30 de março de 2010

Rob Gordon - Biografia não Autorizada

Muito tempo atrás, no meio de uma discussão, me perguntaram como eu conseguia ter resposta para tudo. Eu fiquei quieto alguns momentos, pensando sobre isso, e respondi a única coisa que me pareceu sensata no momento. “Não sei”.

E fui sincero.

Eu realmente tenho resposta para tudo, e não sei ao certo como faço isso. Uma das minhas características (não estou usando o termo “qualidade” deliberadamente, porque nem sempre isso é bom) é a velocidade de raciocínio que eu tenho. Eu passo a maior parte do tempo pensando, inventando, aprendendo, cogitando, especulando. Meu cérebro se acostumou a pensar rápido.

Talvez seja por isso que me sinto bem quando percebo que todos os meus prazos no trabalho estão apertados. Nesses momentos, eu tenho uma desculpa para soltar as amarras do cérebro e deixá-lo trabalhar na velocidade que conseguir. E este é um dos motivos que também me faz gostar de escrever no blog. Se os prazos do trabalho me permitem pensar na velocidade normal do meu cérebro, a ausência de prazos do blog, por outro lado, também permite isso. É contraditório, eu sei. A diferença é que no trabalho eu preciso ser rápido, enquanto no blog eu posso ser rápido.

A questão, na verdade, é o motivo da rapidez de pensamento.

Eu penso muito rápido porque penso o tempo inteiro. E eu penso o tempo inteiro porque, ao contrário do que possa parecer aqui, eu tenho um coração do tamanho do mundo.

Sim, eu sei que sou sarcástico, sei que sou azedo, sei que sou tirador de sarro. Mas isso é apenas conseqüência da velocidade com que meu cérebro trabalha. E ele trabalha o tempo todo simplesmente para não deixar meu coração tomar conta das minhas ações, porque meu coração entende as coisas de uma forma que não necessariamente eu concorde (independente de quem tem razão ou não).

Quem me conhece e lê o Chronicles deve saber disso. Lá é onde eu deixo meu coração pensar livremente, sem obstáculos ou impedimentos. Já me perguntaram se eu chorei alguma vez enquanto escrevia no Chronicles. Não apenas chorei como me lembro exatamente em quais textos (e em quais trechos) eu desmoronei (o termo é esse mesmo, desmoronei) enquanto escrevia.

Mas não quero falar dos blogs, quero falar de mim. Por isso que eu penso rápido, por isso que eu penso o tempo todo. É uma defesa ao meu coração – se eu parar de pensar, eu me transformo no Chronicles, e tudo pode começar a me abalar com uma facilidade enorme.

O fato de eu ter um coração desse tamanho não quer dizer que eu choro o tempo todo, que me sensibilizo o tempo todo. Talvez eu até tenha potencial para isso, mas nós dois (eu e meu coração) sabemos que se você faz isso hoje em dia, você é comido vivo em questão de minutos, na selva que existe lá fora. Não, você precisa manter as aparências, às vezes, e engolir o que sente. Triste, mas verdade.

Claro que tem (muitas) coisas – filmes, livros, músicas – que me tocam, mas não é disso que estou falando. O meu coração funciona de outra forma.

O meu coração faz com que eu tenha uma vontade muito grande de fazer as coisas de forma correta. Me cobro muito, e o tempo todo, sobre a forma que estou agindo com as pessoas ao meu redor.

Em termos práticos, eu me importo. E isso pode parecer pouca coisa, mas para mim não é, especialmente num mundo onde as pessoas parecem estar cada vez mais pouco se fodendo para tudo.

Eu me importo com as pessoas ao meu redor. De verdade.

E não estou falando das pessoas que cruzam meu caminho na rua, no metrô, na fila do cinema. Se alguém que eu não conheço desmaiar na minha frente, eu vou socorrer, mas isso não é ter coração, isso é ser cidadão. São coisas diferentes. Emocionalmente falando, isso tem o efeito de uma esmola. Se eu dou um real para um mendigo, não quero saber depois se ele usou o dinheiro para comprar comida ou pinga. Se eu socorro alguém no metrô, não vou visitar a pessoa no hospital no dia seguinte para saber se ela está bem. Fiz o que podia, fiz o que deveria ter feito, e pronto.

Não, minha vontade de acertar envolve as pessoas que eu gosto. Família. Amigos. Namorada. E o amor que eu sinto por essas pessoas chega a ser quase insuportável. Graças à minha rotina caótica, com horários alucinantes, pode parecer que não, mas eu penso nessas pessoas o tempo todo. É o meu lado mafioso, eu cuido o tempo inteiro do que é meu. Posso estar quieto, mas estou de olho.

E não vamos cair aqui no clichê de “eu ajudo essas pessoas sempre que elas precisam”. Porque isso é o mínimo que você precisa fazer e é o mínimo que você pode esperar delas. John Lennon mesmo disse que “amor é mais que ficar de mãos dadas”. E, se você não concorda com isso, largue tudo e vá viver numa caverna, será mais fácil para você e melhor para todo mundo.

Por isso que, praticamente todas as noites, eu deito na cama e penso se estou fazendo o certo com elas, se estou no caminho certo. E, se acho que não estou, tento mudar. Tento me adequar, tento ir por outro caminho, e fico imaginando qual a melhor maneira de fazer as coisas. E se não tem jeito de melhorar, paciência, vamos levando. Uma hora melhora. Been there, done that.

Se eu erro? Como qualquer pessoa, eu erro para caralho. Às vezes por teimosia, às vezes por incompetência, às vezes por acidente. E é aí que meu coração do tamanho do mundo me sacaneia. Como eu disse, eu me importo. Eu não me importo com essas pessoas quando estou com elas, eu me importo com essas pessoas, ponto. É o outro lado da moeda do meu lado mafioso: eu admito errar com tudo, menos com esse punhado de pessoas – mesmo sabendo que inevitavelmente eu vou errar em alguns momentos.

Família, amigos, namorada... A minha famiglia. Se eu erro com eles, eu erro comigo.

E claro que, como todo mundo, às vezes eu tenho vontade de mandar tudo à merda, de jogar tudo para o alto e ir para casa. Mas não faço isso. Não apenas por mim, mas também por essas pessoas. Porque sei que, não importa onde eles estão, ou o que estão fazendo, elas contam comigo para uma série de coisas, e ser feliz, dentro dos eixos, é uma delas – porque elas sabem que eu conto com elas para isso também.

E, com isso, aprendo cada dia mais.

E, com elas, aprendo cada dia mais.

Nos últimos anos, aprendi a ouvir, mais do que havia aprendido na minha vida inteira; aprendi a perdoar (ainda preciso aprender a “me perdoar”, mas eu chego lá); aprendi que às vezes tudo o que a pessoa precisa é ficar ao seu lado, em silêncio; e aprendi a ser um pouco mais paciente. E aprendi que às vezes não há nada que possa ser feito – e se não há nada a ser feito, é porque você fez tudo o que podia, não adianta perder o sono.

Aprendi, também, que nada é definitivo. Não é porque tudo está bem hoje que você pode relaxar amanhã, e não é porque tudo está esmerdeado num dia que não pode melhorar no outro.

A vida é cheia de altos e baixos, mas o fato de prestarmos mais atenção nos baixos é culpa nossa, não dela. E não adianta também ignorar as fases de merdas. O segredo, na verdade, é se lembrar de quem estava sempre ao seu lado – tanto nos momentos ruins como nos bons.

Porque o mundo tem gente demais hoje. Pessoas entram e saem da sua vida a todo instante, mas, se você olhar ao redor, verá que tem uma meia dúzia que está ali, ao seu lado, o tempo todo. Não estou falando do cara que trabalha na mesa ao lado da sua ou do sujeito que mora no apartamento ao lado e que você mal sabe o nome.

Estou falando do amigo que te convida para a cerveja apenas porque quer te ver, ou que entra no Messenger perguntando “tá melhor?”, pois sabe que você não está legal; estou falando da mãe e do pai que perguntam “tudo bem?” e realmente se importam com a resposta que você vai dar; estou falando da namorada que sabe que assistir ao filme de mãos dadas é melhor que o filme em si e que dá bronca porque você está trabalhando demais.

Acredite: eles estão ali porque se importam.

O mínimo que você pode fazer por eles, então, é nortear suas ações e decisões por eles. Não vou dizer aqui que tudo o que faço, faço por eles. Longe disso.

Mas sei que a forma que faço tudo o que faço pode (e vai) se refletir na vida deles.

Justamente por isso que, entre todas minhas paixões, que vão do futebol a quadrinhos, de heavy metal a mortos-vivos, de cinema e seriados a escrever no blog, eles estão em primeiro lugar. E sempre estarão.

A cada um de vocês (e vocês sabem quem são):

Muito obrigado. Por tudo.

E os demais leitores, a partir de hoje, sabem um pouco mais sobre mim.


PS
- Caso você esteja se perguntando: sim, está tudo bem. Eu apenas precisava conversar um pouco comigo mesmo sobre isso. E, cá entre nós: se você tem um blog pessoal e não fala sobre você, qual o propósito de se ter um blog pessoal?

27 de março de 2010

Pizza. Pizza? Pizza.

