9 de novembro de 2010

O Enigma das Cartas

Estava no correio agora de manhã.

Aliás, vale falar um pouco sobre a agência do Correio ao lado de casa. Eu passei anos sem entrar ali, mas, nas últimas semanas tenho visitado o local com frequência, enviando exemplares do meu livro. Assim, em pouco tempo os funcionários passaram a me reconhecer, já me cumprimentando quando coloco os pés ali. Eles apenas se atrapalham um pouco a respeito de como me chamar, já que eles não sabem se me chamam de Rob ou de... De... Bom, de outro nome que eu uso às vezes.

Mas quero falar do lugar em si. Talvez seja a única agência do Correio em todo o Brasil que é subterrânea: ela não funciona no térreo de um pequeno prédio, mas sim numa espécie de porão. Para entrar no Correio, é preciso descer uma rampa de uns três metros e, lá dentro, você fica abaixo da rua, já quase mergulhado nas entranhas de São Paulo. Se as histórias do Homem-Aranha fossem em Pinheiros, aquela agência do Correio seria o covil do Lagarto.

Por isso que toda vez que eu vou até ali me sinto como um membro da Resistência Francesa. Desço a rampa com minha boina e meu sobretudo, um cigarro no canto da boca e me aproximo da entrada da agência. Dou três batidinhas na porta e ouço alguém me pedindo a senha, em francês, lá de dentro.

Code?

Marselhese – eu respondo.

Pouvez entrer.

A porta se abre e entro rapidamente, na pequena agência, cujas paredes estão repletas de mapas das ruas de Paris, com alfinetes vermelhos marcando os quartéis nazistas. Este sou eu, un enfant de la Patrie, lutando pela liberdade.

Mas hoje, especificamente, não estava lutando por nada, e sim enviando um carregador de celular que meus amigos de Vitória (vocês se lembram do Marcha para Vitória, certo?) esqueceram em casa após passar o fim-de-semana em Paris, digo, em São Paulo.

Estava ali no balcão preenchendo o endereço na encomenda quando olho para o meu lado e vejo um habitante típico de Pinheiros.

Devia ter uns 25 anos e aquela carinha de três banhos por semana – e isso no calor, claro. Cabelos compridos, barba enorme, camiseta com alguma coisa escrita e bermuda. Nos pés, meias sociais pretas e tênis. Verdes.

Ele estava preenchendo dois envelopes ali ao meu lado. E claramente atrapalhado com algo.

– Você pode me ajudar? – ele perguntou.

Antes que eu pudesse responder, ouvi uma gritaria dentro da minha cabeça. Alguns dos meus neurônios haviam feito uma aposta sobre ele ser ou não um membro dos Los Hermanos e queriam que eu perguntasse isso a ele. Mandei todo mundo dentro da minha cabeça calar a boca e, respirando fundo, respondi:

– Pois não?

– Eu mando somente e-mail, e estou meio atrapalhado aqui com esta carta. Eu sou o destinatário?

Olhei ao redor procurando a câmera. Era pegadinha, com certeza. Como não vi nada, resolvi entrar na brincadeira.

– Depende. Você está enviando esta carta para você mesmo?

– Não.

– Então você é o remetente.

– Tem certeza?

– Destinatário é a pessoa que vai receber a carta. Remetente é quem envia.

– É isso mesmo?

– Sim. Destinatário é a pessoa a quem a carta se destina. É a pessoa que mora no destino. Remetente é quem remete.

– Então eu sou o remetente?

A expressão “não, na verdade, você é um imbecil” quase escapou pela minha boca, mas me segurei. Respondi que sim e ele me mostrou os dois envelopes.

– Então, esse endereço aqui [apontando para o remetente de um dos envelopes, com um nome já preenchido] eu coloco aqui [apontando para o campo do destinatário de outro envelope]?

Ou seja, ele já tinha preenchido errado.

– Eu não sei, não conheço essas pessoas. Faz o seguinte, você é o remetente. Qualquer outra pessoa é o destinatário. Decore isso.

– Beleza! Valeu!

– Ok.

