Ninguém sabe como começou.
Num primeiro momento, eram apenas rumores esparsos. Numa pequena cidade da Inglaterra, uma idosa levantou-se de seu caixão durante o velório, causando pânico no local. Em Bangcoc, um médico legista afirmou que um dos cadáveres no qual fazia autópsia havia tentado morder seu braço.
Logo ficou claro estes incidentes não eram boatos ou textos sensacionalistas. E tampouco se tratavam de casos isolados. Logo, a notícias ganharam os principais portais e telejornais do planeta: os mortos haviam voltado à vida e estavam atacando as pessoas.
Poucas horas depois, o caos havia se instalado nas grandes cidades. Imagens de pessoas ainda vivas sendo devoradas por zumbis no meio da rua correram o mundo, entrando em todos os lares e causando pânico na população. Cemitérios estavam povoados de cadáveres reanimados que, aos poucos, ganhavam as ruas, fazendo novas vítimas. Os hospitais, com salas e corredores abarrotados de feridos, tornaram-se verdadeiras fábricas de zumbis.
As grandes metrópoles foram as primeiras a cair. Os sobreviventes tentaram desesperadamente fugir com suas famílias para locais mais desolados, o que acarretou em engarrafamentos e desastres, que tornavam as pessoas presas fáceis para as criaturas. Saques em supermercados e lojas de conveniência pioraram ainda mais a situação.
Diversas nações enviaram o exército para combater as criaturas, mas o número de zumbis aumentava rapidamente. Logo a munição se tornou insuficiente. Pouco depois, o número de soldados se tornou insuficiente.
Era impossível conter a infestação.
Em apenas alguns dias, o número de zumbis se tornou maior que o de pessoas vivas. Cidades que antes pulsavam vida agora serviam como morada para milhões de criaturas putrefatas que se arrastavam de forma trôpega pelas ruas e calçadas, em busca de alimento. Os meios de comunicação deixaram de existir. Primeiro, a internet. Logo depois, os canais de televisão começaram a sair do ar.
Poucas semanas depois, a humanidade havia sido arremessada de volta à pré-história. Não existia mais luz, água ou energia. Os poucos sobreviventes abrigavam-se em acampamentos afastados das grandes cidades, onde o número de zumbis era menor – e o odor era mais suportável. O homem precisou reaprender a caçar, ao mesmo tempo em descobriu que, antes de tudo, ele era uma presa em potencial da nova espécie dominante do planeta.
Como eu prometi alguns dias atrás, é hora de falar do outro aplicativo do meu celular.
Eu sempre fui encantado por filmes e histórias de mortos vivos. Sempre, desde moleque. Porque eu acho que eles têm um diferencial a respeito dos filmes e livros com outros monstros, como vampiros e lobisomens. Ao invés de colocar uma ou duas pessoas como vítimas, ele coloca toda a espécie humana em risco. A grande graça dos filmes de mortos vivos é que os mortos vivos não são os vilões, mas sim o cenário. Os vilões propriamente ditos são os humanos, e, principalmente, a forma como eles agem em momentos de desespero.
Estão aí todos os filmes do Romero; Extermínio e sua sequência; e a série de quadrinhos Walking Dead, que não me deixam mentir.
E é justamente por isso que, assim que comecei a procurar jogos para o meu novo celular, uma das primeiras buscas que eu fiz foi com a palavra “zombie”. E foi assim que eu encontrei o jogo chamado Zombie, Run!, que usa o GPS do aparelho para colocar você na pele de um sobrevivente em meio a uma infestação morta viva.
Ele funciona da seguinte forma. Primeiro, ele captura sua localização; logo em seguida, você precisa colocar seu destino. Feito isso, você seleciona suas opções e pronto: você está no meio de uma infestação de mortos vivos.
Testei a primeira vez num dia em que fui para a casa da minha mãe. Assim que coloquei os pés em Moema, saquei o celular do bolso. Ele imediatamente me localizou ali e eu regulei meu destino, que ficava a umas cinco quadras de distância. Feito isso, hora de começar a trabalhar os zumbis.
A primeira escolha a fazer é o nível de infestação. As opções são: “Epidemia controlada”, “Epidemia local no início”, “Epidemia local avançada” e “Pandemônio”.
Fui de “Epidemia local avançada”.
Aí, é o momento de escolher a velocidade dos zumbis, com as opções: “A Noite dos Mortos Vivos – 2 mi/h”, “Resident Evil – 5 mi/h” e “Extermínio – 8 mi/h”.
Como eu sou purista (quem gosta de filmes de mortos vivos sabe que a trilogia do Romero é a Bíblia da coisa), escolhi A Noite dos Mortos Vivos. Além disso, eu fumo. Jamais seria páreo para aquelas criaturas de Extermínio, e seria vergonhoso eu perder o fôlego antes de uma pessoa que já morreu.
E dei o ok.
Imediatamente, surgiu o mapa de onde eu estava na tela. Era a mesma Moema que eu cresci, com as ruas pelas quais andei a maior parte da minha vida. Infestadas de mortos vivos. Grupos de zumbis se arrastavam pelas alamedas em busca de alimento. E o único alimento disponível era eu.
Comecei a andar em direção à casa da minha mãe, e logo o celular vibrou na minha mão. Alguns zumbis a cerca de 50 metros à minha esquerda haviam percebido minha presença (eles deixaram de ser verdes, no mapa, e se tornaram vermelhos) e começaram a caminhar na minha direção.
Respirei fundo e mantive minha velocidade. Eu estava andando apressado, mas quem me conhece sabe que eu sempre ando apressado. O fato de ser um domingo, logo antes do almoço, fazia com que as ruas estivessem quase vazias. O celular continuou vibrando na minha mão. Olhei para o visor e uns quatro ou cinco zumbis, na porta do Shopping Ibirapuera, também haviam me farejado.
Olhei ao redor procurando qualquer coisa que eu pudesse usar como arma. Nada.
– É só um jogo, resmunguei baixinho e continuei andando.
E consegui andar por meio quarteirão, antes de sentir o celular vibrando novamente. O mapa não deixava dúvidas: uns cem metros na minha frente, alguns zumbis – já vermelhos no mapa – planejavam o jantar, com meu nome no cardápio. Olhei as ruas laterais. Infestadas. Não havia alternativa.
Fui me aproximando e olhando o mapa. Estava olhando quando o celular piscou, mostrando outro grupo de zumbis, na rua que eu estava prestes a atravessar (e estava já a uns cinqüenta metros do grupo à minha frente). E estes novos estavam a coisa de dez, quinze metros de mim.
Ou seja, não havia tempo para pensar.
Ou seja, fudeu.
Olhei no celular novamente e encontrei uma alternativa. Os zumbis à minha frente estavam caminhando na minha direção, mas pela outra calçada. Eles ainda precisariam atravessar a rua para me cercar. O grupo novo, porém, se aproximava rapidamente, na mesma calçada em que eu estava.
Segurei o celular com força na mão e corri.
Corri como se não houvesse amanhã. Mesmo porque se eu ficasse parado, não haveria amanhã.
Senti o celular vibrando feito um desesperado na minha mão, mas ignorei. Se eu parasse para consultar o mapa, seria devorado. Corri por duas quadras, sem parar. Passei pelo manobrista de um estacionamento e por um casal que passeava de mãos dadas – felizmente, todos estavam vivos.
Quando cheguei à esquina da casa da minha mãe, parei e arrisquei uma rápida olhada no mapa. Senti o suor escorrendo pelas minhas costas, o coração acelerado. Os zumbis continuavam atrás de mim. Pobre manobrista, pobre casal. Não deram nem para o cheiro.
Mas, mesmo ainda me perseguindo, os zumbis haviam ficado para trás. Eu estava a uma distância segura.
Assim, fui caminhando em direção à casa da minha mãe e recuperando o fôlego. Contudo, antes de eu tocar a campainha, meu celular vibrou novamente. Gelei. No mínimo, as pessoas na casa da minha mãe tinham se tornado zumbis também.
Peguei o celular torcendo secretamente para o zumbi ser o meu irmão, o que me daria motivos para finalmente dar com uma pá na cabeça dele ou coisa parecida, mas a notícia era tão boa quanto isso. Piscando na tela estava a palavra “sobrevivente”.
Respirei aliviado e toquei a campainha. Minha mãe atendeu.
– Você veio correndo?
– Vim.
– Mas aconteceu algo?
– Como assim, aconteceu algo? O mundo inteiro infestado de zumbis, e você me pergunta se aconteceu algo? Eu quase morri ali perto da padaria!
– Oi?
– Nada. Deixa. O que tem de almoço?
31 de agosto de 2010
30 de agosto de 2010
Diploma
Quando eu era criança, o meu time foi campeão brasileiro.
Não, comecei errado.
Quando eu era criança, eu ia para o colégio num ônibus escolar.
Isso aconteceu até eu o final da sexta série, o último ano onde eu estudei à tarde. No ano seguinte, as turmas da sétima série eram de manhã, e eu passei a ir para a escola de carro, com meu pai ou minha mãe, e voltando de ônibus normal (o lendário Aeroporto – Perdizes, que esteve presente em boa parte da minha vida).
Mas, todos os dias até o final da sexta-série, eu ia até a esquina da rua onde eu morava e esperava pelo ônibus, por volta das 11h30min da manhã. E, todos os dias, por volta das 18h00min, o ônibus parava na mesma esquina e eu descia, provavelmente mais cansado e mais sujo – especialmente nos dias em que eu tinha aula de educação física – com minha mala nas costas, correndo para casa.
Apesar de eu sempre ter me dado muito bem na escola, com bons amigos e histórias para contar (apesar de que, como toda criança, sofri bastante com timidez), a ida e a volta para a escola era uma das partes mais divertidas do meu dia. Eu tinha muito amigos ali dentro e, como era de se esperar quando você reúne um grupo de crianças dentro de um ônibus, íamos bagunçando na ida e na volta.
Aproveitávamos que todo o dia o motorista fazia o mesmo trajeto, na ida e na volta, e sabíamos justamente quais eram as ruas mais divertidas. Sim, nós usávamos o trajeto do ônibus para nos divertir.
Uma das ruas, por exemplo, tinha três lombadas, uma atrás da outra. Aliás, esse era o nome dela: “a Rua das lombadas”. Assim que ele virava esta esquina, nós corríamos para o corredor e cada um se apoiava nos braços dos bancos. Conforme ele passava pela lombada, aproveitávamos o balanço do ônibus e tomávamos impulso com os braços, para, literalmente, decolar. O herói do dia era quem conseguia bater a cabeça no teto do ônibus – eu consegui algumas vezes.
Quando ele entrava em outra rua, era a hora de escorregar. Era uma enorme ladeira e nós aproveitávamos a inclinação do ônibus para deslizar sentados pelo corredor, o que – dependendo da velocidade do veículo – tinha como resultado um emaranhado de crianças, emboladas umas sobre as outras num verdadeiro nó de braços e pernas, que demorava um ou dois quarteirões para ser completamente desatado.
Na verdade, até quando estávamos comportados nós estávamos bagunçando, já que não íamos sentados no banco, e sim sobre o tampo do motor, que ficava no fundo do carro. E íamos rindo e gritando, ou fazendo a última parte da lição que fingíamos ter feito em casa.
Curiosamente, uma das cicatrizes que eu tenho da infância nasceu no ônibus, mas justamente num dia em que eu não estava fazendo nada de errado. Eu estava andando pelo corredor em direção à porta, pois desceria em alguns minutos.
Mas alguma coisa no trânsito – uma fechada, talvez? – fez com que o motorista freasse bruscamente. Todos foram impulsionados à frente, e eu, em pé, não consegui me agarrar em lugar nenhum. Ou seja, saí voando pelo corredor. Não lembro quantos metros eu voei, mas sei que meu queixo aterrissou em um dos cinzeiros de metal (aqueles que parecem uma caixinha, e que nós usávamos para colocar papel de bala) na ponta dos braços do banco. Não precisei tomar pontos, mas minha barba ainda tem uma pequena falha no queixo por causa desta cicatriz.
Porém, um dos motivos de eu adorar o ônibus era o motorista, o “Seu” Álvaro. Não sei quantos anos ele tinha, mas estava mais próximo de um avô do que de um pai. E tinha bastante tempo de profissão – anos antes, havia levado meu irmão para a escola – e seus filhos o seguiram na mesma profissão. Era respeitadíssimo, tanto dentro da escola como por nós, crianças.
Às vezes, quando passávamos dos limites, ele estacionava o ônibus, saía da sua cadeira e ia até o começo do corredor, dando um esporro federal – nós corríamos para o banco e ficávamos em silêncio, olhando um para o outro com o rabo do olho, evitando olhar diretamente para ele. E ninguém retrucava. Mas, na maior parte do tempo, ele agüentava nosso barulho e nossa bagunça, desde que não violássemos a regra número 1 do ônibus: jamais colocar braços e cabeças para fora da janela.
E nós o adorávamos. Ele não apenas nos levava à escola, ele nos conhecia. E sabia exatamente como tratar cada um – o que fazia cada uma das crianças sentir que era diferente. Cada um de nós sentia que era o preferido do “Seu” Álvaro. Cada um de nós o via como um terceiro avô – ou, no meu caso, como o único avô, já que meus dois avôs morreram quando eu estava na primeira série.
Assim, o “Seu” Álvaro sabia exatamente qual a maneira de brincar com cada um dos seus pequenos passageiros. Comigo? Bem, não demorou muito tempo para ele perceber que, quando eu era criança, bastava qualquer pessoa encostar o dedo em mim para eu morrer de cócegas. Então, às vezes, quando eu entrava no ônibus e o cumprimentava, ele me dava “oi” me cobrindo de cócegas na barriga e nas axilas, o que fazia com que eu literalmente caísse no chão gargalhando e implorando para que ele parasse. E, quando ele se dava por satisfeito, me soltava e engatava a marcha, fazendo o ônibus andar, dizia, sorrindo:
– Você parece um saco de risadas.
Às vezes, porém, eu passava dos limites. Nessas ocasiões, ele percebia que toda a bagunça que acontecia lá atrás era – ao menos naquele dia – por minha causa. Assim, ele encostava o ônibus numa rua e se levantava. Cada um de nós corria para o banco mais próximo, mas ele apenas olhava para mim e me chamava:
– Aqui na frente.
E assim eu estava oficialmente de castigo. Era obrigado a pegar minhas coisas e me sentar no banco imediatamente atrás dele. Logo, a bagunça recomeçava – em menor intensidade – lá atrás, e eu ficava sentado com cara de bunda lá na frente (umas duas vezes eu aprontei tanto que meu castigo ganhou um upgrade: ao invés de me sentar no primeiro banco, eu tive que me sentar na escadinha perto da porta).
Mas a minha cara de bunda não durava muito. Minutos depois, ele escorregava a mão para trás e me cobria de cócegas ou apertava o meu joelho daquele jeito que dói, mas que você não consegue parar de gargalhar (da mesma forma que eu apertava a mão do meu primo mais novo, fazendo-o dobrar os joelhos de tanto rir e tentando escapar). E aí eu percebia que o “Seu” Álvaro não estava mais bravo comigo.
Ou seja, eu achava que era especial para o “Seu” Álvaro, justamente porque toda criança achava que era especial para ele. Este era o truque dele.
Aliás, acabei de me lembrar outra história dele. Durante uns dois ou três anos, o neto dele (“neto”, mesmo, de verdade) estudou na mesma escola que a gente e ia para o colégio no ônibus. Era um menino loirinho, mais novo que eu, que era famoso porque havia estrelado uma propaganda de uma maionese, que acho que nem existe mais, chamada Gourmet. Na propaganda, alguém falava alguma frase com “não dá para agüentar tal coisa” e o menino respondia:
– Passa Gourmet que dá!
Não é preciso ser um gênio para adivinhar que o menino passou a ser chamado de Gourmet no ônibus – mas claro que ninguém tinha coragem de chamá-lo assim na frente do “Seu” Álvaro. Afinal, era o neto dele.
Um dia, o menino aprontou alguma coisa (não lembro exatamente o que, se quebrou algo ou brigou com alguém) e a temível estacionada no meio do caminho foi por causa dele. O “Seu” Álvaro se levantou e deu um baita esporro no menino. E, quando o garoto protestou, usando justamente que o “Seu” Álvaro era o avô dele, o velho motorista respondeu apenas:
– Aqui dentro você não é o meu neto. Aqui dentro você é o Gourmet.
Nós ficamos espantados, mas divididos. Metade de nós se espantou com o fato de que o “Seu” Álvaro conhecia o apelido do neto, enquanto a outra metade se espantou com o fato de ele mesmo oficializar o apelido naquele momento. Naquele dia, o menino perdeu seu nome para sempre, ao menos dentro do ônibus. Naquele dia, ficou claro que todos nós éramos netos do “Seu” Álvaro, talvez mais netos que seu próprio neto.
Mas, como eu estava dizendo, quando eu era criança meu time foi campeão brasileiro. O jogo foi no início de 1987, e referia-se ao campeonato brasileiro de 1986. E eu me lembro que foi numa quarta-feira.
No dia seguinte, eu entrei no ônibus com o peito estufado. Todos meus amigos sabiam qual o meu time. Como toda criança, eu não sentia que o meu time era campeão, mas sim que eu era o campeão. E, no momento em que subi a escada, não fui recepcionado com cócegas.
O “Seu” Álvaro apenas se virou para mim e disse:
– Eu tenho um presente para você. À tarde eu entrego.
Não fazia idéia do que poderia ser. A tarde se passou e eu ocupado com outras coisas na escola, acabei deixando aquilo de lado. Horas depois, juntei meu material e entrei no ônibus para ir embora. E o “Seu” Álvaro me chamou.
– Isso é para você.
Era um pedaço de papel, cartonado, como se fosse um diploma, com uma moldura desenhada em todas as bordas. No centro, estava o distintivo do meu time e, logo abaixo, a inscrição “Campeão Brasileiro – 1986”. Mas, acima do distintivo, uma frase escrita em negrito me chamou a atenção:
Como toda criança que ganha um presente, não soube bem como reagir. Agradeci encabulado. Naquele dia, eu não fui vítima das cócegas quando me aproximei dele para descer do carro. Ele apenas me perguntou se eu havia pegado o meu presente, eu disse que sim e me despedi. No dia seguinte, tudo voltou ao normal, e eu me tornei o saco de risadas já na escada do ônibus, logo que entrei.
Mas nunca esqueci aquele diploma.
E eu nunca esqueci aquela frase.
Passei anos pensando sobre ela, sobre o significado dela. Teoricamente, este papel ainda está enfiado nas minhas coisas na casa da minha mãe. Tomara que esteja. Mas, mesmo se não estiver... Acho que não tem problema. Com ou sem papel, a frase ainda está comigo.
Eu nunca agradeci ao “Seu” Álvaro por isso como deveria. Nem mesmo quando o encontrei anos depois. Ele já havia largado a profissão e – olhe que mundo pequeno! – passado a trabalhar com a mãe de um dos meus melhores amigos. Fui um dia até lá, cumprimentá-lo, e ele se lembrava de tudo: não apenas do meu nome, mas de como eu passava mal de rir com as cócegas e do quanto eu aprontava dentro do ônibus. Ele não disse nada sobre o diploma, mas ele se lembrava. Eu sei que ele se lembrava.
Quando me despedi dele nesse dia, não imaginava que nunca mais o veria.
Mas nunca o esqueci.
Nunca soube por que ele escolheu logo a mim para receber aquele diploma. Nunca entendo o que ele viu em mim, que não viu nas outras crianças. Sei que foi, sim, muita sorte da minha parte. Esta frase até hoje guia muito dos meus passos. Hoje, eu vejo que talvez eu fosse realmente especial para o “Seu” Álvaro, mais especial que os outros meninos e meninas que andavam no ônibus.
Ou talvez ele tenha feito algo parecido com todas as crianças, e até hoje todas elas acham que eram mais especiais para ele que os outros meninos. Afinal, como eu disse, este era justamente o truque dele.
Mas, truque ou não... Não importa.
Porque funcionou. Ao menos, comigo.
(Nota: Eu não esqueci do outro aplicativo do meu celular, mas, algumas histórias têm o momento certo de serem contadas. )
Não, comecei errado.
Quando eu era criança, eu ia para o colégio num ônibus escolar.
Isso aconteceu até eu o final da sexta série, o último ano onde eu estudei à tarde. No ano seguinte, as turmas da sétima série eram de manhã, e eu passei a ir para a escola de carro, com meu pai ou minha mãe, e voltando de ônibus normal (o lendário Aeroporto – Perdizes, que esteve presente em boa parte da minha vida).
Mas, todos os dias até o final da sexta-série, eu ia até a esquina da rua onde eu morava e esperava pelo ônibus, por volta das 11h30min da manhã. E, todos os dias, por volta das 18h00min, o ônibus parava na mesma esquina e eu descia, provavelmente mais cansado e mais sujo – especialmente nos dias em que eu tinha aula de educação física – com minha mala nas costas, correndo para casa.
Apesar de eu sempre ter me dado muito bem na escola, com bons amigos e histórias para contar (apesar de que, como toda criança, sofri bastante com timidez), a ida e a volta para a escola era uma das partes mais divertidas do meu dia. Eu tinha muito amigos ali dentro e, como era de se esperar quando você reúne um grupo de crianças dentro de um ônibus, íamos bagunçando na ida e na volta.
