Cérebro: Obrigado por ter vindo.
Mão esquerda: De nada. Do que você precisa?
Cérebro: Estou com ideias para alguns posts, mas, com a mão direita quebrada, preciso que você me ajude.
Mão esquerda: Bem, posso tentar.
Cérebro: Ok. O post é para o Chronicles, e gira em torno de um casal. E o casamento deles quase acaba quando ela descobre uns segredos no computador dele.
Mão esquerda: Que segredos?
Cérebro: Não quero falar agora, pode ter gente ouvindo. Mas o que eu preciso é que você faça um trecho inicial criando a situação. Dizendo há quanto tempo eles são casados, se possuem filhos, essas coisas. Enquanto você faz isso, eu vou responder uns e-mails e depois volto, para lapidarmos juntos a descoberta da esposa e as conseqüências.
Mão esquerda: Mas você quer que eu faça este trecho inicial sozinho?
Cérebro: Claro, é fácil. Basta apenas criar os personagens e apresentá-los o leitor. A regra é fazer quem lê se sentir próximo dos personagens, como se eles morassem no apartamento ao lado. É um casal comum.
Mão esquerda: Bom, tudo bem. Posso tentar.
Cérebro: Enquanto isso, vou trabalhando na segunda metade aqui.
Mão esquerda: Ok.
10 minutos depois
Cérebro: Estou quase terminando aqui. Como estão as coisas aí?
Mão esquerda: Preciso de ajuda com uma coisa. Onde eu abro o Word?
Cérebro: Você ainda nem começou?
Mão esquerda: Eu não sei abrir o Word. É sempre a mão direita que abre. Eu mal consigo segurar o mouse.
Cérebro: Mas eu quase acabei aqui!
Mão esquerda: Então, eu já pensei em diversas coisas também. Até mesmo em nome de personagens. Preciso só abrir o Word. É no “Iniciar”, não é?
Cérebro: Isso.
Mão esquerda: Que janela é essa?
Cérebro: Você está clicando com o botão errado! Clica com o outro!
Mão esquerda: Ah... Agora sim. É difícil usar isso aqui. Pronto.
Cérebro: Ok. Então tente fazer o que eu pedi, eu já volto.
Mão esquerda: É assustadora mesmo, essa tela branca sem texto algum, certo? Achei que fosse exagero de vocês...
Cérebro: Você dá conta, pode ter certeza. Eu já volto.
Mão esquerda: Ok.
15 minutos depois
Cérebro: Voltei. Terminou?
Mão esquerda: Estou fazendo.
Cérebro: Posso ver?
Mão esquerda: Está aqui. Já fiz quase até o início da descoberta para você.
Cérebro: Ótimo! Deixe-me ver.
Waldir e Laís eram casados há doze anos. Ele era dono de uma loja de material de construção. Ela, professora, havia se aposentado quando engravidou do primeiro filho. De lá para cá, os anos se passaram, mas o amor continuou – e só aumentou com a chegada do segundo filho, uma menininha que todos diziam ser a cara do pai. Assim, o tempo foi se passando, mas, mesmo enfrentando diversos problemas, o casal nunca enfrentou nenhum problema sério. Os amigos até mesmo diziam que eles eram mais que um casal, mas sim um exemplo. Isso, claro, até Waldir anunciar que estava montando um escritório em casa. Laís estranhou, já que ele odiava trabalhar em casa, mas no fundo gostou da ideia. Talvez isso fizesse o marido passar ainda mais tempo em casa.
Cérebro: Olhe, está ótimo, mas acho que o primeiro parágrafo ficou grande demais.
Mão esquerda: Bom, mas você pediu para situar os personagens. Não tenho como fazer isso em meia dúzia de palavras.
Cérebro: Não, não. Estou apenas falando que você poderia ter dividido em dois parágrafos.
Mão esquerda: Como assim?
Cérebro: Ué, quebrando em dois parágrafos. Aquela frase que começa com “isso, claro”, é ideal.
Mão esquerda: Ok, eu quebro ali. Assim?
Cérebro: Deixe-me ver.
Waldir e Laís eram casados há doze anos. Ele era dono de uma loja de material de construção. Ela, professora, havia se aposentado quando engravidou do primeiro filho. De lá para cá, os anos se passaram, mas o amor continuou – e só aumentou com a chegada do segundo filho, uma menininha que todos diziam ser a cara do pai. Assim, o tempo foi se passando, mas, mesmo enfrentando diversos problemas, o casal nunca enfrentou nenhum problema sério. Os amigos até mesmo diziam que eles eram mais que um casal, mas sim um exemplo. Aqui começa o outro parágrafo. Isso, claro, até Waldir anunciar que estava montando um escritório em casa. Laís estranhou, já que ele odiava trabalhar em casa, mas no fundo gostou da ideia. Talvez isso fizesse o marido passar ainda mais tempo em casa. Cérebro: Continua igual!
