28 de março de 2011

Divagando

Estava descendo para o trabalho hoje e na calçada do Pão de Açúcar havia cerca de dez pessoas sentadas, em fila. Estavam esperando para fazer entrevista de emprego. Não é a primeira vez que vejo isso – em alguns dias, a fila tem mais de trinta pessoas – mas hoje, como eu passei justamente pela calçada (ao invés do meu caminho habitual, do outro lado da Teodoro Sampaio), prestei um pouco mais de atenção nisso.

Engraçado isso. Quando eu ando do outro lado da rua, é apenas uma fila de emprego. Porém, se eu atravesso a Teodoro, não é mais uma fila, são pessoas. Pessoas de verdade e diferentes entre si. São homens e mulheres. Alguns mais jovens, talvez em busca do primeiro emprego para ajudar dentro de casa; outros já têm os olhos um pouco mais cansados e o rosto marcado pelo tempo, em busca de uma nova chance, de um novo começo, ou talvez de um salário maior, de um emprego mais perto de casa. Em busca de um pouco mais de conforto.

Em comum, apenas a esperança, no olhar, de quem deseja que o amanhã seja um pouco melhor.

Todos eles tinham este olhar.

Todos nós temos esta esperança.

Quando eu era mais novo, a irmã de uma amiga minha, recém-formada em psicologia, disse uma frase que eu nunca esqueci: “o que nos difere dos animais é o sentimento de finitude”. Concordo. O homem passa 90% da sua vida – ou mais – sabendo que vai morrer um dia, enquanto os animais só percebem isso (caso realmente percebam, ou sentem apenas que algo está errado) quando a morte já está ali, dobrando a esquina.

Contudo, como bons humanos que somos, não sabemos ao certo o que fazer com este conhecimento. Ou, na verdade, não temos muito a fazer com isso.

Semana passada, uma menina que trabalhou comigo anos atrás faleceu. “Faleceu”. Engraçado como sempre usamos a palavra “faleceu” para alguém próximo, e “morreu” para alguém que não conhecemos pessoalmente. Falecer é uma tragédia, morrer é uma casualidade. Enfim, ela era mais nova que eu. Passou mal, foi ao hospital e, horas depois, estava morta. Deixou marido e dois filhos pequenos. Como se preparar para isso? Impossível. Sabemos que vamos morrer um dia, mas não temos ideia de quando, como, onde ou por que.

E aí chegamos onde eu queria. Cada vez mais eu acredito que outro sentimento nos difere dos animais: a esperança de que o amanhã seja melhor.

Enquanto o leão espera somente pela gazela do almoço – e a gazela, por sua vez, espera escapar do leão mais um dia – nós queremos mais. E talvez isso esteja diretamente ligado à ideia de sabermos que vamos morrer (ou falecer, a esta altura do campeonato tanto faz) um dia. Como sabemos que um dia tudo irá acabar, nós queremos o máximo do dia seguinte, também porque a simples ideia de que haverá um dia seguinte é bastante confortável, dá a impressão que a morte não está na próxima esquina.

Nós somos gulosos. Não basta apenas uma gazela. Precisamos da gazela, mas também de dinheiro, conforto, saúde, amor, amigos. A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte, a gente quer fazer amor, a gente quer saída para qualquer parte.

A gente quer inteiro e não pela metade.

Mas a gente nunca pode ter o inteiro. Talvez tenhamos mais que a metade em alguns momentos, mas nunca é o inteiro. Consegue algo aqui, descobre que falta algo ali; para cada pequena vitória, uma derrota está esperando para pular na sua frente. Por isso que às vezes nós escolhemos não o que queremos ter – porque nós queremos ter tudo – mas sim o que podemos ter.

Sonhamos o tempo todo com o que queremos, mas temos mesmo aquilo que podemos. E só.

Na verdade, é isso que é a vida. Um conjunto de decisões com o objetivo de ser feliz no dia seguinte. O problema é que, se cada decisão resulta num caminho a ser seguido, implica também num caminho a ser abandonado. Por isso que não é fácil escolher, já que se morre – e se mata – um pouco a cada decisão. Se entre “A” e “B” você escolhe o primeiro, toda a pessoa que você seria – ou ao menos poderia ser – caso escolhesse B, automaticamente morre. Assim, você tenta fazer o melhor possível de “A”, e muitas vezes não tem certeza de que escolheu o certo.

E, no meio do caminho, não se preocupe, que ainda vão surgir “C”, “D”, “E”... Às vezes surgem dezenas de decisões de uma só vez, como se ela combinassem uma blitzkrieg para cima de você. É quase uma tempestade de areia, em que você não vê mais caminho algum, não faz mais ideia para onde está indo.

Se este blog fosse de auto-ajuda, eu diria a vocês que a melhor saída é se sentar um pouco, abaixar a cabeça e proteger os olhos, esperando que a tempestade diminua – desde não exista um tigre atrás de você, porque muitas vezes têm – e você consiga enxergar o que tem à sua frente. Mas este blog nunca se propôs a isso, e sabe – e respeita o fato de – que cada um tem seu jeito de lidar com as coisas.

Basicamente, a vida é uma prova que não estava marcada e cuja matéria você apenas tem ideia, nunca estudou a fundo. Chega a ser cômico: você precisa aprender enquanto faz, mas, ao mesmo tempo, você precisa tirar a maior nota possível enquanto aprende. Justo? Não é. Mas ninguém nunca disse que seria.

Isso sem falar que nós nem conseguimos saber ao certo o quanto nossas escolhas influenciam nosso futuro. Há aqueles que acham que elas ditam nosso destino; há aqueles que crêem que tudo está previamente escrito, e nada do que fizermos pode alterar isso. Ou seja, na prova da vida, além de não sabermos direito a matéria, não temos conhecimento nem de quanto vale cada questão. Aliás, não sabemos nem a duração do exame, porque de repente o sinal toca e o teste acaba. Assim, do nada.

E, quando você entrega a prova, vê que deixou muita coisa para trás e levou muita coisa consigo, podendo apenas esperar que tenha feito as escolhas corretas. E aí vem a má notícia de verdade: nós não sabemos qual foi a nossa nota na prova. Nós não fazemos ideia do quanto tiramos – pode ser zero, pode ser dez – e não recebemos a prova corrigida para vermos onde erramos, e tentar de novo caso nota tenha sido baixíssima. Não. Acabou, acabou. Nada de tentar de novo.

