30 de novembro de 2010

Rob Gordon X Mundo

"I'll tell you, let me give you a little inside information about God.
God likes to watch. He's a prankster.
Think about it
."
(John Milton - Advogado do Diabo)


Saia da Redação com destino à Avenida Paulista. Atravesse a rua e vá ao caixa eletrônico da Fnac para sacar dinheiro. Tente não enfartar com o casal que está dentro da cabine observando o saldo e debatendo, durante cinco minutos, se compram ou não um apartamento. Espere eles saírem. Entre na cabine do caixa eletrônico. Insira seu cartão. Observe o caixa eletrônico não esboçar reação alguma. Retire o cartão. Insira novamente. Observe o caixa eletrônico fazer de conta que não é com ele. Retire o cartão. Insira o cartão. Retire o cartão. Insira o cartão. Retire o cartão. Insira o cartão. Observe o caixa eletrônico pedir para você inserir o cartão. Grite “o cartão já está aí, caralho!”. Retire o cartão. Chute o caixa eletrônico. Vá embora, em direção a outro caixa eletrônico, localizado numa loja de conveniência a um quarteirão de distância. Pragueje e amaldiçoe os caixas eletrônicos e seu banco durante o caminho inteiro. Olhe no relógio e constate que você já está atrasado. Aproxime-se do caixa eletrônico. Insira seu cartão. Ouça o caixa eletrônico assoviando e fazendo de conta que você não está ali. Retire seu cartão. Insira seu cartão. Retire seu cartão, insira seu cartão, retire seu cartão, insira seu cartão, retire seu cartão, insira seu cartão, retire seu cartão, gritando todos os palavrões que você conhece. Dê um soco no caixa eletrônico. Saia rapidamente da loja antes que o gerente venha ver o que está acontecendo. Decida ir de táxi. Coloque a mão no bolso e veja que você está sem o talão de cheques. Conte novamente o dinheiro da sua carteira e descubra que você tem R$ 1,25. Decida ir até sua casa pegar o talão de cheques. Comece a subir a maldita Teodoro Sampaio. Tente não ter uma síncope quando, no meio do caminho, uma nova versão do dilúvio começa a despencar dos céus. Conscientize-se de que os estrondos que vêm do céu são trovões e não gargalhadas. Encontre seu caminho desviando das barracas de camelô e das pessoas cuja missão no planeta é tentar cegar as outras com as pontas de seus guarda-chuvas. No meio do caminho, entre no Pão de Açúcar. Molhado, aproxime-se do caixa eletrônico. Insira seu cartão. Observe a máquina comunicar que não há comunicação com o banco. Você está prestes a ter uma crise de choro. Retire seu cartão. Saia do Pão de Açúcar. A chuva aperta. Pare na calçada, erga o punho em direção aos céus e grite: “eu desafio você a vir me enfrentar pessoalmente aqui embaixo!”. Veja as pessoas ao seu redor olhando assustadas. Veja o céu respondendo com um relâmpago. A chuva aperta mais. Ande duas quadras. Encharcado, entre em casa. Pegue o talão de cheques. Saia de casa. Vá ao ponto de táxi mais próximo da sua casa. Constate que não existem mais táxis ali. A chuva aperta ainda mais. Vá ao segundo ponto de taxi mais próximo da sua casa. Constate que não existem mais táxis ali. Vá ao terceiro ponto de táxi mais próximo da sua casa, que fica na frente do mesmo Pão de Açúcar. Constate que não existem mais táxis na cidade. Respire fundo e resmungue: “ok, eu vou bancar o bobo. Eu vou jogar pelas suas regras”. Entre no Pão de Açúcar. Aproxime-se do caixa eletrônico. Insira seu cartão. A máquina sorri e pergunta: “Oi, amigão, quer sacar dinheiro? Por que não veio antes? Você está todo molhado!”. Saque R$ 20,00. Retire o cartão. Aproxime-se da máquina e diga baixinho: “eu vou voltar aqui no meio de uma madrugada e explodir você, sua filha da puta”. Saia do Pão de Açúcar. A chuva aperta muito. Encharcado, entre num ônibus. Olhe para as pessoas com ar de “eu vou matar todos vocês.” Pague a passagem. Escute o cobrador perguntando se “num tem mais troco não?”. Olhe para ele com cara de “você vai ser o primeiro a morrer”. Pegue seu troco. Sente-se em um dos bancos. Olhe pela janela. Observe a chuva parando, subitamente, e o Sol aparecendo. Sorria com ódio. Jure vingança contra o planeta.


"And while you're jumping from one foot to the next,
what is He doing?

He's laughing his sick, fucking ass off!"
(John Milton - Advogado do Diabo)



– Eu já coloquei o cartão, sua filha da puta!




29 de novembro de 2010

Melhor é Impossível

– Você conhece o A Vida é Bela?

– Sim, é um filme com o Roberto Benigni.

– Não, não, estou falando desta nova série de livros-presente. A Vida é Bela.

– Não é. Talvez a sua seja. Mas de forma geral, a vida não é bela. Adeus.

O medo leva à raiva. A raiva leva ao ódio. O ódio leva ao Lado Negro. E o Lado Negro aplicado a um promotor de vendas que escolheu o dia errado para falar comigo leva ao blog.

24 de novembro de 2010

Rob Gordon contra O Satânico Dr. Alaor

Antes de tudo, vamos falar de matemática e explicar uma das equações que regem nossa vida.

Ela funciona da seguinte forma: digamos que “A” é o tempo que você gasta para interromper o que está fazendo, caminhar até o telefone que está tocando e atendê-lo. “B”, por sua vez, é o tempo em que a pessoa do outro lado da linha precisa para se convencer de que ninguém irá atender e desistir, colocando o fone no gancho.

Invariavelmente (ao menos comigo), A= B.

