29 de abril de 2010

Uma Vida em Copas: México – 1986

(Texto anterior: Espanha - 1982)



Em 1986, eu não era uma pessoa muito diferente do que eu havia sido em 1982. Mas eu entendo isso apenas hoje, quando olho em retrospectiva. Pois o Rob Gordon de dez anos de idade certamente acharia o Rob Gordon de seis anos uma criancinha. Mas, hoje, o Rob Gordon de 34 anos sabe que os dois eram duas crianças, que mal entendiam o que acontecia ao seu redor.

Mas, se eu não havia mudado muito, minha vida estava totalmente diferente daquela que eu levava na última Copa do Mundo, especialmente no que diz respeito ao futebol. Ao voltar de Manaus, no final de 1982, voltamos a morar na mesma casa em que eu havia nascido, no bairro de Moema. Morava numa rua pequena – uma vilinha – com vinte casas e diversos moleques da minha idade. E (ao menos na minha rua) o coletivo de meninos era “time”.

Assim, boa parte da minha vida se resumia a futebol. Ou melhor, a futebol de rua, que tem regras um pouco diferentes das elaboradas pela Fifa, como “prensada é da defesa”, “não vale gol fazendo tabela com carro ou portão” e a clássica “vira 5, acaba 10”. E isso tanto nos jogos entre amigos (com goleiro-linha) ou nos clássicos com turmas de outras ruas que, normalmente acabavam em brigas.

Desta forma, eu passava o dia na rua (se eu ficava em casa, ou estava no quintal com a bola no pé, ou no meu quarto, jogando futebol de botão, seguindo os campeonatos enormes que meu pai montava para mim, com turno e returno), correndo atrás da bola, e, modéstia à parte, jogava razoavelmente bem para minha idade. Fazia gol de placa, fazia gol de bico, fazia gol dando chapéu e – minha especialidade – correndo para um lado e chutando a bola para o outro, deslocando o goleiro. Fazia gol de todos os tipos.

Os palcos dos jogos maiores (leia-se, com turmas de outros lugares), aconteciam no estacionamento de um supermercado ao lado de casa, que não existe mais. Hoje, ali, há um prédio com mais ou menos uns dez andares e habitado por pessoas que não fazem idéia das glórias que senti naquele lugar, ao fazer gols que definiram partidas, ao acertar passes de calcanhar ou, claro, ao colocar a bola entre as pernas de alguém, glória maior que um moleque de dez anos pode ter na vida.

E foi graças ao hábito de jogar bola o tempo todo que eu compreendi muito mais a Copa de 86 que a anterior. Enquanto a de 1982 foi uma enorme festa para mim, a de 86 foi meu primeiro campeonato de verdade, entre todas as Copas que vi. Além de entender mais o que estava acontecendo dentro de campo, em termos de passes e lançamentos, chutes e dribles, comecei a prestar atenção em alguns jogadores de nome, como o francês Platini, o argentino Maradona, o dinamarquês Lineker e o espanhol Butragueño.

E, como todo garoto brasileiro de 10 anos, eu depositei todas as minhas esperanças na seleção de Telê Santana. Afinal, no papel, o time era excelente: Careca, Zico, Sócrates comandavam uma equipe que reunia remanescentes do time mágico de 82 com diversos novos talentos do futebol.


Em pé: Sócrates, Elzo, Josimar, Edinho, Branco e Carlos.
Agachados: Toninho Cerezo, Müller, Júnior, Careca e Alemão.
Com 10 anos de idade, eu queria estar nesta foto. Agachado.

Mais uma vez, eu com apenas 10 anos de idade, sabia que não tinha como dar errado. Sabia que a Copa era nossa. E o fato da Copa ser realizada no México – o que remetia diretamente à Copa de 70, especialmente em todas as vinhetas da televisão – não ajudava em nada a frear isso.

Desde 1970, o México era território brasileiro, e os mexicanos adoravam nossa seleção. Ou seja, mais uma vez eu fui contagiado pelo talento de jogadores que eu apenas havia ouvido falar, como Pelé, Rivelino, Jairzinho, Gérson. Mais uma vez, heróis que não eram os meus – mas sim do meu pai – me faziam acreditar que havia chegado o momento de eu ter os meus próprios heróis.

Com um time de astros e com o que eu jogava no estacionamento daquele supermercado, não havia modo de perdermos a Copa.

Assisti a todos os jogos do Brasil junto com meus amigos, na casa de um deles, menos a estréia do Brasil, quando derrotamos a Espanha com um gol de Sócrates e muita ajuda do árbitro – não me recordo onde eu vi este jogo, mas creio que foi na casa um tio.

Mas a partir do embate com a Argélia, que teve vitória do Brasil por 1 x 0, acompanhar os jogos com meus amigos virou uma espécie de ritual. Cerca de meia hora antes do jogo, começávamos a chegar à casa dele e assistíamos ali, no chão da sala.

Foi lá, do chão, entre pernas de adultos, que assisti às cenas mais inusitadas da Copa: os gols do lateral direito Josimar (um deles, do meio de campo, contra a Irlanda do Norte), que figuram entre os mais lindos da história do torneio e são as duas únicas coisas que ele fez na vida, desaparecendo por completo logo depois disso.


No dia seguinte ao jogo de estréia, eu comprei esta Placar.
Eu ainda compraria mais quatro revistas como esta.

E, desta forma, o Brasil foi para a segunda fase, mesmo sem empolgar a imprensa, mas encantando todos os meninos de 10 anos que assistiam aos jogos sentados no chão gelado daquela casa. E, quando o juiz apitava o final de cada partida, já estávamos na rua, com uma bola nos pés e nos separando em times, ou com bombinhas na mão, prontos para explodir o muro da Velha Louca – toda rua que tem uma turma de moleques obrigatoriamente possui uma Velha Louca, e não seria diferente na minha rua.

E foi encantando aquela turma de meninos que o Brasil deu um verdadeiro show contra a Polônia, ganhando de 4 x 0 nas oitavas de final. Estávamos nas quartas – mesma fase que havíamos sido eliminados em 1982 – e pegaríamos a França, um dos times mais fortes do torneio.

A imprensa começou a eleger o jogo como a final antecipada da Copa e a expectativa era grande. Mas eu tinha um problema maior que o medo de Platini.

Poucos dias antes do jogo, meus pais me avisaram que assistiríamos à partida na casa de um parente (acho que um tio-avô meu), pois era aniversário dele. Eu protestei, insistindo que eu deveria assistir na casa do meu amigo, já que isso havia dado sorte em todas as partidas. Mas, quando você tem dez anos de idade, seu poder de vetar algo dentro de casa é nulo.

Fomos.

E foi lá que, em meio a dezenas de pessoas que eu não conhecia, e ao redor de uma televisão colocada sobre uma mesa num gramado, vi o Brasil abrir o placar e a França empatar. Fiquei com medo. O Brasil não havia levado um gol sequer, até então.

Mas foi lá também, naquele quintal, que vi o lateral Branco cair na área e o juiz marcar pênalti, na metade do segundo tempo. Lembro claramente das pessoas ao meu redor – e dos jogadores brasileiros – celebrando como se fosse um gol.

Eu comemorei também, pois tudo estava resolvido. Bastava fazer 2 x 1 e estaríamos na semifinal. Prometi a mim mesmo que eu assistiria aos dois jogos seguintes na casa do meu amigo (ou seja, sem risco de perdermos), de qualquer jeito. Não importa o que meus pais falassem, eu não daria mais sopa para o azar. Bastava apenas converter aquele pênalti. Era tudo o que precisávamos. Os últimos quatro anos da minha vida e os próximos quatro estavam ali, concentrados naquele pênalti.

Acho que fiquei quase cinco minutos estático, sem conseguir falar, após Bats defender o chute de Zico. Acho que o Brasil inteiro teve esta reação. Passei anos amaldiçoando o jogador do Flamengo por isso.

Eu ainda não havia me recuperado totalmente deste baque no final da prorrogação. A partida iria para os pênaltis e, de repente, em surpreendi temendo – de verdade – que o pior poderia acontecer.

Zico bate o pênalti contra a França.
Segundos depois, a Copa de 1986 acabaria para mim.

Três cenas me marcaram muito ao longo da disputa de pênaltis. A que eu mais lembro, claro, é cobrança francesa na qual a bola explodiu na trave, voltou, acertou as costas do goleiro Carlos e entrou. Ali eu vi que estava tudo perdido. Ali eu soube que comigo as coisas sempre seriam mais difíceis e que se você gosta de futebol, a vida pode ser ingrata demais às vezes.

Mas dois outros momentos permanecem na minha memória. Na metade da disputa, alguém, tentando fazer graça, desligou a TV gritando que “amanhã nós vemos nos jornais”. Muita gente riu, outros gritaram fazendo bagunça, e a TV foi religada rapidamente. As pessoas voltaram a assistir.

Menos eu. Eu fiquei alguns segundos em silêncio, olhando com ódio aquela pessoa e provavelmente o jurando de morte. Como alguém podia brincar desta forma com o que eu estava passando? Como alguém podia tratar o meu sofrimento e minha angústia desta maneira? Será que ninguém percebia que eu estava prestes a passar novamente por toda aquela dor que havia sentido quatro anos antes?

O outro momento foi antes da cobrança de Platini, quando ele beijou a bola antes de arrumá-la para chutar. Imediatamente após este gesto do craque francês, meu pai se abaixou atrás de mim e sussurrou:

– Ele vai chutar esta bola na torcida.

Ele não falou com voz de torcedor, mas sim como quem atesta um fato, como se já soubesse o que iria acontecer, como se tivesse vindo do futuro com o resultado escondido no bolso. E eu, desesperado, me agarrei a isso com unhas e dentes.

Dito e feito. Bola para a torcida. A partir daquele dia, eu nunca mais duvidei das previsões do meu pai sobre futebol, coisas que ele repetiria muitas vezes ainda, com uma margem de acerto impressionante.