Se por um lado isso torna a coisa mais injusta ainda, por outro é libertador. Afinal, se você não fica sabendo sua nota, não importa mais se você foi bem ou não. Não tente tirar a maior nota da sala, nem se preocupe com a nota daquela pessoa que parece saber todas as questões, porque ela também não irá saber quanto tirou (e talvez a prova dela seja totalmente diferente da sua).

Assim, uso como regra o mesmo conselho que minha mãe deu logo antes de eu prestar vestibular: “faça o que você sabe e vai ser suficiente para eu me orgulhar de você”. Então, creio que o segredo é apenas tentar fazer uma boa prova, resolvendo as questões que você não sabia e não se sentindo um imbecil por deixar outras em branco.

E “fazer uma boa prova” significa também escolher o lugar que você irá se sentar – se sua carteira é confortável, se o seu lápis está com ponta... E mais importante ainda, quem está ao seu lado. São pessoas que lhe passarão cola caso num momento de dificuldade? São pessoas por quem você pararia de fazer sua prova para sussurrar a resposta de um problema, caso elas precisassem de ajuda?

Caso a resposta seja positiva, você está exatamente onde deveria estar. E isso importa mais que a prova em si.

Afinal, como você não saberá sua nota, na verdade, você não está sendo avaliado. Você está se auto-avaliando. Todos os dias. Você deve satisfações da sua vida a muita gente, mas, no final do dia, quando as luzes se apagam e você pousa a cabeça no travesseiro, a prestação de contas é com você mesmo.

E, perto disso, as outras provas, por mais difíceis que elas sejam, são quase um simulado.


“Tudo o que temos de decidir
é o que fazer com
o tempo que nos é dado.”


(Gandalf – O Senhor dos Anéis)




Como o nome indica, este post é apenas um pensamento em “voz alta”, quase uma sessão de terapia, mas sem a minha psicóloga. E talvez por isso ele seja meio desconjuntado, meio perdido, porque é como estou. Evidentemente, também é um daqueles textos que eu escrevo sem ter a resposta para as questões que eu levanto – quando muito, tenho palpites, mas só.

Logo mais o blog volta ao normal.

22 de março de 2011

Fogo e Gelo - Parte I

O saloon é mal conservado. Suas paredes irregulares são feitas de madeira escurecidas que revelam a umidade do local e não deixam a luz do Sol entrar. Atrás do balcão negro e com manchas de copo, um homem de meia idade arruma algumas garrafas.

São poucos os fregueses. Um homem vestido de negro, sujo e mal barbeado, está apoiado no balcão, ao lado de uma escarradeira, de costas para a entrada. Ele bebe uísque. Próximo a única janela do local, quatro homens jogam pôquer em silêncio, mas com olhares desconfiados e nervosos. Todos estão armados. No andar superior, três prostitutas com ar cansado esperam por clientes.

A porta se abre e um homem vestido todo de branco, com roupas impecavelmente limpas, entra no recinto e caminha até o balcão. Todos o encaram em silêncio, mas ele não toma conhecimento disso. Encosta-se ao lado do homem de negro e chama a atenção do dono da espelunca. O homem pergunta o que ele deseja e ele responde com apenas uma palavra: “leite”.



A cena é clássica. Apesar de que, assim como o “elementar, meu caro Watson” e o “Mim, Tarzan. Você, Jane”, desconfio que elas pertençam mais ao imaginário popular (e aos desenhos do Pica-Pau) que a filmes de verdade.

Isso, claro, para vocês. Aqui, deste lado da tela, ela se tornou não apenas uma realidade como uma constante. Basta apenas trocar o saloon por qualquer restaurante que eu freqüento (até onde eu sei, sem escarradeiras) e os clientes amargos do texto acima pelos clientes amargos dos restaurantes que eu costumo ir.

E, mais importante que tudo, trocar o leite por um canudo.

Sim, um canudo.

Quem é leitor mais recente do blog não deve saber, mas eu sofro de periodontite, uma inflamação crônica na gengiva. Na verdade, eu não tenho periodontite, mas sim um grau mais avançado, que pode ser encontrado nos livros do assunto como Periodontite Crônica Aguda Ultra Power Isso Não Pode Ser Deste Planeta, o que faz com que minha gengiva tenha a mesma resistência de um papel de seda.

Sem exageros, em alguns momentos da minha vida bastava alguém olhar feio para mim na rua que minha boca começava a sangrar. Às vezes eu entrava em casa e minha mãe perguntava:

– Sua boca está cheia de sangue! Você brigou na rua?

– Não, está ventando.

E isso não tem cura. É como cheque especial, só pode ser administrado, e não resolvido.

E é genético, herdei do meu pai. Aliás, a genética é uma coisa fantástica. Eu me lembro do primeiro Superman, quando, antes do planeta Krypton explodir, o Marlon Brando, com um cristal, olha para o bebê Kal-El e diz: “tudo o que eu sou, tudo o que eu sei... Eu transmito a você, meu filho”. Aposto que meu pai fez isso na maternidade e tentou passar para mim tudo o que ele era e sabia. Mas provavelmente o cristal estava com problemas, e ele só conseguiu me transmitir a calvície e esta gengiva de merda. Ô fase.

Mas estou divagando, eu estava falando de canudos.

Isso porque eu tenho feito um tratamento para tentar evitar que uma foto da minha boca vá parar num daqueles livros de ortodontia, e visitado um dentista especializado no assunto. Encurtando a história: na última sessão, ele começou a fazer uma raspagem digna de uma sequência do Jogos Mortais na minha boca. Logo nesta sessão, tive que tomar doze anestesias para suportar o que ia acontecer lá dentro.

E, saindo do consultório, ele me preveniu.

– A anestesia deve passar em umas duas horas.

– Como assim?

– É o tempo normal dela.

– Não, não estou falando do tempo, mas sim do conceito anestesia. Como assim, ela vai passar?

– Quando acabar o efeito...

– Mas eu não quero que acabe. Não tem como implantar uma?

– Evidente que não.

– Posso levar algumas então?

– Não.

– Uma?

– Não.

– Eu pago. Vamos fechar um lote aí.

– Não. Até semana que vem.

