29 de novembro de 2006

Fumaça na Água

– A sensação de surdez é normal?

Quem fez essa pergunta foi um amigo meu, ao final do show do Deep Purple, ontem, no Tom Brasil. A pergunta era justificada. Ele, que me acompanhou junto com a respectiva ao show (presente de aniversário mode: on), era totalmente virgem no assunto, nunca havia ido a um show de rock de verdade (eu expliquei para ele que “não, Paralamas do Sucesso não conta”).

E, como ele deve ter percebido lá pela terceira ou quarta música, realmente, Paralamas do Sucesso não conta. Ao menos, não quando você tem cinco lendas em cima do palco: Ian Gillan cantando como se estivesse com 25 anos de idade; Steve Morse calando definitivamente as viúvas de Ritchie Blackmore; Ian Paice destruindo a bateria; Roger Glover matando a pau no baixo; e Don Airey mostrando como se usa um teclado.

OK, Blackmore é um gênio e o antigo tecladista, Jon Lord, beira a estupidez de tão talentoso. Mas a entrada de Morse na banda parece ter rejuvenescido o grupo. Veja bem, estamos falando de uma banda com músicos com, no mínimo, 50 anos de idade. O problema é que, além da experiência (os caras são, junto com o Led Zeppelin, praticamente os pais do hard rock), eles têm uma garra em cima do palco que não se vê nas bandas atuais. Enquanto a molecada de hoje preocupa-se com o visual e com a roupa que irá vestir no show, o pessoal do Deep Purple simplesmente sobe no palco, com a maior simplicidade do mundo, e arregaça. Simples assim. Em outras palavras: Franz Ferdinand de cu é rola.

E foi exatamente isso que aconteceu ontem, no Tom Brasil. Eles aparecem no palco, cumprimentam a platéia e durante quase duas horas, bombardearam o público com clássicos como Hush, Pictures of Home, Lazy, Highway Star, Fireball, Black Night, e as óbvias Perfect Strangers e Smoke on the Water. Tocaram algumas novas também (todas muito boas, do disco Rapture of the Deep). O problema é que esqueceram de avisar os caras que duas das cinco músicas do disco novo estão presentes apenas numa edição especial que, obviamente, não foi lançada no Terceiro Mundo, o que deixou a platéia com cara de interrogação quando elas começaram. Mas, até aí, prefiro uma música do Purple que eu não conheça do que qualquer outra coisa de rock que toque nas rádios de hoje.

E, sim, quando você ouve o riff de guitarra de Smoke on the Water, sendo tocado ali, na sua frente, por mais que a música tenha se tornado feijão com arroz, você sabe que está presenciando um dos pilares da cultura acidental. É como se você estivesse testemunhando a construção da Acrópole ou a assinatura da Declaração da Independência Americana. Uma pessoa que não conhece essa música não deveria nem estar lendo isso aqui. (se for seu caso, pare de ler agora, morra de vergonha e baixe a música para ouvir. Vai por mim, você conhece a música).

Mas, obviamente, o show teve alguns fatos curiosos, e todos eles do lado de cá do palco. Primeiro, a casa estava lotada, e toda hora um débil-mental entrava na minha frente. Detalhe que eu não fui de pista, porque acho que pista é coisa para quem tem 17 anos (coisa que não tenho mais) e para quem tem no mínimo 1.70 (coisa que eu nunca tive). Eu estava no que eles chamam de frisa alta, que é uma espécie de lado B do camarote. Ou seja, eu ficava na parte de cima, na lateral. E, a cada meia hora, alguém bancava o esperto e invadia o corredor, ficando na minha frente.

Na primeira vez, virei as costas e fui chamar a suposta "bedel" do lugar, que prontamente retirou os malas dali. Nas outras vezes, como eu vi que a menina tinha capacidade de definir partida, eu simplesmente andava até a porta e a chamava com a mão, me sentindo como um Dom Corleone. E, cada vez que o meu Luca Brasi de plantão chegava para me atender, eu simplesmente apontava os pentelhos com o dedo e dizia: “não quero mais aquele gordo e aquele outro com cara de boçal em pé ali”. E ela ia até lá e expulsava os dois. Me senti um deus, com poder de vida e morte.

Na segunda ou terceira vez que fui falar com ela, tinha um cara do camarote chamado Leonardo totalmente emputecido porque estava passando pelo mesmo problema, e que, por causa disso, iria pedir o dinheiro de volta. Imagine se ele estivesse no meu lugar, então. Isso porque, dois metros na minha frente, tinha um misto de tiozinho com stripper que, a partir do momento que o show começou, colocou as mãos na nuca e passou a rebolar como se fosse uma bailarina de programa de auditório. When a Blind Man Cries, bundinha pra cá; Perfect Strangers, bundinha pra lá. O Tom Brasil inteiro cantando “Smooooooke on the Water” e ele rebolando, como uma puta barata. A glória dele deve ter sido em Black Night, quando 4 mil pessoas cantaram o coro da música e ele, rebolando, deve ter imaginado que aquela gritaria toda era para ele.

O problema é que meus poderes divinos (“Ele fica. Aquele outro sai.”) não funcionavam com o garçom de Neanderthal que trabalha no lugar. Como estava um calor lawrencedaarabiano (neologismo mode: on) no lugar, acabamos precisando desesperadamente de bebida – que, nesse lugar, é vendida pelo preço de uma casa de dois quartos. Enfim, meu primeiro atrito com o Elo Perdido foi logo no meu primeiro contato com ele. Eu estava pedindo uma cerveja e uma Coca e ele me deixou falando sozinho. Quando eu gritei para ele voltar, ele se virou com um “vai tomar no cu” visivelmente escrito no olhar, que, obviamente, encerrou a discussão.

Minutos depois, ele apareceu e, provavelmente sem lembrar do nosso primeiro entrevero, pegou nosso pedido e atendeu numa boa. Sem sorrir, claro, porque aí seria demais. Porém, a coisa esquentou mesmo no final do show. No meio de Space Truckin’, o sujeito chega para mim e balbucia alguns fonemas (não eram palavras, juro), no idioma dele. Fiz sinal de que não havia entendido nada – não só porque ele estava usando uma língua morta, mas por causa, óbvio, do som do show – e ele, fazendo questão de ficar na minha frente, repetiu.

Suacontavaisairnivintereaus.
– O quê?, eu respondi, tentando enxergar a porra do palco por cima do ombro dele.
suacontavaisairnivintereaus. Eujatofechandoascontaasuadeuvintereaus.
– Eu não estou entendendo porra nenhuma. Não pode esperar?

Remember when we did the moonshot
And Pony Trekker led the way

Vintereaus.
– Olha, eu realmente quero ver essa música. A gente não pode conversar depois?
Vinteraus.

We'd move to the Canaveral moonstop
And everynaut would dance and sway

Não teve jeito. Tive que pegar o sujeito pelo braço e ir até a entrada com ele, onde dava para ouvir. Aí, sim, conseguimos estabelecer uma frágil comunicação. Pelo menos, com o som do Deep Purple mais longe, consegui ouvir alguns dos sons que ele emitia.

– Suacontavaisanhinosvintereaus. Eujaetofechandoascontaasuaevintereaus.

Concluí que ele falava portês. O sotaque é carregado, mas era portês. Se eu me concentrasse, poderia entender o que ele estava falando. Mas como eu poderia me concentrar com Space Truckin’ rolando no palco?

– Quanto?
– Vintereaus!

We got music in our solar system
We're space truckin' round the stars

– Eu só tomei duas cervejas e duas cocas.
– Vintereaus!

