28 de junho de 2007

Duh!

Nada como beber uma cerveja com os amigos após um dia estafante de trabalho, conversando sobre assuntos importantes como donuts, cerveja e boxe.

A máfia de Springfield:
Barney Gumble, Rob Gordon, Homer Simpson,
Moe Szyslak, Carl Carlson e Lenny Leonard

27 de junho de 2007

And the Tomato goes to...

Dizem que um homem, para deixar sua marca no mundo, precisa fazer três coisas: ter um filho, plantar uma árvore e escrever um livro. Quanto ao filho, bem, eu mal consigo administrar uma casa com a Besta-fera e um fantasma, então, é algo fora de cogitação. Já a árvore eu até pensei em plantar uma, no meio da minha sala. Parei quando o dono do apartamento abaixo do meu ameaçou me processar por causa dos danos que isso causou ao teto dele. O que sobrou, então, foi o livro, mas como sou preguiçoso demais para isso, resolvi largar mão e escrever um blog mesmo.

E agora, justamente por causa disso, resolveram atirar tomates em mim.

O culpado por isso é o Arthurius, autor do blog Visão Panorâmica. O blog dele foi indicado (com justiça) ao prêmio Blog com Tomates e, como dita a regra, cada indicado precisa apontar outros cinco blogs para o prêmio. Hoje recebi uma mensagem do Arthurius comunicando que indicou o Championship Vinyl ao prêmio, que tem como objetivo reconhecer os blogs que “lutam pelos direitos fundamentais do ser humano”.

Antes de mais nada, deixo aqui um grande obrigado ao Arthurius, pelo reconhecimento e pela lembrança, que considero uma honra. E isso não é puxação de saco, não. É sensacional ter seu blog reconhecido por um blogueiro que produz material de qualidade, e não por uma daquelas pessoas que escrevem em miguxês. Imagine um dia eu topar com a frase “U xxxampionxxxip vinyu eh 1 blog mtu legau i tem ki se indicadeenhu au blog kum tomati...... Nadah seriah + justu ki ixxu!!!!!” no blog de um emo qualquer. Na boa, seria vergonhoso demais. Que preguiça de gente que escreve assim. Valeu, Arthurius!

E, claro, pode parecer clichê, mas, quero agradecer a todos os leitores. Afinal, mais que posts e prêmios, a alma do Championship Vinyl são vocês e seus comentários. Afinal, de nada adianta escrever um texto minimamente razoável para ninguém ler. Sim, esse prêmio é de vocês também, sem demagogia. Mas queria aproveitar e agradecer especialmente a uma leitora que, mesmo sem me conhecer, colocou o blog no seu profile do Orkut (me mostraram isso ontem). Para mim, isso vale mais que qualquer prêmio que esse blog recebeu ou venha receber um dia. Obrigado. Mesmo.

E, obviamente, que mesmo com esse prêmio (o segundo que o Championship Vinyl recebe em menos de um ano de vida), vou começar a cobrar para colocar links de blogs na seção de parceiros e não vou perder meu tempo visitando o blog de mais ninguém porque são todos piores que o meu nada vai mudar aqui. Esse blog sempre foi de vocês, e continuará sendo (mas quem assina os posts sou eu, combinado?).

E, para comemorar a indicação, vou, ainda essa semana, atirar tomates no prédio de alguma empresa de telemarketing, que são alguns dos maiores inimigos desse blog. Afinal, o direito que as pessoas têm de ficarem em casa sem ser incomodados por esse tipo de gente é um dos mais fundamentais que existem. Mas, antes disso, deixo aqui a lista dos meus cinco indicados ao Blog com Tomates (se você é um dos cinco, clique aqui e saiba o que fazer agora).

1. Acepipes Escritos – Para lutar pelos “direitos fundamentais do ser humano”, é preciso saber o que é humanidade. E o autor desse blog esbanja humanidade em cada linha que escreve.

2. Cronistas Cotovelares – O blog desse maravilhoso site de crônicas tem um dos melhores textos que eu já li, abordando qualquer assunto com inteligência, conseguindo a proeza de ser bem-humorado e altamente ético. Coisa rara hoje em dia.

3. Diego Moretto – Blog com B maiúsculo. Se todos os blogueiros tivessem, em seus textos, a profundidade do Diego, o UOL saía do ar em uma semana (E o Ig, em dois dias).

4. O Meio Ambiente – E é um dos poucos blogs da internet que consegue ser sério sem ser maçante. Se algum blog merece realmente esse prêmio, é este aqui.

5. A Prateleira – A autora desse blog é praticamente uma Rob Gordon mulher e mais nova. Sarcástica e irônica, no melhor estilo perde-o-amigo-mas-não-perde-a-piada. Ou seja: adorável.

P.S. - Em tempo: o Dr. Spock e o Wagner me convidaram para participar de um Meme com um texto. Prometo que responderei a isso no meu próximo post, indicando também os outros cinco blogs que escolherei para continuar com o tema. Aliás... cinco indicados ao Blog com Tomates, cinco blogs para o Meme... Eu e meus Top 5 agradecemos ao número-padrão da blogosfera.

26 de junho de 2007

Novidades e Mudanças: Sim, o Jabá de Sempre

Foi com grande satisfação que coloquei o post Dia do Orgulho Hétero como líder absoluto no Top 5 - Posts mais Vendidos do blog. Afinal, para alguém que mora em Pinheiros é reconfortante saber que existem mais (pelo menos) uns 30 outros heterossexuais no mundo. Ok, ainda somos minoria, já que a Parada Gay reuniu 3 milhões de pessoas, mas um dia chegamos lá. E, além disso, podia ser pior: sim, somos minoria, mas não estamos segurando a lanterna da tabela das minorias sexuais. Essa honra fica com o Sergei, o único pansexual declarado e assumido do planeta. Independente disso, sempre é bom ver um post passando dos 30 comentários em apenas um dia.

E, vocês, mulheres, que reclamaram que o Dia do Orgulho Hétero parecia o Dia do Orgulho Macho, pedi claramente que vocês mandassem sugestões de como tornar a data mais importante do mundo heterossexual acessível para vocês também. Então não reclamem se a atividade mais feminina do evento for a distribuição de descontos na DPaschoal - as contribuições femininas dadas nos comentários, por sua vez, estão sendo prontamente estudadas. Ao menos, aquelas dentro da realidade*. Quanto ao pessoal que sugeriu o campeonato de luta de gostosas celebridades femininas no gel, a idéia foi prontamente aceita! Genial!

