22 de abril de 2010

Rob Gordon X Terra

Uma manhã dessas, liguei meu PC e assim que conectei, vi que algo estava errado.

O Messenger e o Gtalk não conectavam, o Outlook não conseguia baixar os e-mails. Abri o navegador e pronto: um aviso multicolorido surgiu na minha frente, dizendo que eu deveria trocar minha senha no Terra urgentemente. Faltaram apenas as sirenes, alertando os vizinhos de que algo estava errado na minha conexão.

Curioso, liguei para lá e a atendente me explicou que estavam fazendo uma espécie de recadastramento, a pedido do Speedy. Aparentemente, o Terra fez alguma cagada (claro que a menina não falou isso), e estavam ocorrendo muitos acessos em duplicidade (isso, sim, ela disse). Assim, gerei uma nova senha e pronto. Eu estava novamente no mundo online.

À noite, voltei para casa e fui ver meus e-mails. Novamente, o aviso para trocar a senha.

Acendi um cigarro, contei até cinco e liguei para o Terra.

Desta vez, quem me atendeu foi uma gravação, daquelas empolgadas. Será que o pessoal destas empresas não se toca que você só liga ali quando está com algum problema, e, num caso desses, ser atendido por alguém gritando “oooooi, amigão!” não ajuda muito?

Enfim, a gravação soltou um “se você está recebendo um aviso para trocar sua senha, disque dois!”, e eu apertei 2. Ela continuou: “se você está inadimplente com o Terra, disque 1. Caso contrário, disque 2!”, e eu apertei o 2 de novo.

Comecei a me sentir como um chimpanzé num laboratório. Estava quase me sentando encolhido no sofá, para arrancar piolhos da minha cabeça e comê-los, decidido a apertar o dois o tempo todo até ganhar uma banana, quando a gravação surgiu novamente.

– Para agilizar seu atendimento, disque agora o número do seu CPF.

Eu disquei na mesma hora. Afinal, o CPF tem 11 algarismos. Isso com certeza faria com que eu ganhasse, no mínimo, um cacho de bananas. Talvez até um chocolate.

De repente, a gincana acabou. Uma voz humana surgiu do nada.

– Terra, Plasticolina, em que posso ajudá-lo?

Abandonei meu status chimpanzé e voltei a ser o Homo Azedus.

– Como assim, em que pode me ajudar? Eu já digitei todas as informações necessárias explicando qual o meu problema. Você já devia saber como pode me ajudar. Aliás, você já deveria estar ajudando.

– Senhor, preciso saber qual o problema antes de lhe atender.

Suspirei e expliquei tudo novamente, desta vez usando palavras e não teclas do telefone, e acrescentando que “antes que você pergunte, sim, minha mensalidade está em dia”. Mas tem gente que insiste em brincar com perigo.

– O senhor pode me passar seu CPF?

Eu sei, estávamos no telefone. Mas confiem em mim: a olhei nos olhos atentamente – devo ter estreitado meus olhos em algum momento – e mordi levemente o lábio antes de responder:

– Não.

Se esta história fosse um romance policial ambientado num castelo, todos os personagens (reunidos na sala de jantar, logo após terem descoberto que um dos convidados havia sido assassinado com uma punhalada nas costas) teriam ouvido um trovão logo após esta declaração.

Mas não era nada disso. Era apenas uma conversa na minha sala, por telefone, com a atendente do Terra. Ou seja, não tivemos trovões, relâmpagos, nada. Apenas alguns momentos de silêncio, que denunciaram o fato de que a atendente deve, ao menos, ter parado e pensado em como se livrar de mim o mais rápido possível.

Para azar dela, porém, ela resolveu seguir pelo caminho óbvio:

– Eu preciso do número do CPF para entrar no seu cadastro.

– Eu não duvido disso.

– Qual o número, senhor?

– Olhe só que coincidência: o número do meu CPF é exatamente igual ao mesmo número do CPF que eu digitei há um minuto. Quer mais uma coincidência? Eu digitei esse número porque a gravação pediu, justamente, o número do meu CPF, assim como você. E, olhe só! A gravação trabalha no Terra! Você também trabalha no Terra, certo? Putz! O dia, hoje, está cheio de coincidências!

– Senhor, sem o número do seu CPF eu não consigo acessar o seu cadastro.

– Eu sei disso. Mas isso é um problema acadêmico, porque você tem o número aí. Olhe, eu não sei qual o relacionamento que você tem com a gravação. Não sei se ela é sua chefe, ou se você é chefe dela, mas ela tem o número do meu CPF. Acho que você deveria ir pegar esta informação com ela. E pode ir tranqüila, porque, quando ela falou comigo, me pareceu ser uma gravação super prestativa. E foi bastante educada. Talvez tenha sido pouco empolgada demais, mas quem sou eu para julgar isso? Deve ser só o jeito dela.