Apaguei, agora à tarde. Dormi a ponto de sonhar no sofá, com Besta-Fera aos meus pés. E, desde moleque, sei que a grande graça de dormir à tarde é acordar e não saber direito que dia é, se é manhã ou noite.

Mas hoje descobri que isso é contagioso. Acordei com o interfone tocando e levantei, sem saber direito quem eu era. Me arrastei pela casa e atendi, apenas para descobrir que do outro lado havia um porteiro – que também não sabia quem eu era.

– Seu Róbigórdu?

– Hum.

– Pizza.

– Hum?

– Pizza.

Chacoalhei a cabeça. Eu não me lembrava de ter pedido pizza. Nem acordado, nem sonhando.

– Pizza?

– Pizza.

– Você está me convidando, é isso?

– Não, chegou a sua pizza.

– Que pizza?

– A pizza do restorânte-pizzaria.

Suspirei.

– Não, não “pizza de onde?” e sim “que pizza?”, porque eu não pedi pizza nenhuma.

– Não?

– Não.

– Então deve ser do outro apartamento.

Gênio.

– Deve.

– É...

– ...

– ....

Silêncio ensurdecedor.

– Oi?

– Pode falar.

– É só isso?

– Sim senhor.

– Então tá. Tchau.

– Tchau, Seu Róbigórdu.

26 de março de 2010

Por Água Abaixo

O restaurante ao lado do trabalho, onde almoço quase todos os dias, tem capacidade para umas 200 pessoas. E eu, metódico como sou, sento-me praticamente todos os dias na mesma mesa, num canto do andar superior, e almoço de frente para a Fnac.

Hoje, por outro lado, mesmo sentado na mesma mesa, não fiquei olhando a Fnac. Isso porque não havia mais Fnac. Isso porque não havia mais Pedroso de Moraes. Isso porque não havia mais mundo.

Havia apenas chuva.

Então, nós tínhamos dois mundos distintos aí. Do lado de fora do restaurante, uma espécie de pré-história, com pessoas encharcadas correndo, árvores balançando ao vento, sacos de lixo sendo arrastados pela enxurrada. Não havia civilização, havia apenas caos e luta pela sobrevivência.

Já do lado de dentro, estávamos na Idade Contemporânea, com pessoas enxutas, aquecidas e felizes, todas elas bem vestidas, se alimentando e conversando. Água, ali dentro, somente potável e dentro dos copos – e as pessoas ainda podiam escolher até mesmo entre com ou sem gás. Quer maior sinal de progresso?

Entretanto, a civilização é frágil. E ela pode ruir a qualquer minuto, da mesma forma que uma das vigas do restaurante rachou, dando início a uma goteira. Chamo de goteira por falta de uma definição melhor, já que, numa goteira, como o próprio nome diz, presume-se que a água caia em gotas.

Neste caso, ela começou a cair de forma contínua, quase um filete. Ainda era fraca a ponto de não ser preciso chamar bombeiros ou ambulâncias, mas forte o suficiente para inundar o prato de alguém instantaneamente, fazendo esta pessoa ver sua comida, cuidadosamente escolhida, se dissolver em segundos, tornando-se uma espécie de pasta.

Adivinhe quem era o dono do prato.

24 de março de 2010

Carta Aberta ao Sr. Dioclécio Luz - Parte II

Caro Sr. Dioclécio Luz:

Em determinado trecho do seu texto A Violência na Turma da Mônica – Parte 2 você afirma ter ficado sabendo que alguém escreveu uma carta aberta a você (como resposta ao seu texto Violência na Turma da Mônica), mas esqueceu de avisá-lo.

Pois bem, o alguém sou eu. E a Carta Aberta está aqui.

Então, apenas a título de esclarecimento, eu não “esqueci de avisá-lo”. Eu não avisei de propósito, pois, observando os comentários do seu texto original, reparei que existiam três mensagens indicando a existência da Carta, todas elas com o link direcionando ao texto. Assim, deduzi que você já tinha conhecimento da Carta – partindo do princípio que você tem a delicadeza de ao menos ler os comentários que seus artigos recebem.

Ou seja, indicar o endereço do meu texto ali, nos comentários, seria redundante. E, pior ainda, poderia ser visto apenas como autopromoção da minha parte.

E creio que eu e você, como jornalistas, sabemos que o jornalismo não deve ser utilizado para autopromoção, certo?

Já a decisão de ler meu texto ou não, claro, cabia somente a você.

Quanto ao seu novo texto, creio ser desnecessário esmiuçá-lo em busca de falhas. Mais que desnecessário, seria cansativo, especialmente para os meus leitores. Assim, não tenho muito que acrescentar ao assunto. Mesmo porque não tenho problema pessoal algum com você, tanto que esta é a última vez que abordarei o assunto aqui.

Aliás, pelo contrário, devo lhe agradecer.

Afinal, este seu segundo texto apresenta somente um defeito: o próprio texto é uma enorme falha.

Isso porque, com este novo artigo, você tenta de todas as formas justificar o seu artigo anterior. E, a partir do momento que um texto opinativo precisa ser justificado com outro texto, é porque o original não contou com argumentos minimamente razoáveis.

E como a fragilidade dos seus argumentos é justamente o tema principal da minha Carta Aberta, a publicação deste seu novo texto apenas confirma tudo o que escrevi anteriormente. Logo, uma nova resposta não é necessária (mesmo porque eu não pretendia mais abordar este assunto aqui, e esta é a última vez que o faço).

Obrigado por, independente de ter lido ou não meu texto, dar razão a ele.

Abraços.

P.S. Já que as histórias em quadrinhos são pautas desimportantes (como você mesmo afirma, ao se mostrar espantado com a repercussão que seu texto obteve), sugiro que escolha outro tema mais relevante para seu próximo trabalho. Peço apenas que escolha um assunto entre aqueles que você tenha o mínimo de conhecimento.

23 de março de 2010

Vestibular

Física
Um Rob Gordon caminha para Oeste com a velocidade média de 3 km/h. Em sua direção, a quatro metros dali, um Besta-Fera vem correndo feito um desesperado, numa velocidade de 120 km/h. Em quanto tempo eles se encontrarão?


Matemática
Qual a probabilidade de um cachorro com cerca de 40 cm de altura e massa de cerca de 10kg, e que corre a 120 kmh/h, dar uma cabeçada no polegar da mão esquerda de:
a) Uma pessoa normal, que se abaixou para brincar com ele.
b) Um Rob Gordon, que se abaixou para brincar com ele.


Português
Na expressão “Meu dedo, cachorro filho da puta!”, a palavra dedo é:
( ) um verbo.
( ) um adjetivo.
( ) um pronome.
( ) algo que está doendo.


Biologia

Cite o nome de todos os ossos do polegar superior humano (com cuidado para não apertar nenhum deles enquanto escreve).


Química

Durante quanto tempo um copo de 100ml de água a 5º C permanecerá nesta temperatura, sendo que um ser humano (cujo corpo está à uma temperatura de 37º C) mergulhou o polegar no recipiente?


História

Escreva, em no máximo cinco linhas, como teria sido a evolução do homem no planeta sem o uso do polegar opositor.

21 de março de 2010

O Homem da Faca

Estava subindo a Teodoro hoje, voltando para casa.

A rua estava lotada, final de tarde ensolarado.

E foi ali, quase na Mourato Coelho (ou na Fradique Coutinho? Nunca sei qual é qual.), vi um mendigo, na mesma calçada que eu, coisa de uns dez metros na frente. Na verdade, não era um mendigo, e sim um sucateiro, que havia deixado sua carroça no meio da rua e estava examinando uns papelões na calçada.

De costas para mim.

E com uma faca no bolso de trás da bermuda.

Tudo bem, não era uma faca do Rambo. Era uma faca daquelas simples, pequenas, de cortar carne. Mas era uma faca, com dentes, ponta e tudo aquilo que torna uma faca ameaçadora.

Meu sentido de Aranha, claro, disparou. Claro que se aquela faca fosse enterrada no peito de alguém, ali na Teodoro, no meio de uma tarde de domingo, certamente seria no meu. Naquele momento, eu tive a certeza de que o sujeito era um serial killer que jurou vingança a todas pessoas baixinhas, carecas e gordinhas.

Mas meu sentido de Aranha começou a gritar – desta vez, de verdade – quando percebi que a uns cinco metros de distância do homem (e conseqüentemente, da sua faca), uma mulher descia a rua na nossa direção, de mãos dadas com seu filho, uma criança loirinha de, no máximo, dois anos de idade, e que andava pela rua com aquela confiança que só estar de mãos dadas com a mãe pode garantir.

Instintivamente, apertei o passo, para ficar perto de tudo. Mas, por questões físicas, ele chegou na criança antes de mim (eu ainda estava a uns 3 metros de todos eles). E ele, carregando os papelões, olhou para o menininho e ajoelhou na rua, deixando a faca ainda mais visível.

Eu gelei e apertei o passo, me preparando para chutar a cabeça dele e dar tempo da mãe correr com a criança.

Mas ele apenas sorriu e disse:

– Oi! Tá passeando com a mamãe?

E o menininho, envergonhado, se escondeu atrás da perna da mãe, que, por sua vez, riu para o homem da faca e continuou andando.

