31 de outubro de 2011

Aos Mestres, com Carinho

Semana passada, enquanto respondia os comentários do blog, deixei avisado a dois leitores (Gaudio e Matheus Silva) que iria guardar as mensagens deles para responder futuramente, em um post que eu estava pensando.

Antes de continuarmos, quero mostrar trechos destes comentários.

"A capacidade que você teve de se expor nesse texto mostra a coragem que você tem dentro de si. A confiança que você teve de se abrir aos leitores mexeu demais comigo. Eu tenho um carinho imenso por esse blog por causa dessa generosidade que você tem de ao mesmo tempo escrever para você, escrever para os seus leitores. Essa via dupla que você tem aqui, e não digo só aqui nos comentários, me refiro aos próprios textos mesmo, é que me cativou muito."

(Gaudio, no post Carta Aberta a Rob Gordon)

"Eu sempre pensei que se tu mostrasse o teu rosto o blog perderia a graça, do mesmo jeito que depois que se vê um filme o livro perde um pouco da magia de imaginar cenários e personagens. Há algumas semanas tu começou a colocar fotos com o teu rosto, mas de nenhum modo o Champ perdeu o sentido. Parabéns pela bem sucedida aproximação com os leitores, coisa que tu sempre disse que era o mais importante."

(Matheus Silva, no post Man with a Hamornica)

Neste momento que estou vivendo, tenho escrito sobre muita coisa importante para mim, e já fazia tempo que eu estava com vontade de escrever sobre os meus leitores. Sim, sobre vocês.

A ideia vinha e voltava para a minha cabeça o tempo todo, e estes dois comentários vieram me mostrar que era hora de fazer isso. E já aviso de antemão que este é um daqueles “textos não planejados”, no qual eu vou pensando nele enquanto escrevo – isso pode sacrificar a qualidade do texto, mas me faz muito bem, então vai valer a pena.

Enfim, são anos e anos de blog. Ou melhor, de blogs – no plural. Convites para escrever em outros blogs. Dois livros publicados. Parcerias, publieditorais e por aí vai. E eu não teria conseguido nada disso sem vocês. Absolutamente nada. Afinal, uma pessoa que cria algo depende do público para sobreviver, e daí vem o enorme respeito com que eu sempre fiz questão de tratar os leitores aqui no blog.

Contudo, hoje não estou falando somente como escritor, mas também – e principalmente como pessoa. E é como pessoa que afirmo ter muito orgulho, muito orgulho mesmo, de ter vocês aqui, lendo o que escrevo. Porque, esta via de mão dupla que eu construí no blog (como disseram nos comentários acima) não foi construída com qualidade de texto ou com meia dúzia de piadas boas, mas sim com respeito e, principalmente, com honestidade.

Eu escrevo exatamente aquilo que sou. E creio é daí que vem esta proximidade com os leitores. Eu escrevo sem montar armadilhas ou tentando passar a impressão de ser algo que não sou – caso contrário, eu teria sido desmascarado no momento em que alguns leitores viraram amigos pessoais meus. Às vezes vocês dão risada aqui; às vezes vocês choram. Mas é sempre honesto. É sempre verdadeiro.

Isso aumenta ainda mais o orgulho que sinto em saber que vocês estão aí, em outras cidades e estados, até mesmo em países diferentes. E não tem absolutamente nada a respeito de ego, de vocês fazerem parte da minha vida. Sim, vocês fazem. Vocês mostram apoio a mim quando é preciso, se preocupam quando eu não estou bem, sentem falta do meu cachorro. A lista seria imensa.

Mas, novamente, caímos na via de mão dupla. Mais que isso, vocês compartilham suas histórias aqui. Suas experiências, suas vontades, suas piadas. Hoje, o Champ é formado por dois blogs: o meu blog, que são as postagens; e os comentários, que se tornaram um blog coletivo, do qual participo.

O que estou tentando dizer é que sinto orgulho por vocês fazerem parte da minha vida, mas meu orgulho maior é por permitir que, com meus textos, eu faça parte da vida de vocês.

Vocês não fazem ideia da honra que eu sinto com tudo isso. Como pessoa e como escritor.

Às vezes, até me assusto (no melhor sentido possível) com a intimidade que eu e vocês temos. Outro dia mesmo, conversando com a Ana ela argumentou que “você tem fãs”. E eu devolvi o que sempre respondo nestas horas: “não, não tenho. Eu tenho amigos”. E desde o post Uma Verdade Inconveniente, eu tenho mais e mais certeza disso. Desde o post Uma Verdade Inconveniente, vocês ganharam outra dimensão para mim, ainda maior do que antes – e olhe que antes mesmo já era enorme.

E, vejam bem, não estou aqui tentando vender nada, muito menos vender a mim mesmo como “alguém legal”. Não sou candidato a nada, muito menos tentando conquistar vocês com o truque do “ele tem um blog legal e me trata como amigo”. Não, conquistar leitores se faz com textos e só – mesmo porque uma mentira destas jamais se sustentaria por muito tempo.

Mas meu ponto é: não estou tentando mostrar que sou uma pessoa boa, ou legal, ou nada de bom. Aliás, é justamente o contrário. Exponho minhas falhas aqui, meus questionamentos. Busco, com vocês, respostas para situações que não entendo.

E tenho muito mais defeitos que qualidades – aliás, talvez minha maior qualidade seja a capacidade de admitir que eu tenha muitos defeitos. Já errei? Muito. Já errei com gente que não merecia, já errei com gente que merecia (o que ainda considero um erro, já que parto do princípio que “o erro de um não justifica o erro do outro”, como meu pai sempre me ensinou). E já errei muito comigo, como qualquer outra pessoa. Não tento ser perfeito, tento apenas dar o melhor de mim.

Mas me orgulho de nunca ter errado com vocês. Tento sempre ser o mais acessível possível, dando atenção a todos os leitores. Quando não respondo no Twitter, é porque não vi. Nos últimos tempos, muitos leitores me mandaram e-mails e, como já disse, alguns eu não respondi por causa de tudo o que estou passando e que, às vezes, parece ser uma barreira.

Mas, por outro lado, nunca me furtei a ajudar algum de vocês com um texto, revisando ou dando palpites ou azeitadas quando sou solicitado. E sempre guardo para mim, sem fazer propaganda disso. E sou sincero: quando o texto está ótimo, eu faço questão de dizer isso para a pessoa, da forma mais humilde que encontro – sempre tratando como um colega de letras.

É assim que sou. Não sinto inveja de um texto melhor que o meu; pelo contrário, sou o primeiro a elogiar. Não sinto inveja de blogs melhores que os meus (e olhe que são muitos); pelo contrário, tento aprender com eles. Mas sei que existe muita gente que faz o contrário. Como a Natalia Máximo disse neste post, “gente a milhares de quilômetros de distância torcendo para dar merda na vida alheia”. Verdade. Infelizmente, verdade.

Eu? Eu prefiro cuidar de mim e me esforçar para entregar a vocês sempre o melhor texto que eu puder fazer – é a minha obrigação como criador dos blogs. Um texto que faça vocês rirem sem eu precisar inventar situações dignas de filmes ou algo que não sou; um texto que faça vocês chorarem sem eu precisar bancar o coitadinho. Porque isso eu tenho orgulho de dizer que nunca fiz.

Aliás, algumas pessoas vieram me alertar a respeito de comentários soltos na internet sobre eu ter inventado essa história de depressão para chamar a atenção. Bem, como eu disse, são sete bilhões de pessoas e a internet é grande demais. Optei em pensar que os comentários não eram direcionados a mim e continuei tocando minha vida, que certamente é “um pouco” maior que isso. Da mesma forma que reagi ao ser acusado de ter "me tornado uma pessoa chata" pouco antes da depressão ter sido diagnosticada.

Enfim, cada um escolhe o caminho que quer.

Eu, deste lado, me sinto cada vez mais orgulhoso do caminho que escolhi, e de ter adotado a escrita como forma de ganhar a vida. E não por salário ou fama, mas porque me faz bem. E também porque eu conquistei um bem precioso demais com ela: toneladas de amigos que, muitas vezes sem sequer ter me encontrado pessoalmente, estão aqui, torcendo, compartilhando, questionando, aconselhando.

Sinceramente? Isso não tem preço. Porque isso não se conquista de forma fácil. Uma vez eu disse que o maior bem do Champ eram os leitores. E neste momento, eu consigo justificar isso contando uma história que rolou semana passada.

Eu estava em uma reunião de trabalho e foi dito que a meta de um texto não é mudar a vida de uma pessoa, mas sim mudar o dia dela, melhorar o dia dela de alguma forma. Eu sempre concordei com isso e é o que tento fazer aqui há anos. Uno o útil ao agradável: sempre adorei escrever (para mim, é como se fosse um videogame) e, se eu consigo colorir um pouco o dia de quem lê, melhor ainda. Esta é a minha função como escritor.

Mas, já faz muito tempo, muito tempo mesmo, que a cada comentário que vocês postam aqui, vocês melhoram muito o meu dia. Adoraria citar o nome de todos vocês, mas poderia acidentalmente deixar alguém de fora. Mas saibam que estou me referindo a todos vocês – mesmo aqueles que ainda não comentaram aqui, e que adoraria que se apresentassem agora.

Eu não tenho como agradecer a vocês por isso. Não da forma que seria merecido. Assim, eu pretendo apenas continuar entregando o melhor texto possível, e sendo sempre do jeito que sou. É o mínimo que posso fazer por vocês. E é o que farei, sempre.

E encerro este texto me curvando em agradecimento. Afinal, se eu sou artista por escrever, vocês também são. E, muitas vezes, melhores que eu. A prova disso está nos comentários que vocês deixam aqui.


Este texto é dedicado a todos os leitores,
e é uma forma de agradecer ao Gilgomex,
que publicou este post sobre mim na semana passada.
Obrigado, irmão.

Escritor Suspeito de Crime Desaparece em Pinheiros

A morte de um jovem mouse no bairro de Pinheiros, na capital paulista (relembre o caso aqui), continua causando polêmica entre a opinião pública e as autoridades. Durante todo o domingo, a polícia colheu depoimentos de diversas testemunhas da tragédia, tentando elucidar as verdadeiras causas do falecimento do pequeno aparelho, o que levou à expedição do mandado de prisão para Rob Gordon, acusado de homicídio culposo.