Come on!
Come on!


– Ok, foda-se. Você aceita cartão?
– Nhã.
– Aceita?

Come on!
Let's go Space Truckin'!

– Nhã.
– Aceita ou não?
– Nhã.
– Olha, o cartão está aqui. Cobra no crédito.
– Nhã.

Deixei ele falando sozinho e voltei no pau para mesa. Uns dez minutos depois, ele volta com o cartão e o papel para eu assinar. R$ 30,00. Obviamente, como eu estava novamente assistindo o show, não entendia nada do que ele falava. Mas ele não parecia se importar com isso.

– Porra, não era “vintereaus?”
– Eproqueaminadocachadevediterrado.
– O quê? Não entendi porra nenhuma. É 20 ou 30?
Vintereaus.

Assinei aquela merda, totalmente puto, e pedi mais duas cervejas para compensar. Graças a Deus ele não quis discutir o assunto e trouxe. E o tiozinho, na minha frente, alheio a tudo, rebolando.

E assim foi até o final do show: o Purple mostrando o significado da palavra rock em cima do palco, o tiozinho jogando a bundinha para lá e para cá, e eu esperando ser atacado a qualquer minuto pelo garçom, que, tenho certeza, deveria ter uma clava escondida em algum lugar. Na dúvida, quando o show acabou, eu saí rapidinho dali. Olhei para os lados, mas não vi sinal daquele TCC de antropologia. Provavelmente, estava desenhando alguma coisa na parede com carvão.

Mas o melhor de tudo foi o táxi na volta. Entramos no carro e perguntei para o motorista se ele aceitava cheque (“sim”) e se eu podia fumar no carro (“sim”). Aí, ele vira e manda:

– Agora eu vou te fazer a pergunta mais importante da noite. Só vai ter esse show?
– Não, vai ter amanhã também. Por quê?
– Porque eu ainda não comprei ingresso e nunca vi a porra do Purple na vida! Assim que eu deixar você na sua casa, vou voltar para cá e tentar comprar ingresso.

Uau! E assim fomos, até em casa, conversando com o taxista sobre Deep Purple. Uma experiência bem mais enriquecedora que a que eu tive no final do show do Dio, quando o taxista que eu peguei estava ouvindo um medley de Teodoro & Sampaio. E ainda encerramos a noite com chave de ouro, com o veredicto do meu amigo recém-desvirginado sobre o show:

– Caralho, é totalmente hipnótico. Que puta show!

Bem-vindo, meu amigo. Você acaba de dar o seu primeiro passo num mundo mais amplo (star wars reference mode: on).

5 Melhores Músicas do Deep Purple não tocadas no show de ontem

1. Child in Time – a maior obra prima deles, e, tranquilamente, uma das 10 melhores músicas da história do rock.
2. Burn – Todo mundo sempre reclama que eles nunca tocam essa. Aprendam, crianças: essa música (sensacional!) foi gravada com outro vocalista, e, justamente por isso, o Ian Gillan não canta essa. Não é distração, é de propósito.
3. Never Before – Mas, OK, eles tocaram no último show deles por aqui, então, estão desculpados. (Mal aí mode: on) de acordo com o maior fã de Deep Purple no Hemisfério Sul, "não, eles não tocaram Never Before ano passado". E ele tem razão. Não tocaram! Cuzões!
4. The Battle Rages On – Talvez a melhor música da banda desde Perfect Strangers
5. Maybe I’m Leo – Ok, admito, eles têm músicas melhores. Mas, pense comigo: se eles colocassem essa e Never Before na lista, eles teriam simplesmente tocado o álbum Machine Head (que todo vertebrado tem que ter em casa) na íntegra. Posted by Picasa

24 de novembro de 2006

10 Imagens Valem Mais que 10 Mil Palavras

Passando por um dos maiores bloqueios criativos da minha vida, onde tudo parece longe de ser interessante de entrar no blog, resolvi brincar um pouco com imagens aqui, e posto os resultados dos meus testes no site www.myheritage.com.

Quem não conhece o site, explico: você carrega uma foto sua e ele descobre com quais celebridades você se parece. Até aí, bela merda. Eu faço isso com todo mundo que encontro na rua, em bares, restaurantes (hum...talvez isso sim renda um post) e muito melhor que esse site. Isso porque o programa deles se baseia exclusivamente na foto que você mandou - por isso, a cada imagem, resultados diferentes. Se você está de barba, parece o Lênin ou o Deodoro da Fonseca. Se você está sem barba, corre o risco de parecer o Keanu Reeves ou a Angélica. Ou seja, os parâmetros não são muito bons - nem muito honestos - mas são divertidos. Quer dizer, desde que você não descubra que é parecido com o Pedro de Lara e as pessoas nunca comentaram isso com você porque não sabiam como abordar o assunto.

Posto abaixo os resultados de duas fotos que mandei. Manterei meu rosto anônimo porque, pelas pessoas que se parecem comigo, não vou mais poder sair na rua, correndo o risco de ser atacado pela população feminina. Além disso, como nem todo mundo que lê isso aqui me conhece, deixo o benefício da dúvida. E mais: teoricamente, eu estou aí no meio. Basta pegar a foto de todos esses caras e fazer um "morph" imaginário.

Segue, então, meus testes diferentes (sempre em grupos de cinco, como é a filosofia do blog) as porcentagens de semelhança (porque e tive que reduzir um pouco as imagens) e os comentários. Aliás, justamente por isso não haverá Top 5 nesse post. Afinal, quer queira quer não, já estou colocando dois (ok, são da autoria do site, mas foda-se. São dois Top 5 e pronto. Vou até dar título.)

5 Pessoas com quem eu Pareço (de acordo com o Myheritage.com)




Mark Ruffalo (67%) - Bom, dizem que o cara é lindo. Eu, ao menos, já ouvi isso. Logo, eu sou no mínimo 67% lindo. Aliás, a única vantagem que ele tem sobre mim é que ele deu uns pegas na Meg Ryan em Em Carne Viva. Mas eu chego lá.

James Hetfield (67%) - Na verdade, eu preferia mais parecer com o James Hetfield da época de Master of Puppets e não esse aí, de cabelo curto... Mas, vai saber... Antes isso do que parecer o Vanilla Ice.

Charles Manson (63%) - Bom, eu realmente estava parecido com ele (ao menos em comportamento) o dia em que o débil-mental do meu cachorro destruiu do sofá. Sorte do bicho que eu não achei uma faca.

John Borham (49%) - Uau! Eu pareço o baterista do Led? Chupa, mundo! Quem quer ser James Hetfield depois dessa?

Frank Zappa (48%) - Bom, se eu pareço com ele, pareço também com o Toquinho, com o Zenon, que jogou no Corinthians, com o Belchior, com o Tony Iommi e mais um monte de gente. O Frank Zappa deveria estar na categoria "genéricos" nesse site.


5 Pessoas com quem eu Pareço (de acordo com o Myheritage.com), numa segunda análise.




Ethan Hawke (74%) - O cara chifrou a Uma Thurman. Não sei se eu quero parecer com ele, é burro demais.

Colin Farrell (74%) - Bem, quem já me viu de cabeça raspada e assistiu a Demolidor poderia mandar algum comentário para o site, parabenizando o mecanismo de busca deles. Já fui MUITO sacaneado por causa desse filme.

Sigmund Freud (70%) - Na boa.... Não sei como começar a comentar isso. Mas, para quem também parece com Charles Manson, parecer com o Freud é um ganho enorme. Louco por louco, o austríaco é mais respeitado.

