25 de fevereiro de 2011
24 de fevereiro de 2011
Letra e Música
Todo blog que se preza, em algum momento de sua história, apresenta um post somente com um vídeo. Nada mais que isso: o título da postagem, e um vídeo – normalmente um clipe musical. Quando muito, além do vídeo, existem uma ou duas frases comentando a música em si.
Minha vez de tentar.
Pronto. O vídeo está aí.
Mas por mais que eu adore música, eu não consigo ficar sem letras.
E este é justamente o motivo do vídeo. Poucas horas atrás, fui convidado por um leitor do blog, o @RicoCorreiaUP, para participar do projeto Musicontos. A ideia consiste em “cronicar” uma música qualquer, interpretando a letra.
Sim, eu já tenho um texto assim, baseado no blues Love in Vain, do Robert Johnson e que está no Anônimos e Urbanos. Mas eu não queria reaproveitar o texto porque, primeiro, a ideia é boa demais para isso. Segundo, aquele texto pertence ao livro, e somente ao livro.
Não foi difícil escolher uma música. Muitos fãs de Iron Maiden detestam esta música, alegando que “a banda se vendeu”. Bobagem. Apesar de ser uma balada – a primeira na discografia do grupo –, ela não é uma música sobre amor, mas sim sobre solidão. Como eu queria escrever algo no estilo do Chronicles, seria perfeita. Além disso, o verso “in your eyes I see the hunger” é fortíssimo, serviu como excelente ponto de partida.
Assim, sentei na frente do PC, com a música tocando, e deixei me levar. Fiz o texto, literalmente, em questão de minutos. Sim, admito que ele e curto, mas mesmo assim é engraçado como alguns textos parecem estar prontos dentro da gente, apenas esperando para ser escritos. Este foi um deles.
Espero que gostem (está aqui). E, claro, convido vocês a conferirem os demais textos do projeto Musicontos.
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22 de fevereiro de 2011
Como Escrever Bem na Internet
Este é um manual de como se escrever bem na internet – as regras aqui são usadas de forma casual no Messenger, no Twitter e em qualquer outro tipo de comunicação virtual, mas para se ter um bom blog, é preciso que elas sejam seguidas à risca.
Lembre-se que isso não são regras para o sucesso, mas sim para escrever bem e manter um blog de qualidade. Agora, se você deseja fazer sucesso imediato e de um modo mais fácil, pule direto para o último tópico.
1) Tamanho não é documento
aquela história de que algumas palavras devem começar com letra maiúscula – a letra grandinha, sabe? – serve apenas para livros. em textos feitos para a internet, não é preciso se preocupar com esta regra – existem vários e-mails indicando que os teclados continuam com a tecla shift apenas por lobby dos fabricantes, tipo a dell ou a logitech, que não desejam mudar o desenho dos teclados. além disso, seus leitores não são burros e perceberão facilmente que na frase “passei a tarde com minha amiga lucrécia”, a lucrécia em questão é uma pessoa. e você não precisa usar letra maiúscula para indicar o começo de uma frase, já que antes dela existe um “.” indicando que a frase anterior acabou. assim, começar a usar letras grandes e pequenas é desnecessário e pode até soar pedante da sua parte.
2) O texto precisa ser ágil rápido veloz e direto
Você já ouviu aquela história de que a comunicação na internet precisa ser ágil porque ninguém tem tempo para mais nada hoje em dia então além de fazer textos curtos é indicado que você faça o leitor ler de forma apressada e para isso a melhor saída é não usar virgulas e o mínimo possível de pontos finais porque se o leitor parar para respirar durante uma frase sua ele pode sair do seu blog porque nós estamos sendo bombardeados de informação o tempo inteiro e você não pode correr o risco de outra pagina mais interessante que a sua chamar a atenção dele
3) Convicção!!!!!!!!!!!!
Na internet, ninguém quer uma pessoa que não saiba defender suas opiniões com força!!!!!! Então, evite ao máximo possível usar pontos finais ou reticências!!!! Eles mostram que você é inseguro e não tem certeza do que está falando!!!!!!!!! Quanto mais pontos de exclamação, mais certeza você mostrará!!!!!!!!!!!! E as pessoas querem isso!!!!!! Força e convicção nas suas opiniões!!!!!!!! E você pode até mesmo usar as exclamações para fazer perguntas!!!!!!!!!!! Entendeu!!!!!!!!
4) A letra que não eh letra
Ao se escrever para a internet, é preciso ter em mente que o “h” é uma mentira inventada pelas gramáticas para confundir os vestibulandos. A prova de que ele não existe é que não tem som de nada. Ora, se ele não tem som de nada, ele não precisa ser escrito, vai apenas confundir as pessoas. Leia as palavras a seguir em voz alta e comprove: Ospital. Onesto. Omem. Na verdade, as pessoas que escrevem livros usam o “h” de forma errada. Ele não é uma letra, mas sim um símbolo de acentuação, usado em palavras oxítonas com som aberto. Exemplos: “Ele estah lah” e “Mah, pode falah?”. O “h” não deve ser usado em nenhuma outra situação.
5) Acentuaçaum e outras lendas urbanas
Jah que estamos falando de acentuaçaum, eh preciso que fique claro que acentuar palavras eh um costume do seculo 20, e se voce começar a fazer isso seus leitores acharaum que voce eh ultrapassado e naum entende nada de gramatica e naum devia estar escrevendo. Ate mesmo os escritores jah perceberam isso e começaram a acabar com os acentos – o trema foi banido por causa disso. Entaum voce precisa abrir maum disso porque o publico da internet eh normalmente jovem e naum quer que esses tracinhos e cobrinhas fiquem sujando o texto que leem. Como jah vimos, o “h” eh usado para mostrar que o som da palavra eh aberto. Para mostrar que sua palavra tem som de til, basta apenas escrever como se fala (aviaum, coracaum, paixaum) o que aumenta o conforto de quem estah lendo. Se ela possuir som fechado, naum precisa colocar aquele chapeuzinho que as professoras falavam, aquilo eh coisa de criança e desnecessario porque se naum tem acento o som e fechado mesmo e todo mundo sabe disso.
6) - é +
Alguém disse certa vez q escrever bem é a arte de cortar palavras. Bobagem. Seja + ousado e corte letras. Isso aumenta a agilidd da comunicação, tornando seu texto + leve e gostoso d ler. Assim vc pd começar, por ex, a cortar os fonemas q não precisam d + d 1 letra. S vc começar a fazer isso, as pessoas q estão lendo s sentirão como s conversassem c/ vc no msn e isso faz elas s sentirem em ksa. Essa sensação d intimidade é vital pro texto fazer sucesso. Nnc é d+ lembrar que velocidd é td na qualidd d 1 texto. Seus leitores c ctz vão agradecer com um sonoro “VLW”!