Desanimado, saí do consultório. Aposto que a marca da anestesia era Domingo, porque nunca vi algo passar tão rápido. Em quinze minutos, comecei a sentir o meu nariz. Em vinte minutos, meus lábios. Em vinte e um minutos, eu senti um vento na rua.

E em vinte e um minutos e três segundos eu quase caí de dor. Me apoiei num muro, sentindo cada traço do vento que “partindo minha gengiva explode em sete cores revelando então as sete mil dores que eu guardei somente pra te dar, Rob” (Tom Jobim mode: on).

Mas não gritei. Fui homem.

Aguentei tudo em silêncio, me permitindo somente uma pequena lágrima.

Minha boca havia acabado de se mudar para a mesma cadeia alimentar do frio, mas ficando um andar abaixo dele. O frio agora era meu inimigo mortal. Minha vida seria dedicada a fugir dele – talvez migrando no inverno, feito um pássaro. Passaria as noites de inverno sentado no sofá da sala com uma espingarda apontada para a porta, e aterrorizado com as memórias daquela antiga propaganda das Casas Pernambucanas, na qual a menina ouve batidas na porta, pergunta “quem é?” e ouve, como resposta, “É o frio!”

Estava definido: eu precisaria me tornar um esquimó dentário. E talvez seguisse o exemplo dos esquimós de forma radical, escovando meus dentes com óleo de baleia todas as manhãs para protegê-los do vento.

O problema era... Onde arrumar óleo de baleia? Pensei em ligar para o meu irmão (perco o amigo mas não perco a piada mode: on), mas, a última vez em que o chamei de baleia, levei um murro na boca que perdi o rumo de casa. E levar um murro na boca não era exatamente o que eu precisava.

Não, vamos sem óleo de baleia. Vamos sem precisar migrar. Vamos ser um homem de verdade e encarar isso numa boa. Afinal, se o planeta já lidou com uma era glacial, eu consigo lidar com um ventinho de merda. Além disso, bastava andar com a boca fechada que não haveria problemas.

E comecei a me animar quando me lembrei de comida. Eu sempre gostei de comida muito quente, e isso me ajudaria bastante. Carnes. Massas. Calor, que delícia.Tudo quente. Talvez eu tentasse mastigar um pedaço de lã. Um cachecol, quem sabe... Não importa. Nunca mais algo gelado entraria na minha boca. Nunca mais.

Foi quando me lembrei do único elemento comum a todas as minhas refeições – todas, até mesmo àquelas que não possuem comida alguma (jornalista mode: on): a Coca Cola. A Coca Cola estupidamente gelada. No gargalo. Coca Cola é isso aí! Na latinha. Não tem sabor como esse aqui!

Foi demais para mim. Caí de joelhos na calçada e olhei para os céus.

– NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃAAAAAAAAAAAAAIIIIII!

E, sim, parei o grito na metade para urrar de dor porque foi só começar a gritar que o vento – usando coturnos – correu para dentro da minha boca, se aproximou da minha gengiva, e começou a distribuir botinadas como se estivesse num show dos Ramones.

Certo de que minha vida havia acabado, passei num boteco, comprei uma caixa de fósforos e fui para casa. A cada cinco metros, eu acendia um dos palitos e o jogava para dentro da boca, como se fosse uma bala. Não dizem que toda criança sonha em fugir de casa para acompanhar um circo?

Pois bem, eu iria fazer o mesmo, e me tornaria engolidor de fogo. Nunca mais sentiria frio nos dentes, e a jornada de trabalho deve ser menos puxada que a do jornalismo. E, se bobear, deve pagar mais.

Mas, meu Deus... Sem Coca?

Como?

(continua...)



20 de março de 2011

Post Manchado de Sangue

É um vício. Só pode ser.

Porque machuca, dói... Dói muito. E eu continuo insistindo. Aliás, não apenas continuo insistindo, como ignoro o conselho de todos ao meu redor. Todos. Todos dizem que vai doer bastante, que eu vou me machucar. E eu sei que eles têm razão. Eles não falam isso, mas aposto que vai deixar marcas também. Mas, caso eles falassem, provavelmente eu ignoraria. Mesmo sabendo que eles estão cobertos de razão.

Na verdade, eu não ignoraria ninguém. Porque eu escuto o que eles dizem. “Rob, não faz isso, não vai acabar bem.”. Eles querem meu bem, acho. Alguns tentam até entender meus motivos. “Rob, por que você faz isso? Por que você insiste?”. Eu não sei o motivo. Sei apenas que insisto. Sei que vou me machucar como sempre me machuquei, que não existem motivos para ser diferente agora. Mas eu faço assim mesmo.

Às vezes, acredito que eu simplesmente não sei viver de outra forma. Não sei ou não quero. Ou não quero tentar. Por outro lado, um psicólogo talvez afirmasse que eu poderia estar me punindo, por algum motivo guardado dentro do meu inconsciente. Não sei... Juro que já pensei sobre isso... Já pensei muito. Racionalmente, não há motivos para eu continuar agindo dessa forma, insistindo em cometer os mesmos erros.

Mas, emocionalmente, tudo muda de figura. Normalmente é quando estou quieto, tranqüilo. Quando estou em paz, distraído com outras coisas. Parece que eu sinto falta da dor e começo a mexer com aquilo de novo. E eu me engano. Eu acho que as coisas, desta vez, vão ser mais fáceis. Que não vão doer tanto. Não sei... Talvez eu pense isso, ou acredite que, por já estar acostumado com a dor, eu não vou me machucar tanto. Sou calejado. Porque faço isso há tanto tempo que nem sei mais quando comecei.

Mas não existe calo para certas dores. Sou calejado, mas ainda dói.

E, quando começo tudo de novo, sempre tem alguém do meu lado aconselhando, pedindo para que eu pare, às vezes implorando para eu simplesmente seguir minha vida. Curioso. Não dói nas outras pessoas como dói em mim, mas mesmo assim eles se importam com a minha dor. Talvez isso seja o amor.

E eu ignoro o amor. Ignoro o amor, ignoro os avisos e tento. Porque eu acho que vai dar certo. Ou porque é gostoso ter a esperança de que desta vez vai dar certo, que eu não me ferir, que ninguém vai se ferir. E eu sempre erro. Minha esperança sempre erra. No final das contas, estou sentado no sofá, em silêncio, com os olhos cheios de lágrimas, e pensando, tentando entender porque sou assim, porque insisto.

