29 de abril de 2009

Candidatos & Entrevistas

Esta semana foi corrida. Passei as tardes entrevistando candidatos a estágio aqui na redação. Se dependesse de mim, eu apenas receberia os currículos, escolheria uns dois ou três candidatos e marcaria as entrevistas, resolvendo tudo em apenas uma tarde – afinal, a grande vantagem de você ser o candidato a empregador é a possibilidade de jogar as entrevistas nos seus horários, e, se a pessoa não puder, azar o dela.

Infelizmente, acionamos duas empresas de estágios: uma delas apenas repassa os currículos; a outra, não apenas faz uma pré-triagem como já marca as entrevistas. Ou seja, na noite de sexta-feira eu descobri que, ao longo desta semana, eu já tinha mais de dez entrevistas marcadas. Essa semana, então, eu passei os dias resolvendo minha vida e as tardes conversando com candidatos ao emprego, estudantes de jornalismo do segundo e terceiro ano.

No começo, claro, é legal. Mas, no segundo dia, já começa a encher o saco ter que explicar de novo como é a revista, qual o tipo de pessoa que você precisa e quais funções ela terá lá dentro. Então, é inevitável que você ligue no automático – sério, nunca usei tanto as mesmas frases em tão pouco espaço de tempo como nesta semana.

Não sou especialista em RH ou em entrevistas de emprego, então, obviamente, me baseio pelo meu feeling. Passo os olhos no currículo, vejo qual faculdade estuda, quais idiomas ela fala. Mas o que importa mesmo é a postura da pessoa.

Uma menina chegou aqui, mal apertou minha mão direito, quase não abriu a boca durante a entrevista e evitava me olhar nos olhos. Ok, sou feio, mas sei que sou não repulsivo. Está fora. Outra, em compensação, fez exatamente o contrário. Mal me deixava falar, de tão preocupada que estava em mostrar que queria demais a vaga. Quase disse a ela que “o fato de você estar aqui já me mostra que você quer a vaga, não precisa forçar a barra”. Está fora também. Não vou contratar uma pessoa que fala mais que eu.

Gostei de alguns candidatos, especialmente os que fizeram perguntas. Perguntas não mostram que você não está entendendo; pelo contrário, mostram que você está acompanhando o que estou dizendo. Especialmente perguntas inteligentes.

Não precisa ser uma pergunta genial, que vá mudar o jornalismo brasileiro, mas, sim, uma pergunta válida, bem colocada. Se eu mostrar uma seção da revista e o sujeito falar “porque vocês não fazem isso de outra maneira?”, está fora; se eu mostrar uma seção da revista e a pessoa soltar um “parece legal”, está fora também. Um deles fez a pergunta mais eficiente de todas. No final da entrevista, perguntei se ele tinha alguma dúvida e ele me solta:

– Você não disse seu nome.

E não tinha dito mesmo. Merda de piloto automático.

Enfim, ainda não sei quem vou contratar. Tenho algumas pessoas em mente, mas ainda vou ler os textos deles, como próxima triagem. Mas ainda tenho três entrevistas pela frente, vamos ver.

Mas o que me chama atenção é a postura que todos eles entram aqui. Você nota claramente que eles não sabem direito o que esperar desta situação; não sabem se te chamam de senhor ou de você, ou se perguntam quando pinta uma dúvida, ou se esperam eu terminar de falar. Não sabem se vão pela formalidade ou tentam mostrar que estão se sentindo confortáveis.

Eu, obviamente, tento colocar todos à vontade, ofereço café, água, e, no começo da entrevista, solto uma piadinha leve para a pessoa relaxar um pouco – algo que deu certo na maioria das vezes.

Mesmo assim, eles entram aqui não como profissionais, mas, sim, como crianças no primeiro dia de aula. Todos eles querem muito o estágio – isso é óbvio – até mesmo para poder decolar na profissão que escolheram ou, ao menos, ver que a área escolhida foi a correta (mas vale lembrar que se trata de uma carreira que eles escolheram com 16 ou 17 anos, ou seja, sem idade ou maturidade para isso). Sendo assim, eu me interesso pelos candidatos que conversam naturalmente comigo. Claro, um pouco de nervosismo é aceitável, mas é só.

Mesmo porque nervosismo não é culpa deles.

Partindo do princípio que a faculdade pode ser considerada como um curso profissionalizante, de nada adianta ensinar apenas as bases da carreira. Teoria e história da comunicação são matérias (razoavelmente) importantes; ética, claro, é vital; fotografia e vídeo, por sua vez, são apenas divertidos caso a pessoa pretenda passar o resto da vida dentro de uma redação escrevendo matérias. E, claro, ensinar técnicas de redação é algo essencial.

Agora, custa dar dicas sobre mercado de trabalho, ao invés de tentar vender a idéia de jornalismo (ou qualquer outro curso de comunicação como arte?). É ridículo você promover palestras sobre um jornalista que cobriu a guerra do Iraque para um grupo de estudantes que não sabem como pedir um emprego – afinal, para cobrir a guerra do Iraque e entrar para a história, você precisa ter um veículo que irá publicar a matéria. E isso não se consegue sem um emprego, que, por sua vez, não se consegue fazendo uma entrevista de emprego de merda.

Então, acho que mais importante que saber a importância de Robert Capa para a história do fotojornalismo é saber como conseguir um emprego dentro da área que você escolheu. E, infelizmente, as faculdades de jornalismo, pelo que estou vendo, não cumprem esse papel, sem mostrar aos seus alunos não apenas como se comportar numa entrevista de emprego, mas também sem ensinar como montar um currículo atraente ou abordar temas como “que tipo de pessoa uma redação precisa”. Custa colocar palestras e cursos sobre isso, sem interferir com a grade normal?

Faculdade é, sim, algo muito legal de ser feito, não apenas pelos conhecimentos adquiridos, mas pelo próprio ambiente acadêmico (e não falo aí de boteco, falo de pesquisa, de inovação, de desenvolvimento de criatividade).

Mas, a faculdade é, antes de qualquer outra coisa, uma formadora de profissionais. E, pelo que estou vendo, ela não se preocupa muito com a profissionalização desse futuro profissional, mas sim com o glamour dos cursos escolhidos.

E, acreditem na opinião de alguém que está no mercado de trabalho já há alguns anos: glamour não enche barriga nem paga aluguel.

27 de abril de 2009

(Não Necessariamente) Penso, Logo Blogo

Sábado, acordei cedo por motivos profissionais e, enquanto tomava café, sentei na frente do computador para ver as notícias. Passando pelo Twitter, encontrei algumas mensagens do Buchecha (blogueiro de respeito e autor do Poisbem) que me fizeram pensar. Antes de continuar, vou reproduzir as mensagens aqui, em forma de texto mesmo:

Os “grandes blogs” brasileiros estão uma merda nos últimos meses. Não é implicância não. Esses dias resolvi visitar todos os blogs hypados do país, esses de capa de Época e blá blá blá. Estão todos uma merda. E o que pior é que são blogs que gosto, que costumava visitar diariamente. Agora, parece que quanto mais destaque ganham, piores ficam. Tipo, saturei de quase todos eles falarem a mesma besteira sobre Susan Boyle. Nada contra a dita cuja, mas, pô, falar a MESMA coisa?

O Buchecha não poderia estar mais correto. Não é de hoje que os blogs – especialmente os brasileiros – caíram numa mesmice insuportável. Vale ressaltar que estou falando de blogs de verdade, e não de páginas cujo endereço contém, acidentalmente, palavras como blogspot e wordpress.

Aliás, outro dia alguém falou, no próprio Twitter, que se tirássemos tudo o que é inútil da Internet, o que sobraria (leia-se: o que vale a pena ser lido e visitado) caberia num DVD-R. Eu vou além e digo que se tirássemos tudo o que não presta da blogosfera brasileira, o que sobraria seria insuficiente para encher um CD.