7) kkkkkkkkkkkkkkkkkkk
O público está acostumado com piadas fáceis. Ninguém tem tempo para pensar hoje em dia husahuashuashuashuashu então sempre que você colocar uma piadinha no texto, mostre a ele que é o momento de rir, de uma forma amigável: rindo com ele huahauauahuahau. Você nunca parou para pensar porque as séries de comédia sempre têm som de risadas nas horas engraçadas? Kkkkkkkkkkkkkk Se alguém reclamar que isso suja o texto, é porque essa pessoa é triste e não gosta de conversas leves e com risadas hehehehe
8) Sucesso sem palavras
Se você deseja que seu blog faça sucesso, escrever bem não é necessário. É recomendável, mas não necessário. Porque, quanto menos texto, mais sucesso ele faz. Assim – e para não correr o risco de errar o uso das regras acima – evite escrever. Faça um blog com um nome ousado – palavrões e trocadilhos de mau gosto são ótimos – e fique postando todas as fotos engraçadinhas que você recebe por e-mail. Elas têm texto em inglês? Calma, nada que um Photoshop e o Google Translator não resolvam. Recheie o blog com estas fotos e vídeos, entupindo o layout de anúncios do Adsense (porque assim você vira problogger) e reserve o dia 5 de todo mês para postar as fotos da Playboy nova que você roubou de outro blog.
Agora, é só colher os louros da fama!
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Rob Gordon
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21 de fevereiro de 2011
O Gênio do Quarto Andar
Leonardo Da Vinci. Wolfgang Amadeus Mozart. Pablo Picasso. Stephen Hawkins.
A humanidade sempre foi pródiga em gerar gênios, que atuavam nas mais diversas áreas. Pessoas à frente de seu tempo, que revolucionaram não apenas as ciências e as artes, como o modo de se pensar o mundo. Pessoas notáveis, que enxergavam o mundo de uma forma totalmente diferente dos seus semelhantes.
William Shakespeare. Auguste Rodin. Charles Chaplin. Friedrich Nietzsche.
Dedicados às mais diversas áreas – sejam ciências, sejam esculturas – são homens que se ergueram dos demais pelo seu intelecto, lógica e paixão. Transformaram tudo e todos ao seu redor, por meio de atos e idéias revolucionários, apresentando novos modos de pensar, entender e sentir o mundo que nos cerca.
Platão. Sigmund Freud. Michelangelo Buonarroti. John Lennon.
Contudo, são pessoas complicadas. A genialidade, aparentemente, tem seu preço: por se destacar dos demais, os gênios não conseguem se inserir normalmente no mundo, tendo hábitos e manias peculiares, que o diferem dos demais. Compreendem o mundo ao seu redor e, apesar (ou justamente por causa) disso optam em viver num mundo particular.
O Moleque do Quarto Andar.
Encontrei-me com ele em uma noite na semana passada, assim que entrei no hall do meu prédio.
Ele estava sentado no sofá, de frente para o elevador. Devia ter cerca de vinte anos e vestia camiseta e bermuda e tênis. No rosto, óculos azuis maiores que os All Star que usava nos pés.
No colo, um notebook.
Cruzei o hall do prédio em direção ao elevador dando boa noite. Calculei que ele estava esperando por alguém, e não pelo elevador. Isso porque assim que cruzei o hall, percebi que o elevador estava no Térreo, pronto para subir. E confesso que não era preciso ser nenhum gênio para perceber isso.
– Você vai subir?, perguntei, enquanto abria a porta do elevador.
Eu sabia que ele não usaria o elevador, mas mesmo assim questionei. Acredito que tenha sido por educação. Mas era quase uma pergunta retórica, era evidente que ele estava esperando por outra coisa – ou pessoa – ali embaixo.
– Vou.
Ele fechou o notebook no colo e caminhando em minha direção. Eu me controlei e não perguntei “por que diabos você não subiu antes se o elevador estava aqui?”. Ao contrário, resolvi ser um pouco mais eficiente, e continuei a ser gentil. Entrei no elevador ao lado dele, e como eu estava mais próximo ao painel, questionei:
– Para qual andar você vai?
– Quarto.
Apertei os botões do andar dele e do meu, o oitavo. Não me lembro se ele agradeceu. Dei um passo para o lado e o observei com calma. Agora, ele segurava o notebook ao lado do corpo e olhava fixamente à frente, em direção à porta.
Foi quando consegui ver melhor seus óculos. Enormes, estreitos e com um formato totalmente aerodinâmico, praticamente colado no rosto. A única diferença entre estes óculos e um par de óculos de natação era a ausência de um elástico para prender na cabeça. Era praticamente um óculos de natação com hastes. E de um azul que chegava a doer.
Automaticamente, dei um passo para trás. Algo em meu instinto me dizia que aquele notebook estava aberto em algum mapa do planeta Terra, provavelmente numa página de conquista intergaláctica. Tentei ver a tela, mas não consegui. Assim, instintivamente, dei um passo para trás, temendo que a qualquer minuto ele sacasse uma pistola sônica de seu bolso e gritasse “leve-me ao seu líder!”
Mas nada disso aconteceu. Pelo contrário, ele continuou parado, observando a porta do elevador.
Até que o elevador parou e as portas do elevador se abriram, deixando à vista outra porta, a do quarto andar.
Ele olhou para mim distraído e voltou-se novamente para a porta. Eu olhei para ele e para a porta. Ele olhou para o painel do elevador, para a porta, para mim e para a porta. Eu olhei para a porta e para ele. A porta olhou para nós dois com um ar de quem não tinha o dia inteiro para perder, deixando claro que “um de vocês dois tem que fazer alguma coisa”.
Era hora de alguém tomar a iniciativa. Olhei mais uma vez para a porta e para ele. Ele continuava inerte, esperando alguma acontecer por trás dos seus óculos de natação. Não, a iniciativa deveria ser minha. Estufei o peito e pigarreei.
– Hã... Tchau?
Tentei soar o mais casual possível, dando a entender que aquilo era absolutamente normal não apenas na minha vida, mas na vida de qualquer pessoa que usasse um elevador. Eu não queria causar constrangimentos. Minha preocupação, contudo era desnecessária. Ele apenas olhou novamente para mim e disse:
– Ah é... Aqui é o quarto andar, certo?
– Bem... Você vai para o quarto andar e eu vou para o oitavo... Como estávamos no Térreo e o elevador subiu, acredito que a primeira parada seja no quarto andar mesmo.
– Hummm – ele resmungou, analisando a situação. Aparentemente ainda estava não totalmente convencido.
– Além disso – continuei – tem essa placa com o número quatro aí na porta. Não deve ser por acaso. Olhe, eu acho que o quarto andar é aqui mesmo.
– É. Creio que você tenha razão. Boa noite.
Respondi boa noite e o observei sair do elevador. Segundos depois, estava entrando no meu apartamento.
Gênios...
Cada um deles revolucionou o mundo de alguma forma, destacando-se em diferentes áreas de atuação. Existiram artistas, existiriam cientistas. E existe o moleque do quarto andar, um ser humano ainda totalmente incompreendido, mas que, em alguns séculos, seu trabalho será famoso por ter revolucionado a forma de todos os elevadores funcionarem. Um ser humano notável.
Isso, claro, se ele for um ser humano.
Ainda não estou totalmente convencido disso.
Nota: Os leitores do Chronicles que se lembram do post Deus e o Apagão estão convidados a ler Dilúvio - Parte II, espécie de sequência não-oficial do texto e postada às pressas na sexta-feira, sobre as chuvas de São Paulo.
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Rob Gordon
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16 de fevereiro de 2011
O Reencontro
Imagine uma praia.
Mas uma praia bonita, deserta, com areia branca e águas cristalinas – não aquelas lotadas, com crianças gritando, vendedores de sorvete disparando aquelas buzinas malditas, e gaivotas devorando um enorme peixe morto ali no canto, perto do esgoto.