Stephen King (62%) - Acabei de descobrir que, REALMENTE, o Stephen King tem um quê de Freud. Enfim, eu gostaria de ser o cara que escreveu Iluminado. Ia usar meu poder de autor e pedir ao Kubrick para deixar eu ficar num cantinho dos sets, vendo o Jack correndo para lá e para cá com um machado. "Juro que vou aprovar qualquer mudança que você fizer na história e prometo que não vou ficar no caminho de ninguém", seria meu argumento.

Alfred Molina (59%) - Mais um do grupo químico Frank Zappa (Gu, isso não rende categoria?*). Mas meu lado nerd se sente honrado em saber que pareço o cara que fez o Dr. Octopus no cinema.

* piada interna, não tentem entender.

16 de novembro de 2006

A Escola do Rock

Jack Black – que os mais iluminados devem conhecer como Barry – fez escola. Literalmente. A faculdade Unisinos levou adiante a idéia do filme Escola do Rock e resolveu oficializar a faculdade para formação de músicos e produtores de rock. A faculdade Estácio de Sá também tem planos de fazer a mesma coisa, mas duvido que algum roqueiro queria ter um diploma de uma faculdade com nome de escola de samba. As aulas giram em torno de Direito Autoral, Desenvolvimento de Carreira Musical e Preparação de Carreira.

Será que funciona?

Duvido. A idéia é boa, já que um país que enxerga Pitty como rebelde e CPM 22 como algo revolucionário realmente precisa de um pouco mais de cultura roqueira. Mas, até aí, roqueiro é como jogador de futebol: aprende na rua. Claro, um curso aqui, outro ali, ajudam um bocado a aprimorar as habilidades e técnicas, mas rock não se aprende. Rock se sabe. Não consigo nem imaginar o Jimmy Page entrando na sala de Solos de Guitarra II, ou o Steve Harris copiando a lição de alguém no corredor, 10 minutos antes de entrar em Técnicas em Baixo I.

Isso sem falar nas provas. Quem será que analisa o desempenho dos alunos? Quem tem o poder divino de aprovar ou reprovar os estudantes? Se apenas roqueiros formados tivessem permissão de seguir carreira (depois de tirar o registro no CRR – Conselho Regional de Rock) metade das bandas boas do mundo não existiriam. O Brian Johnson, do AC/DC, por exemplo, certamente pegaria DP em todos os semestres que tivesse Técnicas em Vocal. E aí, nada de Back in Black e Thunderstruck para animar o mundo. E o TCC? Certamente, implicaria em compor, gravar e produzir um disco conceitual e toda a classe tomaria bomba – com exceção daqueles sortudos que estivessem no mesmo grupo do Roger Waters.

Não, eu não queria ser professor num lugar desses e ter que dar uma nota para um solo do David Gilmour ou para a nova música de Lennon & McCartney. Deve ser extremamente divertido você ter esse povo ali, tocando para você, mas e a coragem de pegar uma música do Deep Purple e dar oito, dizendo que “vocês precisam se esforçar um pouco mais. Faltou feeling”. Fora os problemas colaterais. Experimenta dar uma nota baixa para o Axl Rose, pra você ver o que acontece.

Mas acho que pior que lecionar numa escola dessas, seria trabalhar como bedel. Imagine a hora do intervalo. Diversas tribos espalhadas pelo pátio, com garrafas pra lá e pra cá. Uma estátua do Elvis, com o símbolo da anarquia pichado (por um punk, lógico), garrafas de cerveja, uísque e restos de substâncias não exatamente aprovadas pela diretoria estão jogados em diversos cantos. Uma rápida olhada e fica mais que claro quais são as tribos da escola e quem é quem no lugar.

O Terceiro colegial – São os mais respeitados do lugar. Quando eles entram na quadra, os alunos que estão jogando abaixam a cabeça e emprestam a bola. Beatles, Rolling Stones, The Who, Eric Clapton, Beach Boys. Andam todos juntos. São as grandes influências da escola e nem os professores sabem há quanto tempo eles estão ali, nem a idade deles. Especialmente do Keith Richards (que anda com um suprimento de drogas na mochila suficiente para abastecer o colégio inteiro por meses, mas consome tudo antes da segunda aula), que pode ter tanto 23 como 97 anos. Atrás deles estão sempre os caras do Oasis, olhando o que os Beatles fazem e tentando fazer igual.

Os Loucos – Jimi Hendrix, Janis Joplin, Jim Morrison. De acordo com a lenda, todos eles estão com 27 anos desde a década de 60. Assim que bate o sinal do intervalo, eles correm para o banheiro do último andar e só saem de lá na metade da quarta aula, dançando pelos corredores e com os olhos vidrados. Ninguém sabe o que fazem lá dentro. Um antigo bedel, uma vez, não agüentou de curiosidade e invadiu o banheiro com eles lá dentro. Horas depois, foi encontrado morto. A autópsia decretou que ele havia morrido devido a três doenças sexualmente transmissíveis, uma overdose e engasgado com o próprio vomito. Tudo ao mesmo tempo.

O Panelão – Oficialmente, é formado pelo povo de quatro bandas (Black Sabbath, Deep Purple, Whitesnake e Rainbow), mas ninguém sabe direito quem é quem, pois, a cada semana (ou a cada briga protagonizada pelo Richie Blackmore), os integrantes brincam de dança das cadeiras e trocam as formações – para desespero dos professores, que não sabem quais deles fez cada trabalho. Ian Gillan sai do Deep Purple e começa a cantar no Black Sabbath, substituindo Dio, que já cantou no Rainbow ao lado de Richie Blackmore, que saiu do Deep Purple pouco antes de David Coverdale também deixar a banda e montar o Whitesnake, que chegou a contar com a participação do Don Airey, que hoje toca no Deep Purple. Entendeu? Nem eles.

Os “De Preto” – Ficam sempre no mesmo canto do pátio, onde não bate Sol. Não porque faz sombra, mas porque o Sol tem medo de chegar ali. É o pessoal do Iron Maiden, do Judas Priest, do Metallica e do Megadeth. Estão sempre de preto, com camisetas com imagens de demônios, cenas de guerra, ou de demônios no meio de cenas de guerra. Passam o dia inteiro bebendo cerveja e fumando (no pátio e na aula), pichando caveiras e palavras como “hell” e “evil” nas paredes. Quando você ouvir um berro tenebroso, vagamente parecido com um “Yeah!” (ou “fuck yeah!”, ou “hell yeah!”) e que faz as paredes da escola tremerem, pode ter certeza de que veio dali. De vez em quando, quem aparece ali é o pessoal do AC/DC (trazendo mais bebida), do Motorhead (trazendo mais bebida) e o Ozzy (trazendo mais bebida).

Os Anarquistas – É o pessoal do Sex Pistols, do The Clash e dos Ramones. São os alunos mais altos da escola, por causa dos moicanos, que batem nas janelas do segundo andar. E por causa do Joey Ramone, que também bate nas janelas do segundo andar. Estão sempre sentados nos bancos em volta da quadra, planejando qual pedaço da escola irão destruir hoje. Invariavelmente, não tocam porra nenhuma. Mas nem se preocupam muito com isso: sua meta é atear fogo na diretoria e implementar a anarquia nas aulas, alegando que o “sistema de ensino atual é podre”. Qualquer pessoa que chegar perto deles será chamado de burguesinho, correndo o risco de levar uma botinada e de ter o lanche roubado impiedosamente.