Com meus neurônios agrupados ao redor de um computador, procurando fotos da banda na internet e trocando dinheiros de mãos (Marcelo Camelo era o favorito no banco de apostas, pagando 2 para 1) fui para fila.

Logo depois, o Hermano terminou de preencher os envelopes e me seguiu, parando atrás de mim na fila.

Enquanto esperava pela minha vez, ele, do nada, saiu correndo da agência, rampa acima. Foi até a rua e ficou observando alguma coisa. Voltou correndo e voltou para a fila. Cerca de trinta segundos depois, fez a mesma coisa: saiu correndo até a calçada, ficou procurando algo ao redor e voltou para a fila.

Mas, nas duas vezes, ele preencheu alguma coisa no envelope assim que entrou no Correio, antes de voltar para a fila.

A única coisa que me ocorreu é que ele estava preenchendo o campo do remetente em tempo real. Ele devia ter colocado o nome e o endereço da agência de correios (afinal, pela lógica dele, era de onde ele estava enviando a carta) e municiando aquilo com o máximo de informações possíveis, como “é a agência que tem um Vectra preto parado em frente”. Aí, de dentro da agência, ele viu que o Vectra tinha ido embora e precisou atualizar a informação, rabiscando algo como “é a agência que tem uma velha gordinha com uma sombrinha na calçada”.

Ou isso, ou alguém dentro do Correio havia batido boca com ele e encerrado a discussão com “vai ver se estou na esquina”, e ele resolveu levar isso ao pé da letra. Mas, como eu tinha quase certeza de que ele não havia falado com mais ninguém, assumi a teoria do remetente como a correta.

Não que tenha feito muita diferença. Antes mesmo de eu ser atendido, ele saiu correndo da agência, carregando o envelope pela terceira vez. Subiu a rampa correndo e nunca mais voltou. Ainda estou pensando sobre isso, mas não cheguei a nenhuma conclusão, apenas um Top 5 Motivos que Podem ter Feito o Hermano ter Saído do Correio:

1. Indignado que a velhinha que ele usara como referência no remetente havia se afastado em direção ao mercado, ele foi correndo atrás dela: “A senhora pode esperar na calçada do correio até esta carta ser entregue? Eu estou usando a senhora como referência no remetente”.

2. Foi telefonar para o destinatário e pedir que “você pode ficar sem sair de casa por uns dias? Porque eu estou enviando uma carta para você, preciso que tenha alguém aí para atender o carteiro, porque não tô colocando muita fé nesse negócio de remetente aqui”.

3. Mudou de idéia e resolveu enviar um e-mail mesmo, se perguntando “para qual endereço eu mando? Para o meu? Para o da pessoa? Merda, aquele carequinha no Correio deveria saber isso, eu devia ter perguntado”.

4. Com medo de errar o remetente e o destinatário, foi entregar a carta a pé: “Vim pessoalmente porque, caso você não possa recebê-la, eu fico sabendo na mesma hora. Melhor que o Correio, diz aí.

5. Achou aquilo tudo complicado demais e mudou de ideia: “Vou para casa fumar maconha, almoçar e dormir”.

19 comentários:

Lilian disse...

*balança a cabeça, sem fé na humanidade*

Eu não entendo como o cérebro das pessoas pode ser assim TÃO limitado. PQP.

Hally disse...

Tava sentindo falta do top 5... enfim, tenho de dar um jeito de comprar seu livro!

P.S.: Os típicos habitantes de Pinheiros são, como direi, bastante esquisitos. Sua descrição comprova!

Tyler Bazz disse...

Muito bom! AUHahuhaUHAu

Outra possibilidade... ele só usava e-mails. Talvez ele corresse até a porta da agência pra ver se tinha alguma mensagem chegando pra ele.

Mas esse sou só eu divagando.

Hydrachan disse...

"Depende. Você está enviando esta carta para você mesmo?"

Quem sabe? Num TOP 10 vc poderia acrescentar essa possibilidade. hehehe

Pior que eu atraio pessoas assim. Sério. Outro dia, na fila da Loteria, me surgiu um bêbado tentando pagar uma conta...
Mas ele conseguiu! XD

Rob Gordon disse...

