Deveríamos ter desconfiado quando avistamos um filhote de gato nos encarando de cima de um telhado. Foi logo na entrada, e a expressão do animal – nos observando fixamente – deveria ter servido como aviso. Mas eu e a Sra. Gordon ignoramos isso e continuamos nosso caminho para dentro daquela pequena ruela.
Estávamos passeando por Pinheiros, vendo casas e prédios, e tínhamos algum tempo de sobra até a hora do jantar. Assim, ao descobrirmos aquela pequena vila ao lado da minha casa, decidimos entrar para conhecê-la. Estávamos intrigados com o fato de que nunca havíamos reparado na existência daquilo antes, a despeito do lugar ser localizado a poucos metros de onde moro.
Assim, curiosos, mas despreocupados, entramos.
Andamos pela pequena rua, escura e cercada de árvores, para descobrir que, após uns vinte metros, ela fazia uma curva de 90 graus à esquerda, e continuava por mais cerca de trinta metros, antes de terminar em muro negro.
Ao redor deste segundo trecho, dez casas se amontoavam umas sobre as outras. Eram de cores diferentes, mas todas com a mesma aparência: uma pequena porta branca de madeira e três janelas: uma pequena, na própria porta; a segunda, um pouco maior, ao lado da porta; e a terceira, a maior de todas, no segundo andar.
De cara, fiquei cismado com a luz. Antes de entrarmos na vila, era quase dia; lá dentro a noite caía rapidamente. Aparentemente, havíamos entrado numa espécie de portal e o tempo havia se passado rapidamente – talvez estivéssemos até mesmo em outro ano.
Mas, olhando ao redor, entendi que não havíamos viajado no tempo. A viela é um daqueles locais que nunca recebe a luz do Sol por causa das árvores e das construções ao redor. Então, não importa qual horário o seu relógio esteja marcando, lá dentro é sempre fim de tarde. Mas não um fim de tarde qualquer, e sim um fim de tarde dentro de um conto de Egdar Allan Poe ou de H. P. Lovecraft.
E agora vocês estão pensando que, sob o olhar do gato e esta atmosfera sombria, qualquer pessoa normal daria meia volta, retornaria para casa, trancaria as portas, e sairia dali somente três dias depois, depois de vender o apartamento. Bem, nós realmente havíamos percebido algo estranho, mas não demos muita atenção a isso.
Estávamos tranquilos, basicamente, por causa do nome da rua.
Veja bem: se aquela pequena e estreita rua de paralelepípedos se chamasse “Vila dás Árvores Mortas” ou “Beco da Morte Horrível”, teríamos mudado nosso caminho e desistido de entrar ali. Não precisava ser nada explícito ou sanguinolento, como “Viela do Homem que Anda Arrastando um Machado e Mata os Incautos” ou “Acesso Você Não Vai Sair Vivo Daqui, Babaca”. Nada disso. Poderia ser algo discreto, até elegante, mas que ao menos sinalizasse às pessoas sobre o mal que se esconde lá dentro.
Agora, vocês têm que concordar comigo: quem desconfiaria que rua com o nome de “Travessa Roberto Santos” seria assombrada? Eu não tenho medo de uma força maligna que se esconde nas entranhas de uma rua chamada “Travessa Roberto Santos”. Mesmo porque não seria uma força maligna de respeito, tampouco muito ambiciosa.
Mas confesso que comecei a mudar de ideia logo depois de terminar a curva e dar de cara com as crianças. À frente de cada casa havia um carro estacionado. E, ao redor de um dos veículos, quatro crianças (um menino e três meninas) estavam ajoelhadas no meio da rua, interessados em alguma coisa que se escondia sobre o automóvel.
Como elas ignoraram totalmente nossa presença, continuamos andando. De onde estávamos, víamos a vila inteira. Já podíamos dar meia volta e ir embora dali. Mas algo nos impelia a andar até o final dela.
Algo nos chamava até o muro, feito de cimento escuro e coberto por musgo.
Continuamos caminhando e nos aproximamos das crianças, que tentavam atrair quem – ou o que – estava sob o carro para fora de seu esconderijo. Ainda entretidas com isso, não deram a menor atenção para nós. Passamos por elas e fomos até o muro, que ficava num local definitivamente mais escuro que o resto da vila.
Metros atrás, nós estávamos no entardecer. Mas, ali no muro, era noite.
Ali no muro, era sempre noite.
De cada lado da pequena rua, portões feitos de grades de ferro separavam a última casa do muro. Curioso, observei atentamente cada um deles. O da esquerda era um beco sem saída: por trás do portão existia uma parede de tijolos obstruindo a passagem. Ou escondendo alguma coisa lá dentro. Ou mantendo algo aprisionado.
Seja o que for, não era nada bom.
Com os pelos da nuca arrepiados, olhei para o portão da direita. Lá, não havia parede de tijolos alguma, e, por trás das grades de ferro, era possível ver um corredor estreito e sombrio. Mesmo parado a metros de distância dele, era possível sentir a umidade do ar que vinha lá de dentro. E o cheiro... Desde que havíamos colocado os pés na viela, eu sentira um odor estranho, mas não havia dado muita atenção, acreditando que era alguma coisa nas árvores.
Agora estava claro para mim. O cheiro vinha lá de dentro.
O cheiro era de morte.
Senti a mão da Sra. Gordon apertando a minha.
– Vamos embora daqui – ela disse.