Voltando ao blog, aproveitei para fazer uma mudança aqui nas regras do Championship Vinyl. A lista dos posts mais vendidos contava também com os "posts conceituais" (aqueles divididos em duas ou três partes), que entravam na relação com a soma dos comentários de todos os textos da saga. Porém, depois que a trilogia Carolina chegou ao número absurdo de 72 comentários, percebi que esses posts mereciam uma lista só para eles. Então, todas as grandes sagas publicadas aqui, como a própria Carolina, A Guerra da Vila Mariana e o guia de episódios de 25 Horas ganharam uma lista própria: Top 5 - Posts Conceituais.

E, como de costume, atualizei também a lista do Top 5 - Lado B, com alguns dos posts esquecidos aqui no blog, que ganham nova oportunidade de brilhar nos refletores aqui. Romantismo 0 X 1 Enlarge your Penis, Assadeira - Um Poema Épico, Coisas da Vida, Here Comes the Sun e O Limbo... No Limbo: eu fiz o que podia, agora é com vocês!

Além disso, já que estou jabazando por aqui, aproveito para dizer que também assoprei o pó da filial Championship Chronicles, postando a parte III da série Minhas Mulheres de A a Z. E, numa decisão radical, mudei o template do Chronicles, tonando-o totalmente diferente do Vinyl. Isso por vários motivos: primeiro, os textos de lá são maiores, mais literários e precisavam de um template mais elegante; segundo, como os posts de lá diferem totalmente dos daqui, vi que era hora do blog ter a sua própria identidade visual; e, terceiro e mais importante, eu estava com o saco cheio de ter dois blogs com a mesma cara.

Portanto, visitem o Chronicles, pois há texto novo ali. E prometo que não deixarei mais aquele blog abandonado por tanto tempo, já estou trabalhando em novas crônicas. Enquanto isso, deixo vocês com os 5 textos do Chronicles que eu mais gosto:

1. Dois Perdidos numa Crônica Suja - provavelmente, de todos os textos que escrevi até hoje, é o que mais gosto
2. Olhos nos Olhos - Acreditem, é baseado em fatos reais.
3. Casablanca.com - Rick, Ilsa, Sam e um servidor de e-mails.
4. Norte-Sul - O adeus mais difícil da história.
5. Os Pecados de Todos Nós - minha primeira crônica. Ou seja, valor sentimental altíssimo.


*Isadora, Jack Bauer não está disponível. Mas estamos quase acertando com o Biro-Biro. É loiro, também. Serve, né?

25 de junho de 2007

Dia do Orgulho Hétero

Hoje eu estava assistindo TV em casa, quando comecei a ouvir uma conversa do (da) meu (minha) vizinho (vizinha) Jasmim, que estava aos berros e gargalhadas com algum (alguma) amigo (amiga) no telefone.

O assunto? A Parada Gay. Isso ainda rende assunto, mesmo duas semanas após ter acontecido?! Sinceramente, os gays estão de parabéns. Isso sim é uma comunidade de verdade. Três milhões de pessoas na Paulista, a mídia inteira mobilizada e um evento com shows e atrações. Não é a toa que cada Parada Gay repercute entre eles com a mesma intensidade que uma semifinal de Copa do Mundo ou a estréia de Rocky Balboa repercute entre nós, homens.

Ok. E quanto a nós, heterossexuais? Nada?

Convenhamos, já está mais que na hora de termos o Dia do Orgulho Hétero. Especialmente porque o objetivo da Parada Gay sempre foi o de combater a intolerância e respeitar os direitos da minoria gay. Bom, novamente, parabéns para eles, conseguiram. Conseguiram tanto que inclusive deixaram de ser minoria. Basta dar uma volta aqui em Pinheiros nas tardes de sábado (especialmente na feirinha da Benedito Calixto), para ver que nós, héteros, é que somos a minoria da vez.

Justamente por isso, é o momento de defendermos nossos direitos. É hora de levantarmos a bandeira e combater a ignorância, e o preconceito que sofremos por termos uma única (negrito mode: on, por favor) opção sexual e por gostarmos de hobbies que muitas vezes são acusados de serem toscos ou rudes demais. Chegou o momento de gritarmos ao mundo que “Eu gosto de mulé e cerveja e sou feliz assim!”

É hora de assumirmos nossa condição de
minoria e levantarmos nossa bandeira!
Mas cuidado aí atrás, sem encoxar, hein?


Sendo assim, esboço abaixo como poderia ser o Dia do Hétero aqui em São Paulo. Mas, antes, um aviso: como sou homem, formatei o evento para a população masculina do universo heterossexual, da qual pertenço com orgulho. Peço, então, às leitoras heterossexuais deste blog: deixem, nos comentários, sugestões e idéias de como o evento poderia agradar também a vocês.

Afinal, um evento só com homens não seria exatamente heterossexual, certo? Mãos à obra, enquanto deixo vocês com algumas das minhas idéias:

1.Data
Assim como a Parada Gay, será realizada num domingo, com eventuais pausas para a transmissão (em telões instalados no local do evento) da corrida (pela manhã) e do jogo do Brasileirão (à tarde). Como o evento não tem hora para acabar, é provável que a partir da 20:00, os telões passem a transmitir os programas de mesa redonda e os gols da rodada.

2.Local
Nada de Avenida Paulista. Ela é fresca demais, cheia de museus e cinemas exibindo filmes de arte. O local ideal da Parada Hétero tem que ser mais rústico, combinando com o evento. Um exemplo é a Avenida dos Bandeirantes – cujo comércio mais elegante é uma borracharia – ou a Radial Leste, onde até os raios de Sol têm medo de ir.

2.1 - Essas idéias valem para o primeiro ano. Depois que o evento crescer, a Parada será realizada na Marginal. Na Tietê, claro, porque Pinheiros é coisa de gente fresca.

3.Trajes
Homem que é homem não usa camisetas com inscrições como “Sou macho” ou “Homem de verdade”. Isso é coisa de quem precisa provar algo, e macho de verdade não precisa provar nada. O ideal é ir com a roupa que você estiver em casa, mesmo. Mas, se você quiser caprichar no visual (hum... estranho...), seguem algumas sugestões:

3.1 – Camisas de time de futebol são uma boa. Mas sempre lembrando que quanto mais antiga (como a do Palmeiras, dos anos 80, patrocinada pela Coca-Cola) ou mais “segunda divisão” possível (Portuguesa, América do RN, CRB) melhor. Lembre-se que camisas de times de outros paises não são bem vistas, já que homem de verdade não usa uma camisa que não seja do seu time.

