6 de abril de 2009

Cane al Funghi - Parte I

De uns tempos para cá, a Besta-Fera vem reclamando de coceiras. “Reclamar”, claro, entre aspas. Isso porque, como ele (ainda) não desenvolveu a arte da fala, acaba encontrando outras maneiras de reclamar.

Explico: ele dorme no quarto, comigo. Mas claro que aos olhos dele, sou eu quem dorme no quarto com ele, já que ele dormiria lá de qualquer maneira, porque a casa é dele, não minha. Então, toda vez que ele quer me avisar algo, ele sabe onde e quando me encontrar. Desta vez, como ele estava com uma alergia nas patas traseiras, resolveu me informar disso subindo três vezes nas minhas costas, no meio da madrugada, para se coçar em cima de mim.

Chamei a veterinária. Após 10 minutos de exames – dos quais oito foram gastos tentando tirá-lo de baixo da mesa da sala – o diagnóstico foi feito. Fungos.

– Fungos?, perguntei.

– Fungos, ela respondeu.

– Mas fungo não é um negócio que dá em floresta? Ele é um cachorro, não deveria ter pulgas?

– Fungos proliferam em umidade. Ele deve ter se deitado no molhado.

Ok. Fungos. As pessoas têm fungos nos móveis, e eu consigo a proeza de ter um cachorro com fungos. A partir de agora, oficialmente, eu não tenho mais um westie. Eu tenho um cane al funghi. O tratamento? Banhos com um xampu especial, a cada dois dias.

– Dois dias?

– Dois dias, ela disse, guardando o bloquinho.

– Você sabe que existem países onde nem as pessoas tomam banho a cada dois dias?

– Não precisa ser banho. Nem vale a pena levar na pet shop, melhor fazer em casa mesmo. Afinal, precisa apenas lavar a parte contaminada os fungos.

– Ah. Ou seja... Isso inclui as patas de trás, uma parte da barriga e o... Bem... O...

– Sim. Inclui.

Argh.

Pensei em perguntar a ela se eu poderia fazer isso à distância com uma mangueira e um esfregão, ou se teria algum jeito de terceirizar isso, mas duvido que existam profissionais especializados em lavar pênis de animais. Se existe, é certamente o pior emprego do mundo, independente do salário.

A veterinária guardou suas coisas, me deu um dos frascos de xampu e foi embora. Fechei a porta e olhei para a Besta-fera. Ele ainda estava sob a mesa, e seu olhar deixou claro para mim que a probabilidades destes banhos deixarem ser al funghi e virarem al dente (ao menos, os meus braços) eram grandes.

– Da mesma forma que isso não é fácil para você, não é fácil para mim também. Eu preciso de um tempo para me preparar para isso, e acredito que você também. São três da tarde. Vamos resolver isso apenas a noite, ok?

“Não podemos negociar isso de alguma forma?”, ele me disse com o olhar. Eu ignorei e liguei a televisão. Depois de uns vinte minutos, ele deixou sua pequena fortaleza cercada de cadeiras e se aventurou pela sala, mas consegui reparar que ele evitava virar as costas para mim. Ficava sentado, olhando para mim e para o frasco de xampu. Às vezes, respirava fundo, com um ar inconsolável.

Ficamos assim o resto do dia. Ele pedindo clemência e eu tentando não pensar no assunto. Comecei a assistir um episódio de Galáctica, mas não conseguia me concentrar. Por mais que eu seja homem, brasileiro e adore uma sem-vergonhice de vez em quando, a idéia de bolinar um cachorro rompe as fronteiras da bizarrice com pompa e circunstância.

E, pior, não é um cachorro qualquer. É o meu cachorro. É uma criatura que dorme e janta junto comigo. Eu e ele temos um relacionamento com limites muito bem definidos, baseado em conceitos puramente masculinos. O mais perto que chegamos de sexo é brincar de luta (o que qualquer homem faz com seus amigos), ou eu dar um beijo na cabeça dele todo dia quando estou saindo para trabalhar (o que qualquer pessoa faz com um familiar). Ou seja, o elemento “banho nas partes íntimas” cairia como uma bomba no nosso dia a dia e iria desestabilizar totalmente esta equação.