É engraçado isso. A grande mídia, de uns tempos para cá, assumiu que morre de inveja (e de medo) dos blogs, pelo fato de eles serem muito mais ágeis e – teoricamente – totalmente descompromissados comercialmente, o que lhes garante opiniões muito mais corajosas. Some isso ao fato de que os grandes portais da internet dedicam boa parte de seus espaços a notícias desimportantes – o que não é culpa deles, já que as fotos da Carolina Dieckmann na praia deve render mais acessos que o câncer da Dilma Rousseff – os blogs realmente tinham tudo para se tornar a tal da grande revolução que se anuncia desde que a internet foi popularizada.

Infelizmente, isto caminha para ser um tiro na água.

Os blogs – e falo aqui dos blogs brasileiros – ao invés de ditarem o ritmo da internet (algo que poderiam fazer facilmente), preferem se espelhar nos grandes portais. Assim, elegem um assunto (normalmente desimportante, desinteressante e sem graça) como bola da vez e pronto: o tema começa a se espalhar pela internet como um vírus, fazendo com que os blogs se tornem cada vez mais semelhantes entre si, o que, obviamente, faz com que a blogosfera seja nivelada cada vez mais por baixo.

O exemplo citado pelo Buchecha é a Susan Boyle. Os blogueiros sabem que, durante os últimos dias, o nome Susan Boyle foi digitado incessantemente no Google pelas pessoas que apenas ouviram falar dela e queriam saber do que se trata. Assim, começam a falar sobre a mulher em suas páginas para tentar se sobressair no mar de blogs que tiveram a mesma idéia. O problema é que ela já está no Terra, no Uol, e em milhares de outros blogs.

O pensamento do sujeito, certamente, é: “se um paraquedista cair aqui no blog por causa da Susan Boyle, eu ganho um acesso; se o cara gostar do meu blog, ele voltará e vou ganhar um leitor assíduo”. O problema é que o cara não vai voltar, porque o seu blog tem um material exatamente igual a centenas de outros blogs que tiveram a mesma idéia.

Agora, o interessante é a escolha do tema Susan Boyle. O tema (gordinha loser conquista as pessoas graças ao seu talento num show de calouros) é bonitinho, agradável, mas, num mundo com coisas interessantes seria assunto para duas ou três linhas, no máximo. Chama a atenção é a forma com que o assunto surgiu para o mundo: Youtube. Ou seja, sem capacidade de “criar o assunto do momento” os blogueiros acostumaram-se a, preguiçosamente, caçar temas e idéias na própria internet. E isso, hoje, é uma regra.

Com isso, os blogs, que poderiam ser um meio de informação totalmente revolucionário, estão se transformando numa espécie de índice da internet. Quase um Video Show. Enquanto o Vídeo Show é um programa feito pela Rede Globo para a Rede Globo, os blogs, hoje em dia, são páginas feitas na Internet para a Internet, preocupando-se apenas em mostrar curiosidades e fazer piadas (normalmente, sem graça), sobre a própria internet.

A lei que impera hoje é: “se não tenho o que dizer, vou acessar o Terra, o Uol, o Youtube ou outros blogs, e me pautar por ali.” Num mundo perfeito, a máxima seria: “se não tenho o que dizer, vou ficar quieto”. Mas é compreensível que isso não seja aplicado, já que um blog que fica quieto é um blog que desaparece.

Sendo assim, o correto seria se perguntar “Tenho algo interessante a dizer sobre este assunto?” E, se a resposta for “não”, procure-se outro tema.

Resta saber se o problema é a falta de criatividade das pessoas que postam nos grandes blogs brasileiros, como o Buchecha falou (será que a fama realmente diminui a sede das pessoas em produzir algo de qualidade, fazendo-as ligarem o piloto automático?), ou se o mundo se tornou um lugar tão desinteressante.

Eu, particularmente, fico com a primeira opção, já que assunto é o que não falta: além do câncer da Dilma Rousseff, temos aí Gilmar Mendes, gripe suína. “Ah, mas isso é política, cenário internacional, acho chato escrever sobre isso”.

Então não escreva sobre isso. Escreva sobre outros assuntos. Mas escreva sobre assuntos que você tem algo de importante / interessante / engraçado / relevante / original a dizer. O próprio Buchecha afirmou, em mensagens posteriores, que a Mary abordou o tema de forma original. Ou seja, é possível fazer isso.

Eu também não escrevo sobre política ou economia. Não é – e nunca foi – minha praia. Aliás, alguns dos meus últimos posts abordam assuntos totalmente irrelevantes, como mendigos, o caos da Teodoro Sampaio e o show do Kiss. São temas que interessam a todas as pessoas? Óbvio que não. Mas são temas que eu tenho algo a dizer.

Assim, enquanto escrevo, tento fazer com que eles sejam interessantes, ao menos como forma de lazer para quem lê – o que sempre foi a proposta deste blog – já que eu perdi qualquer pretensão de mudar o mundo há mais de uma década. E, quando eu recebo um comentário de alguém dizendo que deu uma gargalhada no meio do trabalho lendo meu texto, sei que atingi meu objetivo. Ah, e se você pretende atingir o mesmo objetivo, deixo aqui uma dica: ninguém dá uma gargalhada depois de ver a mesma piada sobre o mesmo assunto em páginas diferentes.

Se você quiser se espelhar nos blogs de sucesso, faça isso da forma correta. Ao invés de se pautar por eles, tenha em mente o fato de que um dos motivos deles fazerem sucesso hoje é que, seus autores, em algum momento, criaram seus próprios assuntos (ou abordaram assuntos já vistos em outros blogs, mas de forma original).

E, se eles pararam de fazer isso hoje, como o Buchecha apontou, é hora de você deixar de ser preguiçoso e caçar seus próprios assuntos.

Está sem idéias para escrever? Vá às ruas. Os assuntos estão lá.

Os blogs têm, sim, poder para derrubar um ministro, para vetar uma lei, para mudar o mundo. Da mesma forma que têm a capacidade de gerar discussões interessantes, ou mesmo fazer uma pessoa dar uma gargalhada e melhorar o dia dela.

Infelizmente, a grande maioria não sabe disso e prefere ficar lutando para ter mais acessos que o vizinho, contando as mesmas piadas (sem graça) sobre a Susan Boyle da semana.

É uma pena. Vamos apenas torcer para que, um dia, as exceções a esta regra tornem-se a grande maioria. Acho difícil, mas, vamos torcer.

23 de abril de 2009

Dá um Real Aí?

Provavelmente, este post vai me render um lugar na lista das dez pessoas mais mal-humoradas do planeta – e talvez eu seja mesmo – mas tem um assunto que anda me irritando profundamente: mendigos.

Sim, sim, eu sei que o mundo é um lugar cruel, e que seria mais justo se todos tivessem as mesmas oportunidades – ou que, no Brasil, o tal do programa Fome Zero funcionasse. E em momento algum deixo esse pensamento de lado, tanto que não é difícil eu dar um real quando me pedem na rua.

Afinal, um real não é um dinheiro que irá me fazer falta, e, quem sabe, pode realmente ajudar um pouco aquela pessoa. Sim, sim, eu sei que o certo (especialmente no caso das crianças), é oferecer estudo e não dinheiro, mas acho que seria interessante para o metabolismo daquele garoto se ela conseguisse comer algo até que o governo consiga colocá-la numa escola.

E se ele realmente vai ter que dar o dinheiro para algum adulto, eu tenho consciência de que o menino iria apanhar do sujeito de qualquer jeito – então, parto do princípio que, se ele estiver com um pouco de dinheiro nas mãos, talvez apanhe um pouco menos.

Já quanto a instituições de caridade, faço meu papel de cidadão também, e faço doações pelo menos três vezes por ano.