Aproveitávamos que todo o dia o motorista fazia o mesmo trajeto, na ida e na volta, e sabíamos justamente quais eram as ruas mais divertidas. Sim, nós usávamos o trajeto do ônibus para nos divertir.
Uma das ruas, por exemplo, tinha três lombadas, uma atrás da outra. Aliás, esse era o nome dela: “a Rua das lombadas”. Assim que ele virava esta esquina, nós corríamos para o corredor e cada um se apoiava nos braços dos bancos. Conforme ele passava pela lombada, aproveitávamos o balanço do ônibus e tomávamos impulso com os braços, para, literalmente, decolar. O herói do dia era quem conseguia bater a cabeça no teto do ônibus – eu consegui algumas vezes.
Quando ele entrava em outra rua, era a hora de escorregar. Era uma enorme ladeira e nós aproveitávamos a inclinação do ônibus para deslizar sentados pelo corredor, o que – dependendo da velocidade do veículo – tinha como resultado um emaranhado de crianças, emboladas umas sobre as outras num verdadeiro nó de braços e pernas, que demorava um ou dois quarteirões para ser completamente desatado.
Na verdade, até quando estávamos comportados nós estávamos bagunçando, já que não íamos sentados no banco, e sim sobre o tampo do motor, que ficava no fundo do carro. E íamos rindo e gritando, ou fazendo a última parte da lição que fingíamos ter feito em casa.
Curiosamente, uma das cicatrizes que eu tenho da infância nasceu no ônibus, mas justamente num dia em que eu não estava fazendo nada de errado. Eu estava andando pelo corredor em direção à porta, pois desceria em alguns minutos.
Mas alguma coisa no trânsito – uma fechada, talvez? – fez com que o motorista freasse bruscamente. Todos foram impulsionados à frente, e eu, em pé, não consegui me agarrar em lugar nenhum. Ou seja, saí voando pelo corredor. Não lembro quantos metros eu voei, mas sei que meu queixo aterrissou em um dos cinzeiros de metal (aqueles que parecem uma caixinha, e que nós usávamos para colocar papel de bala) na ponta dos braços do banco. Não precisei tomar pontos, mas minha barba ainda tem uma pequena falha no queixo por causa desta cicatriz.
Porém, um dos motivos de eu adorar o ônibus era o motorista, o “Seu” Álvaro. Não sei quantos anos ele tinha, mas estava mais próximo de um avô do que de um pai. E tinha bastante tempo de profissão – anos antes, havia levado meu irmão para a escola – e seus filhos o seguiram na mesma profissão. Era respeitadíssimo, tanto dentro da escola como por nós, crianças.
Às vezes, quando passávamos dos limites, ele estacionava o ônibus, saía da sua cadeira e ia até o começo do corredor, dando um esporro federal – nós corríamos para o banco e ficávamos em silêncio, olhando um para o outro com o rabo do olho, evitando olhar diretamente para ele. E ninguém retrucava. Mas, na maior parte do tempo, ele agüentava nosso barulho e nossa bagunça, desde que não violássemos a regra número 1 do ônibus: jamais colocar braços e cabeças para fora da janela.
E nós o adorávamos. Ele não apenas nos levava à escola, ele nos conhecia. E sabia exatamente como tratar cada um – o que fazia cada uma das crianças sentir que era diferente. Cada um de nós sentia que era o preferido do “Seu” Álvaro. Cada um de nós o via como um terceiro avô – ou, no meu caso, como o único avô, já que meus dois avôs morreram quando eu estava na primeira série.
Assim, o “Seu” Álvaro sabia exatamente qual a maneira de brincar com cada um dos seus pequenos passageiros. Comigo? Bem, não demorou muito tempo para ele perceber que, quando eu era criança, bastava qualquer pessoa encostar o dedo em mim para eu morrer de cócegas. Então, às vezes, quando eu entrava no ônibus e o cumprimentava, ele me dava “oi” me cobrindo de cócegas na barriga e nas axilas, o que fazia com que eu literalmente caísse no chão gargalhando e implorando para que ele parasse. E, quando ele se dava por satisfeito, me soltava e engatava a marcha, fazendo o ônibus andar, dizia, sorrindo:
– Você parece um saco de risadas.
Às vezes, porém, eu passava dos limites. Nessas ocasiões, ele percebia que toda a bagunça que acontecia lá atrás era – ao menos naquele dia – por minha causa. Assim, ele encostava o ônibus numa rua e se levantava. Cada um de nós corria para o banco mais próximo, mas ele apenas olhava para mim e me chamava:
– Aqui na frente.
E assim eu estava oficialmente de castigo. Era obrigado a pegar minhas coisas e me sentar no banco imediatamente atrás dele. Logo, a bagunça recomeçava – em menor intensidade – lá atrás, e eu ficava sentado com cara de bunda lá na frente (umas duas vezes eu aprontei tanto que meu castigo ganhou um upgrade: ao invés de me sentar no primeiro banco, eu tive que me sentar na escadinha perto da porta).
Mas a minha cara de bunda não durava muito. Minutos depois, ele escorregava a mão para trás e me cobria de cócegas ou apertava o meu joelho daquele jeito que dói, mas que você não consegue parar de gargalhar (da mesma forma que eu apertava a mão do meu primo mais novo, fazendo-o dobrar os joelhos de tanto rir e tentando escapar). E aí eu percebia que o “Seu” Álvaro não estava mais bravo comigo.
Ou seja, eu achava que era especial para o “Seu” Álvaro, justamente porque toda criança achava que era especial para ele. Este era o truque dele.
Aliás, acabei de me lembrar outra história dele. Durante uns dois ou três anos, o neto dele (“neto”, mesmo, de verdade) estudou na mesma escola que a gente e ia para o colégio no ônibus. Era um menino loirinho, mais novo que eu, que era famoso porque havia estrelado uma propaganda de uma maionese, que acho que nem existe mais, chamada Gourmet. Na propaganda, alguém falava alguma frase com “não dá para agüentar tal coisa” e o menino respondia:
– Passa Gourmet que dá!
Não é preciso ser um gênio para adivinhar que o menino passou a ser chamado de Gourmet no ônibus – mas claro que ninguém tinha coragem de chamá-lo assim na frente do “Seu” Álvaro. Afinal, era o neto dele.
Um dia, o menino aprontou alguma coisa (não lembro exatamente o que, se quebrou algo ou brigou com alguém) e a temível estacionada no meio do caminho foi por causa dele. O “Seu” Álvaro se levantou e deu um baita esporro no menino. E, quando o garoto protestou, usando justamente que o “Seu” Álvaro era o avô dele, o velho motorista respondeu apenas:
– Aqui dentro você não é o meu neto. Aqui dentro você é o Gourmet.
Nós ficamos espantados, mas divididos. Metade de nós se espantou com o fato de que o “Seu” Álvaro conhecia o apelido do neto, enquanto a outra metade se espantou com o fato de ele mesmo oficializar o apelido naquele momento. Naquele dia, o menino perdeu seu nome para sempre, ao menos dentro do ônibus. Naquele dia, ficou claro que todos nós éramos netos do “Seu” Álvaro, talvez mais netos que seu próprio neto.
Mas, como eu estava dizendo, quando eu era criança meu time foi campeão brasileiro. O jogo foi no início de 1987, e referia-se ao campeonato brasileiro de 1986. E eu me lembro que foi numa quarta-feira.
No dia seguinte, eu entrei no ônibus com o peito estufado. Todos meus amigos sabiam qual o meu time. Como toda criança, eu não sentia que o meu time era campeão, mas sim que eu era o campeão. E, no momento em que subi a escada, não fui recepcionado com cócegas.
O “Seu” Álvaro apenas se virou para mim e disse:
– Eu tenho um presente para você. À tarde eu entrego.
Não fazia idéia do que poderia ser. A tarde se passou e eu ocupado com outras coisas na escola, acabei deixando aquilo de lado. Horas depois, juntei meu material e entrei no ônibus para ir embora. E o “Seu” Álvaro me chamou.
– Isso é para você.
Era um pedaço de papel, cartonado, como se fosse um diploma, com uma moldura desenhada em todas as bordas. No centro, estava o distintivo do meu time e, logo abaixo, a inscrição “Campeão Brasileiro – 1986”. Mas, acima do distintivo, uma frase escrita em negrito me chamou a atenção:
“Nenhum sucesso na vida
compensa o fracasso no lar.”
compensa o fracasso no lar.”
Como toda criança que ganha um presente, não soube bem como reagir. Agradeci encabulado. Naquele dia, eu não fui vítima das cócegas quando me aproximei dele para descer do carro. Ele apenas me perguntou se eu havia pegado o meu presente, eu disse que sim e me despedi. No dia seguinte, tudo voltou ao normal, e eu me tornei o saco de risadas já na escada do ônibus, logo que entrei.
Mas nunca esqueci aquele diploma.
E eu nunca esqueci aquela frase.
Passei anos pensando sobre ela, sobre o significado dela. Teoricamente, este papel ainda está enfiado nas minhas coisas na casa da minha mãe. Tomara que esteja. Mas, mesmo se não estiver... Acho que não tem problema. Com ou sem papel, a frase ainda está comigo.
Eu nunca agradeci ao “Seu” Álvaro por isso como deveria. Nem mesmo quando o encontrei anos depois. Ele já havia largado a profissão e – olhe que mundo pequeno! – passado a trabalhar com a mãe de um dos meus melhores amigos. Fui um dia até lá, cumprimentá-lo, e ele se lembrava de tudo: não apenas do meu nome, mas de como eu passava mal de rir com as cócegas e do quanto eu aprontava dentro do ônibus. Ele não disse nada sobre o diploma, mas ele se lembrava. Eu sei que ele se lembrava.
Quando me despedi dele nesse dia, não imaginava que nunca mais o veria.
Mas nunca o esqueci.
Nunca soube por que ele escolheu logo a mim para receber aquele diploma. Nunca entendo o que ele viu em mim, que não viu nas outras crianças. Sei que foi, sim, muita sorte da minha parte. Esta frase até hoje guia muito dos meus passos. Hoje, eu vejo que talvez eu fosse realmente especial para o “Seu” Álvaro, mais especial que os outros meninos e meninas que andavam no ônibus.
Ou talvez ele tenha feito algo parecido com todas as crianças, e até hoje todas elas acham que eram mais especiais para ele que os outros meninos. Afinal, como eu disse, este era justamente o truque dele.
Mas, truque ou não... Não importa.
Porque funcionou. Ao menos, comigo.
(Nota: Eu não esqueci do outro aplicativo do meu celular, mas, algumas histórias têm o momento certo de serem contadas. )
27 de agosto de 2010
Sonhos de Kurosawa Gordon VI
Estava num hotel com a minha mãe.
Estávamos hospedados numa suíte luxuosa, mas não havia divisão qualquer entre o quarto e o banheiro. Nem porta, nem parede. A única parte dividida era o boxe, que ficava separado do resto da suíte por uma cortina amarelada.
Esta cortina, porém, estava aberta. Era possível ver que a área destinada ao banho era bem grande, tendo uns 3 metros de largura (ia de uma parede a outra).
Ao lado direito de quem olhava (ou seja, de onde eu estava), ficava o chuveiro. Na parede oposta, aquelas armações que guardam sabonetes, xampus e afins. Eram brancas.
E, logo abaixo das armações, dois pregos enormes, que não serviam para nada. Ficavam lá sem propósito algum, com a ponta enfiada na parede e quase dez centímetros de metal para fora. Eram novos, ainda brilhantes. E de alguma forma eu sabia que eles sempre estiveram assim, com mais da metade do corpo para fora da parede.
E era eu quem precisava terminar de pregá-los, mesmo sem saber o motivo. Minha mãe, porém, não queria saber disso.
– Você precisa pregar isso, logo. Nós temos que ir até aquele evento no último andar.
Foi aí que eu descobri que o hotel era enorme, coisa de uns vinte andares. Mas eu queria entender porque eu tinha que pregá-los.
– As pessoas tomam banho ali do outro lado, embaixo do chuveiro. Ninguém vai se machucar nestes pregos. Eles ficam longe demais de quem toma banho.
Nesta hora, o gerente do hotel entrou no quarto. Ele estava no evento no último andar, no tal do evento (mesmo sem estar lá, eu sabia que havia uma enorme mesa de café de manhã, com uma toalha bege) e havia descido para ver como os pregos estavam.
– Você precisa pregar isso logo, ele disse, apressado.
E eu expliquei para ele exatamente o que havia dito para minha mãe: eu não via necessidade de mexer nos pregos. Mas ele retrucou:
– As pessoas escorregam muito neste boxe. E, quando elas escorregam, elas caem para trás sempre num ângulo de 49 graus. Então, elas acabam batendo a cabeça no prego. Teve gente que se machucou neste quarto. Foi bem feio.
Na hora, aquilo fez sentido para mim. Especialmente o negócios dos 49 graus.
– Entendi. Então eu vou pregar.
E ele voltou para o evento. Minha mãe foi com ele, pedindo para eu não enrolar e subir logo.
Fiquei sozinho no quarto.
(Sei que prometi falar do outro aplicativo do meu celular. Farei isso no próximo post.)
Estávamos hospedados numa suíte luxuosa, mas não havia divisão qualquer entre o quarto e o banheiro. Nem porta, nem parede. A única parte dividida era o boxe, que ficava separado do resto da suíte por uma cortina amarelada.
Esta cortina, porém, estava aberta. Era possível ver que a área destinada ao banho era bem grande, tendo uns 3 metros de largura (ia de uma parede a outra).
Ao lado direito de quem olhava (ou seja, de onde eu estava), ficava o chuveiro. Na parede oposta, aquelas armações que guardam sabonetes, xampus e afins. Eram brancas.
E, logo abaixo das armações, dois pregos enormes, que não serviam para nada. Ficavam lá sem propósito algum, com a ponta enfiada na parede e quase dez centímetros de metal para fora. Eram novos, ainda brilhantes. E de alguma forma eu sabia que eles sempre estiveram assim, com mais da metade do corpo para fora da parede.
E era eu quem precisava terminar de pregá-los, mesmo sem saber o motivo. Minha mãe, porém, não queria saber disso.
– Você precisa pregar isso, logo. Nós temos que ir até aquele evento no último andar.
Foi aí que eu descobri que o hotel era enorme, coisa de uns vinte andares. Mas eu queria entender porque eu tinha que pregá-los.
– As pessoas tomam banho ali do outro lado, embaixo do chuveiro. Ninguém vai se machucar nestes pregos. Eles ficam longe demais de quem toma banho.
Nesta hora, o gerente do hotel entrou no quarto. Ele estava no evento no último andar, no tal do evento (mesmo sem estar lá, eu sabia que havia uma enorme mesa de café de manhã, com uma toalha bege) e havia descido para ver como os pregos estavam.
– Você precisa pregar isso logo, ele disse, apressado.
E eu expliquei para ele exatamente o que havia dito para minha mãe: eu não via necessidade de mexer nos pregos. Mas ele retrucou:
– As pessoas escorregam muito neste boxe. E, quando elas escorregam, elas caem para trás sempre num ângulo de 49 graus. Então, elas acabam batendo a cabeça no prego. Teve gente que se machucou neste quarto. Foi bem feio.
Na hora, aquilo fez sentido para mim. Especialmente o negócios dos 49 graus.
– Entendi. Então eu vou pregar.
E ele voltou para o evento. Minha mãe foi com ele, pedindo para eu não enrolar e subir logo.
Fiquei sozinho no quarto.
(Sei que prometi falar do outro aplicativo do meu celular. Farei isso no próximo post.)
26 de agosto de 2010
Darth Gordon
Já faz uns dias que estou com um celular novo, que a Tim me deu.
É um Motorola com tudo o que tem direito: acesso a internet, GPS, mapas. Ele faz tudo o que você imaginar. E eu, como todo menino, não posso ter brinquedo novo na mão, que começo a fuçar. (Nota do editor: estas frases anteriores não são uma ação de publicidade; o celular é legal mesmo). Assim, logo nos primeiros dias, já baixei uma série de jogos e programas.
E quero falar sobre dois deles aqui.
O primeiro parece ter sido feito exclusivamente para mim: um emulador de sabre de luz.
Você aciona o sabre no celular e ele faz o som da famosa arma Jedi. O mais legal é que conforme você mexe o celular, o sabre de luz se "mexe" também. Pronto. Agora eu sou Jedi. Mas, cá entre nós, esse negócio de Luke Skywalker e Obi-Wan Kenobi é bem legal, mas a graça mesmo é o Darth Vader. Todo mundo na galáxia sabe disso.
Assim, poucos minutos depois de ter baixado o aplicativo, já havia me rendido ao lado negro da Força. Já há alguns dias me tornei um Lorde Sith e fico atacando meu estagiário sempre que possível. Funciona mais ou menos assim: eu passo por ele na redação, e grito (evidentemente, com a voz do Vader, senão não teria graça), já com o celular na mão:
– Now, release your anger!
VUOMMMM!
– Only your hate can destroy me!
VUOMMMMMMMMM!
E o mais legal que qualquer coisa que ele responda dá margem a um novo golpe. Um dia liguei o sabre na empresa e ele, visando não ser atacado, respondeu que “estou fazendo um texto”. Se ele ao menos soubesse o poder do lado negro, não teria dado esta respostinha. Não tive dúvidas e parti para cima.
- You are unwise to lower your defenses!
VUOMMMMMMMMM! CRASSSSSH! VUOMMMMMMMMM
Outro oponente digno de respeito, claro, é o Jedi Besta-Fera. Entro em casa e ele vem, meio dormindo, meio acordado, de trás do sofá (ele tem uns dez ou doze cantos em casa, e atrás do sofá é um dos seus preferidos). Assim, ele para no meio da sala, senta-se e olha para mim. Na mesma hora, solto, da forma mais imponente possível:
– The force is with you, young Besta-Fera…
(Pausa dramática.)
– …but you are not a Jedi yet.
VUOMMMMMMMMM!
E começa o embate. Ele corre para cima do sofá e vem na minha direção, e eu ataco com o sabre. Normalmente, o duelo termina comigo deitado no sofá e ele lambendo meu rosto, mas isto não vem ao caso.
Então, a partir de agora, eu consigo tudo com o lado negro da Força, andando para cá e para lá com meu sabre de luz. Passei a ser respeitado como Lorde Sith.
Besta-Fera derrubou uma almofada?
– Don’t fail me again.
Meu primo não consegue encontrar algo na internet?
– I want that ship, not excuses.
Meu amigo não sabe se algo que eu comentei com ele vai dar certo?
– I find your lack of faith disturbing.
E, se alguém retrucar… VUOMMMMMMMMM!
Mas, tudo isso, claro, funciona somente com as pessoas normais da galáxia. Porque se eu encontrar a antiga Síndica do meu prédio, na mesma hora vou me ajoelhar na frente dela, humildemente, e perguntar:
- What is thy bidding, my master?
Porque ninguém entende mais de lado negro do que ela – inclusive, não vou me surpreender se um dia eu voltar para casa e descobrir que ela reassumiu o poder do prédio e mudou o nome para Edifício Coruscant e pintado o gordo do terceiro andar (chupa, Sherman) de azul, transformando-o numa nova Estrela da Morte.
O outro aplicativo? Esse eu falo amanhã.
PS – Não, eu ainda não mostrei o meu sabre de luz para minha psicóloga.
É um Motorola com tudo o que tem direito: acesso a internet, GPS, mapas. Ele faz tudo o que você imaginar. E eu, como todo menino, não posso ter brinquedo novo na mão, que começo a fuçar. (Nota do editor: estas frases anteriores não são uma ação de publicidade; o celular é legal mesmo). Assim, logo nos primeiros dias, já baixei uma série de jogos e programas.
E quero falar sobre dois deles aqui.
O primeiro parece ter sido feito exclusivamente para mim: um emulador de sabre de luz.
Você aciona o sabre no celular e ele faz o som da famosa arma Jedi. O mais legal é que conforme você mexe o celular, o sabre de luz se "mexe" também. Pronto. Agora eu sou Jedi. Mas, cá entre nós, esse negócio de Luke Skywalker e Obi-Wan Kenobi é bem legal, mas a graça mesmo é o Darth Vader. Todo mundo na galáxia sabe disso.
Assim, poucos minutos depois de ter baixado o aplicativo, já havia me rendido ao lado negro da Força. Já há alguns dias me tornei um Lorde Sith e fico atacando meu estagiário sempre que possível. Funciona mais ou menos assim: eu passo por ele na redação, e grito (evidentemente, com a voz do Vader, senão não teria graça), já com o celular na mão:
– Now, release your anger!
VUOMMMM!
– Only your hate can destroy me!
VUOMMMMMMMMM!
E o mais legal que qualquer coisa que ele responda dá margem a um novo golpe. Um dia liguei o sabre na empresa e ele, visando não ser atacado, respondeu que “estou fazendo um texto”. Se ele ao menos soubesse o poder do lado negro, não teria dado esta respostinha. Não tive dúvidas e parti para cima.
- You are unwise to lower your defenses!
