16 de novembro de 2010

Ela, Ele e o Tempo

Quando ela nasceu, o mundo era artesanal. Não existia televisão, e a grande diversão era ficar na varanda conversando – ou em silêncio, ouvindo os adultos batendo papo, como ela sempre me contou. Em alguns dias, saíam para visitar a casa de amigos e parentes, transformando a conversa, agora dentro da sala, em algo mais formal, quase em um evento.

Quando ele nasceu, o mundo era eletrônico. A televisão existia, mas poucos ainda a usavam – especialmente os jovens. Preferiam assistir a vídeos na internet, ao mesmo tempo em que baixavam músicas, editavam fotos e conversavam com os amigos. E, quando saíam de casa, celular na mão, sozinho na rua e conversando com dezenas de pessoas.

Conforme ela crescia, as cidades grandes ainda não eram tão grandes, e havia um toque de humanidade em tudo, desde o sujeito que acendia os lampiões nas esquinas até o leiteiro que passeava pelas ruas de carroça. Não existiam supermercados: as compras eram feitas ao lado de casa, e o dono da mercearia conhecia seus fregueses pelo nome.

Conforme ele cresceu, as cidades grandes eram maiores que o mundo. Milhões de carros congestionavam as ruas asfaltadas e iluminadas; milhões de apartamento cresciam da terra desafiando os céus. Luminosos com palavras e mensagens em outras línguas coloriam a paisagem, mostrando que o toque de humanidade agora era global.

Ela viu uma guerra mundial, enfrentando racionamento de comida, e torceu pelo seu país em dezoito Copas do Mundo. Viu o governo militar começar e terminar, o Muro de Berlim ser erguido e destruído, as Torres Gêmeas desabarem. Ela viu a TV nascer, se tornar colorida e ganhar centenas de novos canais. Em uma vida, ela viu um século.

Ele viu apenas uma Copa do Mundo – na verdade, metade de uma Copa – e uma eleição presidencial. Fora isso, não viu muita coisa: dormiu no colo do pai com um filme passando na televisão de madrugada; no colo da mãe, mamou enquanto o DVD de um seriado rodava preenchendo a sala com barulho. Em uma vida, ele viu tudo o que precisava.

Em décadas, ela criou uma família com muito custo, enfrentando uma batalha por dia. Ao lado do marido, guardou dinheiro para criar três filhas da melhor forma que conseguiu, permitindo que cada uma delas criasse sua própria família. Deu presentes de natal e brincou com seis netos, vendo tudo o que ela foi um dia e tudo o que ela sempre soube crescer neles.

Em meses, ele coloriu uma casa com cores que não existiam antes dele. Em apenas um dia, ele ganhou avós e tios, e mostrou aos seus pais que o amor pode não apenas tomar forma como ganhar vida. Ganhou presentes e não brincou ao certo com nenhum, pois está ocupado demais vivendo e, mesmo sem saber, carregando dentro de si uma herança de anos e anos.

Quis o tempo que estas décadas de experiências, lágrimas, vitórias, derrotas e sorrisos que separam as vidas de ambos deixassem de existir, em uma tarde qualquer.

Quis o tempo que o passado dela e o futuro dele se fundissem num presente, que, como o próprio nome indica, se tornou o maior presente que ambos poderiam receber.

Assim, quis o tempo que este pequeno momento ficasse guardado em imagens e sons que poderão viver mais do que eles imaginam. Quis o tempo que fosse eterno. E terno.

Quis o tempo que eu tivesse a honra de escrever sobre isso.





19 comentários:

Sil disse...

Que lindo Rob!

Sempre vale a pena celebrar a vida desta maneira.

Parabéns pela família abençoada que você tem.

Um beijo

Dudu disse...

A vida é feita de encontros e despedidas. Aliás, como diria Vinícius, "a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro nessa vida...".

É legal ter conversar com Deus, ou o que quer que vc acredite, tanto pra agradecer como pra pedir proteção. Tanto pra você qt para os entes queridos, que chegam e que vão.

Grande abraço!

Kell Alves disse...

Tão lindo... Queria muito ter palavras à altura para comentar mas elas me faltaram, talvez por causa desse nozinho aqui na garganta.

Dragus disse...

Ok, chorei.

Vc conseguiu.

rera disse...

Sempre que eu leio um texto seu eu penso "sensacional"

só não comento todos pra nao ficar muito repetitivo...

e parabéns para os pais do Eduardo :D

MaxReinert disse...

E não é que o guri é a cara da Famiglia????

hehehhehe

Já nasceu com cara de malvado!!!

Letícia disse...

Owun!!!!!! Voce pode não escrever sobre o amor deles, mas eles tem sorte de poder ler sobre outras coisas vindo de voce e se orgulharem, cada qual a sua maneira, do laço que têm com voce.

Nelson disse...

Pra variar, um lindo texto.

E hoje, infelizmente, a maioria das pessoas não enxerga a beleza das gerações se conhecerem.
Meus avós são da época em que o bairro da Pompéia era um matagal, e o bairro que eu moro hoje era uma fazendo dos Matarazzo.
Eu acho super bacana saber isso, e ainda por cima as pessoas lembrarem disso tudo.

abração Rob

Varotto disse...

Bonito...

Parabéns!

E aproveite enquanto ainda tem alguém menor do que você nessa família.

Anna disse...

Poxa, que coisa mais linda!
Seu sobrinho é uma coisa foooooofa!

Pedro Lucas Rocha Cabral de Vasconcellos disse...

primeiro, 2 posts seguidos em 2 dias? não acontecia desde o dia 20 e 19 de outubro...

E segundo, PORRA ROB, me fazendo chorar no quarto de novo??? até meu irmão já veio aqui perguntar se tava tudo bem...

avós e netos, uma relação muito especial.

Fernanda Fefis disse...

Que neném mais cuti ^^

Parabéns aos pais e ao tio babão hehehe...

Iza disse...

Sinto vontade de ter vivido no tempo dela. Torço para um mundo melhor neste tempo dele.

Natalia Máximo disse...

Lindo demais, Rob!
Tô doida pra virar titia e, acima de tudo, pra ver minha mãe vovó! Ela tem um jeito absurdo com a coisa!

Ana disse...

Queria ter aproveitado mais o que minha avó paterna tinha para contar sobre o início do século XX, afinal, ela nasceu em 1906. Morreu com 92 anos. Antonieta Buongermino Savini. Adoro o nome dela.
Ai ai esses seus textos sentimentais...

Pedro,
Você está regulando a frequência dos posts do Champ?
Hahahahahaha
Tenha medo, Rob Gordon, tenha muito medo!

Bia Nascimento disse...

Ahh esses seus posts falando de amor...

Otavio Oliveira disse...

qm n se emociona com isso é de pedra.

Gilgomex™ disse...

Muito bonito. Como sempre aliás. Aliás, bastante Chronicles, mas td bem...

Falando em Chronicles, eu não li seu livro ainda...

Mas minha mulher já leu (Má oeee...) e... Vc é um fdp... Agora ela olha pra mim e diz: "Pq vc não é assim?"

huehuehuehuheuheue...

pacabá.

Mas eu já disse pra ela que posso ser assim... Pelo menos na ficção.

Alessandra Costa disse...

Que post mais lindo, e que bebê mais lindo.