Gordon, antigo proprietário do mouse, foi, justamente, o primeiro a depor na delegacia. Ao deixar o local, declarou a imprensa não ter culpa do ocorrido e estar muito abalado com o fato. “Era o mouse que eu usava no meu dia a dia, e [ele] não deixou absolutamente nada como herança. Como as pessoas estão pensando que eu fiz isso?”, comentou com os jornalistas. Antes de deixar o local, porém, diversas testemunhas afirmaram ter ouvido o suspeito resmungando “isso é coisa daquele cachorro, eu vou matar aquele filho da puta”.

Gordon referia-se ao seu cachorro, Besta-Fera, canino da raça West Highland White Terrier. Por volta das 16h00min de ontem, Besta-Fera chegou à delegacia, deixando o local somente pouco antes da meia noite. Fontes policiais indicam que a testemunha considerou Rob Gordon totalmente culpado pelo crime e acrescentou que o escritor ainda manteria um antigo aparelho de som aprisionado em seu guarda-roupa, o que pode lhe render também acusação de cárcere privado e maus-tratos.

Esta manhã, a polícia cercou o prédio em Pinheiros onde o escritor mora, mas ele não foi encontrado. Os funcionários do prédio afirmam que ele saiu de madrugada, rapidamente, com malas. “Se vocês acharem ele, é um carequinha, bem careca e bem baixinho, avisa a ele que tem uma carta da Tim aqui na portaria pra ele pegar”, exclamou um dos porteiros do edifício.

Mas a busca no apartamento do escritor não foi totalmente infrutífera. De acordo com nota oficial da polícia, realmente havia um aparelho de som sendo mantido como escravo (funcionando como apoio para livros) dentro de um dos armários, o que corrobora o depoimento de Besta-Fera.

Desta forma, Gordon passa a ser considerado como fugitivo da lei, e diversas fotografias suas estão sendo enviadas para a imprensa e para os aeroportos, contando com o apoio das autoridades internacionais. A polícia oferece recompensa por informações a respeito de seu paradeiro – e diversos aparelhos eletrônicos da casa de Gordon declararam estar organizando uma vaquinha para contratarem um detetive particular e um assassino profissional.


29 de outubro de 2011

Autoridades investigam afogamento de mouse em Pinheiros

Uma tragédia se abateu sobre um pequeno apartamento no bairro de Pinheiros, na capital paulistana, nesta sexta-feira, 28 de outubro, culminando no falecimento de um pequeno mouse Logitech, de apenas sete meses de idade. Após se afogar em um balde, o pequeno aparelho não resistiu ao incidente e acabou perdendo a vida antes mesmo de ser transportado ao hospital.

O blogueiro e escritor Rob Gordon, proprietário do falecido aparelho, permanecia inconsolável enquanto conversava com a reportagem do Champ Vinyl. “Eu não sei ao certo como tudo aconteceu, foi tudo muito rápido”, exclamou Gordon, 36 anos.

De acordo com ele, uma extensa faxina estava sendo realizada no apartamento no dia, e um balde com água estava depositado próximo ao sofá onde o mouse repousava ao lado do notebook. Em determinado momento do dia, Gordon foi checar seus e-mails e, ao se sentar no sofá, atrapalhou-se com o fio e o mouse acabou escorregando para dentro do balde. “Eu tentei resgatá-lo imediatamente, mas a água estava muito suja e tive dificuldades em encontrá-lo”, lamenta o escritor.

Uma testemunha ocular do acontecimento, o pequeno cão Besta-Fera, de aproximadamente seis anos, afirma que o ocorrido foi uma espécie de crônica de uma morte anunciada. “Ele parecia um imbecil com este mouse”, explica o pequeno cachorro da raça Westie. De acordo com o animal, sempre que Gordon se levantava do sofá, acabava se enroscando no fio do mouse, derrubando o pequeno aparelho ao chão.

Para as autoridades locais, isso caracteriza um descaso de Gordon com o aparelho. Ainda de acordo com Fera, 5, o escritor chegou até mesmo a colocar sua própria vida em risco. “Diversas vezes vi Gordon deitado no chão da sala, com suas pernas enroscadas no cabo do mouse. Em outra ocasião, ele quase se enforcou com o cabo ao levantar para atender ao telefone”, finaliza.

O depoimento de Fera será colhido pela polícia, e poderá resultar na acusação de homicídio doloso para Gordon. Ao ser questionado sobre o tema, durante o funeral do pequeno finado, o blogueiro não quis se manifestar sobre o assunto – mas, ao se afastar apressadamente, a reportagem pôde ouvi-lo resmungando a expressão “ô fase”.

De acordo com um eletrodoméstico da casa do escritor, ainda neste final de semana, diversos aparelhos da casa de Gordon realizarão uma pequena manifestação para exigir mais segurança no local, o que pode prejudicar ainda mais a situação do escritor. “Ele é praticamente um imbecil. Se deseja se matar, que o faça sozinho”, explicou o aparelho, que não quis se identificar.

27 de outubro de 2011

JFK - A Esfiha que não Quer Chegar

John Kennedy foi morto em 22 de novembro de 1963, na cidade de Dallas.

De acordo com a versão oficial, o autor dos disparos foi o ex-fuzileiro naval Lee Harvey Oswald. Para aumentar ainda mais a dramaticidade do caso, dois dias após o crime, o assassino foi morto pelo mafioso Jack Ruby, quando era transferido para a prisão estadual.

Até hoje não se sabe ao certo quem assassinou Kennedy. Muitos apontam uma teoria da conspiração envolvendo a CIA e a Máfia, o que colocaria Oswald como um bode expiatório. Sua morte teria sido apenas uma queima de arquivo, visto que ele sabia demais.

Provavelmente, nunca se saberá ao certo quem ordenou os disparos, tampouco quem os efetuou de verdade. Contudo, após um exaustivo trabalho de investigação, descobri que até mesmo a morte de Oswald – que ocorreu em frente às câmeras de televisão – foi uma farsa.

Lee Harvey Oswald está vivo.

Lee Harvey Oswald, o homem acusado de assassinar o presidente John Fitzgerald Kennedy, mora hoje no Brasil e ganha a vida trabalhando como garçom no Habib’s da Avenida Lins de Vasconcelos. E, mesmo após entrar para a história como o autor do assassinato mais famoso do século 20, suas ambições não cessaram.

Hoje, ele luta para ser imortalizado de como o garçom mais tapado da história.
Dia desses fui almoçar lá com a Namorada. Sentamos e o Oswald veio nos atender. Sem exageros, era igualzinho ao assassino do Kennedy. Segurei a risada e pedimos duas Cocas e o cardápio.

Ele trouxe tudo e esperou para anotar os pedidos. Primeiro foi a vez da Namorada, que pediu um Bib’s Burger Salad.

O ex-fuzileiro naval a encarou com um olhar levemente vago.

- É o Bib’s Chicken Salad?

- Não. É o Bib’s Burger Salad.

- Qual?, ele perguntou, sem disfarçar a curiosidade.

- O Bib’s Burger Salad.

Aparentemente, ele não conhecia o sanduíche. Seu rosto logo se transmutou em um enorme ponto de interrogação. Dei um gole na Coca, peguei o cardápio e mostrei a ele.

- Ela quer esse aqui.

Ele olhou o cardápio de perto, tentando decifrar o que estava escrito. Provavelmente, ainda não aprendera português fluente e estava olhando as imagens. Tive que pegar o cardápio e apontar as palavras “Bib’s”, “Burger” e “Salad” para ele, lendo cada uma delas em voz alta e de forma pausada. Ao que parece, deu resultado e ele anotou alguma coisa.

Era minha vez. Pedi uma esfiha de carne e duas de azia (aquela com cheddar e peperone).

- Qual?

- A de cheddar com peperone.

- Ah, sim.

- Duas.

- E duas de carne?

- Uma de carne. Duas de cheddar com peperone.

- Uma de carne?

A Namorada não se conteve e chamou a responsabilidade para si.

- Duas de cheddar com peperone, uma de carne e um Bib’s Burger Salad. Entendeu?

- Entendeu.

Não, isso não é um erro de digitação. Lee Oswald realmente respondeu “entendeu”, falando de si mesmo na terceira pessoa, mostrando que ainda está longe de dominar o português. Ao terminar de anotar o pedido, ele perguntou:

- E para beber?

- Oi?

- Para beber?

Não aguentei.

- Duas Cocas. Mas podem ser estas que já estão aqui. Estas que estamos bebendo enquanto conversamos com você servem.

- Ah, essas?

- Isso.

- Então vocês não querem nada para beber?

Dei um gole na minha Coca de forma bem lenta, torcendo para que ele concluísse que aquele gesto indicava que talvez eu já possuísse algo para beber. Mas ele apenas me observou em silêncio, com aquele olhar perdido. Desisti e decidi ir pelo caminho mais fácil. Pousei o copo na mesa e engoli o último gole sem pressa alguma.

- Não, nada para beber, obrigado.

- Certo.

E foi-se embora, provavelmente pensando como algumas pessoas conseguem almoçar sem beber nada, e o quanto a vida destas mesmas pessoas deve ser sem graça. Aposto cinquenta reais que, em algum momento entre minha mesa e a cozinha, ele pensou que “eu teria pedido uma Coca”.

Isto tudo ocorreu em aproximadamente cinco minutos, e ficamos por cerca de uma hora no Habib’s, comendo outras coisas. Destes sessenta minutos, passamos pelo menos vinte conversando com o Oswald.

Numa situação normal, eu teria perguntado a ele como era a vida na União Soviética, se ele realmente acha possível a teoria montada pela CIA de que ele teria dado três disparos precisos na direção do presidente em seis segundos. Era uma oportunidade histórica. Provavelmente a CIA me assassinaria ali na calçada da Lins de Vasconcelos assim que eu colocasse os pés para fora do Habib’s, mas era a grande oportunidade de elucidar um dos maiores crimes da história.