VUOMMMMMMMMM! CRASSSSSH! VUOMMMMMMMMM
Outro oponente digno de respeito, claro, é o Jedi Besta-Fera. Entro em casa e ele vem, meio dormindo, meio acordado, de trás do sofá (ele tem uns dez ou doze cantos em casa, e atrás do sofá é um dos seus preferidos). Assim, ele para no meio da sala, senta-se e olha para mim. Na mesma hora, solto, da forma mais imponente possível:
– The force is with you, young Besta-Fera…
(Pausa dramática.)
– …but you are not a Jedi yet.
VUOMMMMMMMMM!
E começa o embate. Ele corre para cima do sofá e vem na minha direção, e eu ataco com o sabre. Normalmente, o duelo termina comigo deitado no sofá e ele lambendo meu rosto, mas isto não vem ao caso.
Então, a partir de agora, eu consigo tudo com o lado negro da Força, andando para cá e para lá com meu sabre de luz. Passei a ser respeitado como Lorde Sith.
Besta-Fera derrubou uma almofada?
– Don’t fail me again.
Meu primo não consegue encontrar algo na internet?
– I want that ship, not excuses.
Meu amigo não sabe se algo que eu comentei com ele vai dar certo?
– I find your lack of faith disturbing.
E, se alguém retrucar… VUOMMMMMMMMM!
Mas, tudo isso, claro, funciona somente com as pessoas normais da galáxia. Porque se eu encontrar a antiga Síndica do meu prédio, na mesma hora vou me ajoelhar na frente dela, humildemente, e perguntar:
- What is thy bidding, my master?
Porque ninguém entende mais de lado negro do que ela – inclusive, não vou me surpreender se um dia eu voltar para casa e descobrir que ela reassumiu o poder do prédio e mudou o nome para Edifício Coruscant e pintado o gordo do terceiro andar (chupa, Sherman) de azul, transformando-o numa nova Estrela da Morte.
O outro aplicativo? Esse eu falo amanhã.
PS – Não, eu ainda não mostrei o meu sabre de luz para minha psicóloga.
25 de agosto de 2010
Desconstruindo @robgordon_sp
Eu já roteirizei o GPS de vários famosos e celebridades. Eu já escrevi as regras e o alfabeto. E Galvão Bueno? Já o fiz narrar desde Banco Imobiliário até a minha segunda-feira. Participei de um Big Brother – ou, ao menos, escrevi tudo o que eu iria fazer ali dentro. E, mais recentemente (ontem, na verdade), montei uma banda.
Tudo isso no meu Twitter. E tudo isso em minutos.
Isso porque quem me segue no Twitter sabe que, às vezes, eu tenho surtos com algum assunto. Há quem diga que é genialidade, há quem diga que é autismo. Como eu imagino como esse processo acontece, eu escolho “autismo”.
Porque é assim: como eu já disse aqui, trabalho com 80% da capacidade do meu cérebro. Os outros 20% são uma força à parte, que trabalham sozinhos e de forma independente. Eu não tenho o menor controle sobre eles. São neurônios que ficam numa área obscura da minha mente, esperando, esperando, esperando...
E de repente, encontram. Uma frase, um assunto, uma palavra surge na minha frente, acendendo um fósforo naquela região do meu cérebro que explode como um barril de pólvora. E aí eu perco totalmente o controle – daí o nome “surto” – e começo a disparar piadas atrás de piadas, com a velocidade de uma metralhadora, construindo, literalmente, um castelo de bobagens, massacrando o tema por todos os lados possíveis e imagináveis.
Não estou falando aqui que as piadas são boas ou não. A questão é: eu não controlo. Mesmo. E é muito rápido. Eu estou digitando a bobagem de número 8 já pensando na de número 11. Por isso que às vezes eu começo a receber RTs e replys, mas não consigo acompanhar, porque mal estou dando conta de mim mesmo, não vou conseguir responder os outros também.
Me estimula, me desperta, me satisfaz e aí acalmo. É quase um orgasmo verbal.
E sempre fui assim. Isso não é exclusivo do Twitter. Sempre fui desse jeito, passo o dia todo procurando assunto para transformar em bobagem, e quando encontro, explodo.
E o melhor de tudo é quando alguém acompanha.
No Twitter, os mais notórios são o @ericfranco e o @tylerbazz, que funcionam na mesma toada, mas eu tinha um amigo na faculdade que a coisa era impressionante. Passávamos o dia inteiro assim: um levantando para o outro cortar, de forma ininterrupta (é o mesmo amigo que compartilha da minha insanidade obsessiva em encontrar pessoas parecidas), construindo piada em cima de piada em cima de piada em cima de piada, até esgotar o assunto. Na verdade, tenho isso com muita gente, desde que era moleque e morava em Moema, mas com esse meu amigo a velocidade era (ainda é) espantosa – estou falando de combos de 15, 20, 30 piadas em questão de minutos.
Mas hoje isso acontece muito no Twitter por dois motivos. Primeiro, não tenho mais idade para ficar largado na escada da faculdade, e passo a maior parte do meu dia online. Segundo, porque o Twitter, para mim, não é uma rede social, ou um microblog, ou uma ferramenta virtual, ou como quer que ele seja chamado.
Para mim – e isso é algo bem pessoal – aquilo equivale a uma mesa de bar. E mesa de bar, durante muito tempo, foi meu habitat natural. Já faz tempo que eu reparei nisso, eu me comporto no Twitter como me comportava no bar da faculdade, em semana de trote (quem estudou comigo, sabe como era): eu tomo uma cerveja na mesa A, sacaneio alguém na mesa B, converso sobre política na mesa C, discuto cinema na mesa D, reclamo da vida na mesa E. Ando para lá e para cá com um copo de cerveja na mão, batendo papo com todo mundo. E falando bobagem.
Porque eu sempre tive a necessidade de falar bobagem. É como se meu cérebro começasse a inchar por causa do trabalho daqueles 20% de neurônios, e, de repente, eu precisasse colocar tudo para fora antes que me torne uma espécie de homem elefante.
E ainda tenho esta necessidade. Eu e esse amigo da faculdade, por exemplo, ainda nos encontramos sempre que possível para jantar e falar bobagem. Fugimos do trabalho, das namoradas, da rotina, para nos desafiarmos o tempo todo a não deixar as piadas – sobre qualquer assunto – acabarem. A coisa já chegou ao cúmulo de, depois do jantar, cada um ir para sua casa, mas continuarmos a destrinchar o último tema de piadas por mensagem de texto, até esgotá-lo.
Mas isso é algo que faço (por prazer e para manter a minha mente afiada) e não o que sou. Apesar dos meus 20% de neurônios não me obedecerem (e não me obedecem mesmo, às vezes eu começo a pensar em surtos de piadas quando não posso, e preciso sair correndo para rir sozinho em algum lugar), eu sou os outros 80%, que são exatamente o que você lê aqui.
(E, sim, a pessoa que posta 10 ou 15 tweets com a tag #galvãonarrandobancoimobiliário é a mesma pessoa que escreve no Chronicles, caso você tenha se perguntado isso um dia.)
Por isso que, mesmo tendo mais seguidores no Twitter que no blog, mesmo escrevendo mais no Twitter que no blog, eu gosto de pensar “que eu estou no Twitter, mas eu sou no blog”.
Eu existo de verdade, mesmo, aqui no blog. O Twitter, mesmo tendo sido o lugar onde conheci muita gente bacana – e que fez muita gente conhecer meu blog, o que é mais bacana ainda – é um brinquedo para mim e sempre será. É onde relaxo quando estou online. E a melhor forma que eu tenho de relaxar é falando bobagem. Some a adrenalina do meu dia com a velocidade de raciocínio que eu tenho (não gosto de colocar as coisas nestes termos, mas sim, tenho, especialmente pra boçalidades) e multiplique o resultado por algum assunto que causa a faísca. Pronto: metralhadora.
Por isso, se você me segue no Twitter, não se espante se de repente eu enlouquecer e começar a soltar piada atrás de piada sobre determinado assunto. Logo isso passa e eu volto ao normal. É um surto.
Mas fique preparado, porque logo vai acontecer de novo. Falar bobagem é uma das minhas drogas, não consigo ficar sem fazer isso.
Tudo isso no meu Twitter. E tudo isso em minutos.
Isso porque quem me segue no Twitter sabe que, às vezes, eu tenho surtos com algum assunto. Há quem diga que é genialidade, há quem diga que é autismo. Como eu imagino como esse processo acontece, eu escolho “autismo”.
Porque é assim: como eu já disse aqui, trabalho com 80% da capacidade do meu cérebro. Os outros 20% são uma força à parte, que trabalham sozinhos e de forma independente. Eu não tenho o menor controle sobre eles. São neurônios que ficam numa área obscura da minha mente, esperando, esperando, esperando...
E de repente, encontram. Uma frase, um assunto, uma palavra surge na minha frente, acendendo um fósforo naquela região do meu cérebro que explode como um barril de pólvora. E aí eu perco totalmente o controle – daí o nome “surto” – e começo a disparar piadas atrás de piadas, com a velocidade de uma metralhadora, construindo, literalmente, um castelo de bobagens, massacrando o tema por todos os lados possíveis e imagináveis.
Não estou falando aqui que as piadas são boas ou não. A questão é: eu não controlo. Mesmo. E é muito rápido. Eu estou digitando a bobagem de número 8 já pensando na de número 11. Por isso que às vezes eu começo a receber RTs e replys, mas não consigo acompanhar, porque mal estou dando conta de mim mesmo, não vou conseguir responder os outros também.
Me estimula, me desperta, me satisfaz e aí acalmo. É quase um orgasmo verbal.
E sempre fui assim. Isso não é exclusivo do Twitter. Sempre fui desse jeito, passo o dia todo procurando assunto para transformar em bobagem, e quando encontro, explodo.
E o melhor de tudo é quando alguém acompanha.
No Twitter, os mais notórios são o @ericfranco e o @tylerbazz, que funcionam na mesma toada, mas eu tinha um amigo na faculdade que a coisa era impressionante. Passávamos o dia inteiro assim: um levantando para o outro cortar, de forma ininterrupta (é o mesmo amigo que compartilha da minha insanidade obsessiva em encontrar pessoas parecidas), construindo piada em cima de piada em cima de piada em cima de piada, até esgotar o assunto. Na verdade, tenho isso com muita gente, desde que era moleque e morava em Moema, mas com esse meu amigo a velocidade era (ainda é) espantosa – estou falando de combos de 15, 20, 30 piadas em questão de minutos.
Mas hoje isso acontece muito no Twitter por dois motivos. Primeiro, não tenho mais idade para ficar largado na escada da faculdade, e passo a maior parte do meu dia online. Segundo, porque o Twitter, para mim, não é uma rede social, ou um microblog, ou uma ferramenta virtual, ou como quer que ele seja chamado.
Para mim – e isso é algo bem pessoal – aquilo equivale a uma mesa de bar. E mesa de bar, durante muito tempo, foi meu habitat natural. Já faz tempo que eu reparei nisso, eu me comporto no Twitter como me comportava no bar da faculdade, em semana de trote (quem estudou comigo, sabe como era): eu tomo uma cerveja na mesa A, sacaneio alguém na mesa B, converso sobre política na mesa C, discuto cinema na mesa D, reclamo da vida na mesa E. Ando para lá e para cá com um copo de cerveja na mão, batendo papo com todo mundo. E falando bobagem.
Porque eu sempre tive a necessidade de falar bobagem. É como se meu cérebro começasse a inchar por causa do trabalho daqueles 20% de neurônios, e, de repente, eu precisasse colocar tudo para fora antes que me torne uma espécie de homem elefante.
E ainda tenho esta necessidade. Eu e esse amigo da faculdade, por exemplo, ainda nos encontramos sempre que possível para jantar e falar bobagem. Fugimos do trabalho, das namoradas, da rotina, para nos desafiarmos o tempo todo a não deixar as piadas – sobre qualquer assunto – acabarem. A coisa já chegou ao cúmulo de, depois do jantar, cada um ir para sua casa, mas continuarmos a destrinchar o último tema de piadas por mensagem de texto, até esgotá-lo.
Mas isso é algo que faço (por prazer e para manter a minha mente afiada) e não o que sou. Apesar dos meus 20% de neurônios não me obedecerem (e não me obedecem mesmo, às vezes eu começo a pensar em surtos de piadas quando não posso, e preciso sair correndo para rir sozinho em algum lugar), eu sou os outros 80%, que são exatamente o que você lê aqui.
(E, sim, a pessoa que posta 10 ou 15 tweets com a tag #galvãonarrandobancoimobiliário é a mesma pessoa que escreve no Chronicles, caso você tenha se perguntado isso um dia.)
Por isso que, mesmo tendo mais seguidores no Twitter que no blog, mesmo escrevendo mais no Twitter que no blog, eu gosto de pensar “que eu estou no Twitter, mas eu sou no blog”.
Eu existo de verdade, mesmo, aqui no blog. O Twitter, mesmo tendo sido o lugar onde conheci muita gente bacana – e que fez muita gente conhecer meu blog, o que é mais bacana ainda – é um brinquedo para mim e sempre será. É onde relaxo quando estou online. E a melhor forma que eu tenho de relaxar é falando bobagem. Some a adrenalina do meu dia com a velocidade de raciocínio que eu tenho (não gosto de colocar as coisas nestes termos, mas sim, tenho, especialmente pra boçalidades) e multiplique o resultado por algum assunto que causa a faísca. Pronto: metralhadora.
Por isso, se você me segue no Twitter, não se espante se de repente eu enlouquecer e começar a soltar piada atrás de piada sobre determinado assunto. Logo isso passa e eu volto ao normal. É um surto.
Mas fique preparado, porque logo vai acontecer de novo. Falar bobagem é uma das minhas drogas, não consigo ficar sem fazer isso.
23 de agosto de 2010
Ciksrrundredi
É sério isso? Você realmente vai perder tempo lendo um post chamado Ciksrrundredi?
Tudo bem, você acha que eu escrevo bem – e agradeço imensamente o voto de confiança – mas, no seu lugar, eu já teria virado as costas e ido embora. Porque fazer um post chamado Ciksrrundredi já é exagero da minha parte. É muita vontade de chamar a atenção.
Ciksrrundredi. É brincadeira, né? Porque a palavra não quer dizer nada (ao menos, eu acho) e, além de tudo, é feia, parece o som de alguém limpando a garganta. Não há a menor possibilidade de um post com este título ser bom.
Aliás, quer um conselho? Eu nem perderia mais tempo aqui. No seu lugar, eu iria direto para os comentários, que devem estar bem mais interessantes.
Update: E não é que os comentários estão bons mesmo? Até eu comentei, vai lá conferir!
Tudo bem, você acha que eu escrevo bem – e agradeço imensamente o voto de confiança – mas, no seu lugar, eu já teria virado as costas e ido embora. Porque fazer um post chamado Ciksrrundredi já é exagero da minha parte. É muita vontade de chamar a atenção.
Ciksrrundredi. É brincadeira, né? Porque a palavra não quer dizer nada (ao menos, eu acho) e, além de tudo, é feia, parece o som de alguém limpando a garganta. Não há a menor possibilidade de um post com este título ser bom.
Aliás, quer um conselho? Eu nem perderia mais tempo aqui. No seu lugar, eu iria direto para os comentários, que devem estar bem mais interessantes.
Update: E não é que os comentários estão bons mesmo? Até eu comentei, vai lá conferir!
A Valsinha dos Mercenários
Assisti a Os Mercenários.
O filme é exatamente aquilo que eu esperava. Um “Domingo Maior” que ganhou as telas dos cinemas. Deliciosamente mal dirigido e mal interpretado – Stallone está totalmente deformado por causa do botox – e com uma cena memorável para quem viveu nos anos 80 (evidentemente, estou falando da passagem reúne Sly, Schwarzenegger e Bruce Willis). Sra. Gordon e eu adoramos.
Mas não quero falar do filme, quero falar do Velho.
O Velho estava ao meu lado na sessão. Gordo, cara de quem bebe sozinho, em padaria, nos domingos à tarde. Na verdade, ele se parecia com o Bellick, de Prison Break. Estava no cinema ao lado da esposa, mais “envelhecida” que “velha” e que, coitada, visivelmente havia se arrumado toda para sair e estava adorando cada minuto daquilo.
Na verdade, sabe Valsinha, do Chico Buarque? Eles eram quase um prequel da música. Bastava bater o olho neles para saber que faz anos que o Velho entra em casa todos os dias reclamando da vida, das pessoas, do trabalho e mal dando atenção à esposa. E ela agüenta tudo, fazendo o jantar em silêncio, e esperando que um dia ele volte a ser o sujeito com quem ela se casou e tudo isso mude.
E mudou, no último sábado.
Só que aí acabam as semelhanças com a música. Ele não “olhou-a de modo muito mais quente do que sempre costumava olhar”, mas sim abriu o jornal e descobriu que estava passando um filme de porrada com o Stallone. Resolveu assistir e chamou a esposa, provavelmente com a certeza de que levá-la para assistir a um filme “com o cara que fez Rambo”, seria um convite suficientemente sedutor e romântico.
A despeito disso, ela colocou, sim, seu vestido cheirando a guardado de tanto esperar. Só que, ao invés de “cheios de ternura e graça foram para a praça e começaram a se abraçar”, foram ao Shopping Paulista, sem ternura ou graça alguma.
Almoçaram – provavelmente, no lugar que ele escolheu – e passearam até a hora do cinema. Ele, aposto, reclamando de tudo, das pessoas, dos carros no estacionamento e até mesmo da esposa, quando ela parava para ver as vitrines – a única vitrine em que eles podiam parar é a das lojas de esporte, especialmente da Bayard, onde ele, no auge da sua cultura e refinamento, queria olhar as facas.
E ele continuou reclamando de tudo dentro do cinema. Reclamando que ninguém tem mais educação, que antigamente as pessoas iam ao cinema de gravata. Eu achei estranho, já que ele não parecia ser tão velho (estava na casa dos anos 50 anos) para ser da fase de pessoas de gravata no cinema. E a esposa ali, relevando o azedume do marido, ficando de braços dados com ele, provavelmente feliz só por ter saído de casa num sábado à tarde, algo que eles não faziam há anos.
Mas o problema não era ele reclamar de tudo. Isso é um problema dele e da esposa. O problema era o volume, que não deixava ninguém num raio de três metros ouvir absolutamente nada do filme.
E eu ali, ao lado dele, pensava sempre um “acho que ele finalmente se tocou” quando ele ficava em silêncio.
Mas ele sempre voltava a falar, com aquele tom de voz de quem está acostumado a mandar a mulher pegar mais cerveja na cozinha. Reclamava disso, reclamava daquilo, comentava não sei o que sobre o filme. E sempre naquele tom de voz de quem não está acostumado a ser contrariado.
Mas chegou um momento que eu não agüentei. Respirei fundo e soltei um “shhhhhhhh” altíssimo.
Ele parou de falar e respondeu com sua voz de trovão:
– Cala a sua boca, moleque!
Mas ele não olhou para mim. Ele estava do meu lado, a centímetros de mim, é evidente que percebeu que eu era o autor da reclamação. Ele podia ter começado a bater boca comigo ali mesmo, ou mesmo ter levantado e me dado uma porrada. Mas ele não olhou para mim. Ele apenas olhou a tela antes de me mandar calar a boca, como se o “shhhhhhhh” tivesse vindo de qualquer outro lugar do cinema e não daquele carequinha ao lado dele.
E esse foi o erro do Velho. Ele não teve culhões de olhar para mim. E, como diria Dave Mustaine em Holy Wars: “First mistake, last mistake”. Mas ele havia mandado eu calar a boca, e eu não iria deixar isso barato. Assim, inspirado pela quantidade de testosterona da tela – e me aproveitando do fato de que ninguém numa sala escura perceberia que eu tenho 1.60m –, fechei a mão e me preparei para sair no braço com ele ali dentro do cinema, em segundos. Virei na direção dele e perguntei:
– O que foi que você disse?
Ele não olhou para mim. Continuou olhando a tela, enquanto Dave Mustaine cantava "First mistake, no more mistakes", dentro da minha cabeça.
– Hã... É... Não... Eu estava falando com aquele outro ali, resmungou, apontando para qualquer pessoa.
– É. Foi o que eu imaginei.
E ficou nisso.
Aos poucos, minha adrenalina baixou e meu coração voltou ao ritmo normal. Sim, adrenalina. Não sei se os personagens do filme sentiam essa descarga de adrenalina quando estavam perto de uma briga, mas eu mereço um desconto, já que não sou um mercenário de aluguel e sim jornalista.
Mesmo assim, acho que me saí bem. O Velho passou o resto do filme em silêncio e evitando olhar para mim.
Não é à toa que quando o filme acabou, saí do cinema me sentindo o herói de filmes de ação. Inclusive, já mandei um e-mail para Hollywood relatando o ocorrido e sugerindo que o pôster de Os Mercenários 2 venha com os nomes:
Em breve, vocês verão nas lojas action figures minhas, com camiseta camuflada e a inscrição "ô fase". E farão enorme sucesso, já que serão os únicos bonequinhos maiores que a pessoa que os inspirou.