3.2 – Camisetas de bandas de heavy metal também são aceitas, desde que se trate de heavy metal de verdade (não, Bon Jovi não é heavy metal). Ah, e sem bandanas na cabeça, por favor. Quem usa bandana é o Beckham. E o Beckham, bem, você sabe...

3.3 – Por fim, são aceitas camisetas distribuídas em épocas de eleição, especialmente as mais antigas, que você já usa como pijama ou para encerar o carro. Então, coloque o “Maluf Governador 86” no peito e divirta-se!

4. Alimentação
Não, nada de sanduíches e batata frita. Se você gosta de sanduíche natural, então, melhor ficar em casa. As barraquinhas venderão apenas comida de boteco, como torresmo, ovo colorido e caldo de mocotó. Haverá também algumas barracas vendendo espetinhos Mimi e aqueles yakisobas podres feitos na hora.

4.1 - O popular churrasco grego (carrossel de mosca mode: on) não será comercializado porque aquilo é nojento demais até mesmo nós, homens.

5. Bebidas
Caninha e cerveja. E só. Vale lembrar que a pessoa que pedir por “uma dose de aguardente, por favor”, pode arranjar problemas (ou ser chamado de frutinha, no mínimo). Favor usar termos como “cachaça”, “branquinha” e “quebra-gelo”. As barracas de bebida também venderão cigarros, mas apenas das marcas Hollywood e Continental.

5.1. - Quem quiser água, que entre num boteco e compre. Ou pule no jardim de uma casa e beba direto da mangueira - mas já sabendo que esse negócio de "beber na mangueira" é meio estranho.

6. Banheiros
Não haverá nenhum banheiro à disposição do público. Homem que é homem faz em qualquer árvore ou muro mesmo. E, se for algo um pouco mais... íntimo, digamos, pode-se sempre usar as instalações sanitárias de qualquer boteco boca-de-porco na região – sempre dando preferência aos mais imundos, claro.

7. Para as crianças
Os pequenos heterossexuais também terão espaço reservado: uma quadra, onde poderão disputar campeonato de futebol de salão (sem juiz), ou de queimada (usando uma medicine ball). Além disso, será montada uma área em qualquer obra da região, onde eles poderão brincar de guerra usando tijolos, pedras e cacos de vidro.

8. Palestras e Atividades
Diversas palestras e workshops para engrandeceriam ainda mais o Dia da Consciência Hetero. Alguns dos assuntos que poderiam ser abordados são: “Copas do Mundo – Evolução Tática”, “Filmes do Domingo Maior – Charles Bronson ou Chuck Norris?” e “Fórmula Truck – Melhores Momentos”. Já entre os workshops, tenho certeza de que “Como limpar a gordura da coxa de frango na calça sem sua mulher perceber” e “Martelos e Marretas – Novos Usos no Dia a Dia” fariam enorme sucesso.

9. Shows
Ivete Sangalo? Júnior Lima? Porra nenhuma! O Motörhead e o AC/DC seriam as bandas convidadas para animar os participantes ao longo do dia. À noite, ressuscitaríamos o Miele e o Concurso Garota Molhada.

10. Sorteios
Como brinde é coisa de viado, o evento contaria com apenas um sorteio. Os prêmios são um Motorádio Motorola, uma caixa de ferramentas e um vale-compras do shopping Voli.

É isso. Ou, ao menos, o embrião do projeto está entregue e formatado. E agora, enquanto deixo as leitoras do blog pensando em atrações femininas para embelezarem o evento e mandarem ao blog nos comentários, deixo vocês com outros 5 Dias do Orgulho que eu gostaria de ver:

1. Dia do Orgulho Nerd - esse não incomodaria ninguém, já que provavelmente seria realizado dentro do Second Life. Mas, claro, com direito a campeonatos de cosplay e de Magic.

2. Dia do Orgulho Feio- Tem cara de monstrinho? Tem 19 anos e nunca beijou na boca? Compra Acnase no Macro? Existe mais gente como você! Vá ao Dia do Orgulho Feio mostrar que nem só de beleza vive o mundo e passe a tarde xavecando aquele canhão que parece estar te dando bola.

3. Dia do Orgulho Fumante - Chegou a hora de uma das minorias mais perseguidas do planeta dar o troco! Justamente por isso, o evento será realizado no Parque Ibirapuera. E vale tudo: cigarro, cachimbo, charuto e cigarro de palha.

4. Dia do orgulho Cult - Todos vestidos com seu cachecol e sua camiseta do Che Guevara, marchando para o Espaço Unibanco, onde será realizada uma retrospectiva do Godard. Para encerrar o evento, um show do Teatro Mágico, com direito a sorteio de baseados.

5 - Dia do Orgulho Gordinho - Pode ser realizada na praça de alimentação de qualquer shopping. A Parada começaria no All Parmeggiana, passaria pelo Mc Donald's, Bon Grille, Michelluccio, Gendai, Almanara, Spoletto, e terminaria, no final da tarde, em qualquer Ofner ou Amor aos Pedaços.

19 de junho de 2007

Message in a Bottle

A quem encontrar essa mensagem:

Estou preso num apartamento em Pinheiros com meu aquecedor novo, mas não consigo utilizá-lo, pois a Besta-fera se apoderou do aparelho e não me deixa chegar perto. Tentei argumentar com o animal, mas ele ameaçou destruir metade da minha coleção de quadrinhos caso eu tentasse alguma coisa.

Já faz algumas noites que tenho dormido no quarto tremendo de frio, e receio que a conta de luz atingirá o valor de três dígitos, já que aquele animal esquecido por Deus não permite nem que eu desligue o maldito aquecedor – quando ameacei encostar no botão, ele me lançou um olhar não muito amistoso que me fez mudar de idéia.

Sua intenção em compartilhar o calor gerado pelo aparelho – ou, ao menos, em abrir conversações pacíficas sobre o assunto – é nula, como a foto abaixo deixa claro.

Estou ficando desesperado. Tenho até medo de passar pela sala perto do aquecedor e perder algum pedaço do corpo numa dentada como aviso. E, pior, o controle remoto da televisão está perto do aquecedor. Logo, não posso nem mudar de canal. E minha TV está sintonizada na TV Senado – desconfio que foi a própria Besta-fera quem sintonizou nesse canal, só de sacanagem. Ou, pior ainda, foi coisa do Jonas, que finalmente se aliou a Besta-fera e juntos irão transformar minha vida num inferno. Gelado, mas ainda assim, um inferno.