Não, eu quero que você imagine uma praia daquelas de cinema. O lugar não importa. Não importa nem se você vai imaginar uma praia que conhece, ou vai inventar uma. Tanto faz, apenas imagine uma praia. O horário também não importa, mas é aconselhável que seja logo cedo, pela manhã, ou ao final da tarde, para o Sol estar baixo e sua luz se refletir no mar.
E é ali, enquanto as ondas quebram preguiçosamente na areia (eu não sei muito a respeito da praia de vocês, mas nas minhas praias paradisíacas as ondas sempre quebram na areia de forma preguiçosa), que eles vão se reencontrar. E será em alguns minutos, então precisamos ser rápidos.
Mas, antes disso acontecer, precisamos de uma música. Precisa ser algo romântico e grandioso, contudo intimista ao mesmo tempo. E não pode ser clichê. Nada do Tema de Amor de Blade Runner, que virou assinatura de propaganda de motel. Não, tem que ser algo bonito, mas único, que funcione somente para eles, mas sem cair no ridículo.
Ou, melhor, podemos usar duas músicas. Uma no começo e outra no final.
Então, vamos tentar esta no começo: A Rapsódia sobre um Tema de Paganini, usada no filme Em Algum Lugar do Passado (clique aqui para ouvir). Não sabe qual é? Perfeito. Assim, com estas notas doces – mas levemente melancólicas tocando – temos takes alternados dos dois. Ele e Ela, na mesma praia paradisíaca, mas obviamente separados.
Ela olha para o mar esperando reencontrar seu amor; ele se distrai olhando as conchinhas no chão. Ela está toda de branco, enquanto Ele usa apenas calças, com as barras dobradas para não molhar – é ridículo, eu sei. Ninguém usa as calças assim, mas em cenas deste tipo usar as calças desta forma é não apenas aceitável como recomendável.
Assim, temos takes alternados dos dois. Talvez uma lágrima discreta role pela face dela (outra coisa: para mim, lágrimas só caem quando são de verdade; em textos, elas rolam pela face), e ele deixando escapar um sorriso amargo, um sorriso daqueles de quem sabe ter vivido o maior amor da história, e que nunca mais encontrará alguém igual.
E, com o Paganini rolando solto, é evidente que eles estão considerando seu futuro. Ela sabe que, mesmo acompanhada, se sentirá sozinha para sempre; um pedaço seu – a melhor parte de sua vida – foi arrancada, por um motivo que ainda não sabemos, e talvez nunca venhamos a saber. Talvez ela conheça outra pessoa, se case e tenha filhos e netos, mas ela nunca mais viverá plenamente. Pelo contrário, apenas sobreviverá.
Ele? Ele já aceitou mudar de país e deixar tudo para trás. Passará o resto da vida morando em Paris, num pequeno apartamento, escrevendo poemas de amor, solitário e gastando o pouco dinheiro que ganha com os textos em garrafas de vinho (ele precisará de meia garrafa para dormir, todas as noites), e talvez um pãozinho com queijo. E os poemas, todos eles, serão sobre ela. Para ela. Por ela.
Separados para sempre.
Ou não.
Pois, numa rápida virada de cabeça, um avista o outro. Curioso como sempre acontece isso, eles sempre se vêem ao mesmo tempo. Ela jamais olharia primeiro apenas para surpreendê-lo cutucando o nariz e limpando na calça, e ele nunca teria descoberto ela pulando na areia com a cabeça torta para tirar a água dos ouvidos após um mergulho.
Não, eles se reencontram ao mesmo tempo. O Paganini ainda continua, mas seus olhos mudaram. Abandonaram a melancolia, dando lugar à esperança. E ao amor. De opacos, transformam-se em estrelas, brilhantes. Assim que seus olhos se encontram, o futuro muda. Nada mais de uma família numerosa para ela, com filhos egoístas e um marido que limpa a mão engordurada de frango na toalha da mesa; para ele, nada mais de apartamento em Paris e aquele vinho barato que o fazia acordar com azia de madrugada.
E, agora que se reencontraram, não conseguem mais ficar separados. Para dar dramaticidade ainda maior, talvez ela possa estar segurando algo na mão, para deixar cair, distraído. Uma caneca, com o resto de café? Pode ser.
Então, pronto. Será uma caneca. Ele deixa o objeto cair na areia e começa a andar na direção dela, sem olhar para baixo, sem olhar para as ondas. Ela faz o mesmo. Não se preocupe, nenhum dos dois vai cair ou dar uma topada numa pedra, essas coisas nunca acontecem neste momento – lembre-se que eles estão numa praia, logo não há nenhum criado-mudo para algum deles estourar o mindinho e sair pulando e gritando palavrões.
Aos poucos, a velocidade de cada um começa a aumentar. Corta o Paganini, entra Beethoven, no meio do quarto movimento da Nona Sinfonia. Se você acha que é clichê, problema seu. É Beethoven, então pode. Toca Beethoven mesmo, ou eu paro o texto agora. Ótimo. então, enquanto as ondas continuam a quebrar (preguiçosamente) na areia, eles correm em direção ao outro, braços abertos, em câmera lenta.
Não, câmera lenta sim é o cúmulo do clichê. Ok, o recurso funciona, mas é bem datado, vai ficar parecendo propaganda de cartão de crédito dos anos 90. Esqueçam a câmera lenta e foquem sua atenção no Beethoven, que não precisa de câmera (nem de praia com ondas preguiçosas, para falar a verdade) para funcionar.
A câmera muda dele para ela, e dela para ele. Estão cada vez mais próximos. E o Beethoven vem crescendo.
E, quando eles se encontram, se abraçam com força, desesperados, aquele abraço-de-quem-não-quer-nunca-mais-soltar-porque-já-soltou-uma-vez-e-sabe-que-é-uma-merda. E aí tem um clichê que não podemos fugir: ele a levanta e roda o corpo dela no ar, enquanto ela, abraçada a ele, dobra suas pernas para trás. Seus cabelos estão esvoaçantes, assim como sua saia branca.
E o coro da Nona Sinfonia (ta ta ta ta ta ta ta ta ta ta ta ta tááááá tá-tá) explode conforme eles caem na areia, abraçados. E, conforme eles se beijam desesperadamente, famintos, uma onda quebra (preguiçosamente, não se esqueçam) por cima deles, como se até mesmo a natureza abençoasse esse reencontro. E se o pessoal da Columbia Pictures falar que copiamos isso do beijo entre o Burt Lancaster e a Deborah Kerr em A Um Passo da Eternidade, nós alegamos que nunca vimos o filme, que tivemos a ideia de colocar a onda antes que o filme fosse lançado, mas só executamos isso agora, por problemas de orçamento.
E, com o Beethoven ainda explodindo nas caixas de som, a câmera se afasta, para o alto, pegando uma panorâmica inteira da praia, com eles se beijando lá longe, na areia, no centro de tudo e minúsculos. Os críticos vão adorar isso; metade deles vai achar que isso mostra que eles ainda são humanos e pequenos; a outra metade vai insistir que esta tomada serve para o público entender que não existe mais ninguém no mundo, para eles, naquele momento.
Um leve fade-out. Beethoven começa a silenciar.
Fim.