Não se esqueçam de comprar a edição especial, que vem com um boneco do Besta-Fera (merchandising mode: on). Aí, chame seus amiguinhos e destrua as forças do mal (e faça o Velho filho da puta e azedo calar a boca) todas as tardes, na sua sala.
O filme é exatamente aquilo que eu esperava. Um “Domingo Maior” que ganhou as telas dos cinemas. Deliciosamente mal dirigido e mal interpretado – Stallone está totalmente deformado por causa do botox – e com uma cena memorável para quem viveu nos anos 80 (evidentemente, estou falando da passagem reúne Sly, Schwarzenegger e Bruce Willis). Sra. Gordon e eu adoramos.
Mas não quero falar do filme, quero falar do Velho.
O Velho estava ao meu lado na sessão. Gordo, cara de quem bebe sozinho, em padaria, nos domingos à tarde. Na verdade, ele se parecia com o Bellick, de Prison Break. Estava no cinema ao lado da esposa, mais “envelhecida” que “velha” e que, coitada, visivelmente havia se arrumado toda para sair e estava adorando cada minuto daquilo.
Na verdade, sabe Valsinha, do Chico Buarque? Eles eram quase um prequel da música. Bastava bater o olho neles para saber que faz anos que o Velho entra em casa todos os dias reclamando da vida, das pessoas, do trabalho e mal dando atenção à esposa. E ela agüenta tudo, fazendo o jantar em silêncio, e esperando que um dia ele volte a ser o sujeito com quem ela se casou e tudo isso mude.
E mudou, no último sábado.
Só que aí acabam as semelhanças com a música. Ele não “olhou-a de modo muito mais quente do que sempre costumava olhar”, mas sim abriu o jornal e descobriu que estava passando um filme de porrada com o Stallone. Resolveu assistir e chamou a esposa, provavelmente com a certeza de que levá-la para assistir a um filme “com o cara que fez Rambo”, seria um convite suficientemente sedutor e romântico.
A despeito disso, ela colocou, sim, seu vestido cheirando a guardado de tanto esperar. Só que, ao invés de “cheios de ternura e graça foram para a praça e começaram a se abraçar”, foram ao Shopping Paulista, sem ternura ou graça alguma.
Almoçaram – provavelmente, no lugar que ele escolheu – e passearam até a hora do cinema. Ele, aposto, reclamando de tudo, das pessoas, dos carros no estacionamento e até mesmo da esposa, quando ela parava para ver as vitrines – a única vitrine em que eles podiam parar é a das lojas de esporte, especialmente da Bayard, onde ele, no auge da sua cultura e refinamento, queria olhar as facas.
E ele continuou reclamando de tudo dentro do cinema. Reclamando que ninguém tem mais educação, que antigamente as pessoas iam ao cinema de gravata. Eu achei estranho, já que ele não parecia ser tão velho (estava na casa dos anos 50 anos) para ser da fase de pessoas de gravata no cinema. E a esposa ali, relevando o azedume do marido, ficando de braços dados com ele, provavelmente feliz só por ter saído de casa num sábado à tarde, algo que eles não faziam há anos.
Mas o problema não era ele reclamar de tudo. Isso é um problema dele e da esposa. O problema era o volume, que não deixava ninguém num raio de três metros ouvir absolutamente nada do filme.
E eu ali, ao lado dele, pensava sempre um “acho que ele finalmente se tocou” quando ele ficava em silêncio.
Mas ele sempre voltava a falar, com aquele tom de voz de quem está acostumado a mandar a mulher pegar mais cerveja na cozinha. Reclamava disso, reclamava daquilo, comentava não sei o que sobre o filme. E sempre naquele tom de voz de quem não está acostumado a ser contrariado.
Mas chegou um momento que eu não agüentei. Respirei fundo e soltei um “shhhhhhhh” altíssimo.
Ele parou de falar e respondeu com sua voz de trovão:
– Cala a sua boca, moleque!
Mas ele não olhou para mim. Ele estava do meu lado, a centímetros de mim, é evidente que percebeu que eu era o autor da reclamação. Ele podia ter começado a bater boca comigo ali mesmo, ou mesmo ter levantado e me dado uma porrada. Mas ele não olhou para mim. Ele apenas olhou a tela antes de me mandar calar a boca, como se o “shhhhhhhh” tivesse vindo de qualquer outro lugar do cinema e não daquele carequinha ao lado dele.
E esse foi o erro do Velho. Ele não teve culhões de olhar para mim. E, como diria Dave Mustaine em Holy Wars: “First mistake, last mistake”. Mas ele havia mandado eu calar a boca, e eu não iria deixar isso barato. Assim, inspirado pela quantidade de testosterona da tela – e me aproveitando do fato de que ninguém numa sala escura perceberia que eu tenho 1.60m –, fechei a mão e me preparei para sair no braço com ele ali dentro do cinema, em segundos. Virei na direção dele e perguntei:
– O que foi que você disse?
Ele não olhou para mim. Continuou olhando a tela, enquanto Dave Mustaine cantava "First mistake, no more mistakes", dentro da minha cabeça.
– Hã... É... Não... Eu estava falando com aquele outro ali, resmungou, apontando para qualquer pessoa.
– É. Foi o que eu imaginei.
E ficou nisso.
Aos poucos, minha adrenalina baixou e meu coração voltou ao ritmo normal. Sim, adrenalina. Não sei se os personagens do filme sentiam essa descarga de adrenalina quando estavam perto de uma briga, mas eu mereço um desconto, já que não sou um mercenário de aluguel e sim jornalista.
Mesmo assim, acho que me saí bem. O Velho passou o resto do filme em silêncio e evitando olhar para mim.
Não é à toa que quando o filme acabou, saí do cinema me sentindo o herói de filmes de ação. Inclusive, já mandei um e-mail para Hollywood relatando o ocorrido e sugerindo que o pôster de Os Mercenários 2 venha com os nomes:
Stallone
Statham
Li
Lundgren
Couture
Austin
Crews
Rourke
Willis
Gordon
Statham
Li
Lundgren
Couture
Austin
Crews
Rourke
Willis
Gordon
Em breve, vocês verão nas lojas action figures minhas, com camiseta camuflada e a inscrição "ô fase". E farão enorme sucesso, já que serão os únicos bonequinhos maiores que a pessoa que os inspirou.
Não se esqueçam de comprar a edição especial, que vem com um boneco do Besta-Fera (merchandising mode: on). Aí, chame seus amiguinhos e destrua as forças do mal (e faça o Velho filho da puta e azedo calar a boca) todas as tardes, na sua sala.
20 de agosto de 2010
Fins e Começos
Há alguns anos, ele entrou na minha casa. Era filhote ainda. Branquinho e pequeno. E como todo filhote, era barulhento, brincalhão. E, desde este primeiro dia, ele me deu muitas alegrias. Passei tardes de domingo brincando com ele, e, muitas vezes, ficava com ele ali na sala, madrugada adentro.
Tornou-se parte do meu dia. Não. Tornou-se parte da minha vida. Às vezes, claro, eu entrava em casa cansado e mal o dava atenção; mas não era difícil eu voltar correndo para casa, somente para ficar com ele. Nos dois casos, ele estava ali me esperando, ansioso.
E, como bom pai, estava sempre procurando brinquedos novos para ele. Era bastante comum eu entrar em casa com uma sacola cheia de presentes para ele – e ele, generoso, leal, não brincava sozinho, fazia questão sempre de brincar comigo. E assim brincávamos de guerra, de pular, de corrida, de espionagem. Eu e ele, meu fiel parceiro.
Mas tudo na vida acaba. O segredo, como diz Gandalf, é fazer o melhor com o tempo que nos é dado. O truque é você saborear cada momento como se fosse único, como se fosse o último. Cada brincadeira, cada noite no colo, cada tarde preguiçosa de domingo no sofá. E eu nunca vou esquecer nenhum momento desses, junto com ele.
Foi com dor no coração, sim – mas sabendo que eu estava fazendo a coisa certa – que eu o entreguei para outra família. Lá, ele vai encontrar um novo lar, e fazer outra criança feliz. É lá agora que ele vai correr e pular e sorrir.
Afinal, vamos ser coerentes. Eu não precisava mais dele. Já faz alguns dias que toda noite, quando eu entro em casa, meu PlayStation 3 vem correndo na minha direção e pula no meu colo. Seria exagero da minha parte ter um PlayStation 3 e um Wii.
Então, vá, Wii, e faça seu novo dono bastante feliz - tão feliz quanto eu fui com você. Porque tenho certeza de que ele vai cuidar muito bem de você.
PS – Caso você esteja se perguntando, Besta-Fera está ótimo, e passa os dias jogando Red Dead Redemption em casa. À noite, claro, é minha vez: eu fico jogando e ele, ao meu lado no sofá, vai me ajudando a mapear as pradarias.
Tornou-se parte do meu dia. Não. Tornou-se parte da minha vida. Às vezes, claro, eu entrava em casa cansado e mal o dava atenção; mas não era difícil eu voltar correndo para casa, somente para ficar com ele. Nos dois casos, ele estava ali me esperando, ansioso.
E, como bom pai, estava sempre procurando brinquedos novos para ele. Era bastante comum eu entrar em casa com uma sacola cheia de presentes para ele – e ele, generoso, leal, não brincava sozinho, fazia questão sempre de brincar comigo. E assim brincávamos de guerra, de pular, de corrida, de espionagem. Eu e ele, meu fiel parceiro.
Mas tudo na vida acaba. O segredo, como diz Gandalf, é fazer o melhor com o tempo que nos é dado. O truque é você saborear cada momento como se fosse único, como se fosse o último. Cada brincadeira, cada noite no colo, cada tarde preguiçosa de domingo no sofá. E eu nunca vou esquecer nenhum momento desses, junto com ele.
Foi com dor no coração, sim – mas sabendo que eu estava fazendo a coisa certa – que eu o entreguei para outra família. Lá, ele vai encontrar um novo lar, e fazer outra criança feliz. É lá agora que ele vai correr e pular e sorrir.
Afinal, vamos ser coerentes. Eu não precisava mais dele. Já faz alguns dias que toda noite, quando eu entro em casa, meu PlayStation 3 vem correndo na minha direção e pula no meu colo. Seria exagero da minha parte ter um PlayStation 3 e um Wii.
Então, vá, Wii, e faça seu novo dono bastante feliz - tão feliz quanto eu fui com você. Porque tenho certeza de que ele vai cuidar muito bem de você.
PS – Caso você esteja se perguntando, Besta-Fera está ótimo, e passa os dias jogando Red Dead Redemption em casa. À noite, claro, é minha vez: eu fico jogando e ele, ao meu lado no sofá, vai me ajudando a mapear as pradarias.
19 de agosto de 2010
Somewhere Back in Time
Foram semanas de espera e está aqui na minha frente.
Eu olho de soslaio, enquanto trabalho, e finjo que não está ali. Fico apenas saboreando a idéia de que é meu, que será sempre meu. Posso usar o dia inteiro, posso usar a hora que quiser.
E, me desafio a cada instante a deixar ali, quieto, à minha frente. Intocável.
E, enquanto escrevo, sei que estou sendo olhado. Finjo que não está ali, mas sei que ele está me observando. Implorando. Provocando. Brilhando. E eu, sádico – e masoquista – banco o difícil, não me entrego. Brinco comigo mesmo.
Porque eu sei que quando abrir, meu dia vai mudar. Vai explodir. Emocionalmente. Afinal, não é apenas ele, é tudo o que ele traz.
São memórias de quando eu era menino e sabia menos do que achava que sabia, mas me divertia. São lembranças de quando eu já era mais adulto – mas ainda sabia menos do que achava que sabia – e aprendia. E são reminiscências mais recentes, da semana passada, quando eu já não estava mais preocupado em medir o quanto eu sabia. E ele ainda estava lá.
Lembro-me de quando conheci. Lembro exatamente como foi, onde eu estava e qual foi minha reação. E do que senti. Tenho guardado em mim cada vez que encontrei pessoalmente: foram três, sendo que na última, em determinado momento, explodi em lágrimas, quando ouvi novamente as mesmas frases que ouvi no dia que conheci, e que me jogaram de volta aos catorze anos.
São vinte anos de relacionamento. Foram fases boas e ruins, mas acho que um relacionamento, qualquer que seja ele, é feito disso: de fases boas e ruins. Eu mudei, mas meu amor não mudou. Eu mudei, mas o significado disso nunca mudou. Aliás, mudou. Cresceu. Afinal, é difícil não crescer quando se percebe que algo acompanhou você durante a maior parte da sua vida.
E é difícil não pensar nisso tudo e não se emocionar quando é hora de reencontrar.
E logo vou reencontrar. Assim que eu terminar este texto.
Porque toda vez que eu compro um CD novo do Iron Maiden, eu faço isso: compro no primeiro momento que eu encontro na loja e deixo na minha mesa, ao meu lado, durante alguns momentos, saboreando a idéia de que eu tenho um CD novo deles, e que existem músicas deles que nunca ouvi, e que eu vou escutar pela primeira vez em alguns instantes.
Quem me conhece, sabe que eu tenho fases musicais. Às vezes mergulho no blues, em Chico Buarque, Beethoven, Beatles. Mas eu sempre volto ao heavy metal, especialmente às bandas dos anos 70 e 80. É onde me sinto em casa, musicalmente falando. Passo por Metallica, Black Sabbath, Judas Priest, Megadeth, Slayer.
E termino em Iron Maiden. Dentro da minha casa, Iron Maiden é o meu quarto. E, daqui a minutos, vou voltar aos meus catorze anos e me trancar dentro deste quarto para ouvir o disco novo.
E é por isso que eu reluto em ouvir – acabei de descobrir. É para evitar a sensação de que daqui a pouco mais de uma hora, eu estarei de volta ao “não existe nada do Iron Maiden que eu não tenha escutado”. Por isso eu adio, pelo tempo que consigo, colocar o CD para tocar.
Eu quero prolongar ao máximo aquela sensação que acontece a cada dois ou três anos, de “tem um disco inteiro – INTEIRO! – do Iron que eu nunca ouvi”.
Porque sentir isso me leva diretamente aos catorze anos, ao dia em que simplesmente enlouqueci assistindo ao clipe de Wasted Years no saudoso Clip Trip, da Rede Gazeta. Menos de uma hora depois, estava no Shopping Ibirapuera comprando o vinil de No Prayer for the Dying (peguei dinheiro escondido da carteira da minha mãe), que até hoje tem um significado especial demais para mim. Não é nem de longe o melhor disco deles (ainda é Powerslave), pelo contrário, é um dos mais fracos. Mas ainda é o MEU disco do Iron Maiden.
E, a partir daí, mergulhei – numa era pré-internet – na tarefa de descobrir mais sobre a banda, os discos, os integrantes, e, principalmente, as letras das músicas. Sim, eu já era “letras” nessa época, mesmo sem saber disso.
Hoje, eu tenho um disco novo para descobrir.
Hoje, eu tenho catorze anos e uma vida inteira pela frente.
Hoje, eu quis compartilhar esse momento, que acontece entre eu comprar um disco do Iron e colocá-lo para ouvir, com vocês.
Eu olho de soslaio, enquanto trabalho, e finjo que não está ali. Fico apenas saboreando a idéia de que é meu, que será sempre meu. Posso usar o dia inteiro, posso usar a hora que quiser.
E, me desafio a cada instante a deixar ali, quieto, à minha frente. Intocável.
E, enquanto escrevo, sei que estou sendo olhado. Finjo que não está ali, mas sei que ele está me observando. Implorando. Provocando. Brilhando. E eu, sádico – e masoquista – banco o difícil, não me entrego. Brinco comigo mesmo.
Porque eu sei que quando abrir, meu dia vai mudar. Vai explodir. Emocionalmente. Afinal, não é apenas ele, é tudo o que ele traz.
São memórias de quando eu era menino e sabia menos do que achava que sabia, mas me divertia. São lembranças de quando eu já era mais adulto – mas ainda sabia menos do que achava que sabia – e aprendia. E são reminiscências mais recentes, da semana passada, quando eu já não estava mais preocupado em medir o quanto eu sabia. E ele ainda estava lá.
Lembro-me de quando conheci. Lembro exatamente como foi, onde eu estava e qual foi minha reação. E do que senti. Tenho guardado em mim cada vez que encontrei pessoalmente: foram três, sendo que na última, em determinado momento, explodi em lágrimas, quando ouvi novamente as mesmas frases que ouvi no dia que conheci, e que me jogaram de volta aos catorze anos.
São vinte anos de relacionamento. Foram fases boas e ruins, mas acho que um relacionamento, qualquer que seja ele, é feito disso: de fases boas e ruins. Eu mudei, mas meu amor não mudou. Eu mudei, mas o significado disso nunca mudou. Aliás, mudou. Cresceu. Afinal, é difícil não crescer quando se percebe que algo acompanhou você durante a maior parte da sua vida.
E é difícil não pensar nisso tudo e não se emocionar quando é hora de reencontrar.
E logo vou reencontrar. Assim que eu terminar este texto.
Porque toda vez que eu compro um CD novo do Iron Maiden, eu faço isso: compro no primeiro momento que eu encontro na loja e deixo na minha mesa, ao meu lado, durante alguns momentos, saboreando a idéia de que eu tenho um CD novo deles, e que existem músicas deles que nunca ouvi, e que eu vou escutar pela primeira vez em alguns instantes.
Quem me conhece, sabe que eu tenho fases musicais. Às vezes mergulho no blues, em Chico Buarque, Beethoven, Beatles. Mas eu sempre volto ao heavy metal, especialmente às bandas dos anos 70 e 80. É onde me sinto em casa, musicalmente falando. Passo por Metallica, Black Sabbath, Judas Priest, Megadeth, Slayer.
E termino em Iron Maiden. Dentro da minha casa, Iron Maiden é o meu quarto. E, daqui a minutos, vou voltar aos meus catorze anos e me trancar dentro deste quarto para ouvir o disco novo.
E é por isso que eu reluto em ouvir – acabei de descobrir. É para evitar a sensação de que daqui a pouco mais de uma hora, eu estarei de volta ao “não existe nada do Iron Maiden que eu não tenha escutado”. Por isso eu adio, pelo tempo que consigo, colocar o CD para tocar.
Eu quero prolongar ao máximo aquela sensação que acontece a cada dois ou três anos, de “tem um disco inteiro – INTEIRO! – do Iron que eu nunca ouvi”.
Porque sentir isso me leva diretamente aos catorze anos, ao dia em que simplesmente enlouqueci assistindo ao clipe de Wasted Years no saudoso Clip Trip, da Rede Gazeta. Menos de uma hora depois, estava no Shopping Ibirapuera comprando o vinil de No Prayer for the Dying (peguei dinheiro escondido da carteira da minha mãe), que até hoje tem um significado especial demais para mim. Não é nem de longe o melhor disco deles (ainda é Powerslave), pelo contrário, é um dos mais fracos. Mas ainda é o MEU disco do Iron Maiden.
E, a partir daí, mergulhei – numa era pré-internet – na tarefa de descobrir mais sobre a banda, os discos, os integrantes, e, principalmente, as letras das músicas. Sim, eu já era “letras” nessa época, mesmo sem saber disso.
Hoje, eu tenho um disco novo para descobrir.
Hoje, eu tenho catorze anos e uma vida inteira pela frente.
Hoje, eu quis compartilhar esse momento, que acontece entre eu comprar um disco do Iron e colocá-lo para ouvir, com vocês.
18 de agosto de 2010
Amor, Só de Irmão
– Alô.
– E aí, filho da puta?
– Ei, veado.
– Tudo bom?
– Até você ligar, estava.
– Dando muito a bunda?
– Sim, depois que larguei você, encontrei homens de verdade. Estou bem feliz agora.
– Bicha.
– Puto.
– E meu sobrinho?
– Comendo feito um animal. Está maior que você.
– Vai se fuder. Mas ele está bem?
– Sim. Ainda não contamos que o tio dele é veado, então ele está feliz. Ah, eu devo passar na sua casa no final de semana, para pegar uns jogos.
– Beleza. Só me avise antes, dando o horário. Assim eu saio de casa e você se fode.
– E você morre no dia seguinte.
– Vai se fuder.
– Vamos jantar semana que vem?
– Vamos. Mas não pode ser carne, por causa da merda da dieta.
– Esquece a dieta. Vamos numa churrascaria e você come cupim. Assim você morre logo, ninguém agüenta mais você.
– Escroto.
– E eu fico com suas coisas.
– Eu peço para ser enterrado junto com tudo.
– Eu abro seu caixão de madrugada e pego tudo. E ainda chuto sua cabeça.
– Vai tomar no cu. Semana que vem?
– Sim, me liga e a gente combina.
– Beleza. Se cuida. Beijo.
– Beijo.
– E aí, filho da puta?
– Ei, veado.
– Tudo bom?
– Até você ligar, estava.
– Dando muito a bunda?
– Sim, depois que larguei você, encontrei homens de verdade. Estou bem feliz agora.
– Bicha.
– Puto.
– E meu sobrinho?
– Comendo feito um animal. Está maior que você.
– Vai se fuder. Mas ele está bem?
– Sim. Ainda não contamos que o tio dele é veado, então ele está feliz. Ah, eu devo passar na sua casa no final de semana, para pegar uns jogos.
– Beleza. Só me avise antes, dando o horário. Assim eu saio de casa e você se fode.