Tenho, então, passado meus dias assistindo aos discursos dos membros da Câmara, com frio, numa situação que desafia os limites da minha tolerância física, mental e moral. Por favor, mandem ajuda assim que possível, não sei quanto tempo mais vou agüentar nessa situação.

E o aquecedor ali. Tão perto e tão longe...

Despeço-me confiante na bondade humana, deixando aqui uma lista de 5 coisas que a alma caridosa que encontrar essa mensagem poderia me enviar:

1. Um novo aquecedor
2. Uma manta
3. Um par de meias de lã
4. Uma Besta-fera fêmea
5. Um controle remoto universal

15 de junho de 2007

School's Out Forever!

– Tenha um bom espetáculo, senhor.

Foi isso que ouvi do segurança na porta do Credicard Hall quando entreguei meu ingresso para o show do Alice Cooper. Olhei meio torto para ele e sorri sem graça. Precisava me chamar de senhor? A última coisa que eu gostaria de me lembrar, minutos antes de assistir a um show de rock, é que estou ficando velho. Mas o pior foi “espetáculo”. É o cúmulo da formalidade. Ninguém vai a um “espetáculo de rock”, as pessoas vão a “shows de rock”. Enfim, paciência. Agradeci ao segurança e entrei no Credicard Hall.

Eram poucos minutos depois das 21:00 e o lugar não estava vazio, mas estava longe de estar lotado como deveria. Tudo porque uma confusão com as datas em outros países da América Latina empurrou o show de São Paulo, que deveria acontecer no dia 3, para o dia dos namorados. Isso, mais o fato de divulgarem o show com a mesma grandiosidade utilizada para divulgar a inauguração de uma nova pastelaria no bairro (eu vi anúncios em alguns jornais e me falaram que teve algo em uma ou outra rádio, mas foi só isso) fez com que muita gente nem soubesse que Alice Cooper iria se apresentar no Brasil.

E isso porque estamos falando “apenas” de uma das maiores lendas da história do rock. Sim, o termo lenda cabe perfeitamente aqui, sem exageros. Na ativa desde o final dos anos 60, fazendo sucesso desde os anos 70, Alice Cooper é um dos pilares do hard rock e o inventor do horror rock, com shows performáticos, influenciando tanto artistas de ontem (Kiss, King Diamond) como de hoje (Marylin Manson).

Além disso, ele é um dos poucos roqueiros que realmente interpreta a música ao invés de simplesmente cantá-la, e é um letrista de mão cheia, passeando por qualquer assunto possível, do romance (You and Me) à rebeldia bem humorada (School’s Out) e da crítica social (Brutal Planet) ao terror (Welcome to My Nightmare), sempre com a mesma qualidade. Chegou, inclusive, a compor uma música (Gutter Cat vs. The Jets) baseada no filme Amor Sublime Amor, filme que o pessoal do The Killers nunca deve ter nem ouvido falar.

De quebra, o sujeito, mesmo com 59 anos, continua absolutamente em forma – física e vocalmente. Basta pegar seus DVDs mais recentes, como Brutally Live e Live at Montreaux parta ver que sua energia ao subir no palco o transforma num menino de 20 anos. Justamente por isso, todo mundo que estava no Credicard Hall – desde tios que conheceram Alice Cooper nos anos 70 até a molecada que optou por ouvir música boa ao invés das bobagens que tocam no rádio – tinham altas expectativas.

Eu? Digamos que as minhas expectativas eram as maiores possíveis, já que sempre fui fã do sujeito, e passei anos sonhando em poder assistir a um de seus shows.

E, pouco depois das 22:00, quando as luzes se apagaram e Alice Cooper entrou no palco (após assassinar sua imitação atrás da cortina), ele mostrou que o seu grande trunfo como artista não é a potência de sua voz ou as letras e arranjos de suas músicas. O que torna Alice Cooper um mito é a sua presença de palco.

Sim, se o dicionário fosse ilustrado, provavelmente teria uma foto dele ao lado do verbete “carisma”. Você simplesmente não consegue tirar os olhos dele, desde a primeira música (It’s Hot Tonight, que apenas os fãs mais apaixonados conhecem) até a primeira enxurrada de clássicos. E dá-lhe No More Mr. Nice Guy, Under my Wheels e I’m Eighteen, praticamente emendadas uma na outra.

Tudo isso com apenas 15 minutos de show. Ao final de I’m Eighteen, minha vontade era sair do Credicard Hall e comprar outro ingresso, provavelmente o que eu tinha pago já tinha sido gasto ali. Quatro músicas e a frase “Deus no céu e Alice Cooper num palco” não saía da minha cabeça.

E, sem dó nem piedade, ele continua sua apresentação, com as costumeiras trocas de roupas, e alternando sons novos (Woman of Mass Distraction), relativamente novos (Lost in America) e, obviamente mais clássicos (Muscle of Love, Halo of Flies e Desperado). Todas elas em versões muito mais pesadas que as de estúdio, também por causa da presença do baterista Eric Singer, um dos melhores que já passou pelo Kiss. Em estúdio, Alice Cooper é hard rock puro; já ao vivo, suas músicas têm um pé (em alguns casos, os dois pés) no heavy metal. E sem frescuras, sem arranjos magníficos e virtuosos, nada disso. As canções de Alice Cooper têm sobrando algo que falta no rock de hoje: culhões.

E, independente de todas essas qualidades, você simplesmente não consegue tirar os olhos do sujeito no palco. E ninguém imaginava que o show iria começar de verdade somente com somente quase uma hora depois que ele subisse no palco, quando começaram a tocar os primeiros acordes de Welcome to My Nightmare.

Esta é a deixa para que o show assuma totalmente seu lado teatral, que consagrou Alice através das décadas. Num medley aproveitando principalmente músicas do álbum Welcome to My Nightmare (além da faixa título, tocam Only Women Bleed, Cold Ethyl e (a apavorante) Steven), Cooper encena no palco a história de um homem que após assassinar um bebê é jogado num manicômio e, posteriormente, à morte por enforcamento. E isso com os trechos de músicas emendados um no outro, sem descanso.