– Senhor, sem o número do seu CPF eu não consigo acessar o seu cadastro.

Ela repetiu a mesma frase, palavra por palavra. Um impulso no meu cérebro me fez começar a morrer de vontade de trabalhar em cima disso. Abordando o assunto de forma correta, em menos de meia hora eu teria conseguido convencer a Plasticolina de que ela também era uma gravação, mesmo sem saber disso. E que agora era o momento de pegar em armas e começar uma revolução no escritório.

Estava já pensando a todo vapor em qual trecho da conversa eu usaria a frase: “Plasticolina, você é a escolhida e este é o seu destino”, mas fui atrapalhado pelo som do meu PC choramingando baixinho. Ele queria navegar na internet. Assim, apaguei o plano da minha mente, mas ainda joguei uma última carta na mesa.

– Eu conto o meu CPF para você, mas antes eu quero perguntar uma coisa.

– Sim, senhor.

– Porque eu tive que digitar o CPF agora há pouco? Qual foi a finalidade disso?

– Agilizar o atendimento, senhor.

– Sim, a gravação disse isso. Mas não agilizou muito, certo? Teria agilizado se você já estivesse acessando meu cadastro. Então, qual foi o motivo? É alguma superstição da gravação?

– Senhor, eu preciso do seu CPF, caso contrário eu não tenho como acessar seu cadastro.

A tentação de convencer a Plasticolina sobre a revolução armada começou a esquentar de novo. Sacudi a cabeça, pensando “Foco, Rob Gordon, foco” e entreguei os pontos.

– Ah, tá bom. AAA. BBB. CCC - DD.

– Senhor, aqui diz que é necessário criar uma nova senha para acessar a internet.

– Aqui diz isso também. Se eu quisesse saber disso, eu não precisaria ter ligado.

– Basta gerar uma nova senha e o senhor acessará a internet novamente.

– Mas aí eu acessarei a internet para sempre?

– Como assim, senhor?

– Porque eu fiz isso hoje pela manhã. Ou seja, a senha durou umas 12 horas. Será que agora eu consigo uma que dure até o final de semana?

– Estou gerando uma senha nova, senhor. Pode anotar?

Relevei o fato de que ela me ignorou. Ela ditou a nova senha e eu anotei.

– Algo mais, senhor?

Não, Plasticolina, você não iria me enganar assim. Eu sou bobo, mas mesmo para isso há limites.

– Sim. Você vai aguardar na linha até eu testar esta nova senha.

Evidentemente, ela começou a suar frio. Digitei a nova senha e conectei.

Nada.

– Plasticolina?

– Sim?

– Está aparecendo um aviso aqui pedindo para eu trocar minha senha. Diz aqui que é para eu ligar no Terra. Você é do Terra, certo? Posso aproveitar que você está aqui comigo e trocar minha senha?

– A senha não funcionou?

– Não. E a próxima não vai funcionar também, aposto. Mas a gente vai trocando, eu não tenho pressa.

– Senhor, o problema deve ser no seu modem. A senha aqui está ok.

– Aqui, não. E ela precisa estar ok nos dois lugares, acredito.

– O modem do senhor está com algum defeito.

– Não, Plasticolina. Meu modem estava funcionando até ontem, normalmente. A única coisa diferente que eu fiz foi trocar a senha. E eu troquei a senha para limpar alguma cagada que vocês fizeram com o Speedy. Então o defeito não está no modem, o defeito está em vocês.

Pensei em ligar o stallone mode: on e dizer, neste momento, que o telemarketing é uma doença e eu sou a cura, mas tive preguiça de ir até a cozinha procurar um palito de dentes para colocar na boca.

– Nós podemos estar agendando uma visita do suporte técnico.

As expressões “estar agendando” e “suporte técnico” foram demais para mim. Comecei a ter visões de mim mesmo, tendo crises nervosas porque o sujeito do Terra não aparecia na hora marcada, deixando para dar as caras somente quando eu não estivesse em casa. Meus olhos se encheram de lágrimas. Resmunguei “vou estar pensando se vou estar agendando a visita e vou estar ligando depois” e desliguei.

Reiniciei o PC, reiniciei o modem e tentei novamente. Nada. Fui dormir.

No dia seguinte, quando acordei, fui até o PC e ele estava conectado. Sabe-se lá como, ele conectou sozinho, baixou meus e-mails e conectou tanto o Messenger quando o Gtalk. Abri o Firefox e naveguei por todas as páginas que quis.

Eu estava online novamente. Tudo bem que não faço a menor idéia de como isso aconteceu, mas o PC estava conectado.

Agora, o meu problema é outro: faz dias que meu PC está ligado. Afinal, e o medo de desligar a máquina, quebrar o encanto e ter que lidar com a Plasticolina novamente?

23 comentários:

Tally M. disse...

o mais triste é que todo mundo passa por esta situação com frequência... li, lembrando da minha saga com a Net, rs.