Foi o que aconteceu cerca de uma hora atrás. Eu estava em reunião na sala do meu chefe e, de lá, ouvia meu celular, que havia ficado na minha mesa, tocando incessantemente. Uma hora não agüentei, pedi licença e vim ver do que se tratava. Saí da sala dele e caminhei até a minha mesa, com o telefone tocando. Mas, como queremos demonstrar, A = B e no momento que peguei o aparelho, ele parou de tocar.

Eram duas chamadas perdidas. A identificação: “Número Privado”. Ou seja, boa coisa não era – dentro do universo das ligações telefônicas, números privados nunca são os portadores de boas notícias. Ninguém nunca recebeu um convite para jantar ou uma declaração de amor de um número privado. Não, números privados são como terroristas telefônicos, que se aproveitam do anonimato para explodir seu dia.

Com sorte, um número privado é apenas um atendente de telemarketing. Mas há o risco do número privado ser o seu gerente do banco informando que sua conta está no vermelho, seu cartão foi cancelado e o FBI acabou de descobrir que você fez transações ilegais envolvendo o cartel de Medelín e querem satisfações. O engraçado é que se o gerente do banco liga para desejar “feliz aniversário”, o número aparece no visor; quando ele liga porque deu merda, é “número privado”.

Mas o grande charme do número privado é que você não consegue retornar a ligação. Ou seja, se você perde a ligação (como acontece sempre que aplicamos a máxima A = B), você continua sem saber quem era. Tudo o que você pode fazer é se sentar ao lado do celular e esperar ele tocar de novo.

E foi o que aconteceu comigo: ele tocou novamente. Claro que somente cinco minutos depois, quando eu estava de volta à reunião. Ignorei. Ao voltar para minha mesa, peguei o celular e havia um recado de voz, deixado, aparentemente, por alguém perdido numa floresta durante uma nevasca.

– Sr. Gordon... bzzzzz....cartão do banco... sssshhhhh..... gerente Adriana.... bzzzz.... urgente.... café...... ssshhhh....telefone XYZ....bzzzzz.....urgente....CRAC!

Sim, a ligação terminava assim mesmo, com um CRAC! Altíssimo. Não sei de quem a pessoa que me ligou estava tentando escapar, mas a ligação claramente havia terminado, pois ele fora golpeado (ou alvejado?) pelos seus perseguidores.

Ouvi o recado mais duas vezes, e ele continuou sem fazer sentido.

Eu só tinha uma coisa a fazer: ligar para a tal da Adriana, no telefone indicado.

Aparentemente, ela saberia o que fazer. Não havia motivo para eu ficar nervoso. Evidentemente, a Adriana era uma espiã que já havia desmantelado quadrilhas internacionais de traficantes de jóias e eliminado criminosos na calada da noite. Ela provavelmente estava envolvida em alguma investigação internacional e precisava desesperadamente de alguma informação minha. Claro que eu teria que sair correndo da redação, pois agentes inimigos estariam monitorando tudo, mas no final, tudo acabaria bem, eu e a Adriana terminaríamos nossa aventura bebendo champanhe às margens do Sena, numa lancha, ao nascer do Sol. Eu usaria smoking e estaria com a gravata afrouxada.

Ansioso pela aventura que me esperava, liguei. Uma voz masculina atendeu do outro lado.

– Frans Café, Fenáqui.

– Oi?

– Frans Café, Fenáqui.

Fiz o que qualquer espião internacional teria feito. Resmunguei um “foi engano” e desliguei.

Analisei friamente a situação. Fenáqui, certamente, deveria ser Fnac. Frans Café... Sim, eu tinha ido ao Frans Café da Fnac meia hora antes, tomar um café. E o meu contato telefônico havia dito algo sobre um cartão. “Cartão do banco” foi a expressão exata que ele usou. E eu havia usado o cartão.

Abri a carteira e, ao ver meu cartão ali dentro, respirei aliviado. Assim, abandonei a carreira de espião internacional e voltei a ser jornalista, começando a fazer um texto.

Mas aquilo não saía da minha cabeça. Se o meu cartão estava comigo, porque alguém havia me ligado para falar do cartão, deixando o contato do Frans Café? Não fazia sentido. Ok, o pessoal do Frans Café aqui ao lado é bem tapado, mas nada disso fazia sentido. Deixei a matéria de lado e comecei a usar meus poderes dedutivos. O único motivo que faria alguém me ligar seria eu ter esquecido meu cartão lá, mas como ele estava comigo... A não ser, claro, que meu cartão estivesse comigo e não estivesse comigo ao mesmo tempo.

Sim. Quando você elimina o impossível, o que sobra, por mais improvável que seja, é a verdade (Sherlock Holmes mode: on ou Spock mode: on, fica à sua escolha). Abri a carteira e puxei o meu cartão, passando os olhos pelo nome.

Alaor Whatever

Holmes teria dito algo como “Basta apenas se ater aos detalhes, Watson”. Spock, por sua vez, pronunciaria algo do tipo: “A lógica deste raciocínio foi irrefutável e apontou para esta solução, capitão”. Mas eu sou eu. Tudo o que consegui foi esconder o rosto nas mãos e resmungar:

– Puta que pariu, tem que ser sempre comigo?

Chamei meu estagiário.

– Meu nome é Alaor?

– Oi?

– Responda. Meu nome é Alaor?

– Não. Não que eu saiba.

– Ok.

Peguei o cartão, saí da redação e fui ao Frans Café. No meio do caminho, quase fui atropelado por um camburão, na Pedroso. Era só o que faltava – todos os meus documentos indicavam que meu nome é Rob Gordon, mas meu cartão do banco indicava que eu era o Alaor. Ou seja, além de atropelado, eu seria preso por falsidade ideológica, talvez falsificação. Ô fase, hein, Alaor?

