizia: "dinheiro é sem vergonha, quando eu não corro atrás dele ele corre atrás de mim".
O seu sucesso me deixa muito feliz, pois eu não preciso ficar dizendo " este é o meu filho" mas posso dizer:
Eu sou o pai deste cara, que é "bom pra cacete!".
Tenho muito orgulho de ser seu pai, obrigado por você ser quem é.
Beijo,

Gordon Senior.
"


Senhoras e senhores, apresento-lhes meu leitor preferido: meu pai.

O homem mais sábio do mundo – ou, ao menos, do meu mundo. O homem que, durante todos os dias da minha vida, me mostrou porque a palavra “paixão” começa com “pai”.

Meu pai, o homem que tenho a honra de querer ser quando crescer.


3 de novembro de 2011

Escritor Foragido Envia Comunicado à Imprensa

Ontem, 2 de novembro, surgiram novas informações sobre o caso do mouse morto por afogamento no bairro de Pinheiros, na cidade de São Paulo. Apontado como principal suspeito do crime, o escritor Rob Gordon desapareceu sem deixar vestígios, dando início a uma caçada envolvendo não apenas a polícia como autoridades internacionais, visto que a possibilidade do suspeito ter deixado o país não foi totalmente descartada.

Entretanto, ontem o acusado enviou uma carta aos jornais de diversas capitais do país, alegando inocência e que seu único desejo é retornar ao lar. A polícia ainda analisa a carta, tentando detectar seu local de origem, mas até o momento nenhuma informação oficial sobre a investigação do documento foi divulgada.



Independente disso, hoje, dia 3 de novembro, um anúncio em resposta ao comunicado de Gordon foi publicado em diversos jornais, com o mesmo formato e uma curta mensagem, endereçada ao escritor.

O anúncio foi publicado por Besta-Fera, uma das principais testemunhas do caso, que, alegando agir em nome da justiça, tem auxiliado a polícia de forma intensa nas investigações.


Diferente da carta enviada por Rob Gordon, o comunicado de Besta-Fera foi um anúncio pago, de acordo com o cão. "Usei parte da quantia que o Rob estava guardando para comprar jogos de PlayStation, já que dificilmente este dinheiro será usado desta forma agora", afirma. Ainda em conversa com a reportagem, o cão informou que doará o resto das economias de Gordon para uma Ong que cuida de mouses inválidos. "É hora do país abrir os olhos para este problema, e o primeiro passo para isso será fazermos de Gordon um exemplo contra a impunidade", anunciou Fera.

Enquanto isso, as investigações continuam. E, apesar de divulgar retratos falados de Gordon em diversos aeroportos, a polícia pede atenção ao fato de que o escritor possa tentar deixar o país disfarçado e sob identidade falsa.

2 de novembro de 2011

Voar é Preciso


Imagine que você está voando dentro de um balão.

O mundo ao seu redor passa rapidamente, mas nem sempre você consegue voar na direção desejada, já que, por mais que seja possível controlar o veículo, ele ainda é suscetível às correntes de ar. Assim, em alguns momentos, é possível voar para o destino planejado, mas, em outros, tudo o que se pode fazer é ir de acordo com o vento e torcer pelo melhor.

E a vida é justamente assim. Existem épocas nas quais tudo parece estar sob o controle, e outras em que ficamos ao sabor do destino.

(leia mais aqui)