Tyler:

"Ele chega no correio e pergunta para a atendente:

– Chegou algum e-mail para mim?

- Oi?

– Tem algum e-mail para mim aqui?

– É... Não... Creio que não.

– Nunca chega nada! Este antispam de vocês deve estar com problema. Amanhã eu volto."

#postdentrodopost

Pedro Lucas Rocha Cabral de Vasconcellos disse...

@lilian

E isso é o que as drogas fazem com você.

@post

Me lembrou o Leo de "That' 70s show", "hey maaan, como eu faço isso?"

hahahaha

Mauro disse...

Eu sigo a corrente do Tyler, talvez ele estivesse entrando e sainda pra "atualizar" a caixa de e-mails dele...

Sabia que um dia ia ouvir falar sobre alguém que nunca tinha utilizado o Correios...

Renata Santos disse...

Adorei! Fazia tempo que não tinha um post assim. Ri mto.
Acho que o Heramno colocou o envelope no fax e enviou! (infame)

Gilgomex™ disse...

Certo... Então o remetente é...???

Por favor, preciso saber. Quando seu livro chegar pra mim, você é o destinante??? Pq foi quem destinou a parada pra mim??? Por acaso eu sou o remetente pq vou meter um soco no cara do correio que sempre demora a chegar aqui e vou remeter a mão na cara dele?

Ou será que na realidade o cara do correio é que é o destiantário, pq e ele quem comanda o destino da parada lá???

Ou será que...

Kika disse...

Minha aposta?

Ele queria mandar a carta pro endereço do outro lado da rua do correio. Ia lá fora toda hora pra conferir se tava certa a numeração, rua, etc.

;)

Dragus disse...

Creio que: Foi entregar em mãos porque não tinha paciência de levar um dicionário sempre que fosse enviar carta.

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Admito que sempre tive problemas com o termo "remetente" por ser um que uso pouco (quando nunca, já que não envio cartas, apenas recebo - contas, claro), mas não entender a palavra destinatário é um atestado.

De que? Sua mente diabólica completa.

Kell Alves disse...

Eu voto no nº 2. de longe é o mais adequado.

Fã. disse...

Aaah.. ele deve ter ido até a porta da pessoa pra ter certeza q escreveu certo o endereço!!! :D

abçs rob...

ps. vc voltou pra Vitoria dps do "Enchente: Quem salvará Rob Gordon?" ??

Nelson disse...

Os Correios estão atrasados, eles deveriam trocar "remetente" e "destinatário" por "from" e "to".
A humanidade realmente não deu certo... o cara tem idade pra ter barba, coragem pra usar tênis verde e sem-vergonhice pra usar meia social... mas não sabe mandar uma encomenda. Triste.

E parece que os Correios tem problemas com agências normais. No próprio prédio da administração paulista dos Correios (Vila Leopoldina) a agência fica no subsolo. Dá a impressão que no meio da construção o engenheiro teve uma idéia genial: "Ow, quem sabe a gente não põe uma agência aqui?".

abraço Rob!

Varotto disse...

Camarada, tenho estado um pouco enrolado, então ando meio atrasado com meu cornograma de internetices e comentariagens, mas esse foi um dos melhores textos vinílicos dos últimos tempos.

Se você não existisse, tinha de ser inventado...

R. disse...

fã, ele não voltou a Vitória. e não foi por falta de convite :)

Ulisses Adirt disse...

Eu voto no 5.

Alessandra Costa disse...

Acho que eu nunca mandei uma carta, ao menos não que eu lembre, mas não saber o que é destinatário? Bom, até eu sei ...
"Depende. Você está enviando esta carta para você mesmo?" Pode ser que ele quisesse receber uma carta, não é?

Kel Sodre disse...

Ainda seguindo a corrente do Tyler, subir e descer a rampa da agência era o "enviar/receber" do momento.

Agora, se esse cara tivesse uns 12 anos, eu desculpava ele não saber quem era destinatário e quem era remetente. Mas com 25, né?