O que estou tentando dizer é que não ando pela rua como uma Maria Antonieta, disparando pérolas como “se não têm pão, que comam brioches!”. Tenho consciência de que tenho mais que muita gente, e que um pouco não vai me fazer falta.

Mas nada me irrita mais que mendigo folgado. E isso é algo existe aos montes, especialmente nas ruas de São Paulo – mas acredito que o mesmo vale para qualquer cidade do mundo. Talvez o sujeito acredite que você tem obrigação de ajudá-lo simplesmente porque a vida foi injusta com ele e não com você (pelo menos, aos olhos dele), ou ele realmente assume o papel de excluído da sociedade e resolve agir pelas próprias regras, mandando tudo à merda.

Ou, o mais provável mesmo, é que ele simplesmente seja folgado.

Uma vez, anos atrás, eu ainda morava com meus pais em Moema, e, ao lado de um McDonald’s, um moleque de uns quinze anos veio me pedir esmola:

– Me dá cinco reais?

– Quanto?

– Cinco reais.

Olhei para ele. Estava com uma camiseta furada e uma bermuda velha. Mas, nos pés, um par de tênis melhor que o meu.

– Cinco reais?

– É. Me dá?

– O padrão não é pedir um real?

– É que eu quero comer McDonald’s.

Pensei em perguntar a ele o que os outros mendigos achavam a respeito do fato de ele estar inflacionando o mercado desse jeito, mas mudei de idéia. Não valia a pena.

– Não. Se quiser, eu dou um real.

– Mas um real não dá para comprar o McDonald’s.

Segurei o “vai tomar no cu você, os cinco reais e o McDonald’s” na garganta e o deixei falando sozinho.

Claro que existem mendigos que vem pedir esmola porque precisam de ajuda e, claramente, estão incomodados com a situação. Você vê que o cara não gosta daquilo, mas não teve escolha. Mas os folgados não apenas existem, como estão se multiplicando.

Outra vez, coisa de dois anos atrás, eu estava esperando um ônibus no centro de São Paulo, com um cigarro na mão. Uma menina de quase vinte anos veio até a mim, e disse, simplesmente:

– Eu quero fumar.

Se ela tivesse me pedido um cigarro, eu teria dado – nunca recusei um cigarro na rua. Mas a frase dela, e o modo como ela pediu (na verdade, não foi um pedido, foi uma declaração), me invocou. Apontei para a banca de jornal mais próxima e disse:

– Ali vende cigarros.

– Mas eu não tenho dinheiro.

– E...?

Vale dizer aqui, para quem não me conhece pessoalmente, que o meu “e...?” é uma das coisas mais irritantes do mundo, especialmente quando estou inspirado e o pronuncio no tom correto, que fica entre “o que eu tenho a ver com isso?” e “você está me entediando”.

– E eu quero fumar.

Dei uma longa e demorada tragada no cigarro, olhando para ela.

– Você quer que eu lhe dê um cigarro? É isso?, perguntei, soprando a fumaça na cara dela.

– É. Ou então uma tragada desse aí que você está fumando.

Será que os mendigos que pedem “uma tragada do cigarro”, “um gole da Coca” ou “um pedaço do chocolate” realmente vêm alguma chance de sucesso nisso?

– Isso não vai acontecer. E não é nem negociável. Você quer um cigarro ou não?

– Quero.

– Então, me peça. Basta pedir que eu dou.

Ela pareceu considerar as hipóteses, procurando alguma armadilha na minha frase, mas, rapidamente, viu que não tinha muito a perder. Na verdade, ela deve ter desistido de pensar quando eu dei outra tragada (bem demorada) no cigarro.

– Você me dá um cigarro?

Puxei o maço de cigarros do bolso e entreguei um a ela.

– Claro.

Ela pegou o cigarro, acendeu e para a minha surpresa, agradeceu. Ou seja, (ao menos, naquele momento) se tocou de que educação, normalmente, é o melhor caminho mesmo.

Mas nada – NADA – bate a esquina da Henrique Schaumann com a Teodoro Sampaio. Ali, existe um foco de mendigos, que dividem seu tempo em a) convencer algum dos motoristas a deixá-los emporcalhar o vidro do carro com aquele pano imundo; b) pedir esmola a todos os clientes do Habib’s ali da esquina; c) praticar sexo e, assim, gerar novos mendigos.

E, naquela esquina, todos eles são absurdamente folgados. Basta eu sair de lá com uma caixinha do Habib’s nas mãos, e eles me cercam como se eu fosse um caminhão da Cruz Vermelha em alguma missão especial na África.

Outro dia, eu estava descendo por ali com uma garrafa de 600 ml de Fanta (sim, às vezes eu tenho fases de beber outro refrigerante que não Coca) e, um deles, que lembrava o Marcelo D2, ao me ver com a garrafa nas mãos, veio correndo na minha direção:

– Dá um gole dessa Fanta aí?

– Óbvio que não, respondi imediatamente.

– Não é para mim, é para uma menina ali que está louca para tomar Fanta, ele respondeu, apontando para uma concentração de mendigos deitados na calçada.

– Ela quer Fanta?

– É.

– Então, se eu estivesse com uma garrafa de Coca na mão, você não teria vindo falar comigo?

– Ela está grávida, cara.

– Isso não responde a minha pergunta.

– É só um gole, eu já trago de volta.

– Não. Sinto muito.

– Mas ela está grávida!

– Parabéns para ela e para o pai. Até logo.

– Sacanagem! É só um gole.

– Passar bem.

Continuei andando, certo de que levaria uma pedrada na cabeça, mas nada aconteceu. Talvez ele não esperasse encontrar alguém mais folgado que ele, ou – o que é mais provável – talvez ele não esperasse encontrar alguém com 1.60m mais folgado que ele.

Mas, sempre que eu passo ali, eles vêm me pedir algo, com aquele tom de “ajuda aí, babaca”. Por isso que eu vou imprimir uma série de cartões com as instituições de caridade que eu ajudo. Se vier me pedir na boa, eu dou um real; se vier esculachando, vai ganhar de volta um cartão com o endereço da entidade, e a frase:

“Minha ajuda está neste endereço abaixo. Vá buscar, se quiser”.

E que seja folgado com as pessoas da instituição, não comigo.

(Update: enquanto eu reviso o post antes de publicá-lo, acabou de me ocorrer que, ao invés de colocar o endereço da instituição no cartão, eu posso colocar o endereço de uma delegacia.)

Update 2: Atendendo a pedidos, segue o Top 5 frases mais folgadas que os mendigos falam:

1. "Gdkjdd dkasu djaksdj REAL podoas"
(você PRESUME que seja "me dá um real, mas entende apenas a palavra "real" - quem me conhece pessoalmente já deve ter visto eu imitando isso, aprendi com um amigo de faculdade)

2. "..." (É aquele mendigo que não fala nada, consegue ser folgado em silêncio: fica olhando com cara de miséria pra sua coxinha, até você se constranger e dar para ele)

3. "Dá um gole / teco / pedaço?" (ele realmente espera que eu vá beber da mesma latinha depois?)

4. "Deixa eu fumar?" (como se fosse você quem tivesse proibido ele de fazer isso)

5. "Me dá cinco reais?" (ok, só foi dita uma vez, mas tem que entrar aqui, é folgada demais. Porra, o cara quer comprar um pão ou abrir uma poupança no banco?)

17 de abril de 2009

Show do Milhão

Então, é oficial: Ashton Kutcher é a primeira pessoa a ter um milhão de seguidores no Twitter. Como a maioria das pessoas está sabendo, o Sr. Demi Moore desafiou a CNN a ser o primeiro atingir esta meta e ultrapassou a rede de notícias, tornando-se “o número 1 do Twitter”, como alguns portais vêm se referindo ao ator.