Este texto é dedicado à minha mão direita (Ela) e ao meu teclado (Ele), que, após quase um mês afastados, se reencontraram agora há pouco, depois que tirei o gesso. E se você perguntar para mim como o texto começa, eu não me lembro mais. Nunca escrevi tão rápido na vida – eu não queria escrever, eu precisava escrever, mesmo que usando somente o indicador da mão direita. Precisava sentir o teclado. Precisava digitar na mesma velocidade que eu penso. Assim, apenas peguei o tema Reencontro e escrevi a primeira coisa que veio à cabeça.
Afinal, um menino que ficou com a perna engessada nas férias, quando tira o gesso não quer marcar gols. Ele quer apenas chutar a bola.
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Rob Gordon
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Gêneros: Blog, Culpa do meu Eu-Lírico, Mão quebrada
14 de fevereiro de 2011
A Mão Esquerda de Rob
Cérebro: Obrigado por ter vindo.
Mão esquerda: De nada. Do que você precisa?
Cérebro: Estou com ideias para alguns posts, mas, com a mão direita quebrada, preciso que você me ajude.
Mão esquerda: Bem, posso tentar.
Cérebro: Ok. O post é para o Chronicles, e gira em torno de um casal. E o casamento deles quase acaba quando ela descobre uns segredos no computador dele.
Mão esquerda: Que segredos?
Cérebro: Não quero falar agora, pode ter gente ouvindo. Mas o que eu preciso é que você faça um trecho inicial criando a situação. Dizendo há quanto tempo eles são casados, se possuem filhos, essas coisas. Enquanto você faz isso, eu vou responder uns e-mails e depois volto, para lapidarmos juntos a descoberta da esposa e as conseqüências.
Mão esquerda: Mas você quer que eu faça este trecho inicial sozinho?
Cérebro: Claro, é fácil. Basta apenas criar os personagens e apresentá-los o leitor. A regra é fazer quem lê se sentir próximo dos personagens, como se eles morassem no apartamento ao lado. É um casal comum.
Mão esquerda: Bom, tudo bem. Posso tentar.
Cérebro: Enquanto isso, vou trabalhando na segunda metade aqui.
Mão esquerda: Ok.
Cérebro: Estou quase terminando aqui. Como estão as coisas aí?
Mão esquerda: Preciso de ajuda com uma coisa. Onde eu abro o Word?
Cérebro: Você ainda nem começou?
Mão esquerda: Eu não sei abrir o Word. É sempre a mão direita que abre. Eu mal consigo segurar o mouse.
Cérebro: Mas eu quase acabei aqui!
Mão esquerda: Então, eu já pensei em diversas coisas também. Até mesmo em nome de personagens. Preciso só abrir o Word. É no “Iniciar”, não é?
Cérebro: Isso.
Mão esquerda: Que janela é essa?
Cérebro: Você está clicando com o botão errado! Clica com o outro!
Mão esquerda: Ah... Agora sim. É difícil usar isso aqui. Pronto.
Cérebro: Ok. Então tente fazer o que eu pedi, eu já volto.
Mão esquerda: É assustadora mesmo, essa tela branca sem texto algum, certo? Achei que fosse exagero de vocês...
Cérebro: Você dá conta, pode ter certeza. Eu já volto.
Mão esquerda: Ok.
Cérebro: Voltei. Terminou?
Mão esquerda: Estou fazendo.
Cérebro: Posso ver?
Mão esquerda: Está aqui. Já fiz quase até o início da descoberta para você.
Cérebro: Ótimo! Deixe-me ver.
Waldir e Laís eram casados há doze anos. Ele era dono de uma loja de material de construção. Ela, professora, havia se aposentado quando engravidou do primeiro filho. De lá para cá, os anos se passaram, mas o amor continuou – e só aumentou com a chegada do segundo filho, uma menininha que todos diziam ser a cara do pai. Assim, o tempo foi se passando, mas, mesmo enfrentando diversos problemas, o casal nunca enfrentou nenhum problema sério. Os amigos até mesmo diziam que eles eram mais que um casal, mas sim um exemplo. Isso, claro, até Waldir anunciar que estava montando um escritório em casa. Laís estranhou, já que ele odiava trabalhar em casa, mas no fundo gostou da ideia. Talvez isso fizesse o marido passar ainda mais tempo em casa.
Cérebro: Olhe, está ótimo, mas acho que o primeiro parágrafo ficou grande demais.
Mão esquerda: Bom, mas você pediu para situar os personagens. Não tenho como fazer isso em meia dúzia de palavras.
Cérebro: Não, não. Estou apenas falando que você poderia ter dividido em dois parágrafos.
Mão esquerda: Como assim?
Cérebro: Ué, quebrando em dois parágrafos. Aquela frase que começa com “isso, claro”, é ideal.
Mão esquerda: Ok, eu quebro ali. Assim?
Cérebro: Deixe-me ver.
Waldir e Laís eram casados há doze anos. Ele era dono de uma loja de material de construção. Ela, professora, havia se aposentado quando engravidou do primeiro filho. De lá para cá, os anos se passaram, mas o amor continuou – e só aumentou com a chegada do segundo filho, uma menininha que todos diziam ser a cara do pai. Assim, o tempo foi se passando, mas, mesmo enfrentando diversos problemas, o casal nunca enfrentou nenhum problema sério. Os amigos até mesmo diziam que eles eram mais que um casal, mas sim um exemplo. Aqui começa o outro parágrafo. Isso, claro, até Waldir anunciar que estava montando um escritório em casa. Laís estranhou, já que ele odiava trabalhar em casa, mas no fundo gostou da ideia. Talvez isso fizesse o marido passar ainda mais tempo em casa.
Cérebro: Continua igual!
Mão esquerda: Não, olhe. Vou colocar em negrito.
Waldir e Laís eram casados há doze anos. Ele era dono de uma loja de material de construção. Ela, professora, havia se aposentado quando engravidou do primeiro filho. De lá para cá, os anos se passaram, mas o amor continuou – e só aumentou com a chegada do segundo filho, uma menininha que todos diziam ser a cara do pai. Assim, o tempo foi se passando, mas, mesmo enfrentando diversos problemas, o casal nunca enfrentou nenhum problema sério. Os amigos até mesmo diziam que eles eram mais que um casal, mas sim um exemplo. Aqui começa o outro parágrafo. Isso, claro, até Waldir anunciar que estava montando um escritório em casa. Laís estranhou, já que ele odiava trabalhar em casa, mas no fundo gostou da ideia. Talvez isso fizesse o marido passar ainda mais tempo em casa.
Mão esquerda: Viu?
Cérebro: Você é louca?
Mão esquerda: Ué, você pediu para dividir em dois parágrafos.
Cérebro: Sim, mas é só dar Enter.
Mão esquerda: Dar o quê?
Cérebro: Enter.
Mão esquerda: Você me respeite! Eu sou uma mão de família!
Cérebro: Não... Basta apertar o enter.
Mão esquerda: Que Enter?
Cérebro: Enter, porra. Você aperta o Enter para começar outro parágrafo.
Mão esquerda: Existe uma tecla que faz isso?
Cérebro: Sim. Como você acha que as pessoas mudam de parágrafo?
Mão esquerda: Ah, não sei. Nunca pensei nisso. Talvez enchendo de espaços...
Cérebro: Não, tem uma tecla chamada Enter que faz isso. Não acredito que você não conhecia.
Mão esquerda: É uma daquelas teclas especiais, né? Eu só conheço o Shift. Ah, tem o Alt também, mas esse eu quase não uso.