Curiosamente, as representações de Alice Cooper que eu conheço de alguns DVDs ganham um tom divertido, até mesmo escrachado. Ao vivo, não. Ali, na sua frente, a coisa toda ganha contornos assustadores, que fariam os roteiristas de qualquer filme da série Sexta-Feira 13 decidir mudar de ramo. Terror (no melhor sentido que essa palavra pode assumir) puro. A névoa no palco, o jogo de luzes, os carrascos, Cooper cantando preso numa camisa-de-força e o final, com a forca indo embora do palco – após o cantor ser executado na frente de todos – e a banda cantando I Love the Dead.

Se você está lendo isso sem ver o show, pode parecer cafonice, mas acredite: é (muito) mais assustador que você imagina.

Mas claro que ele retorna à vida e volta ao palco, destruindo tudo com o hino School’s Out (que toca em 10 de 10 filmes americanos que mostram o último dia de aula) e encerrando o show. Encerrando? Nada. Ele ainda volta ao palco para o bis, com Billion Dollar Babies, Poison (o seu último grande hit a explodir em rádios) e encerra a noite com a deliciosa Elected, na qual pessoas entram no palco com placas pedindo votos a Cooper, enquanto ele faz promessas de campanha e apresenta os integrantes da banda, deixando, obviamente, seu nome para o final:

– And the next president of Brazil... Alice Cooper!!!

Ou seja, chupa Lula mode: on. Afinal, quando as luzes se acenderam, minha vontade era ir à urna mais próxima e votar quantas vezes fosse preciso no sujeito. E, indo embora do Credicard Hall, ainda em transe pelo que eu havia visto, lembrei do segurança que me recebeu na entrada e percebi que ele tinha razão.

Eu não havia acabado de assistir a um show. Eu havia assistido a um espetáculo.

"Para uma época com problemas, vote num homem com problemas"

E encerro aqui com 5 Músicas que Alice Cooper PODERIA ter tocado:
1. You and Me – nem adianta eu explicar, é por motivos pessoais.
2. Brutal Planet – De todas as suas canções de 2000 para cá, é a minha preferida.
3. How You Gonna See Me Now – que come Mama I’m Coming Home, do Ozzy, com farinha
4. Hey Stoopid! – Afinal, é a música mais famosa do primeiro disco dele que eu comprei
5. Gutter Cat vs.The Jets – Se é impressionante em estúdio, imagine o estrago que ela não faria ao vivo.

12 de junho de 2007

Carolina - Parte Final

(a parte II você lê aqui)

Em casa, vi que estava ficando completamente sem opções. A cada minuto, as carolinas ficavam mais distantes, tudo porque os malditos confeiteiros continuavam implicando comigo. Malditos. Tentei seguir o conselho de algumas pessoas que comentaram aqui no blog, nos posts anteriores e fui à outra padaria, mas quando descobri que eles não trabalhavam com Coca, só com “Péps” virei as costas e fui embora. Por motivos religiosos, me recuso a consumir qualquer coisa num lugar assim.

Além disso, a coisa já tinha virado questão de honra. Eu não queria mais carolinas, eu queria AQUELAS carolinas. De um jeito ou de outro, eu teria que derrotar esses confeiteiros. Não me importa se eles pertencem a alguma seita obscura que cultua as carolinas, se contrabandeiam jóias dentro dos doces, ou se simplesmente não gostam de mim. Eu iria colocar as mãos naquelas carolinas de qualquer jeito. Pensei em cavar um túnel do meu apartamento até a padaria, mas abandonei logo a idéia. Eu moro no oitavo andar e uma operação dessas iria me destruir totalmente a minha popularidade no prédio.

Não. A estratégia teria que ser mais sutil. Eu precisava descobrir o ponto fraco deles. Jogo, mulheres, bebidas, qualquer coisa que me mostrasse que eles não eram invencíveis.

Passei três dias, escondido atrás da banca de jornal, observando o dia-a-dia dos desgraçados e anotando tudo. Cada vez que um deles ia para a copa almoçar, eu ia para o balcão e tomava uma Coca, anotando discretamente o que eles comiam. A única coisa que descobri é que um deles não gosta de tomate e isso não iria me ajudar em nada.

Aos poucos, comecei a perceber que um deles (o magrelo que usa um bigodinho que o deixa parecido com uma ariranha) se atrapalhava quando ficava sozinho no balcão. Errava o número de pãezinhos, esquecia de marcar itens na comanda. Tudo ficou óbvio para mim! Ele era meu ponto fraco! Enquanto os outros confeiteiros deveriam ser oficiais, ele era apenas um soldado raso.

Voltei para casa e planejei minha estratégia com cuidado. Iria apostar todas as minhas fichas na falta de intimidade dele com o raciocínio lógico (eufemismo mode: on). Eu não apenas sairia da padaria com as carolinas, como faria com que ele desse graças a Deus por se ver livre de mim.
No dia seguinte, voltei à padaria no horário em que os comparsas dele almoçavam. Dito e feito. Ele estava sozinho no balcão, brigando com uma mulher, porque tinha cobrado 5 reais cada pãozinho. Perfeito. Entrei na fila e esperei minha vez. Aos poucos, a fila foi andando.

Chegou a minha vez. Olhei para ele e disse:

– Oi, tudo bom? Eu não quero meio kilo de carolinas.

– Hã?

– Eu não quero meio kilo de carolinas.

– Como assim?

– Ué, acho que fui claro. Eu não quero meio kilo de carolinas, por favor.

– Espera... você quer ou não?

– Não. Você é surdo?

– Então por que pediu?

– Aí que está. Eu não pedi. Por que eu pediria, se eu não quero? Mas não demora, por favor.

– Olha, rapaz...

– Tem leite? Eu também não vou querer um litro de leite B, também. Pode esquecer.

Ele ficou me olhando com cara de interrogação. Algumas pessoas realmente conseguem assumir expressões de pontuação em momentos críticos. Está dando certo, pensei. Tive vontade de gargalhar, mas me contive. Um sorriso agora iria estragar tudo. Aproveitei que os neurônios dele estavam começando a trincar e continuei:

– Olhe, eu não quero leite B, hein? Não adianta tentar me empurrar uma caixinha longa vida. Faço questão do leite B, é esse que eu não quero. E a carolinas também não. Aliás, eu não vou querer também 8 pãezinhos. Está amanhecido?

– É... Não. São frescos.

– Ah, que pena. Então esqueça, eu vou querer. Pode deixar. Não tem amanhecido mesmo?

– Não.

– Ah, tem?

– Não, eu disse que não.