Ele comemorou o fato postando um vídeo, na internet, no qual aparece estourando um champanhe ao lado da esposa e de alguns amigos. Não vi o vídeo, mas li uma declaração dele, apontando que isto “significa que uma só pessoa pode ter uma voz tão poderosa como a de um meio de comunicação”.

Não discuto isso. Realmente, uma pessoa ter mais seguidores que a CNN é um feito, mas discuto o fato de Ashton Kutcher de ser “uma só pessoa”. O sujeito come a Demi Moore, tem um programa de televisão e já estrelou diversos filmes de sucesso (se são bons ou não, é outra história). Ou seja, ele é praticamente uma CNN, mas ao invés de ter CNPJ, tem CPF.

Ou alguém vai tentar me convencer aqui que todos os followers do cara decidiram segui-lo porque ele posta coisas interessantes / divertidas / inteligentes? Pode até ser que ele faça isso, – sinceramente, não me interesso muito pelo o que o Ashton Kutcher tem a dizer –, mas aposto (e ganho) que boa parte dos seus seguidores (e quando digo boa parte, é boa parte mesmo) estão ali apenas para poder dizer “eu sigo o Ashton Kutcher”.

Então, Ashton, sua iniciativa é legal e tal, mas não me convence. Se você não fosse uma celebridade, isso sim iria mostrar que “uma só pessoa pode ter uma voz tão poderosa como a de um meio de comunicação”. No seu caso, não vale: você é café-com-leite.

Enquanto Ashton Kutcher arregimentava followers no Twitter graças aos seus “talentos literários”, outra discussão crescia no Twitter: a importância do número de seguidores. Aparentemente, seguidores do Twitter se tornaram uma espécie de cartão de crédito internacional: se você possui, você é feliz, realizado e bem-sucedido. Se você não possui, você é um merda, um Zé-Ruela que não deveria nem sair de casa, seu pulha.

Eu uso o Twitter (meu perfil está aqui), e confesso que estou viciado no negócio. Alguns blogueiros mais próximos sabem que, no início, eu resistia a usá-lo, com medo de esvaziar o Champ. Meu medo era totalmente explicável, já que muitos dos meus posts nascem a partir de uma frase ou de uma piada – eu apenas a faço ganhar corpo, dou um começo e um fim a ela (mas, se um dia vierem me perguntar, eu nunca disse isso a vocês). Entretanto, com o tempo, vi que eu estava errado: o Twitter e o meu blog se completam.

Estou, sim, viciado no Twitter. O que é diferente de estar viciado em “ter cada vez mais followers”. Gosto de ler o que meus amigos escrevem, gosto de pegar opinião dos leitores do blog, mas não acordo todos os dias e vou correndo para o computador ver se o meu número de followers aumentou. Enquanto escrevo isso, tenho 103 followers e não pretendo usar scripts ou fazer um marketing agressivo para colecionar mais e mais followers no meu perfil.

Claro que deve fazer bem para o ego ter milhares de seguidores, mas algumas pessoas parecem acreditar que apenas isso, hoje em dia, define se você é interessante ou não. De repente, começou a corrida para ver quem tem mais pessoas lendo o que você escreve. É a mesma coisa que acontecia com os blogs – e que sempre reclamei aqui – do marketing barato feito pelas pessoas que querem se tornar o novo Kibe Loco, e que estão mais preocupados com números que com qualidade.

Hoje em dia, followers no Twitter são a moeda corrente da net. Agora, o talento de uma pessoa pode ser medido por isso?

Até onde sei, Jesus Cristo tinha followers. No início, deveriam ser 12; mas tenho certeza de que quando o número se seguidores começou a aumentar, Judas Iscariotes, sabendo que ninguém iria reparar, deu um unfollow Nele. Mas, até aí, o Charles Manson também tinha (e ainda tem) seguidores, da mesma forma que Hitler.

Então, fico com a opinião de que não importa o número de followers (ou leitores, no caso de blogueiros) que você tem, mas sim o que você faz a respeito disso. E, se você tem toneladas de followers e a única coisa que faz a respeito é tentar conseguir ainda mais seguidores , bem, é sinal de que você tem toneladas de seguidores e não faz absolutamente nada de útil a respeito disso.

A questão do script, que gerou enormes debates ultimamente, é mais estranha ainda: a pessoa praticamente “rouba” os followers de outras. Ou seja, virou uma espécie de punheta. O sujeito tem 19 mil followers e se sente o máximo por causa disso, mas, quando abre os olhos, sabe que ele tem mesmo uns 300 followers e que aqueles 19 mil eram uma fantasiazinha na mente simplista dele. Que vidinha besta.

E, assim, a coisa vai de vento em popa, com duas correntes divididas: pessoas que usam o Twitter e pessoas que gostam de mostrar que usam o Twitter. Exatamente da mesma forma que acontece com os blogs já há alguns anos. Ou seja, o que poderia ser um negócio extremamente legal (trocar mensagens com dezenas de pessoas ao mesmo tempo), vira uma vitrine para os virgens de plantão conquistarem um simulacro de glória em suas vidas.

E, aí, as pessoas resolvem crucificar o Marcelo Tas porque ele, aproveitando que tem enorme número de seguidores (conquistados nos mesmos moldes do Ashton Kutcher – ou seja, em outras mídias) resolve ganhar dinheiro com isso. Hipocrisia? Talvez. Inveja? Provavelmente. Eu, no lugar dele, faria a mesma coisa, já que obviamente isso não fere a integridade profissional do cara e poderia pagar uma pizza com a Sra. Gordon no final do mês.

É como eu digo: a humanidade não deu certo, e a internet é a prova cabal disso. Em outras palavras, muda-se a merda, mas as moscas, ou melhor, as @moscas, são as mesmas.

15 de abril de 2009

O Declínio da Civilização Ocidental

Desde que me mudei para Pinheiros, eu simplesmente não consigo fugir da Teodoro Sampaio. Tudo bem que eu moro a 15 metros dela, mas o meu relacionamento com a rua chega a ser ridículo. Não importa para onde eu vou, ela está no caminho. Padaria? Teodoro Sampaio. Pão de Açúcar? Teodoro Sampaio. Banca de jornal? Teodoro Sampaio.

Às vezes, tenho a impressão que só para ir do meu quarto ao banheiro, vou ter que andar pelo menos uma quadra da Teodoro Sampaio. Eu não consigo mais escapar das garras desta rua.

Isso, claro, não seria um problema muito grande, exceto pelo fato de que a rua é uma anomalia geopolítica. Se o Brasil pertence ao Terceiro Mundo, a Teodoro Sampaio está no Quinto ou Sexto Mundo. E isso nos seus melhores dias. Quando está chovendo, ela deve cair para Nono ou Décimo, quase empatando com a Praça da República (o Largo da Batata, que, por sinal, fica no final da Teodoro Sampaio, já é um caso a parte, se caracterizando como uma tragédia antropológica).

Fisicamente, porém, a Teodoro Sampaio é uma rua como outra qualquer, com exceção das trinta lojas de móveis amontoadas em duas quadras (e que espantosamente abrem de madrugada, como se alguém saísse de casa às 3 da manhã para comprar um sofá).

Mas basta você colocar os pés ali para ver que a rua não é exatamente normal.

Em primeiro lugar, os carros não andam. Não importa em qual horário ou dia você passe por ali, o trânsito está parado. Veja bem, não está lento. Está parado. Velocidade média: zero. Já cheguei ao cúmulo de ir até a padaria, ficar uns dez minutos lá dentro e observar, na volta, que os mesmos carros nas duas pistas continuavam no mesmo lugar. Desconfio que algumas pessoas estão ali há meses, sem conseguir sair do lugar. Os motoristas já devem até ter feito amizade com as pessoas dos carros mais próximos. Com o tempo, esses relacionamentos vão se expandir e, logo, aquilo vai se tornar uma comunidade com governo e leis próprios, quase um quilombo automotivo.