E esta é a pior parte, porque eu não consigo entender o motivo de eu tentar de novo. Porque eu vou tentar de novo, é questão de tempo. E eu sei que vou me machucar mais uma vez. Eu sei que vou me machucar de novo. Eu sei e todos sabem que eu vou me machucar sempre.

Mas não adianta. Machucando. Ardendo. Ralando. Sangrando. Eu não vou mudar. Eu não vou parar, e provavelmente vou morrer fazendo isso. Vou passar o resto da minha vida sentindo arder até a alma, tendo vontade de gritar, de morrer, de sumir. E, dias depois – às vezes, horas depois – começando tudo de novo. Faço isso há anos e nunca parei. Sempre odiando fazer isso. Mesmo odiando ser assim. Só pode ser um vício. Só isso explica o que me tornei, a minha imbecilidade, a minha teimosia em tentar de novo.

Mas gostaria de voltar no tempo, descobrir quando e onde eu me tornei assim e tentar impedir. Tentar fazer, anos atrás, com que eu virasse outra pessoa... Uma pessoa que gostasse mais de si mesma, que não fosse viciada em se machucar, se punir. Uma pessoa que não fosse viciada pela ideia de sentir o gosto do próprio sangue, uma pessoa que não encontrasse conforto ao rasgar a própria carne.

Maldita hora em que eu descobri o quanto é gostoso – e o quanto é ardido e dolorido – puxar a pelinha dos lábios com os dentes.


18 de março de 2011

O (Pé)queno Polegar

Existem momentos da nossa vida em que somos testados ao máximo, sobretudo no aspecto emocional. Além da pressão tradicional do dia a dia, muitas vezes somos obrigados a lidar com situações – sobretudo perdas – as quais não estamos preparados, pelo simples motivo de que é impossível se preparar para elas.

Você está ali, (sobre)vivendo e de repente algo lhe tira o chão, afetando sua rotina e fazendo com que você viva um período sombrio, precisando adaptar totalmente seu cotidiano ao mesmo tempo em que lida com a dor emocional do acontecimento. Seu cérebro sabe que a vida precisa seguir, mas seu coração e sua alma, não estão prontos para isso.

Foi o que aconteceu comigo algumas semanas atrás, quando fui calçar meu tênis para vir trabalhar e ele praticamente se esfarelou na minha mão. Sem exageros: toda a parte da frente se abriu e meu pé escapou por ali, fazendo com que o calçado chegasse quase ao meio da minha canela.

Meu tênis estava morto. Longa vida ao meu tênis.

Lembram-se daquela cena fantástica de O Resgate do Soldado Ryan, em que a mãe dos Ryan percebe que irá receber a notícia de que (no mínimo) um dos seus filhos havia morrido? A câmera a focaliza por trás, e ela cai na varanda, sem forças nas pernas.

Foi o que eu senti. Ainda com o falecido tênis enfiado na minha perna, consegui apenas me deitar no sofá em posição fetal e fiquei ali por alguns minutos, abdicando de viver e tentando lidar com a experiência de não possuir mais tênis.

Deitado no sofá, cheguei a conclusão de que não me lembrava da última vez em que eu havia ficado sem tênis. Acho que desde que ganhei meu primeiro par de Congas (denunciando a idade mode: on), sempre que meus tênis começavam a dar sinais de cansaço, eu (quando criança) ganhava ou (quando adulto) comprava outro. Assim, um par de tênis morria, e eu automaticamente colocava outro no pé. E a vida seguia.

Agora era diferente. Agora não havia mais tênis.

Agora eu estava só.

Quer dizer, eu não estava totalmente só. Alias, antes estivesse.

Fui até o guarda-roupa na esperança de encontrar um tênis esquecido ali, e dei de cara com os dois malditos pares de sapatênis. Pelo jeito, as notícias da morte do tênis já haviam chegado ao armário, pois eles estavam brigando entre si para ver quem teria a honra de ir para a rua comigo. Caso você não tenha lido o post sobre eles, basta você saber que, com eles nos pés, tudo o que preciso é ir até a esquina para meus pés começarem a doer.

Sem muitas alternativas – a única opção seria o par de havaianas que comprei para a viagem de fim de ano, o que evidentemente, não seria uma opção viável – peguei a porra do par cinza e fui para a rua. Antes mesmo de chegar à redação, eu já andava gemendo e com a elegância de um ganso, tentando pisar com o lado dos pés para aliviar a dor. Se eu passasse em frente a uma loja de brinquedos, era capaz das crianças acharem que eu estava promovendo o lançamento de algum boneco de mola.

E esta foi a minha rotina durante algumas semanas. Sim, semanas. Como eu estou trabalhando, em média, de manhã até de madrugada – e como não se vendem tênis em lojas de conveniência ou no Pão de Açúcar – tive que conviver com os malditos sapatênis durante todo este tempo.

Meus pés estão mortos. Longa vida aos meus pés.

Isso, até domingo. Estava preso no Shopping Eldorado por causa de uma tempestade e, obrigado a matar o tempo, decidi partir em busca de um tênis. Não deveria ser difícil. Veja bem, não estou falando de um sapato feito com couro de filhotes de zebu maturados, cadarços fabricados com o velo de ouro e adornado com esmeraldas do subterrâneo de Júpiter. É um tênis. Bom, ok... São dois tênis. Mesmo assim, não pode ser difícil.

– Acho que em uns vinte minutos dá para resolver, exclamou minha ingenuidade, sempre otimista.

– Vai nessa, retrucou meu azar.

Minha ingenuidade suspirou e resmungou um “quem trouxe esse cara?”, meu azar deu uma risadinha com aquele maldito ar de superioridade que ele tem e a discussão ficou por isso mesmo.

Saí vagando pelo shopping, prometendo baixinho que se eu achasse um tênis bom e barato logo na primeira loja, eu não reclamaria mais dos sapatênis.

Dito e feito. Na primeira loja que entrei – era uma World Tennis da vida – chamei o vendedor.

– Eu queria um tênis.

Sim, eu sei que minha abordagem foi meio óbvia, afinal, só existem tênis lá dentro, mas eu não estava com saco de ser criativo.

– Ah, boa tarde. E você deseja um tênis para corrida ou para praticar esportes?

Não é a mesma coisa?

– Bem... Não sei. Eu queria um tênis. Só isso.

– Você usa com amortecedores?