Felizmente, cheguei vivo e inteiro no Frans – até mesmo resisti à tentação de entrar na Fnac e comprar uma TV de Led 3D no cartão do Alaor. Entrei no Frans e me apoiei no balcão. Uma das atendentes veio me recepcionar com uma bandeja.

– Oi, eu estou procurando a Adria...

– O carioca com os pão de queijo é seu?

– Oi? Não, eu estou aqui por causa do me...

– O CARIOCA COM OS PÃO DE QUEIJO É DE QUEM?

Suspiro. James Bond tem conexões internacionais, e eu tenho essa imbecil.

Fiquei parado ali, esperando o enigma dos pães de queijo ser resolvidos. Eram das duas velhas da mesa ao canto. Com esta crise encerrada, podíamos cuidar do meu cartão. Ela voltou para o meu lado.

– Oi.

– Oi. Quero falar com a gerente.

– Você é quem?

Não aguentei. Estufei o peito e tentei levantar somente uma sobrancelha, no melhor estilo Sean Connery.

– Gordon. Rob Gordon.

– Ah, é você que perdeu o cartão?

Isso nunca aconteceu com James Bond. E eu sei que não, eu li os livros.

– Sim.

Ela deu as costas para mim.

– ADRIANA, O RAPAZ QUE PERDEU O CARTÃO TÁ AQUI!

O Frans Café inteiro olhou para mim, como se eu fosse alguém totalmente despreparado para viver em sociedade. Assim, eu me tornei o assunto do Frans Café. Ou, ao menos, da mesa do canto, onde as velhas devoravam seus pães de queijo falando mal de mim.

– Olhe o tamanho dele, ele não deve ter mais que oito anos de idade. Quem deixa uma criança pequena assim andar com cartão do banco?

– Mas ele tem algum problema, Elvira. Ele não tem cabelos, coitado.

– Credo, Maristela. Será que isso pega?

E foi sob esta chuva de olhares e comentários maldosos que a Adriana apareceu com um envelope em mãos. Aparentemente, a menina do caixa se atrapalhou e deu o meu cartão para o Alaor e vice-versa. Ela pediu milhões de desculpas, e eu desculpei logo, porque queria apenas recuperar e meu cartão e ir embora, pois não agüentava mais interpretar a criança-sem-cabelos-que-perdeu-o-cartão-do-banco.

Voltei para a redação e decidi que agora, no Frans, somente em dinheiro. E se o Alaor quiser continuar usando o cartão dele, problema dele.

Ele que se entenda com as velhas depois.

19 de novembro de 2010

In Our Life

(ou: "Como os Beatles Explicam a Vida")




Dentro da casa dos seus pais, tudo ainda é doce.
Existe somente proteção, conforto, amizade e amor.

Você ainda não conhece o mundo,

mas o mundo que você conhece é maravilhoso.






Arriscando os primeiros passos na rua,
surgem os primeiros amigos.

E, com eles, as gargalhadas inocentes,

em brincadeiras e canções e faz de conta.






Mas logo seu coração dispara por alguém.
E tudo o que você quer, mesmo sem saber

ao certo o motivo, é encontrar essa pessoa

de novo. E de novo. E de novo.





Eis que surge alguém que é para sempre.
Ao menos você tem a certeza de que é

para sempre, mas não desconfia que toda vez

é para sempre. E que toda vez será a primeira vez.






Mas, da mesma forma que toda vez
é para sempre, você descobre que nada

é para sempre. Pelo contrário, você

percebe que toda vez será dolorido.






Contudo, você ainda é jovem
e logo consegue superar o coração partido,

porque o mundo ainda é seu.

O mundo ainda é todo seu.





Mas ter o mundo não é suficiente.
Você precisa mudá-lo. Não basta

caminhar sobre ele, você precisa

marcá-lo, modificá-lo, corrigi-lo.






Até a hora em que você decide se tornar
adulto de verdade e sai em busca do seu canto.

Sem se importar em ter deixado dois

corações partidos na casa onde cresceu.






Morando sozinho, descobre o preço disso,
bem como a proteção que existia na

casa dos seus pais, além de amorosa

e carinhosa, era também, financeira.





Assim, você desiste de mudar o mundo
e passa a se concentrar na sua vida.

Você não abandona seus ideais,

contudo não há mais tempo para pensar neles.






E é neste momento que aparece alguém
fazendo você se sentir de novo na primeira vez,

com a diferença que você pensa mais

no presente que no "para sempre".






E, aos poucos, vocês começam a
construir uma vida juntos, tentando aprender

a respeitar e a conviver com as diferenças

entre você e a pessoa ao seu lado.






Contudo, se o amor é honesto, se você
é honesto, isso se torna fácil.

Você não quer mais competir,

você quer a pessoa ao seu lado.






Agora você tem um passado, que,
desde
a primeira música, construiu você.
Mas você sabe, também, que o

presente pode ser melhor que as memórias.






Porém, este mesmo presente está
mais perto do futuro que você imagina.

Você não é mais jovem como gostaria...

Você não tem mais tanto tempo quanto imaginava.






Mas a idade traz sabedoria. Você não
quer mais amar loucamente nem pensar nas contas.

Você quer apenas ser feliz, e é.

Especialmente nas pequenas coisas.






Porque, se existe algo que você aprendeu
nestes anos todos é que, muitas vezes,

a melhor coisa que você pode fazer é: nada.

É isso é reconfortante.






E, quanto tudo mais falhar, você sempre
pode correr para as duas coisas
que
você mais precisa e que o mantém vivo:

o amor...





...e aquele pequeno punhado de
amigos que estiveram ao seu lado

em todas as canções que você ouviu

e cantou junto, desafinando ou não.





Amor e amigos. E isso é tudo o que você
precisa para entender que, não importa

o que aconteça, basta apenas

viver um dia de cada vez.