Cérebro: Bem, mas tem o Enter também.
Mão esquerda: É ESSA AQUI?
Cérebro: Não, esse é o Capslock. Aperte de novo, ou vai ficar tudo em maiúsculo.
Mão esquerda: MAS ONDE ESTÁ O ENTER?
Cérebro: Aperte o Capslock mais uma vez!
Mão esquerda: espaço espaço PRONTO.
Cérebro: Não, você apertou o Tab!
Mão esquerda: QUE TAB?
Cérebro: Aperte o capslock! Acima do Shift!
Mão esquerda: Achei. Pronto.
Cérebro: Ok. Agora, não mexa em mais nada. Vamos ao Enter.
Mão esquerda: Então, onde fica isso?
Cérebro: Existem dois. Um acima do outro Shift, ao lado direito do teclado principal, e outro lá no canto direito, no teclado numérico.
Mão esquerda: Ah, achei.
Cérebro: Então, agora você pode dividir em dois parágrafos, onde eu pedi. Nao esquece de tirar aquela frase indicando o começo do parágrafo.
Mão esquerda: Assim?
Waldir e Laís eram casados há doze anos. Ele era dono de uma loja de material de construção. Ela, professora, havia se aposentado quando engravidou do primeiro filho. De lá para cá, os anos se passaram, mas o amor continuou – e só aumentou com a chegada do segundo filho, uma menininha que todos diziam ser a cara do pai. Assim, o tempo foi se passando, mas, mesmo enfrentando diversos problemas, o casal nunca enfrentou nenhum problema sério. Os amigos até mesmo diziam que eles eram mais que um casal, mas sim um exemplo.
Isso, claro, até Waldir anunciar que estava montando um escritório em casa. Laís estranhou, já que ele odiava trabalhar em casa, mas no fundo gostou da ideia. Talvez isso fizesse o marido passar ainda mais tempo em casa.
Cérebro: Isso. Viu como ficou melhor?
Mão esquerda: Não gostei disso.
Cérebro: Como não? O texto fica mais leve.
Mão esquerda: Não, não é isso. Não gostei desse negócio do Enter.
Cérebro: Oi?
Mão esquerda: É. Tem dois Enter, e os dois são do lado direito. Isso não é um pouco de preconceito?
Cérebro: Claro que não.
Mão esquerda: É preconceito sim. Shift esquerdo, Shift direito. Alt esquerdo, Alt direito. Control esquerdo, Control direito. E aí tem o Enter direito, e o Enter mais direito ainda.
Cérebro: Bom, mas o teclado é assim...
Mão esquerda: Sim, e isso é preconceito. Por acaso vocês acham que a mão esquerda é incapaz de apertar o Enter? Não somos bons os suficientes para começar outro parágrafo? É isso?
Cérebro: Eu não sei! Não desenhei o teclado!
Mão esquerda: Preconceito! Preconceito! A mão esquerda deve ter o direito de apertar o Enter também! Temos cinco dedos, como a outra mão! Temos um polegar opositor! Eu exijo um Enter ao lado esquerdo do teclado.
Cérebro: Olhe, o texto...
Mão esquerda: Esquece o texto! Isso é mais importante! E se a pessoa for canhota? Ela não pode apertar o Enter com vontade? Com força? Se ela estiver brigando com alguém no Messenger, ela não pode socar o Enter como as outras pessoas? Se eu estivesse brigando com alguém no Messenger, iria querer afundar o Enter no teclado a cada mensagem, e não apertar o Enter feito uma menina!
Cérebro: Eu quero postar este texto ainda, hoje, ok?
Mão esquerda: Problema seu. Arrume alguém para digitar então. Eu não vou apoiar esse teclado. Isso é contra tudo em que eu acredito.
Cérebro: Por favor, é só um teclado...
Mão esquerda: Não, não é um teclado! É uma questão de princípios. Eu mereço as mesmas oportunidades que a mão direita! Eu exijo um Enter do meu lado do teclado. Se você acredita que eu vou ficar na base da pirâmide social deste corpo, servindo apenas para ficar com o relógio, está redondamente enganado.
Cérebro: Olhe, eu até pediria para a mão direita ajudar, mas como ela está engessada... Bem, o Rob tem demorado quase três minutos só para amarrar o tênis. As coisas não estão fáceis, você poderia colaborar um pouco...
Mão esquerda: Não é problema meu! Eu exijo que você configure este teclado para alguma tecla do lado esquerdo funcionar como Enter. Pega esse Capslock, eu não me importo. Se precisarmos digitar uma frase inteira em maiúsculas, eu fico apertando o Shift.
Cérebro: Eu não tenho como mexer no teclado agora.
Mão esquerda: Então, vai ficar sem post.
Cérebro: Olhe, chega. Pode ir embora. Vai coçar as costas, vai fazer alguma outra coisa. Eu me viro aqui.
Mão esquerda: Você quem sabe.
Cérebro: Deixa. Tchau.
Mão esquerda: Quando você arrumar um teclado mais humano, mais politicamente correto, nós voltamos a conversar.
Cérebro: Ok. Tchau.
Mão esquerda: ADEUS!
Cérebro: Desaperte o Capslock.
Mão esquerda: NÃO. VOCÊ QUE SE VIRE SOZINHO!
Cérebro: Eu vou dar um jeito, você vai ver. Não preciso de você.
Mão esquerda: RACISTAZINHO DE MERDA! ADEUS!
Cérebro: Puta que pariu, que bosta de corpo. Ninguém ajuda em nada. Ô fase.
Cérebro: Obrigado por ter vindo. Preciso de ajuda.
Nariz: Diga.
Cérebro: Você pode digitar um texto para mim? Eu vou ditando e você vai escrevendo...
Nariz: Eu? E as mãos? Não vieram hoje?
Cérebro: Não quero falar sobre isso. Pode me ajudar?
Nariz: Bem, estou meio gripado, então dói tudo...
Cérebro: Eu pago uma caixa de Kleenex para você.
Nariz: Feito.
Cérebro: Vamos lá. “Waldir e Laís eram casados há doze anos.”
Nariz: Waldir é com “W”, né?
Cérebro: Sim.
Nariz: Laís tem acento?
Cérebro: Sim.
Nariz: Ah é. Senão fica Láis. Desculpe, eu sou novo nisso.
Cérebro: Ok.
Nariz: Há quanto tempo você disse que eles são casados?
Cérebro: [suspiro]
Nariz: “Todo cuidado é pouco”. Ponto final. Pronto. Acabei.
Cérebro: Obrigado. Vou postar agora. Amanhã te entrego o Kleenex.
Nariz: Posso ver?
Cérebro: Pode, claro. É só clicar aqui.
Nariz: Que emoção! Minha primeira crônica! Posso assinar com meu nome?
Cérebro: [suspiro]
(Esta vem sendo minha realidade
desde que engessei o braço.
Este post é dedicado aos
leitores canhotos do Champ.)
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Rob Gordon
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Gêneros: Blog, Culpa do meu Eu-Lírico, Mão quebrada, Ô Fase
13 de fevereiro de 2011
Sonhos de Kurosawa Gordon IX
Foi hoje, domingo. Estava trabalhando em casa até umas 16h00min quando me rendi à gripe. Mal conseguia olhar a tela do PC sem os olhos lacrimejarem. Assim, desliguei tudo e fui dormir um pouco.