Como assim? É um tênis, não um carro. Só falta eu comprar o tênis e ter que começar a pagar o IPVA disso.

– Olha, não sei. Vamos simplificar. Eu queria um tênis. Não sei como ser mais claro.

– Ah, é para o dia a dia?

– Isso.

– Venha comigo.

Minutos depois, eu estava no meio da loja com uns seis ou sete pares de tênis na minha frente.

– Qual você gostou mais?

– O de 130 reais.

– E os de corrida?

– Não, o de 130 reais. Quero experimentar esse.

O vendedor não pareceu muito satisfeito com isso, mas se deu por vencido e perguntou qual era o meu tamanho.

E aí começou o problema. Veja, eu tenho 1.60m. Logo, meu pé não está entre os dez maiores do planeta. E sim, conheço diversas mulheres que têm o pé maior que o meu. Afinal, com um pé grande eu pareceria uma letra “L” andando pelas ruas. Ou um palhaço. Mas é errado julgar as pessoas pelo tamanho dos pés delas. Além disso, sempre dizem que não importa o tamanho do pé, mas sim o prazer que ele proporciona.

Bom, chega de enrolação, porque você já deve estar curioso.

– Trinta e sete.

(Caso você esteja rindo, gostaria de informar que isso vale apenas para tênis. Sapatos, eu uso 38, o que torna a coisa menos humilhante.)

– Ah, não tem.

– Como não tem? Você nem foi olhar!

– Esta marca aqui fabrica somente a partir do 38.

– Como assim? E eu?

– É... Não fazem esse tamanho.

Os sapatênis começaram a rir baixinho nos meus pés, dando cotoveladas um no outro.

– Mas eu já tive tênis na vida. E meu pé é deste tamanho há uns 20 anos!

– É, algumas marcas fazem esse número... Olhe, se o senhor quiser, tenho outros modelos...

– Não, eu quero esse aqui.

– Esse eu não vou ter.

Agradeci, dei meia-volta e fui embora.

Os sapatênis estavam chorando de rir.

Na segunda loja, mesma coisa. Na quarta, também.

Na terceira eu nem entrei, porque só de olhar a vitrine calculei que a loja não tinha vendedores, mas sim corretores, já que o tênis mais barato custava o mesmo que um apartamento de dois quartos nos Jardins. Claro que eu poderia comprar um tamanho 42 e me mudar para lá, mas se já é difícil conseguir que um técnico do Speedy vá para sua casa, imagine então se você morar dentro de um tênis.

Em meia hora, ou pouco mais que isso, eu deixei de ser uma pessoa normal e me tornei um freak. Eu era oficialmente uma pessoa ignorada pela indústria de calçados. Uma minoria.

Se ao menos eu encontrasse mais uma duas pessoas adultas que tivessem o pé do mesmo tamanho que o meu, poderia organizar, no domingo, uma parada do Orgulho do Pé Pequeno para lutar pelos meus direitos. Desisti em cinco minutos, porque comecei a olhar para os pés das pessoas ao meu redor e a única que parecia calçar 37 era um gordinho de uns 12 anos de idade.

Estava quase desistindo de tudo e voltando para casa quando encontrei outra loja de tênis. Tenis 1, acho que era o nome. Já entrei arregaçando.

– Você trabalha com 37?

– Oi?

– Você possui tênis do tamanho 37?

– Ah... Acho que sim.

– Você possui tênis que custem entre 100 e 150 reais?

– Sim, tenho alguns modelos.

– Ok. Cruze estas duas informações e traga tudo que se encaixar aí.

O vendedor sorriu sem graça e foi para o estoque. Dois minutos depois, ele colocou a cabeça para fora da porta e perguntou, aos berros:

– Trinta e sete, certo?

Isso, babaca, faça a loja inteira ouvir mesmo. Todos os clientes e demais vendedores olharam para mim. Algumas pessoas me encaravam com pena – e desviavam os olhos quando eu os encarava – como se eu tivesse má formação ou fosse de outra espécie. Filhos da puta. Vontade de pegar o primeiro tênis 42 que aparecer e jogar na cabeça de um deles, exigindo respeito e gritando que eu sou uma pessoa igual às outras e quero ser tratado assim!

Felizmente, o vendedor não demorou a sair, carregando quatro caixas.

– Olhe, eu tenho este dois modelos aqui.

– Por que você trouxe quatro caixas?

– Ah, eu peguei o 38 também, às vezes por causa da forma do calçado...

– Cara, não perca tempo. Eu sei que é difícil de acreditar, mas é 37 mesmo.

Experimentei o primeiro e ficou ótimo. Confortável. Bonito. O preço era normal também.

– Vou levar.

– Sim, senhor.

– Quer dizer... Este é 37 né? Você não pegou a caixa de um 38 e escreveu 37?

– Não, senhor, é 37.

– Ok. Pode colocar esta bosta de sapatênis na caixa, eu vou com ele no pé.

Paguei e fui embora. Ao sair do shopping, meu pé estava tão confortável que eu tive vontade de sair correndo. Aliás, nos últimos dias eu só atravesso a Pedroso de Moraes correndo, de tão feliz que estou com meu tênis 37 – numa delas, quase fui atropelado, então passei a andar com um bilhete no bolso, dando instruções para, caso eu morrer, ser enterrado com os tênis.

E os sapatênis? Estão trancados dentro da caixa, desde domingo, para aprenderem.


15 de março de 2011

Sonhos de Kurosawa Gordon X

Estava no metrô, sentado na janela do último banco, do último vagão. Eu estava ouvindo música em fones de ouvido, sem conseguir escutar absolutamente nada do que acontecia ao meu redor.

À minha frente, diversos passageiros –cerca de vinte – seguiam com suas vidas, sentados e em pé, balançando junto com o trem. Aparentemente, eles não haviam percebido que eu estava ali. Ninguém me olhava.

Quando o metrô parou em uma estação, eu olhei pela janela e permaneci escutando minha música. E fiquei assim por alguns segundos, até olhar de volta para a minha frente, e perceber que eu estava sozinho no trem.

Ele continuava parado, com as portas abertas, como se esperando por algo, mas totalmente deserto. Todos os outros passageiros haviam desaparecido.

Eu estava sozinho.

Na mesma hora, entendi que eu estava sonhando. A única dúvida que tive era a respeito de onde eu estava. Tentei descobrir se eu estava na cama e sonhando que estava no metrô, ou se eu estava realmente no metrô e havia cochilado.