Mas o erro de Platini não foi a salvação brasileira, foi apenas um suspiro aliviado que adiou o pior por alguns instantes. Foi a melhora antes da morte.

A cobrança de Júlio César explodiu na trave, e a França converteu mais um.

Estávamos fora da Copa. Eu olhei para o meu pai desesperado, procurando alguma ajuda, algum consolo, algum resquício de que ainda tinha jeito. Não tinha. Ele resmungou um palavrão, e mais nada.

Não era justo. Eu não havia feito nada de errado, eu não precisava passar por tudo aquilo de novo. Porque eram sempre os outros meninos de dez anos que podiam comemorar as Copas do Mundo e não eu? Porque eu era obrigado a viver de glórias que foram conquistadas antes mesmo de eu nascer?

Talvez tenha sido neste dia que eu me tornei pessimista, adivinhando que “vai ser sempre assim”.

Eu estava errado, e hoje sei que nem sempre você perde. Você perde mais que ganha, mas nem sempre perde. Contudo, isso é difícil demais de entender quando você está no meio de uma derrota, e impossível de se compreender quando você tem dez anos de idade.

Passei o resto do dia amaldiçoando meus pais em silêncio, culpando-os pela derrota. Com a sabedoria arrogante dos 10 anos de idade, eu tinha a certeza de que se tivesse assistido ao jogo na casa dos meus amigos, tudo teria sido diferente. Eles eram tão responsáveis pela desclassificação do Brasil quanto os jogadores da França.

Meu ódio diminuiu apenas à noite. Voltamos para casa e eu fui direto para a rua, compartilhar minha dor com meus amigos. Era tudo o que eu precisava. Porque os adultos já conversavam sobre outros jogos, arriscando palpites sobre quem levaria a Copa para casa. Tudo o que eu precisava era encontrar pessoas que estivessem passando pela mesma dor que eu, que entendessem o que eu estava sentindo. E queria ficar apenas em silêncio com eles, sem jogar bola. Naquela noite, eu não queria driblar ninguém, não queria marcar gol nenhum.

E, aparentemente, meu pai, que, além de ter sido moleque um dia, carrega o fardo da Copa de 50 nas costas, entendia o que eu precisava melhor que ninguém. Naquele 21 de junho, ao invés da minha mãe me chamar para entrar e dormir por volta das 10 da noite, ela o fez quase meia-noite. E, entrando em casa, perguntei o motivo disso, e ela respondeu:

– Seu pai deixou você ficar na rua até mais tarde hoje.

Eu entrei e fui dormir. No dia seguinte, Maradona marcaria um dos gols mais bonitos da história das Copas (e outro, que entraria na lista dos mais roubados) contra a Inglaterra, e, conseqüentemente, levaria a Argentina ao título, literalmente ganhando a Copa sozinho, a exemplo do que Garrincha havia feito em 1962.


Era deles.
E, desta vez, eu tinha idade para entender isso.

Mas confesso que não me recordo disso. Certamente eu assisti aos jogos, mas não me recordo. A Copa havia acabado para mim dias antes.

Mas, quando os jogadores argentinos ergueram a taça após derrotar a Alemanha por 3 x 2, eu já sabia que seria campeão do mundo inúmeras vezes pelos próximos quatro anos, mas somente no estacionamento do supermercado ao lado de casa. Eu passaria pelo menos mais quatro anos levantando taças imaginárias.

E, pior, eu tinha apenas que me conformar com o fato de que meus gols não valiam nada, absolutamente nada, fora daquele estacionamento.

(Próximo Texto: Itália – 1990)

27 de abril de 2010

Carta Aberta TUM! ao Pedreiro do TUM! Apartamento de TUM! Cima

Caro TUM! pedreiro:

Eu sei TUM! que, como TUM! encarregado da TUM! reforma no TUM! apartamento acima TUM! do meu, TUM! TUM! TUM! você está apenas TUM! cumprindo seu TUM! dever, e TUM! acredito que TUM! você desempenhe TUM! TUM! esta função TUM! de forma exemplar. Aliás, TUM! TUM! TUM! eu não apenas TUM! acredito, eu tenho TUM! certeza. Na verdade, TUM! eu ouço TUM! você desempenhando TUM! a sua TUM! função de forma TUM! exemplar.

Este é TUM! justamente o TUM! motivo TUM! desta carta. Sim, TUM! TUM! eu sei que TUM! você precisa TUM! martelar um monte TUM! TUM! de coisas para atingir TUM! seu objetivo, mas TUM! porque você TUM! precisa começar TUM! a martelar justamente TUM! quando TUM! eu estou ao TUM! TUM! telefone ou quando TUM! está TUM! passando TUM! algo que me interessa TUM! na televisão? Por TUM! que no exato TUM! momento em que TUM! eu entrei TUM! no banho, TUM! por exemplo, TUM! você parou de TUM! martelar e a TUM! minha casa foi TUM! dominada TUM! por um silêncio TUM! TUM! delicioso?

TUM! Mas, tudo TUM! bem. TUM! Eu concordo TUM! com TUM! você que TUM! não TUM! é culpa TUM! sua que TUM! eu ando TUM! num nível TUM! de TUM! stress altíssimo, e TUM! TUM! TUM! que TUM! determinados TUM! barulhos – como o TUM! de pancadas TUM! de martelo TUM! em paredes – TUM! fazem com TUM! que eu TUM! comece a TUM! TUM! me TUM! irritar de TUM! tal forma que TUM!, em poucos minutos, TUM! minha TUM! vontade é subir TUM! até o seu TUM! local de TUM! trabalho e TUM! derrubar o TUM! que resta da TUM! merda TUM! da parede TUM! com meus TUM! pés TUM! e TUM! assassiná-lo com o martelo. TUM! TUM!

Não, TUM! não TUM! é culpa sua TUM! que a reforma TUM! está acontecendo. E TUM! TUM! não é culpa TUM! sua que estou estressadíssimo TUM!. Também não é TUM! TUM! culpa sua TUM! o fato TUM! de eu TUM! não ter TUM! mais conexão TUM! TUM! na TUM! Internet, e o TUM! pessoal do Terra TUM! mandar eu TUM! ligar para TUM! o Speedy TUM! TUM! e o pessoal TUM! do Speedy TUM! sugerir que TUM! eu entre TUM! em contato TUM! com o Terra TUM!? Não TUM! é culpa TUM! sua que TUM! eu tenho TUM! TUM! um evento TUM! hoje, que TUM! requer o TUM! TUM! uso de TUM! terno TUM! e TUM! gravata, e eu TUM! não consigo TUM! fechar o TUM! botão do TUM! colarinho, TUM! o que TUM! me dá TUM! TUM! vontade de gritar, TUM! TUM! arrancar a TUM! camisa, TUM! levá-la TUM! até a varanda e TUM! queimá-la.

Nada disso TUM! TUM! é culpa sua. TUM! Os problemas são TUM! meus TUM! e você apenas TUM! cumpre TUM! ordens.

Mas, se você TUM! cumpre ordens TUM!, é sinal TUM! de que TUM! alguém as TUM! TUM! deu. E, não TUM!, não TUM! me TUM! interessa TUM! quem foi. Não TUM! TUM! quero saber se TUM! elas vieram TUM! TUM! da dona TUM! TUM! do apartamento TUM! TUM!, da imobiliária TUM! TUM! ou do Espírito TUM! TUM! Santo.

Só quero TUM! que você TUM! avise aos TUM! seus superiores TUM! TUM! (sejam TUM! eles TUM! quem forem), que TUM! TUM!, este ano, TUM! TUM! The Pacific será TUM! lançado em TUM! Blu-ray no TUM! Brasil. Sabe, TUM! The Pacific? Aquela TUM! minissérie da HBO TUM! ambientada na 2ª TUM! Guerra Mundial, TUM! cheia de tiros, TUM! TUM! explosões, aviões? TUM! TUM! Então, ela TUM! TUM! será lançada este TUM! TUM! ano em Blu-ray.

Aproveite TUM! e avise TUM! a eles, TUM! também, que TUM! até hoje o TUM! meu home TUM! theater nunca TUM! ficou num TUM! volume acima TUM! TUM! de 45, mas TUM! TUM! que ele TUM! TUM! chega, TUM! TUM! na verdade, TUM! até 70. E, TUM! caso TUM! eles TUM! não TUM! saibam TUM! TUM! TUM! disso, meu TUM! home theater TUM! é completo TUM!, com TUM! cinco TUM! caixas de som TUM! e um subwoofer. TUM!

Aproveitando, TUM! caso eles TUM! estejam se TUM! sentindo seguros TUM! devido à TUM! Lei do TUM! Silêncio, que TUM! proíbe barulhos TUM! altos após TUM! as 22:00, informe TUM! a eles TUM! que eu TUM! tenho uma TUM! semana de folga TUM! para tirar.

E, por TUM! fim, TUM! um último TUM! recado: TUM! como estou TUM! bastante estressado, TUM! minha memória TUM! TUM! anda ridiculamente TUM! TUM! péssima. Mas TUM! existem certas TUM! coisas das TUM! quais eu TUM! TUM! não esqueço. TUM! TUM! E isso se TUM! TUM! deve ao TUM! fato de TUM! que sou TUM! extremamente rancoroso TUM!. E vingativo. TUM! E, sim, TUM! barulhento.

TUM! Atenciosamente

Rob TUM! Gordon

23 de abril de 2010

Uma Vida em Copas: Espanha – 1982

(texto anterior: Argentina - 1978)



É impossível não associar futebol com dor. Pegue a primeira frase do filme Alta Fidelidade (“eu escuto música pop porque sou infeliz, ou sou infeliz porque escuto música pop?”) e troque o “eu escuto música pop” por “eu torço por um time de futebol” e ela continua verdadeira.