– E você morre no dia seguinte.
– Vai se fuder.
– Vamos jantar semana que vem?
– Vamos. Mas não pode ser carne, por causa da merda da dieta.
– Esquece a dieta. Vamos numa churrascaria e você come cupim. Assim você morre logo, ninguém agüenta mais você.
– Escroto.
– E eu fico com suas coisas.
– Eu peço para ser enterrado junto com tudo.
– Eu abro seu caixão de madrugada e pego tudo. E ainda chuto sua cabeça.
– Vai tomar no cu. Semana que vem?
– Sim, me liga e a gente combina.
– Beleza. Se cuida. Beijo.
– Beijo.
17 de agosto de 2010
Rob Gordon X Telefônica - Round 2
Começou semana passada, quando o Speedy da minha casa faleceu. Causa mortis: desconhecida. Tentei fazer tudo o que o pessoal da Telefônica iria me pedir no telefone (basicamente, “desligue o modem por quarenta segundos e ligue novamente”, pois é apenas isso que eles sabem sugerir), mas não consegui ressuscitá-la.
Assim, peguei o telefone e disquei, já de má vontade, por ter que falar com aquela maldita prima do Hal 9000 que faz um frila para a Telefônica, filtrando as ligações (caso você não saiba do que estou falando, leia aqui).
Mas foi quando finalmente consegui falar com um atendente biológico que as coisas pioraram. Aparentemente, a Telefônica é incapaz de conseguir agendar a visita de um técnico para apenas um dia. Como o prazo fica entre 24 e 48 horas, eu teria que ficar em casa dois dias, esperando o sujeito chegar.
Expliquei isso para a atendente e ela me devolveu:
– Mas o senhor realmente não pode ficar em casa estes dois dias?
Pensei em dezenove respostas (que iam desde “eu tenho claustrofobia, não posso ficar em casa por mais de seis horas” até “eu e meu cachorro estamos brigados, então o clima está super chato aqui, ficar um dia inteiro com ele já vai ser difícil, imagine dois”), mas eu já estava tão irritado que, ao invés de ser sarcástico, fui grosso:
– Não, porque eu trabalho. E eu não posso falar dois dias no trabalho. Eu preciso daquele emprego porque uso o salário para pagar a conta do Speedy que não funciona.
Resumindo: consegui agendar a visita para apenas um dia.
Agora, o curioso foi quando a mulher me perguntou se eu tinha preferência pelo período da manhã ou da tarde. Parei por alguns instantes e pensei a respeito disso.
Eles não conseguem definir em qual dia acontecerá a visita do técnico, mas conseguem definir se ela será de manhã ou à tarde? Tentei ver qualquer resquício de lógica nessa estratégia, mas fracassei. Assim, soltei apenas um “de manhã” e dei o melhor de mim para ignorar isso.
Pronto. Isso foi na noite de sexta-feira. Os técnicos iriam à minha casa na segunda-feira, pela manhã – porque eu também fui obrigado a explicar duas vezes para a mulher que este tipo de serviço não pode ser realizado no meu prédio durante os finais de semana.
Doze horas depois. Sábado, perto da hora do almoço, toca o interfone do meu apartamento. Atendi.
– Seu Róbigórdu?
– Eu.
– O senhor chamou a Telefônica?
Porra, como ele sabe isso? Será que é possível ter o mínimo de privacidade nesse prédio?
– Chamei.
– Porque os técnicos estão aqui. E hoje é sábado, não pode entrar.
– Como assim, eles estão aqui?
– Estão aqui na porta.
– Me faz um favor?
– Sim.
– Não diga a eles que eles não podem entrar no prédio hoje. Aliás, joga a culpa em mim. Diga que eu estou em casa sim, e você falou comigo, mas eu não vou atender ninguém porque a visita está marcada para segunda-feira. E diga que eu vou ignorar o fato de que eles passaram aqui dois dias antes.
– Sim, Seu Róbigórdu.
– Valeu.
Imbecis.
Quatro horas depois – caso você trabalhe na Telefônica e tenha perdido a contagem do tempo enquanto lê o texto, fique sabendo que “quatro horas depois” significa que “ainda era sábado” toca meu celular.
– Sr. Rob Gordon?
– Sim.
– Aqui é Kronos, da Telefônica.
– E...?
– E estou ligando para confirmar a visita do técnico no seu apartamento, para o reparo do Speedy.
– Ok.
– A visita será amanhã na parte da manhã.
– Olhe, a visita está agendada para segunda-feira de manhã. Os técnicos já passaram hoje de manhã na minha casa, e eu ignorei isso. Vamos fazer o seguinte, Kronos? Da mesma forma que eu ignorei a visita hoje de manhã, eu vou desligar o telefone e fingir que você não me ligou. Assim, nada muda, e os técnicos vão até minha casa na segunda-feira de manhã. Fechado?
– Sim, senhor.
– Ótimo. Adeus.
Deu certo. Eles passaram ontem (segunda-feira) de manhã, na minha casa, e minha internet voltou a funcionar.
Mas claro que no sábado à noite, eu deixei instruções claras para o porteiro, pedindo a ele que caso alguém da Telefônica aparecesse no prédio procurando por mim no domingo, ele deveria apenas dizer que “ele deixou um bilhete aqui pedindo para vocês irem tomar no cu e voltarem amanhã de manhã”.
Aparentemente, não foi preciso. Aparentemente.
Assim, peguei o telefone e disquei, já de má vontade, por ter que falar com aquela maldita prima do Hal 9000 que faz um frila para a Telefônica, filtrando as ligações (caso você não saiba do que estou falando, leia aqui).
Mas foi quando finalmente consegui falar com um atendente biológico que as coisas pioraram. Aparentemente, a Telefônica é incapaz de conseguir agendar a visita de um técnico para apenas um dia. Como o prazo fica entre 24 e 48 horas, eu teria que ficar em casa dois dias, esperando o sujeito chegar.
Expliquei isso para a atendente e ela me devolveu:
– Mas o senhor realmente não pode ficar em casa estes dois dias?
Pensei em dezenove respostas (que iam desde “eu tenho claustrofobia, não posso ficar em casa por mais de seis horas” até “eu e meu cachorro estamos brigados, então o clima está super chato aqui, ficar um dia inteiro com ele já vai ser difícil, imagine dois”), mas eu já estava tão irritado que, ao invés de ser sarcástico, fui grosso:
– Não, porque eu trabalho. E eu não posso falar dois dias no trabalho. Eu preciso daquele emprego porque uso o salário para pagar a conta do Speedy que não funciona.
Resumindo: consegui agendar a visita para apenas um dia.
Agora, o curioso foi quando a mulher me perguntou se eu tinha preferência pelo período da manhã ou da tarde. Parei por alguns instantes e pensei a respeito disso.
Eles não conseguem definir em qual dia acontecerá a visita do técnico, mas conseguem definir se ela será de manhã ou à tarde? Tentei ver qualquer resquício de lógica nessa estratégia, mas fracassei. Assim, soltei apenas um “de manhã” e dei o melhor de mim para ignorar isso.
Pronto. Isso foi na noite de sexta-feira. Os técnicos iriam à minha casa na segunda-feira, pela manhã – porque eu também fui obrigado a explicar duas vezes para a mulher que este tipo de serviço não pode ser realizado no meu prédio durante os finais de semana.
Doze horas depois. Sábado, perto da hora do almoço, toca o interfone do meu apartamento. Atendi.
– Seu Róbigórdu?
– Eu.
– O senhor chamou a Telefônica?
Porra, como ele sabe isso? Será que é possível ter o mínimo de privacidade nesse prédio?
– Chamei.
– Porque os técnicos estão aqui. E hoje é sábado, não pode entrar.
– Como assim, eles estão aqui?
– Estão aqui na porta.
– Me faz um favor?
– Sim.
– Não diga a eles que eles não podem entrar no prédio hoje. Aliás, joga a culpa em mim. Diga que eu estou em casa sim, e você falou comigo, mas eu não vou atender ninguém porque a visita está marcada para segunda-feira. E diga que eu vou ignorar o fato de que eles passaram aqui dois dias antes.
– Sim, Seu Róbigórdu.
– Valeu.
Imbecis.
Quatro horas depois – caso você trabalhe na Telefônica e tenha perdido a contagem do tempo enquanto lê o texto, fique sabendo que “quatro horas depois” significa que “ainda era sábado” toca meu celular.
– Sr. Rob Gordon?
– Sim.
– Aqui é Kronos, da Telefônica.
– E...?
– E estou ligando para confirmar a visita do técnico no seu apartamento, para o reparo do Speedy.
– Ok.
– A visita será amanhã na parte da manhã.
– Olhe, a visita está agendada para segunda-feira de manhã. Os técnicos já passaram hoje de manhã na minha casa, e eu ignorei isso. Vamos fazer o seguinte, Kronos? Da mesma forma que eu ignorei a visita hoje de manhã, eu vou desligar o telefone e fingir que você não me ligou. Assim, nada muda, e os técnicos vão até minha casa na segunda-feira de manhã. Fechado?
– Sim, senhor.
– Ótimo. Adeus.
Deu certo. Eles passaram ontem (segunda-feira) de manhã, na minha casa, e minha internet voltou a funcionar.
Mas claro que no sábado à noite, eu deixei instruções claras para o porteiro, pedindo a ele que caso alguém da Telefônica aparecesse no prédio procurando por mim no domingo, ele deveria apenas dizer que “ele deixou um bilhete aqui pedindo para vocês irem tomar no cu e voltarem amanhã de manhã”.
Aparentemente, não foi preciso. Aparentemente.
16 de agosto de 2010
Pequeno Interlúdio Religioso
Ontem passei em frente à banca de jornal mais perto de casa, que fica próxima à padaria que eu freqüento. Quem estava lá era o Ancião, um velho de mais ou menos 350 anos (de Pinheiros, não de idade) que toma conta da banca. Qualquer dia eu falo mais dele por aqui.
Mas ontem passei por ali e, vendo que ele estava na banca, o cumprimentei.
– Oi, tudo bom com o senhor?
– GLÓRIA A DEUS! SÓ CRISTO SALVA!
– Ah, então tá.
É oficial: qualquer chance que eu tinha de ir para o céu virou fumaça com esse “Ah, então tá”.
Mas ontem passei por ali e, vendo que ele estava na banca, o cumprimentei.
– Oi, tudo bom com o senhor?
– GLÓRIA A DEUS! SÓ CRISTO SALVA!
– Ah, então tá.
É oficial: qualquer chance que eu tinha de ir para o céu virou fumaça com esse “Ah, então tá”.
14 de agosto de 2010
"A Merda é Importante"
A publicação do post Top 5 Coisas que Aprendi com Meus Pais gerou uma enorme repercussão por parte dos leitores sobre um tema específico. Não é para menos: o momento em que um passarinho coberto de fezes é comido por um gato talvez seja a cena mais forte deste blog, nos últimos tempos.
Assim, para saciar a curiosidade dos leitores, a equipe de reportagem do Champ Vinyl conversou com o gato que, revelou, com exclusividade, como foi a realização da cena, qual a importância da merda no roteiro do conto e quais seus próximos projetos, após comer merda.
Você chegou a ler os comentários dos leitores?
Apenas alguns. Eu não entro muito no seu blog. Vi porque alguns amigos me avisaram disso.
Mas você viu que a maioria dos comentários se refere ao fato de você comer um passarinho coberto de merda?
Sim, eu vi isso. E era esperado. A cena é muito forte.
Você realmente comeu isso?
Veja bem, não fui eu quem escreveu a história. É evidente que, no que dependesse de mim, o passarinho estaria coberto de creme de leite ou à milanesa. Mas eu não escrevi a história, não tenho controle sobre isso.

"A merda não está fora de contexto, não foi colocada ali apenas para chocar."
Porque muitos leitores...
Além disso, desculpe interromper aqui, a merda é importante, você sabe disso. Quem leu, sabe disso. A merda não está fora de contexto, não foi colocada ali apenas para chocar. A merda é que dá o tom ali. Imagine a moral da história assim, “nem sempre quem te tira do creme de leite quer seu mal”. Não faz sentido. Precisava ser merda.
Concordo. Foi difícil comer o passarinho nessas circunstâncias?
Muito. Mas era vital para o roteiro que isso acontecesse. Nós não estávamos buscando um final feliz para o passarinho, nós queríamos passar uma lição ao público. Esse foi o objetivo desde o começo.
Mas como você se preparou para isso?
Conversei com o diretor antes, e pedi um pouco de privacidade no estúdio. Ficamos apenas eu, ele e um iluminador. Nem mesmo o passarinho estava lá – a partir do momento em que a merda cai em cima dele, ele não participa mais das cenas, foi inserido digitalmente. Eu perguntei se não era possível trocar por calda de chocolate, mas o diretor queria impingir realismo à cena. O argumento dele foi que “quem te coloca na merda não necessariamente quer seu mal”. Não tive como discutir isso. Assim, fechei os olhos e comi.
Não deve ter sido fácil.
Sim, mas faz parte do trabalho de ator. E eu me sinto orgulhoso de participar desse projeto, de ter feito isso. Claro que seria mais fácil ter feito algo de Esopo, ou dos Irmãos Grimm, mas eu não busco facilidade nos projetos em que me envolvo. Eu preciso me desafiar o tempo inteiro, preciso fazer coisas diferentes.
Os críticos apontam que você é aposta certa para uma indicação ao Oscar deste ano graças a isso.
Seria bom, não vou negar. O Oscar abre muitas portas, e acho que eu seria o primeiro gato a ser indicado. Não tenho certeza, preciso checar isso. Mas não estou preocupado com isso. A Academia sempre reconhece trabalhos corajosos, e comer merda deve se enquadrar nisso.
Certamente. Mas sua visibi...
Desculpe, mas todos nós sabemos que ser indicado ao Oscar não tem a ver com talento, tem a ver com coragem. Se eu interpretasse um gato deficiente mental eu seria indicado, se eu interpretasse um gato gay também. Se eu realizar algum trabalho abrindo mão de usar maquiagem, provavelmente serei indicado. Sou ator e adoraria ser indicado, mas vamos ser sinceros? É um prêmio mais voltado à indústria, e não à arte em si.
Comer merda aumentou muito sua visibilidade. Quais seus próximos projetos?
Meu agente está em contato com Chris. Aparentemente, assim que ele inserir a Mulher Gato na franquia Batman, eu devo participar. Ele já disse que gosta de atores corajosos, e quer coisa mais corajosa que comer merda? Seria uma honra. E não pela projeção que isso me daria, mas sim pelo trabalho de Chris. Ainda não vi A Origem, mas já li a respeito e tenho certeza que é bom. E estou em negociações também para uma montagem de O Gatola de Cartola, do Dr. Seuss. Será off-Broadway, num circuito pequeno. Gosto disso. Gosto de teatro, daquela sensação de estar perto do público.
E uma sequência da história do passarinho?
[Pensativo] Não, creio que não. [Acende um cigarro] Creio que tudo que poderíamos explorar ali, foi explorado. Não tem mais como desenvolver aqueles personagens.
Para finalizar, uma leitora, a Marina, apontou uma quarta moral da história na trama, afirmando que “quem está com fome come até merda”. O que você acha disso?
Eu concordo. E você provavelmente deve concordar também. Afinal, você é blogueiro. Poucas pessoas no mundo entendem mais de comer merda que um blogueiro.
Assim, para saciar a curiosidade dos leitores, a equipe de reportagem do Champ Vinyl conversou com o gato que, revelou, com exclusividade, como foi a realização da cena, qual a importância da merda no roteiro do conto e quais seus próximos projetos, após comer merda.
Você chegou a ler os comentários dos leitores?
Apenas alguns. Eu não entro muito no seu blog. Vi porque alguns amigos me avisaram disso.
Mas você viu que a maioria dos comentários se refere ao fato de você comer um passarinho coberto de merda?
Sim, eu vi isso. E era esperado. A cena é muito forte.
Você realmente comeu isso?
Veja bem, não fui eu quem escreveu a história. É evidente que, no que dependesse de mim, o passarinho estaria coberto de creme de leite ou à milanesa. Mas eu não escrevi a história, não tenho controle sobre isso.

"A merda não está fora de contexto, não foi colocada ali apenas para chocar."
Porque muitos leitores...
Além disso, desculpe interromper aqui, a merda é importante, você sabe disso. Quem leu, sabe disso. A merda não está fora de contexto, não foi colocada ali apenas para chocar. A merda é que dá o tom ali. Imagine a moral da história assim, “nem sempre quem te tira do creme de leite quer seu mal”. Não faz sentido. Precisava ser merda.
Concordo. Foi difícil comer o passarinho nessas circunstâncias?
Muito. Mas era vital para o roteiro que isso acontecesse. Nós não estávamos buscando um final feliz para o passarinho, nós queríamos passar uma lição ao público. Esse foi o objetivo desde o começo.
Mas como você se preparou para isso?
Conversei com o diretor antes, e pedi um pouco de privacidade no estúdio. Ficamos apenas eu, ele e um iluminador. Nem mesmo o passarinho estava lá – a partir do momento em que a merda cai em cima dele, ele não participa mais das cenas, foi inserido digitalmente. Eu perguntei se não era possível trocar por calda de chocolate, mas o diretor queria impingir realismo à cena. O argumento dele foi que “quem te coloca na merda não necessariamente quer seu mal”. Não tive como discutir isso. Assim, fechei os olhos e comi.
Não deve ter sido fácil.
Sim, mas faz parte do trabalho de ator. E eu me sinto orgulhoso de participar desse projeto, de ter feito isso. Claro que seria mais fácil ter feito algo de Esopo, ou dos Irmãos Grimm, mas eu não busco facilidade nos projetos em que me envolvo. Eu preciso me desafiar o tempo inteiro, preciso fazer coisas diferentes.
Os críticos apontam que você é aposta certa para uma indicação ao Oscar deste ano graças a isso.
Seria bom, não vou negar. O Oscar abre muitas portas, e acho que eu seria o primeiro gato a ser indicado. Não tenho certeza, preciso checar isso. Mas não estou preocupado com isso. A Academia sempre reconhece trabalhos corajosos, e comer merda deve se enquadrar nisso.
Certamente. Mas sua visibi...
Desculpe, mas todos nós sabemos que ser indicado ao Oscar não tem a ver com talento, tem a ver com coragem. Se eu interpretasse um gato deficiente mental eu seria indicado, se eu interpretasse um gato gay também. Se eu realizar algum trabalho abrindo mão de usar maquiagem, provavelmente serei indicado. Sou ator e adoraria ser indicado, mas vamos ser sinceros? É um prêmio mais voltado à indústria, e não à arte em si.
Comer merda aumentou muito sua visibilidade. Quais seus próximos projetos?
Meu agente está em contato com Chris. Aparentemente, assim que ele inserir a Mulher Gato na franquia Batman, eu devo participar. Ele já disse que gosta de atores corajosos, e quer coisa mais corajosa que comer merda? Seria uma honra. E não pela projeção que isso me daria, mas sim pelo trabalho de Chris. Ainda não vi A Origem, mas já li a respeito e tenho certeza que é bom. E estou em negociações também para uma montagem de O Gatola de Cartola, do Dr. Seuss. Será off-Broadway, num circuito pequeno. Gosto disso. Gosto de teatro, daquela sensação de estar perto do público.
E uma sequência da história do passarinho?
[Pensativo] Não, creio que não. [Acende um cigarro] Creio que tudo que poderíamos explorar ali, foi explorado. Não tem mais como desenvolver aqueles personagens.
Para finalizar, uma leitora, a Marina, apontou uma quarta moral da história na trama, afirmando que “quem está com fome come até merda”. O que você acha disso?
Eu concordo. E você provavelmente deve concordar também. Afinal, você é blogueiro. Poucas pessoas no mundo entendem mais de comer merda que um blogueiro.
13 de agosto de 2010
Certa Madrugada, no Inferno...
Local: Sala do Diretor de Novos Projetos
Horário: 23:08
Demônio-diretor: Alô.
Demônio-assistente: Boa noite, senhor.
Demônio-diretor: Boa noite.
Demônio-assistente: Algumas semanas atrás o senhor me pediu para avisar quando o Rob Gordon fosse dormir cedo.
Demônio-diretor: Sim.
Demônio-assistente: Ele está indo deitar agora.
Demônio-diretor: Excelente! Estarei na Sala de Testes em uma hora. Me encontre lá.
Demônio-assistente: Sim, senhor.
Local: Curral
Horário: 23:11
Demônio-capataz: Alô.
Demônio-diretor: Boa noite. Os mosquitos estão prontos?
Demônio-capataz: Mais do que prontos, senhor. Eles já passaram por todos os procedimentos científicos e místicos.
Demônio-diretor: Tivemos alguma baixa?
Demônio-capataz: Apenas uma. Um dos...
GRAAAAU!
Demônio-diretor: O que é isso? Que barulho é esse?
Demônio-capataz: Desculpe, senhor, um dos adultos se aproximou e tentou me atacar. Mas meus homens já o amarraram com cabos de aço e estão o arrastando para longe. Eles estão assim desde que cortamos a ração pela metade. Devoraram um filhote de rinoceronte vivo, outro dia.
Demônio-diretor: Excelente! Mas você estava falando das baixas.