Sem conseguir encontrar resposta, decidi parar de pensar sobre isso e voltei a olhar pela janela, escutando minha música.

Foi quando senti tapas leves no joelho.

O tempo parecia passar mais devagar. A sensação que tenho é de ter demorado minutos para entender o que estava acontecendo.

Eu não estava mais só. Alguém estava tentando chamar minha atenção.

Olhei para frente e vi um homem de meia idade e vestindo uniforme do metrô em pé. Ele estava falando comigo, mas eu não conseguia ouvi-lo, por causa dos fones de ouvido. Sabendo que eu estava sonhando, tentei reconhecê-lo, ou ao menos lembrar se já havia visto aquela pessoa antes, mas não consegui. Seu rosto me era totalmente estranho.

E ele continuava falando comigo. Ou, ao menos, mexendo os lábios.

Resolvi ouvir o que ele tinha a me dizer. Tirei os fones de ouvido e imediatamente ele parou de falar. Permaneci o encarando por alguns instantes, e ele me devolveu o olhar, sem falar. Resolvi tomar a iniciativa:

– Você estava falando comigo?

– Sim, eu estou tentando te chamar já há algum tempo. Preciso que você desembarque, porque este trem vai ser recolhido.

Olhei novamente para a janela e vi todos os passageiros parados na plataforma, esperando que eu descesse do metrô. Era por isso que o trem estava vazio. Era por isso que o trem estava parado, com as portas abertas.

Eu não estava sonhando.

Eu estava apenas sendo imbecil.

Recoloquei os fones de ouvido e desci apressado do metrô. Caminhei alguns metros pela plataforma e esperei pelo próximo metrô bem distante dos meus antigos companheiros de vagão.

Afinal, algo me dizia que eu não seria exatamente popular entre eles naquele momento.

Ô fase.




Nota: Mesmo tendo vivido isso acordado, coloquei o título do texto como Sonhos de Kurosawa Gordon como uma pequena sacanagem – os mais atentos podem ter percebido que a palavra cortada desta vez foi “sonhos” e não “Kurosawa”.

Afinal, eu realmente achei, por alguns instantes, que estava sonhando – logo, nada me impede de fazer o mesmo com vocês.

Assim, ignorem isso na contagem desta série: o próximo sonho (sonho de verdade mesmo) a ser postado aqui terá novamente o número X.



13 de março de 2011

This Song has Flown

I once had a girl, or should I say, she once had me
She showed me her room, isn't it good, Norwegian wood?


She asked me to stay and she told me to sit anywhere,

So I looked around and I noticed there wasn't a chair.


I sat on a rug, biding my time, drinking her wine,

We talked until two and then she said, "It's ti
...

– Oi?

– Tem uma moeda aí para me ajudar, cara?

– Não tenho.

– Só uma moeda.

– Não, não tenho.

...fire, isn't it good, Norwegian wood.



(Dedicado a todos os leitores que tentam,
inutilmente, ouvir música com fones

de ouvido nas ruas de São Paulo)



11 de março de 2011

Clube da Luta

São dois personagens: um deles está sentado em uma cadeira. O outro está no chão, em um canto, observando tudo atentamente. Teoricamente, este deve ser o vilão – vilões sempre costumam fazer tocaias ardilosas. Por outro lado, aquele que mexe em um computador está vestindo negro (cor preferida dos vilões), enquanto o do chão é todo branco.

Não sabemos quem é o herói ou vilão.

Aquele na cadeira possui algo em suas mãos. Um pequeno saco com objetos coloridos. Talvez gemas e pedras preciosas. Do chão, o outro, escondido atrás de uma quina na parede. Observando pacientemente. Esperando por uma chance.

E ela surge quando uma das gemas, de cor esverdeada – uma esmeralda, talvez – escapa de suas mãos e cai, deslizando pelo chão de madeira do aposento. Era tudo o que o personagem de branco queria.

Tudo é muito rápido.

Num átimo, ele dispara em alta velocidade pelo local, à caça do objeto. Imediatamente, o personagem de negro dá um pulo derrubando a cadeira na qual estava e cruza o ar, aterrissando sobre seu oponente, abraçando seu corpo e impedindo seu avanço.

A pequena gema verde, alheia a tudo, continua deslizando pelo assoalho.

Ambos lutam. Para escapar do rival, o personagem de branco precisa inverter o jogo. Assim, por baixo do adversário, ele contorce seu corpo, encontrando espaço para dar uma cotovelada na boca de seu oponente, deixando-o tonto.

Surpreendido pelo golpe, o personagem de negro afrouxa os braços, permitindo que o adversário escape em direção ao objeto. Contudo, consegue ainda, num movimento desesperado, agarrar o personagem de branco pelas pernas, derrubando-o novamente.

A pedra verde bate em uma parede e finalmente pára em um canto do aposento.

Ambos rolam no chão. Por cima do adversário, o personagem de negro desfere dois socos no rosto de seu oponente, que tenta estrangulá-lo freneticamente. Ao ver que não seria bem sucedido, o personagem de branco revida o golpe, mas não com um murro, e sim golpeando o rosto do rival com o primeiro objeto que conseguiu agarrar (um sapato que estava ao chão).

O personagem de negro grita um palavrão.

Ambos rolam novamente.

Agora o personagem de negro está por baixo. O de branco, aproveitando a vantagem, segura o oponente por uma das orelhas, golpeando o chão com sua cabeça. Lutando contra a inconsciência, o de preto encontra força para desferir uma cotovelada no estômago do adversário, que, sem ar, cai para o lado, gemendo.

A valiosa jóia verde continua num canto próximo a parede.

Enquanto o adversário recupera o fôlego, o personagem de preto se arrasta pelo chão, em busca do objeto. Seu esforço dura pouco, sendo interrompido por um violento golpe na cabeça – em pé, seu adversário, com a veste branca já suja pela batalha, o golpeou com uma cadeira.

Mas o de preto permanece irredutível em sua missão de impedir que o oponente se apodere da gema esverdeada. Assim, mesmo abalado, consegue segurar uma das pernas do rival, derrubando-o no chão.

Ambos rolam mais uma vez, derrubando móveis.