Acordei às 19h30min, com minha mãe entrando no meu quarto e me chamando.
– Rob?
– Oi.
– Está acordado?
– Mais ou menos.
– São quase oito da noite. Você quer jantar?
– Não sei. Mas vou levantar.
Saí da cama e olhei para ela, em pé na porta do quarto. Impressionante como conhecemos os pequenos gestos de algumas pessoas. Como ela estava enxugando as mãos em um avental amarrado na cintura, percebi que ela estava cozinhando imediatamente antes de vir me chamar. Ou seja, ela havia me deixado dormir até o jantar ficar pronto.
Quando me aproximei dela, ela perguntou:
– Você melhorou da gripe?
– Não.
– Você deve ter tido muitos pesadelos. Eu ouvia o tempo todo você falando enquanto dormia.
– O que eu disse?
– Algo sobre a mulher-dragão. E os índios.
– Índios? Que índios?
– Não sei. Uma hora eu vim aqui e perguntei, e você, dormindo, respondeu apenas que eles eram a força brilhante da natureza.
– Eu disse isso?
– Isso ou algo parecido. Você deveria estar tendo pesadelos. Mas, enfim, você quer jantar?
Antes de sair do quarto, parei. Algo estava errado. Olhei para a minha mãe. Tinha certeza de que ela não estava em casa quando eu havia ido dormir.
– Por que você está aqui?
– Oi?
– Por que você está aqui? Você não mora aqui.
– É verdade. Então, você deve estar sonhando. Você ainda deve estar dormindo.
– Provavelmente.
– Então, volte para a cama e acorde.
– Ok.
Dei meia volta, caminhei até a cama, deitei e dormi por mais alguns minutos.
Acordei e estava sozinho em casa.
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Rob Gordon
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Gêneros: Por Isso que Eu Faço Terapia, Sonhos
8 de fevereiro de 2011
Pequeno Diálogo Matinal
– Que foi?
– Nada. Estou apenas olhando.
– Olhando?
– É. Olhando você.
– Mas não estou fazendo nada demais. Estou só comendo.
– Eu sei.
– Não tem muito que olhar. Mesmo a comida... É ração. A mesma ração de sempre.
– Eu sei... Não é a comida. Estou olhando você.
– Está tudo bem?
– Está. Pode comer.
– Eu não consigo, com você olhando assim.
– Olhe... Posso falar uma coisa?
– Diga.
– Eu posso não dizer todos os dias que amo você. Mas eu amo. Todos os dias.
– Eu sei.
– Todos os minutos.
– Eu sei.
– E que você é um puta de um amigo.
– Eu sei.
– Enfim... Era isso. Queria agradecer, acho. Agradecer por você estar aqui.
– Tudo bem.
– Bom... Vou trabalhar agora. Volto à noite.
– Ok. Estarei aqui.
– Tchau. Estou indo. Fica bem, tá?
– Rob! Rob! Espere!
– Oi?
– Sente aqui por dois minutos?
– Eu estou atrasado...
– É rápido. Prometo. Quero só falar uma coisa.
– Pronto. Diga.
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Rob Gordon
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Gêneros: Agora Falando Sério, Amor, Besta-Fera, Morar Sozinho
7 de fevereiro de 2011
Why We Write
"Ao Amigo Rob Gordon,
(“Amigo”, pois acho que compartilhei muito mais das suas emoções e desventuras no Champ, do que com muitos dos meus amigos mesmo)
E é engraçado como está sendo difícil escrever esse e-mail para uma pessoal que eu não conheço e, mesmo assim, acho que conheço tão bem! Em primeiro lugar parabéns pelo excelente trabalho, tanto no Champ, como no Chronicles. Acompanho-o há mais de três anos e a cada nova postagem é sempre a mesma curiosidade e emoção. Sei que nem sempre comento e participo como deveria e isso se deve em parte por vergonha e em parte por admiração.
Explico: Sabe aquele ídolo que você admira e sabe que apesar de ser uma pessoa, como você, ele está em outro patamar? Então, pelo seu talento é isso que eu sinto! (talento sim!). Mas em um paradoxo, em seus textos, sinto como se estivesse ao seu lado. Sem contar as dezenas de gostos e influências em comum...
Mas não estou escrevendo para me apresentar. Escrevo como um grande admirador do seu trabalho e para agradecê-lo por nos dar a chance de acompanhá-lo no seu dia-a-dia, de nos fazer sentir as mesmas emoções que você sentiu e, principalmente, nos lembrar do que realmente importa: valores como família, amizade, amor e bom-humor, que você tantas vezes ressalta nos seus textos, mesmo sem ressaltar! Mais do que isso, durante muito tempo fui resistente a blogs e você não só mostrou que é possível ter um blog “amador” (Pede desculpas ao Champ, o “amador” é no sentido de que você não vive disso!), com muito conteúdo! E por isso mesmo decidi escrever...
Então, meu amigo, o meu “muito obrigado pela inspiração e amizade”! É um grande prazer lê-los, repassá-los e comentá-los. Espero que eu possa, daqui a um tempo, mostrar esses textos tão brilhantes ao meu filho, que chega agora, em fevereiro, principalmente Ao Meu Sobrinho. Vou poder dizer: 'Filho, leia! O Tio Rob vai te dar uns toques...'.
Abraços e Sucesso!"
por um leitor a este blog)
Não é fama, nem dinheiro, nem status. Nunca foi nada disso.
Pelo contrário, sempre foi fazer rir, fazer chorar, fazer pensar. Sempre foi fazer diferença (por menor que esta diferença seja) na vida das pessoas. Sempre. Sempre foi tentar colorir um pouco algo como cinco minutos do dia das pessoas, cada vez mais corrido e acinzentado. Essa é e sempre será a obrigação de quem escreve.
Alguns de vocês, aqui, às vezes, dizem “eu não sei como comentar este texto”. Hoje eu finalmente entendi como vocês se sentem.
Excepcionalmente hoje este blog está sem palavras. Resta apenas uma:
Obrigado.
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Rob Gordon
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3 de fevereiro de 2011
Brilho Eterno de um Mentos sem Lembrança
Atravessei a rua correndo e cheguei ao boteco aqui em frente à redação desesperado. Tudo o que eu queria era um chocolate, mas o motivo da minha pressa era outro: a chuva.
Em questão de segundos, iria chover. Muito. O céu de Pinheiros estava tão negro que se houvesse uma filial da Ku-Klux-Klan nas redondezas, seus diretores certamente já teriam emitido uma reclamação formal à prefeitura alegando falta de respeito com suas crenças.
Até aí, tudo bem, já tomei chuva antes. Aliás, uma das melhores lembranças da minha adolescência era jogar bola na rua durante tempestades. O problema é que com o braço engessado não posso me dar a este luxo, já que qualquer garoa pode me transformar em uma espécie de Sonrisal andando pelas ruas, especialmente porque eu não tenho o hábito de andar com um saco plástico no bolso.
Ou seja, eu me tornei uma espécie de Cascão. Basta eu ver uma nuvem preta no céu que preciso correr para algum lugar coberto, e me encolho ali tremendo de medo. E como São Paulo está na época das monções, estou até mesmo pensando em levantar o assunto com minha psicóloga, já que eu passo os dias olhando os céus e tendo ataques de pânico.
