21 de março de 2010

O Homem da Faca

Estava subindo a Teodoro hoje, voltando para casa.

A rua estava lotada, final de tarde ensolarado.

E foi ali, quase na Mourato Coelho (ou na Fradique Coutinho? Nunca sei qual é qual.), vi um mendigo, na mesma calçada que eu, coisa de uns dez metros na frente. Na verdade, não era um mendigo, e sim um sucateiro, que havia deixado sua carroça no meio da rua e estava examinando uns papelões na calçada.

De costas para mim.

E com uma faca no bolso de trás da bermuda.

Tudo bem, não era uma faca do Rambo. Era uma faca daquelas simples, pequenas, de cortar carne. Mas era uma faca, com dentes, ponta e tudo aquilo que torna uma faca ameaçadora.

Meu sentido de Aranha, claro, disparou. Claro que se aquela faca fosse enterrada no peito de alguém, ali na Teodoro, no meio de uma tarde de domingo, certamente seria no meu. Naquele momento, eu tive a certeza de que o sujeito era um serial killer que jurou vingança a todas pessoas baixinhas, carecas e gordinhas.

Mas meu sentido de Aranha começou a gritar – desta vez, de verdade – quando percebi que a uns cinco metros de distância do homem (e conseqüentemente, da sua faca), uma mulher descia a rua na nossa direção, de mãos dadas com seu filho, uma criança loirinha de, no máximo, dois anos de idade, e que andava pela rua com aquela confiança que só estar de mãos dadas com a mãe pode garantir.

Instintivamente, apertei o passo, para ficar perto de tudo. Mas, por questões físicas, ele chegou na criança antes de mim (eu ainda estava a uns 3 metros de todos eles). E ele, carregando os papelões, olhou para o menininho e ajoelhou na rua, deixando a faca ainda mais visível.

Eu gelei e apertei o passo, me preparando para chutar a cabeça dele e dar tempo da mãe correr com a criança.

Mas ele apenas sorriu e disse:

– Oi! Tá passeando com a mamãe?

E o menininho, envergonhado, se escondeu atrás da perna da mãe, que, por sua vez, riu para o homem da faca e continuou andando.

Eu respirei aliviado e acendi um cigarro, olhando o sucateiro ir mexer na carroça. E voltei para casa pensando que tem alguma lição aí. Sabem... Às vezes tenho a impressão de que o mundo tem jeito. Não são muitas vezes, mas elas acontecem. E o melhor de tudo é que elas acontecem onde eu menos espero.

12 comentários:

Ana disse...

Esse é um Rob Gordon otimista q não conhecemos? :D

Rafiki disse...

Sim, eu entendo o que você sentiu.
Concordo!

Nadia disse...

caralho... que sucateiro massa.
se pá o mundo tem jeito mesmo... uma pontinha beeem pequena de esperança.
xDD

Natalia Máximo disse...

O mundo tem jeito sim. A gente só tem que querer isso, de verdade, pra fazer acontecer.

Marina disse...

"Nem tudo é o que parece."

Frase clichê que faz todo sentido, a menos que você esteja na cama com outra mulher, quando a sua chega.

Kel Sodre disse...

Ontem falei mais ou menos isso ao meu namorado. Disse a ele que ele sempre pensa o pior das pessoas, e isso é feio. Tudo bem que eu sempre penso o melhor e, muitas e muitas vezes, quebro a cara de com força. Mas prefiro continuar com essa visão, porque nunca quero deixar de me surpreender e de me indignar com faltas de educação, faltas de respeito, faltas de civilidade, de compreensão, de sensibilidade. Não quero achar isso tudo normal e simplesmente crer que "a humanidade não deu certo", porque isso justifica tudo. Faço questão de acreditar que a humanidade deu certo, sim, e que o anormal são as pessoas desrespeitosas - seja lá de qual tipo de falta de respeito estejamos falando.

Dama do Lago disse...

É Rob, quem sabe a humanidade ainda tem conserto, não é?

Beijo

Sil

Anônimo disse...

Pena que vc, ao se deparar com um "sucateiro" portando uma faca, tenha esses tipos de pensamento e se assuste; para falar o mínimo.
Lucas

Rob Gordon disse...

Anônimo

Na verdade, eu me assustaria até se fosse um padre. O problema não é a pessoa, é a faca.

Camila disse...

Você é doente... juro...


Abraço!!!

=*

Pedro Lucas Rocha Cabral de Vasconcellos disse...

Bonito, faz pensar. Porém um pouco decepcionante depois de 5 dias de espera... Esperava algo mais, mais... Não sei, mas esperava mais.

Eu sei que o blog é seu, você escreve o que e quando quiser, só passando que eu fiquei um pouco decepcionado depois que li.

Um grande abraço de um grande fâ.

Daniela disse...

Gostei do texto.
Me lembrou um livro que acabei de ler a alguns meses "O futuro da humanidade" de Augusto Cury.
Ganhei de presente, nunca havia lido nada deste escritor... e me surpreendi, como me surpreendi agora com você.
É esta visão da vida que temos que ter... existem pessoas maravilhosas em qualquer lugar!