16 de novembro de 2010

Ela, Ele e o Tempo

Quando ela nasceu, o mundo era artesanal. Não existia televisão, e a grande diversão era ficar na varanda conversando – ou em silêncio, ouvindo os adultos batendo papo, como ela sempre me contou. Em alguns dias, saíam para visitar a casa de amigos e parentes, transformando a conversa, agora dentro da sala, em algo mais formal, quase em um evento.

Quando ele nasceu, o mundo era eletrônico. A televisão existia, mas poucos ainda a usavam – especialmente os jovens. Preferiam assistir a vídeos na internet, ao mesmo tempo em que baixavam músicas, editavam fotos e conversavam com os amigos. E, quando saíam de casa, celular na mão, sozinho na rua e conversando com dezenas de pessoas.

Conforme ela crescia, as cidades grandes ainda não eram tão grandes, e havia um toque de humanidade em tudo, desde o sujeito que acendia os lampiões nas esquinas até o leiteiro que passeava pelas ruas de carroça. Não existiam supermercados: as compras eram feitas ao lado de casa, e o dono da mercearia conhecia seus fregueses pelo nome.

Conforme ele cresceu, as cidades grandes eram maiores que o mundo. Milhões de carros congestionavam as ruas asfaltadas e iluminadas; milhões de apartamento cresciam da terra desafiando os céus. Luminosos com palavras e mensagens em outras línguas coloriam a paisagem, mostrando que o toque de humanidade agora era global.

Ela viu uma guerra mundial, enfrentando racionamento de comida, e torceu pelo seu país em dezoito Copas do Mundo. Viu o governo militar começar e terminar, o Muro de Berlim ser erguido e destruído, as Torres Gêmeas desabarem. Ela viu a TV nascer, se tornar colorida e ganhar centenas de novos canais. Em uma vida, ela viu um século.

Ele viu apenas uma Copa do Mundo – na verdade, metade de uma Copa – e uma eleição presidencial. Fora isso, não viu muita coisa: dormiu no colo do pai com um filme passando na televisão de madrugada; no colo da mãe, mamou enquanto o DVD de um seriado rodava preenchendo a sala com barulho. Em uma vida, ele viu tudo o que precisava.

Em décadas, ela criou uma família com muito custo, enfrentando uma batalha por dia. Ao lado do marido, guardou dinheiro para criar três filhas da melhor forma que conseguiu, permitindo que cada uma delas criasse sua própria família. Deu presentes de natal e brincou com seis netos, vendo tudo o que ela foi um dia e tudo o que ela sempre soube crescer neles.

Em meses, ele coloriu uma casa com cores que não existiam antes dele. Em apenas um dia, ele ganhou avós e tios, e mostrou aos seus pais que o amor pode não apenas tomar forma como ganhar vida. Ganhou presentes e não brincou ao certo com nenhum, pois está ocupado demais vivendo e, mesmo sem saber, carregando dentro de si uma herança de anos e anos.

Quis o tempo que estas décadas de experiências, lágrimas, vitórias, derrotas e sorrisos que separam as vidas de ambos deixassem de existir, em uma tarde qualquer.

Quis o tempo que o passado dela e o futuro dele se fundissem num presente, que, como o próprio nome indica, se tornou o maior presente que ambos poderiam receber.

Assim, quis o tempo que este pequeno momento ficasse guardado em imagens e sons que poderão viver mais do que eles imaginam. Quis o tempo que fosse eterno. E terno.

Quis o tempo que eu tivesse a honra de escrever sobre isso.





15 de novembro de 2010

O Inferno de Rob

Sem me olhar, um demônio alto pediu pelo meu ingresso.
Arrancando com violência o pequeno papel de minha mão
Falando com bafo de enxofre “Sala 2, o filme é um sucesso”.

Assim, na sala escura eu finalmente havia adentrado.
“Sem celulares” disse-me, antes de partir, o demônio
Indicando também o lugar no qual eu ficaria sentado.

Outras almas estavam ali, ao meu redor, aprisionadas.
Eram jovens, casais, e até mesmo famílias inteiras
Todos sentados, inertes, alguns até de mãos dadas.

E chegaram os malditos que fariam papel de carrasco.
Ávidos por sofrimento, vieram em dois grupos distintos
Dispostos a excomungar o local com dor, medo e asco.

Primeiro, vieram três pequenos infantes fazendo barulho.
Gritavam de forma bestial ao redor de um game portátil
E faziam ruídos doídos, com uma espécie de embrulho.

Sentaram-se à minha frente, urrando e gritando lamentos.
Empesteando o local com odor de gordura, sal e açúcar
Pipoca. Coca-Cola. Diamante negro. Doritos. Mentos.

Por conseguinte, vieram os outros mais crescidos.
Contudo, eram pouco mais velhos que os primeiros
E, atrás de mim, se sentaram num canto, escondidos.

As luzes acesas, a tela ainda permanecia em branco.
E minh’alma já começou a ser castigada e punida
Com o casal por detrás, chutando ávido meu banco.

Erguendo-me em coragem, arrisquei uma olhadela.
Os demônios atrás de mim fediam a sexo e luxúria
Beijos desajeitados, ele tentando agarrar o peito dela.

Até a hora em que a fêmea se cansava e pedia paz.
E então, desatavam a falar, a conversar, a seduzir
Ela querendo romance, ele querendo um pouco mais.

A cada beijo – sem língua – meu banco era chutado.
A cada abraço desprovido de sentimento, risadas impuras
A cada carícia voluptuosa, meu assento empurrado.

Luzes apagadas, a tela se iluminou de imagens.
Atrás, beijos vorazes, e bicas ferozes na cadeira
À frente, as crianças gritando, longe de suas pajens.