Os “Fala, Bicho” – Não se misturam com os outros grupos porque nem sabem direito quem são os outros alunos, de tão chapados que estão. E lá ficam eles, o pessoal do The Mamas and the Papas, do The Carpenters e a Joan Baez, sentados no gramado na frente da escola, vestindo roupas coloridas, fumando maconha, entregando flores para as pessoas na rua e dizendo que “o mundo tem que se amar mais, bicho”. O único ponto positivo que as outras tribos vêem neles é que as mulheres mais fáceis do mundo estão ali. É só ir até lá e pegar uma. Com sorte, ela não vai nem perceber o que está acontecendo.

Os Lisérgicos – É o pessoal do progressivo. Ficam sempre juntos e não conversam com mais ninguém. Aliás, mal conversam ente si, especialmente porque não têm condições de falar. É povo do Pink Floyd, do Jehtro Tull, do King Crimson. Ficam sentados na escada, completamente chapados, olhando para o nada e compondo letras que começam com versos como “Sou um gerânio sem pétalas que vaga pela galáxia ao sabor do vento prateado” ou alguns solos de guitarra que duram um semestre inteiro.

Os Representantes de Sala – Cada série tem o seu. São os alunos politizados, que se preocupam com meio-ambiente, guerras, fome e a situação de alguns países que, normalmente, só eles ouviram falar. É o caso do U2, que faz tudo pensando no caráter humanitário da coisa e do Bob Dylan e do Bruce Springsteen, que fazem protesto em todas as músicas que escrevem. Ganham rios de dinheiro, também, mas isso não vem ao caso. O Sting tentou se enturmar com eles, depois que o Police acabou, mas desapareceu no meio da Amazônia. Quando estão de bom humor, permitem que o Morrisey ande com eles.

Os Espalhafatosos – Apesar de serem os mais chamativos da escola, são os mais difíceis de serem encontrados. O pessoal do Queen normalmente não fica no pátio, mas no telhado, fazendo um concerto em homenagem a diretoria num palco com 100 metros quadrados e capacidade para 500 mil pessoas. O Elton John, por sua vez, usa roupas tão coloridas que, quando está no pátio, ninguém sabe se é um aluno ou algum trabalho de educação artística abandonado. O camaleônico David Bowie muda o figurino (e a personalidade) a cada semana, o que torna impossível a sua identificação. Às vezes ele vai de funcionário da cantina, em outras, de alienígena. Já chegou a ir, até mesmo, de David Bowie. Uns alunos, inclusive, juram que, em algumas épocas, ele era a lousa de uma sala do terceiro andar. Por fim, o Artista-Antigamente-Conhecido-Como-Prince-E-Que-Toda-Semana-Volta-A-Assumir-O-Nome-Prince não pode ser achado porque tomou pau (de falta) em todas as matérias, já que os professores não sabiam mais pronunciar seu nome durante a chamada.

Os “Party All Night” – É o pessoal do Guns ‘n Roses, Aerosmith, Mötley Crüe e Van Halen. Ficam o dia inteiro no estacionamento da escola, sentados no capô do carro do diretor, tomando uísque e fazendo pose para fotógrafos imaginários, sempre cercado de duas ou três loiras peitudas de biquínis que ninguém sabe como entraram na escola. Toda semana, alguém desse grupo é expulso porque quebrou uma sala de aula inteira (com direito a cadeira arremessada pela janela). Não assistem nenhuma aula, mas sempre conseguem ser aprovados porque, no final de cada bimestre, organizam uma Reunion Tour e lançam um best of com uma faixa inédita.

“The Pré-Primário” – É o pessoalzinho do The Killers, The Strokes, The Whatevers. São as bandinhas que nem saíram das fraldas direito e acham que estão ali para salvar a escola, só porque já estão no pré, e não estão mais no jardim da infância. Se você pergunta a uma dessas crianças quantos discos eles já gravaram, ele fica envergonhado e responde levantando dois dedinhos. Os professores aplaudem o entusiasmo deles, mas são visivelmente ignorados por todas as outras tribos.

O Chorão – É o Kurt Cobain. É o moleque mais novo que fica sozinho no intervalo, escrevendo letras sobre o quanto a vida é uma merda e que nada vale a pena. Morre de vontade de andar com os mais velhos, mas, toda vez que se aproxima de alguma tribo, leva um tabefe na cabeça, “para largar a mão de ser babaca”. Sua popularidade caiu mais ainda quando, numa crise de raiva por não ser aceito em nenhum lugar, começou a comentar que "preferia morrer a se tornar o Pete Townshend".

Seria divertido estudar num lugar desses. Sim, admito, faltou muita gente (mas lembre-se que tem gente que, apesar do que dizem por aí, não merece nem passar na calçada dessa escola). Em todo o caso, seguem aqui 5 bandas que não foram achadas no pátio.

1. Led Zeppelin – Fecharam o último andar da escola só para eles, onde estão organizando uma orgia há meses. Dizem que três crianças já foram concebidas (e nasceram) na festa. Uma delas teve overdose com poucos minutos de vida.
2. Alice Cooper – Nunca entra na escola. Fica na calçada, em cima de um carro, cantando School’s Out e tentando convencer os outros a não entrarem na aula, assim ninguém toma falta.
3. Kiss – Estão em viagem, realizando a 19ª turnê de despedida.
4. Iggy Pop – Olhe melhor. Ele é aquela poça de sangue se contorcendo em cima de cacos de vidro bem no meio do pátio.
5. Frank Zappa – Ele não fica no pátio. Está na cantina, batendo um gato (vivo) em uma panela enquanto chuta um armário, ao lado de uma panela de pressão ligada, para ver que som rola disso tudo. Posted by Picasa

13 de novembro de 2006

A Tarde dos Mortos Vivos

Segundo a Bíblia, quando o Apocalipse chegar, os mortos se levantarão de suas sepulturas e caminharão pela Terra. Na minha humilde opinião, isso está mais próximo de acontecer do que nunca. O mundo realmente está acabando e os sinais são cada vez mais claros. O primeiro foi quando a Portuguesa chegou à final do Brasileirão e, de lá para cá, a coisa só tem piorado. Por exemplo, a Hebe Camargo declarou, semana passada, que quer fazer sexo com o Roberto Carlos (o cantor, não o lateral-arrumador-de-meias), deixando claro que os mortos vivos não apenas existem, como estão bolando meios de se reproduzirem.

Mas o ápice de tudo isso foi nesse último Dia de Finados (sim, eu sei, o post está mais do que atrasado. Até eu terminar de escrevê-lo, prometo que invento uma desculpa para isso), com a realização da primeira Zombie Walk em São Paulo.

Para aqueles que não fazem a menor idéia do que estou falando (e são vagabundos a ponto de terem ignorado o link acima), a Zombie Walk é um evento já tradicional no Canadá e nos Estados Unidos. As pessoas se fantasiam de zumbis e saem caminhando, tropegamente, pelas ruas, em plena luz do dia. Quer dizer, zumbis, não. Prefiro muito mais o termo “mortos-vivos”. Infinitamente mais assustador. Infinitamente mais George Romero. Enfim, resolveram trazer isso para o Brasil, e já estava mais do que na hora. Afinal, isso é muito mais divertido que aquelas comemorações de halloween, que tentamos desesperadamente importar para o Brasil já há alguns anos. Na boa, você conhece alguém que tem saco de fazer aquelas abóboras com velas dentro? Sem falar que qualquer pessoa que sair pela rua fantasiado de bruxinho ou diabinho e gritando “travessuras ou gostosuras!” (mesóclise mode: on) tornar-se-á sério candidato a veadinho do bairro. Isso se não levar um tiro, pois é capaz de alguém pensar que é assalto.