Se amar é sofrer, os torcedores de futebol são as primeiras pessoas a descobrir isso, bem antes de terem idade para ver relacionamentos terminarem de forma impiedosa; bem antes de passarem os sábados à noite em casa se sentindo rejeitados; bem antes de terem o coração partido por alguém. Não estou falando aqui dos simpatizantes, mas sim dos fanáticos. Aquelas pessoas que, durante 90 minutos, depositam toda a sua felicidade nos pés de onze pessoas que nem sabem que ele existe.

Eu me tornei uma pessoa dessas em 1982.

Neste ano, eu morava em Manaus. Não sei se já contei isso aqui no blog, mas eu e minha família moramos na capital do Amazonas por dois anos, pois meu pai foi trabalhar lá. Então, se você gosta deste blog, tenha bastante carinho por esta cidade, pois foi em Manaus que aprendi a ler e a escrever, nas mãos de uma professora gordinha e morena chamada Cinelândia – felizmente, a didática dela era muito melhor que o gosto dos seus pais para escolher nomes.

Assim, eu passei o período entre os anos de 1980 e 1982 usando apenas shorts de pano e suando, acima do Equador. Morávamos numa casa que poderia ser chamada de mansão: enorme, com jardim interno e um quintal enorme, palco das minhas aventuras ao lado do meu primeiro melhor amigo, um boxer que foi alugado junto com a casa (não, não pergunte, mas é isso mesmo: ele pertencia à casa) chamado Billy. Na verdade, o Billy não era o meu cachorro: eu era o menino do Billy, e ele me defendia de tudo e de todos, com uma lealdade comovente (para mim) e assustadora (para os outros).

E foi em Manaus que algumas das minhas paixões surgiram.


A cidade que me ensinou a ler.

Aliás, minto: não são minhas paixões, sou eu. Alguns dos elementos que me definem como pessoa surgiram justamente nesta época; como aprendi a ler em Manaus, foi aí que mergulhei fundo no mundo dos quadrinhos. E, por causa da Zona Franca, tínhamos em casa um videocassete e um Atari, numa época em que as pessoas aqui em São Paulo provavelmente estavam apenas começando a ouvir falar disso. E foi ao lado do meu irmão, gravando o Corujão todas as noites (para assistirmos no dia seguinte) e jogando Atari nas férias, que me apaixonei por cinema e por games.

Quadrinhos, cinema, games. São três dos pontos cardeais da minha vida. Faltava apenas um.

E ele surgiu na forma do futebol.

Foi em Manaus que eu me apaixonei perdidamente por futebol. Eu já assistia a jogos em São Paulo, antes de 1980, com meu pai. E adorava, a ponto de detestar com todas as minhas forças um zagueiro do Palmeiras, de cabelos quase brancos, devido a sua especialidade: ficar em cima da linha e impedir os gols dos adversários (somente anos depois eu descobriria que o moço dos cabelos brancos se chamava Rocha). Mas a paixão mesmo começou em Manaus.

E como eu não acompanhava nenhum time local – e não me lembro de ver jogos do São Paulo na TV enquanto morava em Manaus – meu palpite é que o futebol entrou na minha vida de verdade, justamente por causa da Copa da Espanha. O fato de eu ter diversas fotos da época com uma camisa do Brasil apenas reforça isso.

Provavelmente, a grande influência disso veio, novamente, do meu pai. Meses antes da Copa, seu pai faleceu, e isso resultou numa das cenas mais doloridas da minha vida, algo que nunca mais consegui apagar da minha cabeça. Não me lembro se foi quando meu avô faleceu ou se quando descobriram que isso iria acontecer logo e de forma inevitável. Lembro-me apenas do meu pai sentado numa poltrona, de costas para o jardim interno, com a cabeça abaixada, apoiada numa mão.

Eu estava a metros dele e vi a cena por uns três segundos, mas nunca mais a esqueci.

Foi, talvez, a primeira vez em que percebi que meu pai era humano. Até aquele momento, ele era o maior homem do mundo para mim; indestrutível. Mas, durante aqueles poucos segundos, eu nunca havia visto, até então, alguém se sentindo tão pequeno como ele. Lembro apenas de ficar olhando meio assustado, de longe, até minha mãe tocar no meu ombro e dizer:

– Deixe o seu pai sozinho um pouco.

E eu saí da sala, ainda assustado e sem entender direito porque ele precisava ficar sozinho. Não sei se ele chorou sozinho, mas sei que ele está chorando agora enquanto lê, da mesma forma que eu estou chorando enquanto escrevo. E hoje isso faz muito sentido para mim. Hoje eu compreendo que parentes são aqueles que almoçam com você todos os domingos; mas família, mesmo, são aquelas poucas pessoas que choram junto com você, mesmo décadas depois.

Enquanto isso tudo acontecia, o resto do mundo, alheio ao fato do meu avô ter morrido, preparava-se para a Copa do Mundo. Provavelmente, assim como alguém que se divorcia normalmente afoga suas mágoas nos braços de outra pessoa, meu pai, ainda abalado pela perda, mergulhou de cabeça na Copa do Mundo, elegendo-a como seu alento.

E me levou junto nisso.

Mas, cá entre nós, seria impossível ser moleque, gostar de futebol e não se apaixonar por aquele time. A melhor seleção brasileira desde o time de 1970 entrou como franca favorita, com uma constelação de craques de fazer inveja a qualquer país: Zico, Sócrates, Falcão, Júnior, Toninho Cerezo. E, com o futebol que essa equipe jogava, somado ao início da luta pelo fim do governo militar, o país estava realmente unido (“de repente é aquela corrente pra frente, parece que todo o Brasil deu a mão”, cantava a marchinha composta para a Copa de 70 e adotada para a de 82, e que eu sei canto baixinho até hoje), de olho nos gramados da Espanha.


Em pé: Waldir Peres, Oscar, Leandro, Falcão, Luisinho e Júnior.
Agachados: Dirceu, Sócrates, Serginho, Zico e Éder.
Mesmo sem a taça, este é o meu Brasil de 70.

E foi junto com o país inteiro que eu me assustei quando, de repente, tomamos um gol logo na estréia, contra a União Soviética (que eu, criança, chamava de “Ursis”, que é como eu lia o URSS que aparecia na tela). Mas não tive tempo nem de sentir medo, mesmo com o Brasil jogando mal. Aos 30 do segundo tempo, Sócrates empatou, e, pouco antes do final, Éder virou o jogo, no primeiro “gol mais lindo do mundo” que vi na vida.

O resto da primeira fase foi tranqüilo para o time. 4 x 1 contra a Escócia, 4 x 0 contra a Nova Zelândia. Mas não foi tranqüilo para mim. A cada jogo, eu descobria países que nunca havia ouvido falar na vida. Países, idiomas, bandeiras, nomes repletos de consoantes. E nunca me esqueci da risada que minha mãe deu quando eu, estudando uma tabela da Copa, contei a ela que “hoje vai ter o jogo das comidas”, me referindo a Peru X Camarões.

Eu estava totalmente entregue. Eu respirava futebol o dia todo. Assim que acabavam os jogos do Brasil, eu prendia o cachorro na corrente e ficava chutando a bola no quintal, horas e horas, com minha camisa do Brasil. E, sim, era preciso prender o cachorro, pois senão ele destruiria a bola. Era uma das regras da casa: para jogar bola, era preciso prender o cachorro.

E, com o Billy preso e minha bola solta, eu me transformava em Zico, em Sócrates, em Júnior. O gramado do meu quintal era a Espanha, e a torcida não parava de gritar meu nome, a cada drible, a cada passe, a cada chute.

Mas nada do que eu fiz com aquela bola, no gramado da minha casa, chegou perto do que a Seleção Brasileira fez com a Argentina, no primeiro jogo da segunda fase. 3 x 1. Os então campeões do mundo, nossos maiores rivais, caíram de forma incontestável – Maradona, inconformado com o resultado, foi expulso após dar uma voadora no Batista.

Hoje, para mim, isso seria o jogo dos sonhos, mas, naquela época, foi apenas mais um jogo – eu nem mesmo me lembro dos gols. Na época, eu não tinha problemas com a seleção Argentina como qualquer brasileiro que goste de futebol tem. Brasil 3 X 1 Argentina é considerado um dos maiores jogos da história das copas. Mas, para mim, foi apenas mais um jogo do Brasil. Foi apenas mais uma festa.

Medo? Jamais. Aquele time jamais perderia. E isso não aos meus olhos de criança, mas sim aos olhos do mundo todo. E o próximo adversário era a Itália, que fazia uma campanha pífia no Mundial – e nós ainda tínhamos a vantagem do empate.

Mas junto com a Itália, veio Paolo Rossi.

Existem dias que tudo sai errado. Aquele 5 de julho de 1982 foi um desses. Não cabe aqui tentar encontrar motivos. Um grande amigo meu diz que “jogo bonito não ganha taça”, enquanto meu pai fala que o grande erro daquele mundial foi o Telê Santana ter mandando o Serginho se comportar em campo.


Os dois gols italianos haviam sido apenas um susto...

Faz diferença, hoje? Nenhuma.

Mas se os motivos não importam mais, a dor continua a mesma.

Algumas imagens permanecem indeléveis na minha cabeça. Aquela imagem clássica, de Falcão correndo com os braços abertos, veias abertas, comemorando o 2 x 2... Eu me lembro daquilo como se tivesse sido agora, horas atrás. Porque, naquela hora, ainda dava. Naquela hora, a Copa ainda era nossa, porque aquela Copa sempre havia sido nossa.


...porque ainda dava. Ainda era nossa.
Por mais seis minutos, ainda era nossa.

Os gols da Itália haviam sido um susto, e mais nada. Igual ao que havia acontecido no jogo com a “Ursis”. Se você não sabe, a Itália abriu o placar, e o Brasil empatou; a Itália fez 2 x 1, e o Brasil empatou. No gol do Falcão, ainda dava.

Até que a Itália fez 3 x 2. Até que o jogo acabou.