Infelizmente, o mistério sobre a morte de Kennedy continua, pois gastei todo este tempo tentando fazer com que Oswald compreendesse algumas ideias complexas, como o que seria um pastel de queijo, e as diferenças entre os conceitos de “este copo vazio aqui na minha mesa” e “a bebida que eu pedi e você não trouxe”, que ele teve grande dificuldade em assimilar.

Uma hora depois, pagamos e fomos embora, sendo acompanhados pelo olhar perdido de Oswald, que parou de anotar o pedido de outra mesa, distraído com o fato de que havíamos nos levantado para ir embora. Isso faz dois dias. Provavelmente, ele ainda está de pé no meio do salão, tentando entender o que aconteceu, e sem compreender como as pessoas podem comer sem beber nada.

E, dentro de sua mente perturbada, perdida entre as palavras “Burger”, “Peperone” e “Coca”, seus dois neurônios guardam a resposta para um dos maiores enigmas da história da humanidade.


Lee Harvey Oswald segurando o troféu de funcionário do mês do Habib's.
Evidentemente, trata-se de uma montagem.

26 de outubro de 2011

A Doce Ausência de Lembranças


Dia desses, estava conversando sobre meus dois avôs e o quão pouco me lembro deles.

Explico melhor: nasci em São Paulo, mas, quando eu tinha cinco anos, fui morar em Manaus, pois meu pai foi trabalhar lá. E como todos os meus parentes moravam aqui, eu fiquei praticamente dois anos sem ver minha família. As exceções foram as (poucas) visitas que recebemos e os Natais, época na qual vínhamos para a casa de uma tia e matávamos a saudade de todo mundo.

Essa fase “região Norte” na minha vida durou até o final de 1982 (sim, eu sou velho e não quero falar sobre isso). Contudo, o ano de 1982 foi muito triste. No primeiro semestre, perdi meu avô paterno. Menos de seis meses depois, o avô materno. Os dois faleceram vítimas de câncer, o que me deixou sem avô algum e sem um pedaço de infância. No final do ano, voltamos para São Paulo, e eu descobri que a cidade em que nasci havia se tornado um pouco mais sem graça.

(leia mais aqui)

23 de outubro de 2011

Carta Aberta a Rob Gordon

Rob:

Eu me lembro do dia em que entrei aqui na sua casa pela primeira vez. Achei a casa grande demais – ao menos, ela era maior do que o canto que eu dormia com meu irmão – e você deixou que eu ficasse totalmente solto, andando para lá e para cá, coisa que eu não podia fazer naquela outra casa.

Acho que eu nunca tinha sentido tantos cheiros diferentes ao mesmo tempo. Fora que você tinha um monte de coisa para mim. Tigelas, brinquedos, panos, caminha. Eu havia nascido pouco mais de dois meses antes, mas, naquela noite, eu descobri o mundo. Ou, ao menos, o meu mundo.

Naquela mesma noite, você espalhou toneladas de papel pela sala. Eu não entendi direito o que você estava fazendo – somente dias depois fiquei sabendo que você precisava reunir alguns documentos para o imposto de renda, seja lá o que for isso. Mas o que eu me lembro, de verdade, foi o grito que você deu quando eu abocanhei um dos envelopes e saí andando com ele pela sala.

Lembro que quase caí enquanto andava, porque o envelope era maior que eu. Mesmo assim, sei que foi uma boa ideia. Porque, depois do seu grito – que foi de felicidade – você gargalhou alto. Deixou todos aqueles papéis de lado, se sentou no chão ao meu lado e me levantou nos braços. Eu lembro que você beijou meu rosto e, ainda rindo, prometeu que ia cuidar de mim para sempre.

Não sei se foi na gargalhada ou no beijo que você se tornou melhor amigo. Mas, quando você disse que iria cuidar de mim para sempre, isso já havia acontecido. Neste momento, eu sorri para você, mas não sei se você viu, porque nem sempre vocês, humanos, percebem quando nós estamos sorrindo.



Isso faz tanto tempo.

De lá para cá, eu me recordo de muita coisa. Lembro-me dos primeiros meses, que você deixava de almoçar todos os dias para vir até aqui ver se eu estava bem.

Nesta época, eu ainda não conseguia subir na cama, e dormia enroladinho no chão ao seu lado. Quantas e quantas noites você acordava de madrugada e me perguntava se eu estava bem? Até hoje nunca entendi se você acordava porque estava tendo um pesadelo, ou porque eu estava tendo um pesadelo. Não importa. Você ficava passando a mão na minha cabeça até eu dormir novamente – e é isso que eu me lembro.

Claro que me lembro das brigas que tivemos, especialmente quando o sofá da sua casa aparecia destruído. Ou da noite em que você encontrou aquela revista em quadrinhos que você gostava toda rasgada e com marcas de dentes. Ou a caminha que você comprou para mim. E esta queria falar hoje que destruí de propósito. Mas não foi birra ou arte, foi apenas porque eu não queria dormir na sala: eu queria dormir no quarto com você, que é onde dormi desde a primeira noite, aquela dos papéis.

Sim, nós tivemos muitas brigas. E você nunca me bateu, nem mesmo aquela vez que eu escapei para o hall e invadi o apartamento da vizinha cheio de gente, no meio de uma festa.

Não importa o que eu aprontasse, você nunca me bateu. Você ficava nervoso, quebrava a casa inteira, me xingava, mas nunca me bateu. Isso pode parecer pouca coisa quando se pensa em amigos. Mas, no momento que pensamos que eu sou um cachorro, você nunca me bater significa demais para mim.

Hoje, tudo parece fazer tanto tempo...

Mas tenho essa sensação apenas porque já vivemos muita coisa depois. Sei que você não gosta de falar disso, mas lembra-se daquela vez em que estávamos passeando, e a coleira escapou? Eu me assustei e você se assustou, e o resultado é que corremos metros por aquela avenida, com você atrás de mim. Foi meio confuso, não me lembro de tudo...

Mas eu lembro com clareza mesmo do momento em que você me alcançou, se ajoelhou no meio da rua e me abraçou com força. Você não falou nada – eu lembro que você tremia – mas eu entendi o que você queria dizer em seu silêncio e obedeci. Porque vi que mesmo sem palavras, você estava falando muito sério. E eu nunca mais fiz isso.

Mas o que me fez escrever este texto para você não são as memórias de uma caminha destruída, ou da vez em que escapei da rua. Elas estão comigo e com você, e não precisam mais ser citadas. Quero falar mesmo de outras memórias. Das melhores que eu tenho na vida.

Você sabe do que estou falando. São as noites em que dançamos junto na sala – você em pé no chão, eu em pé no sofá –, com você cantando aquelas musiquinhas horríveis que você compõe nestas horas, usando o meu nome; são as tardes que brincamos de luta na sala, rolando entre os móveis até não aguentarmos mais de cansaço. Ou mesmo quando brincamos de polícia e ladrão em casa: você com seus dedos como arma, e eu me escondo correndo, ficando pronto para atacar.

Mas nós não precisávamos brincar o tempo inteiro. Quantos textos você fez no computador enquanto eu dormia com a cabeça no seu pé? Quantos filmes e séries nós assistimos juntos, com você passando a mão na minha cabeça e eu deitado no seu colo? Quantas noites nós brigamos dormindo, disputando palmo a palmo os melhores lugares da cama? Incontáveis.

Mas sempre juntos. Sempre.

Hoje nós estamos mais velhos. Mas eu ainda me sinto um filhote sempre que a porta do apartamento se abre e você grita um “meu amor!” quando me vê no sofá. E fico irritado quando você entra aqui e, fingindo que não está me enxergando, dizendo que “quando eu saí de casa, tinha um cachorro aqui dentro, onde está ele?” e eu pulando do seu lado. Mas minha irritação passa rápido quando você se cansa disso, me abraça e me levanta, beijando meu rosto e perguntando como foi meu dia.

Sinceramente? Os dias em que ficamos juntos são um paraíso para mim. Todos eles.

Mas já faz bastante tempo que eu você começou a mudar. Em algumas noites, você não brincava mais ao entrar em casa. Você apenas se sentava no chão da sala, encostado na porta, e conversava comigo, falando sobre seu dia, sobre o que você estava sentindo. Às vezes você chorava ali. E eu ficava ao seu lado, ouvindo e fazendo o que pudesse. Em algumas noites ficamos assim, “conversando”, por horas. Você deve se recordar de algumas delas. Eu me lembro de todas.


E você não deve saber disso, mas nestas noites era eu quem te acordava de madrugada para saber se você estava bem. Porque você estava tendo pesadelos. Eu lambia sua testa até você acordar e parar se gemer e se mexer. Você se acomodava e eu ficava acordado, observando, até estar certo de que você havia dormido novamente. Só então eu dormia novamente, mantendo um olho aberto. Mantendo um olho em você.

E, no dia seguinte, você saia de casa apenas para voltar do mesmo jeito. Fiquei com medo de que você ficar assim para sempre. Mas, de meses para cá, você piorou.

Eu vi você sentado horas no sofá, praticamente inerte, olhando para o nada e pensando sobre tudo. Eu não podia fazer muita coisa, então apenas ficava deitado ao seu pé, para mostrar que você não estava sozinho. Para mostrar que, desde o dia em que eu carreguei aquele envelope, você nunca mais esteve sozinho, mesmo que a vida tentou lhe mostrar o contrário em alguns momentos. E mesmo que você tenha acreditado nela. Você nunca esteve sozinho.

E, nestes últimos meses, lembro-me também dos piores dias. Você certamente se lembra deles, mas talvez não tenha memória de tudo, por terem sido muito fortes, da mesma forma que eu não me lembro de tudo o dia em que escapei na rua.

E praticamente não reconheci o meu amigo naquela pessoa chorando quase deitada no chão da cozinha; naquela pessoa que às vezes, gritava coisas ininteligíveis pela casa, durante horas; naquela pessoa que às vezes sentava no sofá e ficava uma tarde inteira imóvel, olhando para a parede, antes de explodir.

E eu vi tudo isso.

Assisti a tudo com atenção – e de certa distância, confesso. E não por medo, mas por não saber ao certo o que fazer, ou como eu poderia te ajudar. E só depois que você se acalmava eu me aproximava, me deitada ao seu lado e às vezes, lambia sua mão. Talvez eu pudesse ter feito mais. Talvez. Mas, na verdade, tudo o que eu consegui foi isso: mostrar que você não estava sozinho.