Enfim, pessoas vestidas de mortos-vivos, caminhando da Paulista até Pinheiros, passando por todos os cemitérios do caminho? Sorry, eu não poderia perder isso de jeito nenhum. Sempre fui fã de mortos-vivos. E não, não estou falando dos zumbis modernos de Resident Evil ou dos anabolizados de Extermínio (que é um puta filme, apesar disso). Não. Nada é mais assustador que aquele povo dos filmes do Romero, que se arrastam pelas ruas, devorando tudo o que encontram. Aliás, os mortos-vivos merecem aqui uma singela homenagem. Enquanto os vampiros tornaram-se um bando de gays que passam a eternidade choramingando a solidão (Christopher Lee, cadê você?), os lobisomens caíram no ostracismo (sim, porque o limbo não existe mais, lembram?), os mortos-vivos continuam por aí, firmes e fortes, capengando nas ruas e nos campos, murmurando “Braaaains!” pra cá, “Braaaains” pra lá. Então, imagine isso na esquina da Paulista com a Consolação. Eu não imaginei. Eu fui com meu irmão – que, obviamente, também não figura na lista das 10 pessoas mais normais do mundo.

Chegamos lá com a cara e coragem, sem maquiagem, nem nada. Na verdade, deveríamos ter ido a caráter, putrefatos e rasgados, mas o debilóide do meu irmão, como deixa tudo para a última hora, acabou micando tudo (pelo menos ele não veio com o trocadilho infeliz de que “a maquiagem estava pela hora da morte”). Mas, como eu sabia que haveria gente ali maquiando os candidatos a mortos-vivos, fomos assim mesmo e demos sorte. Um(a) maquiador(a) que estava ali fazendo uma matéria com o Otávio Mesquita (é...eu sei. sem comentários) sobre o evento fez a minha maquiagem e a do meu irmão por míseros R$ 20,00 cada (mais barato que um caixão). Na verdade, meu irmão quase não pagou, pois o moçoilo da maquiagem se engraçou com ele, mas, quando meu irmão deixou claro que os mortos-vivos comem apenas o cérebro das pessoas, o mocinho do pancake desanimou e resolveu cobrar para não passar a tarde em branco.

Maquiagem a postos, começamos a caminhada. E, para minha surpresa, vi muitas fantasias legais demais. Eu imaginei que as pessoas fossem esfregar um batom na cara e tentar convencer os outros de que aquilo era sangue, mas o pessoal caprichou. Me lembro, de cara, de dois militares completamente destruídos que chamavam a atenção pela super-produção da fantasia. Mas o que eu mais gostei foram os “categoria originalidade”, como um cowboy com seis flechas enfiadas no peito, um sujeito com um cabo de vassoura atravessado no corpo (na horizontal, bem entendido), e uma ou outra Noiva-Cadáver que também deram as caras por ali – uma delas com o respectivo cônjuge. Claro que, como era de se esperar, pipocavam, de vem em quando, um Jason ou um Fantasma da Ópera. Será que as pessoas realmente acham que aquele débil-mental do Sexta-Feira 13 é um morto-vivo? Morto-vivo é o roteirista daquelas merdas de filmes. Enfim, é Brasil, pode-se esperar de tudo. Pelo menos, não tinha ninguém com a camisa do Corinthians, o que já é um começo.

Agora, mais divertido que se arrastar morta-vivamente (neologismo mode: on) pelas ruas é ver as caras das pessoas olhando tudo aquilo. Entre velhinhas que davam risada e camelôs que exclamavam cânticos milenares de proteção divina (leia-se: Cruzincredo!”), o ponto alto foi quando eu e mais uns 30 zumbis cercamos um ônibus na Paulista e começamos a bater nos vidros, gritando. Claro que alguns gritavam “miolos!”, mas eu mantive a classe e me ative ao tradicional “braaaains!”. É, sou purista mesmo. Se ninguém no ônibus falava inglês, problema deles.


















Este que vos escreve tentando devorar o cérebro
de uma incauta, ao mesmo tempo em que , de
Marlboro na mão, mostra que avisos do tipo
"O Ministério da Saúde adverte" são
inúteis, quando já se está morto.

Isso tudo nos primeiros 25 metros, o que dá um trajeto um pouco menor que do MASP (lugar de partida) até metade do quarteirão seguinte. Porque, a partir daí, começou a chuva. Sim, eu sei, todo Dia de Finados chove. Eu sei disso, você sabe disso. Mas o pessoal lá em cima provavelmente se invocou com aquele povo vestido de morto-vivo e resolveu fazer chover de balde. Se você estava na Paulista, sabe disso. Aquilo redefiniu o conceito de tempestade. Me senti como Noé. A diferença é que ele estava dentro daquela porra daquela arca, vendo TV, e eu estava na Paulista, com meu tênis parecendo um pântano (mas enquanto ele tinha que ficar dando ração e limpando cocô de um monte de bicho, eu estava andando de morto-vivo pelas ruas. Chupa Noé!)

OK, não vou negar que aquele bando de mortos-vivos encharcados andando pela rua ficou ainda mais charmoso, mas, antes mesmo de chegarmos à Consolação, o talão de cheques que eu tinha no bolso já tinha sofrido PT e o mesmo aconteceu com meu maço de cigarros (novinho) 30 metros depois. Felizmente, eu, como zumbi prevenido, estava com outro maço lacrado no bolso, que escapou (quase impune) do aguaceiro. O problema é que meu Zippo dos Beatles, literalmente, fez água, e não acendia de jeito nenhum. Então eu passei a segunda metade da caminhada tentando me decidir se entrava numa garagem e esfregava dois pauzinhos, ou se invadia um boteco, com cara de morto vivo e pingando água, com um cigarro na boca, grunhindo “Fóóóóósforo... Fóóóósforo...”. Nos dois casos, as chances de eu levar um tiro eram grandes, mas o vício falava mais alto. Felizmente, eu e dois zumbis que passavam pelo mesmo apuro achamos um pipoqueiro com uma caixa de fósforo que fingiu que éramos pessoas normais, e, prontamente, salvou a vida de todo mundo ali (piada fácil mode: on).

Enfim, quase no final da caminhada, a chuva passou. E, ao contrário do que dizem, depois da tempestade não vem a bonança. Vem o frio. Uma nova era glacial começava em São Paulo e eu ali, encharcado. As pessoas devem ter pensado que eu dei um upgrade na minha maquiagem durante o percurso, porque eu saí do MASP com o rosto roxo e cheguei em Pinheiros com o corpo roxo (e tremendo). A sorte é que a balada pós-Zombie Walk era do lado de casa e eu e meu irmão fomos para lá tomar um banho quente e trocar de roupa. Obviamente, quando colocamos o pé dentro do apartamento (ignorando o olhar do porteiro, que não está acostumado com moradores mortos-vivos) lembramos que o chuveiro de casa estava queimado. Ou seja, está provado: existe vida depois a morte. E, sim, ela pode ser tão ou mais zicada que essa aqui.

A balada? Sim, voltei para a tal da balada. Tomei 4 latas de cerveja em 7 minutos, estabelecendo um novo recorde para a comunidade morta-viva e, como estava de estômago vazio, me tornando MESMO uma espécie de zumbi, incorporando totalmente o personagem.

Felizmente, como eu e meu irmão não achamos nenhum cérebro ali (o que era de se esperar, devido ao cheiro de maconha lá dentro), resolvemos voltar para casa, tirar a maquiagem e, devidamente reencarnados, invadimos o Galinheiro, ali na Inácio, e devoramos uma picanha. Mal-passada, claro, porque mortos-vivos também são filhos de Deus.