Mão esquerda: Não, olhe. Vou colocar em negrito.
Waldir e Laís eram casados há doze anos. Ele era dono de uma loja de material de construção. Ela, professora, havia se aposentado quando engravidou do primeiro filho. De lá para cá, os anos se passaram, mas o amor continuou – e só aumentou com a chegada do segundo filho, uma menininha que todos diziam ser a cara do pai. Assim, o tempo foi se passando, mas, mesmo enfrentando diversos problemas, o casal nunca enfrentou nenhum problema sério. Os amigos até mesmo diziam que eles eram mais que um casal, mas sim um exemplo. Aqui começa o outro parágrafo. Isso, claro, até Waldir anunciar que estava montando um escritório em casa. Laís estranhou, já que ele odiava trabalhar em casa, mas no fundo gostou da ideia. Talvez isso fizesse o marido passar ainda mais tempo em casa.
Mão esquerda: Viu
?
Cérebro: Você é louca?
Mão esquerda: Ué, você pediu para dividir em dois parágrafos.
Cérebro: Sim, mas é só dar Enter.
Mão esquerda: Dar o quê?
Cérebro: Enter.
Mão esquerda: Você me respeite! Eu sou uma mão de família!
Cérebro: Não... Basta apertar o enter.
Mão esquerda: Que Enter?
Cérebro: Enter, porra. Você aperta o Enter para começar outro parágrafo.
Mão esquerda: Existe uma tecla que faz isso?
Cérebro: Sim. Como você acha que as pessoas mudam de parágrafo?
Mão esquerda: Ah, não sei. Nunca pensei nisso. Talvez enchendo de espaços...
Cérebro: Não, tem uma tecla chamada Enter que faz isso. Não acredito que você não conhecia.
Mão esquerda: É uma daquelas teclas especiais, né? Eu só conheço o Shift. Ah, tem o Alt também, mas esse eu quase não uso.
Cérebro: Bem, mas tem o Enter também.
Mão esquerda: É ESSA AQUI?
Cérebro: Não, esse é o Capslock. Aperte de novo, ou vai ficar tudo em maiúsculo.
Mão esquerda: MAS ONDE ESTÁ O ENTER?
Cérebro: Aperte o Capslock mais uma vez!
Mão esquerda: espaço espaço PRONTO.
Cérebro: Não, você apertou o Tab!
Mão esquerda: QUE TAB?
Cérebro: Aperte o capslock! Acima do Shift!
Mão esquerda: Achei. Pronto.
Cérebro: Ok. Agora, não mexa em mais nada. Vamos ao Enter.
Mão esquerda: Então, onde fica isso?
Cérebro: Existem dois. Um acima do outro Shift, ao lado direito do teclado principal, e outro lá no canto direito, no teclado numérico.
Mão esquerda: Ah, achei.
Cérebro: Então, agora você pode dividir em dois parágrafos, onde eu pedi. Nao esquece de tirar aquela frase indicando o começo do parágrafo.
Mão esquerda: Assim?
Waldir e Laís eram casados há doze anos. Ele era dono de uma loja de material de construção. Ela, professora, havia se aposentado quando engravidou do primeiro filho. De lá para cá, os anos se passaram, mas o amor continuou – e só aumentou com a chegada do segundo filho, uma menininha que todos diziam ser a cara do pai. Assim, o tempo foi se passando, mas, mesmo enfrentando diversos problemas, o casal nunca enfrentou nenhum problema sério. Os amigos até mesmo diziam que eles eram mais que um casal, mas sim um exemplo.
Isso, claro, até Waldir anunciar que estava montando um escritório em casa. Laís estranhou, já que ele odiava trabalhar em casa, mas no fundo gostou da ideia. Talvez isso fizesse o marido passar ainda mais tempo em casa.Cérebro: Isso. Viu como ficou melhor?
Mão esquerda: Não gostei disso.
Cérebro: Como não? O texto fica mais leve.
Mão esquerda: Não, não é isso. Não gostei desse negócio do Enter.
Cérebro: Oi?
Mão esquerda: É. Tem dois Enter, e os dois são do lado direito. Isso não é um pouco de preconceito?
Cérebro: Claro que não.
Mão esquerda: É preconceito sim. Shift esquerdo, Shift direito. Alt esquerdo, Alt direito. Control esquerdo, Control direito. E aí tem o Enter direito, e o Enter mais direito ainda.