E é aí que o personagem de branco comete um erro fatal: ao encontrar uma brecha para disparar em alta velocidade rumo à pedra preciosa, não percebe que o personagem de preto estava se levantando e o agarra pelas costas. Ele geme de dor enquanto é balançado no ar – ainda tenta enfiar o dedo no olho de seu oponente, em vão – e é atirado violentamente para o canto do aposento, caindo sobre um sofá.

Quando se recupera, vê que a derrota se consumou. O personagem de preto está de pé próximo a parede, com a pedra preciosa brilhando em suas mãos. Sua cor verde brilha sob a luz.

O personagem de preto observa o objeto atentamente e volta-se para o rival, mostrando o objeto em suas mãos. Porém, ele não sorri triunfante. Pelo contrário, seu rosto reflete somente ódio.

Segurando com força a gema esverdeada, ele grita.

– Você é retardado?

– Au!

– Você está cansado de saber que não pode comer chocolate!

– Au!

– Olha o estado em que a sala ficou!

– Au!

– Eu vou jogar isso aqui fora. Se você sequer olhar para aquele saco de M&M, você está morto!

– Au!

– Au porra nenhuma!

– Au!

– Babaca.



10 de março de 2011

O Sétimo Selo

Foi agora de manhã, andando na Teodoro Sampaio para vir ao trabalho. No meio da multidão de pessoas que transitam por ali, uma senhora de idade – e coloque muita idade aí, já que ela parecia ter a mesma idade que São Paulo – carregando duas pequenas sacolas de supermercado caminhava na minha direção.

Quando ela estava a uns dois metros de mim, a alça de uma das sacolas se rompeu e foi ao chão. Tentando impedir a queda, ela acabou deixando a outra sacola cair. As duas foram ao chão, espalhando as mercadorias (uma embalagem de frios e uma lata de azeite) de uma delas na calçada.

Todos ao redor ignoraram isso.

Instintivamente, eu me abaixei e recolhi as mercadorias. Peguei a outra sacola com as mãos e entreguei para ela. A velhinha sorriu.

– Muito obrigada. Você é uma pessoa muito boa.

E é aqui que a gente vai começar a brincar.

Devolvi o sorriso e respondi.

– Talvez eu seja. Não sei ao certo.

– Você é. Você foi o único que me ajudou com as compras que caíram.

– Mas isso não me torna uma pessoa boa. Isso apenas mostra que os outros não se importam.

– Então você, ao menos, é melhor que os outros.

– O que não necessariamente me torna uma pessoa boa.

Enquanto acomodava a lata de azeite na sacola, ela permaneceu quieta por alguns instantes. Talvez tentando encontrar um modo de colocar o produto de uma forma que não caísse novamente, ou talvez pensando no que eu havia dito. Eu permaneci em silêncio.

Segundos depois, ela ergueu os olhos e se voltou para mim.

– Se você e mais três ou quatro pessoas tivessem me ajudado, todos vocês seriam pessoas boas.

– Talvez. Mas vamos ser sinceros? Suas sacolas caíram e eu apanhei suas compras. Não foi uma tarefa muito difícil. Talvez se fosse algo mais complicado... Não sei, se a senhora estivesse sentada ali no canto, pedindo esmolas... Talvez eu tivesse passado reto, sem sequer olhar para a senhora.

– Sim, talvez. Mas por que você apanhou minhas compras? Por que foi fácil?

– Não. Porque elas caíram e... Bom, desculpe, mas...

– Sim?

– A senhora já tem certa idade. Imaginei que fosse precisar de ajuda.

– Não é preciso se desculpar. Mas é justamente o que eu falei. Você não parou de caminhar e se abaixou para apanhar minhas coisas apenas porque era fácil. Talvez tenha sido. Ao menos, mais para você do que para mim. Mas não foi isso que você pensou. O que você pensou foi que “talvez eu precisasse de ajuda”.

– Sim... Mas, não sei. Acho que é o que todo mundo deveria fazer.

– Mas ninguém fez.

– Verdade.

Ela olhou ao redor, observando as pessoas que passavam apressadas por nós. Suspirou e me olhou diretamente nos olhos.

– Mas não quero falar de todo mundo. Estamos falando de você. Você se abaixou. Você é uma pessoa boa.

– Eu realmente não sei. Como eu disse, era algo fácil e isso conta também. Se fosse algo mais difícil, talvez eu também sentisse que a senhora precisa de ajuda, mas teria ignorado.

– Talvez. Mas nunca vamos saber, certo?

Foi minha vez de sorrir.

– Espero que não.

– Posso perguntar uma coisa?

– Claro.

– Você dorme bem à noite?

– Mais ou menos.

– Muitas preocupações? Ou consciência pesada?

– Preocupações.

– Com o quê?

– Não sei. Com tudo, acho.

– Eu insisto que você é uma pessoa boa. Que tipo de preocupações uma pessoa boa teria?

– Com tudo.

– Você se cobra demais?

– Eu não gosto de errar.

– O que seria “errar”?

– Não gosto de errar. Comigo, e principalmente, com os outros.

– Mas quem define o que é certo ou o que é errado?

– Ninguém. Acho. Não sei.

– Não. Quem define o que é certo ou errado é você. Você disse que não sente a consciência pesada quando se deita. Ou seja, você não tem errado muito. Nem com você, nem com os outros.

Olhei no relógio. Eu estava atrasado para o trabalho. Mas não me importei.

– Talvez. Mas eu tenho meu punhado de pecados. E de arrependimentos.

– Todos nós temos. Você acha que sou uma pessoa boa?

– Sim.

– Você acha isso apenas porque sou velhinha e deixei minhas compras caírem. Mas eu também tenho meus arrependimentos. E já tive meu quinhão de pecados.

“Quinhão”. Fazia tempo que eu não ouvia essa expressão.

– Mas eu não gosto dos meus. Admito que às vezes eu peco... Não, não são pecados, são erros. Às vezes eu erro por defeitos meus, pelo meu modo de agir. Mas, na maior parte das vezes, eu dou o melhor de mim. De verdade.

Porque, de repente, era importante para mim que ela acreditasse nisso.

– Eu sei disso. Por isso que você se incomoda tanto. Porque você queria que desse certo. Você não larga mão das coisas.

– Não. Isso eu não faço mesmo.

– Uma pessoa que não estivesse nem aí para nada, logicamente não estaria nem aí para saber se as coisas deram certo ou não. Mas você se importa.

– Sim.

– Por quê?