A sala foi tomada por conversas e o som de celulares.
Eu, prestes a explodir, implorei a Deus por uma bomba
“Deixai-me explodir esta merda, mandando tudo pelos ares”.

Entregue à fúria infernal, meu corpo er’um alvo chutado.
Tentei resistir aos empurrões violentos e gritos débeis, mas
Quase me acertaram na cabeça, deixando-me revoltado.

Explodi, erguendo-me corajosamente, em nome da fé
E invoquei “cale a porra da boca!”, mas querendo dizer
“Enfia tudo no cu, suas conversas, sua namorada e seu pé”.

Menos adulto ainda do que gostaria, o demônio apenas fugiu.
Evitou olhar-me nos olhos, reclamando algo sobre grosseria
Eu agradeci e sentei, mandando que fosse à puta que o pariu.

De tudo o que queria, um pouco de sossego era o máximo.
Sentei-me e um dos demônios infantes voltou-se para mim
E devolvi o olhar dizendo “quieto senão você é o próximo”.

Mas logo recomeçaram, atrás de mim, os prazeres carnais.
A cada beijo, um chute; a cada abraçado safado, um chute
E meu saco explodindo “eu simplesmente não agüento mais”.

Assim, fiquei preso a este tormento por toda uma eternidade.
Agonizando por não haver uma escapatória ou alternativa
Será igual em todos os malditos cinemas, e em toda a cidade.

Até que as luzes se acenderam e parti, rápido, com anseio.
Caminhando junto às outras almas, sem olhar para o demônio
Pois, se o visse me encarando, mostraria o meu dedo do meio.

A doce Beatrice pediu" vamos, ou vai acabar dando confusão".
Assim, partimos em direção a um novo Círculo do Inferno
Conhecido nos livros como "a merda da praça de alimentação".

Assim, deixo-lhe um ensinamento após este poema: "fique esperto.
Não importa o que faças, tente fazê-lo discretamente num canto
Especialmente, claro, sem muitas pessoas – ou nenhuma! – por perto.

Pois é real e evidente que a humanidade, de fato, não deu certo".



(Levemente baseado – ao menos, na estrutura – em A Divina Comédia, de Dante Alighieri, que, mesmo tendo atravessado todos os círculos do Inferno, teve a sorte de nunca frequentar cinemas de shopping)

9 de novembro de 2010

O Enigma das Cartas

Estava no correio agora de manhã.

Aliás, vale falar um pouco sobre a agência do Correio ao lado de casa. Eu passei anos sem entrar ali, mas, nas últimas semanas tenho visitado o local com frequência, enviando exemplares do meu livro. Assim, em pouco tempo os funcionários passaram a me reconhecer, já me cumprimentando quando coloco os pés ali. Eles apenas se atrapalham um pouco a respeito de como me chamar, já que eles não sabem se me chamam de Rob ou de... De... Bom, de outro nome que eu uso às vezes.

Mas quero falar do lugar em si. Talvez seja a única agência do Correio em todo o Brasil que é subterrânea: ela não funciona no térreo de um pequeno prédio, mas sim numa espécie de porão. Para entrar no Correio, é preciso descer uma rampa de uns três metros e, lá dentro, você fica abaixo da rua, já quase mergulhado nas entranhas de São Paulo. Se as histórias do Homem-Aranha fossem em Pinheiros, aquela agência do Correio seria o covil do Lagarto.

Por isso que toda vez que eu vou até ali me sinto como um membro da Resistência Francesa. Desço a rampa com minha boina e meu sobretudo, um cigarro no canto da boca e me aproximo da entrada da agência. Dou três batidinhas na porta e ouço alguém me pedindo a senha, em francês, lá de dentro.

Code?

Marselhese – eu respondo.

Pouvez entrer.

A porta se abre e entro rapidamente, na pequena agência, cujas paredes estão repletas de mapas das ruas de Paris, com alfinetes vermelhos marcando os quartéis nazistas. Este sou eu, un enfant de la Patrie, lutando pela liberdade.

Mas hoje, especificamente, não estava lutando por nada, e sim enviando um carregador de celular que meus amigos de Vitória (vocês se lembram do Marcha para Vitória, certo?) esqueceram em casa após passar o fim-de-semana em Paris, digo, em São Paulo.

Estava ali no balcão preenchendo o endereço na encomenda quando olho para o meu lado e vejo um habitante típico de Pinheiros.

Devia ter uns 25 anos e aquela carinha de três banhos por semana – e isso no calor, claro. Cabelos compridos, barba enorme, camiseta com alguma coisa escrita e bermuda. Nos pés, meias sociais pretas e tênis. Verdes.

Ele estava preenchendo dois envelopes ali ao meu lado. E claramente atrapalhado com algo.

– Você pode me ajudar? – ele perguntou.

Antes que eu pudesse responder, ouvi uma gritaria dentro da minha cabeça. Alguns dos meus neurônios haviam feito uma aposta sobre ele ser ou não um membro dos Los Hermanos e queriam que eu perguntasse isso a ele. Mandei todo mundo dentro da minha cabeça calar a boca e, respirando fundo, respondi:

– Pois não?

– Eu mando somente e-mail, e estou meio atrapalhado aqui com esta carta. Eu sou o destinatário?

Olhei ao redor procurando a câmera. Era pegadinha, com certeza. Como não vi nada, resolvi entrar na brincadeira.

– Depende. Você está enviando esta carta para você mesmo?

– Não.

– Então você é o remetente.

– Tem certeza?

– Destinatário é a pessoa que vai receber a carta. Remetente é quem envia.

– É isso mesmo?

– Sim. Destinatário é a pessoa a quem a carta se destina. É a pessoa que mora no destino. Remetente é quem remete.

– Então eu sou o remetente?

A expressão “não, na verdade, você é um imbecil” quase escapou pela minha boca, mas me segurei. Respondi que sim e ele me mostrou os dois envelopes.