Cérebro: Bom, mas o teclado é assim...
Mão esquerda: Sim, e isso é preconceito. Por acaso vocês acham que a mão esquerda é incapaz de apertar o Enter? Não somos bons os suficientes para começar outro parágrafo? É isso?
Cérebro: Eu não sei! Não desenhei o teclado!
Mão esquerda: Preconceito! Preconceito! A mão esquerda deve ter o direito de apertar o Enter também! Temos cinco dedos, como a outra mão! Temos um polegar opositor! Eu exijo um Enter ao lado esquerdo do teclado.
Cérebro: Olhe, o texto...
Mão esquerda: Esquece o texto! Isso é mais importante! E se a pessoa for canhota? Ela não pode apertar o Enter com vontade? Com força? Se ela estiver brigando com alguém no Messenger, ela não pode socar o Enter como as outras pessoas? Se eu estivesse brigando com alguém no Messenger, iria querer afundar o Enter no teclado a cada mensagem, e não apertar o Enter feito uma menina!
Cérebro: Eu quero postar este texto ainda, hoje, ok?
Mão esquerda: Problema seu. Arrume alguém para digitar então. Eu não vou apoiar esse teclado. Isso é contra tudo em que eu acredito.
Cérebro: Por favor, é só um teclado...
Mão esquerda: Não, não é um teclado! É uma questão de princípios. Eu mereço as mesmas oportunidades que a mão direita! Eu exijo um Enter do meu lado do teclado. Se você acredita que eu vou ficar na base da pirâmide social deste corpo, servindo apenas para ficar com o relógio, está redondamente enganado.
Cérebro: Olhe, eu até pediria para a mão direita ajudar, mas como ela está engessada... Bem, o Rob tem demorado quase três minutos só para amarrar o tênis. As coisas não estão fáceis, você poderia colaborar um pouco...
Mão esquerda: Não é problema meu! Eu exijo que você configure este teclado para alguma tecla do lado esquerdo funcionar como Enter. Pega esse Capslock, eu não me importo. Se precisarmos digitar uma frase inteira em maiúsculas, eu fico apertando o Shift.
Cérebro: Eu não tenho como mexer no teclado agora.
Mão esquerda: Então, vai ficar sem post.
Cérebro: Olhe, chega. Pode ir embora. Vai coçar as costas, vai fazer alguma outra coisa. Eu me viro aqui.
Mão esquerda: Você quem sabe.
Cérebro: Deixa. Tchau.
Mão esquerda: Quando você arrumar um teclado mais humano, mais politicamente correto, nós voltamos a conversar.
Cérebro: Ok. Tchau.
Mão esquerda: ADEUS!
Cérebro: Desaperte o Capslock.
Mão esquerda: NÃO. VOCÊ QUE SE VIRE SOZINHO!
Cérebro: Eu vou dar um jeito, você vai ver. Não preciso de você.
Mão esquerda: RACISTAZINHO DE MERDA! ADEUS!
Cérebro: Puta que pariu, que bosta de corpo. Ninguém ajuda em nada. Ô fase.
50 minutos depois
Cérebro: Obrigado por ter vindo. Preciso de ajuda.
Nariz: Diga.
Cérebro: Você pode digitar um texto para mim? Eu vou ditando e você vai escrevendo...
Nariz: Eu? E as mãos? Não vieram hoje?
Cérebro: Não quero falar sobre isso. Pode me ajudar?
Nariz: Bem, estou meio gripado, então dói tudo...
Cérebro: Eu pago uma caixa de Kleenex para você.
Nariz: Feito.
Cérebro: Vamos lá. “Waldir e Laís eram casados há doze anos.”
Nariz: Waldir é com “W”, né?
Cérebro: Sim.
Nariz: Laís tem acento?
Cérebro: Sim.
Nariz: Ah é. Senão fica Láis. Desculpe, eu sou novo nisso.
Cérebro: Ok.
Nariz: Há quanto tempo você disse que eles são casados?
Cérebro: [suspiro]
9 horas (e 26 espirros) depois
Nariz: “Todo cuidado é pouco”. Ponto final. Pronto. Acabei.
Cérebro: Obrigado. Vou postar agora. Amanhã te entrego o Kleenex.
Nariz: Posso ver?
Cérebro: Pode, claro. É só clicar
aqui.
Nariz: Que emoção! Minha primeira crônica! Posso assinar com meu nome?
Cérebro: [suspiro]
(Esta vem sendo minha realidade
desde que engessei o braço.
Este post é dedicado aos
leitores canhotos do Champ.)