19 de abril de 2010

Uma Vida em Copas: Argentina - 1978

(Texto Anterior: Introdução)


É estranho começar uma série de textos sobre a Copa, justamente por uma Copa da qual não me lembro de absolutamente nada. Em 1978, eu tinha dois anos – completaria três somente em setembro – e curiosamente, não tenho nenhuma imagem ou lembrança da Copa.

O “curiosamente” entrou na frase acima porque eu possuo, sim, algumas memórias desta época. Uma delas é particularmente forte. Eu estava no meu quarto, no segundo andar, brincando com a empregada, quando ouvi um barulho estranho na rua, semelhante a uma sirene de ambulância ou de bombeiros, mas muito mais baixo. Corri para a janela e vi minha mãe, fechando o portão de casa, com um carrinho de brinquedo na mão. Era uma espécie de Fusca, vermelho, como se fosse dos bombeiros, e estava com a sirene ligada.

Era um presente para mim.

Tive esse Fusca vermelho durante muitos anos, mas um dia ele sumiu. Eu não o perdi, ele apenas sumiu, em algum momento do final da minha infância. Mas a imagem da minha mãe fechando o portão de casa com ele na mão persiste na minha memória. Talvez seja a primeira recordação nítida que eu tenho dela e talvez esta seja a primeira associação que eu tenho com a idéia de amor, de proteção.

E, não, não é pelo presente em si, mas sim pela idéia de você estar em casa e alguém, na rua, ter se lembrado de você. Seja como for, essa imagem me acompanha até hoje – com som de sirene e tudo. E a recordação mais forte que eu tenho dessa época.

Existem outras, claro, mas são meio difusas. Lembro de me deitar ao lado do meu pai, no chão da sala, para ver futebol aos sábados à tarde. Lembro de um dia ter ficado feliz por voltar de algum lugar, a pé, com minha mãe e, ao virar a esquina, ver o carro do meu avô estacionado na frente de casa.

E me lembro, muito, de como eu sonhava com brinquedos. Na infância, eu sonhava muito com brinquedos e, numa espécie de “sonho dentro do sonho”, tirava os brinquedos de dentro do meu sonho (como se o sonho fosse um balão de histórias em quadrinhos, colocado acima da minha cabeça), ainda dormindo, e os colocava ao lado do travesseiro, esperando encontrá-los ali quando acordasse, na manha seguinte. Mas eles nunca estavam lá no dia seguinte, haviam ido embora para algum lugar.

Mesmo com todas estas lembranças, eu não me lembro de quase nada desta época. Assim, logicamente, não me lembro de nada desta Copa. Tudo o que eu sei sobre o time de Cláudio Coutinho, que tinha Zico, Reinaldo, Oscar e Roberto Dinamite, aprendi anos depois. O que não deixa de ser bom, já que, se eu fosse um pouco mais crescido, provavelmente teria quebrado algum objeto na sala quando o juiz invalidou o gol de cabeça do Zico contra a Suécia, apitando o final do primeiro tempo após uma cobrança de escanteio – com a bola ainda no ar.

Uma das muitas escalações no Brasil na Copa.
Em pé: Nelinho, Leão, Oscar, Amaral, Batista e Rodrigues Neto.
Agachados: Gil, Toninho Cerezo, Jorge Mendonça, Roberto Dinamite e Dirceu


Mas, se eu não consigo me lembrar da Copa de 1978, consigo imaginá-la. Já fiz isso várias vezes. Vejo meus pais e meus avôs sentados na sala da minha casa, sofrendo com os jogos. Meu pai e meu avô – sogro dele e de quem eu herdei a paixão pelo São Paulo – devem ter comentado em algum momento que o time do Brasil era bom (mas não na primeira fase, porque a equipe não se encontrou nos três primeiros jogos).

E, entre um gole de uísque e outro, meu pai arrisca que o time tem chances, especialmente porque a Holanda não tem o Cruyff (que se recusou a jogar o torneio em protesto ao governo militar da Argentina), e a Polônia, mesmo com o Lato em campo, era apenas isso: a Polônia; já meu avô rebate que não, que a Argentina já comprou a Copa.

Eu? Provavelmente estava sentado no chão da sala, encantado com tudo aquilo, com a movimentação, com a ansiedade que deixava o ar elétrico. Provavelmente, estava mais entretido com tudo isso – e com os amendoins que minha mãe deve ter servido – do que com os jogos em si. Tem muita fumaça no ar, somente minha avó não fuma. Mas o curioso mesmo é sempre que imagino isso, o chão da sala está coberto de papel picado, igual a todos os gramados de todos os jogos desta Copa.

Talvez a frustração desta Copa não tenha sido tão grande, pois o Brasil foi eliminado sem perder. Quem não conhece a história, após empatar com a Argentina em 0 x 0 (no jogo que ficou conhecido como a Batalha de Rosário), o Brasil se classificaria se a Argentina derrotasse o Peru por quatro gols de diferença, mas ela o fez por seis. 6 x 0. Um dos maiores escândalos da história do torneio, com várias suspeitas (que perduram até hoje) de que a seleção peruana havia se vendido. Papel picado, manobras de bastidores... Mesmo sem me lembrar da Copa de 1978, eu sei que ela foi uma espécie de Libertadores da América.

Chicão mostra a que veio na Batalha de Rosário

E, até onde conheço meu pai, ainda no primeiro tempo de Argentina X Peru ele deve ter soltado um “esta merda está comprada”. E não falou isso conformado, mas com raiva. E, quando acabou o jogo, minha mãe certamente perguntou um “e agora?”, sem entender direito a tabela do campeonato – ela nunca entendeu direito as tabelas.