– Então eu quero. Nem se dê ao trabalho de pegar. Vou não querer apenas o leite e as carolinas. Quanto não está o kilo de carolina?

Antes que ele respondesse, alguém tocou no meu ombro. Olhei para trás e dei de costas com ela. A velha. Maldita velha, que sempre frustra meus planos. Nesse momento, tive certeza que ela fazia parte do exército de confeiteiros. Provavelmente era uma mercenária, contratada para resolver casos assim. Ela me olhou friamente, com sua sacola de tricô numa mão, e um guarda-chuvas na outra. A ponta de uma das agulhas de tricô furando a sacola me fez tomar cuidado. Mas eu não iria desistir. Ela disse:

– Você vai demorar muito para fazer seu pedido? Tem gente na fila.

Hum... se estava dando certo com o confeiteiro, daria certo com ela.

– Eu não estou pedindo. Aliás, estou pedindo. Estou pedindo o que eu não quero. Pode demorar, porque não sei se tem o que eu não quero. Enfim, não tem problema, porque eu não vou levar mesmo. Mas olhe, deve demorar. Vamos temos que esperar o pão deixar de ser fresco, para eu não levar. Desculpe, mas a culpa não é minha, entendeu?

– Olha, mocinho...

– E se eu não quero leite B nem carolinas, não tenho o que fazer na padaria. Se não tenho o que fazer na padaria, eu não estou aqui, concorda? Ou seja, a senhora pode pedir, é a sua vez. Eu não estou aqui. A bola está na sua mão. Mas aconselho a senhora tomar cuidado com o que pedir.

– Como assim?

Arregalei os olhos e coloquei o sorriso mais demente que consegui no meu rosto.

– Às vezes, temos que tomar cuidado com o que não queremos. Podemos acabar não conseguindo. A senhora sabe disso, claro. Leite B mole em carolina dura tanto bate até que fura. Mas isso não vem ao caso. O risco é seu.

Ela deu um passo para trás, assustada. Vitória! Chupa, velha! Fiquei encarando ela com os olhos estalados, sem piscar, e com um sorriso totalmente débil no rosto. Ela ficou me olhando, o medo estampado em seus olhos. Todos seus instintos de sobrevivência diziam que ela estava na frente de um louco. E, tecnicamente, ela estava mesmo. Meu olhar deixou claro para ela que a conversa estava encerrada. Voltei minha atenção ao confeiteiro.

– Onde estão minhas carolinas?

– Mas você disse que não iria querer...

– Justamente! Você acha que eu não estou esperando o quê?

– E o leite?

– Não, também não quero. Rápido, não estou com pressa!

Ele olhou de lado, confuso. A velha deu um passo para a frente e ameaçou falar com ele, mas eu comecei a cantarolar (alto) Paranoid, do Black Sabbath. Ela provavelmente entendia inglês, pois bastou eu cantar a frase “finished with my woman ‘cause she couldn’t help me with my mind” para ela mudar de idéia e recuar. O confeiteiro ainda parecia confuso. Eu precisava resolver isso antes que os comparsas dele voltassem.

– Ei, eu tenho o dia todo! Ou não! Demore! Ou não!

– Olhe...

– Eu vou ser obrigado a não chamar o gerente! Você não está me dando o que eu não quero! A fila está diminuindo e você aí, se mexendo! Rápido. Eu já disse o que não quero! Meio kilo de carolinas e um litro de leite B.

Minha vontade era dizer “dá logo a porra da carolina que até eu já estou me confundindo aqui”. Ainda com ar de dúvida no rosto, ele abaixou atrás do balcão e começou a colocar algo num saco de papel. CAROLINAS! Minha vontade era sair correndo pela padaria, fazendo aviãozinho ao redor da geladeira de sorvete, mas me contive. Isso iria estragar tudo. Ele colocou o saco na balança. 550 gramas.

– Meio kilo, né?

– Não, eu disse, pegando o saquinho da mão dele.

Finalmente! Carolinas! Minhas carolinas! Com ar de naturalidade, continuei:

– Quanto não é? Onde eu não pago?

Ele escreveu algo num papel e me deu. Virei as costas e saí na direção do caixa. No meio do caminho, ele gritou:

– Ei!

Não. Não agora. Não assim, já tão perto da saída. Virei-me lentamente para ele, novamente arregalando os olhos. Ele estava segurando um saquinho de leite.

– Você vai querer o leite?

Respirei aliviado. Fui andando rapidamente até o balcão, olhei para ele e disse:

– Sim. Vou.

Virei as costas, deixando-o com um litro de leite na mão e um nó no cérebro. Cheguei ao caixa e joguei o papel e o dinheiro no balcão:

– Cobra para mim, rápido, antes que eles percebam o que aconteceu. E me dá um maço de Marlboro.

Ele abriu a gaveta e ficou olhando para as moedas. Levantou a cabeça e disse:

– Estou sem troco nenhum. Posso te dar três dadinhos?

– Dadinho é o caralho!, gritei, porque percebi que o post estava chegando ao final e eu ainda não tinha citado nenhum filme.

Rapidamente, coloquei os dadinhos no bolso e saí apressado da padaria. Antes mesmo de chegar ao meu prédio, já tinha comido metade do saco de carolinas (tazmania: mode on). No meu apartamento, sentei na varanda e saboreei o resto das carolinas, olhando a paisagem (e segurando com um dos pés a Besta-fera, que insistia que uma das carolinas eram dele por direito).

Claro que nunca mais voltei naquela padaria. Provavelmente eu não seria bem-recebido ali. Mas também não vou naquela outra que só tem "Péps". Qualquer lugar que não vende Coca não merece meu respeito. Não, vou numa outra, que abriu do outro lado do bairro.

E ainda não pedi carolinas nessa padaria nova, mas sei que um dia eu vou ser vítima de uma crise de abstinência e terei que correr esse risco. Será inevitável.

E ai deles se a carolina tiver acabado.

6 de junho de 2007

Carolina - Parte II

(a primeira parte você encontra aqui)

No caminho de volta para casa, pensei no quanto eu havia sido estúpido. Deixei me levar pelo calor do momento e perdi o elemento surpresa. Agora os confeiteiros sabiam que eu estava contra eles e iriam se preparar. Eu precisava bolar alguma estratégia, algum curso de ação que me fizesse colocar a mão em pelos 100 gramas daquelas malditas carolinas.