Demônio-capataz: Sim, senhor. Como eu estava dizendo, um dos filhotes não sobreviveu à implantação de titânio no ferrão. Os demais reagiram muito bem, tanto ao processo de agigantamento quanto aos feitiços de teleporte.
Demônio-diretor: Ótimo.
Demônio-capataz: Senhor... Peço permissão para falar francamente.
Demônio-diretor: Concedida.
Demônio-capataz: Eu não sei mais quanto tempo nós vamos agüentar estes mosquitos aqui. Eles estão cada vez mais famintos. E ferozes. Meus homens já domaram todos os tipos de criaturas existentes, mas eles estão começando a ficar com medo dos mosquitos.
Demônio-diretor: Não se preocupe. Ao que tudo indica, nós vamos usá-los hoje.
Demônio-capataz: Excelente notícia, senhor.
Demônio-diretor: Já deixe sua equipe avisada e de prontidão. Aguarde notícias minhas.
Demônio-capataz: Sim, senhor.
Local: Sala de Testes
Horário: 00:15
Demônio-diretor: Boa noite.
Demônio-assistente: Boa noite, senhor.
Demônio-diretor: Status?
Demônio-assistente: Ele está dormindo profundamente. Besta-Fera está aos pés dele, na cama. Dormindo também.
Demônio-diretor: Excelente. Mande uma mensagem para o Curral e avise ao Capataz para liberar os mosquitos.
Demônio-assistente: Os mosquitos, senhor? Aqueles mosquitos?
Demônio-diretor: Sim.
Demônio-assistente: Todos?
Demônio-diretor: Sim, a esquadrilha inteira.
Demônio-assistente: Sim, senhor. Pronto. Mensagem enviada.
Demônio-diretor: Excelente.
Demônio-assistente: O capataz já respondeu, senhor. A esquadrilha já está a caminho. Deve chegar ao apartamento do Rob em cerca de cinqüenta minutos. Uma hora, no máximo.
Demônio-diretor: Temos uma estimativa de quanto tempo irá demorar até ele ir ao banheiro?
Demônio-assistente: De acordo com os relatórios da Inteligência, ele jantou fora hoje. Pelos meus cálculos, ele precisará ir ao banheiro poucos minutos após a chegada dos mosquitos.
Demônio-diretor: Ótimo. Quer rachar uma pizza enquanto esperamos?
Demônio-assistente: Meia atum, meia enxofre?
Demônio-diretor: Parece perfeito. Vamos.
Local: Sala de Testes
Horário: 01:20
Demônio-assistente: Os mosquitos estão a postos, senhor. Todos espalhados pelo quarto, nas paredes.
Demônio-diretor: Mas ainda não fizeram nada, certo?
Demônio-assistente: Segundo o capataz, eles ainda não atacaram somente por causa do bloqueio mental implantado. Assim que a trava for retirada, eles partirão para cima dele.
Demônio-diretor: Bom. Muito bom.
Demônio-assistente: Devo pedir para retirar a travar?
Demônio-diretor: Ele já foi ao banheiro?
Demônio-assistente: Não, senhor. Mas não irá demorar.
Demônio-diretor: Temos como retirar a trava de somente um mosquito?
Demônio-assistente: Sim, senhor.
Demônio-diretor: Faça isso.
Demônio-assistente: Pronto, senhor. Olhe! O mosquito já está voando! É aquele ali, próximo ao armário. Está indo em direção ao Rob. Ao ouvido, mais precisamente.
Demônio-diretor: Isso vai ser genial. Fique olhando.
Demônio-assistente: Uau! Que tapa!
Demônio-diretor: Você viu? Ele sempre faz isso, é demais!
Demônio-assistente: Deve ter doído muito!
Demônio-diretor: Será que ele acha que vai matar o mosquito dando um tapa no próprio ouvido? Tem como ser mais burro?
Demônio-assistente: Ele está acordando, olhe, senhor!
Demônio-diretor: Tudo está saindo como planejado.
Demônio-assistente: Ele está indo ao banheiro.
Demônio-diretor: O grande problema destas missões de madrugada é que somos obrigados a ver o Rob de cueca.
Demônio-assistente: É uma cena deplorável, não?
Demônio-diretor: Muito. Mas não se preocupe, além das horas extras, vou pedir um aumento à presidência, para nós dois. Vou alegar insalubridade.
Demônio-assistente: Obrigado, senhor.
Demônio-diretor: Me passe aquele telefone.
Demônio-assistente: Pronto.
Demônio-diretor: Capataz? Prepare-se para retirar as travas de todos os mosquitos ao meu comando.
Demônio-assistente: Ele está voltando.
Demônio-diretor: Três... Dois... Um...
Demônio-assistente: Ele acendeu a luz!
Demônio-diretor: Agora!
Demônio-assistente: Os mosquitos estão soltos!
Demônio-diretor: Excelente trabalho, capataz. Qualquer informação pertinente, estarei na sala de testes.
Demônio-assistente: Ele está olhando ao redor e vendo mosquitos por todos os lados. Veja a cara dele, senhor!
Demônio-diretor: Ele deve estar se perguntando como tantos mosquitos apareceram no quarto.
Demônio-assistente: Com certeza, senhor. Ele foi checar se janela está fechada, veja.
Demônio-diretor: Os mosquitos o estão devorando, e ele preocupado com a janela. Imbecil demais.
Demônio-assistente: Mas agora ele se virou para o quarto, senhor. Deve tentar atacá-los.
Demônio-diretor: É exatamente o que eu espero.
Demônio-assistente: Ele está se aproximando de um deles. Vai tentar capturá-lo.
Demônio-diretor: Espero que ele consiga.
Demônio-assistente: Senhor?
Demônio-diretor: Espero que ele consiga. Fique olhando.
Demônio-assistente: Veja, senhor. Acho que ele conseguiu!
Demônio-diretor: Ele acha que matou o mosquito, e vai abrir a mão agora. Fique olhando.
Demônio-assistente: Sim, senhor.
Demônio-diretor: Não tem nada na mão dele! Olhe a cara de raiva que ele fez!
Demônio-assistente: Senhor, eu não entendo. Eu vi o Rob pegando o mosquito claramente.
Demônio-diretor: Estes mosquitos foram manipulados. Eu mesmo cuidei disso. Eles passaram por modificações físicas. Receberam implantes de titânio, e seu sangue foi trocado por ácido clorídrico. E suas asas foram redesenhadas, para fazer um barulho maior e mais irritante. E passaram por modificações místicas também.
Demônio-assistente: Místicas?
Demônio-diretor: Sim, é por isso que ele não vai conseguir capturar nenhum. Eles passaram por encantamentos infernais. Cada mosquito que ele aprisionar irá se teleportar de dentro da mão dele para outro local do quarto. Ele nunca vai conseguir aprisionar nenhum.
Demônio-assistente: Ele está tentando novamente. Apanhou mais um.
Demônio-diretor: Ele ainda não percebeu que não irá conseguir.
Demônio-assistente: Eu vi, apareceu outro mosquito atrás do ombro dele. Era o mesmo mosquito, senhor?
Demônio-diretor: Exatamente. Veja, ele está abrindo a mão. Não vai encontrar nada.
Demônio-assistente: Pronto, já começou a xingar.
Demônio-diretor: Ele é previsível demais. E são sempre os mesmos palavrões. Prepare-se para ouvir muitos “mosquito do caralho” e “mosquito filho da puta” nos próximos minutos.
Demônio-assistente: Senhor, ele pegou o travesseiro e vai usá-lo como arma. Os mosquitos estão prontos para isso?
Demônio-diretor: Mais do que você imagina. Preste atenção, ele está indo em direção aquele no armário. Veja que ridículo, ele de cueca tentando levantar o travesseiro discretamente, para não assustar o bicho. Deplorável.
Demônio-assistente: Uau! Que porrada!
Demônio-diretor: Ele matou o mosquito. Exatamente como eu imaginava.
Demônio-assistente: Mas o senhor disse que eles estavam preparados para isso.
Demônio-diretor: E estão. Este foi o encantamento mais difícil de realizar. A cada mosquito que ele matar com o travesseiro, dois novos surgirão de trás da estante de livros. A única coisa que ele vai conseguir é manchar as paredes do quarto com sangue e aumentar o número de mosquitos. Claro que ele jamais irá perceber isso.
Demônio-assistente: Genial! Veja, senhor, os mosquitos se organizaram! Um grupo deles está voando em formação de ataque em direção ao Rob, enquanto aqueles outros atacam as pernas dele!
Demônio-diretor: O capataz fez um excelente trabalho.
Demônio-assistente: Veja, ele ficou encurralado num canto do quarto, e está dando travesseiradas para todos os lados, sem saber o que fazer!
Demônio-diretor: Onde está o cachorro?
Demônio-assistente: Fugiu para a sala, alguns minutos atrás. Ele está sozinho. Uau! Você viu aqueles cinco dando rasantes em cima do ombro dele?
Demônio-diretor: Vi, sim. E pode ter certeza que cada rasante foi uma picada.
Demônio-assistente: Ele acertou mais um!
Demônio-diretor: E mais dois apareceram ali atrás, veja!
Demônio-assistente: Sim, senhor, estou vendo.
Demônio-diretor: Bem, creio que finalizamos o teste. O projeto mosquito pode ser colocado em execução a partir de amanhã.
Demônio-assistente: Parabéns, senhor.
Demônio-diretor: Obrigado.
Demônio-assistente: Devo pedir ao capataz para chamar os mosquitos de volta?
Demônio-diretor: O Rob está muito cansado?
Demônio-assistente: Sim, senhor. Ele saiu do trabalho de madrugada praticamente a semana inteira. Veja as olheiras dele, parece um urso panda.
Demônio-diretor: Problema dele. Estes mosquitos estão há dias sem comer direito. Vamos deixá-los se alimentar hoje. Eles merecem.
Demônio-assistente: Certo.
Demônio-diretor: Instrua o capataz para ativar o comando que fará os mosquitos retornarem à base somente por volta das cinco da manhã.
Demônio-assistente: Mensagem enviada.
Demônio-diretor: Perfeito. Vamos para casa. Deixe o Rob com os mosquitos. Mas grave as imagens. Vamos exibi-las para a equipe no próximo happy hour.
Demônio-assistente: Estou gravando.
Demônio-diretor: Podemos encerrar por hoje. Boa noite.
Demônio-assistente: Boa noite, senhor. Até amanhã.
Horário: 23:08
Demônio-diretor: Alô.
Demônio-assistente: Boa noite, senhor.
Demônio-diretor: Boa noite.
Demônio-assistente: Algumas semanas atrás o senhor me pediu para avisar quando o Rob Gordon fosse dormir cedo.
Demônio-diretor: Sim.
Demônio-assistente: Ele está indo deitar agora.
Demônio-diretor: Excelente! Estarei na Sala de Testes em uma hora. Me encontre lá.
Demônio-assistente: Sim, senhor.
Local: Curral
Horário: 23:11
Demônio-capataz: Alô.
Demônio-diretor: Boa noite. Os mosquitos estão prontos?
Demônio-capataz: Mais do que prontos, senhor. Eles já passaram por todos os procedimentos científicos e místicos.
Demônio-diretor: Tivemos alguma baixa?
Demônio-capataz: Apenas uma. Um dos...
GRAAAAU!
Demônio-diretor: O que é isso? Que barulho é esse?
Demônio-capataz: Desculpe, senhor, um dos adultos se aproximou e tentou me atacar. Mas meus homens já o amarraram com cabos de aço e estão o arrastando para longe. Eles estão assim desde que cortamos a ração pela metade. Devoraram um filhote de rinoceronte vivo, outro dia.
Demônio-diretor: Excelente! Mas você estava falando das baixas.
Demônio-capataz: Sim, senhor. Como eu estava dizendo, um dos filhotes não sobreviveu à implantação de titânio no ferrão. Os demais reagiram muito bem, tanto ao processo de agigantamento quanto aos feitiços de teleporte.
Demônio-diretor: Ótimo.
Demônio-capataz: Senhor... Peço permissão para falar francamente.
Demônio-diretor: Concedida.
Demônio-capataz: Eu não sei mais quanto tempo nós vamos agüentar estes mosquitos aqui. Eles estão cada vez mais famintos. E ferozes. Meus homens já domaram todos os tipos de criaturas existentes, mas eles estão começando a ficar com medo dos mosquitos.
Demônio-diretor: Não se preocupe. Ao que tudo indica, nós vamos usá-los hoje.
Demônio-capataz: Excelente notícia, senhor.
Demônio-diretor: Já deixe sua equipe avisada e de prontidão. Aguarde notícias minhas.
Demônio-capataz: Sim, senhor.
Local: Sala de Testes
Horário: 00:15
Demônio-diretor: Boa noite.
Demônio-assistente: Boa noite, senhor.
Demônio-diretor: Status?
Demônio-assistente: Ele está dormindo profundamente. Besta-Fera está aos pés dele, na cama. Dormindo também.
Demônio-diretor: Excelente. Mande uma mensagem para o Curral e avise ao Capataz para liberar os mosquitos.
Demônio-assistente: Os mosquitos, senhor? Aqueles mosquitos?
Demônio-diretor: Sim.
Demônio-assistente: Todos?
Demônio-diretor: Sim, a esquadrilha inteira.
Demônio-assistente: Sim, senhor. Pronto. Mensagem enviada.
Demônio-diretor: Excelente.
Demônio-assistente: O capataz já respondeu, senhor. A esquadrilha já está a caminho. Deve chegar ao apartamento do Rob em cerca de cinqüenta minutos. Uma hora, no máximo.
Demônio-diretor: Temos uma estimativa de quanto tempo irá demorar até ele ir ao banheiro?
Demônio-assistente: De acordo com os relatórios da Inteligência, ele jantou fora hoje. Pelos meus cálculos, ele precisará ir ao banheiro poucos minutos após a chegada dos mosquitos.
Demônio-diretor: Ótimo. Quer rachar uma pizza enquanto esperamos?
Demônio-assistente: Meia atum, meia enxofre?
Demônio-diretor: Parece perfeito. Vamos.
Local: Sala de Testes
Horário: 01:20
Demônio-assistente: Os mosquitos estão a postos, senhor. Todos espalhados pelo quarto, nas paredes.
Demônio-diretor: Mas ainda não fizeram nada, certo?
Demônio-assistente: Segundo o capataz, eles ainda não atacaram somente por causa do bloqueio mental implantado. Assim que a trava for retirada, eles partirão para cima dele.
Demônio-diretor: Bom. Muito bom.
Demônio-assistente: Devo pedir para retirar a travar?
Demônio-diretor: Ele já foi ao banheiro?
Demônio-assistente: Não, senhor. Mas não irá demorar.
Demônio-diretor: Temos como retirar a trava de somente um mosquito?
Demônio-assistente: Sim, senhor.
Demônio-diretor: Faça isso.
Demônio-assistente: Pronto, senhor. Olhe! O mosquito já está voando! É aquele ali, próximo ao armário. Está indo em direção ao Rob. Ao ouvido, mais precisamente.
Demônio-diretor: Isso vai ser genial. Fique olhando.
Demônio-assistente: Uau! Que tapa!
Demônio-diretor: Você viu? Ele sempre faz isso, é demais!
Demônio-assistente: Deve ter doído muito!
Demônio-diretor: Será que ele acha que vai matar o mosquito dando um tapa no próprio ouvido? Tem como ser mais burro?
Demônio-assistente: Ele está acordando, olhe, senhor!
Demônio-diretor: Tudo está saindo como planejado.
Demônio-assistente: Ele está indo ao banheiro.
Demônio-diretor: O grande problema destas missões de madrugada é que somos obrigados a ver o Rob de cueca.
Demônio-assistente: É uma cena deplorável, não?
Demônio-diretor: Muito. Mas não se preocupe, além das horas extras, vou pedir um aumento à presidência, para nós dois. Vou alegar insalubridade.
Demônio-assistente: Obrigado, senhor.
Demônio-diretor: Me passe aquele telefone.
Demônio-assistente: Pronto.
Demônio-diretor: Capataz? Prepare-se para retirar as travas de todos os mosquitos ao meu comando.
Demônio-assistente: Ele está voltando.
Demônio-diretor: Três... Dois... Um...
Demônio-assistente: Ele acendeu a luz!
Demônio-diretor: Agora!
Demônio-assistente: Os mosquitos estão soltos!
Demônio-diretor: Excelente trabalho, capataz. Qualquer informação pertinente, estarei na sala de testes.
Demônio-assistente: Ele está olhando ao redor e vendo mosquitos por todos os lados. Veja a cara dele, senhor!
Demônio-diretor: Ele deve estar se perguntando como tantos mosquitos apareceram no quarto.
Demônio-assistente: Com certeza, senhor. Ele foi checar se janela está fechada, veja.
Demônio-diretor: Os mosquitos o estão devorando, e ele preocupado com a janela. Imbecil demais.
Demônio-assistente: Mas agora ele se virou para o quarto, senhor. Deve tentar atacá-los.
Demônio-diretor: É exatamente o que eu espero.
Demônio-assistente: Ele está se aproximando de um deles. Vai tentar capturá-lo.
Demônio-diretor: Espero que ele consiga.
Demônio-assistente: Senhor?
Demônio-diretor: Espero que ele consiga. Fique olhando.
Demônio-assistente: Veja, senhor. Acho que ele conseguiu!
Demônio-diretor: Ele acha que matou o mosquito, e vai abrir a mão agora. Fique olhando.
Demônio-assistente: Sim, senhor.
Demônio-diretor: Não tem nada na mão dele! Olhe a cara de raiva que ele fez!
Demônio-assistente: Senhor, eu não entendo. Eu vi o Rob pegando o mosquito claramente.
Demônio-diretor: Estes mosquitos foram manipulados. Eu mesmo cuidei disso. Eles passaram por modificações físicas. Receberam implantes de titânio, e seu sangue foi trocado por ácido clorídrico. E suas asas foram redesenhadas, para fazer um barulho maior e mais irritante. E passaram por modificações místicas também.
Demônio-assistente: Místicas?
Demônio-diretor: Sim, é por isso que ele não vai conseguir capturar nenhum. Eles passaram por encantamentos infernais. Cada mosquito que ele aprisionar irá se teleportar de dentro da mão dele para outro local do quarto. Ele nunca vai conseguir aprisionar nenhum.
Demônio-assistente: Ele está tentando novamente. Apanhou mais um.
Demônio-diretor: Ele ainda não percebeu que não irá conseguir.
Demônio-assistente: Eu vi, apareceu outro mosquito atrás do ombro dele. Era o mesmo mosquito, senhor?
Demônio-diretor: Exatamente. Veja, ele está abrindo a mão. Não vai encontrar nada.
Demônio-assistente: Pronto, já começou a xingar.
Demônio-diretor: Ele é previsível demais. E são sempre os mesmos palavrões. Prepare-se para ouvir muitos “mosquito do caralho” e “mosquito filho da puta” nos próximos minutos.
Demônio-assistente: Senhor, ele pegou o travesseiro e vai usá-lo como arma. Os mosquitos estão prontos para isso?
Demônio-diretor: Mais do que você imagina. Preste atenção, ele está indo em direção aquele no armário. Veja que ridículo, ele de cueca tentando levantar o travesseiro discretamente, para não assustar o bicho. Deplorável.
Demônio-assistente: Uau! Que porrada!
Demônio-diretor: Ele matou o mosquito. Exatamente como eu imaginava.
Demônio-assistente: Mas o senhor disse que eles estavam preparados para isso.
Demônio-diretor: E estão. Este foi o encantamento mais difícil de realizar. A cada mosquito que ele matar com o travesseiro, dois novos surgirão de trás da estante de livros. A única coisa que ele vai conseguir é manchar as paredes do quarto com sangue e aumentar o número de mosquitos. Claro que ele jamais irá perceber isso.
Demônio-assistente: Genial! Veja, senhor, os mosquitos se organizaram! Um grupo deles está voando em formação de ataque em direção ao Rob, enquanto aqueles outros atacam as pernas dele!
Demônio-diretor: O capataz fez um excelente trabalho.
Demônio-assistente: Veja, ele ficou encurralado num canto do quarto, e está dando travesseiradas para todos os lados, sem saber o que fazer!
Demônio-diretor: Onde está o cachorro?
Demônio-assistente: Fugiu para a sala, alguns minutos atrás. Ele está sozinho. Uau! Você viu aqueles cinco dando rasantes em cima do ombro dele?
Demônio-diretor: Vi, sim. E pode ter certeza que cada rasante foi uma picada.
Demônio-assistente: Ele acertou mais um!
Demônio-diretor: E mais dois apareceram ali atrás, veja!
Demônio-assistente: Sim, senhor, estou vendo.
Demônio-diretor: Bem, creio que finalizamos o teste. O projeto mosquito pode ser colocado em execução a partir de amanhã.
Demônio-assistente: Parabéns, senhor.
Demônio-diretor: Obrigado.
Demônio-assistente: Devo pedir ao capataz para chamar os mosquitos de volta?
Demônio-diretor: O Rob está muito cansado?
Demônio-assistente: Sim, senhor. Ele saiu do trabalho de madrugada praticamente a semana inteira. Veja as olheiras dele, parece um urso panda.