– Porque eu não gosto de errar. Eu já disse.

– E porque você não gosta?

– Porque eu me sinto pequeno. Incapaz.

– Uma má pessoa?

– Não. Não necessariamente. Mas incapaz.

– Mas não se sente uma má pessoa?

– Não. Acho que não.

Ela levantou as sacolas, mostrando as compras que eu havia apanhado.

– Se você não consegue se sentir uma má pessoa nem quando erra, ou na maioria das vezes em que erra, por que você não consegue se sentir uma boa pessoa quando acerta? Como agora, quando acertou comigo?

Xeque.

– Não sei. Ponto para a senhora.

– Eu não quero pontos. Eu quero que você veja.

– Ver? Eu vejo. Eu apenas não sinto.

– Talvez porque você tenha errado muito, ultimamente?

– Talvez.

– Mas os erros são seus?

– Não sei. E não faz diferença. Eles acabam comigo. Não importa quem os causou.

– Importa sim. Para a sua consciência, importa sim.

– Mas para o meu coração, não. Ele não consegue filtrar. Ele apenas vê “erros”.

– Sim, porque você se cobra demais. Você procura pela sua culpa em tudo.

– Sim. Isso me deixa alerta. Faz com que eu erre menos.

Antes que ela respondesse, olhei mais uma vez no relógio.

– Você está atrasado, certo?

– Sim.

– Entendo. Mas não se esqueça de que você é jovem. Você ainda tem tempo de sobra.

– Tenho menos do que a senhora imagina.

– Mas tem mais do que acredita. Confie em mim.

E, estranhamente, eu confiei. Ou quis confiar. Não sei.

– Posso fazer uma última pergunta, antes de você ir?

– Claro.

– Você tenta?

– Como assim?

– Você sabe. Você tenta?

Respirei fundo.

– O tempo inteiro.

Ela apenas sorriu sem falar nada. Eu continuei.

– Por que a senhora quis saber se eu tento ou não?

– Eu não queria saber. Eu já sabia disso, desde o momento em que você se abaixou para apanhar minhas coisas. Eu perguntei apenas para ver se você sabia. E você sabe.

– Mas eu não sinto isso.

– Não importa. Isso está dentro de você, em algum lugar. Procure.

Xeque mate.

Olhei no relógio novamente.

– Eu realmente preciso ir.

– Eu também. Tenha um bom dia. Obrigada por ter me ajudado.

– Bom dia para a senhora também.

Voltei a andar. Após caminhar cinco ou seis metros, olhei para trás. A velhinha já havia desaparecido em meio à multidão, com seu azeite e as outras compras. Olhei para frente e continuei andando.

Não foi o diálogo mais importante da minha vida, mas foi um dos mais. Ou teria sido, se ele tivesse acontecido. Na verdade, tudo aconteceu somente até o momento em que eu disse “e é aqui que a gente vai começar a brincar”. Quando ela sorriu e me disse “Muito obrigada. Você é uma pessoa muito boa”, eu apenas sorri de volta e respondi:

– De nada. Cuidado que a alça desta sacola rompeu, então ela pode cair de novo.

Foi isso que aconteceu. Mais nada. Todo o resto da conversa existiu somente dentro da minha cabeça, enquanto eu caminhava até o trabalho, pensando no que a velhinha havia me dito, e ganhou forma aqui no blog.

Afinal, de que adianta ter um blog pessoal se eu não posso usá-lo para pensar alto aqui?

E se o Max Von Sidow pôde jogar xadrez com a Morte, nada me impede de apanhar as compras da minha Consciência, que caíram da sacola e se espalharam pela calçada. E nada me impede também de torcer para que um dia vocês encontrem a sua própria velhinha na rua.

E tomara que, assim como eu, vocês percam a partida.



Em tempo, para quem viajou no carnaval, tem texto novo no Chronicles: Carta Aberta.


2 de março de 2011

Viciado Assalta Doceria em Pinheiros

Da redação


Na manhã desta quarta-feira, duas funcionárias de uma loja da doceria Kopenhagen, localizada na zona oeste da capital paulista, passaram por momentos de terror após o local ser invadido por um viciado em drogas que, sofrendo graves crises de abstinência, tentou assaltar o estabelecimento.

“Eu suspeitei na hora que ele entrou na loja”, informou a gerente Edneide dos Santos. De acordo com ela, o suspeito, calvo, barbado e com cerca de 1.60m, entrou correndo na loja, com metade da camisa para fora da calça e sapatos ainda desamarrados. “Pelo estado em que estava, deve dormir na rua. Menino feio do cão”, acrescentou Edneide.

Segundo ela, o indivíduo mostrou-se agressivo e ansioso. A tese de envolvimento com drogas é reforçada pelo fato de que suas mãos tremiam, como conta a barista Lucimar Nunes. “Ele estava suando e bastante nervoso. Foi até o balcão e gritou que se a gente não desse um café para ele, todo mundo ia morrer lá dentro”, explicou Lucimar, acrescentando que o delinquente era tão pequeno que mal conseguia alcançar o balcão. "Deve ser dimenor", opinou.

Com o objetivo de acalmá-lo, a moça serviu um café. “Perguntei se ele queria uma água com gás para acompanhar, que é o procedimento aqui da loja, mas ele disse que não, que queria mesmo era mais café. E começou a gritar ‘Mais café! Mais café!’ com os olhos arregalados. Parecia possuído, credo, morri de medo”, contou a funcionária da doceria, aos prantos.

A situação se resolveu apenas com a chegada da polícia, acionada por camelôs da região que suspeitaram dos gritos. Numa negociação que durou alguns minutos, o caso foi resolvido. “Ele concordou em se entregar e em não machucar ninguém caso esperássemos até ele terminar de comer aquele palitinho de chocolate que vem com o café”, explicou o Sargento Dantas, encarregado da prisão.

Levado ao 14º Distrito Policial, no próprio bairro de Pinheiros, o criminoso agora aguarda julgamento. “Ele descobriu esta manhã que estava sem café em casa e cometeu esta loucura. É compreensível”, explicou o advogado Júlio de Almeyda Pontes, que, encarregado de defender o rapaz, planeja alegar insanidade temporária. "Ele não é má pessoa e não deve ser considerado um criminoso, mas sim receber um pouco de ajuda e compreensão da sociedade", afirmou à reportagem.


"Tem café lá no DP, né?"