Cheguei em casa e comecei a analisar a situação. Primeiro, eu estava em enorme desvantagem numérica, já que os confeiteiros eram três e eu apenas um. Para piorar, os malditos ainda estavam bem posicionados no campo de batalha, bem protegidos atrás do balcão. Se eu tentasse um ataque frontal, me tornaria um alvo fácil assim que entrasse na padaria, provavelmente sendo bombardeado com bolos, tortas e pães-doces. E duvido muito que eles jogariam carolinas em mim para me afugentar.

Eu precisava encontrar uma outra maneira de enfrentá-los. Era o momento de deixar o gênio militar que mora em mim se manifestar. Afinal, todos os anos que eu passei jogando Age of Empires e Civilization tinham que servir para alguma coisa. Fui para o sofá e fiquei meditando sobre a situação, certo de que a solução apareceria naturalmente.

Duas horas depois, eu já tinha assistido a três episódios de Desperate Housewives e não tinha nenhuma idéia. Percebi que precisava de ajuda. Fui até o Google e comecei a pesquisar a vida de grandes gênios militares, líderes e conquistadores, para ver se alguma idéia brotava na minha cabeça.

Comecei com Hanibal. Mas de acordo com ele eu teria que cruzar a Teodoro com uma manada de elefantes, e o trânsito lá já é uma bosta sem eu fazer isso. As pessoas iriam reclamar, capaz até de eu ser preso por perturbar a ordem pública. Musashi? Não, ele pregava que o vencedor sempre chega ao campo de batalha antes do inimigo. Bem, não sei os horários de funcionamento das padarias no Japão feudal, mas, aqui, eu teria que chegar ao local às quatro da manhã. Nem pensar. Napoleão? Não, ele se ferrou por causa do frio, não vai me ajudar em nada. Gandhi também não. Se eu ficasse na porta da padaria pregando a paz entre eu e os confeiteiros e me recusando a comer qualquer coisa, capaz de nem repararem em mim. E eu continuaria a não comer carolinas.

Como última alternativa, procurei no Google “+sun tzu + arte da guerra + padaria”.

Nada. Nem um resultado.

Finalmente percebi a verdade: eu estava sozinho. Nenhum dessas supostas gigantescas figuras históricas poderia me ajudar. Voltei para a sala, liguei a TV e dei de cara com uma propaganda de Prison Break. Aos poucos, uma idéia começou a se formar na minha mente. Hum... Talvez... Sim! É isso! Vou tatuar a planta da padaria no meu corpo e arrumar um emprego como chapeiro ali. Aos poucos, terei acesso a todos os locais da padaria e terei acesso à fornadas e fornadas de carolinas! Chupem, confeiteiros!

Fui imediatamente até a sala, peguei um papel e comecei a desenhar uma planta, respeitando o tamanho das paredes e a disposição dos balcões e colocando bonecos-palito para indicar a posição dos confeiteiros, dos outros funcionários e dos clientes.

Ficou uma bosta. A geladeira de sorvete ficou parecendo um ovo e meus confeiteiros pareciam alienígenas cabeçudos. Desisti na hora. Eu iria morrer de vergonha de ter uma tatuagem tão tosca no meu corpo e, além disso (pensei depois), com meu 1,60m de altura, talvez nem coubesse a padaria inteira no meu corpo. Só a parte da copa já ia ocupar as costas inteiras e um pedaço da barriga. Merda de idéia.

Mas eu não ia desistir fácil assim. Já que o problema dos confeiteiros comigo era pessoal, a solução era fazer outra pessoa pedir as carolinas. Na hora, matei a charada: eu precisava me disfarçar. Iria entrar incpognito na padaria e, a hora em que eu colocasse as mãos nas carolinas, iria gloriosamente tirar meu disfarce, gritar um “CHUPA!” no meio da padaria e correr para o caixa!

Quase não dormi aquela noite, empolgado e revendo os detalhes do meu plano.

No dia seguinte, fiz a barba, coloquei boné e óculos escuros. Passei na banca ao lado da padaria e comprei um jornal. Abri o caderno de esportes de forma a esconder meu rosto e fingi que estava lendo uma matéria sobre o desempenho da Ponte Preta na série B.

Entrei na padaria já com o jornal aberto, aparentando despreocupação. Eu era apenas um consumidor casual, ninguém iria me reconhecer. O problema é que por causa do jornal eu não via nada na minha frente e meti o joelho com tudo numa prateleira de biscoitos, fazendo a padaria inteira olhar para mim.

Doeu. Muito. Mas não era hora de desistir. Fui mancando até a fila da confeitaria, ainda com o jornal aberto. Eu estava praticamente irreconhecível. Eles jamais recusariam carolinas à um cliente casual como eu. Conforme a fila ia avançando, eu ia chegando perto do balcão, sempre tomando o cuidado de manter o jornal aberto entre eu e os confeiteiros e aparentando despreocupação. Quando chegou minha vez, eu, ainda escondendo o rosto atrás do jornal, pedi, com o tom de voz mais casual que consegui:

– Hum... Oi? Ah, sim. Quero 1 kilo de carolinas!

Eles jamais desconfiaram de mim. Idiotas. Derrotados em seu próprio ambiente, porque me subestimaram! Jamais subestime a estratégia militar de Rob Gordon, a habilidade que ele possui de transformar a aparente derrota numa vitória inesquecível. E, com um kilo de carolinas, eu nunca mais precisaria de carolinas na vida! Vitória total!

– A carolina acabou.

Abaixei o jornal e tirei o óculos escuros.

– Como assim, acabou? Eu fiz tudo certinho! Planejei tudo com cuidado!

– É, mas acabou faz meia hora.

– Merda!

Virei as costas e chutei a geladeira de sorvete. Neste momento, ainda de costas para o balcão, percebi que eu jamais conseguiria derrotá-los. A saída era tentar comprar os confeiteiros. Vou fazer uma proposta que eles não poderão recusar. Ao mesmo tempo, subitamente, as imagens de Scarface surgiram à minha cabeça. É isso! A resposta é o Al Pacino! Basta mesclar a sutileza de O Poderoso Chefão e a agressividade de Scarface! É isso! Pacino nunca falha! Os confeiteiros não irão recusar minha proposta, ainda mais se eu usar a frase e o tom de voz corretos.

Joguei o jornal no chão, abri minha carteira e puxei meu cartão do banco. Virei para os confeiteiros, ergui o cartão do banco e gritei, fazendo a padaria inteira olhar para mim de novo:

– SAY HELLO TO MY LITTLE FRIEND!!!