Demônio-diretor: Problema dele. Estes mosquitos estão há dias sem comer direito. Vamos deixá-los se alimentar hoje. Eles merecem.
Demônio-assistente: Certo.
Demônio-diretor: Instrua o capataz para ativar o comando que fará os mosquitos retornarem à base somente por volta das cinco da manhã.
Demônio-assistente: Mensagem enviada.
Demônio-diretor: Perfeito. Vamos para casa. Deixe o Rob com os mosquitos. Mas grave as imagens. Vamos exibi-las para a equipe no próximo happy hour.
Demônio-assistente: Estou gravando.
Demônio-diretor: Podemos encerrar por hoje. Boa noite.
Demônio-assistente: Boa noite, senhor. Até amanhã.
12 de agosto de 2010
Top 5 Coisas que Aprendi com Meus Pais
1. “Não importa onde ou com o que você trabalhar, sempre existirá alguém querendo puxar seu tapete.” (Mãe)
2. “Às vezes, você tem mais time que o adversário, mas perde o jogo assim mesmo. Porque tem dias que nada dá certo, que a bola não entra. Acontece com todo mundo.” (Pai)
3. “Quando você estiver com algum problema, sem saber qual decisão tomar, às vezes uma boa noite de sono pode clarear suas idéias e te ajudar a escolher o que fazer.” (Mãe)
4. “Nada no mundo vale mais que consciência tranqüila. Nada no mundo vale mais que você deitar a cabeça no travesseiro todas as noites e saber que não deve nada para ninguém.” (Pai)
5. “Rob, nunca faça nada que você terá vergonha de contar para mim depois. Se você estiver em dúvida se faz algo ou não, pense se você teria vergonha de contar para mim depois, e saberá a resposta”. (Mãe)
Bônus Track
Como bônus, deixo aqui uma história que meu pai contou uma vez, e que eu nunca esqueci. É certo que não foi ele quem criou – então, caso você já conheça isso, desconsidere. Caso contrário, vale a lida.
“Num inverno fortíssimo, um passarinho viu uma minhoca se arrastando na neve e pousou para caçá-la. Mas, ao entrar em contato com a neve, congelou quase instantaneamente. Ficou duro, gelado, ali. Iria morrer e não poderia fazer nada, a não ser esperar pela morte.
Porém, minutos depois, uma vaca se aproximou dele e, sem reparar no passarinho, virou de costas e cagou em cima dele. O passarinho ficou coberto de merda. Porém, como o cocô é quente, o passarinho começou a se aquecer e, consequentemente, a descongelar. Ali, no quentinho, ele ficou tão feliz, tão confortável, que começou a piar de felicidade. Ele iria sobreviver!
Contudo, havia um gato ali perto. E gatos, você sabe, ouvem bem. O gato ouviu os piados do passarinho, e se aproximou. Olhou o passarinho, o passarinho olhou para ele. Não pensou duas vezes. Arrancou o passarinho dali e o engoliu de uma vez só.
Qual a moral da história? Tem três. Primeiro, nem sempre quem te coloca na merda quer seu mal. Segundo, nem sempre quem te tira da merda quer seu bem.
E, mais importante que tudo, quem está na merda não pia.”
2. “Às vezes, você tem mais time que o adversário, mas perde o jogo assim mesmo. Porque tem dias que nada dá certo, que a bola não entra. Acontece com todo mundo.” (Pai)
3. “Quando você estiver com algum problema, sem saber qual decisão tomar, às vezes uma boa noite de sono pode clarear suas idéias e te ajudar a escolher o que fazer.” (Mãe)
4. “Nada no mundo vale mais que consciência tranqüila. Nada no mundo vale mais que você deitar a cabeça no travesseiro todas as noites e saber que não deve nada para ninguém.” (Pai)
5. “Rob, nunca faça nada que você terá vergonha de contar para mim depois. Se você estiver em dúvida se faz algo ou não, pense se você teria vergonha de contar para mim depois, e saberá a resposta”. (Mãe)
Bônus Track
Como bônus, deixo aqui uma história que meu pai contou uma vez, e que eu nunca esqueci. É certo que não foi ele quem criou – então, caso você já conheça isso, desconsidere. Caso contrário, vale a lida.
“Num inverno fortíssimo, um passarinho viu uma minhoca se arrastando na neve e pousou para caçá-la. Mas, ao entrar em contato com a neve, congelou quase instantaneamente. Ficou duro, gelado, ali. Iria morrer e não poderia fazer nada, a não ser esperar pela morte.
Porém, minutos depois, uma vaca se aproximou dele e, sem reparar no passarinho, virou de costas e cagou em cima dele. O passarinho ficou coberto de merda. Porém, como o cocô é quente, o passarinho começou a se aquecer e, consequentemente, a descongelar. Ali, no quentinho, ele ficou tão feliz, tão confortável, que começou a piar de felicidade. Ele iria sobreviver!
Contudo, havia um gato ali perto. E gatos, você sabe, ouvem bem. O gato ouviu os piados do passarinho, e se aproximou. Olhou o passarinho, o passarinho olhou para ele. Não pensou duas vezes. Arrancou o passarinho dali e o engoliu de uma vez só.
Qual a moral da história? Tem três. Primeiro, nem sempre quem te coloca na merda quer seu mal. Segundo, nem sempre quem te tira da merda quer seu bem.
E, mais importante que tudo, quem está na merda não pia.”
10 de agosto de 2010
Espelho
Sim, porque tem dias que sou Chronicles.
São aqueles dias em que quero ficar sozinho, dentro do meu quarto e com a porta fechada, mexendo nas coisas que guardo escondidas naquela caixa de sapatos branca embaixo da minha cama. Dentro dela, estão minhas dores, paixões, angústias, saudades e solidões – sim, eu tenho mais de uma solidão – e amores. Dentro dela estão os meus segredos.
Aí eu sento no chão e vou tirando as coisas da caixinha com cuidado e olhando com calma, com aquele misto de dor e leveza que a gente sente quando folheia um álbum de retratos, tentando captar o cheiro e o som de fotografias já amarelas e batidas muitos anos atrás. Mas, muitas vezes, os objetos que olho ali na minha caixa são mais bem novos que isso. Alguns, na verdade, têm somente horas de vida.
E nunca mexo nessa caixa sem motivo. Eu tranco a porta do quarto com cuidado, sem fazer barulho, e me sento no chão para mexer nessas coisas somente quando preciso, quando não tenho mais para onde ir. Ou melhor, não tenho mais para onde fugir. Só abro a caixa quando estou me afogando.
Quando encontro o que quero, retiro da caixa com cuidado e delicadeza, com medo de arranhar mais ainda. Sim, porque quase tudo ali está arranhado, quase tudo ali é muito doído. Já desabei em lágrimas, de soluçar mesmo, no meio de alguns textos que estão ali. E não chorei somente pela dor que senti enquanto mexia em tudo aquilo, mas sim pela injustiça de ter que escrever sobre aquilo – porque se estou escrevendo sobre aquilo, é porque estou vivendo, e pior, sentindo aquilo.
E não posso fugir do que está dentro da caixa. Mesmo doloridos, são os meus segredos, e eles formam a pessoa que sou. Odiar a eles seria odiar a mim mesmo.
Assim, como não posso escapar deles, os transformo em textos. Esculpo cenários – que podem ser grandes como uma calçada ou pequenos como um planeta – e, como um deus, faço chover naquele universo o que estou sentindo desesperadamente naquele momento. Muitos textos ali, independentes do formato e tamanho, giram em torno de um único sentimento, de uma única pessoa, de uma única situação.
Mas, se sou deus para fazer chover o que quero – ou o que preciso que chova - uso e abuso do livre arbítrio. Deixo os habitantes daquelas crônicas fazerem o que quiserem com a chuva. Eles decidem, eles escolhem. Como eu disse: livre arbítrio. A maioria das crônicas ali não tinha um final planejado quando ainda estavam em seu início. Os personagens que decidiram como ela iria acabar.
Claro que eu posso estar me enganando um pouco aqui, já que quase todos estes personagens têm um pouco de mim. Não todos, mas quase. Lá dentro existem aquelas crônicas nas quais sou o personagem central e aquelas nas quais estou no canto da sala, observando. E, claro, existem crônicas em que eu não estou. O grande segredo do blog é saber onde eu estou – quem percebe isso, percebe o que sinto.
Aliás, um dos motivos da maioria dos personagens do Chronicles ser anônima é justamente esse: não mostrar onde estou. O outro, claro, é meu ego querendo que você, leitor, se sinta dentro daquilo que escrevo.
Em todo o caso, se a crônica que você leu ali não possui um final feliz, é por culpa dos personagens, não minha. Eu montei o tabuleiro e organizei as peças, mas eles que jogaram.
Se eles não tomaram as decisões corretas ao longo da crônica, insistiram em procurar por algo que não sabem ao certo o que é, brigaram pelos motivos errados ou se fizeram qualquer outra coisa que não deu certo... Bem, culpa deles, não minha. E se os personagens fizeram as mesmas coisas que eu faria, bem, pode ser apenas uma coincidência.
Contudo, não se deixe enganar. Aquele blog não é fácil – e eu não digo isso com base no que eu acho, mas sim nos comentários que recebo dos leitores. Existem crônicas que eu escrevi chorando e você leu gargalhando, e vice-versa. Porque é contraditório: nos meus dias de Chronicles, eu escancaro o que estou sentindo, mas faço isso da forma mais disfarçada do mundo.
Eu já disse antes: no Chronicles, eu escrevo, antes de tudo para mim.
Mas, claro que em alguns casos não quero falar nada, quero apenas brincar lá dentro. Brincar faz parte de mim. Sempre fez. E ali brinco de ser escritor. Imagino uma situação inusitada e crio um mundo ao redor dela, me desafio a desenvolver a idéia. Às vezes, faço por curiosidade. “O que será que aconteceria se duas pessoas se encontrassem num lugar X, fazendo tal coisa?”, me pergunto, e preciso escrever para descobrir a resposta.
Mas a grande maioria dos textos ali dentro é, sim, mais séria, o que não necessariamente significa triste (quem nunca se afogou de amor que atire a primeira pedra). Muitos vêm daquela caixa de sapatos que eu disse lá em cima.
E, assim como acontece aqui fora, comigo e com você, alguns têm finais felizes e outros não. Porém, independente do texto ter final feliz ou não, jamais conseguirei descrever o que sinto quando termino e posto.
Não importa se, no texto, o personagem conseguiu o que queria ou não – afinal, alguns ali são bem-sucedidos e outros são apenas sobreviventes. Quando eu posto, sinto aquilo que estou sentindo desafogar.
Eu não escrevo no Chronicles em busca de respostas, mas sim em busca de ar.
Existem momentos nos quais eu preciso desesperadamente abrir a caixa de sapatos e olhar dentro dela para respirar. E eu sempre respiro quando escrevo no Chronicles. O peito alivia, o nó desata e as coisas se tornam mais leves. E eu preciso disso. Eu toco a minha vida. Porque eu preciso tocar minha vida e esperar pelo dia seguinte, no qual eu posso estar novamente num dia Chronicles, ou, quem sabe, num dia Champ.
Sim, porque tem dias que sou Champ.
São aqueles dias em que quero ficar sozinho, dentro do meu quarto e com a porta fechada, mexendo nas coisas que guardo escondidas naquela caixa de sapatos branca embaixo da minha cama. Dentro dela, estão minhas dores, paixões, angústias, saudades e solidões – sim, eu tenho mais de uma solidão – e amores. Dentro dela estão os meus segredos.
Aí eu sento no chão e vou tirando as coisas da caixinha com cuidado e olhando com calma, com aquele misto de dor e leveza que a gente sente quando folheia um álbum de retratos, tentando captar o cheiro e o som de fotografias já amarelas e batidas muitos anos atrás. Mas, muitas vezes, os objetos que olho ali na minha caixa são mais bem novos que isso. Alguns, na verdade, têm somente horas de vida.
E nunca mexo nessa caixa sem motivo. Eu tranco a porta do quarto com cuidado, sem fazer barulho, e me sento no chão para mexer nessas coisas somente quando preciso, quando não tenho mais para onde ir. Ou melhor, não tenho mais para onde fugir. Só abro a caixa quando estou me afogando.
Quando encontro o que quero, retiro da caixa com cuidado e delicadeza, com medo de arranhar mais ainda. Sim, porque quase tudo ali está arranhado, quase tudo ali é muito doído. Já desabei em lágrimas, de soluçar mesmo, no meio de alguns textos que estão ali. E não chorei somente pela dor que senti enquanto mexia em tudo aquilo, mas sim pela injustiça de ter que escrever sobre aquilo – porque se estou escrevendo sobre aquilo, é porque estou vivendo, e pior, sentindo aquilo.
E não posso fugir do que está dentro da caixa. Mesmo doloridos, são os meus segredos, e eles formam a pessoa que sou. Odiar a eles seria odiar a mim mesmo.
Assim, como não posso escapar deles, os transformo em textos. Esculpo cenários – que podem ser grandes como uma calçada ou pequenos como um planeta – e, como um deus, faço chover naquele universo o que estou sentindo desesperadamente naquele momento. Muitos textos ali, independentes do formato e tamanho, giram em torno de um único sentimento, de uma única pessoa, de uma única situação.
Mas, se sou deus para fazer chover o que quero – ou o que preciso que chova - uso e abuso do livre arbítrio. Deixo os habitantes daquelas crônicas fazerem o que quiserem com a chuva. Eles decidem, eles escolhem. Como eu disse: livre arbítrio. A maioria das crônicas ali não tinha um final planejado quando ainda estavam em seu início. Os personagens que decidiram como ela iria acabar.
Claro que eu posso estar me enganando um pouco aqui, já que quase todos estes personagens têm um pouco de mim. Não todos, mas quase. Lá dentro existem aquelas crônicas nas quais sou o personagem central e aquelas nas quais estou no canto da sala, observando. E, claro, existem crônicas em que eu não estou. O grande segredo do blog é saber onde eu estou – quem percebe isso, percebe o que sinto.
Aliás, um dos motivos da maioria dos personagens do Chronicles ser anônima é justamente esse: não mostrar onde estou. O outro, claro, é meu ego querendo que você, leitor, se sinta dentro daquilo que escrevo.
Em todo o caso, se a crônica que você leu ali não possui um final feliz, é por culpa dos personagens, não minha. Eu montei o tabuleiro e organizei as peças, mas eles que jogaram.
Se eles não tomaram as decisões corretas ao longo da crônica, insistiram em procurar por algo que não sabem ao certo o que é, brigaram pelos motivos errados ou se fizeram qualquer outra coisa que não deu certo... Bem, culpa deles, não minha. E se os personagens fizeram as mesmas coisas que eu faria, bem, pode ser apenas uma coincidência.
Contudo, não se deixe enganar. Aquele blog não é fácil – e eu não digo isso com base no que eu acho, mas sim nos comentários que recebo dos leitores. Existem crônicas que eu escrevi chorando e você leu gargalhando, e vice-versa. Porque é contraditório: nos meus dias de Chronicles, eu escancaro o que estou sentindo, mas faço isso da forma mais disfarçada do mundo.
Eu já disse antes: no Chronicles, eu escrevo, antes de tudo para mim.
Mas, claro que em alguns casos não quero falar nada, quero apenas brincar lá dentro. Brincar faz parte de mim. Sempre fez. E ali brinco de ser escritor. Imagino uma situação inusitada e crio um mundo ao redor dela, me desafio a desenvolver a idéia. Às vezes, faço por curiosidade. “O que será que aconteceria se duas pessoas se encontrassem num lugar X, fazendo tal coisa?”, me pergunto, e preciso escrever para descobrir a resposta.
Mas a grande maioria dos textos ali dentro é, sim, mais séria, o que não necessariamente significa triste (quem nunca se afogou de amor que atire a primeira pedra). Muitos vêm daquela caixa de sapatos que eu disse lá em cima.
E, assim como acontece aqui fora, comigo e com você, alguns têm finais felizes e outros não. Porém, independente do texto ter final feliz ou não, jamais conseguirei descrever o que sinto quando termino e posto.
Não importa se, no texto, o personagem conseguiu o que queria ou não – afinal, alguns ali são bem-sucedidos e outros são apenas sobreviventes. Quando eu posto, sinto aquilo que estou sentindo desafogar.
Eu não escrevo no Chronicles em busca de respostas, mas sim em busca de ar.
Existem momentos nos quais eu preciso desesperadamente abrir a caixa de sapatos e olhar dentro dela para respirar. E eu sempre respiro quando escrevo no Chronicles. O peito alivia, o nó desata e as coisas se tornam mais leves. E eu preciso disso. Eu toco a minha vida. Porque eu preciso tocar minha vida e esperar pelo dia seguinte, no qual eu posso estar novamente num dia Chronicles, ou, quem sabe, num dia Champ.
Sim, porque tem dias que sou Champ.
6 de agosto de 2010
Carta Aberta ao Movimento "São Paulo para os Paulistas"
Caros:
Sou paulista. Nasci e moro em São Paulo. E, assim como vocês, sou contrário à inclusão da matéria “Cultura Nordestina” na grade escolar estadual paulista. Mas, antes que vocês me alistem em suas fileiras, deixe-me avisar que também seria contra a criação de uma matéria “Cultura Paulista” nas escolas de São Paulo, caso isso fosse proposto.
Porque a perda de tempo seria a mesma. Afinal, dada a péssima qualidade da educação pública, creio que seria extremamente mais benéfico promover melhorias no ensino como um todo, e não gastar recursos, tempo e energia com a criação de um curso com pouquíssima aplicação prática. “Cultura Nordestina” e “Cultura Paulista”, na grade escolar, teriam a mesma importância que “Cultura da Polinésia” ou “História do Basquete Húngaro”.
Contudo, fuçando aqui e aqui, descobri que este tema (a inclusão da matéria “Cultura Nordestina” na grade escolar) gerou a elaboração de uma petição online, redigida por uma Fabiana Pereira, que visa “propor formas de encarar o problema da migração”. Cabe dizer aqui que procurei o sobrenome dela pelo site inteiro do movimento e não o encontrei – mas como a primeira assinatura da petição é de uma “Fabiana Pereira”, acredito que seja a mesma pessoa.
Mas é interessante isso que vocês propõem. “O problema da migração”.
Li a petição com calma. Vocês defendem que a origem de todos, absolutamente todos os problemas de São Paulo está na presença dos nordestinos na cidade. Os altos índices de crime, a superlotação dos hospitais, o trânsito – tudo está relacionado à migração nordestina.
Ou seja, o problema não é a migração em si, mas a migração dos nordestinos. E a petição nem tenta esconder isso, ao citar, no primeiro parágrafo, que tudo isso está “relacionado à migração nordestina que a nossa terra sofreu nos últimos tempos”.
Deixe-me ver se entendi: de acordo com vocês, o problema não é alguém morar em São Paulo sem ter nascido aqui, mas sim ser nordestino e morar em São Paulo? É isso? Então, uma dúvida: se alguém nascer no Rio Grande do Sul, em Santa Catarina ou Goiás e vier morar numa favela na cidade de São Paulo, sem emprego algum, bebendo o dia inteiro e roubando, será muito bem vindo aqui?
Ah, entendi. Então o problema de vocês não é a migração, mas sim a migração de um povo específico. É a migração dos nordestinos.
Mas claro que a petição, logo de cara, já se defende das acusações de racismo e preconceito. De acordo com o texto redigido pela Fabiana, “pré-conceito é um conceito prévio sobre alguém ou um grupo de pessoas. Caracteriza-se por serem SEM MOTIVOS as impressões e declarações sobre os mesmos. Basta então olhar a veracidade das afirmações feitas. Se são verdadeiras, não existe preconceitos.”
Ok. Então vamos olhar as tais “afirmações feitas”, e ver se elas possuem alguma veracidade. As palavras nordestino(s) e nordestina(s) aparecem quinze vezes no texto. Selecionei algumas aqui:
1) “São Vicente tem desde a década de 70 a maior favela do estado (Mexico 70) composta quase que unicamente por nordestinos”.
2) “A grande maioria das confusões diárias, agressões, atendimentos hospitalares, emergências, ocorrências, brigas, deslocamentos policiais, está relacionada a pessoas de origem nordestina”.
3) "Cubatão tem 89% da população de origem nordestina."
Vocês podem me dizer onde estes dados foram coletados? Quais as fontes disso tudo? Qual a porcentagem de nordestinos entre os moradores da favela México 70? Quantos deslocamentos policiais são realizados por dia? Qual o local de nascimento destes 11% residentes de Cubatão que não nasceram no Nordeste?
Não, não podem. Vocês simplesmente não têm como provar isso.
Na verdade, acredito que a Fabiana nem se preocupou com isso. Apenas tentou escrever que “São Vicente tem desde a década de 70 a maior favela do estado (Mexico 70), e só tem baiano lá dentro” de uma forma um pouco mais erudita. E não venha dizer que não é essa a idéia, porque é exatamente isso que vocês querem passar: “A vida em São Paulo está uma bosta porque só tem baiano aqui dentro.”
As semelhanças com o nazismo, ou com qualquer outra forma de fascismo, chegam a doer de tão óbvias.