5 Desculpas para o Atraso do Post
1. Como eu “morri” no dia 2 de novembro (e isso foi arredondado para 6 de novembro, porque todo mundo emendou o feriado), só pude postar isso aqui depois da minha missa de sétimo dia.
2. Você já viu a velocidade que um zumbi anda? Imagine a velocidade, então, que ele digita.
3. Como os mortos-vivos de Extermínio, eu tenho uma porrada de tiques nervosos e contrações. É difícil digitar desse modo.
4. Como sou um zumbi-trabalhador, que precisa garantir o cérebro nosso de cada dia, não tive tempo de entrar aqui semana passada de jeito nenhum.
5. Braaaaains!!! (Sorry, eu realmente gostei de grunhir isso pelas ruas)

6 de novembro de 2006

Barcelona X Ponte Preta - O Homem, A Lenda, O Mito

Conforme prometido, eis aqui o expoente máximo da filosofia Barcelona X Ponte Preta da história do cinema: o dublê-de-astro-e-pretenso-sacerdote-da-cientologia Tom Cruise. Apesar de termos muitos candidatos ao posto, o “ator” consegue a proeza de ser derrotado em todas as rodadas de qualquer campeonato que participa, tomando goleadas tanto de times consagrados como de equipes do mesmo nível. E sempre com casa cheia (é difícil seus filmes não fazerem menos de US$ 100 milhões de bilheteria só nos Estados Unidos) e sob a direção de grandes cineastas.

Sua carreira começa em 1981, mas os filmes que fez antes de 1986 não servem para nossa análise, já que, até Top Gun – Ases Indomáveis, ele era apenas um ator que procurava seu espaço e atuava em pequenos papéis (o que não o impediu de ser engolido por gente do calibre de George C. Scott, Sean Penn, Rebecca de Mornay e Tim Curry). Ou seja, ele ainda não era uma Ponte Preta, estava mais para Bangu ou São Raimundo.

Porém, Top Gun mudou tudo. Top Gun fez dele um astro do dia para a noite e o motivou a maiores aspirações em sua carreira. Foi o sucesso do filme que fez com que ele (apesar de ser meio engolido por Val Kilmer) achasse que tinha virado time grande e que poderia disputar, de igual para igual, qualquer campeonato.

Montou um time competitivo e, literalmente, “achou que dava”.

Mas será que deu? Veremos a seguir, no histórico detalhado de sua carreira pós-Top Gun.


A Cor do Dinheiro (1986)
Resolve começar sua nova fase de “time grande” com o pé direito, sendo dirigido por Martin Scorsese e contracenando com ninguém menos que Paul Newman. O resultado é previsível: Cruise some em campo e Paul Newman leva o Oscar.

Coquetel (1988)Depois de apanhar na mão de Paul Newman, resolve voltar para o esquema galã-de-filmes-da-sessão-da-tarde. Ou seja, o filme nem conta, é quase um amistoso. Mas leva umas mordidas da Elizabeth Shue, tomando uns dois gols de bola parada.

Rain Man (1988)Certo de que precisava apenas de uma nova chance para provar ao mundo que seria o novo Laurence Olivier, decide novamente encarar um time grande. O problema é que não satisfeito em contracenar com Dustin Hoffman, resolve contracenar com Dustin Hoffman interpretando um autista. A goleada chega às raias do vexame e Dustin Hoffman leva o Oscar.

Nascido em 4 de Julho (1988)Mais esperto, resolve não contracena com ninguém do quilate dos adversários anteriores. Willem Dafoe, óbvio, engole todas as cenas em que aparece, mas como são apenas poucos minutos, Cruise não chega a passar vergonha (seria o equivalente a 0 x 1 de pênalti). Chegou a ser indicado ao Oscar, mas era o ano em Daniel Day-Lewis havia feito Meu Pé Esquerdo. Ou seja, levou o conceito de Barcelona X Ponte Preta à festa do Oscar. Adivinhe quem ganhou.

Dias de Trovão (1990)
Com uma indicação ao Oscar no bolso, achou que tinha virado definitivamente, um time grande e resolveu apostar numa fórmula que já havia sido bem-sucedida: fazer um novo Top Gun. Chamou o Tony Scott e trocou os aviões por carros de corrida. O problema é que, desta vez, ao invés de Val Kimer, que era um adversário mais fácil, tinha Robert Duvall pela frente, que enfia 3 x 0 ainda no primeiro tempo. Nicole Kidman também aparece, mas (ainda) não engole o então futuro marido.

Um Sonho Distante (1992)É o primeiro filme no qual é engolido pela esposa, tomando uns dois ou três gols. Mas, para sorte dele, ninguém lembra disso, justamente porque ninguém lembra do filme (que é bem meia-boca, por sinal).

Questão de Honra (1992)Jack Nicholson interpreta um filho da puta, sórdido, mentiroso e corrupto. Cruise leu o roteiro, viu com quem iria contracenar e achou que dava. A cena na qual Nicholson grita “You can’t handle the truth!” serve como palco para um dos gols mais bonitos dentro os inúmeros que o ponte-pretiano tomou ao longo da carrreira. Ah, sim, Nicholson foi indicado ao Oscar.

A Firma (1993)Um dos típicos casos da "engolida rio de piranhas” (veja o “top 5’ do post anterior): Ed Harris engole Cruise. Gene Hackman engole Cruise. Holly Hunter engole Cruise. Ou seja, mais uma vez ele está por baixo da cadeia alimentar. Como Holly Hunter acumulou maior saldo de gols, levou o Oscar de Atriz Coadjuvante pra casa.

Entrevista com o Vampiro (1994)
Muita gente diz que é a melhor interpretação de Tom Cruise em sua carreira. Mas convenhamos... Quem poderia engolir ele ali? Brad Pitt ainda estava aprendendo a atuar e Antonio Banderas mal sabia falar inglês (e a língua “prefa” não ajuda muito). Então, nesse grupo fraco, passa impune metade do filme. Na outra metade, porém, estabelece novos padrões para o seu aspecto ponte-pretiano, sendo engolido pela Kirsten Dunst, que tinha apenas doze anos de idade.

Missão: Impossível (1996)Como ele mesmo quem produz o filme, resolveu não correr riscos e tirou todos os atores bons, deixando o show girar todo ao seu redor. Mesmo assim, o Jon Voight (que nem parece muito interessado no filme) dá uma engolidinha de leve, para o filme não passar em branco. Primeira derrota em casa.

Jerry Maguire – A Grande Virada (1996)A maior prova de que contracenar com Cruise é o melhor caminho para se ganhar um Oscar é que a estratégia funcionou até com Cuba Gooding Jr., que provavelmente será lembrado na história do cinema simplesmente como... Cuba Gooding Jr. Preocupado em não ser engolido por por uma Renée Zellweger pré-Bridget Jones que trabalha no filme, Cruise acaba perdendo para Jonathan Lipnicki (que bate o recorde de Kirsten Dusnt, engolindo o filme inteiro com apenas 6 anos de idade). Ah, sim. Cruise foi indicado também, mas do outro lado havia "só" Geoffrey Rush por Shine - Brilhante. Não tinha como (nem porque) ganhar.