O confeiteiro me olhou nos olhos. Assustado? Sim. Mas eu percebi a cobiça no seu olhar. Pronto. Ele estava sob meu controle. Mas, antes que eu pudesse perguntar "quanto você quer por um kilo de carolinas?", ouvi uma voz familiar vindo do meu lado.

– Não, não! Você já foi atendido! Se quiser comprar outra coisa, vá novamente para o final da fila, ou eu chamo o gerente!

Lentamente, virei a cabeça na direção. Eu sabia, era ela. Merda de velha! A padaria inteira começou a reclamar que eu tinha furado a fila. O confeiteiro me olhou com ar de superioridade, virou para a velha e disse:

– Pois não?

Enquanto eu caminhava cabisbaixo, na direção da porta, pude ouvir a velha pedindo dois croissants e um pão de torresmo. Olhei novamente para o confeiteiro, deixando claro que isso não iria ficar assim. Mesmo.

Mas nem eu tinha mais certeza disso.

(continua...)

4 de junho de 2007

Carolina - Parte I

Uma das coisas que minha mãe comentou comigo, quando mudei para Pinheiros, é “que o comércio daqui é muito bom”. Aliás, esse é o tipo de coisa que apenas mães reparam. Antes mesmo de eu me mudar, ela já conhecia todos os supermercados e farmácias num raio de 5 km do meu apartamento, com anotações e planilhas detalhadas sobre os preços e horários de funcionamento de todos. Eu? Eu demorei uma semana para achar uma banca de jornal.

Mas ela tem razão. O comércio aqui é realmente bom. Ao lado do meu apartamento, há umas cinco farmácias, oito bancas de jornais, dois supermercados (um deles, o famoso Pão de Açúcar, já citado várias vezes aqui) e uns quatro restaurantes por kilo. Na verdade, cinco, mas como um deles serve rodízio de sopa (o que chega a ser uma heresia com a palavra “rodízio”), então não o coloquei na lista. Sem dúvida, minha mãe tem razão. O comércio daqui é muito bom.

Exceto por uma coisa. Estou sendo boicotado na padaria ao lado de casa.

E sou cliente da padaria, almoço lá praticamente todo sábado. O garçom dali, inclusive, já me conhece e sabe como eu gosto da minha picanha (“mal-passada, né, mestre?"), do meu omelete (“com bastante bacon, né, mestre?”) e da minha Coca Light (só gelada, sem geli-limão, né, mestre?”).

Não, o pessoal da copa não tem nada a ver com isso.

São os malditos funcionários da confeitaria.

Tudo porque umas duas semanas atrás, acordei com vontade de comer carolina. Fui até lá, encostei no balcão, pedi 200 gramas e o funcionário me disse que as carolinas tinham acabado. Voltei no dia seguinte, e a história se repetiu. Voltei no terceiro dia, mas desta vez na hora do almoço. O balconista não conseguiu disfarçar a surpresa por me ver ali num horário inesperado. Gaguejou dizendo que as carolinas haviam acabado e rapidamente começou a atender outro cliente, sem me deixar chance de responder algo.

Comecei a desconfiar que algo estava errado. Não existe uma padaria que não tem carolinas. Tudo bem, admito que sou azarado (aliás, meu azar é como herpes: quando você acha que sarou, sofre um surto da doença), mas realmente comecei a desconfiar de tudo aquilo.

Minhas suspeitas se concretizaram dois dias depois. Fui atendido por um funcionário que não conhecia. Provavelmente era seu primeiro dia de trabalho. Pedi 200 gramas de carolina e ele, tranquilamente, me disse:

– Claro, só um minuto.

Enquanto ele virou as costas para ir buscar os doces, soltei um “yesss!” discreto na frente do balcão. Finalmente, eu havia triunfado! Comecei a sonhar com o sabor da cobertura de chocolate e do recheio de doce de leite espalhando pela minha boca. Como é doce o sabor da vitória! Ah, aqueles que esperam pacientemente pelos momentos de triunfo são recompensados! Prometo que não vou comer nenhuma no caminho de casa. Serei adulto, comerei apenas em casa. Afinal, convenhamos, é apenas um doce. Deus do céu, o gosto do doce de leite, a consistência da cobertura de chocola...

– A carolina acabou.

Senti um calafrio. Levantei os olhos lentamente. Na minha frente, estava um dos três funcionários que sempre me atendiam. Olhei ao redor e não vi nem sinal do balconista que havia me atendido. Provavelmente fizeram alguma coisa com o rapaz. Devia estar sendo espancado no depósito, ao lado dos sacos de farinha. Olhei para a copa. O garçom que sempre me atende estava observando tudo, mas, quando meus olhos encontraram os dele, abaixou a cabeça e fingiu que estava limpando uma mesa. Eles controlam a copa também! Até onde vai o poder desses confeiteiros? Mantive a calma e perguntei:

– Como assim acabou?

– Acabou. Mas ainda tem bomba.

– Não! Eu não quero bomba! Você não vai me comprar com uma bomba! Eu quero carolina!

– A carolina acabou.

– Vocês estão escondendo alguma coisa!

– Não, estou apenas dizendo que a carolina acab...

– Eu sei o que você está dizendo. E estou dizendo que não estou acreditando.

– Olha, a carolina acabou. Não sei se sai mais hoje.

Tirei o maço de cigarro do bolso. Coloquei um na boca e acendi com meu zippo dos The Bits. Deixei ele pendurado na boca e soltei o melhor olhar Clint Eastwood que consegui. Olhei dentro dos olhos dele e disse, calmamente:

– Eu sei o que você está pensando. Você está pensando se eu vou virar as costas e ir embora, ou se eu vou insistir. Mas, saiba que eu estou prestes a pular esse balcão, jogar você no chão e esmurrar sua cabeça até você confessar onde escondeu as carolinas. Então, quando você me viu nessa fila hoje, você deveria ter feito uma perguntado, para você mesmo: "estou me sentindo sortudo hoje?"

Eu podia sentir a tensão no ar. Dei uma pausa dramática e continuei, ainda com o cigarro na boca:

– Well... Do ya, punk?

Antes que ele pudesse responder, a tensão foi quebrada por uma velhinha gorda, que estava no final da fila e gritou:

– A fila não anda mais? Minha Nossa Senhora de Lurdes, que demora!

Merda de velha, estragou tudo!

Virei as costas e fui embora. Mas, antes de chegar à porta, virei para trás e olhei o confeiteiro nos olhos. Isso não ia ficar assim.

continua...