Eu respirei aliviado e acendi um cigarro, olhando o sucateiro ir mexer na carroça. E voltei para casa pensando que tem alguma lição aí. Sabem... Às vezes tenho a impressão de que o mundo tem jeito. Não são muitas vezes, mas elas acontecem. E o melhor de tudo é que elas acontecem onde eu menos espero.

16 de março de 2010

Star Trek - Primeiro (e último) Contato

"Pinheiros. A fronteira final. Estas são as viagens da nave estelar USS Rob Gordon. Sua missão: explorar novos mundos, descobrir novas civilizações, audaciosamente indo onde nenhum homem jamais esteve."

Diário do Capitão. Data estelar 5493.2. Após horas finalizando matérias para enviar ao diagramador, nosso engenheiro-chefe, Sr. Scott, alertou de que o suprimento de Coca Zero na nave estava baixo. Assim, desviamos nosso curso até o planeta Boteco IV para conseguirmos alguns suprimentos.


Sulu: Capitão, estamos nos aproximando de Boteco IV.

Kirk: Saia da velocidade de dobra, Sr. Sulu, e assuma órbita padrão.

Sulu: Sim senhor.

Kirk: Tenente Uhura, abra freqüência de saudação.

Uhura: Frequência aberta, senhor.

Kirk: Aqui é o capitão James Kirk, da USS Rob Gordon. Gostaríamos de negociar com vocês a compra de uma lata de Coca Zero.

Uhura: Sem resposta, senhor.

Kirk: Estranho. Sr. Spock?

Spock: Análises não mostram nada de errado no planeta, capitão.

Kirk: Tente novamente, tenente.

Uhura: Frequência aberta, senhor.

Kirk: Boteco IV, aqui é a espaçonave USS Rob Gordon. Vocês estão passando por dificuldades?

Uhura: Ainda não responderam, senhor. Mas o canal está aberto. Aparentemente, eles receberam a mensagem.

Spock: Capitão, presumo que eles não estejam respondendo por vontade própria. Não há nada atrapalhando a comunicação.


"Estranho..."


Kirk: Isto está estranho demais. Sr. Checov, vá para alerta amarelo.

Chekov: Alerta amarelo acionado.

Uhura: Capitão, estou captando algumas imagens.

Kirk: Na tela.

Spock: Esta é a regente de Boteco IV, senhor.

Kirk: Ela pode nos ouvir?

Uhura: Sim, senhor.

Kirk: Aqui é o capitão James Kirk. Vocês estão enfrentando algum problema de comunicação?

Uhura: Sem resposta, senhor.

Kirk: Estranho. Ela está olhando para nós, fixamente. Mas não responde.

Spock: Fascinante.

Kirk: Tenente, peça ao Dr. McCoy se apresentar à ponte.

Uhura: Sim, senhor. Capitão, recebi uma mensagem de alta prioridade da Frota Estelar. A USS Diagramador está precisando de umas fotos para completar uma página, e devemos nos encontrar com eles em no máximo uma hora.

Kirk: Isso pode esperar um pouco. Precisamos de Coca Zero.

McCoy: Em que posso ajudá-lo, Jim?

Kirk: Magro, não estamos conseguindo fazer contato com esta forma de vida. Aparentemente, ela pode nos ouvir, mas não responde. Alguma sugestão?

McCoy: Jim, fica difícil analisar apenas olhando uma imagem, mas os olhos vazios e sem expressão indicam que a criatura está num estágio de dormência.

Kirk: Como assim? Não é possível que ela não nos veja, estamos na frente dela.

Spock: Acredito, capitão, que o Doutor McCoy está se referindo a um estágio de torpor. Algo semelhante a computadores que entram em modo de descanso, para poupar energia.

Kirk: Sugestões, senhores?

Spock: Devemos tentar chamar a atenção dela de alguma forma, para despertá-la. Talvez um torpedo fotônico disparado nos arredores do planeta seja suficiente.

Kirk: Dr. McCoy?

McCoy: Não vejo nenhum mal nisso.

Kirk: Alferes, lance um torpedo na atmosfera. Com cuidado.

Checov: Sim, capitão.

McCoy: Olhe, Jim! Aparentemente deu resultados! Ela mexeu os olhos!

Spock: Fascinante.

Regente de Boteco IV: Oi?

Kirk: Aqui é o capitão James Kirk, da USS Rob Gordon. Gostaríamos de negociar suprimentos de Coca Zero com vocês. Posso preparar uma equipe de desembarque e...

Regente de Boteco IV: Que vocês querem mesmo?

Kirk: Coca Zero.

Regente de Boteco IV: Ah.

Kirk: ...

Regente de Boteco IV: ...

Kirk: Está tudo bem com vocês?

Regente de Boteco IV: Tudo, e você?

Kirk: Hã... Sim, mas...

Spock: Fascinante. Seu cérebro funciona de forma cíclica.


"O cérebro dela não funciona como o nosso, capitão.
Isso, claro, partindo do princípio de que ela possua um cérebro"



Regente de Boteco IV: O que vocês querem?

Kirk: Precisamos de Coca Zero.

Regente de Boteco IV: Tá.

Kirk: Podemos descer para buscar, ou posso transportar os suprimentos para a nave...

Regente de Boteco IV: Coca normal, certo?

Kirk: Zero! Coca Zero!

Regente de Boteco IV: Desculpe, estou atrapalhada. Tem muita gente aqui hoje.

Kirk: Vocês precisam de alguma assistência?

Regente de Boteco IV: Não, está tudo sob controle.

Spock: Capitão, me pergunto se eles não estão enfrentando problemas com os klingons.

Kirk: Regente, você mencionou que várias pessoas estão aí. Que tipo de pessoas?

Regente de Boteco IV: Oi? Ah, um velho veio aqui de manhã comprar cigarros.

Kirk: Quem mais?

Regente de Boteco IV: Ninguém.

Kirk: Como assim?

Regente de Boteco IV: É, veio o velho comprar cigarro e, agora, vocês. É movimento demais, estou confusa.

Uhura: Capitão, nova mensagem da Frota. A USS Diagramador está precisando das fotos.

Kirk: Não responda ainda, tenente.

Regente de Boteco IV: Quantas latas de guaraná vocês querem?

Kirk: Coca, regente! Coca Zero!

Regente de Boteco IV: Ah é. Coca Zero. Como vocês pretendem pagar por isso?

Kirk: Nossa idéia era trocarmos alguns cristais de dilítio pela Coca.

Regente de Boteco IV: Ih, mas eu não vou ter troco. Pode ser bala?

Spock: Fascinante.

Kirk: Regente, nós temos que continuar nossa missão. Você pode ficar com o troco.

Regente de Boteco IV: Ah, então tá.

Kirk: Quais as coordenadas para transportarmos a Coca?

Regente de Boteco IV: Não, espere. Eu tenho que pegar lá na geladeira. Preciso de uns dez minutos.

Kirk: Regente, isto é tempo demais. Precisamos de apenas uma lata.

Regente de Boteco IV: É, mas eu tenho que ir até a geladeira, procurar, trazer para cá...

Kirk: Sr. Spock?

Spock: Os sensores indicam que a geladeira está a aproximadamente 1,5m dela.

Kirk: Não temos alternativa, a não ser esperar. Caso contrário, poderíamos criar um incidente diplomático aqui. Regente, nós já estamos transportando os cristais para o planeta.

Regente de Boteco IV: É? Mas eu nem sei quanto deu. Preciso ver o preço da Coca.

Kirk: Não tem importância. E se você nos passar as coordenadas da geladeira, nós transportaremos a Coca para a nave.

Regente de Boteco IV: Tá. Espera aí que eu tenho que achar as coordenadas. A menina do caixa guarda sempre isso aqui, mas ela foi ao banco.

Spock: Não há registros de Menina do Caixa no banco de dados, senhor. Acredito que ela esteja se referindo a uma divindade.

Regente de Boteco IV: Oi? Vocês ainda estão aí?

Kirk: Sim.

Regente de Boteco IV: Encontrei um papel aqui, acho que são as coordenadas. O que vocês querem mesmo? É uma Coca?

Kirk: Sim!

Regente de Boteco IV: Tá. Estou transferindo.

Kirk: Scotty, transporte uma lata de Coca Zero nas coordenadas que estamos recebendo, direto para a engenharia.

Scott: Sim, capitão.

Kirk: Obrigado, regente.

Scott: Capitão, transporte executado com sucesso.

Kirk: Regente, vocês receberam os cristais de dilítio?

Regente de Boteco IV: Sim, acho que sim. Alguém me falou algo aqui sobre isso.

Kirk: Então, não tomaremos mais seu tempo. Obrigado. Sr. Sulu, saia de órbita e trace um curso até a última posição da USS Diagramador.

Sulu: Sim, senhor. Saindo de órbita. Curso traçado.

Kirk: Dobra quatro. Acionar.

Sulu: Dobra quatro.

Uhura: Capitão?

Kirk: Sim, tenente?

Uhura: O Sr. Scott está na engenharia. Ele informa que a regente de Boteco IV não enviou Coca Zero, mas sim duas latas de suco e uma garrafa de chá gelado.

Spock: Fascinante.