De Olhos Bem Fechados (1999)Ao invés do método Stanilavski de interpretação, Cruise, aqui, revoluciona o cinema inaugurando oficialmente o “método Barbosa de interpretação”: cada frase que ele pronuncia começa com a repetição do final do último diálogo dito no filme. Se havia simplesmente sido engolido pela mulher em Um Sonho Distante, aqui Nicole Kidman mostra quem manda em casa e destroça o marido. Não satisfeito com isso, ainda presta um desfavor ao cinema, matando Stanley Kubrick – provavelmente de desgosto. Não deve ser fácil para alguém que dirigiu Kirk Douglas, Peter Sellers e Jack Nicholson gritar “ação” e ver Tom Cruise entrando em cena.

Magnólia (1999)É o maior desempenho de sua carreira, tanto que foi indicado para o Oscar de coadjuvante. E, sim, ele faz bonito, mas não podemos esquecer que Jason Robards, em estado terminal na cama (praticamente apenas mexendo os olhos durante o filme inteiro), joga de igual para igual com Cruise, arrancando um empate. Ou seja, quando realmente tinha chance de ser campeão, amarela na final e entrega o título para Michael Caine, que levou o Oscar por Regras da Vida.

Missão: Impossível II (2000)
Novamente, o filme é dele. Tomou cuidado para se cercar com gente ruim, como Dougray Scott e Thandie Newton. Mas, por distração, acabou esquecendo no elenco Anthony Hopkins na fita, que faz só uma pontinha. Resultado: é engolido por alguns segundos, perdendo (em casa) por 0 x1.

Vanilla Sky (2001)É um dos piores filmes da história. Novamente, achou que estava seguro, cercado por Cameron Diaz, Kurt Russell e Penélope Cruz. Mas quem surpreende é Jason Lee, que, mesmo com a ruindade do roteiro, consegue dar umas mordidas no pouco tempo em que fica em cena.

Minority Report – A Nova Lei (2002)
Acho que finalmente iria engolir alguém quando pegou o Colin Farrell pelo caminho. O cenário estava todo armado. Mas, junto com ele, estava Max Von Sidow, que engole todo mundo. Cruise ainda consegue ser engolido pela Samantha Morton nas cenas em que aparecem juntos. E nem consegue ir para a repescagem como terceiro do grupo pois só empata com Farrell.

O Último Samurai (2003)
Resolveu contracenar apenas com atores de pouco prestígio ou japoneses pouquíssimos conhecidos no Ocidente. Resultado: Ken Watanabe engole o filme, é indicado ao Oscar e vira astro também deste lado do globo.

Colateral (2004)
“Ele já vai ser indicado por Ray mesmo, nem vai se preocupar com esse filme” pensou Cruise, ao entrar tranqüilo nos sets do filme de Michael Mann, onde interpretaria um assassino profissional contracenando com Jamie Foxx. Resultado: Foxx destroça o filme e é indicado novamente, concorrendo ao Oscar por Melhor Ator e Melhor Ator Coadjuvante.

Guerra dos Mundos (2005)
Só não é o pior filme da carreira de Tom Cruise porque Vanilla Sky é insuperável. Mas se esforça para isso. E, assim como no filme de 2001, as engolidas “são engolidas” pela cretinice do roteiro, e nosso Ponte Preta passa impune, sem tomar gol (mas sem fazer também). Isso, claro, até Tim Robbins entrar em cena e enfiar dois gols em 10 minutos.

Missão: Impossível III (2006)De novo, o filme tinha tudo para ser dele. Ele produz, dá palpites no elenco e pôde se cercar de gente ruim, que não oferecesse perigo. O problema é que estava tão preocupado com a porra da cientologia e com a placenta do futuro bebê que, acidentalmente, esqueceu o Philip Seymour Hoffman, que vinha embalado de um Oscar por Capote no filme. Ou seja, perdeu (feio) em casa.

Como provado acima, nada é mais Ponte Preta na história do cinema que Cruise, que tem todos os atributos necessários para tal: regularidade (perde toda semana), previsibilidade (perde tanto quanto entra como zebra ou quando entra como favorito), diversibilidade (perde em qualquer gênero, jogando em casa ou não).

Porém, como este blog reconhece o esforço dos vencidos, segue, abaixo, 5 Fortes Candidatos Derrotados por Tom Cruise (Keanu Reeves nem entra aqui, pelos motivos dados no post anterior):

1. Ben Aflleck – É engolido onde entra. A única chance que teve foi em Pearl Harbor, onde caiu num grupo fraco, mas acabou empatando com Alec Baldwin e Josh Harnett e perdeu para Tom Sizemore.

2. Matt Damon – Outro que é um prato cheio e que adora perder para pessoas da mesma idade. Já levou chocolates de Edward Norton (em Cartas na Mesa) e de Jude Law (em O Talentoso Sr. Ripley). Aguardemos o próximo ano, onde contracenará com Al Pacino em Ocean’s Thirteen, que promete revolucionar o conceito Barcelona X Ponte Preta.

3. Sylvester Stallone – O que dizer de alguém que entra em campo para enfrentar Robert de Niro, Harvey Keitel e Ray Liotta em Cop Land? Além disso, perdeu em casa nos filmes da série Rocky, onde é derrotado por todo mundo, menos para Dolph Lundgren, (que não abre a boca) em Rocky IV.

4. John Travolta – Ator cheio de altos (Pulp Fiction) e baixos (A Reconquista). Ano sim, ano não, faz um filme onde é um militar investigando alguma coisa. Escolha qualquer um desses (A Filha do General ou Violação de Conduta) e pronto.

5. Will Smith – Em Inimigo do Estado, é goleado por um Gene Hackman nem muito aí com o filme. Porém, não se arrisca muito e passa a maior parte do tempo fazendo coisas como Homens de Preto e Bad Boys.

1 de novembro de 2006

Barcelona X Ponte Preta

Hoje assisti a Os Inflitrados, novo filme de Martin Scorsese. Gostei muito. Claro, não se compara a Taxi Driver e O Touro Indomável (aliás, não chega a ser nem um novo Os Bons Companheiros), mas está milhas à frente de O Aviador. Scorsese voltou às ruas (desta vez em Boston, não na habitual Nova York) e entregou um filme tenso, com história inteligente e personagens sólidos. E, de quebra, envolvendo o crime organizado, algo que ele conhece como poucos.

Mas o que chama a atenção no filme – e que, antes mesmo de assistir, eu já imaginei que aconteceria – é a enorme quantidade de Barcelona X Ponte Pretas que desfilam na tela. Afinal, nós temos Jack Nicholson X Leonardo di Caprio, Jack Nicholson X Mark Wahlberg, e, principalmente, Jack Nicholson X Matt Damon. Se você quiser entender o conceito Barcelona X Ponte Preta, Os Infiltrados é um bom exemplo.

Barcelona X Ponte Preta consiste na seguinte equação: trace uma linha reta e coloque, nos dois extremos, os algarismos 0 e 10. Escolha qualquer assunto que desejar (por exemplo, cinema) e pense em dois nomes que se encaixem tanto no 0 (Matt Damon) como no 10 (Jack Nicholson). Pronto: você já tem o seu Barcelona X Ponte Preta montado. Scorsese apenas fez o favor de marcar a data e fazer os times entrarem em campo.

Claro que isso não necessariamente se aplica somente a cinema. O assunto fica ao gosto do freguês, e assuntos para isso não faltam, como mostram os exemplos abaixo.