Então, imagine o desespero que senti quando, no limiar da tempestade, entrei no boteco e dei de cara com ninguém menos que a proprietária, atrás do balcão.
Quem é mais antigo aqui no blog deve-se lembrar dela (sobretudo pelo post que satirizava Star Trek). Aos mais novos, explico: ela é tão devagar que chega até mesmo a desafiar as leis da Física, criando uma espécie de bolha temporal dentro do bar. Funciona assim: você entra, pede uma Coca, bebe sua Coca e paga. Tudo isso em cinco minutos. Mas, quando você sai, descobre que, no mundo real, se passaram mais ou menos seis dias – e para completar ela ainda deu o troco errado.
Sem exageros, se ainda vivêssemos nos anos 80, com a inflação galopante, o período de tempo entre você pedir a Coca e ela entender o que você deseja seria suficiente para o preço do refrigerante subir uns 80%.
Como se não bastasse ter a velocidade média inferior a de uma árvore, ela ainda tem o mesmo poder de concentração de uma criança hiperativa brincando com um caleidoscópio. O cérebro dela é um emaranhado de pop-ups que vão abrindo (com a velocidade de um 286, com conexão discada) e se amontoando sobre o diálogo.
E, às vezes, ela simplesmente trava e fica olhando para você, com uma interrogação se desenhando lentamente em seu rosto. Uma duas vezes eu cheguei a ter o impulso de segurar o pulso dela e dar uma chacoalhada, pois ela entra em modo de economia de energia frequentemente.
Então, se você é novo no blog, agora você tem bagagem para entender isso, então repito o que disse acima: “imagine o desespero que senti quando, no limiar da tempestade, entrei no boteco e dei de cara com ninguém menos que a proprietária, atrás do balcão.”
Pensei em mudar de ideia (mesmo porque seria mais fácil eu iniciar uma plantação de cacau e começar a fabricar meus próprios chocolates) mas, como eu já estava ali, resolvi arriscar a sorte.
Assim, me aproximei do balcão e disse:
– Oi. Eu queria um Charge.
– Você gosta de Mentos?
Foi neste momento que minha sorte soltou um “Desisto!”, apagou a luz da sala e foi embora, decidida a tirar o resto do dia de folga e repensar toda sua vida profissional.
– Oi?, foi tudo o que eu consegui dizer.
– Você gosta de Mentos?
Confesso que nunca pensei muito sobre o assunto, mas fiquei com receio de assumir isso. Aquilo parecia ser importante para ela.
– Sei lá. Acho que sim.
– Eu comprei uns novos, você viu?
– Não vi... Posso ver depois?
– Tem esse preto aqui, que é...
Ela pegou a embalagem de Mentos e começou a analisá-la minuciosamente, procurando por algum indicativo do sabor. Para os neurônios dela, provavelmente o Mentos preto era uma espécie de monólito do 2001 – Uma Odisséia no Espaço, que causaria todo um salto evolucionário dentro do seu cérebro. Em pouco tempo, seus neurônios conquistariam o espaço. Antes que eu pudesse sugerir que ela mudasse o nome do estabelecimento para Bar e Lanches HAL 9000, ela concluiu:
– Não sei o sabor dele. Mas é esse preto aqui.
Podem ignorar aquela parte do salto evolucionário. Aparentemente, eles permaneceriam macacos para sempre, sem entender o que era aquela enorme pedra negra com a inscrição Mentos. E passariam a eternidade ouvindo Assim Falou Zaratustra e tentando escapar do leopardo que mora ali perto.
– Olhe, eu estou com um pouco de pressa...
– Qual será o sabor deste Mentos preto?
– O céu está preto também, você viu? Talvez seja sabor nuvem.
Sei que não foi uma grande frase, mas eu precisava introduzir o assunto “chuva” na conversa de alguma forma. E urgentemente. Tudo o que eu consegui, porém, foi que a atenção dela se voltasse para outro Mentos, com a embalagem meio roxa.
– Tem esse aqui de Uva com...
– Charge, você tem? O chocolate?
– Com... Com...
– Com pressa?
– Não, acho que é com limão.
Era inútil. Ela estava aprisionada num mundinho próprio, formado por Mentos de todas as cores e sabores.
– Olhe, eu juro que experimentarei todos um dia. Mas o Charge...
– Nossa! Isso foi um trovão?
Obrigado, Poderoso Thor, por chamar a atenção dela. Te devo uma.
– Isso! Foi um trovão! Isso!
– Acho que vai chover...
Se ao invés de procurar por Noé, Deus tivesse decidido falar com ela, o Dilúvio teria durado uns 300 dias. 260 dias para ela entender o que iria acontecer e construir o barco, e 40 dias de chuva. Isso sem falar na zona que ela faria com aquele negócio de reunir os animais - imagine ela andando pela arca berrando coisas como "alguém viu os castores?", sem ter resposta alguma. Mas aproveitei minha deixa:
– Sim. Vai. Vai chover. Muito. Inclusive...
Esta minha última resposta foi acompanhada de um gesto: enquanto eu falava, levantei o braço direito e apontei o gesso com a mãe esquerda. Não tinha como ser mais óbvio.
Mas foi em vão. A informação climática fez soar algum alarme na mente dela. Assim, sem grandes cerimônias, ela se virou para dentro do bar e gritou para qualquer funcionário que estivesse nas imediações:
– Tem que recolher as cadeiras! Vai chover!
Ninguém respondeu, mesmo porque ela parecia estar sozinha no bar. Mas não dei atenção para isso, pois, assim que ela disparou a ordem aos seus comandados invisíveis, voltou-se para mim e sorriu:
– Oi.
Aparentemente, seu cérebro havia reiniciado por algum motivo e estava abrindo todos os programas novamente. Aproveitei que eu era a bola da vez e dancei conforme a música.
– Oi. Tudo bem? Eu queria um Charge.
Ela me entregou o chocolate e pegou as moedas que joguei no balcão. Seus olhos brilharam. O balcão é de vidro e, ao olhar as moedas, ela avistou os Mentos ali, e claramente seus neurônios detectaram alguma importância naquelas balas. Alguma coisa fazia aquelas embalagens terem um significado enorme para ela.
E foi assim que ela entrou em transe novamente.
Eu saí correndo de volta para o prédio, sentindo as primeiras gotas de chuva. Já comi o chocolate, já choveu, já parou de chover... E aposto que ela ainda está paralisada, tentando entender o que são aqueles Mentos.
Ou ao menos descobrir qual o sabor do Mentos preto.
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Rob Gordon
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1 de fevereiro de 2011
Deus e o Sabre de Luz
Quando eu era pequeno, não era difícil acompanhar minha...
Não. Comecei errado. Afinal, “quando eu era pequeno”, no meu caso, pode se referir à semana passada. Vamos tentar de novo.
Quando eu era criança (agora sim), não era difícil acompanhar minha mãe até o banco. Ela sempre teve conta numa agência do Banco Real, no Shopping Ibirapuera, e, muitas vezes em que ela precisava ir ao banco fazer alguma coisa – naquele tempo, não havia internet e, mesmo se houvesse, não faria diferença para ela, que ainda pergunta se é seguro eu digitar o número do meu cartão sempre que compro algo em um site – eu ia junto, na esperança de ganhar algo.