Eu concordei e demos meia volta. As crianças ainda estavam tentando capturar a criatura escondida sob o carro. Menos uma pequena menina, com cerca de oito anos, cabelos curtos e castanhos, que estava em pé. Olhando fixamente para nós.
Seus olhos, contudo, eram diferentes do normal, sem pupila ou esclerótica (esclerótica, para quem não sabe, é a parte branca do olho; eu também não sabia, fui pesquisar no Google). Seus olhos eram formados somente por enormes manchas negras, brilhantes e profundas. E estavam apontados diretamente para nós, com um ar que poderia ser tanto de “vaga curiosidade” como de “ódio profundo”.
Não era uma criança. Qualquer pessoa que assistiu a um episódio de Supernatural na vida sabe que somente os demônios têm olhos assim.
Aquele local era um ninho de criaturas infernais. Mas algo ainda não estava claro. O fato de serem apenas crianças me incomodou profundamente. Porque não havia sinal de adultos ali?
Foi quando eu reparei na posição dos carros estacionados. Eles estavam em fileira e totalmente apertados, com os pára-choques encostados; nenhum motorista, por mais experiente que fosse, conseguiria tirar qualquer veículo dali sem remover os outros carros.
Ou seja, os carros não eram usados há tempos. Anos, talvez.
Para mim, isso foi prova suficiente: não existiam adultos ali. As crianças-demônios haviam assassinado todos, e assumido o controle daquela ruela, transformando-a num playground infernal. E se divertiam matando animais e adultos inocentes que, por azar, entravam ali.
E, pelo olhar da pequena criatura infernal, os próximos adultos inocentes éramos nós.
Para nossa sorte, a criatura que se escondia embaixo do carro aproveitou este momento para tentar uma fuga desesperada. Era outro gato, branco e com manchas marrons e portando uma medalha dourada presa no pescoço – provavelmente, algo que o marcava como alvo de sacrifício – que balançou conforme ele correu para o outro da rua, sendo seguido pelas crianças-demônio, que correram atrás dele, gritando algo em um idioma incompreensível.
A menina dos olhos vidrados continuou nos encarando, mas, segundos depois, perdeu o interesse em nós, e saiu correndo na direção dos outros demônios, ajudando na perseguição.
Era nossa chance. Não poderíamos salvar o gato, mas tínhamos uma chance de escapar dali.
– Vamos embora daqui agora – eu disse, apertando o passo.
Fizemos o possível para ignorar os olhares das crianças às nossas costas – era possível sentir na pele que eles estavam nos observando. Mas, aparentemente, aqueles quatro demônios não eram nosso único problema.
– Meu Deus, tem outra criança ali! – gritou a Sra. Gordon, apontando para a janela ao lado da porta, na primeira casa do lado direito.
A janela estava aberta, mas não havia ninguém ali.
– Eu juro que vi uma criança ali, nos olhando com o canto do olho! – ela continuou. O terror em sua voz era genuíno.
Apertamos o passo e, quando estávamos quase na pequena curva que nos levaria para o início da viela ouvi um barulho à minha esquerda.
Virei a cabeça instintivamente na direção do ruído. A pequena janela da porta na primeira casa deste outro lado havia sido aberta. De dentro dela, era possível ver outro demônio nos encarando fixamente.
Provavelmente, era uma espécie de líder, pois parecia ser mais velho que os outros. Tinha cerca de 15 anos, e uma penugem ridícula no buço. Se não fossem os olhos totalmente negros, ele pareceria mais um office-boy que um demônio. Mas os olhos deixavam claro que era uma criatura das trevas.
Olhou atentamente em nossa direção por alguns segundos e fechou a janela novamente. Ao mesmo tempo, um enorme cachorro negro apareceu num pequeno portão ao lado de sua casa, latindo furiosamente para nós, e se atirando contra as grades.
– Este cachorro não estava aí antes! – gritou a Sra. Gordon.
– Esquece o cachorro, este portão não estava aí antes! – eu devolvi. E era verdade. Existiam apenas dois portões, mas nas últimas casas da vila. Na primeira casa não havia portão lateral nenhum quando passamos por ali.
Conforme o cachorro latia, fizemos a curva, deixando as crianças para trás e andando apressadamente. Mandei meus intestinos (que começavam a se revoltar dentro de mim) se comportarem, e nos aproximamos da entrada da viela. No meio do caminho, ouvi novamente o barulho de outra janela se abrindo atrás de mim, mas ignorei.
Ou melhor, não tive coragem de olhar.
Mas, conforme fomos nos aproximando da saída, a curiosidade falou mais alto e arrisquei uma olhadela para trás, por cima do ombro. A janela do segundo andar da casa do demônio-office-boy, que estava fechada quando entramos na viela, agora estava aberta. Mas não havia ninguém ali, somente duas cortinas balançando ao vento.
Alguém estava naquele quarto, aproveitando a escuridão para nos observar de dentro do aposento. O ódio que vinha lá de dentro era quase palpável.
Viramos a esquina rapidamente e nos apoiamos num muro para descansar e recuperar as forças nas pernas. Lá fora, o Sol brilhava e o ar era menos viciado.
O mal havia ficado para trás.
E eu jurei para mim mesmo que nunca mais sequer passo na entrada desta vila.
Entre mortos e feridos, salvaram-se todos. Quer dizer, menos o gato com a medalha no pescoço. Este, provavelmente, dançou. Mas, quando você está lutando por sua vida numa viela habitada por crianças-demônio, a regra é: cada um por si.
Em outras palavras: o gato que se foda.