Isso, claro, sem falar no nojo que eu estava sentindo. Olhei para ele novamente. Ao menos, o nojo aparentemente era recíproco, o que me deixou um pouco mais tranqüilo. Seu olhar tentava me vender a idéia de que “essa coceira não é tão ruim assim, eu posso aguentar”, mas, a cada quinze minutos, ele mesmo se traía ao se coçar.

Conversamos muito pouco pelo resto da tarde. Éramos dois condenados que dividem a mesma cela e que sabiam que seriam executados ao anoitecer.

E, como acontece todos os dias, desde que o mundo é mundo, a noite chegou.

(continua...)

16 comentários:

Tyler Bazz disse...

Zoofilia no Champ!

E o bom de ler esse post é saber que eu só vou ver a continuação daqui uns 15 dias.. ://

o/

Kakah disse...

Conselho, se é que você ainda não teve essa incrível idéia: use um esfregão, uma escova, qualquer coisa... E você não precisa, hã, abrir a portinha prá ver tudo lá dentro, é só por fora... Não é?! O.o

Beijoca

Flavita disse...

Você já assistiu aquele episódio do Seinfeld sobre continuações? Pois é...

=P

7Seven7 disse...

"duvido que existam profissionais especializados em lavar pênis de animais. Se existe, é certamente o pior emprego do mundo, independente do salário."

Não se a pessoa que trabalha disso for zoófila.

Otavio Cohen disse...

Zoofilia no Champ! (2) hahaha ou seria hauhauhau, ou melhor auauau

renata disse...

se vc tem nojo/constrangimento/frescura de lavar o bilau do teu cão, não serve pra ser dono dele. manda ele pra vitória. te passo o endereço por email :)

Lilian disse...

1-Já ouviu falar de luvas?
2-Ele é seu cachorro. Se quiser ficar somente com a boa parte de um bicho, visite periodicamente o zoológico. Detesto quando dizem que sou a mãe adotiva ou whatever das minhas cachorras, mas sim, cuidar de cães inclui algum sentimento maternal/filial.Isso! Pense que está dando banho no seu filho. Vai ficar mais fácil não pensar no bilau dele. (Não esquecendo, claro, das luvas).
Se não gostar da idéia de cachorro como filho, pense nisso só durante o banho. Depois passe a encará-lo como a besta-fera de sempre! :P

(Fica bravo não tá? Tou só brincando).

Barlavento disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Barlavento disse...

Acho que estamos lendo esse blog demais... Coincidência ou não, meu gato também está com fungo... Ô fase.

Varotto disse...

Momento Zoo "more-than-friends".

Primeiro foi Malluca Magalhães x Camelo.

Agora Rob Gordon x Besta Fera.

Onde é que esse mundo vai parar...

Dragus disse...

Pense em convidá-lo para um jantar antes. Leve flores e torne a experiência o menos ruim possível.

Se precisar coloque flores no local para aumentar a paixão e deixe algumas velas iluminando o local a meia luz.

Um jazz ou uma música agradável ajudam. Ouvir Iron Maiden pode tornar tudo mais violento.


Ou você pode pedir ajuda a sua mãe... Mas considerando que quer ser independente, não acredito ser uma boa opção.

Ou, e porque senão outro "ou", pode perguntar a veterinária se há necessidade de esfregar ou bastaria apenas dissolver muito xampu na água e fazer "chá de besta-fera". =)

Matheus Silva disse...

pobre besta-fera

sera bolinada
e nao terá como se defender

:\

P! disse...

AAAH, que frescura. Você só vai ter que jogar um shampoo e uma água nele. Quanto drama pra dar banho em um cachorro.

Thiago Apenas disse...

"E, como acontece todos os dias, desde que o mundo é mundo, a noite chegou."

Climão!!!!

Gabi disse...

Luvas não tiram o 'peso' do ato,mas são consideravelmente mais higiênicas.

Imagina o quanto o bichinho tá sofrendo com as coceiras.
Deixa de frescurite!

;D

MaxReinert disse...

Movimento "luvas para o bilau da besta fera" iniciado e recolhendo assinaturas!!!!