Kirk: Estamos atrasados para o encontro com a USS Diagramador, tenente. Diga ao Sr. Scotty para se virar com isso mesmo. E, tenente?

Uhura: Sim, senhor.

Kirk: Envie uma mensagem à Frota Estelar, alertando a todas as naves que evitem, a qualquer custo, contato com o planeta Boteco IV.

Uhura: Alegando qual motivo, senhor?

Kirk: Informe que os nossos sensores não encontraram vida inteligente neste local.

"Ninguém irá estabelecer contato com este planeta
até segunda ordem, senhores."

10 de março de 2010

O Céu é o Limite

Mais uma do boteco aqui em frente à redação.

Dias desses estava vindo para o trabalho e percebi que tinha somente dois cigarros. Como eu já estava em fechamento – na verdade, eu não sei se eu estava em fechamento de novo, se eu ainda estava em fechamento ou se eu já estava de novo em fechamento – dois cigarros me manteriam vivo por aproximadamente 0,0078% do meu dia.

E como eu percebi isso já quase chegando ao trabalho, não tive alternativa a não ser parar no botequim.

Antes de entrar no bar, olhei no relógio e comecei a fazer contas. Eram 10h15min. Com sorte, eu seria atendido às 10h45min. O funcionário demoraria cerca de vinte minutos para entender o que eu queria, mais uns quinze para pegar o cigarro e calcular o troco. Podemos colocar aí uns cinco minutos adicionais para eu brigar por causa do troco errado e pronto: eu estaria na redação com cigarros às 11h30min, mais ou menos.

Ou seja, ainda daria para salvar um pouco da manhã.

Mas os anos em que eu trabalho aqui não me preparam para este boteco – seus atendentes conseguem me surpreender a cada dia.

Entrei no bar e me encostei ao balcão.

Não havia ninguém ali. O bar estava deserto. Olhei para cima e constatei que as luzes estavam acesas – o que indicava que o bar estava oficialmente aberto. Não havia nenhum sinal de presença humana ou animal (o que no caso dos atendentes é a mesma coisa) no local.

Sem saber ao certo o que fazer naquele ambiente desolado e apocalíptico, resolvi tomar a iniciativa.

– Hã... Oi?, disse em voz alta.

Nada. O vento soprava. Tufos de mato passavam rolando pela calçada. Comecei a considerar a hipótese de a cidade estar sofrendo um ataque de mortos vivos e eu ser o único a não saber de nada. A idéia me pareceu atraente – sim, eu sou problemático e fico bolando estratégias de sobrevivência a ataques de zumbis o tempo todo – mas logo voltei à realidade e lembrei que eu precisava apenas de cigarros para poder ir trabalhar.

– É.... Bom dia?, eu repeti.

Não tive resposta. Estiquei o corpo por cima do balcão, esperando encontrar o cadáver de um dos atendentes no chão, mas não vi nada disso, apenas a tradicional gordura de chão de boteco e um pacote de latas de Coca Zero. Na mesma hora, percebi que se minha teoria dos mortos vivos se confirmasse, aquelas latas de Coca seriam um bem precioso, eu poderia levar aquilo para casa e estocar...

– Pófalá!

Em uma fração de segundos, eu dei um pulo, quase enfartei e tive o impulso de golpear a pessoa que estava atrás de mim com o porta-guardanapo que vi sobre o balcão. Mas, enquanto eu ainda estava na parte da parada cardíaca, consegui me virar e dei de cara com uma das atendentes (na verdade, era o gênio matemático que trabalha ali).

Ela estava parada na calçada, segurando uma vassoura. Se eu não estivesse branco de medo, teria perguntado a ela se a vassoura era para espantar os mortos vivos. Além disso, não tive tempo de perguntar nada, ela insistiu:

– Pófalá!

– É... Eu queria dois Marlboro Box.

– Eu to varrendo a calçada, entra lá e pega!

– Oi?

– Eu tô varrendo a calçada!

– Sim, essa parte eu havia entendido. Mas o cigarro...

– Entra lá e pega!

Olhei para os lados, procurando a câmera escondida. Nada. Ela estava falando sério, não era pegadinha nenhuma. Ou, claro, ainda não havíamos chegado ao clímax da coisa (provavelmente haveria uma cascavel escondida atrás do balcão). Dei de ombros e aceitei a estratégia do self service adotada pelo botequim, fazendo o que ela mandou – afinal, ela tinha uma vassoura nas mãos e eu estava totalmente desarmado, tendo apenas o porta-guardanapo à disposição.

Contornei o balcão e fui até a parte do caixa, pegar os cigarros. E, claro, rezando baixinho, para que ninguém que eu conhecesse resolvesse passar por ali naquele momento.

E, quando meu dia parecia não poder ficar pior, os astros se alinharam de uma determinada forma que todo o constrangimento do universo se irradiou em mim.

– Oi? É... Bem... Eu meio que não alcanço o lugar dos cigarros.

Merda de altura. Merda de 1.60m.

– Quequeé?

Não, por favor, não me faça repetir isso. Olhei para cima e vi os cigarros, no alto daquela prateleira que, para mim, parecia uma montanha.

Também vi, por trás dos cigarros, um grupo de anjos debruçados numa nuvem apontando para mim e gargalhando. Um deles estava filmando tudo. Segurei meus impulsos de fazer um gesto obsceno na direção da câmera, mas, por outro lado, prometi a mim mesmo que não ficaria dando pulinhos atrás do balcão do bar para tentar alcançar os cigarros.

Estiquei o braço o melhor que pude, fiquei na ponta dos pés, como se executasse um passo de A Morte do Cisne naquele palco engordurado (“procurando bem, todo mundo tem cigarro, só a bailarina que não tem”, cantaria Chico Buarque em minha homenagem) e nada de alcançar os cigarros.

Não tinha jeito.

– Eu não alcanço os cigarros.

– Tem um banco aí!

O grupo de anjos havia se transformado em uma multidão. Olhei ao redor e vi o tal do banco, de plástico verde e mais engordurado que o chão do boteco.

Peguei o banco e, ignorando meu medo de altura, subi em cima dele e, com os olhos fechados, comecei a passar os dedos pelos maços de cigarro, tentando identificar os Marlboro pelo tato (demolidor mode: on) e ignorando o fato de que aquela merda não parava de tremer sob meus pés.

Não deu.

Abri os olhos – percebi que os anjos estavam fazendo coreografias e agitando bandeiras –, peguei os boxes de Marlboro com uma mão e, usando a outra para me apoiar na caixa registradora como se minha vida dependesse disso – e dependia – desci com cuidado do banco.

E, claro, ainda rezando, mas não mais para não ser visto, e sim para que o banco não virasse e eu me estatelasse no chão, tendo um traumatismo craniano. Afinal, se eu caísse ali, os funcionários do boteco só perceberiam isso no meio da tarde, e aí já seria tarde demais.

Apoiei os pés no chão, com calma - se o chão não fosse tão engordurado, eu teria bancado o Papa e beijado o piso, mas apenas arrumei minha camisa, saí do boteco e me aproximei da vendedora, com o pouco de dignidade que me restava. Paguei minha conta e vim trabalhar, tentando fingir que aquilo era absolutamente normal.

Mas, sinceramente, eu preferia os mortos-vivos.

8 de março de 2010

Máquina Mortífera - Parte Final

(leia a parte II aqui)

Voltamos para casa com o computador, sem desconfiar que uma pequena reunião de cúpula havia sido realizada no meu apartamento durante nossa ausência.

Explico: os aparelhos elétricos e eletrônicos da minha casa pertencem a uma seita cujo principal mandamento é que obrigatoriamente algo meu precisa estar quebrado. Assim, quando eu conserto algo (ou compro um novo, como no caso do PC), outra coisa quebra no momento em que o pagamento é efetuado – assim, é estabelecido um sistema de rodízio em casa.

Desta vez, a bola da vez foi o chuveiro. Todos eles se reuniram por conta de eu sair para comprar um PC novo e decidiram que era hora de outro aparelho dar a vida em nome da causa (por “causa”, leia-se, me irritar). Não sei como foi realizado o sorteio, mas a bola da vez foi o chuveiro.

Ou seja, no momento em que o Visa recebia a notificação do Extra de que eu estava comprando um PC, meus aparelhos correram para o banheiro e destruíram o cano do meu chuveiro. Com o serviço terminado, esconderam a marreta (eles possuem uma marreta, mas eu ainda não localizei o esconderijo) e voltaram aos seus lugares.

Sem saber disso, voltei para casa com meu primo e começamos a ligar o PC. Quer dizer, ele começou: eu, no auge dos meus 34 anos, não tenho mais idade para ficar acordado em determinados horários; assim, na segunda vez que eu comecei a dormir de pé, na sala, disse a ele que iria deitar um pouco no quarto.

Acabei pegando no sono de verdade (de roupa, com tênis). Olhando em retrospecto, lembro-me vagamente de ter sonhado que estava me afogando num chuveiro, mas não dei atenção a isso. Por volta das cinco da manhã, ele entrou no meu quarto, disse que estava tudo ok e que ia embora. Nos despedimos, eu balbuciei um “te devo um jantar” e voltei para a cama.