Até que a Copa – a minha Copa – acabou.

Anos depois, fiquei sabendo que, assim que o juiz apitou o final do jogo, meu pai desceu correndo para o terraço, onde tínhamos uma mesa de bilhar, e apagou correndo o 5 x 2 que havia escrito com giz, no feltro verde, antes que eu visse. Mas, na hora, eu não sabia disso.

Eu não sabia de nada. Eu estava transtornado.

Eu não lembro ao certo o que fiz na frente da televisão. Provavelmente minha mente bloqueou algumas memórias. Mas lembro de descer até a sala, ao lado da minha família. E me lembro do silêncio. E me lembro claramente de, ainda usando a camisa do Brasil, colocar o pé no gramado, ao lado do cachorro.

E me lembro de ver a bola na minha frente.

Sei que, com ódio, com lágrimas, com dor, fechei os olhos e chutei com toda a minha força. Antes de ela parar de rolar, ela estava furada entre os dentes do cachorro, se esvaziando aos poucos, da mesma forma que eu. Foi aí que eu comecei a chorar. Foi só aí que eu me sentei no gramado e comecei a chorar compulsivamente, finalmente entendendo que a Copa havia acabado para mim.

Foi a primeira vez, na minha vida, que eu experimentei o gosto da derrota.

Eu queria chorar desde o terceiro gol italiano, mas talvez eu tenha acreditado que começar a chorar seria abrir mão de qualquer esperança. Se eu chorasse durante o jogo, eu estaria selando a derrota. E havia tempo. Eu queria acreditar que o Brasil ainda empataria. Era apenas um gol, e o time havia feito tantos...

E não sei por que me recusei a chorar quando o jogo acabou – talvez meu instinto de sobrevivência estivesse tentando evitar que eu me tornasse uma daquelas pessoas aficionadas por futebol, que sofreria o resto da vida por causa de um esporte.

Se eu chorasse naquele momento, colocaria os pés numa estrada sem volta, e passaria o resto da vida chorando por causa de futebol. Meu cérebro, tentando me salvar disso, lutou desesperadamente para me impedir de chorar naquele momento. Talvez se eu não chorasse naquele momento, o futebol seria apenas um lazer para mim, não uma paixão. E, com isso, eu seria uma pessoa muito mais feliz.

Mas eu já estava irremediavelmente apaixonado e machucado.

Após todos os jogos anteriores do Brasil, eu era um craque, e jogava com a camisa 10.

Após o Brasil X Itália, eu era um menino de seis anos, confuso e desorientado, sem saber o que fazer com aquela dor insuportável que rasgava meu peito e que não diminuía de jeito algum. Por isso eu chorei aquele dia. Chorei desgraçadamente, vendo meu primeiro grande sonho se esfacelar nas mãos de um italiano que eu nem conhecia.


Para o mundo, apenas um centroavante mediano.
Para um menino de seis anos, um monstro. No pior sentido.
Não me lembro de mais nada da Copa, a não ser dos jogadores italianos, dias depois, dando a volta olímpica, com a taça nas mãos. Com a minha taça nas mãos.

Três ou quatro meses depois, meu outro avô, pai da minha mãe, morreu. Sim, eu perdi meus dois avôs num espaço de seis meses. A porra de um câncer filho da puta roubou os dois de mim. Mesmo tendo duas avós maravilhosas, eu cresci sem avô nenhum.

Era hora de retornarmos para São Paulo.

Voltamos no final de 1982. O cachorro ficou lá – foi a minha outra grande perda do ano – mas a dor que eu senti, naquele 5 de julho, veio comigo na bagagem.

E ela ainda está aqui.

(Próximo texto: México – 1986)

(Nota do blog: este texto está fechado para comentários por motivos de spam)

22 de abril de 2010

Rob Gordon X Terra

Uma manhã dessas, liguei meu PC e assim que conectei, vi que algo estava errado.

O Messenger e o Gtalk não conectavam, o Outlook não conseguia baixar os e-mails. Abri o navegador e pronto: um aviso multicolorido surgiu na minha frente, dizendo que eu deveria trocar minha senha no Terra urgentemente. Faltaram apenas as sirenes, alertando os vizinhos de que algo estava errado na minha conexão.

Curioso, liguei para lá e a atendente me explicou que estavam fazendo uma espécie de recadastramento, a pedido do Speedy. Aparentemente, o Terra fez alguma cagada (claro que a menina não falou isso), e estavam ocorrendo muitos acessos em duplicidade (isso, sim, ela disse). Assim, gerei uma nova senha e pronto. Eu estava novamente no mundo online.

À noite, voltei para casa e fui ver meus e-mails. Novamente, o aviso para trocar a senha.

Acendi um cigarro, contei até cinco e liguei para o Terra.

Desta vez, quem me atendeu foi uma gravação, daquelas empolgadas. Será que o pessoal destas empresas não se toca que você só liga ali quando está com algum problema, e, num caso desses, ser atendido por alguém gritando “oooooi, amigão!” não ajuda muito?

Enfim, a gravação soltou um “se você está recebendo um aviso para trocar sua senha, disque dois!”, e eu apertei 2. Ela continuou: “se você está inadimplente com o Terra, disque 1. Caso contrário, disque 2!”, e eu apertei o 2 de novo.

Comecei a me sentir como um chimpanzé num laboratório. Estava quase me sentando encolhido no sofá, para arrancar piolhos da minha cabeça e comê-los, decidido a apertar o dois o tempo todo até ganhar uma banana, quando a gravação surgiu novamente.

– Para agilizar seu atendimento, disque agora o número do seu CPF.

Eu disquei na mesma hora. Afinal, o CPF tem 11 algarismos. Isso com certeza faria com que eu ganhasse, no mínimo, um cacho de bananas. Talvez até um chocolate.

De repente, a gincana acabou. Uma voz humana surgiu do nada.

– Terra, Plasticolina, em que posso ajudá-lo?

Abandonei meu status chimpanzé e voltei a ser o Homo Azedus.

– Como assim, em que pode me ajudar? Eu já digitei todas as informações necessárias explicando qual o meu problema. Você já devia saber como pode me ajudar. Aliás, você já deveria estar ajudando.

– Senhor, preciso saber qual o problema antes de lhe atender.

Suspirei e expliquei tudo novamente, desta vez usando palavras e não teclas do telefone, e acrescentando que “antes que você pergunte, sim, minha mensalidade está em dia”. Mas tem gente que insiste em brincar com perigo.

– O senhor pode me passar seu CPF?

Eu sei, estávamos no telefone. Mas confiem em mim: a olhei nos olhos atentamente – devo ter estreitado meus olhos em algum momento – e mordi levemente o lábio antes de responder:

– Não.

Se esta história fosse um romance policial ambientado num castelo, todos os personagens (reunidos na sala de jantar, logo após terem descoberto que um dos convidados havia sido assassinado com uma punhalada nas costas) teriam ouvido um trovão logo após esta declaração.

Mas não era nada disso. Era apenas uma conversa na minha sala, por telefone, com a atendente do Terra. Ou seja, não tivemos trovões, relâmpagos, nada. Apenas alguns momentos de silêncio, que denunciaram o fato de que a atendente deve, ao menos, ter parado e pensado em como se livrar de mim o mais rápido possível.

Para azar dela, porém, ela resolveu seguir pelo caminho óbvio:

– Eu preciso do número do CPF para entrar no seu cadastro.

– Eu não duvido disso.

– Qual o número, senhor?

– Olhe só que coincidência: o número do meu CPF é exatamente igual ao mesmo número do CPF que eu digitei há um minuto. Quer mais uma coincidência? Eu digitei esse número porque a gravação pediu, justamente, o número do meu CPF, assim como você. E, olhe só! A gravação trabalha no Terra! Você também trabalha no Terra, certo? Putz! O dia, hoje, está cheio de coincidências!

– Senhor, sem o número do seu CPF eu não consigo acessar o seu cadastro.

– Eu sei disso. Mas isso é um problema acadêmico, porque você tem o número aí. Olhe, eu não sei qual o relacionamento que você tem com a gravação. Não sei se ela é sua chefe, ou se você é chefe dela, mas ela tem o número do meu CPF. Acho que você deveria ir pegar esta informação com ela. E pode ir tranqüila, porque, quando ela falou comigo, me pareceu ser uma gravação super prestativa. E foi bastante educada. Talvez tenha sido pouco empolgada demais, mas quem sou eu para julgar isso? Deve ser só o jeito dela.

– Senhor, sem o número do seu CPF eu não consigo acessar o seu cadastro.

Ela repetiu a mesma frase, palavra por palavra. Um impulso no meu cérebro me fez começar a morrer de vontade de trabalhar em cima disso. Abordando o assunto de forma correta, em menos de meia hora eu teria conseguido convencer a Plasticolina de que ela também era uma gravação, mesmo sem saber disso. E que agora era o momento de pegar em armas e começar uma revolução no escritório.

Estava já pensando a todo vapor em qual trecho da conversa eu usaria a frase: “Plasticolina, você é a escolhida e este é o seu destino”, mas fui atrapalhado pelo som do meu PC choramingando baixinho. Ele queria navegar na internet. Assim, apaguei o plano da minha mente, mas ainda joguei uma última carta na mesa.

– Eu conto o meu CPF para você, mas antes eu quero perguntar uma coisa.

– Sim, senhor.

– Porque eu tive que digitar o CPF agora há pouco? Qual foi a finalidade disso?

– Agilizar o atendimento, senhor.

– Sim, a gravação disse isso. Mas não agilizou muito, certo? Teria agilizado se você já estivesse acessando meu cadastro. Então, qual foi o motivo? É alguma superstição da gravação?

– Senhor, eu preciso do seu CPF, caso contrário eu não tenho como acessar seu cadastro.

A tentação de convencer a Plasticolina sobre a revolução armada começou a esquentar de novo. Sacudi a cabeça, pensando “Foco, Rob Gordon, foco” e entreguei os pontos.