Bia Nascimento disse...

Tenho certeza que esses atendentes de telemarketing fazem um curso especifíco para "estar usando" o gerúndio.
Gerúndio + suporte técnico + atendente robô é pra matar!!

Tyler Bazz disse...

UAHHUAHAUHUAHUAHUAHUA
Muito bom! Sério!!!

Mas... entre nós: quem você quer enganar com essa história de Messenger, GTalk, e-mails e sites???

Eu sei, você sabe, todos sabemos. Você queria colher tulipas vermelhas antes que elas apodrecessem.

Pri disse...

Até dói pensar em qts Plasticolinas existem no mundo! A humanidade não deu certo!!!

Jullia A. disse...

Atendentes de telemarketing.

pronto, meu comentario 'e esse.

Natalia Máximo disse...

Meu Deus, vou ter que assinar o Terra agora que me mudei. Como se não bastasse o Speedy, vou ter problemas com o Terra também?

E outra: vou começar a passar CPF errado quando pedem na gravação. De repente, só assim pra eles agilizarem o processo de verdade.

Lilian disse...

Mesmo que isso não fosse possível, você deveria ter dito que iria cancelar a assinatura do Terra. É a única linguagem que esses atendentes parecem entender.

TECris disse...

"Homo Azedus"..kkkk!!Impagável o que uma arma chamada criatividade humana faz com as expressões corriqueiras do dia a dia...
Apesar do seu sofrimento, não pude deixar de achar graça na situação.
Abs
TcrIS

R. disse...

Esse tipo de leitura deveria ser proibido em ambiente de trabalho, agora todo mundo por aqui deve estar achando que sou uma maluca... fiquei rindo sozinha aqui.

Você esqueceu de mencionar o twitter.

bjo

Pedro Lucas Rocha Cabral de Vasconcellos disse...

Minha técnica é pura e simples, a pessoa tem o QI de um coelho? Desligue o telefone e ligue de novo. Repita 20 vezes até achar alguém minimamente competente, é trabalhoso, mas compensa.

Bel Lucyk disse...

Rob! Eu sempre quis dizer isso: mas eu acabei de digitar meu CPF! Não vou repetir! Obrigada! Vc realizou um sonho alheio! ehehehehehe

ps - o "eu vou estar agendando" é foda...

Prix Dekanun disse...

Eu me divirto com relatos desse tipo - se existe uma coisa que reúne todos os seres humanos do planeta, é o atendimento de telemarketing. Se Judeus e Palestinos vissem como são igualmente tratados no telemarketing, não haveria mais conflitos - ele não perdoa ninguém.

Só espero que você tenha mais sorte do que eu: a última vez que postei um relato do tipo, recebi um e-mail lindo ameaçando me processar se eu mantivesse a "peça difamatória" no ar.

Tem que ser maltratado, e tem que ficar quietinho - é o fim!

Carolina Tapajóz disse...

Eu odeio MUITO a voz do carinha da NET!
Tipo.. cordial, educado, simpático... mas chega a ser sarcástico!
afff

eduardo disse...

texto + comentário do tyler = muitas risadas

Nadia disse...

Sério? De verdade... ela ficou com medo de vc ligar de novo e, ao invés de te cobrar poe uma internet que vc não consegue usar, resolveu fazer o barato pegar logo.

pati b disse...

É tudo culpa do "Sistema"!Rs...

Marina disse...

Pior é o gerundismo. Isso me mata.

Kel Sodre disse...

Que todo atendente de telemarketing faz um curso pra aprender as respostas que tem que dar pro cliente, todo mundo sabe. Agora, o que eu fico me perguntando é: o que fazem com o conteúdo que havia neles ANTES de passarem por esse curso?? Porque, ao virarem atendentes de telemarketing, eles simplesmente passam a não saber mais dar outras respostas que não as que aprenderam no curso! E isso me leva a outro questionamento: será que HAVIA alguma coisa neles antes do famigerado curso? Hum...

George Marques disse...

Você precisa entender que a informática não é uma ciência exata: é metafísica. Já os atendentes de telemarketing, que você conhece muito bem, são exatos: eles exatamente nunca resolvem seu problema.

Barlavento disse...

Tava com saudades das suas sagas com empresas...

Otavio Oliveira disse...

tem certeza que não sabe como seu pc conectou sozinho? onde estava besta-fera nessa hora? cheque seu histórico...

Lini disse...

Isso acontece comigo diariamente com a GVT. Eles insistem em dizer que a minha conta não tá paga (estando paga) e minha conexão fica quicando.
Quando for assim, "liga no automatico"

Dani disse...

Foi a Besta-Fera que ligou pro Terra e resolveu tudo pra vc. Duvido se os atendentes de telemarketing "vão estar brincando" com o lado mau dele.

Besos.