O PC ficou ligado, baixando todas as atualizações de Windows.

No dia seguinte, acordei e percebi que estava sem chuveiro. Assim que abri a torneira, começou a espirrar água por toda a Zona Oeste de São Paulo, menos em mim. Eu não tinha mais um chuveiro, eu tinha um daqueles regadores de grama que ficam girando em velocidades espantosas.

E, bem... O ato de arrumar um chuveiro contém diversas coisas que fujo, especialmente eletricidade e altura. Quanto a este último, é fobia mesmo, qualquer dia falo sobre isso com mais calma aqui.

Já eletricidade... Bem, tenho um caso de amor e ódio com eletricidade. Eu adoro tudo que usa energia elétrica, mas não entendo absolutamente nada dos bastidores. Assim, se eu tentasse arrumar o chuveiro, era capaz de causar um apagão em todo o Sistema Solar – o que incluiria a casa da minha síndica – e, como conseqüência, ela causaria um apagão em mim.

Liguei para o técnico e mecânico da família (meu irmão) e combinamos de ele passar ali depois do almoço. Assim, fui para o PC e comecei a brincar com ele, instalando minhas coisas, configurando meu mail, e tudo aquilo que todo mundo faz quando possui em PC novo. E o PC ali, mesmo ligado desde a madrugada, tinindo.

Foi quando meu irmão chegou, e a maionese começou a desandar. Para arrumar o chuveiro, evidentemente, tivemos que desligar toda a luz da casa – por conseqüência, o PC foi junto. E foi em vão: meu irmão gira cano daqui, martela ali, ameaça o cano de morte acolá – e o encanamento ali, irredutível, fazendo cara de paisagem e fingindo que não era com ele.

Desistimos.

Bom, não se pode ganhar todas, pensei. Além disso, estou com um PC novo, um PC nota nove, nada me impede de baixar um banho. Meu irmão foi embora – sem antes jurar o chuveiro de morte – e eu liguei a luz da casa, e iniciei o PC.

Acendi um cigarro, já pensando em qual banho eu iria fazer download (“aposto que consigo baixar uma banheira aqui”) e o PC iniciando. Foi quando comecei a ouvir barulhos estranhos vindo da HD. Me abaixei, assustado e vi que o som não era mecânico, mas sim um barulhinho abafado de risadas.

Antes que eu pensasse em fazer algo, surgiu a tela de login do Windows.

O nome do usuário? Kiosk.

Acendi um cigarro e analisei a situação. Kiosk.

Suspirei, atravessei a sala, peguei minha carteira e puxei meu RG. Não, meu nome não era Kioski. Liguei para o meu primo e perguntei “que imbecilidade é essa?” Ele, evidentemente, respondeu que não sabia, que havia criado um usuário para mim. Teste o login e senha que ele me passou, e nada.

O tal de Kioski havia dominado meu PC.

Dei uma longa tragada no cigarro e liguei meu modo Sherlock Holmes – que funciona como o dos livros, e não do filme do Robert Downey Jr. assim, comecei a concatenar as idéias. Será que o pessoal do Extra deixou o login de demonstração aqui? Não, não pode ser, seria burrice demais. Por outro lado, não havia outra explicação. E, quando você elimina o impossível, o que sobra, por mais improvável que seja, é a verdade.

Se bem que, me lembrando do pessoal do Extra, a idéia não pareceu tão improvável assim.

A única saída, então, seria ligar para o Extra e pedir a senha do PC – algo que, olhando friamente, estabeleceria novos padrões de ridículo na minha existência. Mas não tinha jeito. Peguei a nota fiscal, atrás de um telefone. Nada. Olhei a garantia.

Nada.

Vejam a ironia da situação. Eu precisava de um telefone do Extra para conseguir descobrir a senha do PC para conseguir entrar na Internet. Ou, se preferirem, eu não podia usar no computador e acessar a internet para conseguir a informação necessária para usar o computador. Ou seja, não importa de qual lado se olhasse, minha situação era ridícula.

Assim, tive que sentar na frente do meu PC nota nove e acessar a internet mambembe do meu celular. Aperta daqui, reload dali, xinga aqui, resmunga ali e finalmente, coisa de dez minutos depois, consegui o bendito número. Liguei.

Assim que atenderam do outro lado, descobri o motivo do vendedor que havia me atendido na véspera se parecer com os sete anões. O Extra Itaim não é uma loja, mas sim um reino de conto de fadas, já que a vendedora do turno do dia era a Bruxa.

Assim que ouvi o “alô” rouco dela, imaginei uma velha vestida de preto e carregando uma cesta de maçãs, encostada num balcão, cercada de PCs e com o telefone preso no ombro.

Segurei o riso e expliquei a situação da melhor forma que pude. A resposta dela demonstrou uma sagacidade inacreditável.

– Basta você entrar no Windows e configurar um usuário com seu nome.

– Eu sei disso, minha senhora. Mas, para executar sua sugestão, eu preciso entrar no Windows. E, para entrar no Windows, adivinhe do que eu preciso? Da senha.

– Sim, mas o usuário não é você?

– Não.

– Mas o PC não é seu?

– Veja bem, o PC é meu. Mas a senha não é minha. Eu não sou este usuário.

– Mas se o PC é seu, o usuário é você. Não importa o nome que ele está registrado.

– Olhe, eu não sou formado por uma churrasqueira, cadeiras de plástico e cobertura de palha. Eu não sou o Kiosk. Vocês são o Kiosk. E eu preciso da senha que vocês colocam nos PCs. Não é difícil de entender.

– Entendi.

Não agüentei.

– Qual parte você entendeu? Aquela que eu preciso da senha ou aquela que eu disse que não é difícil entender.

– Você precisa da nossa senha.

– Isso! É só falar e eu digito aqui.

– É a senha do PC de demonstração, né?

– Por favor, a senha...

– Então, eu não sei a senha.

– Oi?

– Eu não sei a senha.

– Minha senhora, a senha é do Extra. Da parte de computadores. Você é do Extra. Da parte de computadores. Nada disso é uma coincidência, eu não estou falando com você por acaso. Só a senhora pode saber a senha. A senha é sua.

– Ai, minino (sim, foi “minino” mesmo), eu não sei.

– Eu não quero invadir o sistema financeiro do Extra! Eu preciso da senha só para usar o meu computador novo.

– Será que você não pode ligar à noite?

– É evidente que não! Não são nem quatro da tarde!

– Ai, espere, vou chamar o promotor. É ele quem configura as senhas.

Gritei um “porra, porque não chamou ele logo?”, mas ela já tinha largado o telefone em algum canto. Fiquei ali esperando, digitando todos os palavrões que conheço como senha e testando um por um (inutilmente) como login. Estava no meio do “bucetacabeludafilhadaputa” quando um homem pegou o telefone.

– Pois não?

Expliquei a situação novamente, tentando me conter. Ele respondeu:

– Tenta 1431.

A segurança com que ele falou me animou. Apaguei o palavrão e digitei.

O login recusou e gargalhou na minha casa.

– Não.

– Tenta lj1431.

O login recusou e gritou “chupa, Rob”.

– Não.

– Tenta loja1431.

O login e recusou e gritou “Tenta de novo! Tenta de novo!”

– Não.

– Tenta 1431 loja.

– Amigão, me diz uma coisa? Se eu reinstalar o Windows, este usuário se apaga, certo?

– Certo.

– Adeus.

Bati o telefone da cara dele – sei que não tinha motivo para ser grosso com ele (com a Bruxa, sim), mas cansei. Se ele quisesse, que me ligasse e acertasse a senha do meu mau humor para conseguir minhas desculpas.

Reinstalei o Windows e consegui usar normalmente.

Mas, assim que configurei a conta de e-mail, recebi uma mensagem dos meus aparelhos (eles me copiaram por engano), afirmando que o próximo da lista a ser quebrado é microondas. Ou seja, como meu chuveiro já foi arrumado, é questão de horas até que o microondas exploda na minha cara.

Contudo, desta vez, ao menos eu tenho um PC com internet. E é um PC que eu sei a senha. Na dúvida, já coloquei todos os sites de delivery que conheço nos favoritos.

Claro que não vai dar certo, mas sonhar não custa nada.

5 de março de 2010

Máquina Mortífera - Parte II

Agora, voltamos à programação normal do blog. Se você não leu a primeira parte da saga, ela está aqui.


Se você quiser um emprego no qual não precisa trabalhar muito, tente ser vendedor da parte de eletrônicos do Extra no turno da noite. Não sei se paga bem, mas o trabalho é pouco – quem vai comprar um PC de madrugada, a não ser o babaca aqui? – e é estável.

Isso porque o sujeito que me atendeu era o mesmo que havia me vendido o falecido PC três anos atrás. Evidentemente, ele não se lembrava de mim, mas eu o reconheci na hora – a cara de sono dele era inconfundível. Aliás, como eu cheguei com meu primo e o vendedor deu as caras somente uns dez minutos depois, bocejando e esfregando os olhos, tenho certeza de que ele estava dormindo no estoque.

Na verdade, acredito que o vendedor era patrocinado pela Disney, porque, ao longo da noite, ele conseguiu encarnar todos os sete anões da Branca de Neve, como vocês verão mais para frente. Neste estágio, ele, obviamente, era o Soneca.