Por isso que fiquei mais tranquilo quando você começou a ter estas crises com a Ana em casa. A Ana impedia que você se machucasse – eu vi você se machucando, Rob, e quase morri de tristeza. A Ana sentava ao seu lado e falava com você. Eu não ouvia o que ela dizia, mas parecia fazer efeito. Não na mesma hora – às vezes, era mais de uma hora até você se acalmar e literalmente apagar. Mas ela acalmava você. Assim como eu, ela mostrava que você não estava sozinho. É por isso que eu gosto tanto dela.

E aí você começou a tomar remédios. Caixas e caixas de remédio na mesa da sala. Hoje, eu vejo que você está bem melhor, e me torno o mais feliz dos cachorros por isso. Porque eu vejo que meu melhor amigo está voltando a ser meu melhor amigo. Seu olho ainda não brilha da mesma forma, e nós brincamos bem menos do que brincávamos antes, mas eu sou paciente e vou esperar. Porque eu sei que você vai voltar.

Porque, desde que cheguei à sua casa, todos os dias de manhã você sai de casa passando a mão na minha cabeça e prometendo que irá voltar. E eu preciso que você prometa isso agora – porque você sempre foi e sempre será o meu melhor amigo. E eu preciso de você bem, como qualquer amigo de verdade precisaria.

E é por isso que eu tomei a liberdade de tirar estas fotos com você e escrever este texto. Não para que você se lembre da nossa amizade ou de mim. Eu sei que um dia não estarei mais aqui, mas sempre que olhei nos seus olhos tive a certeza de que você se lembrará de mim para sempre. Não. Eu não escrevi isso para que você se lembre de mim.



Eu escrevi isso para pedir que você nunca se esqueça de pessoa que você é.

Amo você.

Do amigo,

Besta-Fera.

21 de outubro de 2011

Cantigas de Ninar


Eu sempre fui apaixonado por música.

Ok, sempre é exagero. Digamos que sou apaixonado por música desde os 14 anos, mas, quando você tem 36 anos e faz algo desde os 14, a impressão que você tem é a de que fez isso a vida inteira – se você não tem 36 anos, confie em mim, é assim que acontece.

E, dentro da minha paixão musical, outras paixões nasceram – e não me refiro a estilos musicais preferidos, mas, sim, a um pequeno ritual que descobri quando ganhei meu primeiro aparelho de som portátil: dormir ouvindo música.

(leia mais aqui)

Oitocentos e Pouco

E assim, como quem não quer nada e de mansinho, este blog chegou aos 800 posts. Aconteceu alguns dias atrás, neste texto aqui (daí o título deste post, pois este texto aqui é o 805). E deixei a comemoração de lado porque muitos outros assuntos (show do Clapton, meus amigos da faculdade, minha nova tatuagem) cairam no meu colo antes disso.

Mesmo assim, a marca é importante. São 800 textos que, somados, contam uma boa parte da minha vida. E, como em qualquer vida, alguns foram escritos com gargalhadas enquanto outros foram redigidos com lágrimas. Espero que tenham gostado da viagem até agora, porque eu adorei.

E tenho certeza de que ela irá melhorar ainda mais.

Muito obrigado por estarem aí do outro lado.

Muito obrigado mesmo.

19 de outubro de 2011

Devil's Tattoo Blues

I woke up one morning, with troubled heart and worried mind.
Yeah, woke up one morning, with troubled heart and worried mind.
So I put on my shoes and grab my coat, and left my life behind.

Went down to a dirty joint, and asked the Lord for some booze.
Went down to a dirty joint, and I asked the Lord for some booze.
Three bourbons later, I prayed my thanks and played my blues.

Later that night, I walked down the road with Satan on my side.
Later that night, I walked down the road with Satan on my side.
It was a beautiful lady, and she put my body and my soul on fire.

At the crossroad she drew a picture in my arm and gave some gin.
At the crossroad she drew a picture in my arm and gave some gin.
So now I got the blues on my heart, and carry the blues on my skin.

So now I got the blues on my heart…
And carry the blues on my skin.


Algumas pessoas, ao lerem o texto acima, me perguntaram se eu traduzi a letra de algum blues antigo. Não. Eu escrevi isso, em inglês mesmo (a tradução, para os leitores que não falam inglês, está no primeiro comentário do texto) para homenagear minha nova tatuagem.

Eu adoraria escrever aqui um enorme texto justificando a importância do blues dentro da minha vida (e, em especial, do momento que estou vivendo), como fiz com a tatuagem dos Beatles. Mas, ao invés disso, resolvi que a melhor forma de fazer isso seria justamente compondo um blues com os elementos – e sob a fórmula – das canções antigas, cantadas em estradas e bares por Robert Johnson, Lead Belly e Charley Patton.

São músicas e nomes de uma fase que considero a mais apaixonante dentro do blues e que está totalmemente retratada dentro desta ilustração. Em tempo: quem ainda não reconheceu o desenho do gaitista, segue a fonte original.


Vale lembrar que estas fotos não são definitivas – o “blues” ainda parece torto e fora de perspectiva, por exemplo, pois meu braço ainda está bastante inchado; e o branco da camisa ainda irá "subir". Assim que a pele voltar ao normal, posto uma nova foto.

E, claro, se algum leitor com talento musical decidir tirar a música “do papel”, basta gravar ao ritmo de um velho blues e mandar o vídeo para cá, que entra no blog com pompa e circunstância. E com direito a uísque de milho.

Mas, como eu disse no meu blues, agora eu carrego o blues na minha pele.

Para sempre.

16 de outubro de 2011

Os Bons Companheiros

Eu sempre fui muito apegado aos meus amigos. E, quando digo amigos, me refiro àquele pequeno grupo de pessoas que, num dia como qualquer outro, você percebe que irão passar o resto da vida com você, não importa o que aconteça. São pessoas que você conhece em diferentes lugares e épocas, mas que formam uma espécie de segunda família.

Alguns destes amigos, eu conheci na faculdade. De lá para cá, já se passaram quase vinte anos (eu entrei na faculdade em 1995), mas estamos aí, sempre juntos. Ou não, já que hoje nosso grupo se espalhou literalmente pelo Brasil inteiro, e a correria do dia a dia impede que mesmo aqueles que moram próximos uns dos outros se vejam com a frequência que seria justa.

Mas a distância não impede que nós mudemos. Nem mesmo o tempo. Alguns estão casados – no caso de um deles, fui eu quem realizou a cerimônia, que é uma das maiores honras que carrego comigo – um punhado deles já possui filhos. Mas nós continuamos os mesmos: as memórias e as histórias aumentam, mas o prazer de estarmos juntos não muda nunca.

Pelo contrário. Como agora conseguimos nos ver direito somente em casamentos, o prazer em estar junto aumenta a cada vez que nos encontramos. Justamente por isso que cada ocasião desta é um evento para cada um de nós: podemos voltar a ter 20 e poucos anos por algumas horas, e transformar qualquer acontecimento em piadas de você – às vezes, literalmente – cair no chão de tanto rir.

Porque basta estarmos juntos para começar o festival de bobagens. Costumo dizer para algumas pessoas que o volume de gargalhadas que eu soltei nos meus quatro anos de faculdade é maior que o de todas as outras épocas da minha vida somadas, e é bem provável que isso seja verdade.

E somos assim desde o tempo da faculdade. Unidos – um deles em especial está sempre comentando aqui no blog – e dementes – entre meus leitores, há um ex-professor nosso que certamente se lembra do nosso comportamento em aula.

Quando estamos juntos, as piadas se tornam afiadas, se emendam com outras – nós praticamente nos desafiamos a ver quem consegue superar o outro em termos de falar bobagem – porque falar bobagem é uma arte: demanda talento, inspiração e raciocínio rápido. E, modéstia à parte, nós temos isso de sobra. É quase um campeonato, onde todos são vencedores.

E foi isso que aconteceu este final de semana. Com o casamento de um deles, nos encontramos. Não todos, mas quase. Não todos, mas o suficiente. O suficiente para que eu fosse dormir com o maxilar doendo.

Claro que, como em qualquer casamento, a bebida ajudou. Eu tenho evitado beber quase totalmente por causa da depressão, mas os remédios não me impedem de beber. O que é uma benção – caso contrário, eu teria morrido neste final de semana. Vale lembrar que o álcool começou já na sexta-feira, com o aniversário da leitora-que-virou-amiga @nataliamaximo.

Mas a coisa ficou feia mesmo ontem, ao lado dos amigos da faculdade. Foi quase uma fórmula com uísque, piada, gargalhada, uísque, piada, gargalhada. E quando eu digo gargalhada não estou falando de rir alto. Sabe aquela gargalhada que você não consegue parar de rir, e a barriga começa a doer? Quando estamos juntos, um de nós solta uma dessas em cada dez minutos, sem exageros.

As bobagens começaram já no início da festa e, conforme o uísque subia, o volume das piadas subia junto. Em poucos minutos, começamos a achar todo mundo parecido com todo mundo – somos mestres nisso, como já falei antes aqui no blog – começamos a conquistar a festa.

Achamos um Gollum e, bêbados, fomos tirar foto com ele – cada um com um anel, fazendo cara de “Precious” e o velhinho, no meio, tão bêbado quanto nós, rindo alucinadamente com nossas palhaçadas. Fizemos uma aposta sobre quem acabaria a noite com a tia do uísque – especialmente porque demoramos quase uma hora para descobrir se era tio ou tia – e todos tiramos fotos com ela. Devemos ter tirado fotos com os outros garçons – sinceramente, não lembro ao certo – já que muitos deles rachavam de rir assim que chegavam perto de nós.

Digo “perto de nós” e não “perto de nossas mesas” porque a esta altura já não éramos mais convidados em uma mesa, éramos a festa. Isso sempre acontece com a gente. Quando percebemos, a festa inteira estava ao nosso redor, com outros convidados – gente que nunca vimos na vida - gargalhando com a gente e querendo participar de tudo.