Mas, enquanto na rua está nascendo a República dos Veículos Unidos da Teodoro Sampaio, as calçadas ainda não atingiram o mesmo estágio de desenvolvimento. Lá, as leis da selva ainda imperam, especialmente devido a os camelôs, que ocupam metade do espaço das calçadas, deixando apenas uma área de mais ou menos 40cm para todos demais os bípedes (humanos ou não) que povoam aquele estranho ecossistema.


Transeuntes da Teodoro Sampaio analisam
as ofertas na vitrine das Casas Bahia


Aliás, estranho é a palavra-chave aqui. Se o dicionário fosse ilustrado, os verbetes “estranho”, “bizarro” e “inferno” teriam uma foto da Teodoro Sampaio. Todas as coisas estranhas de São Paulo estão em Pinheiros. Todas as coisas estranhas de Pinheiros estão na Teodoro Sampaio. E todas as coisas estranhas da Teodoro Sampaio estão sempre dois metros à minha frente.

E aí, sem contar os camelôs, diversas criaturas apertam-se no espaço que sobra: casais que insistem em andar de mãos dadas na calçada estreita; office-boys que caminham pela rua girando um envelope no dedo (sim, isso ainda existe) e se recusam a desviar das outras pessoas; mendigos que param sem aviso prévio para ver se a bituca de cigarro do chão é aproveitável; a velha-com-sacola (em toda a minha vida, não importa para onde estou indo, sempre uma velha-com-sacola esteve no meu caminho – e nunca é sacola com um novelo de lã, mas sempre uma sacola com uma geladeira, um pneu de trator ou um leopardo que tenta morder quem passa ao lado dela).

E, claro, não podemos deixar de fora a espécie dominante da Teodoro Sampaio: os Homens-Cães. Você conhece o tipo: são aquelas pessoas que possuem o mesmo sentido de direção de um cachorro e que não sabem se comportar sem coleira. Ele anda cinco metros. Pára. Anda outros dois metros para o lado. Pára. Volta correndo 3 metros. Pára. Vai até uma vitrine e fica cheirando alguma coisa. Anda mais 2 metros. Pára. Fica olhando ao redor, sai correndo para o lado. E você ali, atrás dele, tentando adivinhar em que direção ele irá andar e se contorcendo feito um idiota para não encoxá-lo na próxima vez que ele estacionar.


Teodoro Sampaio numa manhã chuvosa.
Eu sou a quarta touca à esquerda, na oitava coluna.

E, claro, tem eu. Especialmente por volta das 10 da manhã, quando ando cinco quadras até chegar ao trabalho. E a coisa ficou pior ainda quando decidiram levar adiante o projeto de reurbanizar o lugar. Eu nunca entendi direito isso: se o local vai ser REurbanizado, parto do princípio que ele já era urbanizado. E os conceitos “Teodoro Sampaio” e “Urbano” não poderiam ser mais opostos.

Enfim, ano passado resolveram trocar todas as calçadas – o que me obrigava a andar pelo meio da rua, desviando de ônibus, pulando por cima de carros e arrumando confusão com motoboys. Esse inferno durou meses. Agora, a emenda ficou pior que o soneto: as calçadas novas são feitas de pedras, e, como 90% delas não foram bem colocadas, já estão soltas. Ou seja, ao pisar em uma delas, a chance de você perder o equilíbrio e cair em cima de um camelô é enorme – claro que no meu caso, eu cairia em cima de um policial e não de um camelô.

Assim, eu não preciso mais do Wii Fit: eu vou trabalhar todo dia pulando entre as pedras que ainda estão presas (sim, eu decorei em quais pedras posso pisar). Imagine a cena: eu, baixinho, barbado e gordinho, pulo em uma pedra; paro, tomo impulso, pulo na cabeça de um camelô e de lá para outra pedra. E assim, vou de pulo em pulo, até o trabalho. Mais Super Mario impossível.

Claro que vocês podem estar pensando – como já me perguntaram – porque, então, eu não desço a Cardeal Arcoverde para chegar ao trabalho. O motivo é simples: eu tenho certeza de que, daqui a algumas décadas, a Teodoro Sampaio vai ser citada nos livros de história como a pedra fundamental da queda da civilização.

Num cenário pós-apocalipse, o planeta inteiro será uma espécie de reflexo da Teodoro Sampaio (para ter uma idéia, imagine a Los Angeles de Blade Runner sem a chuva ácida mas mantendo os camelôs), com pessoas se aglomerando, gangues de motoqueiros aterrorizando os transeuntes, camelôs vendendo objetos absolutamente imprestáveis. E, claro, uma velha com sacola.

E eu vou poder contar para os meus netos: “eu estive lá. E era pior do que o seu livro de história mostra”.

12 de abril de 2009

Cane al Funghi - Parte Final

(a parte I você lê aqui)

Olhei para ele. Ele olhou de volta para mim. Fui até a lavanderia, enchi um balde de água e levei para a varanda. Voltei para a lavanderia, peguei uma toalha velha e levei para a varanda. Ele continuou olhando para mim. Voltei para sala e peguei o frasco de xampu. Ele literalmente se teleportou para baixo da mesa.

Tentei chamá-lo, mas ele fez tanta menção de se mover quanto uma pedra.

– Eu não gosto disso tanto quanto você, eu disse, tentando ganhar a simpatia dele. Pense nisso como uma cirurgia. Não é gostoso, mas é necessário, continuei, torcendo para ele não usar este argumento e exigir uma anestesia geral antes do banho.

Ele continuou imóvel. Tentei a estratégia do xaveco. Amansei a voz.

– Se tornar as coisas mais fáceis para você, eu posso servir algumas taças de vinho, colocar um CD do Sinatra. Nós podemos dançar um pouco aqui na sala e deixar as coisas acontecerem naturalmente.

Ele deu um passo para trás, mais assustado ainda – o que me deixou particularmente orgulhoso. Mas eu tinha uma missão a cumprir. Afastei as cadeiras e, colocando metade do meu corpo sob a mesa, coloquei as cartas na mesa.

- É o seguinte. Nós vamos fazer isso do modo fácil ou do modo difícil. Você escolhe.

Ele saiu correndo pelo meu lado na direção do quarto, estabelecendo novos recordes de velocidade – e quase derrubando uma cadeira no caminho – mostrando que seria do modo mais difícil. Retroceder nunca, render-se jamais e fugir sempre que possível. Esse é o meu cachorro.

Felizmente, a porta do meu quarto está sempre fechada. Fui atrás dele aos berros de “vem cá, filho da puta” e o encontrei encurralado num canto, com uma meia minha na boca e um olhar de “jogue esse xampu fora, ou a meia sofre as conseqüências e eu não estou blefando”.

Estreitei os olhos, e ele também. A tensão no ar era quase palpável.

Ficamos nos encarando – ele, com apenas um olho, porque a franja dele estava naqueles dias rebeldes. O silêncio reinava no apartamento, sendo cortado apenas pelo barulho do vento. Posso jurar que ouvi o tema de Três Homens em Conflito tocando em algum lugar do meu cérebro. Dei um passo na direção dele e ele, percebendo que manter a meia como refém não seria garantia de sobrevivência, tentou correr para baixo da pia do lavabo. Fui mais rápido e o agarrei com uma das mãos.

Demonstrando uma maturidade incrível para um cachorro de três anos, ele começou a espernear – ou tentar derrubar o frasco de xampu das minhas mãos, já que na situação que ele estava, qualquer um dos dois seria lucro. Entretanto, como ele é um dos poucos organismos menores que eu existentes na natureza, consegui imobilizá-lo facilmente e manter o xampu em segurança.

Fomos até a varanda e fechei a porta. Ele se encolheu num canto. A coisa não ia ser fácil. Tirei a camisa e, só de shorts, exibi para a vizinhança meu corpão definido*.

Aí, começou a luta.