Mas vamos às compras. Escolher PC com meu primo é algo de outro mundo. Ele parece um médium, usando técnicas não reconhecidas pela ciência para separar as máquinas boas das ruins. Assim, ele foi andando pelo Extra, atrás de uma máquina com vibrações boas. De vez em quando, parava, encostava a ponta dos dedos em uma das máquinas e fechava os olhos. Ficava assim por alguns minutos até resmungar um “não” e continuava andando.

Eu? Eu ia andando atrás feito um bobo.

Mas o grande problema mesmo é que ele fala coisas que eu, totalmente leigo no assunto, não entendo absolutamente nada. No final da caçada, ele separou quatro computadores que, aparentemente, emitiam boas vibrações. Veio até mim e, apontando para uma delas, disse:

– O melhor é esse aqui, apesar daquele outro ter processador quadri-warp-plus.

– Ter o quê?

– Processador quadri-warp-plus.

– Isso é bom?

– Muito.

– Então, aquele não é melhor?

– Não, pois a configuração dele não permite que os pinos warp usem a capacidade máxima.

– Como você sabe isso? Você não viu a configuração, só encostou na máquina.

Ele me deu um olhar ofendido e respondeu, com ar de quem não iria discutir o assunto:

– Eu apenas sei.

– Bom, ok. É esse, então?

– Talvez. Não estou certo ainda. Pois aquele lá no final do corredor tem um HD maxi-all com ligas de adamantium. Isso faz o processador agir mais rápido.

– Mas o processador é warp plus?

– MAXI warp plus. Não.

– Então...

– Estou pensando.

– Olhe, vamos fazer o seguinte. De 0 a 10, que nota você dá para os quatro?

– 9 para este. 8 para aquele ali no meio e 7,5 para os outros dois.

– Então, pronto. É o nota nove.

– Mas a placa bacteriana dele...

– Foda-se, eu nunca tirei um nove na vida. Eu quero esse PC. Agora eu quero uma nota nove, nem que seja para escrever, a caneta mesmo, no meu currículo escolar, que eu tenho um PC nota nove.

Enquanto tudo isso acontecia, o Soneca havia se transformado numa espécie de Dunga. Lembram-se do Dunga correndo atrás das borboletas na floresta? Enquanto meu primo bancava o xamã em meio aos computadores, o vendedor ficava andando pelos corredores, arrumando etiquetas de preços e mexendo nos monitores, preso no próprio mundinho e alheio a tudo o que acontecia.

Chamei o Dunga, que se aproximou devagar, ainda brincando com um catálogo de preços na mão. Comecei a ficar preocupado: com a velocidade que o mundo está hoje, até esse sujeito fechar a venda, a máquina já estaria ultrapassada.

Pedi detalhes sobre a configuração – meu primo fez duas perguntas que nem o Bill Gates saberia responder – e o preço. Quando o Dunga percebeu que eu talvez levasse um dos computadores, saiu de cena e deu lugar ao Dengoso. Os olhos dele brilhavam, ele piscava incessantemente, só faltava encostar-se em mim e começar a ronronar.

Ele respondeu dando o valor do PC – mais ou menos uns 300 ou 400 paus a mais do que eu queria gastar.

Chamei meu primo de canto.

– É caro demais.

– Mas a fiação dele é revestida de minério venusiano, isso aumenta a velocidade de conexão.

– Você pode, por dois minutos, falar como uma pessoa normal?

– Ok.

– É caro demais.

– Mas é nota nove, lembra? Você nunca teve uma nota nove.

Ele tinha razão. Em alguns anos – no(s) meu(s) lendário(s) primeiro(s) colegial(ais), por exemplo – nem mesmo se você somasse todas as minhas notas de química, do primeiro ao quarto bimestre, não atingiria 9. Fiquei olhando o computador, cada vez mais convencido de que aquela máquina era tudo o que eu não consegui ser na vida.

Eu já havia decidido. Chamei o Dengoso e disse:

– Se eu pagar R$ 400 à vista posso parcelar o resto?

– Sim, em seis vezes.

– Então, eu vou levar.

Previsivelmente, o Dengoso deu lugar ao Feliz. Ele sorriu para mim e pediu para eu acompanhá-lo até uma mesa. Aproveitando que ele estava no estágio Feliz, arrisquei:

– Como eu estou pagando uma entrada à vista, você pode me dar um desconto?

Achei que o Zangado fosse aparecer no meio daquela guerra de personalidades, mas não, foi o Dunga quem voltou. Nessa hora eu já pensei em dizer ao meu primo, só por garantia, que se alguém ali fosse a Branca de Neve, seria ele. Mas fiquei quieto, estávamos num momento delicado da negociação.

O Dunga tentou dar uma de desentendido, e começou a brincar novamente com uma etiqueta de preço.

– Desconto? Ih... Olhe, o problema é que o sistema...

Foi quando meu primo interrompeu e disse:

– O processador dele não é quadri-warp-plus, e a fiação é feita com cobre de Saturno e não venusiano. Queremos um desconto.

O Dunga olhou assustado, sem entender nada, e falou algo a respeito de 5% de desconto e voltou a brincar com a etiqueta de preço de um monitor.

Eu disse então que estava tudo fechado, que eu iria levar a máquina e ele foi cuidar da papelada – ou pular pelos outros corredores do mercado atrás de mais borboletas, vai saber. Fiquei esperando com meu primo um bom tempo, até que ele apareceu novamente. Desta vez, ele era o Mestre – e estava acompanhado de outro funcionário do Extra.

– Nós temos apenas duas peças desse computador. Uma é a do mostruário, e a outra não está no depósito. Nós vamos ter que procurar.

Pensei em perguntar “o que eu tenho a ver com isso?”, mas não tive tempo nem de abrir a boca. O Mestre, exercendo sua capacidade de liderança ímpar, mandou o subalterno examinar uma pilha de caixas de computador num canto, enquanto ele foi fuçar em outra pilha.

Aí, o Mestre saiu de cena e foi substituído pelo Atchim. Conforme ele mexia nas caixas de computador, nuvens de poeira começaram a subir pelo mercado, fazendo com que a rinite do vendedor-sete-anões atingisse estágio terminal. Era uma caixa, um espirro; outra caixa, outro espirro.

E nada do meu PC aparecer.

Estava quase perguntando ao Atchim se ele não queria uma picareta – eu sei que não ia ajudar em nada, mas como meu cérebro já estava trabalhando esta idéia dos sete anões... Bom, deixa para lá, tem certas coisas que acontecem no meu cérebro que devem ficar somente entre eu e ele.

Acabaram-se as caixas e nada do meu PC aparecer. Ele assumiu novamente a identidade de Mestre, soltou um comando qualquer para seu subalterno e veio falar comigo:

– Olhe, não encontramos a outra peça. Temos apenas aquela do mostruário.

Olhei para o PC. Ele estava ligado há sabe-se lá quantas horas. Tentei não pensar em quantas mãos haviam encostado nele e cheguei à conclusão de que ele tinha uma grande vantagem sobre a máquina que eu tinha em casa: ele ligava.

Chamei meu primo e disse:

– Eles só têm o do mostruário. Você acha que eu levo assim mesmo?

– Não tem problema, pois uma das características das ligas de cobre de Saturno...

Fiz minha tradicional cara de “ok” e chamei o Mestre.

– Beleza, eu levo. Coloque numa caixa.

Eu mal havia terminado a frase, e o Feliz havia possuído novamente o corpo do sujeito. Mas isso não durou muito, pois eu testemunhei uma verdadeira guerra de personalidades no sujeito:

– E como estou levando uma máquina aberta, quero um desconto maior.

– Desconto maior?, respondeu o Dunga.

– Claro.

O Soneca bocejou para ganhar tempo, e o Atchim espirrou uma três vezes. Eu fiquei apenas olhando.

– Olhe, na verdade, eu não posso dar um desconto maior que 10%. Ordem da gerência.

Não sei qual anão respondeu isso (deve ter sido o Dunga), mas emendei de primeira.

– Ótimo. Como você me deu um desconto de apenas 5%, agora você pode dar mais 5% então.

Foi aí que ele se tornou o Zangado.

– Mais cinco? Não posso.

– O maior desconto que você pode dar é 10%. Você me deu um desconto de 5%. 5% é menor-igual a 10%. Logo...

– Hum... Mais 5%?

– Sim. Desconto de 10% ou não levo.

– Ok, resmungou o Zangado.

Minutos depois, estávamos saindo do Extra com o PC embaixo do braço, deixando o homem-Sete Anões para trás.

Missão cumprida. Eu era o feliz proprietário de um PC novo. Poderia ir para casa e passar o fim de semana inteiro brincando com ele.

Ou não.

(continua...)

4 de março de 2010

Guerra ao Terror

Dez vezes mais visitas que o normal. Eu peguei 142 pessoas online no blog, mas há quem diga que chegou a 300. Recorde absoluto de comentários (134, até agora).

Aparentemente, muita gente gostou da Carta Aberta ao Sr. Dioclécio Luz, em resposta ao texto dele sobre Turma da Mônica. A todos esses, meus sinceros agradecimentos.