E desce uísque. E mais pessoas começam a aparecer ao nosso lado. Certamente, devem existir pessoas que hoje se lembram de nós como “aqueles animais que estudaram com o noivo”, mas sei que muita gente hoje se lembra de nós como “os loucos”. E desce uísque. Lembro-me de ter que fugir em alguns momentos para fora do buffet em busca de ar, de tanto que eu ria, e ser acompanhado por pessoas que não sabia nem o nome, e riam mais que eu. E desce uísque.

E de repente, você se descobre bêbado. Bêbado e feliz. E vamos deixar claro aqui que “feliz” não é uma consequência natural de “bêbado”, por mais que seja charmoso achar o contrário – eu não tenho bebido justamente por medo do que pode acontecer comigo neste momento em que estou vivendo. Este final de semana foi uma exceção.

Mas, como disse, de repente você se descobre bêbado e feliz. Você tem 20 anos novamente – não tem preocupações, não tem as mesmas responsabilidades. Não existe nada, a não ser seus amigos e a próxima piada.

E, no meio de tudo isso, a Ana. Brilhando no meio do salão, no meio da bagunça, como se ela tivesse feito parte daquilo desde sempre. E você percebe que ali é o lugar dela, no meio daquela confusão de piadas e gargalhadas, rindo aquela gargalhada gostosa que só ela tem.

E, no momento que você está se divertindo como há muito tempo não se divertia e percebe que sua namorada está se divertindo tanto quanto você – sempre com um cuidando do outro o tempo todo, com o rabo do olho – você sabe que está no lugar certo, na hora certa, ao lado da pessoa certa e com as pessoas certas.

Sim, as pessoas certas. Porque nem só de bobagem nós vivemos. Em meio à farra, conversamos sério.

A esposa do amigo que casei me puxou de canto e me agradeceu pela cerimônia do próprio casamento – ela acha que nunca vai conseguir me agradecer à altura, quando já expliquei que eu que preciso agradecer. E ela e o marido perguntam de mim, sobre a vida, sobre os remédios, que querem muito que eu melhore – sempre entre uma piada e outra.

E ficam ao lado da Ana o tempo todo em que não estou por perto, conversando, contando histórias sobre mim, sobre nós, os três gargalhando. É praticamente a forma que eles encontraram para dizer a ela “bem vinda”. E de repente, a Ana não é mais minha namorada. Ela é da família.

Porque é isso que somos: uma enorme família. E, como toda família, temos nossa história, que foi exibida no telão durante a festa, com a retrospectiva dos noivos. E eu me vi – e aos meus amigos – em algumas fotos, totalmente diferente. Um Rob Gordon mais jovem, com mais cabelo, às vezes sem barba, em bares, festas, outros casamentos.

E duas ou três versões da nossa foto clássica: todos parados com cara de blasé e o cigarro caído na boca. Ontem tiramos esta foto, claro, com um adendo: a noiva, agachada no chão, e o cigarro pendurado na boca. É a nossa foto Pacino – não tente entender, é coisa nossa. Por isso que em todas as festas eu levo dois maços de cigarro: um para mim, outra para distribuir na hora da foto.

Mas, se somos o centro da festa, nosso centro, claro, são os noivos. Abraços o tempo inteiro, beijos estalados na bochecha, agradecimentos por termos ido, xingamentos por agradecer este tipo de coisa, para de ser babaca. E lágrimas. Lágrimas boas, lágrimas de saudade, lágrimas de tempos uma puta história juntos.

E o noivo me puxa e me abraça e conta o quanto é importante estarmos com ele ali, e me apresenta para as pessoas, e eu puxo a noiva e abraço e peço a ela apenas para que seja feliz com ele, e que estarei sempre por perto. Porque sei que eles estão sempre perto de mim. Sempre.

E, claro, desce uísque.

E a questão de estar perto vale para os outros, os mais próximos: de vez em quando eu ganhava um abraço de alguém que me perguntava se “você está bem?”. E eu respondia que estava.

Porque, com o perdão da palavra, eu estava bem pra caralho. Porque, mesmo a 150 quilômetros de casa, eu estava em casa. E digo para a Ana que não aguento mais beber, ela diz ao meu amigo que não aguenta mais beber, ele diz à esposa que não aguenta mais beber, que diz para mim não aguenta mais beber, e eu digo para todos que esperem aí que vou chamar a tia do uísque que a gente está precisando beber.

E, de repente, hora de ir embora. Pois a festa já acabou e nós estamos ali, tentando prolongá-la ao máximo, pois não sabemos ao certo quando iremos nos reunir novamente. Mas tudo o que é bom acaba em algum momento.

Mas sempre há espaço para um chorinho, que veio na forma do Spartacus. Descobrimos um velho igualzinho ao Kirk Douglas e, claro que ele passou a ser chamado de Spartacus – aliás, toda vez que ele se aproximava de nós, o cercávamos e gritávamos “I am Spartacus!”, sem que ele entendesse – mas se divertia, talvez mais que nós, com tudo aquilo. E, ao final da festa, ele fez uma declaração de amor para mim, brincando que eu havia conquistado seu coração e que não podia ir embora com a Ana. Dito isso, me abraçou e simulou um beijo na minha boca, daqueles que (felizmente) se coloca a mão entre as bocas para não acontecer.

Claro que bateram foto disso. E claro que eles vão dar um jeito de colocar estar merda no vídeo retrospectiva do meu casamento, sem eu saber. Pode apostar nisso, eu conheço meu eleitorado.

E o Spartacus, assim que me largou, segurou a Ana pelo braço e disse que “você sabe que é brincadeira”, com medo dela estar brava. Mas ela não respondeu, pois ria mais que todo mundo. E, assim, a noite terminou com gargalhadas e, especificamente para mim, com a sensação de que há muito tempo eu precisava de uma noite dessas, com exatamente estas pessoas.

E, no dia seguinte, beijos, abraços e precisamos nos ver logo. E uma lição aprendida. Durante a cerimônia, o padre disse que as pessoas não casam por amor, e que, na verdade, elas se casam para “aprender a amar”. Pois, dentro de um casamento, um irá magoar o outro o tempo inteiro, por serem pessoas diferentes, mas aprender a amar é aprender a perdoar isso – caso contrário isso constrói um muro entre o casal.

Concordo. Se existe algo que aprendi nesta viagem, foi isso. E, no caminho de volta, meio cochilando, de mãos dadas com a Ana, percebi que isso não vale somente para um casamento, mas sim para qualquer relacionamento. E isso inclui a amizade.

Talvez seja por isso que eu e meus amigos ainda estamos juntos, como sempre fomos, mesmo depois de quase vinte anos. E certamente estaremos do mesmo jeito daqui a vinte anos. Talvez um pouco mais velhos. Mas, com certeza, um bando de moleques.

Um adorável bando de moleques.

Este texto é dedicado ao Grupo Nascô.
Muito obrigado por tudo. Sempre.


14 de outubro de 2011

A Arte de "Fazer" Palavrões


Todo mundo diz que planejamento é essencial.

Basta folhear qualquer cartilha de autoajuda para encontrar algumas linhas – às vezes, páginas inteiras – referentes a esse tema. É quase senso comum dizer que, como não temos uma bola de cristal, é preciso sempre estarmos pensando no amanhã, nos planejando e programando com cuidado. Isso vale para qualquer assunto: financeiro, profissional... até mesmo saúde.

Basicamente, é melhor prevenir do que remediar.

(leia mais aqui)

13 de outubro de 2011

Presence of The Lord

Ao sair do estádio do Morumbi, não pude deixar de perceber a decepção no rosto de muitas pessoas na plateia.

Antes de continuarmos vale dizer que se existiu um problema no show de Eric Clapton em São Paulo foi a escolha do local. O espetáculo é intimista demais para o Morumbi. Os problemas no som eram horríveis nas duas primeiras músicas, ao menos para quem estava nos anéis superiores. Além disso, a música de Clapton, num local monstruoso como este, perde parte da personalidade em alguns momentos. Update: a Marina, minha companheira no roteiro de TerapiaHQ, criticou bastante q qualidade do som, e eu dou total razão a ela a respeito disso.

Mas a visível decepção de boa parte das pessoas não se devia ao Morumbi. Afinal, mesmo com duas horas de show, Eric Clapton abriu mão de grandes clássicos, como Bell Bottom Blues e Sunshine of Your Love, investindo em músicas mais pessoais e até mesmo arriscando um arranjo totalmente novo para sua música-assinatura, Layla.


The gypsy woman told my mother
Before I was born
I got a boy child's comin'
He's gonna be a son of a gun



Antes de falar do show, é preciso discorrer um pouco sobre estas pessoas. Atualmente, qualquer espetáculo de um “astro do rock”, especialmente no Morumbi, torna-se mais um show. É um evento social, que atrai toneladas e mais toneladas de roqueirinhos e roqueirinhas de shopping center. Deixou de ser música para se tornar um flash mob. As pessoas vão apenas para falar que foram.

Você conhece o tipo: veneram publicamente um artista consagrado sem sequer conhecer sua obra, somente porque ele é considerado importante. Falar bem dele traz pedigree à sua imagem de “roqueiro”. E, na semana do show, se tornam os maiores “fãs” do sujeito, escolhendo a dedo dois ou três grandes sucessos e decorando cada verso e acorde. Afinal, é preciso saber cantar ao menos as principais músicas para mostrar a todos ao seu redor o quanto você “sempre” foi “fã”.

Assim, passa dois ou três dias falando somente no artista, aos amigos e na internet, para deixar claro a todos que irá ao show porque é roqueiro; e os dois ou três dias seguintes ao show falando o quanto o espetáculo foi maravilhoso, para deixar claro que foi ao show porque é roqueiro.


He gonna make pretty women's
Jump and shout
Then the world wanna know
What this all about


Já nos shows, o figurino é sempre o mesmo. Montado em lojas de departamento ou de grife, normalmente com blusinhas estampadas com caveiras cercadas de brilhantes, que descobriu em blogs de moda. Isso, claro, para as meninas; os garotos estão sempre com jaquetas rasgadas e camisetas do último show que foram – é a forma de mostrar que aquele não é o primeiro show de sua vida.

Se você conhece alguma pessoa assim, preste atenção nos comentários destas pessoas e você verá que ela usa sempre os mesmos adjetivos e elogios (normalmente vazios) em conversas e nas redes sociais para descrever como os shows nos quais ela foi foram ma-ra-vi-lho-sos. Muitas vezes não é falta de vocabulário, é piloto automático mesmo. Afinal, é preciso mostrar o quanto curtiu o show, pois precisa zelar pela sua imagem de roqueiro.