– Ah, tá bom. AAA. BBB. CCC - DD.

– Senhor, aqui diz que é necessário criar uma nova senha para acessar a internet.

– Aqui diz isso também. Se eu quisesse saber disso, eu não precisaria ter ligado.

– Basta gerar uma nova senha e o senhor acessará a internet novamente.

– Mas aí eu acessarei a internet para sempre?

– Como assim, senhor?

– Porque eu fiz isso hoje pela manhã. Ou seja, a senha durou umas 12 horas. Será que agora eu consigo uma que dure até o final de semana?

– Estou gerando uma senha nova, senhor. Pode anotar?

Relevei o fato de que ela me ignorou. Ela ditou a nova senha e eu anotei.

– Algo mais, senhor?

Não, Plasticolina, você não iria me enganar assim. Eu sou bobo, mas mesmo para isso há limites.

– Sim. Você vai aguardar na linha até eu testar esta nova senha.

Evidentemente, ela começou a suar frio. Digitei a nova senha e conectei.

Nada.

– Plasticolina?

– Sim?

– Está aparecendo um aviso aqui pedindo para eu trocar minha senha. Diz aqui que é para eu ligar no Terra. Você é do Terra, certo? Posso aproveitar que você está aqui comigo e trocar minha senha?

– A senha não funcionou?

– Não. E a próxima não vai funcionar também, aposto. Mas a gente vai trocando, eu não tenho pressa.

– Senhor, o problema deve ser no seu modem. A senha aqui está ok.

– Aqui, não. E ela precisa estar ok nos dois lugares, acredito.

– O modem do senhor está com algum defeito.

– Não, Plasticolina. Meu modem estava funcionando até ontem, normalmente. A única coisa diferente que eu fiz foi trocar a senha. E eu troquei a senha para limpar alguma cagada que vocês fizeram com o Speedy. Então o defeito não está no modem, o defeito está em vocês.

Pensei em ligar o stallone mode: on e dizer, neste momento, que o telemarketing é uma doença e eu sou a cura, mas tive preguiça de ir até a cozinha procurar um palito de dentes para colocar na boca.

– Nós podemos estar agendando uma visita do suporte técnico.

As expressões “estar agendando” e “suporte técnico” foram demais para mim. Comecei a ter visões de mim mesmo, tendo crises nervosas porque o sujeito do Terra não aparecia na hora marcada, deixando para dar as caras somente quando eu não estivesse em casa. Meus olhos se encheram de lágrimas. Resmunguei “vou estar pensando se vou estar agendando a visita e vou estar ligando depois” e desliguei.

Reiniciei o PC, reiniciei o modem e tentei novamente. Nada. Fui dormir.

No dia seguinte, quando acordei, fui até o PC e ele estava conectado. Sabe-se lá como, ele conectou sozinho, baixou meus e-mails e conectou tanto o Messenger quando o Gtalk. Abri o Firefox e naveguei por todas as páginas que quis.

Eu estava online novamente. Tudo bem que não faço a menor idéia de como isso aconteceu, mas o PC estava conectado.

Agora, o meu problema é outro: faz dias que meu PC está ligado. Afinal, e o medo de desligar a máquina, quebrar o encanto e ter que lidar com a Plasticolina novamente?

21 de abril de 2010

A Vida Como Ela É


Família. Casamento. Amor. Confiança. Desconfiança. Filhos. Terceira idade. Decadência. Rebeldia. Dinheiro. Riqueza. Pobreza. Amantes. Paixões. Jogo. Sexo. Assassinato. Prostituição. Drogas. Terapia. Carência. Pais. Sangue. Laços de Sangue. Irmãos. Primos. Funerais. Armas. Corpos. Homossexualismo. Namoradas. Jantares. Crises. Sonhos. Traição. Esclerose. Vinho. Charutos. Hospitais. Contrabando. Vícios. Brigas. Natal. Asilo. Câncer. Dívidas. Assaltos. Médicos. Empréstimos. Pânico. Barcos. Cadeia. Apostas. Governo. Pesadelos. Vingança. Lealdade. Trauma. Tiros. Facadas. Redenção. Erros. Acertos. Patos. Morte. Vida. Máfia.

End o’ story.

Homenagem deste blog à melhor série dramática de todos os tempos.

19 de abril de 2010

Uma Vida em Copas: Argentina - 1978

(Texto Anterior: Introdução)


É estranho começar uma série de textos sobre a Copa, justamente por uma Copa da qual não me lembro de absolutamente nada. Em 1978, eu tinha dois anos – completaria três somente em setembro – e curiosamente, não tenho nenhuma imagem ou lembrança da Copa.

O “curiosamente” entrou na frase acima porque eu possuo, sim, algumas memórias desta época. Uma delas é particularmente forte. Eu estava no meu quarto, no segundo andar, brincando com a empregada, quando ouvi um barulho estranho na rua, semelhante a uma sirene de ambulância ou de bombeiros, mas muito mais baixo. Corri para a janela e vi minha mãe, fechando o portão de casa, com um carrinho de brinquedo na mão. Era uma espécie de Fusca, vermelho, como se fosse dos bombeiros, e estava com a sirene ligada.

Era um presente para mim.

Tive esse Fusca vermelho durante muitos anos, mas um dia ele sumiu. Eu não o perdi, ele apenas sumiu, em algum momento do final da minha infância. Mas a imagem da minha mãe fechando o portão de casa com ele na mão persiste na minha memória. Talvez seja a primeira recordação nítida que eu tenho dela e talvez esta seja a primeira associação que eu tenho com a idéia de amor, de proteção.

E, não, não é pelo presente em si, mas sim pela idéia de você estar em casa e alguém, na rua, ter se lembrado de você. Seja como for, essa imagem me acompanha até hoje – com som de sirene e tudo. E a recordação mais forte que eu tenho dessa época.

Existem outras, claro, mas são meio difusas. Lembro de me deitar ao lado do meu pai, no chão da sala, para ver futebol aos sábados à tarde. Lembro de um dia ter ficado feliz por voltar de algum lugar, a pé, com minha mãe e, ao virar a esquina, ver o carro do meu avô estacionado na frente de casa.

E me lembro, muito, de como eu sonhava com brinquedos. Na infância, eu sonhava muito com brinquedos e, numa espécie de “sonho dentro do sonho”, tirava os brinquedos de dentro do meu sonho (como se o sonho fosse um balão de histórias em quadrinhos, colocado acima da minha cabeça), ainda dormindo, e os colocava ao lado do travesseiro, esperando encontrá-los ali quando acordasse, na manha seguinte. Mas eles nunca estavam lá no dia seguinte, haviam ido embora para algum lugar.

Mesmo com todas estas lembranças, eu não me lembro de quase nada desta época. Assim, logicamente, não me lembro de nada desta Copa. Tudo o que eu sei sobre o time de Cláudio Coutinho, que tinha Zico, Reinaldo, Oscar e Roberto Dinamite, aprendi anos depois. O que não deixa de ser bom, já que, se eu fosse um pouco mais crescido, provavelmente teria quebrado algum objeto na sala quando o juiz invalidou o gol de cabeça do Zico contra a Suécia, apitando o final do primeiro tempo após uma cobrança de escanteio – com a bola ainda no ar.

Uma das muitas escalações no Brasil na Copa.
Em pé: Nelinho, Leão, Oscar, Amaral, Batista e Rodrigues Neto.
Agachados: Gil, Toninho Cerezo, Jorge Mendonça, Roberto Dinamite e Dirceu


Mas, se eu não consigo me lembrar da Copa de 1978, consigo imaginá-la. Já fiz isso várias vezes. Vejo meus pais e meus avôs sentados na sala da minha casa, sofrendo com os jogos. Meu pai e meu avô – sogro dele e de quem eu herdei a paixão pelo São Paulo – devem ter comentado em algum momento que o time do Brasil era bom (mas não na primeira fase, porque a equipe não se encontrou nos três primeiros jogos).

E, entre um gole de uísque e outro, meu pai arrisca que o time tem chances, especialmente porque a Holanda não tem o Cruyff (que se recusou a jogar o torneio em protesto ao governo militar da Argentina), e a Polônia, mesmo com o Lato em campo, era apenas isso: a Polônia; já meu avô rebate que não, que a Argentina já comprou a Copa.

Eu? Provavelmente estava sentado no chão da sala, encantado com tudo aquilo, com a movimentação, com a ansiedade que deixava o ar elétrico. Provavelmente, estava mais entretido com tudo isso – e com os amendoins que minha mãe deve ter servido – do que com os jogos em si. Tem muita fumaça no ar, somente minha avó não fuma. Mas o curioso mesmo é sempre que imagino isso, o chão da sala está coberto de papel picado, igual a todos os gramados de todos os jogos desta Copa.

Talvez a frustração desta Copa não tenha sido tão grande, pois o Brasil foi eliminado sem perder. Quem não conhece a história, após empatar com a Argentina em 0 x 0 (no jogo que ficou conhecido como a Batalha de Rosário), o Brasil se classificaria se a Argentina derrotasse o Peru por quatro gols de diferença, mas ela o fez por seis. 6 x 0. Um dos maiores escândalos da história do torneio, com várias suspeitas (que perduram até hoje) de que a seleção peruana havia se vendido. Papel picado, manobras de bastidores... Mesmo sem me lembrar da Copa de 1978, eu sei que ela foi uma espécie de Libertadores da América.

Chicão mostra a que veio na Batalha de Rosário

E, até onde conheço meu pai, ainda no primeiro tempo de Argentina X Peru ele deve ter soltado um “esta merda está comprada”. E não falou isso conformado, mas com raiva. E, quando acabou o jogo, minha mãe certamente perguntou um “e agora?”, sem entender direito a tabela do campeonato – ela nunca entendeu direito as tabelas.

E eu devo ter continuado ali, no chão da sala. Devo ter ficado muito triste, sim, mas não porque o Brasil estava eliminado, e sim porque todo mundo ao meu redor estava triste, então eu devo ter achado que o melhor a fazer era ficar triste também.