Música: Eric Clapton X Chimbinha; Frank Sinatra X Zeca Pagodinho

Inteligência: Stephen Hawkins X Sérgio Mallandro; Winston Churchill X Tiririca

Beleza: Jennifer Connely X Zezé Macedo; Brad Pitt X Pedro de Lara (para as leitoras)

Claro que isso são exemplos-macro. Podemos focar em apenas um universo e descobrir quem é o Barcelona e quem é a Ponte Preta de qualquer lugar. Por exemplo:

Filmes Recentes de Super-Heróis: Homem-Aranha 2 X O Justiceiro

Vencedores do Oscar de Melhor Filme: Menina de Ouro X Shakespeare Apaixonado

Lojas para Comprar CD: Fnac X Americanas

E por aí vai. Mas, claro que os exemplos têm que, necessariamente, pertencerem a uma realidade plausível. Comparar Beethoven (apresentando, pela primeira, a Nona Sinfonia) com Gugu Liberato (cantando “meu pintinho amarelinho / cabe aqui na minha mão”) já é algo que rompe os limites da sanidade, e apenas faria Beethoven agradecer aos céus por ser surdo. Não serve como estudo antropológico.

Por isso que o cinema é o campo ideal para testes de Barcelona X Ponte Preta. Se Deus, em Sua sabedoria, impediu que Beethoven e Gugu Liberato co-existissem na mesma época, não é culpa nossa (ou Dele) se Matt Damon decidiu encarar Jack Nicholson em Os Infiltrados, ou se Val Kilmer insiste em se enfiar entre Al Pacino e Robert de Niro em Fogo Contra Fogo. Azar o deles.

E, basta uma rápida pesquisa na internet para descobrir quem são os imbatíveis Barcelonas e os Ponte Pretas de todos os tempos. Os Barcelonas são fáceis, mesmo se pegarmos apenas os atuais: Al Pacino, Robert De Niro, Meryl Streep, Judi Dench, Jack Nicholson e por aí vai... Já identificar os Ponte Pretas é um pouco mais trabalhoso (mas muito mais divertido). Vale citar aqui que atores cuja carreira resume-se a filmes do Supercine ou Domingo Maior, que normalmente envolvem a) mulheres que casam com serial-killers; b) policiais enfrentando a máfia chinesa; e c) alienígenas ou enxames, manadas e alcatéias que atacam pequenas cidades não entram na estatística. Estão muito mais para Moto Clube ou CRB que para Ponte Preta (sim, Lorenzo Lamas, Dolph Lundgren e Michael Dudikoff, estou falando com vocês). Eles não jogam contra os grandes, pois sabem o seu lugar. Então, temos, como alguns exemplos ponte-pretianos: Julia Roberts, a mulher mais Ponte Preta de todos os tempos, (o supracitado) Matt Damon, Ben Affleck, Rob Schneider, etc.

Mas três exemplos precisam ser destacados. O primeiro deles é Val Kilmer, um dos maiores mistérios da natureza. Kilmer tem seu histórico de engolidas: em A Sombra e a Escuridão, apesar dos dois leões que dão título ao filme, foi devorado pelo Michael Douglas; e desapareceu totalmente sob os escombros de Fogo contra Fogo, por exemplo. Mas dá um show em The Doors, engole todo mundo em Tombstone (não que seja difícil engolir Kurt Russell) e é a única coisa que presta em Alexandre (o que também não é grande coisa). Ou seja, Val Kilmer é rebaixado a cada dois ou três anos, e, quando volta para a série A, fica entre os quatro primeiros. Ele é uma incógnita, não dá para prever como será seu desempenho. Val Kilmer é o Grêmio do cinema.

Já Keanu Reeves é um exemplo clássico de Ponte Preta. Os únicos filmes em que ele não é engolido são os que ele contracena com a Sandra Bullock (porque aí seria demais, até mesmo para ele). Porém, Keanu Reeves tem um fator que o distingue dos outros Ponte Pretas: ele é o protagonista dos placares mais dilatados da história do cinema. Reeves foi destroçado por Anthony Hopkins e Gary Oldman em Drácula (a Wynona também enfiou uns gols nele, mas ó placar não foi tão humilhante como contra os outros dois); se arrebentou na mão de Jack Nicholson e Diane Keaton em Alguém tem que Ceder. E, finalmente, foi, literalmente, humilhado por Al Pacino em O Advogado do Diabo, que permanece, até hoje, como a maior goleada da história – e que deu origem à tese Barcelona X Ponte Preta.


A cada frase, um gol. Alguns dos melhores momentos do placar mais dilatado da história. Curiosamente, mesmo acostumado a tantas derrotas, Reeves ainda dá um chilique no final do jogo, gritando que "não perde". E ainda toma mais uns dois gols depois disso. Digno de pena.

O que salva Reeves (além dos filmes com a Sandra Bullock) é que em alguns filmes ele não é engolido por ninguém, única e exclusivamente pela falta de adversários. São os casos de Caçadores de Emoção (no qual ele perde para o Patrick Swayze, que, descobrimos depois, era apenas um CRB numa fase boa), Doce Novembro (perde para uma Charlize Theron pré-Monster) e Constantine (OK, o Peter Stormare dá uma engolidinha, mas como são apenas alguns minutos, vamos dar um desconto).

Ou seja, apesar dos placares dilatados e vergonhosos, a freqüência de goleadas que Reeves toma não é alta. E isso é um fator determinante na vida de qualquer Ponte Preta. Não basta perder, tem que perder toda semana. Porém, tem o mérito de já ter sido goleado por Pacino e Nicholson, precisando apenas aparecer na tela por alguns segundos ao lado de De Niro para fechar o "Grand Slam de Engolimento".

O que nos leva ao terceiro exemplo ponte-pretiano. O homem que se tornou a definição de Ponte Preta no cinema. Goleado de todas as formas possíveis, por placares absurdos, por qualquer adversário que desafia, ele é aquele time que se está na chave para os adversários fazerem o saldo de gols. 0 x 8, 0 x 9, são placares comuns em seu histórico. Exatamente que, por isso, ele merece ter todos seus jogos dissecados (para uma melhor análise do modo ponte-pretiano de ser) e que será realizado no próximo post. Aguardem.

5 Tipos de Engolidas Diferentes no Cinema

1. Engolida por Atacado – Ocorre quando um ator engole todos os outros do filme. Exemplo: Jack Nicholson engolindo Leonardo di Caprio, Matt Damon e Mark Wahlberg em Os Infiltrados.

2. Engolida Rio de Piranhas – Um ator simplesmente cai num filme onde é engolido por todos os lados. Exemplo: Al Pacino, Jack Lemmon, Kevin Spacey, Alan Arkin e Ed Harris, juntos, devoram Alec Baldwin em O Sucesso a Qualquer Preço. É o equivalente a Ruanda se classificar para a Copa e cair no mesmo grupo de Alemanha, Argentina e Itália.

3. Engolida “Bom, Só Sobrou Você” – É quando um ator sem a menor vocação para Ponte Preta acaba sendo humilhado pelo azar de ter caído num grupo muito forte. Acontece em O Poderoso Chefão, com a Tália Shire, que pena na mão de Marlon Brando, Al Pacino, James Caan, Robert Duvall e Diane Keaton.

4. Engolida “O Jogo dos Desesperados” – Dois atores ameaçados de rebaixamento se enfrentam, num jogo feio, que normalmente resulta num placar magro e enfadonho. É o caso de Caçadores de Emoção, que serve de palco para Patrick Swayze X Keanu Reeves (deu Swayze. 1 x 0, de pênalti).

5. Engolida “Atirador de Elite” – É quando um ator poderia engolir todos os outros, mas acaba focando em apenas um adversário específico, descarregando todas suas balas nele. Foi o que vimos em Gangues de Nova York, onde Daniel Day-Lewis poupou Liam Neeson, Jim Broadbent, Brendan Gleeson e John C. Reilly, simplesmente ignorou Cameron Diaz e fulminou Leonardo di Caprio.