O corpo humano é um negócio engraçado. Especialmente o meu. Lembro de uma professora de ciências, no ginásio, que afirmava que o corpo humano era uma máquina aparentemente perfeita, e tinha solução para quase qualquer problema que ele encontrasse.
Isso, claro, quem dizia era ela. Eu discordo. Não vou tirar o mérito do corpo humano em resolver seus próprios problemas, e talvez ele faça isso até melhor que eu. Por outro lado, ele não precisa lidar com problemas como os meus (como o aluguel e o Speedy que não conecta).
Mas, para efeito de discussão, vamos partir do princípio que o corpo humano é eficaz em resolver seus problemas.
Agora, porque então o meu corpo precisa ser tão radical assim?
Sábado, a região do meu rosto ao redor do meu nariz começou a doer. Horas depois, comecei a espirrar. Ou seja: gripe à vista. Claro que meu corpo – como a máquina perfeita que é – começou a trabalhar.
Imagine a cena. Um dos funcionários do meu organismo entra na sala do Herr Direktor de Saúde.
Vale citar que Herr Direktor é um gordinho bigodudo com a cara do Gert Fröbe (vocês já assistiram 007 contra Goldfinger, certo?) e fica o dia inteiro trancado no escritório, ouvindo Wagner. Passa a maior parte do tempo estudando um mapa geopolítico do meu corpo e praguejando baixinho em alemão, e anda sempre marchando em passo de ganso. – Bom dia, senhor.
– Guten tag!
– Acabei de receber um relatório, e tenho más notícias. O organismo está todo tomado por vírus.
– Vírrus? Mein Got! Elas non desistir nunca?
– Aparentemente, eles voltaram, senhor. É gripe. Das brabas.
– Gripe? Na meu corpo? Elas saber que isso ser verboten! Nós torrar esses desgrazadas! Febre, agorra!
– Febre? Já? Não é uma medida radical demais?
– Achtung! Non discutir comigo! Ligar o febre e todas as vírrus kaput em queston de horras! Jogar carvón no caldeirra, agorra!
– Sim, senhor.
– Se alguma das vírrus sobreviver, eu faz queston de colocar uma prezo pelo seu cabeza! Elas non ficarron impunes!
Assim, foi-se resolvido o curso a seguir. E as febres começaram a alimentar “o caldeirra”.
Febre. Intensa. Ardida. Descomunal. Mortal.
Domingo, passei o dia inteiro na casa dos 38,5; ontem, cheguei aos 39,1 – o que é uma excelente marca, especialmente para alguém cujo recorde é 40, atingido com uns 10 anos de idade.
E, cá entre nós, quando você está na casa dos 38, você ainda é humano. Doente, mas humano. Mas, quando você passa dos 39, é óbvio que você está sofrendo uma espécie de metamorfose, e está prestes a se transformar num habitante de algum Círculo do Inferno. Falta só começar a arrotar enxofre.
Claro que não discuto a eficácia da estratégia. Os vírus devem ter morrido (e um pedaço do meu estômago deve ter chamuscado um pouco), já que nem um beduíno teria sobrevivido lá dentro.
O problema é que eu quase morri junto.
Comparativamente, o que meu corpo fez foi o seguinte: imagine que eu sou uma cidade que vive uma onda de crimes. Ao invés de prender os criminosos, o prefeito decide simplesmente abrir a represa e inundar a cidade. Claro que isso vai acabar com o crime, já que vai acabar com a cidade inteira.
Ou seja, é eficiente. Mas não é muito brilhante.
Meu medo é se um dia eu tiver uma doença séria. Capaz de eu estar deitado na cama, com dores, e, ouvir baixinho, dentro do meu cérebro o Herr Direktor esbravejando com algum dos seus funcionários: “Nós non vamos permitir isso! Pegar o dinamite! Nós ir até a zérebro agorra, explodir tudo!”.
Aí, é sair correndo para o hospital, rezando para chegar lá antes que o louco acenda o pavio.
Antes que isso aconteça, porém, deixo o Top 5 diretores do organismo que mais dão trabalho para mim (sem contar o Herr Direktor):
1. Mister Director de Práticas Culinárias – Britânico; sonha em aprender a cozinhar. Às vezes, tenta inovar na cozinha, mas seus pratos acabam tendo sempre o mesmo gosto: horrível. Especialmente porque, como não encontra hortelã, usa halls preto como tempero.
2. Signore Diretore de Finanças – Italiano. É bem intencionado, mas seria muito mais eficiente se não perdesse o aluguel e o extrato bancário com uma freqüência assustadora.
3. Señora Diretora de Brigas, Discussões e Entreveros – Espanhola. É quem rege as discussões que me envolvo. Teimosa feito uma mula e vingativa. Nunca esqueceu uma ofensa.
4. Г-н директор do Depto. Etílico – Russo. Durante a minha adolescência, assumiu como cruzada pessoal provar, de qualquer maneira, que ressaca poderia ser curada com vodka.
5. Senhor diretor-geral – Brasileiro. É quem coordena tudo. Alguns anos atrás, foi investigado como pivô de um esquema de corrupção dentro do meu corpo, acusado de desviar parte da energia ingerida pelo meu organismo. Existem teorias que afirmam que tenho apenas 1.60 por causa disso.