Na final, a Argentina derrotou a Holanda por 3 X 1. O Brasil ficou com o terceiro lugar, vencendo a Itália por 1 x 0, gol de Nelinho. Não sei se meu pai comemorou o gol, mas, se o fez, foi apenas porque era contra a Itália, seleção que ele nunca gostara e que (mesmo ainda sem saber disso), passaria a odiar com todas as suas forças, muito em breve. E eu também.


Num mar de papel picado, a Argentina ganha sua primeira Copa.

Mas isso aconteceria somente depois de alguns anos. Porque, ainda em 1978, na noite em que o Brasil foi eliminado, eu certamente dormi em paz e tranqüilo. Não deitei na cama amaldiçoando a vida, não fiquei apontando vilões nem me remoendo, pensando nos “e se?” que a gente sempre pensa nesse dias – e eu sei bem disso, porque ainda teria muitos dias desses na minha vida.

Mas, não. Naquela noite, eu dormi alheio a tudo isso. Não havia Copa, não havia seleção do Peru se vendendo, nem disputa de terceiro lugar. Nomes como Kempes, Passarela e Ardilles não significavam absolutamente nada para mim.

Naquela noite, eu me deitei torcendo para sonhar com brinquedos e, finalmente, conseguir roubá-los para mim.

(Próximo texto: Espanha - 1982)

18 de abril de 2010

Os 300 do Champ

Vou ser sincero, agora.

Tem horas que sim, eu realmente desanimo com o blog. Não a ponto de jogar tudo para o alto, apagar o blog e ir tocar minha vida longe de vocês. É apenas um desânimo. Mas ele existe. Na verdade, estes desânimos existem em qualquer situação – desde relacionamentos a emprego – então, não seria diferente com o blog.

Os motivos são vários, apesar de nenhum exatamente “sério”. Passam pela falta de inspiração ocasional que acomete todo mundo, chegando às expectativas altas demais (que eu mesmo crio) em relação a um ou outro texto específico. Sim, existem textos que eu termino de escrever certo de que são algumas das melhores coisas que escrevi na vida, mas que, ao serem publicados aqui, passam batido por quem lê.

Mas acho que isso também acontece com todo mundo que escreve.

Por outro lado, algumas das recompensas de se ter um blog são enormes. Especialmente quando se tem um blog pessoal. Afinal, aqui não existem apenas textos, o que existe aqui sou eu. Se o texto está engraçado, é porque estou leve; se ele está triste, é porque estou também.

Ou seja, o Champ não tem apenas textos publicados, o Champ tem a mim publicado.

Cada texto é formado por palavras agrupadas de forma a montar um retrato dentre os vários que poderiam ser tirados de mim (tanto ao longo do dia, se você pegar um texto só; como ao longo dos últimos anos, se você analisar o blog como um todo).

E aí caímos na questão do gênio.

Já faz algum tempo que me incomoda a quantidade de “genial” e “você é um gênio” que recebo nos comentários. E o que me incomoda não é receber um comentário desses – quem não gostaria? – mas sim a quantidade deles, que sugere levemente que a coisa poderia estar no automático. Uma leitora, Camila, escancarou isso no post Sonhos de Kurosawa Gordon IV, apontando que eu recebo “sempre os mesmos comentários...”.

O comentário dela me fez pensar muito. Me fez questionar se não está tudo “no automático” demais por aqui. Eu escrevo, sou gênio; eu escrevo, sou gênio - e não estou me gabando não, mesmo porque 1) basta fuçar nos comentários antigos para ver que isso é verdade, e 2) se existe alguém no mundo que tem certeza de que não sou um gênio, sou eu. Conversando com algumas pessoas, cheguei até mesmo a pensar em escrever um texto horrível por aqui, somente para ver a reação das pessoas.

E foi remoendo este assunto por dias, que eu encontrei uma explicação.

Quanto aos textos engraçados e mais leves, isso é facilmente compreensível. Afinal, cada leitor é diferente e lê meus textos em momentos diferentes – não é porque uma pessoa gargalhou com um texto meu pela manhã, que outra não tem o direito de gargalhar mais com ele à noite.

Me lembrei agora de uma entrevista do Lemmy, vocalista e baixista do Motörhead. Ao ser perguntado se ele não estava cansado de ter que tocar Ace of Spades (o maior sucesso da banda) em todos os shows de 30 anos para cá, ele respondeu que precisa partir do princípio que, em todos os shows, existe alguém na platéia que nunca viu o Motörhead ao vivo, e quer ver a banda tocar Ace of Spades. “Eu não tenho o direito de privá-lo disso somente porque o resto do público já viu esta música ao vivo”, ele disse.

É a mesma coisa aqui. Ao menos, nos textos mais leves, mais cotidianos, mais engraçados. Se os leitores "cantam junto os refrões do blog" nos comentários, melhor. O texto atingiu o que eu queria.

Mas é a respeito dos textos mais sérios, aqueles nos quais que eu escancaro aqui o que estou sentindo, que a história é outra. E eu só consegui entender perfeitamente isso recentemente.

Normalmente, quando eu publico um texto destes, os comentários que recebo simplesmente pegam tudo aquilo que estou sentindo ou vivendo, e jogam uma nova luz sobre tudo.

Concordando ou discordando, vocês levantam questões, contam histórias parecidas - ou desabafam, em alguns casos –, opinam, jogam verdades na minha cara e se inconformam com o mundo lá fora. Vocês pegam a minha idéia e extraem tudo dela, discutindo o assunto nos comentários.

Em outras palavras: os gênios são vocês. Eu apenas escrevo.

Então, hoje eu tenho consciência de que muitos dos "genial!" que recebo aqui não são direcionados a mim, mas sim ao blog como um todo. E, com o número de leitores que tenho, foi-se o tempo em que eu fazia este blog sozinho.

Cada um de vocês tem participação nisso; cada um de vocês tem um quinhão desses diversos "genial!" que são soprados aqui.

Se o bem maior de uma empresa é o conjunto de seus funcionários, o de um blog é, certamente, seus leitores. Não, não são os textos. Um texto bom é o mínimo que se pode esperar de um blog; a grande riqueza dele, mesmo, são os leitores.

E, neste ponto, o Champ é muito rico. Uma vez me perguntaram se eu achava o meu blog o melhor do mundo, e minha resposta foi sincera: “não, está bem longe disso; mas não posso negar que alguns comentários que recebo são não apenas melhores que os meus textos, mas sim melhores que os textos de 80% dos outros blogs”.

Assim, chegamos a maior recompensa de se ter um blog pessoal: não é ser chamado de gênio – por mais que sim, eu adore os elogios –, mas sim ter, como seguidores, 300 gênios, que estão aqui diariamente fazendo este blog melhorar a cada dia.

Ou, se vocês me permitem, estão transformando, a cada dia, este blog em algo genial.

Sim, 300.

O Champ atingiu esta marca na semana passada. E, como de costume, os novos seguidores merecem, no mínimo, uma menção especial:

Assim,

Sandro Lima, NiNah, Alexandre Câmara, Danilo, Danilo Alves, Thiago, Li, André Caniato, Fee, Hanna Paterno Coutinho Ferreira, Marcello Mussa Amaral, Fernando Mozol, Yole, Whatzzupmand, Tenda, MizLilian, José Mahon, Luiza Dias, Felipe Lima, Melindabauer, L. Inafuko, Guto, Carol Barros, Anderson M. França, Medley, Carolina Tapajóz, Moni Duraes, Daniel, E., Lua Durand, Cidadão Entretido, Um conselho:, Jessie, Juju, Edson Telesca Filho, Meu Veneno, Bia, F. Pocow, Cami, Dianna Montenegro, Silvia Helena, Daniela Viana, Carlos, Mariana Hauer, Carol, Nih_x, Tuíla, Dani, Naná, Gabis, Pucci, Kika, Daniel de Araujo Dutra, Fernanda, Caaaah, Cristiane Scopel, The Writer, Paloma Souza, Milla Pupo, José Almeida, Dani Cavalhero, Carlos Cruz Junior, , Tally M., Pedro Lucas Rocha Cabral de Vasconcelos, Talita.marianocarneiro, GraveHeart, Amós Cavalcanti, Diego OldSkull, Toad – Matheus H., Jamila Carvalho, Bruno T., Fabio Luis Stoer, **Dona Cris**, Mizu, Laura Rodrigues, Andreia,Mandy, Sebo Livraria Caixa Preta, Rafiki, Eduardo Aldo, BiAa AlpEr, Carol, Arlete soffiatti, Pavarini, José de Almeida, Brunacarolina, DahDah, Sergio Miranda, Menudo-jonas, Edu Ribeiro, Sayu, Gui Barreto, F., Glauco Guimarães, Cynthia, Mary, Juliana, Isabella, Pai é quem Cria!!, Simone dos Santos Silva, Théo, Jéssica Rosa, Sharla, Humbas, Ajpc.vsc, Luilton, Patricia, Fly, Sergiotoscano, Lyllyca, Carlota, Lucas Casasco, Evandro Correia, Elaine Rufo, Hillken, Tendasscelular, Camila, Ju - mãe da Letícia e Danielle Lourenço:

Sejam bem vindos e muito obrigado por tudo.

P.S. - Leitores mais atentos perceberão novamente que a contagem ultrapassa os 100 nomes. Isso porque o sistema de contagem dos seguidores do blog é bastante confuso. Fiz o melhor que pude para listar os últimos 100, mas é impossível ser preciso, já que alguns leitores mudam de nome, ou até mesmo de cadastro. Se você estiver na relação acima e já esteve nos posts anteriores deste estilo, me avise. E se você estiver listado acima, e seu blog não estiver linkado, favor deixar o endereço nos comentários, para eu arrumar.

15 de abril de 2010

Uma Vida em Copas - Introdução

Copa do Mundo.