– Então, esse endereço aqui [apontando para o remetente de um dos envelopes, com um nome já preenchido] eu coloco aqui [apontando para o campo do destinatário de outro envelope]?

Ou seja, ele já tinha preenchido errado.

– Eu não sei, não conheço essas pessoas. Faz o seguinte, você é o remetente. Qualquer outra pessoa é o destinatário. Decore isso.

– Beleza! Valeu!

– Ok.

Com meus neurônios agrupados ao redor de um computador, procurando fotos da banda na internet e trocando dinheiros de mãos (Marcelo Camelo era o favorito no banco de apostas, pagando 2 para 1) fui para fila.

Logo depois, o Hermano terminou de preencher os envelopes e me seguiu, parando atrás de mim na fila.

Enquanto esperava pela minha vez, ele, do nada, saiu correndo da agência, rampa acima. Foi até a rua e ficou observando alguma coisa. Voltou correndo e voltou para a fila. Cerca de trinta segundos depois, fez a mesma coisa: saiu correndo até a calçada, ficou procurando algo ao redor e voltou para a fila.

Mas, nas duas vezes, ele preencheu alguma coisa no envelope assim que entrou no Correio, antes de voltar para a fila.

A única coisa que me ocorreu é que ele estava preenchendo o campo do remetente em tempo real. Ele devia ter colocado o nome e o endereço da agência de correios (afinal, pela lógica dele, era de onde ele estava enviando a carta) e municiando aquilo com o máximo de informações possíveis, como “é a agência que tem um Vectra preto parado em frente”. Aí, de dentro da agência, ele viu que o Vectra tinha ido embora e precisou atualizar a informação, rabiscando algo como “é a agência que tem uma velha gordinha com uma sombrinha na calçada”.

Ou isso, ou alguém dentro do Correio havia batido boca com ele e encerrado a discussão com “vai ver se estou na esquina”, e ele resolveu levar isso ao pé da letra. Mas, como eu tinha quase certeza de que ele não havia falado com mais ninguém, assumi a teoria do remetente como a correta.

Não que tenha feito muita diferença. Antes mesmo de eu ser atendido, ele saiu correndo da agência, carregando o envelope pela terceira vez. Subiu a rampa correndo e nunca mais voltou. Ainda estou pensando sobre isso, mas não cheguei a nenhuma conclusão, apenas um Top 5 Motivos que Podem ter Feito o Hermano ter Saído do Correio:

1. Indignado que a velhinha que ele usara como referência no remetente havia se afastado em direção ao mercado, ele foi correndo atrás dela: “A senhora pode esperar na calçada do correio até esta carta ser entregue? Eu estou usando a senhora como referência no remetente”.

2. Foi telefonar para o destinatário e pedir que “você pode ficar sem sair de casa por uns dias? Porque eu estou enviando uma carta para você, preciso que tenha alguém aí para atender o carteiro, porque não tô colocando muita fé nesse negócio de remetente aqui”.

3. Mudou de idéia e resolveu enviar um e-mail mesmo, se perguntando “para qual endereço eu mando? Para o meu? Para o da pessoa? Merda, aquele carequinha no Correio deveria saber isso, eu devia ter perguntado”.

4. Com medo de errar o remetente e o destinatário, foi entregar a carta a pé: “Vim pessoalmente porque, caso você não possa recebê-la, eu fico sabendo na mesma hora. Melhor que o Correio, diz aí.

5. Achou aquilo tudo complicado demais e mudou de ideia: “Vou para casa fumar maconha, almoçar e dormir”.

5 de novembro de 2010

Disque B para Besta-Fera

– Alô?

– Quem fala?

– Não, não. Quem liga é quem se identifica. Você quer falar com quem?

– Com o Rob.

– Quem quer falar com ele?

– Os leitores do Champ.

– Só um minuto.

– Ok.

Passos. Vozes ao fundo. Passos.

– Alô?

– Rob?

– É... Sim?

– Espere aí. Você não é o Rob. É a mesma voz da pessoa que me atendeu!

– Ah, ok. Você me pegou. Não consigo imitar a voz dele.

– Quem está falando?

– Besta-Fera.

– Uau! É você mesmo?

– Sim.

– Que honra falar com você!

– Hã... Ok.

– Sou seu fã.

– [bocejo] Obrigado.

– O Rob tá aí?

– É... Sim, mas ele não pode atender agora.

– Poxa... Nem dois minutinhos?

– Não, ele está ocupado. Está escrevendo. Só um minuto.

– Ok.

Passos. Vozes ao fundo. Passos.

– Voltei, desculpe. O Jonas estava mexendo nos meus livros.

– O Jonas está aí também?

– Sim.

– Mande um abraço!

– Ok.

– Então, você disse que o Rob está escrevendo?

– Sim. Está lá no PC digitando.

– É pro blog?

– Não faço ideia. Ele não me deixa ler.

– Porque os textos no blog estão rareando... É por causa disso que liguei.

– Ah é? Não sabia disso. Faz tempo que não entro lá.

– Tem como perguntar a ele o que ele está escrevendo?

– Bom, posso perguntar. Mas duvido que ele diga.

– Por favor?

– Ok.

Passos. Vozes ao fundo. Gritos ao fundo. Passos.

– É. Ele disse que não é para falar.

– Puxa... Mesmo?

– Sim. Eu insisti e ele me xingou. Babaca.

– Será que ele ficou bravo com a gente?

– Não, claro que não. Eu nem disse que eram vocês que queriam saber. Perguntei por conta própria mesmo.

– Entendi.

– Mas, olhe, eu conheço o sujeito. Já o vi assim antes. Deve vir coisa boa aí. Assim, “boa”, em termos, né? “Boa” dentro das limitações dele, tadinho.

– Bom, vamos esperar, então.