E eu devo ter continuado ali, no chão da sala. Devo ter ficado muito triste, sim, mas não porque o Brasil estava eliminado, e sim porque todo mundo ao meu redor estava triste, então eu devo ter achado que o melhor a fazer era ficar triste também.

Na final, a Argentina derrotou a Holanda por 3 X 1. O Brasil ficou com o terceiro lugar, vencendo a Itália por 1 x 0, gol de Nelinho. Não sei se meu pai comemorou o gol, mas, se o fez, foi apenas porque era contra a Itália, seleção que ele nunca gostara e que (mesmo ainda sem saber disso), passaria a odiar com todas as suas forças, muito em breve. E eu também.


Num mar de papel picado, a Argentina ganha sua primeira Copa.

Mas isso aconteceria somente depois de alguns anos. Porque, ainda em 1978, na noite em que o Brasil foi eliminado, eu certamente dormi em paz e tranqüilo. Não deitei na cama amaldiçoando a vida, não fiquei apontando vilões nem me remoendo, pensando nos “e se?” que a gente sempre pensa nesse dias – e eu sei bem disso, porque ainda teria muitos dias desses na minha vida.

Mas, não. Naquela noite, eu dormi alheio a tudo isso. Não havia Copa, não havia seleção do Peru se vendendo, nem disputa de terceiro lugar. Nomes como Kempes, Passarela e Ardilles não significavam absolutamente nada para mim.

Naquela noite, eu me deitei torcendo para sonhar com brinquedos e, finalmente, conseguir roubá-los para mim.

(Próximo texto: Espanha - 1982)

13 comentários:

Pedro Lucas Rocha Cabral de Vasconcellos disse...

Muito bonito, é engraçado como algumas memórias de tempos tão passados as vezes nos marcam... Estou ansioso por 82.

Gostei do texto, mas como vc não se lembra da copa, passa pouco da sua emoção e sentimentos.

Tenho a impressão que 82 vai ser um pouco mais longo, forte e profundo...

abraços

Kel Sodré disse...

Coisa de criança é sempre bonito, né? Vê essa coisa de sonhar com brinquedos e sonhar em roubá-los de você dormindo para você acordado, que coisa linda!

tecris disse...

Compartilhar memórias dos tempos de infância é sempre muito emocionante. Lembro-me nitidamente que aos 9 anos, em 82, meu álbum de figurinhas da Copa já estava completo. Trocava brinquedos por figurinhas e enchia um pote com chicletes -pq não os comia de uma vez- pois o importante mesmo era abri-los e encontrar a figurnha do Zico ou do Falcão (por quem suspirava...rs...)
Sócrates e Telê Santana valiam duas por uma, "tá pensando o que?!"
Nessa época decorava minha bicicleta BMX (sim, meninas tb podem) com fitinhas verdes e amarelas na manopla!
Eu fui uma menina torcedora roxa e assim continuo. Eu ainda grito e soco o sofá igualzinho...rs
Parabéns pelo seu texto tão rico. "Embarquei"para o passado e tive recordações felizes.
Que venha mais uma Copa...e mais um álbum, quem sabe...rs

Alexandre Greghi disse...

Como você eu também não me lembro nada desta copa! Nem lembrava que tinhamos pelo menos 2 ou 3 Alain Prosts na nossa escalação! HUAUAHAUHAHU

O Dirceu não parece o Prost... ele É o Prost!

Ps: ô saudade do Cerezo no meio campo do nosso time naquele mundial!

Natalia Máximo disse...

Que bonito, Rob! E consigo me encontrar nesse texto porque, mesmo que eu só tivesse acompanhado as Copas a partir da de 98, tenho umas poucas memórias muito vivas da de 94, quando eu tinha três aninhos. A principal delas é a euforia na minha casa, de toda a família junta para assistir a final. Lembro perfeitamente do Dunga levantando a taça e comemorei, mesmo sem saber direito o que era tudo aquilo. É bom saber que, na minha primeira Copa do Mundo, o Brasil foi campeão!

Camilla disse...

Me derreto com seus textos.
Sempre!

paulonando disse...

Sampaulino?
Bambi?

Mary Fahur disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Nadia disse...

"Nomes como Kempes, Passarela e Ardilles não significavam absolutamente nada para mim."

eles ainda não significam nada pra mim.

G7 disse...

julho de 1978... eu estava para completar 2 anos.

Essa copa foi dureza. acho que o Brasil foi muito macho por ter conseguido ficar no 0x0 com a Argentina em Rosário.

Mas em ano que a ARGENTINA ganhou copa, temos que falar das coisas que realmente importam: em julho de 1978 saiu a 1a edição brasileira da Playboy, com Debra Jo Fondren na capa!

Além disso...

nasceu cicarelli

roubaram o corpo do Chaplin do cemitério

a igreja católica teve 3 papas

morreu ed wood

E eu fiz dois anos de idade.

vamos a 1982

Dani disse...

1978... faltavam 10 anos pra eu nascer. A minha primeira Copa foi a de 90, mas só me lembro da de 94. É por essa que eu estou esperando, ansiosamente esperando.

Besos.

Viviane Lessa Fernandes disse...

Tão lindo..eu chamo isso de memória afetiva, como cheiros lá da infância, e comida de vó!
À flor da pele

Cristiano Matos disse...

Cheguei aqui só agora. Vou tirar o atraso e ler todas as outras copas, começando já.