Só o nome já mexe comigo. Demais. Copas do Mundo são tão importantes para mim que me arrisco a dizer que gosto mais delas do que de futebol em geral. O que, convenhamos, não é exatamente difícil. Claro que sou apaixonado pelo meu time, mas quem gosta de futebol sabe o quanto é incômodo ligar a televisão e assistir a um São Bento X Guarani quando uma Copa do Mundo está surgindo no horizonte.

Na verdade, eu me arrisco a dizer aqui que futebol e Copa do Mundo são coisas diferentes. Copa do Mundo é algo muito maior que simplesmente um campeonato de futebol. Gols, defesas e lances de Copa são lembrados e discutidos por anos, décadas até, em mesas de bar e programas de televisão. São momentos que entram para a história (não para a história do esporte, mas sim como marcos de uma época).

Por exemplo, eu ainda coloco o drible de corpo do Pelé sobre o goleiro uruguaio Mazurkiewicz, na Copa de 70, como uma das maiores realizações da raça humana. Sim, o gol do Rei sobre o Mão de Onça foi muito, muito mais bonito. Mas o drible sobre o arqueiro uruguaio não aconteceu num Campeonato Paulista, mas numa semifinal de Copa.

Campeonatos de futebol possuem jogadores e atletas.

Já Copas do Mundo possuem heróis e vilões. Copas do Mundo possuem mitos.

Talvez o meu modo de encarar as Copas do Mundo seja herança direta do meu pai.

Os jogadores do tricampeonato brasileiro são, talvez, os maiores heróis do meu pai. Ele sabe as escalações, os nomes completos, quem jogava em qual time. Alguns jogos – não apenas de Copa – ele consegue se lembrar até mesmo da data. Beira o autismo. E isso não porque ele leu ou decorou, mas porque sua vida foi marcada por estes eventos.

Não era difícil, na minha adolescência, eu e meus amigos ficarmos horas na sala da minha casa, escutando, maravilhados, enquanto ele contava histórias sobre jogos, dribles e gols, que, na voz dele, se transformavam em duelos inesquecíveis, truques mágicos e conquistas heróicas. Assim, graças a ele, cresci assistindo, dentro da minha mente, os dribles desconcertantes de Garrincha no meio de soviéticos gigantescos, a bomba de Carlos Alberto que jogou a pá de cal no túmulo italiano, as arrancadas de Jairzinho pelos gramados mexicanos ou os carrinhos inconseqüentes de Vavá na pequena área sueca.

Qualquer criança que passasse a infância ouvindo sobre isso certamente se interessaria pelo assunto. Mas uma criança que passasse a infância ouvindo essas histórias narradas com a paixão do meu pai, certamente se apaixonaria também.

Foi o que aconteceu comigo. Tornei-me um obcecado pelo assunto. Não um estudioso que coleciona estatísticas ou que decora resultados. Sim, eu sei todos os campeões e todos os países-sede de cor e salteado, e, se eu estiver inspirado (ou bêbado) o suficiente, consigo recitar os vice-campeões também. E, claro, sei os resultados de alguns jogos. Mas não consigo, por exemplo, recitar a escalação da Espanha de 1986, ou me lembrar de cabeça quais foram todos os jogos das oitavas de final de 1994.

Minha obsessão com a Copa é puramente emocional.

A cada quatro anos, existe um mês, um único mês, em que eu abandono todos os meus heróis, sejam eles dos cinemas, da música, ou dos quadrinhos, e venero somente aqueles poucos heróis (e odeio com esta mesma intensidade alguns dos vilões) que correm por aquele gramado. Entrego minha felicidade a eles e, justamente na busca por esta felicidade, choro, rio, faço promessas, tenho superstições, abraços pessoas que acabei de conhecer e grito. Grito com força, tudo aquilo que esperei quatro anos para gritar.

Ao mesmo tempo, acompanho todos os jogos, anoto resultados em tabelas, faço projeções e adivinhações, estudo escalações, táticas e revejo gols, sabendo que tive a sorte de assistir a lances que pessoas que serão lembrados daqui a muito, muito tempo.

A cada quatro anos, existe um mês, um único mês em que nada mais existe para mim.

Talvez seja por isso que as Copas do Mundo sejam tão marcantes na minha vida. Não me lembro com exatidão de todos os lances de todas as Copas que vi (o que é contraditório, já que sei de cor muitas jogadas de Copas que não assisti), mas me lembro com perfeição da pessoa que eu era e o que eu estava vivendo em cada uma destas Copas. E, acreditem, a cada quatro anos, muita coisa muda na sua vida.

Assim, de hoje até a o início da Copa, em 11 de junho, vou realizar um sonho antigo, e tentar contar a história da minha vida de uma forma diferente, abordando cada um dos torneios mundiais que vi. Cada Copa num post diferente, que não terão data específica para publicação e serão intercalados com os posts habituais.

Alguns serão mais leves. Outros mais tristes. Alguns poderão ter momentos engraçados, outros podem fazer alguém mais desavisado se descobrir com os olhos cheios de lágrimas.

Afinal, as Copas do Mundo são exatamente assim.

E a vida também.


(Próximo texto: Argentina – 1978)

13 de abril de 2010

Sonhos de Kurosawa Gordon IV

Eu estava numa sala fechada e escura, com uma mesa de bilhar ao centro. Ao meu redor, estavam diversos personagens da serie Família Soprano. E eles estavam discutindo alguma coisa sobre o resto do macarrão que eu havia jantado, horas antes. Aparentemente, era imperativo que aquele macarrão sumisse. Foi quando eles me viram ali na sala.

– Você não é descendente de italiano?, perguntou um deles.

– Sou.

– Então você tem que ajudar a gente! Aquele macarrão precisa desaparecer antes que os judeus cheguem.

– Que judeus?, foi minha vez de perguntar.

– O pessoal da máfia judaica, mas isso não interessa para você! O que você precisa é ajudar a gente a desaparecer com aquele macarrão!

– Bom, se vocês acham que precisa....

– Você é italiano, não é?

– Bom, sou descendente...

– Então, pronto! Você é um dos nossos! Nós somos italianos também! Você tem que ajudar a gente, é a sua obrigação!

Dei-me por vencido.

– Bom, tudo bem. Eu sumo com o macarrão. Mas como eu vou fazer isso?

Foi Paulie Gualtieri quem surgiu de trás do grupo e, com seu tradicional jeito escroto e arrogante, me respondeu:

– Ei, é um macarrão! Se você tiver que comer, coma! Se vire! Só que eu não quero mais aquele macarrão ali!

– Ok, respondi.

Abri os olhos e me sentei na cama. O quarto estava escuro, mas eu precisava me livrar daquele macarrão. Deixei a Besta-Fera dormindo no quarto e me arrastei até a cozinha, pensando se eu agüentaria comer tudo, ou se eu iria jogar fora. E, caso eu fosse jogar fora, precisaria ser num lugar onde os mafiosos judeus não o encontrariam.

Atravessei a sala sem acender as luzes e entrei na cozinha. Coloquei a mão na porta da geladeira. Foi quando caí na real do tamanho do mico que eu estava passando.

Olhei no relógio, eram 4:30 da manhã.

Abri a geladeira e o macarrão estava lá.

Voltei para cama e dormi.

9 de abril de 2010

Rob Gordon X Mexericas

Se os cinco sentidos fossem matérias de faculdade, eu pegaria DP de Olfato todos os semestres. Eu ouço bem, meu paladar e meu tato são normais, mas meu olfato está longe de conseguir uma nota azul. Talvez porque como eu enxergue muito bem, meu organismo tenha achado que o olfato é meio supérfluo e que eu não preciso dele.

Eu, claro, já argumentei com meu cérebro que preciso de todos os cinco, que por mais que eu enxergue bem eu não consigo enxergar cheiros, mas meu cérebro sempre responde que “depois eu vejo”, e não me dá resposta alguma.

Então, eu não sou daquelas pessoas que não sentem cheiro algum, mas sou o último a sentir um cheiro. Se eu abraço alguém, sinto o cheiro dessa pessoa; se eu passo ao lado de um fogão, sinto o cheiro da comida. Mas se estou no meio de um grupo de pessoas e alguém solta um “vocês não estão sentindo um cheiro estranho?”, eu automaticamente já sou colocado para fora da conversa, porque não estou sentindo nada, não faço idéia do que estão falando. Sou sempre o último a sentir os cheiros.

Isso, claro, sem contar o cheiro de mexerica.

Eu tenho verdadeiro horror ao cheiro de mexerica. Quando eu acabava de almoçar e minha mãe começava a descascar mexerica, eu tinha que fugir – não da cozinha, mas da sala. O cheiro de mexerica me dá arrepios, me deixa tonto, me embrulha o estômago. Se o assassino de Jogos Mortais me colocasse numa sala, trancado, com algumas mexericas descascadas, eu iria dar um jeito de me matar instantaneamente lá dentro.

E, claro que como eu sou eu, quando se trata de mexericas, meu olfato funciona como o de um perdigueiro. Eu moro em Pinheiros, mas se alguém começa a descascar uma mexerica na Colômbia, eu começo a passar a mal. De verdade.

Por isso, eu evito as mexericas a qualquer custo. Na cadeia alimentar, as mexericas ocupam o degrau imediatamente acima do meu. Elas são predadoras, e eu sou a presa (a escala é mais ou menos assim: “grama – boi – Rob – mexericas – vermes”). Somos inimigos mortais.

E o grande problema das mexericas é que elas atacam quando se menos espera.

Hoje, por exemplo, cheguei ao trabalho e chamei o elevador. Mais ou menos meia hora depois, ele chegou e eu entrei. Apertei o botão do quinto andar e imediatamente após as portas se fecharem, ele surgiu.