– É melhor. Dê um tempinho a ele, ele anda bem estressado também. Mas está escrevendo.

– Tudo bem. E sinto muito por ele ter xingado você.

– Ah, sem problemas. Assim que eu desligar, vou sumir com alguma coisa dele, e ele vai passar a tarde procurando. Aí ele aprende.

– Pô, mas você não disse que ele já está estressado?

– Azar o dele, ninguém mandou ser grosso. Aliás... Preciso desligar. Ele foi ao banheiro, é minha chance! Vou aproveitar e arrancar a barra de espaço do teclado e jogar pela varanda. Tchau!

– Abraços!

– Outro.


2 de novembro de 2010

Children of the Damned

Deveríamos ter desconfiado quando avistamos um filhote de gato nos encarando de cima de um telhado. Foi logo na entrada, e a expressão do animal – nos observando fixamente – deveria ter servido como aviso. Mas eu e a Sra. Gordon ignoramos isso e continuamos nosso caminho para dentro daquela pequena ruela.

Estávamos passeando por Pinheiros, vendo casas e prédios, e tínhamos algum tempo de sobra até a hora do jantar. Assim, ao descobrirmos aquela pequena vila ao lado da minha casa, decidimos entrar para conhecê-la. Estávamos intrigados com o fato de que nunca havíamos reparado na existência daquilo antes, a despeito do lugar ser localizado a poucos metros de onde moro.

Assim, curiosos, mas despreocupados, entramos.

Andamos pela pequena rua, escura e cercada de árvores, para descobrir que, após uns vinte metros, ela fazia uma curva de 90 graus à esquerda, e continuava por mais cerca de trinta metros, antes de terminar em muro negro.

Ao redor deste segundo trecho, dez casas se amontoavam umas sobre as outras. Eram de cores diferentes, mas todas com a mesma aparência: uma pequena porta branca de madeira e três janelas: uma pequena, na própria porta; a segunda, um pouco maior, ao lado da porta; e a terceira, a maior de todas, no segundo andar.

De cara, fiquei cismado com a luz. Antes de entrarmos na vila, era quase dia; lá dentro a noite caía rapidamente. Aparentemente, havíamos entrado numa espécie de portal e o tempo havia se passado rapidamente – talvez estivéssemos até mesmo em outro ano.

Mas, olhando ao redor, entendi que não havíamos viajado no tempo. A viela é um daqueles locais que nunca recebe a luz do Sol por causa das árvores e das construções ao redor. Então, não importa qual horário o seu relógio esteja marcando, lá dentro é sempre fim de tarde. Mas não um fim de tarde qualquer, e sim um fim de tarde dentro de um conto de Egdar Allan Poe ou de H. P. Lovecraft.

E agora vocês estão pensando que, sob o olhar do gato e esta atmosfera sombria, qualquer pessoa normal daria meia volta, retornaria para casa, trancaria as portas, e sairia dali somente três dias depois, depois de vender o apartamento. Bem, nós realmente havíamos percebido algo estranho, mas não demos muita atenção a isso.

Estávamos tranquilos, basicamente, por causa do nome da rua.

Veja bem: se aquela pequena e estreita rua de paralelepípedos se chamasse “Vila dás Árvores Mortas” ou “Beco da Morte Horrível”, teríamos mudado nosso caminho e desistido de entrar ali. Não precisava ser nada explícito ou sanguinolento, como “Viela do Homem que Anda Arrastando um Machado e Mata os Incautos” ou “Acesso Você Não Vai Sair Vivo Daqui, Babaca”. Nada disso. Poderia ser algo discreto, até elegante, mas que ao menos sinalizasse às pessoas sobre o mal que se esconde lá dentro.

Agora, vocês têm que concordar comigo: quem desconfiaria que rua com o nome de “Travessa Roberto Santos” seria assombrada? Eu não tenho medo de uma força maligna que se esconde nas entranhas de uma rua chamada “Travessa Roberto Santos”. Mesmo porque não seria uma força maligna de respeito, tampouco muito ambiciosa.

Mas confesso que comecei a mudar de ideia logo depois de terminar a curva e dar de cara com as crianças. À frente de cada casa havia um carro estacionado. E, ao redor de um dos veículos, quatro crianças (um menino e três meninas) estavam ajoelhadas no meio da rua, interessados em alguma coisa que se escondia sobre o automóvel.

Como elas ignoraram totalmente nossa presença, continuamos andando. De onde estávamos, víamos a vila inteira. Já podíamos dar meia volta e ir embora dali. Mas algo nos impelia a andar até o final dela.

Algo nos chamava até o muro, feito de cimento escuro e coberto por musgo.

Continuamos caminhando e nos aproximamos das crianças, que tentavam atrair quem – ou o que – estava sob o carro para fora de seu esconderijo. Ainda entretidas com isso, não deram a menor atenção para nós. Passamos por elas e fomos até o muro, que ficava num local definitivamente mais escuro que o resto da vila.

Metros atrás, nós estávamos no entardecer. Mas, ali no muro, era noite.

Ali no muro, era sempre noite.

De cada lado da pequena rua, portões feitos de grades de ferro separavam a última casa do muro. Curioso, observei atentamente cada um deles. O da esquerda era um beco sem saída: por trás do portão existia uma parede de tijolos obstruindo a passagem. Ou escondendo alguma coisa lá dentro. Ou mantendo algo aprisionado.

Seja o que for, não era nada bom.

Com os pelos da nuca arrepiados, olhei para o portão da direita. Lá, não havia parede de tijolos alguma, e, por trás das grades de ferro, era possível ver um corredor estreito e sombrio. Mesmo parado a metros de distância dele, era possível sentir a umidade do ar que vinha lá de dentro. E o cheiro... Desde que havíamos colocado os pés na viela, eu sentira um odor estranho, mas não havia dado muita atenção, acreditando que era alguma coisa nas árvores.