Ajoelhei no chão e, ao mesmo tempo em que o imobilizei (jiu jitsu mode: on), virei seu corpo de barriga para cima, segurando suas patas traseiras. Enfiei a mão no balde e comecei a molhar sua barriga e pata, reservando um polegar para abrir o xampu. Obviamente, não consegui, pois nunca fui reconhecido internacionalmente pela minha coordenação motora e tiver que largar suas patas, dando chance para ele escapar e tentar arrombar a porta da varanda.

Com o xampu aberto, capturei-o novamente e, novamente numa posição próxima a papai-cachorro, comecei a esfregar as suas patas, a sua barriga e o seu deixa para lá. Enquanto fazia o serviço sujo, olhei para a frente e vi, num prédio bem em frente ao meu, um velho fumando na varanda e visivelmente interessado no que estava acontecendo ali.

Obviamente, ele achou que éramos da mesma espécie, já que somos ambos gordos, baixinhos e brancos, e resolveu praticar o vouyerismo. Pensei em gritar algo sobre “é o meu cachorro, ele está com fungos!”, mas isso só atrapalharia ainda mais a interpretação dos fatos aos olhos do velho (ele poderia começar a se questionar se eu estava usando algum tipo de proteção, etc), então achei melhor deixar quieto e continuar o que estava fazendo.

Voltei a enxaguá-lo – o que permitiu que ele aproveitasse e derrubasse o frasco de xampu, no melhor estilo “morro, mas levo alguém comigo” – e, finalmente, chegou a hora de secá-lo. Coloquei-o de pé e comecei a esfregar a toalha nele, por alguns minutos.

Olhando para a rua – e certamente um pouco mais aliviado – avistou o velho na outra varanda e ainda deu uns dois latidos para ele, para deixar claro que não gostava nada de saber que sua privacidade estava sendo invadida desse jeito. Esse é o meu cachorro.

Abri a porta da varanda e ele entrou correndo na sala. Achei que ele queria apenas manter a maior distancia possível do xampu, mas me enganei. Subiu no sofá, exatamente no lugar onde eu sempre me sento, deu uma chacoalhada de mais ou menos 3 pontos na escala Richter, tornando o sofá inutilizável por algumas horas. Deu um sorriso com o canto da boca e refugiou-se novamente sob a mesa.

Duas semanas disso. Haja afrodisíaco.

E, antes do próximo banho chegar, deixo você com o Top 5 Coisas que o Velho Deve ter Achado que Sou:

1. Ruim de cama – afinal, fiquei o ato inteiro na mesma posição.
2. Exibicionista – afinal, estou na varanda.
3. Zoófilo – afinal, é um cachorro.
4. Gay – afinal, é um cachorro macho.
5. Pedófilo – afinal, é um cachorro; a probabilidade de ter menos de 10 anos é enorme.

8 de abril de 2009

Loud! I Wanna Hear it Loud!

Há 26 anos, eu entrei numa loja de discos ao lado de casa ao lado da minha mãe e pedi ao vendedor:

– Eu quero o disco do Kiss que tem aquela música “ô ô ô yeah!”, fazendo referência à introdução de I Love it Loud.

O Brasil vivia uma espécie de Kissmania, e este foi o primeiro de muitos micos que eu passei na vida. Mas, com oito anos de idade, você não se importa muito com isso. Lembro que o vendedor deu risada antes de me entregar a fita K7 de Creatures of the Night, e eu ouvia esta canção (música 2 do Lado B) o dia todo, até o Gene Simmons ficar rouco. Foi meu primeiro contato com o que se chama de “rock pesado”. Passei alguns anos ainda tentando me encontrar musicalmente, como acontece com toda criança e pré-adolescente, até que mergulhei de cabeça no hard rock e heavy metal, que se tornaram minhas paixões musicais.

Independente disso, eu sempre quis assistir a um show dos caras, porque sei que é uma das poucas bandas que eleva o conceito de show a sua máxima potência, a despeito do fato de o Kiss não estar entre as minhas cinco bandas preferidas – talvez entrasse na lista das 10 mais. Questão de gosto pessoal mesmo.

Hoje, com 33 anos nas costas, já passei por shows de Iron Maiden, Metallica, Alice Cooper, Judas Priest, Deep Purple, Aerosmith, Dio. Mas nunca havia assistido a um show do Kiss (mea culpa mode: on).

Ontem, isso mudou.

Ao lado da Sra. Gordon e de um amigo, montamos nosso pequeno Kiss Army e fomos para o show. Na verdade, enquanto os fãs do Kiss são realmente o “exército do Kiss”, nós três éramos uma espécie de Incrível Exército de Brancaleone: eu, totalmente arrebentado depois de dois dias nada leves no trabalho; Sra. Gordon, exausta e com o pé quebrado. Já meu amigo... Bem, no momento em que cheguei a Arena Anhembi com o meu ingresso e o dele nas mãos, ele ainda estava no trabalho, do outro lado da cidade. Assim, montei um esquema de guerra com uma menina da organização para entregar o ingresso dele quando (ou se) ele chegasse e entrei para encontrar Sra. Gordon, que já estava lá dentro.

Felizmente, deu tudo certo. Ele chegou cerca de uma hora depois. Se bem que cabem umas aspas no “tudo certo”. Eu odeio ir assistir a um show de pista. Com a minha altura, show de pista e metrô lotado é a mesma coisa, eu só vejo ombros e costas para qualquer lado que eu olhe. E jurei que nunca mais iria num show de pista desde o show do Metallica em 1994 (turnê do Black Album (chupem leitores com menos de 30 anos)), quando eu quase morri na saída (não é exagero). E não me venham com aquele papo de que “o agito está na pista”. Parto do princípio que, num show, o agito está no palco, e eu quero ir para ver o palco.

Felizmente, Sra. Gordon providenciou um “lugar de idosos” na pista: uma espécie de buraco entre o posto médico e a área de imprensa, de onde podíamos assistir a segunda melhor coisa de um show de rock: a platéia. Curiosamente, um show do Kiss, que, por definição, deveria ter o maior número de pessoas estranhas da face da Terra por metro quadrado estava razoavelmente normal, com direito a famílias e tudo o mais. O que mais chamava a atenção eram as pessoas pintadas como os músicos, mas nada de muito bizarro.

E ficamos observando a platéia durante boa parte do show de abertura, do Dr. Sin, banda que eu já havia ouvido falar muito, mas nunca tinha me dado ao trabalho de escutar. Sinceramente? Bem meia boca. Musiquinhas pasteurizadas, vocalista dizendo que é uma honra abrir o show do Kiss, e uma canção que diz que o brasileiro gosta de “futebol, cerveja e rock’n’roll” com direito a corinho de “êta, êta, êta, brasileiro quer...”. Ou seja, composições nível ônibus escolar.

Felizmente, não durou muito. Logo, começa a tocar Won’t Get Fooled Again, do The Who, no sistema de som, e uma enorme bandeira Kiss cai sobre o palco, com as luzes se apagando. O local começa a vibrar de excitação. Expectativa total. De repente, o berro:

Aaaaaall right, São Paulo!

Antes que eu pudesse ouvir o resto do berro clássico, tive que sair correndo na direção de um dos vendedores de hot dog que parou na minha frente (com aquele isopor imundo na cabeça) para ver a abertura do show e pedir delicadamente para ele “tirar esta bosta da minha frente.” Voltei ao meu lugar e ainda consegui aproveitar o restinho de “...band in the world: Kiss!

A platéia veio abaixo, logo nos primeiros acordes de Deuce, emendada por Strutter – dois clássicos do primeiro disco da banda. E, com poucos minutos de show, uma coisa já fica clara: por mais que Thomy Thayer e Eric Singer sejam excelentes músicos, o show é todo de Paul Stanley (que está cada dia mais parecido com um misto de Lúcia Veríssimo e Simone) e de Gene Simmons – sendo que este, sabendo do status de ícone, na metade do show já desfilou sua língua pelo palco e cuspiu fogo, duas de suas marcas registradas.