Não sei por onde ele entrava – parecia entrar por todos os lados – mas o elevador foi inundado por ondas e ondas e ondas e ondas de cheiro de mexerica. O elevador ainda não estava no primeiro andar e eu estava começando a ficar tonto. E, pior, sem ter para onde correr. Me encostei em uma das paredes do elevador e comecei a respirar pela boca, procurando por uma saída.

Nada.

Eu estava trancado ali, no mundo encantado das mexericas.

O cheiro começou a se impregnar na minha roupa, na minha pele. Meu nariz começou a escorrer. Na hora, senti um pouco de alívio, achei que meu corpo estava contraindo gripe de forma proposital, para me defender daquilo. Mas logo eu comecei a ficar tonto e percebi que não era nada disso. O cheiro da mexerica havia entrado no meu organismo e estava dissolvendo meu cérebro, que começou a escorrer pelas minhas narinas.

Reunindo o pouco que me sobrava de consciência, comecei a tentar escalar a parede do elevador, como um animal preso numa armadilha. Claro que foi em vão. Minha pele começou a queimar. Olhei para o painel do elevador: terceiro andar.

Eu ia morrer.

Não, pior: eu ia morrer e ser embalsamado em mexericas, e ia passar a eternidade em agonia profunda.

Comecei a perder os sentidos – menos a porra do olfato, claro, que não parava de funcionar. Subitamente, eu não estava mais no elevador; eu estava correndo por campos e colinas, em meio a plantações quilométricas de mexericas, todas elas descascadas.

Subitamente, uma luz à minha frente me cegou. Um enorme túnel brilhante se abria à minha frente. Não havia mexericas nele. Na verdade, algo me dizia que lá dentro existia apenas cheiro de ovos com bacon. Pessoas dentro do túnel acenavam na minha direção, me convidando a entrar ali.

Comecei a caminhar na direção dele. Eu sabia que se colocasse o pé ali dentro, tudo ficaria em paz. Eu jamais sentiria cheiro de mexericas novamente. Continuei caminhando, e, mais perto do túnel, vi que o lugar era uma espécie de churrascaria: as pessoas lá dentro estavam sentadas em longas mesas, comendo fraldinha, picanha, cupim. Olhei de relance para os copos, e vi que bebiam Coca. Nenhum copo tinha gelo e limão. Estava tocando Iron Maiden lá dentro. Powerslave.

Meus olhos se encheram de lágrimas, mas elas viraram vapor imediatamente (eu ainda estava fora do túnel, lembram-se?). E as pessoas continuavam acenando e me convidando a entrar ali.

Faltavam apenas alguns passos.

E, de repente, eu caí.

Meus pulmões estavam queimando e eu abri a boca, desesperado por oxigênio. Aos poucos, abri os olhos e vi que estava no hall do quinto andar, na porta da redação. As portas do elevador se fecharam atrás de mim, e, aos poucos, o cheiro de mexerica se dissipou.

Ainda estou meio zonzo. As pessoas e objetos não são mais iguais ao que eram antes. Tudo esta diferente. Não é fácil ter uma experiência de quase-morte e permanecer ileso.

Mas, na dúvida, a partir de agora eu vou usar apenas as escadas. Prefiro morrer sem fôlego a morrer sem ar (sim, são coisas diferentes). Mesmo porque hoje eu tive certeza de que as mexericas estão sempre me espreitando, prontas para atacar. E o que eu fiz hoje, deixar me encurralar num elevador, foi amador demais.

Nunca mais vou baixar a guarda deste jeito. Nunca mais.

6 de abril de 2010

As Aventuras Sexuais do Macho da Drosófila

Quando eu morava com meus pais, e tinha cerca de vinte anos, fiz amizade com um guarda noturno que fazia a ronda na minha rua. Assim, todo dia de madrugada eu saía de casa com ele, para fazer a ronda a pé pelos quarteirões. Talvez isso tenha sido a primeira manifestação do meu DNA a respeito de trabalhar de madrugada – o que me levaria a ser jornalista – mas, na época, era bastante divertido. Afinal, não íamos atrás de ladrões, mas sim de casais transando dentro de carros.

Quando víamos automóveis parados em locais suspeitos, com as janelas embaçadas, eu e ele tirávamos na sorte quem teria a honra de se aproximar do casal que explodia de paixão lá dentro. Assim, feito o sorteio, o contemplado se aproximava e batia na janela do carro, dizendo que “aqui não pode fazer isso, eu vou chamar a polícia”.

Lembro-me de cenas hilárias. Pessoas tentando colocar as calças às pressas, mulheres escondendo peitos dentro de blusas, assustadas com a minha presença (ou com a do guarda, dependendo do resultado do par ou ímpar). E, claro que, como estávamos em Moema (leia-se perto da Avenida Indianópolis), às vezes os casais eram formados por homens e travestis, o que tornava tudo mais engraçado – e perigoso – ainda. Afinal, como eu iria explicar para minha mãe o fato de eu entrar em casa às duas horas da manhã com uma gilete enfiada no braço?

Enfim, um dia o guardinha se foi – mudou de emprego, acho – e a diversão acabou.

Mas numa manhã de carnaval, algumas semanas atrás – ou seja, já morando sozinho – pude matar a saudade disso.

Eu estava no computador e comecei a ouvir zumbidos estranhos do meu lado, vindos da varanda. Olhei para o lado e dei de cara com duas moscas copulando ali na varanda. Não estavam namorando ou conversando, estavam fornicando mesmo. Dando uminha. E bem na minha varanda, no meu apartamento, onde meu cachorro vai brincar! (O Poderoso Chefão Parte II mode: on). Estavam ali, alheias a tudo, perpetuando a espécie (e a julgar pelo volume dos zumbidos) como se não houvesse amanhã.

Não sou exatamente um fã de entomologia, mas, como a maioria das pessoas, sou fã de baixaria. Assim, me aproximei com calma e fiquei vendo e ouvindo tudo de perto. Besta-Fera, empata-foda por natureza, ameaçou ir para varanda e estragar a diversão do casal, mas consegui segurá-lo. Assim, o prendi na sala e fechei a porta da varanda, me sentando no chão, a menos de um metro das moscas, lançando, assim, uma nova tendência de vouyerismo.

Assim como nos contos da seção Fórum, da antiga Revista Ele & Ela, a atmosfera na varanda era de puro sexo. Ela estava pousada no chão, mexendo uma das patas da frente de vez em quando; ele estava montado em cima dela, por trás. E (ao menos dentro da minha cabeça) eles estavam totalmente suados e com hálito de vinho barato. Aliás, não apenas suados, mas, para continuar no clima Fórum, seus corpos lânguidos estavam transpirando prazer.

E os zumbidos, cada vez mais altos.

Enquanto eles se divertiam, não consegui evitar em pensar como eles teriam chegado até ali. Será que formavam um casal, que, procurando apimentar seu relacionamento, decidiram começar a transar em lugares perigosos (“na varanda daquele carequinha, ali do oitavo andar, tem um cachorro que pode pegar a gente! Vamos lá!”)?

Ou haviam se conhecido poucas horas antes, e partiram para uma aventura fugaz?

Como isso tudo aconteceu numa terça-feira de carnaval, fico com a segunda opção.


A foto está desfocada para
preservar a identidade dos envolvidos
(e impedir que o blog seja processado)
.


Provavelmente, se encontraram em algum baile por ai e rolou a química. Ele xavecou, ela resistiu (sim, porque gosto de pensar que ela é uma mosca de família, ou ao menos se esforça para tentar passar essa imagem). Ele insistiu e ela o mandou parar, mas sorriu. E o sorriso foi a deixa que ele precisava. Ele pagou bebidas, conversou, ficou do lado dela a noite toda, até que ela suspirou e soltou um “foda-se, é carnaval mesmo, e ele não é feio.”.

Outra coisa que pensei foi no meu antigo professor de biologia. Me deu vontade de ligar para ele e dizer que: “lembra quando você disse que o macho da drosófila não pratica crossing-over? Então, ele pratica sim, e está fazendo isso aqui na minha varanda, você precisava ver isso”. Mas mudei de idéia, claro. Mesmo porque eu não conseguiria falar no telefone com ninguém devido ao volume dos zumbidos, que aumentava cada vez mais.

Não estou exagerando. Chegou um momento que eu comecei a ficar preocupado com os barulhos. O casal, claro, não parecia se importar muito, mas sou eu que moro aqui, não eles.

E se os vizinhos estiverem ouvindo? Vão achar que sou eu, já que os sons vêm do meu apartamento. E se ficarem curiosos a ponto de colocar a cabeça para fora da janela e me verem na varanda, junto com as moscas pecaminosas?

– Marli, vem ver! Aquele baixinho do oitavo andar está fazendo um ménage na varanda! Com um casal de moscas!

– Meu Deus! Vamos chamar a síndica, Sérgio!

– Pelo menos aquele cachorro dele não está ali. Senão já seria uma suruba!

– Que pouca vergonha! E assim, em plena luz do dia? Que pessoa doentia!

– O que ele acha que o nosso prédio é? Uma versão pornô da Arca de Noé?

– Aposto que ele passa a noite toda vendo fotos de bichos pelados na internet.

Felizmente, nada aconteceu, ninguém apareceu. As moscas continuaram ali, vivendo no pecado, até que os zumbidos se tornaram muito mais altos e intensos. As moscas estavam quase sem fôlego.

De repente, tudo se acalmou.

O macho da drosófila desceu das costas da parceira, e – tenho certeza – deu uma esticada de pernas na varanda. Ela deu uma sacudida nas asas e, gosto de pensar que ela suspirou. E ficaram ali, um lado do outro, alguns segundos, provavelmente perguntando se “você gostou?” e “tem um cigarro?”.

Mas a despedida foi a melhor: sem beijinho, sem nada. Cada um saiu voando para um lado e pronto: estava encerrado o crossing-over. Talvez o macho da drosófila tenha soltado um "te ligo".

Tudo isso não durou mais que três minutos.

Chico Buarque tinha razão: amor mal feito e depressa, bater as asas e partir.