Mas, claro, há quem não tenha gostado. Alguns dos comentários foram críticas. Algumas delas foram válidas – como da pessoa que não se quis se identificar com medo de receber uma “carta aberta”, e depois entendeu que isso não aconteceria, já que seus argumentos foram válidos e bem educados. Outras, não. Algumas, respondi (sempre no mesmo tom), outras passaram em branco, mas foram lidas.

Porque eu leio todos os comentários deste blog e procuro aprender com cada um deles. E isso, claro, inclui as críticas.

Como blogueiro, eu sei que estou sujeito a críticas – ninguém é obrigado a concordar com o que escrevo nem é forçado a entrar aqui me elogiando. Justamente por isso que tomo cuidado com o que escrevo (não apenas em termos de qualidade de texto, mas principalmente em relação a conteúdo).

Agora se tem algo que eu não admito é a pessoa não concordar comigo e tentar me prejudicar de alguma forma.

Exatamente como a pessoa que tentou invadir meu blog na terça-feira.

Caso você seja esta pessoa, vamos conversar um pouco aqui. E vamos conversar publicamente, porque eu não tenho nada a esconder.

Não sei seu nome, nem se você tentou fazer isso porque ficou mordido com algo que escrevi, ou apenas por farra. Talvez você tenha visto meu blog com 200 pessoas online e resolveu fazer graça; talvez você não concorde com o que escrevi e, sem saber como argumentar, tenha tentado invadir meu blog para apagar tudo o que está aqui.

Não sei.

Mas meu instinto me diz que você discordou de mim. Que o ataque não foi gratuito. Veja bem, estamos falando do meu blog, e não do site da Nasa. Dificilmente um hacker gostaria de ter “invadi o Champ Vinyl” no currículo. Então, tenho certeza de que a coisa foi pessoal. Tenho certeza que é porque você discordou de mim.

O problema é que qualquer leitor que me critica – educadamente ou não – é um leitor. Até mesmo aqueles com que briguei em posts antigos. Não é porque a pessoa discorda de mim que ela deixa de ser um leitor.

Enfim, não sei o motivo de você ter feito isso.

Mas também não me importo.

Você é a primeira pessoa na história do blog que consegue perder o privilégio de ser chamado de leitor, sendo rebaixado à posição de escroto. Você tentou fazer algo por baixo do pano, apenas com o objetivo de me prejudicar.

Você é escroto. Escroto, criança e covarde.

E o melhor de tudo é que não deu certo. E não estou falando pelo meu blog, estou falando de você. Claro que eu ficaria extremamente puto se algo aqui fosse apagado, mas tenho tudo em back up.

Mas a grande questão é que o seu fracasso joga uma pá de cal em cima da sua
incompetência.

Você não tem coragem para vir aqui argumentar. Você discorda do que escrevo, mas, com medo de vir argumentar e brigar pelo que você acredita, decide invadir meu blog – o que, aliás, demonstra uma maturidade ímpar da sua parte. E, pior nem isso você consegue fazer direito.

Ou seja, sua mediocridade não conhece limites.

Você está familiarizado com a frase “sua inveja faz a minha fama”? É uma das frases mais imbecis criadas pela humanidade, então provavelmente você deve conhecê-la, algo me diz que é exatamente o seu tipo de leitura.

Então, guarde isso com carinho: ao contrário do que prega esta frase, sua inveja não faz a minha fama. Quem faz minha fama é o pouco de talento que tenho, e muito trabalho.

Sua inveja é como você, ela não faz nada.

Não, minto. Sua inveja fez algo sim. Se o meu texto incomodou uma pessoa como você, fico ainda mais orgulhoso dele, porque eu não quero que nada que esteja levemente ligado à minha vida ou à minha pessoa seja aprovado por um boçal como você. Quanto menos você gostar do que faço, sinal de que melhor eu estou me saindo.

Assim, antes de encerrar, eu repito meu primeiro parágrafo, mas com uma mudança endereçada a você: “Dez vezes mais visitas que o normal. Eu peguei 142 pessoas online no blog, mas há quem diga que chegou a 300. Recorde absoluto de comentários (134, até agora). E você? O que você tem para me mostrar?

Nada. Você não tem nada para mostrar. Você não tem nada, você não é nada.

Enfim, nós jogamos pelas suas regras, e eu ganhei. Agora, desafio você a jogar pelas minhas. Porque se você é homem a ponto de tentar entrar no meu blog, espero que você seja homem suficiente para vir e assumir isso.

São exatamente 15:30 horas, do dia 4 de março.

Você tem 24 horas para ao menos fingir que é homem e se identificar nos comentários.


Update: Bom, suas 24 horas se passaram e, como era previsível, você não teve culhões de vir se manifestar aqui. Somente isso já colocaria você como covarde, mas o fato de você ter medo de uma pessoa que tem apenas 1.60m - minha altura (ou falta dela) é conhecida por qualquer pessoa que leia este blog - é realmente impressionante. Parabéns.

Isto posto, cabe relembrar o placar. Eu ganhei jogando pelas suas regras (pela sua incompetência) e eu ganhei jogando pela minhas regras (pela sua covardia). Ou seja, não importa de qual lado se analise, você é um merda. Aliás, acostume-se com isso, pois é bem provável que você será um merda para sempre.

Felizmente, nosso relacionamento se encerra aqui.

Este post está fechado para comentários em caráter definitivo.

1 de março de 2010

Carta Aberta ao Sr. Dioclécio Luz

Caro Sr. Dioclécio Luz:

Tenho 34 anos, sou jornalista e leitor de quadrinhos há três décadas. E foi tanto como leitor de quadrinhos quanto na posição de jornalista que fiquei estarrecido ao ler seu texto discorrendo sobre a violência encontrada nas histórias da Turma da Mônica.

Disposto a tudo para provar a sua tese de que a Mônica é um estereótipo violento, você simplesmente justifica todos os outros exemplos de violência dos quadrinhos – alguns, muito mais intensos que aquele que você tenta (inutilmente) provar.

É o caso do Batman: em muitas de suas aventuras, o herói fratura ossos de criminosos (muitas vezes descrevendo isso em detalhes gráficos e textuais) e os manda para hospitais. Mas, aos seus olhos, esta conduta é aceitável, já que ele teve “parentes” assassinados. Ou seja, em sua opinião, um crime justifica o outro.

Dentro do seu texto, a política do “olho por olho, dente por dente” é maleável, funcionando apenas como prova para incriminar a Turma da Mônica, inocentando outros personagens à conveniência daquilo que você tenta provar.

Aos seus olhos, a violência da Mônica é falha de caráter; a de Batman é traço de personalidade. Isso seria digno de uma análise mais detalhada, especialmente no caso do Batman (dizer apenas que “ele teve familiares assassinados” é pobre demais, pois a Mônica também tem motivos para bater em Cebolinha e Cascão: ela é provocada), mas você se furta a isso.

Aliás, me arrisco aqui: tenho certeza de que se pegássemos dez personagens que utilizam de violência como elemento em suas histórias (Lobo, por exemplo), você encontraria argumentos para continuar provando que a Turma da Mônica é a única a esbanjar este traço nocivo. Mesmo sendo jornalista, você não tem compromisso com a verdade, mas sim com uma idéia - o que é totalmente inaceitável.

Além disso, seu trabalho carece de uma pesquisa mais detalhada. Ao contrário do que seu texto indica, os personagens Tarzan e Guran nunca habitaram o mesmo universo (Guran é o chefe da tribo dos pigmeus bandar que habitam as cercanias da caverna da caveira, lar do Fantasma).

E o universo que você se refere como “Turma da Marvel” é totalmente equivocado. Em primeiro lugar, a “Turma da Marvel” não fazia sucesso na década de 50, pois ela foi criada nos anos 60. E finalizando, a única relação entre Batman, Tarzan e Fantasma com a editora Marvel é a mídia “história em quadrinhos”, já que eles nunca pertenceram à mesma editora que publica Homem-Aranha e Hulk.

Detalhes? Certamente. Mas que demonstram que o propósito inicial do texto era panfletário, pois provam que poucos minutos (ou nenhum) foram gastos numa pesquisa mais detalhada.

Quanto ao império de merchandising que você aponta como força motriz do universo criado por Maurício de Sousa (e traçando um paralelo com o universo Disney e, previsivelmente, com os Estados Unidos), nota-se outro argumento tendencioso.

As empresas que publicam os quadrinhos de heróis, sobretudo Marvel e da DC, que você propaga como lar de personagens com “personalidade”, há muito deixaram de atuar apenas como editoras, trabalhando muito com licenciamento – a própria Marvel Comics abandonou este nome e passou a operar sob a marca Marvel Entertainment Group. São desenhos animados, brinquedos, jogos eletrônicos, filmes, objetos escolares estampados com todos os seus personagens. E não é preciso pesquisa para saber isso, basta apenas olhar ao seu redor.

Mas, no seu texto, este elemento serve apenas para atacar a Mônica – no caso das editoras citadas acima, isso não é levado em conta em momento algum, pois contradiz seu argumento.