Nesta primeira metade do show, desfile de músicas antigas (afinal, a turnê celebra os 35 anos da banda), com o grupo claramente guardando os grandes sucessos para a parte final. Mas, mesmo assim, a garra dos músicos ao interpretar outros clássicos como C’mon and Love Me, Hotter than Hell, 100.000 Years empolga o público – até mesmo quem conhece a banda somente por um dos inúmeros best ofs que não contém essas canções.




Mas claro que, enquanto a platéia (e eu) estava adorando o show, algo tinha que dar errado comigo. Durante o solo de Eric Singer, um sujeito que estava às portas do coma alcoólico teve uma crise de carência durante o show e sentiu uma necessidade fisiológica de fazer amigos. Olhou ao redor e achou que aquele baixinho careca no canto parecia ser simpático. Nosso primeiro contato se deu quando ele começou a dançar rodando a camisa na frente da minha cara. Tentei afastá-lo, e ele achou que isso era minha maneira de demonstrar que eu estava disposto a fazer amigos.

Durante uns quinze minutos, ele dançava e comentava o show comigo, mantendo o rosto dele a cerca de 20 centímetros do meu rosto enquanto falava. Se alguém viu isso de longe, deve ter achado que éramos namorados. Eu tentando ver o show e, a cada 30 segundos, ele vinha com informações que achava importante compartilhar:

– O Gene Simmons nasceu lá nas arábias!

– Essa banda é foda!

– Na época do Peter Criss, não rolava solo de bateria!

– Essa banda é foda!

Quem me ajudou a despachar o sujeito foi o Paul Stanley, que estava puxando gritos da galera. Tudo o que eu precisava naquele momento é que outra pessoa falasse comigo, para que eu pudesse mostrar a ele que estava mais interessado no show (ou em qualquer outra coisa) que nas informações que ele queria compartilhar. Acabou sendo o guitarrista do Kiss.

Vou tentar reproduzir aqui o que aconteceu, em tempo real:


Paul Stanley (do palco): Hey, hey, hey, Yeah!

Bêbado (simultaneamente ao Paul Stanley, a oito centímetros do meu corpo): Qual sua música preferida?

Rob Gordon (atingindo 140 decibéis, com a boca colada no ouvido do bêbado): Hey, hey, hey, Yeah!


Meu gritou causou algum dano no tímpano direito dele e serviu para me dar uns minutos de sossego (e fazer a Sra. Gordon cair no chão de tanto rir), e ele foi tentar falar no celular com alguém. Mas logo ele decidiu reatar nossa amizade e veio comentar que morava no Tucuruvi e que todo mundo no bairro sabia que ele era fã do Kiss.

Meu saco já estava cheio como um balão de gás, de tão cheio, mas Deus (ou o God of Thunder, para os iniciados), ouviu minhas preces e o bêbado decidiu que queria mais cerveja, me perguntando onde ele podia comprar. Disse a ele que a barraca ao lado de onde estávamos não tinha mais cerveja, que o show é desorganizado, é tudo uma bosta e que ele teria que ir para o outro lado da pista. Como eu era seu melhor amigo dele, ele acreditou e sumiu. Amém.

O sumiço dele foi um presságio para o início da segunda metade do show, que alternava discursos do Paul Stanley dizendo que ama o Brasil e mais clássicos, como Cold Gyn e Black Diamond, se encerrando com o hino Rock and Roll All Nite, que é o pretexto para o palco se tornar uma espécie de Cassino do Chacrinha, com chuva de papel picado e fogos. Este é o segredo do Kiss: qualquer outra banda tornaria isso cafona; com eles, funciona.




Após um intervalo rápido, a banda volta para o bis, e, a partir daí, é só musicão, abrindo com Shout it Out Loud e Lick it Up. Eis que surge o momento mais esperado da noite, para mim: o solo de Gene Simmons, com direito ao baixista babando sangue e voando para cima do palco, de onde tocou I Love it Loud (aka a música que mudou minha vida, como dito acima) cuja letra foi cantada por 29.998 pessoas. Apenas duas pessoas não c antaram: uma, de pouco mais de metro e meio, estava ocupada demais gritando “caralho!”; outra, totalmente embrigada, deveria estar tentando atravessar um mar de gente para conseguir comprar uma cerveja.

Com o show se encaminhando para o final, é hora de Paul Stanley voar, agarrado numa tirolesa, para o meio da platéia, de onde cantou Love Gun. Volta para o palco principal e hora de fechar a noite com outro hino: Detroit Rock City.

Fogos de artifício, luzes acesas, hora de ir embora. Não entra nos cinco melhores shows da minha vida, mas apenas porque a concorrência é grande. Foi um show sensacional e algo que eu queria ter visto há muito tempo. Assim, de todas as bandas que eu jurei que ver antes de morrer, me sobra apenas uma pendência: AC/DC. E espero que quando isso acontecer, o bêbado do Tucuruvi ainda esteja tentando encontrar a barraca de cerveja da Arena Anhembi.

E, para me despedir (prometo que volto com a saga da Besta-fera no próximo post), deixo vocês com o meu Top 5 Músicas do Kiss:

1. I Love it Loud
2. Gof of Thunder
3. Deuce
4. Detroit Rock City
5. Creatures of the Night

6 de abril de 2009

Cane al Funghi - Parte I

De uns tempos para cá, a Besta-Fera vem reclamando de coceiras. “Reclamar”, claro, entre aspas. Isso porque, como ele (ainda) não desenvolveu a arte da fala, acaba encontrando outras maneiras de reclamar.

Explico: ele dorme no quarto, comigo. Mas claro que aos olhos dele, sou eu quem dorme no quarto com ele, já que ele dormiria lá de qualquer maneira, porque a casa é dele, não minha. Então, toda vez que ele quer me avisar algo, ele sabe onde e quando me encontrar. Desta vez, como ele estava com uma alergia nas patas traseiras, resolveu me informar disso subindo três vezes nas minhas costas, no meio da madrugada, para se coçar em cima de mim.

Chamei a veterinária. Após 10 minutos de exames – dos quais oito foram gastos tentando tirá-lo de baixo da mesa da sala – o diagnóstico foi feito. Fungos.

– Fungos?, perguntei.

– Fungos, ela respondeu.

– Mas fungo não é um negócio que dá em floresta? Ele é um cachorro, não deveria ter pulgas?

– Fungos proliferam em umidade. Ele deve ter se deitado no molhado.

Ok. Fungos. As pessoas têm fungos nos móveis, e eu consigo a proeza de ter um cachorro com fungos. A partir de agora, oficialmente, eu não tenho mais um westie. Eu tenho um cane al funghi. O tratamento? Banhos com um xampu especial, a cada dois dias.

– Dois dias?

– Dois dias, ela disse, guardando o bloquinho.

– Você sabe que existem países onde nem as pessoas tomam banho a cada dois dias?

– Não precisa ser banho. Nem vale a pena levar na pet shop, melhor fazer em casa mesmo. Afinal, precisa apenas lavar a parte contaminada os fungos.

– Ah. Ou seja... Isso inclui as patas de trás, uma parte da barriga e o... Bem... O...

– Sim. Inclui.

Argh.

Pensei em perguntar a ela se eu poderia fazer isso à distância com uma mangueira e um esfregão, ou se teria algum jeito de terceirizar isso, mas duvido que existam profissionais especializados em lavar pênis de animais. Se existe, é certamente o pior emprego do mundo, independente do salário.

A veterinária guardou suas coisas, me deu um dos frascos de xampu e foi embora. Fechei a porta e olhei para a Besta-fera. Ele ainda estava sob a mesa, e seu olhar deixou claro para mim que a probabilidades destes banhos deixarem ser al funghi e virarem al dente (ao menos, os meus braços) eram grandes.