O texto se opõe à violência e deseja revisões nas leis, fazendo com que elas dêem privilégios aos paulistas (os verdadeiros donos da terra) e uma redistribuição de renda nacional, de forma que São Paulo fique com a maior parte do que produz. E, claro, a valorização da verdadeira cultura paulista.
Ou seja, nada de violência. Apenas uma revisão nas leis. Preservação da cultura. Mais nada.
Da mesma forma que o Partido Nazista, antes de promover o Holocausto, chegou ao poder na Alemanha utilizando os mesmos recursos, aproveitando a crise econômica do país para criar uma política que atacava “os inimigos do povo alemão”. Ah, e dentro da sua máquina de propaganda, estavam também eventos que promoviam a “verdadeira cultura alemã”.
Mas claro que, da forma mais previsível possível, o texto da petição deixa claro, logo de cara, que a proposta é diferente.
Aliás, deixe-me dar uma dica para vocês: quando uma pessoa já abre seu discurso insistindo no fato de não ser nazista, antes mesmo de apresentar suas idéias, é porque a probabilidade desta pessoa ser nazista é altíssima. Desculpe o baixo calão, mas é a mesma história da pessoa que grita “não fui eu quem peidei!” antes mesmo de alguém reclamar do cheiro.
Mas o meu baixo calão (novamente, me desculpe por isso) se encaixa perfeitamente neste texto. Com todo respeito, sua petição fede à merda. Tanto em forma quanto em conteúdo.
Vocês não têm como provar os fatos que apresentam. Bem, eu tenho.
No site da petição, está escrito que nos comentários “não são permitidas expressões ofensivas, racismo, nazismo, baixo calão, nomes de candidatos, ou qualquer ação ilegal.”. E existem, realmente, comentários que foram rejeitados. Ou seja, todos os comentários publicados foram aprovados pela moderação – e teoricamente, estão de acordo com o que vocês propõem e desejam.
Olhei um por um, com calma. E não vou humilhar vocês abordando os comentários do tipo “São Paulo Rules” ou “É noiz” que vi entre as assinaturas. Creio que isso seja um problema interno de vocês, provavelmente uma falha na sua racinha superior.
Entre as pérolas, estão “Paulistas ás (sic) armas”, assinado por Wesley (assinatura 344). Mais para frente, o Rogério (635) colocou o mesmo texto, apenas corrigindo a crase. Já a Márcia Augusto (557) avisa: “Saberemos que essa não será uma luta fácil (...) haverá também os futuros rótulos que a camara (sic) nos dará. Afinal, a peste está em maioria...”.
Por fim, aquele que talvez seja o mais emblemático: “Temos que criar um movimento, sem violência (mas se precisar, paulista nada teme) mas com passeatas, campanhas,defendendo os direitos de nós PAULISTAS, com o nome por exemplo de R.A.P(revolta armada paulista) ou R.P (revolta paulista) (...)”, do Nilo Marques (229).
Armas? Peste? Revolta Armada (mas, claro, sem violência)?
Ou seja, dependendo de vocês, em poucos meses o estado teria campos de concentração e os nordestinos seriam obrigados a se identificarem nas ruas usando braçadeiras, provavelmente com uma sanfona ou um chapéu de cangaceiro.
Porque, se vocês parassem de ler um pouco sobre a Revolução de 32 no Wikipedia, e se interessassem por outros assuntos, veriam que não existe nenhuma ou quase nenhuma diferença entre a forma que vocês enxergam a presença de nordestinos em São Paulo e o modo que o Partido Nazista alemão encarava a presença dos judeus em seu país.
Minto. Existe sim. Ao contrário do Partido Nazista, que conseguiu unir um povo inteiro (se para o bem ou para mal, não importa neste meu argumento), a incompetência de vocês é latente.
A petição conquistou, em meses, pouco mais de 700 assinaturas. 700 pessoas. Isso, num estado com uma população superior a 41 milhões. Só na minha rua, que nem é exatamente grande (tem quatro quadras), devem existir mais pessoas que isso.
Mesmo assim vocês não desistem. A idéia agora é organizar o Movimento Juventude Paulistana.
Aliás, um parênteses: vocês poderiam se decidir, de uma vez por todas, se vocês estão falando do estado de São Paulo ou da cidade de São Paulo? Porque a cada hora vocês se referem a um deles, e a impressão que tive é que o nome Juventude Paulista não foi usado apenas porque rima com Juventude Hitlerista.
O interessante é que a cada passo, vocês se atrapalham ainda mais. E, desculpem derrubar seu castelinho de cartas. Aliás, vocês mesmos desmentem o seu manifesto. Lá, vocês dizem que todos os problemas de São Paulo são decorrentes da migração nordestina.
Mas, infelizmente (para vocês), nenhum nordestino tem culpa no fato de vocês serem absurdamente burros.
E a burrice fica mais clara ainda, nesta entrevista de William Godoy Navarro, de 22 anos, ao portal Terra. Antes, vale ressaltar que Navarro foi escolhido pelo grupo para ser o porta-voz da iniciativa, já que ele possui um discurso “mais moderado”. Ou seja, a preocupação em não soar nazista é evidente – provavelmente, a Fabiana começaria todas suas respostas gritando “Sieg Heil” e exigiria ser chamada de Führer pela jornalista.
Mas vamos deixar de lado o caráter nazi-fascista da coisa e nos concentrarmos na boçalidade das respostas, que são de um primor poucas vezes visto.
Logo na segunda reposta, Navarro deixa claro que não apóia a petição. Vejam: ele não apóia justamente o texto que está representando. Ou seja, desta forma, creio que poderiam colocar qualquer pessoa – incluindo um nordestino – para conceder a entrevista.
A determinação de vocês em se mostrarem imbecis prossegue nas respostas de Navarro, esbanjando contradições (“existe um movimento separatista, que é o MRSP, Movimento República de São Paulo, mas a gente não faz parte. A gente apoia o MRSP, mas não apoia a ideia de separar São Paulo do Brasil") e covardia (“a Fabiana foi muito ousada, colocou palavras bastante fortes nesse manifesto. Por isso que vamos mudá-lo").
A idéia de Navarro é organizar um protesto na ponte Estaiada. “A gente vai fazer alguma coisa na ponte estaiada. Uma faixa, uma mobilização que chame a atenção dos principais veículos de comunicação de São Paulo.” Ou seja, aparentemente vocês se preocupam tanto com os nordestinos perturbando a ordem, que não encontraram tempo para pesquisarem o fato de que a colocação de faixas (seja ela por baianos, amazonenses, capixabas ou – pasmem! – até mesmo paulistas), é proibida pela prefeitura de São Paulo.
A cereja do bolo, contudo, surge quando a jornalista pergunta: “No manifesto, vocês dizem que os "migrantes não construíram São Paulo por serem alocados na construção civil. Seja desmentida tal falácia". Você acha que isso é realmente uma falácia?”.
A resposta de Navarro faz qualquer cidadão que lutou na Revolução de 32 corar de vergonha:
- Essa parte do manifesto não li.
Ponto para os nordestinos.
Então, uma última dica: antes de ficarem repetindo clichês típicos de meninos de 12 anos que ficam trancados dentro de palacetes, observando o mundo da janela sem jamais pisar nele, aprendam a pensar por conta própria. Não, isso já seria pedir demais. Aprendam ao menos a pensar, isso já seria um grande avanço.
Porque, ao invés de ficarem repetindo “Non Ducor, Duco” (para quem não sabe, é a frase escrita no brasão da cidade de São Paulo, e significa “não sou conduzido, conduzo”) a torto e a direito, lembrem-se que, caso você decida “conduzir”, é razoavelmente importante saber para onde conduzir. E vocês, aparentemente, não pararam, em momento algum, para pensar nisso.
Por fim, caso um dia vocês sejam vitoriosos, conquistem o poder, a versão do Minha Luta assinada pela Fabiana seja vendido em todas as livrarias e a matéria “Cultura Paulista” seja inserida na grade escolar, não se esqueçam de ensinarem aos seus alunos que os Bandeirantes eram, antes de tudo, bandidos que assassinavam, estupravam e escravizavam índios, além de roubarem recursos minerais – muitas vezes em regiões onde hoje estão outros estados. E que isto é uma boa (senão a maior) parte da riqueza que serviu como base para o crescimento inicial de São Paulo.
Seria a primeira informação realmente verdadeira que viria de vocês.
Passar bem.
PS – O segundo item de seu manifestozinho informa que “Proibir a livre manifestação do pensamento é pretender a proibição do pensamento e obter a unanimidade autoritária, arbitrária e irreal”. Sendo assim, obrigado por me concederem o direito a redigir esta carta.
Sou paulista. Nasci e moro em São Paulo. E, assim como vocês, sou contrário à inclusão da matéria “Cultura Nordestina” na grade escolar estadual paulista. Mas, antes que vocês me alistem em suas fileiras, deixe-me avisar que também seria contra a criação de uma matéria “Cultura Paulista” nas escolas de São Paulo, caso isso fosse proposto.
Porque a perda de tempo seria a mesma. Afinal, dada a péssima qualidade da educação pública, creio que seria extremamente mais benéfico promover melhorias no ensino como um todo, e não gastar recursos, tempo e energia com a criação de um curso com pouquíssima aplicação prática. “Cultura Nordestina” e “Cultura Paulista”, na grade escolar, teriam a mesma importância que “Cultura da Polinésia” ou “História do Basquete Húngaro”.
Contudo, fuçando aqui e aqui, descobri que este tema (a inclusão da matéria “Cultura Nordestina” na grade escolar) gerou a elaboração de uma petição online, redigida por uma Fabiana Pereira, que visa “propor formas de encarar o problema da migração”. Cabe dizer aqui que procurei o sobrenome dela pelo site inteiro do movimento e não o encontrei – mas como a primeira assinatura da petição é de uma “Fabiana Pereira”, acredito que seja a mesma pessoa.
Mas é interessante isso que vocês propõem. “O problema da migração”.
Li a petição com calma. Vocês defendem que a origem de todos, absolutamente todos os problemas de São Paulo está na presença dos nordestinos na cidade. Os altos índices de crime, a superlotação dos hospitais, o trânsito – tudo está relacionado à migração nordestina.
Ou seja, o problema não é a migração em si, mas a migração dos nordestinos. E a petição nem tenta esconder isso, ao citar, no primeiro parágrafo, que tudo isso está “relacionado à migração nordestina que a nossa terra sofreu nos últimos tempos”.
Deixe-me ver se entendi: de acordo com vocês, o problema não é alguém morar em São Paulo sem ter nascido aqui, mas sim ser nordestino e morar em São Paulo? É isso? Então, uma dúvida: se alguém nascer no Rio Grande do Sul, em Santa Catarina ou Goiás e vier morar numa favela na cidade de São Paulo, sem emprego algum, bebendo o dia inteiro e roubando, será muito bem vindo aqui?
Ah, entendi. Então o problema de vocês não é a migração, mas sim a migração de um povo específico. É a migração dos nordestinos.
Mas claro que a petição, logo de cara, já se defende das acusações de racismo e preconceito. De acordo com o texto redigido pela Fabiana, “pré-conceito é um conceito prévio sobre alguém ou um grupo de pessoas. Caracteriza-se por serem SEM MOTIVOS as impressões e declarações sobre os mesmos. Basta então olhar a veracidade das afirmações feitas. Se são verdadeiras, não existe preconceitos.”
Ok. Então vamos olhar as tais “afirmações feitas”, e ver se elas possuem alguma veracidade. As palavras nordestino(s) e nordestina(s) aparecem quinze vezes no texto. Selecionei algumas aqui:
1) “São Vicente tem desde a década de 70 a maior favela do estado (Mexico 70) composta quase que unicamente por nordestinos”.
2) “A grande maioria das confusões diárias, agressões, atendimentos hospitalares, emergências, ocorrências, brigas, deslocamentos policiais, está relacionada a pessoas de origem nordestina”.
3) "Cubatão tem 89% da população de origem nordestina."
Vocês podem me dizer onde estes dados foram coletados? Quais as fontes disso tudo? Qual a porcentagem de nordestinos entre os moradores da favela México 70? Quantos deslocamentos policiais são realizados por dia? Qual o local de nascimento destes 11% residentes de Cubatão que não nasceram no Nordeste?
Não, não podem. Vocês simplesmente não têm como provar isso.
Na verdade, acredito que a Fabiana nem se preocupou com isso. Apenas tentou escrever que “São Vicente tem desde a década de 70 a maior favela do estado (Mexico 70), e só tem baiano lá dentro” de uma forma um pouco mais erudita. E não venha dizer que não é essa a idéia, porque é exatamente isso que vocês querem passar: “A vida em São Paulo está uma bosta porque só tem baiano aqui dentro.”
As semelhanças com o nazismo, ou com qualquer outra forma de fascismo, chegam a doer de tão óbvias.
O texto se opõe à violência e deseja revisões nas leis, fazendo com que elas dêem privilégios aos paulistas (os verdadeiros donos da terra) e uma redistribuição de renda nacional, de forma que São Paulo fique com a maior parte do que produz. E, claro, a valorização da verdadeira cultura paulista.
Ou seja, nada de violência. Apenas uma revisão nas leis. Preservação da cultura. Mais nada.
Da mesma forma que o Partido Nazista, antes de promover o Holocausto, chegou ao poder na Alemanha utilizando os mesmos recursos, aproveitando a crise econômica do país para criar uma política que atacava “os inimigos do povo alemão”. Ah, e dentro da sua máquina de propaganda, estavam também eventos que promoviam a “verdadeira cultura alemã”.
Mas claro que, da forma mais previsível possível, o texto da petição deixa claro, logo de cara, que a proposta é diferente.
Aliás, deixe-me dar uma dica para vocês: quando uma pessoa já abre seu discurso insistindo no fato de não ser nazista, antes mesmo de apresentar suas idéias, é porque a probabilidade desta pessoa ser nazista é altíssima. Desculpe o baixo calão, mas é a mesma história da pessoa que grita “não fui eu quem peidei!” antes mesmo de alguém reclamar do cheiro.
Mas o meu baixo calão (novamente, me desculpe por isso) se encaixa perfeitamente neste texto. Com todo respeito, sua petição fede à merda. Tanto em forma quanto em conteúdo.
Vocês não têm como provar os fatos que apresentam. Bem, eu tenho.
No site da petição, está escrito que nos comentários “não são permitidas expressões ofensivas, racismo, nazismo, baixo calão, nomes de candidatos, ou qualquer ação ilegal.”. E existem, realmente, comentários que foram rejeitados. Ou seja, todos os comentários publicados foram aprovados pela moderação – e teoricamente, estão de acordo com o que vocês propõem e desejam.
Olhei um por um, com calma. E não vou humilhar vocês abordando os comentários do tipo “São Paulo Rules” ou “É noiz” que vi entre as assinaturas. Creio que isso seja um problema interno de vocês, provavelmente uma falha na sua racinha superior.
Entre as pérolas, estão “Paulistas ás (sic) armas”, assinado por Wesley (assinatura 344). Mais para frente, o Rogério (635) colocou o mesmo texto, apenas corrigindo a crase. Já a Márcia Augusto (557) avisa: “Saberemos que essa não será uma luta fácil (...) haverá também os futuros rótulos que a camara (sic) nos dará. Afinal, a peste está em maioria...”.
Por fim, aquele que talvez seja o mais emblemático: “Temos que criar um movimento, sem violência (mas se precisar, paulista nada teme) mas com passeatas, campanhas,defendendo os direitos de nós PAULISTAS, com o nome por exemplo de R.A.P(revolta armada paulista) ou R.P (revolta paulista) (...)”, do Nilo Marques (229).
Armas? Peste? Revolta Armada (mas, claro, sem violência)?
Ou seja, dependendo de vocês, em poucos meses o estado teria campos de concentração e os nordestinos seriam obrigados a se identificarem nas ruas usando braçadeiras, provavelmente com uma sanfona ou um chapéu de cangaceiro.
Porque, se vocês parassem de ler um pouco sobre a Revolução de 32 no Wikipedia, e se interessassem por outros assuntos, veriam que não existe nenhuma ou quase nenhuma diferença entre a forma que vocês enxergam a presença de nordestinos em São Paulo e o modo que o Partido Nazista alemão encarava a presença dos judeus em seu país.
Minto. Existe sim. Ao contrário do Partido Nazista, que conseguiu unir um povo inteiro (se para o bem ou para mal, não importa neste meu argumento), a incompetência de vocês é latente.
A petição conquistou, em meses, pouco mais de 700 assinaturas. 700 pessoas. Isso, num estado com uma população superior a 41 milhões. Só na minha rua, que nem é exatamente grande (tem quatro quadras), devem existir mais pessoas que isso.
Mesmo assim vocês não desistem. A idéia agora é organizar o Movimento Juventude Paulistana.
Aliás, um parênteses: vocês poderiam se decidir, de uma vez por todas, se vocês estão falando do estado de São Paulo ou da cidade de São Paulo? Porque a cada hora vocês se referem a um deles, e a impressão que tive é que o nome Juventude Paulista não foi usado apenas porque rima com Juventude Hitlerista.
O interessante é que a cada passo, vocês se atrapalham ainda mais. E, desculpem derrubar seu castelinho de cartas. Aliás, vocês mesmos desmentem o seu manifesto. Lá, vocês dizem que todos os problemas de São Paulo são decorrentes da migração nordestina.
Mas, infelizmente (para vocês), nenhum nordestino tem culpa no fato de vocês serem absurdamente burros.
E a burrice fica mais clara ainda, nesta entrevista de William Godoy Navarro, de 22 anos, ao portal Terra. Antes, vale ressaltar que Navarro foi escolhido pelo grupo para ser o porta-voz da iniciativa, já que ele possui um discurso “mais moderado”. Ou seja, a preocupação em não soar nazista é evidente – provavelmente, a Fabiana começaria todas suas respostas gritando “Sieg Heil” e exigiria ser chamada de Führer pela jornalista.
Mas vamos deixar de lado o caráter nazi-fascista da coisa e nos concentrarmos na boçalidade das respostas, que são de um primor poucas vezes visto.
Logo na segunda reposta, Navarro deixa claro que não apóia a petição. Vejam: ele não apóia justamente o texto que está representando. Ou seja, desta forma, creio que poderiam colocar qualquer pessoa – incluindo um nordestino – para conceder a entrevista.
A determinação de vocês em se mostrarem imbecis prossegue nas respostas de Navarro, esbanjando contradições (“existe um movimento separatista, que é o MRSP, Movimento República de São Paulo, mas a gente não faz parte. A gente apoia o MRSP, mas não apoia a ideia de separar São Paulo do Brasil") e covardia (“a Fabiana foi muito ousada, colocou palavras bastante fortes nesse manifesto. Por isso que vamos mudá-lo").
A idéia de Navarro é organizar um protesto na ponte Estaiada. “A gente vai fazer alguma coisa na ponte estaiada. Uma faixa, uma mobilização que chame a atenção dos principais veículos de comunicação de São Paulo.” Ou seja, aparentemente vocês se preocupam tanto com os nordestinos perturbando a ordem, que não encontraram tempo para pesquisarem o fato de que a colocação de faixas (seja ela por baianos, amazonenses, capixabas ou – pasmem! – até mesmo paulistas), é proibida pela prefeitura de São Paulo.
A cereja do bolo, contudo, surge quando a jornalista pergunta: “No manifesto, vocês dizem que os "migrantes não construíram São Paulo por serem alocados na construção civil. Seja desmentida tal falácia". Você acha que isso é realmente uma falácia?”.
A resposta de Navarro faz qualquer cidadão que lutou na Revolução de 32 corar de vergonha:
- Essa parte do manifesto não li.
Ponto para os nordestinos.
Então, uma última dica: antes de ficarem repetindo clichês típicos de meninos de 12 anos que ficam trancados dentro de palacetes, observando o mundo da janela sem jamais pisar nele, aprendam a pensar por conta própria. Não, isso já seria pedir demais. Aprendam ao menos a pensar, isso já seria um grande avanço.
Porque, ao invés de ficarem repetindo “Non Ducor, Duco” (para quem não sabe, é a frase escrita no brasão da cidade de São Paulo, e significa “não sou conduzido, conduzo”) a torto e a direito, lembrem-se que, caso você decida “conduzir”, é razoavelmente importante saber para onde conduzir. E vocês, aparentemente, não pararam, em momento algum, para pensar nisso.
Por fim, caso um dia vocês sejam vitoriosos, conquistem o poder, a versão do Minha Luta assinada pela Fabiana seja vendido em todas as livrarias e a matéria “Cultura Paulista” seja inserida na grade escolar, não se esqueçam de ensinarem aos seus alunos que os Bandeirantes eram, antes de tudo, bandidos que assassinavam, estupravam e escravizavam índios, além de roubarem recursos minerais – muitas vezes em regiões onde hoje estão outros estados. E que isto é uma boa (senão a maior) parte da riqueza que serviu como base para o crescimento inicial de São Paulo.
Seria a primeira informação realmente verdadeira que viria de vocês.
Passar bem.
PS – O segundo item de seu manifestozinho informa que “Proibir a livre manifestação do pensamento é pretender a proibição do pensamento e obter a unanimidade autoritária, arbitrária e irreal”. Sendo assim, obrigado por me concederem o direito a redigir esta carta.
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