Já Eric Clapton não tem imagem nenhuma a zelar – e é isso que deve ter decepcionado imediatamente todas estas pessoas que estavam no Morumbi com suas roupinhas de roqueiro de butique e o refrão de Layla cuidadosamente decorado.


But you know I'm him
Everybody knows I'm him
Well you know I'm the hoochie coochie man
Everybody knows I'm him



Porque Eric Clapton não é – ou, melhor dizendo, nunca foi – um astro do rock. Claro, sua importância dentro da história do rock é inegável e isso pode passar uma imagem errada de sua persona. Mas Clapton é, antes de tudo, um músico, e não um astro. Em seus shows, concentra-se totalmente em sua guitarra, em sua banda e em sua música. E só.

Vítima de uma timidez lendária no mundo da música, grita um “thank you” ao final de algumas músicas – e esta é sua única interação com a plateia. Seu show não tem a pirotecnia de outros espetáculos vistos recentemente no Morumbi, baseando-se somente em sua música – o maior exemplo é sua entrada no palco: caminha lentamente, com uma roupa que ele provavelmente usa dentro de casa (calça, camisa e sapatos) acena para a plateia, pega a guitarra e começa a tocar. Pois ele está lá para isso.

Para os roqueirinhos e roqueirinhas que queriam mais um “grande show em seu currículo” para matar os amigos de inveja e parecer cool, isso já tornaria o espetáculo do inglês numa experiência difícil. Mas, para elas, este é apenas o primeiro grande “problema” de Eric Clapton.


I got a black cat bone
I got a mojo too
I got the Johnny Concheroo
I'm gonna mess with you


O segundo – e muito maior - é que, cerca de quinze anos para cá, o guitarrista abandonou totalmente sua carreira de roqueiro e concretizou seu grande sonho, tornando-se aberta e declaradamente um músico de blues.

Em sua biografia, Clapton deixa claro que tocava rock (mesmo com arranjos de blues) porque era o que se tocava à época em Londres, mas seu sonho sempre foi tocar blues “de raiz”. No livro, ele reverencia o tempo todos os grandes nomes do gênero (Muddy Waters, Robert Johnson), praticamente pedindo desculpas por ter mais reconhecimento público que seus ídolos.

E, de dez ou quinze anos para cá, ele assumiu totalmente seu lado blueseiro: gravou um CD com BB King, outro somente com covers de Robert Johnson e investe cada vez mais no seu festival Crossroads.

E este é o Eric Clapton que se apresentou em São Paulo, causando um enorme ponto de interrogação em muitas pessoas da plateia que conhecem a carreira do músico somente superficialmente, muito mais pela mídia do que pelos discos em si.


I'm gonna make you girls
Lead me by my hand
Then the world will know
The hoochie coochie man



Mas não foi por falta de aviso. Já na terceira canção, Hoochie Coochie Man, música de Willie Dixon que se tornou um dos maiores hinos do blues de todos os tempos na voz de Muddy Waters, ficava claro que a noite seria diferente do que estas pessoas esperavam. Para o desânimo das pessoas com camisetas de caveirinhas fofas e botinhas de marca, começou a se desenhar que o Morumbi serviria de palco para um show de blues, e não de rock.

Momentos depois, uma pausa no show que confirma toda a áurea blueseira do espetáculo. Clapton senta-se em um banquinho e começa toda uma parte acústica, abrindo com Driftin’ Blues (composta por uma big band dos anos 40) e a maravilhosa Nobody Knows You When You're Down And Out (que, apesar de estar no disco Layla and Other Assorted Love Songs, é um cover – foi composta na década de 20).

A noite fria definitivamente não é de rock, é de blues. E o frio em São Paulo contagia boa parte da plateia, que apenas assiste ao show, esperando pelo Clapton "herói do rock" construído pela mídia, que parece não ter entrado no palco.


But you know I'm him
Everybody knows I'm him
Oh you know I'm the hoochie coochie man
Everybody knows I'm him



E ao final deste set acústico ocorre o momento crucial do show. Ainda sentado, mas já com sua Fender de volta aos braços, Clapton inicia Layla. Era a música que faria o estádio vir abaixo. Contudo, o que se viu foi certo receio das pessoas em aplaudir, talvez por não reconhecerem o que estavam ouvindo.

Com um arranjo totalmente novo – que fica entre a versão acústica do Unplugged de 1992 e a original, Clapton transformou seu hit num blues amargurado e dolorido, que teria palco mais adequado numa espelunca à beira de estrada no Mississipi do que no palco do Morumbi. Pessoalmente, achei a versão tão boa quanto a original – e só não me arrisco a dizer que ela é melhor em alguns momentos já que a original tem seu status de clássico esculpido em pedra.

Mas foi o momento-chave do show e que talvez simbolize toda a carreira atual do músico. Ali, Clapton abandona definitivamente sua carreira no rock, “sacrificando” até mesmo seu maior sucesso em nome de paixão de sua vida: o blues. O rock ainda existe em seus shows, mas sua alma é definitivamente negra e nascida no sul dos Estados Unidos.

Mesmo sabendo a letra de cor e salteado, não consegui cantar junto. E não por não estar acostumado ao ritmo novo, mas sim por me emocionar demais com a voz gritada do músico implorando “please don’t say we’ll never find a way” para um Morumbi lotado, a ponto de eu quase engasgar em alguns momentos. Eu já havia quase chorado durante o solo de Old Love, somente pelos acordes em si, pois a música não é especial para mim. Coisa de momento.

Coisa de blues.


On the seventh hours
On the seventh day
On the seventh month
The seven doctors say


Aí, sim, temos alguns momentos de rock para que as pessoas de blusinhas fofas e maquiagem no rosto possam contar para os amigos. Quer dizer, rock? Talvez não. A sequência vem com Badge, composta pelo supergrupo Cream, cuja carreira era totalmente baseada no blues americano da primeira metade do século 20; Before You Accuse Me, cover de Bo Diddley, que sempre teve o pé fincado no blues; e a magistral Little Queen of Spades, cover de ninguém menos que Robert Johnson, o mais lendário nome da história do blues e um dos maiores ídolos de Clapton – e de basicamente todos os guitarristas ingleses dos anos 60.

Em meio a tudo isso, Wonderful Tonight, uma das baladas mais belas do guitarrista; e, fechando a primeira parte do show, mais um pouco de “rock”: Cocaine, um dos maiores sucessos da carreira de Clapton – na verdade foi composta pelo seu parceiro J. J. Cale – que ganhou uma versão monstruosa e magistral de oito minutos e encerrou o show como a única música cujo refrão (fácil e curto) foi cantado junto pela plateia.

Após poucos minutos de intervalo, Clapton e a banda voltam ao palco ao lado de Gary Clark Jr, guitarrista texano responsável pelo show de abertura. Considerado o grande nome atual do blues texano, o guitarrista foi apadrinhado por Clapton e chegou a participar do grande festival Crossroads, organizado, pelo inglês, na edição de 2010.

Com todos os músicos no palco, o encerramento definitivo. A versão do Cream para Crossroads, um dos maiores sucessos de Robert Johnson. Agressiva, roqueira, pesada... Mas mesmo assim, um blues em sua essência, e ideal para fechar a noite. Clapton se despede do palco de forma humilde.

Fim.

He was born for good luck
And that you'll see
I got seven hundred dollars
Don't you mess with me


E, ao ver aquela pequena figura vestindo azul caminhando de costas para fora do palco – de onde estava, acompanhei todo seu percurso até ele desaparecer de vista – eu percebi que estava sem palavras. Sem palavras e um tanto quanto emocionado.

Porque nesta noite eu aprendi muito com o blues, vendo algumas de minhas músicas preferidas ao vivo pela primeira vez. O blues é safado em Hoochie Coochie Man, mas dói em Layla; o blues é solitário em Nobody Knows You When You're Down and Out e briguento em Before You Accuse Me. O blues se apaixona em Little Queen of Spades, mas escolhe culpados por ter perdido o amor em Tearing us Apart.

Mas, ao final, o blues admite que não existe resposta para tudo, como Clapton deixou claro ao encerrar seu “discurso” de duas horas com a enigmática e quase hipnotizante Crossroads.

Neste 12 de outubro, eu não tive uma aula de blues. Eu tive uma aula de vida.

Aliás, me arrisco a dizer que a apresentação de algumas horas atrás não foi um dos maiores shows de blues que certamente terei em minha vida, mas um dos maiores que já aconteceram na cidade de São Paulo.

Pena que nem todos entenderam isso. O espetáculo foi difícil e intrincado, intimista e pessoal demais. Mas esteve longe de ser decepcionante. Na verdade, é o contrário. Foi mágico. Pois se tratava de Eric Clapton tocando para Eric Clapton, do jeito que ele sempre quis. E isso é algo que não tem preço, tanto para ele como para a plateia.

A apresentação de horas atrás foi feita para se sentir, digerir lentamente e guardar com você, do seu jeito. E mais nada. Porque foi, antes de tudo, um show de blues.


But you know I'm him
Everybody knows I'm him
Well you know I'm the hoochie coochie man
Everybody knows I'm him


Ontem, Deus esteve entre nós.

Bem aventurados aqueles que entenderam as palavras do Senhor.

Pois é graças a ele (e à sua alma negra) que “I feel wonderful today”.


O universo musical de Eric Clapton.
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11 de outubro de 2011

Sobre Quedas e Fé

Como eu disse há pouco tempo, a segunda vez normalmente é mais difícil que a primeira.

Meu fim de semana foi ótimo. Passeio em shopping comprando presentes, aniversário da prima da Ana, almoços com a minha família e a família da Ana. Acho que fazia tempo que eu não tinha um fim de semana tão bom, sem grandes problemas.

Na verdade, já fazia tempo que as crises de depressão haviam desaparecido. Eu ainda tenho as crises de ansiedade, especialmente em locais lotados. Adorei o show do Deep Purple, mas sei que encarei com a ajuda do Rivotril (antes de sair de casa e antes do show), e fiquei num lugar razoavelmente vazio.