Agora estava claro para mim. O cheiro vinha lá de dentro.

O cheiro era de morte.

Senti a mão da Sra. Gordon apertando a minha.

– Vamos embora daqui – ela disse.

Eu concordei e demos meia volta. As crianças ainda estavam tentando capturar a criatura escondida sob o carro. Menos uma pequena menina, com cerca de oito anos, cabelos curtos e castanhos, que estava em pé. Olhando fixamente para nós.

Seus olhos, contudo, eram diferentes do normal, sem pupila ou esclerótica (esclerótica, para quem não sabe, é a parte branca do olho; eu também não sabia, fui pesquisar no Google). Seus olhos eram formados somente por enormes manchas negras, brilhantes e profundas. E estavam apontados diretamente para nós, com um ar que poderia ser tanto de “vaga curiosidade” como de “ódio profundo”.

Não era uma criança. Qualquer pessoa que assistiu a um episódio de Supernatural na vida sabe que somente os demônios têm olhos assim.

Aquele local era um ninho de criaturas infernais. Mas algo ainda não estava claro. O fato de serem apenas crianças me incomodou profundamente. Porque não havia sinal de adultos ali?

Foi quando eu reparei na posição dos carros estacionados. Eles estavam em fileira e totalmente apertados, com os pára-choques encostados; nenhum motorista, por mais experiente que fosse, conseguiria tirar qualquer veículo dali sem remover os outros carros.

Ou seja, os carros não eram usados há tempos. Anos, talvez.

Para mim, isso foi prova suficiente: não existiam adultos ali. As crianças-demônios haviam assassinado todos, e assumido o controle daquela ruela, transformando-a num playground infernal. E se divertiam matando animais e adultos inocentes que, por azar, entravam ali.

E, pelo olhar da pequena criatura infernal, os próximos adultos inocentes éramos nós.

Para nossa sorte, a criatura que se escondia embaixo do carro aproveitou este momento para tentar uma fuga desesperada. Era outro gato, branco e com manchas marrons e portando uma medalha dourada presa no pescoço – provavelmente, algo que o marcava como alvo de sacrifício – que balançou conforme ele correu para o outro da rua, sendo seguido pelas crianças-demônio, que correram atrás dele, gritando algo em um idioma incompreensível.

A menina dos olhos vidrados continuou nos encarando, mas, segundos depois, perdeu o interesse em nós, e saiu correndo na direção dos outros demônios, ajudando na perseguição.

Era nossa chance. Não poderíamos salvar o gato, mas tínhamos uma chance de escapar dali.

– Vamos embora daqui agora – eu disse, apertando o passo.

Fizemos o possível para ignorar os olhares das crianças às nossas costas – era possível sentir na pele que eles estavam nos observando. Mas, aparentemente, aqueles quatro demônios não eram nosso único problema.

– Meu Deus, tem outra criança ali! – gritou a Sra. Gordon, apontando para a janela ao lado da porta, na primeira casa do lado direito.

A janela estava aberta, mas não havia ninguém ali.

– Eu juro que vi uma criança ali, nos olhando com o canto do olho! – ela continuou. O terror em sua voz era genuíno.

Apertamos o passo e, quando estávamos quase na pequena curva que nos levaria para o início da viela ouvi um barulho à minha esquerda.

Virei a cabeça instintivamente na direção do ruído. A pequena janela da porta na primeira casa deste outro lado havia sido aberta. De dentro dela, era possível ver outro demônio nos encarando fixamente.

Provavelmente, era uma espécie de líder, pois parecia ser mais velho que os outros. Tinha cerca de 15 anos, e uma penugem ridícula no buço. Se não fossem os olhos totalmente negros, ele pareceria mais um office-boy que um demônio. Mas os olhos deixavam claro que era uma criatura das trevas.

Olhou atentamente em nossa direção por alguns segundos e fechou a janela novamente. Ao mesmo tempo, um enorme cachorro negro apareceu num pequeno portão ao lado de sua casa, latindo furiosamente para nós, e se atirando contra as grades.

– Este cachorro não estava aí antes! – gritou a Sra. Gordon.

– Esquece o cachorro, este portão não estava aí antes! – eu devolvi. E era verdade. Existiam apenas dois portões, mas nas últimas casas da vila. Na primeira casa não havia portão lateral nenhum quando passamos por ali.

Conforme o cachorro latia, fizemos a curva, deixando as crianças para trás e andando apressadamente. Mandei meus intestinos (que começavam a se revoltar dentro de mim) se comportarem, e nos aproximamos da entrada da viela. No meio do caminho, ouvi novamente o barulho de outra janela se abrindo atrás de mim, mas ignorei.

Ou melhor, não tive coragem de olhar.

Mas, conforme fomos nos aproximando da saída, a curiosidade falou mais alto e arrisquei uma olhadela para trás, por cima do ombro. A janela do segundo andar da casa do demônio-office-boy, que estava fechada quando entramos na viela, agora estava aberta. Mas não havia ninguém ali, somente duas cortinas balançando ao vento.

Alguém estava naquele quarto, aproveitando a escuridão para nos observar de dentro do aposento. O ódio que vinha lá de dentro era quase palpável.

Viramos a esquina rapidamente e nos apoiamos num muro para descansar e recuperar as forças nas pernas. Lá fora, o Sol brilhava e o ar era menos viciado.

O mal havia ficado para trás.

E eu jurei para mim mesmo que nunca mais sequer passo na entrada desta vila.

Entre mortos e feridos, salvaram-se todos. Quer dizer, menos o gato com a medalha no pescoço. Este, provavelmente, dançou. Mas, quando você está lutando por sua vida numa viela habitada por crianças-demônio, a regra é: cada um por si.

Em outras palavras: o gato que se foda.