– Da mesma forma que isso não é fácil para você, não é fácil para mim também. Eu preciso de um tempo para me preparar para isso, e acredito que você também. São três da tarde. Vamos resolver isso apenas a noite, ok?

“Não podemos negociar isso de alguma forma?”, ele me disse com o olhar. Eu ignorei e liguei a televisão. Depois de uns vinte minutos, ele deixou sua pequena fortaleza cercada de cadeiras e se aventurou pela sala, mas consegui reparar que ele evitava virar as costas para mim. Ficava sentado, olhando para mim e para o frasco de xampu. Às vezes, respirava fundo, com um ar inconsolável.

Ficamos assim o resto do dia. Ele pedindo clemência e eu tentando não pensar no assunto. Comecei a assistir um episódio de Galáctica, mas não conseguia me concentrar. Por mais que eu seja homem, brasileiro e adore uma sem-vergonhice de vez em quando, a idéia de bolinar um cachorro rompe as fronteiras da bizarrice com pompa e circunstância.

E, pior, não é um cachorro qualquer. É o meu cachorro. É uma criatura que dorme e janta junto comigo. Eu e ele temos um relacionamento com limites muito bem definidos, baseado em conceitos puramente masculinos. O mais perto que chegamos de sexo é brincar de luta (o que qualquer homem faz com seus amigos), ou eu dar um beijo na cabeça dele todo dia quando estou saindo para trabalhar (o que qualquer pessoa faz com um familiar). Ou seja, o elemento “banho nas partes íntimas” cairia como uma bomba no nosso dia a dia e iria desestabilizar totalmente esta equação.

Isso, claro, sem falar no nojo que eu estava sentindo. Olhei para ele novamente. Ao menos, o nojo aparentemente era recíproco, o que me deixou um pouco mais tranqüilo. Seu olhar tentava me vender a idéia de que “essa coceira não é tão ruim assim, eu posso aguentar”, mas, a cada quinze minutos, ele mesmo se traía ao se coçar.

Conversamos muito pouco pelo resto da tarde. Éramos dois condenados que dividem a mesma cela e que sabiam que seriam executados ao anoitecer.

E, como acontece todos os dias, desde que o mundo é mundo, a noite chegou.

(continua...)

Crônicas Twitter

Tem 15 textos novos no Chronicles. Mas todos os 15 têm, na máximo, 140 caracteres (assim como este), em homenagem aos amigos do Twitter.

1 de abril de 2009

Rob Gordon X Tim - Round 4

Com o negócio da portabilidade, as empresas de celular tremeram nas bases. Agora, a moda é ligar para os clientes oferecendo aparelhos, descontos, planos especiais, massagem nos pés, em troca da fidelidade. Virou prostituição mesmo. Ligam para todo mundo, o dia todo, oferecendo praticamente o que você quiser.

A Tim, claro, não ficou atrás. Seus diretores, sabendo que, no ranking das quatro principais empresas de celulares que operam em São Paulo, a empresa deve estar em 17º lugar, deram o ultimato aos funcionários: saiam ligando para todo mundo e mantenham esse povo aqui.

Claro que os funcionários vestiram a camisa e começaram a ligar para todos. Uns dois ou três amigos meus já haviam sido “sorteados” com isso. Mas eu não recebi ligação nenhuma. Ou seja, imagino a briga que deve ter rolado no departamento de telemarketing para ver quem iria me ligar, já que eu briguei com absolutamente todos os atendentes da Tim nestes últimos anos.

Imagino uma das meninas do telemarketing entrando na sala do supervisor e falando:

– Olhe, eu peguei o cadastro que vai de Ramires a Rogério. O Rob Gordon está na minha lista, mas eu não vou ligar para ele.

– Nós vamos ligar para oferecer um aparelho novo para ele. Ele não vai brigar com você por causa disso.

– Não importa. A menina que trabalhava na baia ao lado da minha atendeu uma ligação dele no ano passado, e passou uma semana chorando, antes de pedir demissão. Eu não ganho para isso.

– Desculpe dizer, mas, sim, você ganha para isso.

– O senhor já falou com ele?

– Não.

– Já ouviu as gravações das ligações dele?

– Sim.

– Então o senhor irá concordar comigo. Eu não ganho para isso.

– Bem, admito que ele é um cliente difícil, mas...

– Difícil? O senhor realmente já ouviu as gravações? Ele não é difícil. Eu tenho clientes difíceis todos os dias. Tem uma velhinha que liga aqui e acha que sou a sobrinha dela. Fica perguntando como está minha mãe e querendo saber quando eu vou aparecer para um café. Acredite em mim: os clientes difíceis são fáceis perto do Rob Gordon. Eu não vou ligar.

– O que você quer para ligar?

– Um aumento, uma promoção ou uma folga de dois dias.

– Ok. Você terá uma folga de dois dias. Mas a ligação será feita hoje.

– Dois dias a minha escolha.

– A ligação será feita hoje?

– Sim.

– Dois dias a sua escolha.

Ou seja, ela não tinha mais como escapar – na verdade, ela fez exigências pensando justamente em não ser atendida, mas seu plano falhou. Teve que ligar para mim, o que aconteceu à tarde daquele mesmo dia.

Agora, de volta à realidade. Estava no trabalho e toca o celular.

– Alô?

– Sr. Rob Gordon?

– Sim.

– Aqui é Eufrasina, da Tim. Estamos ligando para fazer uma proposta para o senhor.

– Diga.

– Nós vamos oferecer um celular inteiramente grátis para o senhor, desde que o senhor aceite continuar cliente Tim durante os próximos 12 meses.

Eu não estava pensando em sair da Tim, mesmo, então, ok.

– Ok. Qual o celular?

– É um Samsung UltraPowerangerXP-12.

Entrei na internet e procurei pelo aparelho. Parece ser legal.

– Ok. Aceito.

– Que ótimo! Posso mandar o celular para sua casa?

– Sim.

Ela confirmou todos os meus dados e perguntou:

– Se o senhor não estiver em casa, há alguém na sua residência indicado para receber o aparelho?

– Não. Eu moro sozinho.

– Ah, então não haveria ninguém na sua casa, certo?

Eu estava tentando me comportar. Mesmo. Mas tem gente que pede.

– Sim. Se eu moro sozinho, quando eu saio de casa, a casa fica com zero pessoas.

– Ah... É que, por segurança, o aparelho precisa ser entregue para uma pessoa adulta.

– Bem, a única pessoa que fica em casa quando eu saio não é adulta. Na verdade, nem pessoa ela é. É o meu cachorro. Ele não pode receber, né?

Silêncio ensurdecedor do outro lado da linha. Resolvi encerrar logo aquilo. Continuei:

– Olhe, eu moro em prédio. Os porteiros podem receber isso por mim. Eles recebem todas as minhas encomendas.

– Senhor Gordon, quando a entrega for feita para porteiros, é preciso uma carta autorizando isso.

– Bem, você disse que precisava de um adulto. Meu prédio tem, como política, não contratar crianças para os cargos da portaria. Eles são todos adultos, acredite.

– Mas podemos entregar sem a carta apenas para familiares. Porteiros precisam da autorização por escrito.

– E se um dos porteiros fosse meu pai? Seria preciso a carta? Neste caso, ele seria mais porteiro ou mais meu pai? É só curiosidade minha.

– Realmente não sei informar, senhor.

– Bem... Você já tem no que pensar hoje. Mas, tudo bem, eu estou meio ocupado aqui, eu faço a carta.

– Que ótimo, senhor!

Pensei em responder que a Claro ou a Vivo não pedem carta nenhuma, mas deixei quieto. O celular ainda não chegou. Se ele não chegar até sexta-feira (data prometida), vou ligar na Tim e perguntar se eles vão começar a se comportar como adultos, ou se estão de criancice comigo.