Mas as crises de ansiedade ainda existem, dependendo do local. No próprio sábado, quando o shopping começou a lotar, na parte da tarde, já passei a sentir certo incômodo. É difícil de explicar, é quase uma sensação de opressão, uma espécie de asfixia emocional. Mas acho que tenho lidado bem com elas... A frequência não diminuiu muito, mas a intensidade sim – vale lembrar que na segunda consulta com a psiquiatra, a dose de Rivotril foi aumentada.

Algo que tem me ajudado muito é dormir. O tal de Donaren, como alguns leitores me avisaram, é uma pedrada. Mais ou menos uma hora depois de tomar, eu fico bêbado de sono. Às vezes, estou vendo com um filme com a Ana e começo a dormir de olhos abertos. Em algumas noites, eu perco a coordenação motora e, no caminho da cama, esbarro em móveis ou tenho um pouco de dificuldade em tirar a roupa. O termo é esse mesmo: bêbado.

Mas o que importa é que de umas duas semanas para cá, eu tenho dormido.

Enfim, uma hora o fim de semana acabou e a Ana foi para casa dela. Como ela tinha compromissos na segunda-feira, eu fiquei sozinho aqui em casa. Foi a segunda vez que isso aconteceu em mais de um mês – minha primeira consulta na psiquiatra foi em 2 de setembro, e me lembro que, dez dias antes disso, eu e a Ana montamos uma plano de guerra para evitar que eu ficasse sozinho, porque bastava isso acontecer para eu despencar (não existe outro termo) emocionalmente.

Na primeira vez que fiquei sozinho foi mais fácil: no dia seguinte, minha mãe estava aqui; na parte da manhã, fui a uma reunião; e, depois do almoço, na psiquiatra (era a segunda consulta). Então, não fiquei sozinho de verdade, fiquei apenas longe da Ana.

Mas ontem foi diferente. A Ana foi embora domingo à noite, e fiquei até a hora de dormir meio perdido, sem saber ao certo o que fazer. Mas imaginei que fosse apenas falta de hábito em ficar sozinho e comecei a procurar me ocupar. Brinquei com a minha gaita – o que rendeu o vídeo e o post anterior -, joguei um pouco de videogame e conversei com a Ana por Messenger. Aí o Donaren bateu e eu me arrastei até a cama. So far, so good.

E ontem foi difícil. Já acordei incomodado – talvez tenha tido algum pesadelo enquanto dormia, talvez seja apenas a sensação de acordar e estar sozinho em casa. Não sei. Sei apenas que procurei me ocupar. Tomei meus remédios, comecei a trabalhar, respondi comentários do blog... Basicamente, gastando o tempo até a hora do almoço, já que meu rendimento de manhã é sempre fraco.

E foi justamente depois do almoço que a coisa começou a apertar. Mesmo trabalhando, mesmo com a mente ocupada, mesmo ouvindo música, a sensação de vazio começou. Vou tentar explicar aqui: não é uma sensação de vazio por estar sozinho em casa, é uma sensação de vazio por tudo. Uma sensação de falta de propósito.

E aí o que você faz? Você tenta combater isso, pensando que “não existe falta de propósito, eu tenho x, y, z, eu faço isso e aquilo”. Mas é inútil. Você já está envenenado. Ou seja, qualquer coisa que você pense soa como uma desculpa para fazer você ficar bem. Soa como mentira. Basicamente, eu sei que é verdade, mas não consigo acreditar, porque deixo de acreditar em mim.

E, com isso, as horas foram passando e aquela espécie de âncora foi me puxando para baixo. No meio da tarde, eu já tinha um rombo no peito, que era preenchido cada vez mais pela sensação de apatia, de querer ir dormir, de ser sedado e desmaiar. E, sozinho, andando de um lado para o outro, procurando fugir dos demônios que haviam invadido minha casa. Ou minha mente. É a mesma coisa.

Se eu falasse aqui que a crise foi igual às que tive semanas antes de começar a tomar os remédios, estaria mentindo. Ela foi bem mais fraca. Mas ela não foi fraca. Ou, ao menos, não foi fraca como eu esperava – eu imaginei que fosse ser difícil ficar um dia sozinho em casa, mas que fosse apenas isso: difícil. E não foi difícil, foi muito difícil. E muito dolorido.

Pouco antes da Ana chegar, fui tomar banho. Assim, que entrei no chuveiro, veio o nó na garganta. Fiquei alguns minutos embaixo da água, tentando lidar com aquilo. É engraçado, às vezes você tem um nó na garganta, mas não consegue chorar. O nó fica ali, impedindo você de respirar, de pensar, de viver, mas nada o alivia.

Por um lado talvez tenha sido bom, porque toda vez que eu chorava, era sinal de que a crise explodia. E, quando ela explodia, eu sabia que isso duraria horas e horas. Desta vez ela não explodiu, ficou guardada. Mas doeu para segurar.

Quando a Ana chegou, assim que saí do banho, eu estava péssimo. Voltei à minha posição clássica dos inícios da crise: encostado na pia, com o rosto apoiado na palma da mão esquerda e praticamente acendendo um cigarro no outro, com goles de Coca entre uma tragada e outra. E em silêncio a maior parte do tempo – quando eu falava, já o fazia com o tom de voz alterado, sempre triste ou com raiva. Ontem, foi raiva.

E, como a Ana percebeu – eu não percebi até ela falar – eu não queria sair de casa. Comecei a enrolar, inventando coisas para fazer e me impedir de sair. Só mais um cigarro. Deixe só eu ver isso aqui. Vou trocar a água do cachorro. Só mais um cigarro. Eu queria ir ao show, mas não queria mais sair de casa. A vontade de sair de casa era zero, queria ligar a TV e ficar deitado olhando a tela. Ou queria dormir, não sei.

No final, melhorei. Mas ainda fui metade do caminho sem dizer uma palavra, esperando a apatia se dissipar em algum lugar. Aí melhoramos, fomos ao show e os demônios ficaram de fora. No final, a noite foi boa. E hoje estou exausto, porque eu não tenho muita resistência física. Mas é uma exaustão boa, é uma exaustão que eu sei qual o motivo.

Acho que é por causa disso que, sempre que me perguntam como estou, eu não respondo “estou bem”, mas sim “estou melhor”. Porque estar melhor não é estar bem, e eu confesso que tenho um pouco de medo de falar que “estou bem” e me descuidar a ponto de ter uma recaída.

Ao menos por enquanto, tenho que passar o tempo inteiro olhando para trás e para os lados, evitando que a porra da depressão me alcance. É como se fosse uma corrida – e no minuto em que eu achar que a corrida está ganha, eu perco. Não sei quanto tempo vai durar isso, mas, por enquanto, isso é obrigatório.

E agora o nó na garganta voltou. E não porque estou sozinho novamente – a Ana foi resolver umas coisas na rua e vai estar de volta em uma meia hora, então estou tranquilo. Meu nó na garganta é porque eu não queria ter esta merda desta doença, é porque eu não queria estar passando por isso. É porque eu queria viver em paz sem ter que olhar para os lados. Queria olhar só para frente, mas ainda não consigo. Ou tenho medo, não sei. Não sei mesmo.

Enfim... Dizem que é preciso matar um leão por dia. Ontem, apesar da noite ser ótima, o leão ganhou. Porque ontem eu descobri que estou melhor, sim, mas eu ainda não estou pronto para ficar completamente sozinho. Não sei se eu apenas não me basto, ou se eu me faço mal. Não sei. Sei apenas que ontem o leão ganhou.

Mas isso não quer dizer que ele precisa ganhar hoje ou amanhã novamente. Como a Ana diz, depende só de mim. Depende só de mim vencer o leão e, mais importante, depende só de mim saber que, alguns dias, o leão vai ganhar.

Eu já sei cair. Cheguei ao fundo do poço mais de uma vez – bem mais de uma vez – nos últimos meses. Acho que eu preciso só aprender a levantar agora, mas sem esquecer o que eu aprendi sobre cair. E preciso ser mais rápido que os demônios, aprendendo um pouco por dia.

E contando com família, amigos (onde incluo vocês, leitores), Ana, remédios, médicos e fé. Muita fé. Fé que amanhã será melhor que hoje. Fé em tudo e, principalmente, fé em mim, de qualquer maneira.



Porque fé nunca é demais.

10 de outubro de 2011

Man With a Harmonica

De vez em quando eu arrumo algumas manias.

Esta começou alguns anos atrás. Na verdade, eu sempre tive vontade de aprender a tocar um instrumento, mas nunca tive disposição, tempo – e, em minha opinião, talento.

Contudo, a vontade sempre esteve aqui, rodando. Especialmente de alguns anos para cá, quando meu gosto musical rompeu as fronteiras do heavy metal e mergulhou em música clássica, rock clássico e minha grande paixão atual: o blues.

E foi em meio a um disco de blues que eu tive a ideia. Não compraria um violão, uma guitarra, um baixo (instrumento pelo qual sempre fui apaixonado), porque custaria caro e, caso eu não aprendesse nada, teria jogado dinheiro fora. Além disso, já com trinta e poucos anos, eu não queria gastar muito dinheiro para comprar que eu fosse tocar dentro de casa, para minha diversão.

Assim, alguns anos atrás, subi alguns quarteirões na Teodoro Sampaio e entrei em uma das lojas de instrumentos. Saí de lá com uma pequena sacola contendo uma gaita.

Durante semanas, aquilo se tornou uma febre para mim. Apesar de ficar treinando técnicas e macetes em vídeos no Youtube, nunca fiz curso algum, e passava a maior parte do tempo caçando guias (as populares “tabs”, que são partituras para quem não lê partituras) de músicas que eu gostava para tentar tocar.

Na maior parte das vezes, nem executava a música inteira; apenas o começo e o refrão já me bastavam, e eu pulava para outra música, para tentar tocar. E sempre consultando os sites de guias, pois nunca fiquei tanto preso em música a ponto de decorá-la (que eu me lembre, a única exceção é o início de Something, dos Beatles).

E assim passei noites e noites brincando com a gaita. Sozinho em casa. Ia de Beatles para Ray Charles, de Ray Charles para Louis Armstrong, de Louis Armstrong para Rolling Stones, de Rolling Stones para Bob Dylan, de Bob Dylan para Eric Clapton, de Eric Clapton Led Zeppelin, de Led Zeppelin para Beatles novamente.