E uma observação: o Tio Patinhas – que, ao contrario do que você diz, não encontra solução para tudo na violência, mas sim no dinheiro – é o símbolo máximo da Disney apenas aos olhos de comunistas. Para o resto do mundo, incluindo aí própria empresa, o personagem-símbolo da marca é o camundongo Mickey Mouse: o desenho de suas orelhas é conhecido mundialmente, enquanto a cartola do Tio Patinhas é uma imagem que jamais funcionaria sozinha.

Walt Disney era reacionário? Totalmente. Mas daí a dizer que Maurício de Sousa também tem esta visão – pelos argumentos que você indica – é o mesmo que dizer que todo publicitário é nazista somente porque Joseph Gobbels o era.

Não vejo como sua análise poderia se tornar mais rasa.

Outro fator relevante no seu texto é a maleabilidade dos estereótipos; você cita os personagens da turma da Mônica, praticamente sem exceções, como criações unidimensionais. Mônica é forte, Cascão tem medo de água, Magali é comilona.

Bem, outros personagens dos quadrinhos – citados por você como tridimensionais – podem ser vistos desta forma também. Entrego aqui a fórmula: basta apenas pegar sua característica mais marcante e elevá-la a máxima potência, a ponto de ela se tornar o único traço de personalidade do personagem em questão. Assim, temos Hagar como um beberrão; Rê Bordosa como uma junkie; Peter Parker é um nerd; Bruce Wayne, um milionário obcecado por vingança. A lista seria interminável.

Mas, da mesma forma que Hagar não é apenas um beberrão e Rê Bordosa não é apenas uma junkie (e você deve saber o que mais eles são, caso tenha pesquisado), Mônica, além de forte, vive o dilema de diversas garotas, por ser gordinha e dentuça; Cascão, além de temer a água, é apaixonado por futebol; Magali não é apenas comilona, mas ensina às crianças valores pertinentes sobre os cuidados com animais de estimação, graças à presença de seu gatinho Mingau. Cebolinha, que você certamente apontaria como um garoto que valoriza problemas fonéticos, em muitas de suas histórias precisa cuidar de sua irmã menor.

Todos estes personagens têm mais de uma característica – cito apenas uma de cada um deles (não necessariamente a mais importante) apenas para exemplificar a falha de seu argumento. Não vou dizer aqui que você deveria ler mais as histórias para conhecê-las; isso seria inútil: você se recusa a colocá-las em seu texto, pois arruinaria a idéia que pretende provar com unhas e dentes.

Como leitor de quadrinhos, pessoa e profissional, eu aprendi muito com a Turma da Mônica. Mafalda e Calvin têm grande valor, mas, como você disse, eles não são exatamente destinados às crianças.

Mas Turma da Mônica é.

E me ensinou muito, desde que sou criança.

Por trás da violência “descabida” das histórias de Maurício de Sousa. Aprendi que brincar na rua com meus amigos é melhor que ficar sozinho em casa e a respeitar meus pais, os idosos e os animais. Além disso, aprendi que existiu uma pré-história (lendo as histórias do Piteco), a respeitar as diferenças (com as presenças do negro Jeremias e do oriental Hiro) e os deficientes (quantas histórias em quadrinhos podem se gabar de possuir um personagem mudo, como o Humberto?), a não ter medo de fantasmas com a Turma do Penadinho.

Aprendi tudo isso com as histórias dos personagens criados por Maurício de Sousa, e dificilmente encontraria palavras para agradecer por tudo o que ele me ensinou ao longo de décadas. Sim, porque Mafalda e Calvin me ensinaram a questionar o mundo e super-heróis me ensinaram a lutar pelo que é certo.

Mas a Turma da Mônica me ensinou mais que qualquer outra HQ.

A Turma da Mônica me ensinou a ser cidadão.

E isso porque ainda nem falamos sobre as histórias do pequeno dinossauro Horácio, que, sozinhas, derrubam totalmente seus argumentos.

Fortes abraços.

Sem mais,

Rob Gordon


Update: Por conta deste texto, acabei de receber um mail que entrou para a história do blog. A mensagem veio de ninguém menos que a Mônica, filha do Maurício de Sousa. Reproduzo aqui o texto com vocês:

Que texto mais lindo e, ao mesmo tempo, com total sabedoria. Gostaria de parabenizá-lo. Mônica Spada e Sousa”.

Assim, permaneço sem palavras, tamanho o orgulho que senti. Obrigado a todos pelos comentários e divulgação no Twitter, e um muito obrigado a Mônica, pela mensagem.

Máquina Mortífera - Parte I

Nota: Para quem "odeia" as sagas do blog, aviso que esta aqui será composta de posts que podem ser lidos de forma independente - e que, reunidas, montam uma história só. Divirtam-se!


Chega a ser impressionante como o mundo dá voltas, às vezes.

Em 2007, tive que ir correndo ao Extra Itaim no meio da madrugada para comprar um computador novo. O meu havia falecido e, como estávamos na véspera do Oscar, eu não podia ficar sem PC em casa, por motivos profissionais.

Agora, três anos depois, meu PC começou a demonstrar problemas de saúde em casa. Aparentemente, começou como um problema no cooler – toda vez que eu ligava o PC, os ruídos que vinham de dentro dele me mostravam que minha máquina estava sendo usada como palco para um show do Slayer. Ou isso, ou ele estava sofrendo de (graves) distúrbios gastro-intestinais (oooooi amigo e o intestino? mode: on).

Rodei o System Care inúmeras vezes, mas a única coisa que ele me falava é que não era lúpus, o que não me ajudava muito. Assim, fui me virando do jeito que eu podia, sobrevivendo em meio a navegadores que tratavam e textos perdidos sempre que o Word fechava na minha cara, com a delicadeza de uma amante que bate a porta na cara do sujeito, jogando as roupas do cara pela janela, na frente de toda a vizinhança.

Resumindo: não dava mais. Assim, chamei meu primo, que é uma espécie de paramédico, cirurgião e exorcista de computadores.

Mal sabia eu que isso pioraria tudo.

Na noite de sexta-feira, a campainha de casa tocou. Era meu primo. Mas não fiquei sabendo disso pelo porteiro, e sim pelo PC: assim que meu primo saiu do elevador, meu computador começou a tremer e a xingar meu primo de filho da puta, veado e por aí vai.

Abri a porta e meu primo, como bom especialista, nem olhou para mim: atravessou a sala apressado, pegou a torre do PC, deu-lhe uma chave de braço e a imobilizou no chão da sala. Eu corri para trás do sofá assustado. Besta-fera, aproveitando-se da ocasião, começou a organizar apostas na sala (pelo que ouvi, meu primo era a zebra da noite, e sua vitória pagaria quase quatro para um).

Com o PC imobilizado, meu primo começou a analisá-lo. Estuda aqui, aperta ali, tateia uma placa aqui, despluga um cabo ali... E o PC esperneando embaixo dele. De repente, meu primo se levanta, limpa as mãos e olha para mim com ar preocupado:

– O problema não é físico, mas sim espiritual.

– Oi?

– É a alma do PC que está comprometida. Vamos tentar salvá-la.

Eu cheguei a pensar em dizer algo como “se o problema não é físico, tem conserto, certo?”, mas não tive tempo. Ele sacou um vidrinho de água-benta do bolso e começou a jogar no computador. O PC começou a ficar nervoso, e a se debater com mais força.

Meu primo nem se abalou. Fez o sinal da cruz e começou a resmungar algo como:

– O Norton tem poder sobre você. O Norton tem poder sobre você.

Foi neste momento que a coisa ficou feia de verdade. O PC começou a gritar histericamente com meu primo. As palavras eram de um idioma que nunca vi (Aramaico? Latim?), mas tenho certeza de que abordavam os hábitos sexuais do meu primo e da minha tia. Quadros começaram a cair no chão, objetos passaram a voar pela sala e se espatifar na parede.

Besta-Fera mudou seu foco e decidiu começar a fazer apostas sobre qual seria o objeto mais danificado nas colisões (o favorito da noite era o Blu-ray).

Meu primo continuou fazendo o sinal da cruz, jogando água-benta no PC e resmungando:

– Eu ordeno que volte ao inferno! Esta maquina é do Senhor e não lhe pertence! Eu ordeno que volte ao inferno!

Quando não havia mais objetos para sempre arremessados, o PC começou a apelar: pegou o mouse e começou a fazer movimentos obscenos com ele, xingando todas as pessoas que conheço.

Foi aí que eu percebi o risco que estava correndo: e se ele começasse a ofender minha síndica aos berros ali? Aí, quem iria para o inferno seria eu. E não estou falando da minha alma, mas da alma, do corpo, de tudo.

Graças a Deus, a fé em Cristo prevaleceu. Aos poucos, o computador foi se acalmando – ou enfraquecendo – e, por fim, se aquietou. Uma fumaça amarela saía dele e o cheiro de enxofre ganhou a sala. Na dúvida, meu primo ainda tirou diversos componentes da máquina, decapitou um HD e jogou sal grosso na carcaça do PC.

Suado, sujo de lama ele olhou para mim e disse que a alma do meu PC estava salva, mas o corpo dele não havia resistido (como o post Obituário deixou claro).

Olhei para ele, e fiz a única pergunta que cabia naquele momento:

– Extra Itaim?

– Extra Itaim, ele respondeu.

Peguei minha carteira e saímos de casa.

(continua)