Veja bem, o “ganhar algo” algo aqui se aplica ao campo “mãe”, ou seja, não era nada muito ambicioso, normalmente ficando restrito à fórmula “chocolate, sorvete ou revista em quadrinhos”. Com sorte, um livro. Mas nada além disso.
Quando o passeio era com a minha avó, aí sim eu sabia que a mordida seria maior e me arriscava a pedir algo mais, digamos, sofisticado. Afinal, nenhuma criança que sai com a avó vai se contentar com um chocolate. Chocolates e avós são dois conceitos inseparáveis. Onde existe um, existe o outro, tanto que avós normalmente respondem a um “oi, vó!” escorregando um Sonho de Valsa para o bolso do neto.
Para quem gosta de futebol, deixo uma explicação melhor: no campeonato de conseguir presentes, enfrentar a mãe é um clássico (muitas vezes, fora de casa), que não é difícil ficar no 0 x 0 (e a vantagem do empate é dela); já a avó é aquele time que você precisa obrigatoriamente golear para fazer saldo de gols. Você ganhar um chocolate da avó é, literalmente, estar no saldo zero de presentes. Um neto que não consegue arrancar um chocolate da avó deveria ser punido por desonrar a classe, e passar o resto da existência trancado num universo habitado somente por cunhados.
Mas estou divagando, visto que no dia em questão eu estava com a minha mãe. Enquanto ela estava no banco, eu fui a uma loja de brinquedos no mesmo corredor (Tamborzinho ou Miniatura, nunca consegui diferenciar as duas) para passar o tempo. E foi dentro da loja que eu vi meu primeiro sonho de consumo.
Um sabre de luz.
Veja bem, se eu, com 35 anos, ainda tenho um sabre de luz – de verdade, claro – entre meus oito ou dez maiores sonhos de consumo (você consegue imaginar eu descendo a Teodoro Sampaio com aquilo ligado no meio dos camelôs? Bem, eu penso nisso todos os dias), imagine então qual não a minha reação ao dar de cara com um deles, à venda, quando eu tinha dez ou onze anos?
Meu destino todo se traçou à minha frente, enquanto eu olhava a vitrine, maravilhado. Eu teria meu sabre de luz e poderia finalmente enfrentar as forças do lado negro (leia-se: meu irmão), expulsando-as de casa. Gordon, o Jedi. Além disso, eu poderia levá-lo para a escola, e seria o primeiro aluno Jedi do colégio, sendo convocado para resolver impasses na cantina e mantendo a justiça no pátio. Gordon, o Jedi. Isso, claro, sem falar nas aulas de educação física: com o meu tamanho, disputar as bolas altas nas cobranças de escanteio sempre foi uma tarefa um tanto quanto complicada, e um sabre de luz viria bem a calhar. Gordon, o Jedi.
Tudo bem, olhando em retrospecto, algo me diz que eu andaria perigosamente próximo ao Lado Negro. Ao invés de Gordon, o Jedi, me tornaria em Darth Gordon. Mas, se este for meu destino, paciência. It’s useless to resist, já diria Darth.
Claro, eu precisaria de um manto. Porque todo mundo sabe que o Luke Skywalker é meio bunda-mole até o começo de O Retorno de Jedi, quando ele entra encapuzado no palácio do Jabba. Mas o manto seria fácil, um lençol escuro já serviria. Se eu conseguisse aquele sabre de luz, eu poderia facilmente explicar para a minha avó que “não, vó, não é uma espada, é um sabre de luz, e o meu destino está ligado à Força” e ela facilmente me daria um manto, escuro, imponente.
Chupem, todas as outras crianças do mundo. Vocês têm avós comuns, e eu teria uma avó Obi-Wan Kenobi.
Ok, vale ressaltar que o sabre de luz era de plástico. Mas eu tinha, como eu disse, dez ou onze anos. Acredito que, naquele momento, eu devo ter achado isso normal, entendendo que eu precisaria ter um sabre de plástico por ser criança, e que, quando eu fosse adulto, teria meu sabre de verdade.
E, além disso, por ser de plástico, ele certamente seria mais barato. Fiz as contas: minha mãe estava no banco. Eu tinha alguns minutos para descobrir o preço daquele sabre de luz, e voltar correndo para o banco implorando pelo dinheiro – que não deveria ser muito – mesmo que eu precisasse ficar de joelhos jurando lealdade eterna, na frente do resto do banco. Era um sabre de luz: valeria à pena.
Sem tempo a perder, entrei na loja e perguntei o preço do sabre de luz ao primeiro vendedor que encontrei.
A resposta causou um enorme distúrbio na Força e eu quase caí de costas.
Não me lembro do valor, mas certamente era algo que, traduzido para o universo Star Wars, seria suficiente para comprar uma cobertura duplex em Coruscant, com vista para o Palácio Imperial, ou até mesmo quitar toda a dívida do Han Solo com o Jabba. Se a minha avó Obi-Wan Kenobi estivesse comigo, ela certamente diria:
– Você vai ter que vender seu speeder.
– Eu não tenho um speeder – eu responderia.
– Bom... Então fudeu.
Deixei a loja sem nem conseguir mais falar com o vendedor e voltei para o corredor totalmente desanimado, e ainda um pouco atordoado pela resposta. Por aquele preço, eu precisaria reunir umas dez ou doze avós e ainda assim teria que esperar por um natal ou aniversário. Antes mesmo de ter início, minha carreira de cavaleiro Jedi havia sido destruída pela Estrela da Morte.
E foi aí que eu rezei pela primeira vez na vida.
Quer dizer, eu já deveria ter rezado antes, já que fui criado como católico. Mas esta foi a primeira vez que eu pedi algo a Deus, dando início a um longo relacionamento que tenho com Ele, onde a maior parte dos diálogos consiste em eu pedindo algo alguma coisa e Ele respondendo “você de novo?”.
E engana-se quem pensa que eu rezei para conseguir um sabre de luz. Eu apenas saí da loja, olhei para cima (acho que não é necessário olhar para cima, mas isso deve garantir um efeito dramático melhor) e pedi a Deus:
– Eu não quero mais o sabre de luz. Eu queria apenas entender o motivo de ele ser tão caro assim, sendo de plástico. Eu não acho isso justo e quero entender.
Poucos segundos depois, acabou a luz no shopping. Foi quando olhei em direção à loja e vi uma estranha luz, que vinha lá de dentro. Não, não era Deus que desceu para conferir o preço do negócio com Seus próprios olhos. A luz vinha do sabre.
Com a loja às escuras, um dos vendedores resolveu experimentar o sabre de luz, e estava brincando com ele atrás do balcão. Assim, fiquei observando maravilhado os movimentos suaves da espada, que iluminava boa parte da loja, cortando a escuridão.
Foi aí que eu entendi o preço cobrado pelo brinquedo: não era apenas uma réplica de plástico, mas realmente acendia – e, ao menos dentro da minha memória – tinha som. Uma arma elegante para uma época mais civilizada.
Até hoje penso nessa história, mas nunca consegui explicá-la.
Coincidência? Não sei. Talvez. Mas, como Nélson Rodrigues disse certa vez, “Deus mora nas coincidências”.
Até o momento, isso me basta.
Update: Acabei de me lembrar daquelas pessoas que tentam fazer com que os Jedi sejam reconhecidos como uma religião. Caso você seja alguém assim, sinta-se livre para usar este texto como parte da sua argumentação.
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Rob Gordon
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