Ou, melhor dizendo, ia de You’ve Got to Hide Your Away para I Can’t Stop Loving You, de I Can’t Stop Loving You para What a Wonderful World, de What a Wonderful World para Ruby Tuesday, de Ruby Tuesday para Blowing in the Wind, de Blowing in the Wind para Tears in Heaven, de Tears in Heaven para Starway to Heaven, de Starway to Heaven para Let it Be.

Essas, claro, são apenas algumas que eu me recordo de cabeça de tocas, mas as canções que eu gostava de tocar eram muitas. E sempre para mim

Não, minto. Fiz duas apresentações.

Uma para a minha mãe: num aniversário dela, toquei “Parabéns pra Você” para ela depois de ensaiar a música por uma semana.

A outra, eu também estava com a minha mãe. Estava no shopping Ibirapuera com ela, e decidi comprar uma gaita em uma loja ali perto. Assim que saí da loja, puxei a gaita da sacola e disse “vou experimentar”, tocando os primeiros acordes de Octopus’s Garden, dos Beatles (esta eu também sabia de cor à época). Assim que toquei, um rapaz saiu de uma farmácia e me disse:

- Isso é Beatles!

E eu ganhei meu dia.

Além de tocar canções que gosto, eu também adorava inventar. Ficava sentado no sofá brincando com a gaita, pensando na vida. E inventava também com as próprias músicas: uma mania que desenvolvi foi diminuir a velocidade de determinadas músicas, deixando-as mais lentas, o que combina perfeitamente com o som da gaita.

Com o tempo, a febre passou, mas nunca abandonei a gaita. Às vezes me esquecia dela por um tempo, mas sempre voltava para ela, passando algumas horas brincando. Contudo, nunca cheguei a tocar de verdade. Tanto que, até hoje, caso perguntem se toco algum instrumento, eu respondo sempre que não. E se alguém vê minha gaita em casa, eu digo que apenas “brinco”.

E aí chegamos onde eu queria. Atualmente, com tudo o que estou passando, “brincar” se tornou uma palavra essencial, mas perigosa. “Essencial” porque me faz muito bem; “perigosa” por eu ainda não conseguir lidar com emoções fortes – mesmo quando elas são boas, ainda me afetam demais, quase como uma crise de ansiedade invertida, com os mesmos sintomas: pernas moles, enjoo, taquicardia, tontura. Ou seja, dá-lhe Rivotril.

Enfim, não quero me alongar muito sobre este assunto hoje. Meu fim de semana foi ótimo, e não quero revirar a depressão ou a síndrome do pânico agora – prometo que em breve farei um novo post sobre isso, contando como estou.

Mas cabe dizer que música tem me ajudado muito. Especialmente blues. E talvez seja por isso que voltei a ter aquela coceira com a gaita. Comprei uma nova ontem e passei algum tempo brincando com ela. Perdi um pouco do jeito, mas estou recuperando aos poucos. E já descobri que ficar sentado num sofá, brincando com ela – seja sozinho, seja com a namorada ao lado – me transmite uma paz absurda.

E paz é tudo o que eu preciso. Mesmo que seja na forma dos versos de uma música que gosto, tocada de forma casual e sem compromisso algum, com a minha gaitinha. Tocada por mim e para mim.

Assim, gostaria de encerrar este post não com palavras, mas com as notas musicais de uma música doce e pacífica, quase preguiçosa, do Eric Clapton: Wonderful Tonight.

Claro que seria fácil eu ter escolhido esta música apenas por ele estar no Brasil – basta um músico de renome tocar no país para a maior parte das pessoas que conhecem duas ou três músicas se autoproclamarem “fãs” – mas eu devo muito a este sujeito. Afinal, suas canções “lado B” foram uma das maiores portas de entrada para o blues que tive na vida, quando eu tinha cerca de 16 anos. Mas ainda vou falar disso nesta semana.

Enfim, queria deixar vocês com esta música. Ou, melhor dizendo, com a minha paz.

Afinal, com todo o apoio que tenho recebido de vocês, o mínimo que posso fazer é dedicar a vocês, leitores do blog, a primeira música que gravo brincando com a gaita.

Muito obrigado por tudo.


6 de outubro de 2011

Meus Domingos



Dizem que, após criar o mundo em seis dias, Deus descansou no sétimo.

Claro que acreditar nessa mensagem – ao menos, de forma literal – depende exclusivamente da sua fé. Mas, independente de qual seja a sua crença, ela passa um ensinamento que, à primeira vista, pode parecer óbvio: é preciso, sim, largar mão do trabalho às vezes.

E, normalmente, isso é possível de uma forma mais frequente do que acreditamos.

(leia mais aqui)

3 de outubro de 2011

When Love Comes to Phone

Antes de começar escrever este post, eu preciso ensinar vocês a lê-lo de forma correta.

Porque eu nunca falei sobre isso aqui – apesar de ser uma piada recorrente na minha família e entre meus amigos – mas minha mãe não sabe pronunciar o “r”. Calma, acho que exagerei um pouco. Não sou filho do Cebolinha.

Na verdade, ela sabe, mas faz isso de um jeito só dela.

Como vocês devem saber, o “r” tem duas pronúncias. Como exemplo, vamos escolher as palavras “caro” e “carro”. No caso da minha mãe, o “r” de “caro” é pronunciado normalmente. Já o “r” de “carro” soa sempre como se ela fosse uma criança fazendo o som do disparo de uma metralhadora.

Ou seja, minha mãe não fala “carro”, ela fala (Dica: leia a próxima palavra em voz alta colocando a língua no céu da boca e imitando um motor sendo ligado) “carrrrrrrrrrro”.

Se você sabe meu nome (e meu sobrenome) verdadeiro, imagine minha mãe falando comigo e pode começar a rir. Eu espero aqui. E não fique sem graça, eu e meu pai imitamos o jeito que ela pronuncia meu nome o tempo inteiro. E ela morrrrrrre de rrrrrrrrrir.

Enfim, agora vocês sabem como minha mãe fala. Podemos continuar.

Não, antes disso, vale dizer que minha mãe é fã de Harry Potter. Apaixonada mesmo. Mas, por uma ironia do destino, ela não sabe falar o Harry. São “erres” demais para ela. O mais perto que ela é Érrrrrri. Érrrrrrri Potter e as Rrrrrrrrrelíquias da Morte.

Agora sim podemos continuar.

- Alô?

- Rrrrrrrrrob?

- Oi, mã.

- Tudo bem com você?

- Tudo. E você?

- Tudo? Foi ao médico?

- Fui sim.

(Neste momento, eu explico a ela tudo o que o médico falou, converso sobre minha incapacidade de dormir e o remédio novo).

- E você já comprou o rrrrrrremédio?

- Não vou comprar agora à noite, quando sair para jantar.

- Deve ser caro, né?

- Ah, com certeza.

- E a Ana?

- Está aqui comigo. Está no sofá lendo.

- Então seu anjo da guarda está aí. Eu fico mais tranquila.

- Não precisa se preocupar, mãe. Mesmo.

- Eu sei, Rrrrrrrrro. Mas eu fico preocupada mesmo assim, quero saber se você melhorou.

- Eu estou melhor, sim. Ainda tenho uns dias difíceis, mas a Ana me ajuda bastante com isso.

- Eu sei. Mande um beijão para ela.

- Ok. Ela manda outro.

- Ah, Rrrrrrrob, seu sobrinho está tão bonitinho! Ele aprendeu a sentar!

- Sério?

- Sim, ele senta no primeiro degrau da escada. Então, ele fica de costas para a escada e vai dando rrrrrrrrrré. Quando o pezinho dele encosta no degrau, ele se senta. Aí a gente aplaude, e ele fica aplaudindo junto.

- Ele é demais, mã.

- Mas aí ele gostou da brincadeira, gostou de aplaudir. Então ele fez isso umas trezentas vezes, e a gente teve que aplaudir as trezentas vezes.

- Saudade dele.

- Domingo você vem aqui?

- Não sei ainda, eu te ligo mais para o final da semana.

- Ah, seu pai veio me falar do texto do blog!

- Que texto?

- Aquele do comercial da calcinha. Ele me contou no almoço! Não sei quem dava mais rrrrrrrrrrrisada, ele contando ou eu ouvindo.

- Ah, ficou legal, né?

- Naquela hora que o homem fala que “se eu perder o emprego então, eu preciso colocar uma cueca nova para te contar a novidade”, seu pai até engasgava de tanto rrrrrrrir.

- Que bom que vocês gostaram.

- Eu pedi para ele deixar a página aberta que eu quero ler depois!

- Tá bom.

- Bom, Rrrrrrrrrob, você está bem, então?

- Estou, mãe. Pode ficar tranquila.

- Não esquece que estamos sempre aqui pra você.

- Eu sei, mãe. Obrigado.

- Não tem nada que agradecer, Rrrrrrrob.

- Tá bom. Papai tá bem?

- Tá sim. Tá mandando um beijo.

- Manda outro.

- E perguntando se você está bem.

- Fala que sim. E a vovó?

- Tá bem também.

- Manda um beijo para ela.

- Mando sim. Um beijo, filho. Qualquer coisa, me liga.

- Ok, mãe.

- Um beijo.

- Outro.

Esta foi uma das últimas conversas telefônicas que eu tive com a minha mãe. Últimas porque desde que recebi o diagnóstico oficial, ela me liga (pelo menos) três vezes por semana para saber como estou.

Mas o ponto não é esse. O ponto é que esta conversa telefônica, mesmo sem ter nada de especial, foi um dos pontos altos do meu dia, quando ela aconteceu.

E quando uma simples conversa telefônica com a sua mãe é um dos pontos altos do seu dia, isso pode significar duas coisas. A primeira: sua vida é tão sem graça que cinco minutos no telefone com sua mãe é o máximo de emoção que você consegue. A segunda alternativa: você tem a melhor família do mundo.

No meu caso?

Digamos que eu gostaria, todas as noites, de voltar a ser criança somente para viver novamente por todos os dias que estive ao lado deles.

Porque amor de verdade é sincero. Independente do número de “erres”.