27 de abril de 2011
20 de abril de 2011
Teaser
19 de abril de 2011
Rob Gordon X Gringa das Frutas
Vamos tentar tirar a poeira do teclado e começar a escrever um pouco, pois para mim, é a melhor maneira de fazer a vida voltar aos trilhos.
Além disso, eu estava com esta história “engasgada” já há alguns dias. Na verdade, quase duas semanas. Eu estava indo para o metrô Vila Madalena, me encontrar com uma pessoa a respeito de um projeto envolvendo uns textos (é uma coisa diferente, mas qualquer hora eu falo mais disso por aqui).
Enfim... Apesar de morar em Pinheiros, eu não sei chegar ao metrô Vila Madalena. Isso porque eu fui criado em Moema, que é um bairro projetado por crianças de cinco anos de idade que, um dia descobriram que tinham um lápis e uma régua, e decidiram criar um bairro no meio de São Paulo. Tudo em Moema é reto.
Em Pinheiros, não. Aqui, o bairro é formado por curvas, jardins e praças. Você contorna uma praça durante dez minutos até chegar ao mesmo lugar onde estava sem encontrar sequer uma rua para escapar daquele looping. Às vezes, você atravessa uma rua e descobre que chegou do outro lado do bairro, mas em outro dia.
Ou seja, o bairro foi projetado pela mesma pessoa que desenhou o Shopping Paulista. Além disso, quando eu coloco o pé na Vila Madalena, começo a me perder no meio daquelas ruas com nomes que fazem com que eu me sinta num episódio do Meu Querido Pônei. Rua Alegria, Avenida Sorriso, Rua Amizade, Alameda Cafuné, Travessa do Carinho. Sério, é deprimente.
Bom, tudo o que eu sabia é que precisava sair do meu prédio e virar à direita. Andando nesta direção, uma hora eu chegaria à estação Vila Madalena.
Quer dizer, em “uma hora” não. Como logo percebi, seria mais exato dizer “algum mês”. Porque eu andei, andei, andei. Passei por praças, subi montanhas, passei pelo planeta gelado de Hoth, nadei através de lagos, cruzei todo o território de Mordor (encontrei dois hobbits e, como sou do mesmo tamanho que eles e estou desempregado, me ofereci para levar o anel para eles como frila, mas eles não se interessaram).
E nada do metrô aparecer.
Ou seja, eu estava perdido. Ou melhor, eu estava perdido dentro do meu próprio bairro (porque, tecnicamente, Pinheiros e Vila Madalena são o mesmo lugar).
Continuei andando. Todos os meus instintos me avisarem para qual lado o metrô estava (além de gritarem o tempo todo que o metrô estava próximo), mas, no momento em que contornei uma praça e dei de cara com um prédio pelo qual eu já tinha passado, meus instintos desistiram de tudo e começaram a ver preços de bússolas no Mercado Livre.
Eu estava sozinho, perdido naquela terra estranha.
Só me restava apenas encontrar alguém na rua e perguntar onde ficava o metrô. Olhei ao redor e lá estava ela, vindo na minha direção: uma loira, aparentemente da minha idade, carregando um saco repleto de frutas. Ninguém, ao menos em sã consciência, vai comprar frutas do outro lado da cidade. O saco de frutas era um atestado (com firma reconhecida em cartório) de que a mulher morava ali perto. E, se ela morava ali perto, sabia onde era o metrô. Conan Doyle ficaria orgulhoso de mim.
Me aproximei e pedi licença.
– Pôs nán?, ela respondeu.
“Pôs nán.” Certo.
Milhões de pessoas em são Paulo, e eu escolho justamente uma gringa para pedir informações. Típico. Bem bastava driblar o sotaque dela e apenas descobrir para qual lado ficava o metrô. Depois de anos conversando com assessores de imprensa, isso não seria tão difícil.
– O metrô fica para lá?, perguntei, apontando com o dedo para a direção da qual ela vinha.
– No. No. No métro.
– Não? Para que lado fica, então?
– No métro. Nooooo métro.
– Oi?
– No métro. Ânibus.
– Oi?
– Ânibus. No métro.
– Não, o metrô, sabe? A estação Vila Madalena? Ela fica para esse lado?
– Harmonia.
Pensei em responder para ela que tudo o que não estava acontecendo nesta conversa era justamente isso: Harmonia. Mas mudei de ideia. Eu precisava apenas saber onde estava o metrô e não começar uma DR com a gringa das frutas sobre nossa incapacidade de se comunicar. Porém, antes que eu pudesse falar algo, ela emendou.
– Harmonia. Rua dos báncos. Rua dos báres.
– Ah. A Rua Harmonia?
– Si. Qual ânibus? Harmonia?
– Olhe, podemos focar no meu metrô primeiro?
– No precsisa de métro. Precsisa de ânibus. Rua dos báncos. Harmonia.
– Eu chamei você na rua porque preciso saber se o metrô...
– Harmonia. Báncos. Báres. Qual ânibus?
Suspirei. Era um caso perdido, a mulher das frutas. Apontei para o lado do qual estava vindo.
– A Rua Harmonia fica para esse lado.
– Grat! Grat!
– Então, mas o meu metrô...
– Grat!
E foi embora, levando suas frutas. Conan Doyle teria gargalhado com isso.
Assim, descobri minha nova vocação. Eu farejo pessoas perdidas na rua e paro com o objetivo de fornecer informações.
Só falta agora ser remunerado por isso.
Além disso, eu estava com esta história “engasgada” já há alguns dias. Na verdade, quase duas semanas. Eu estava indo para o metrô Vila Madalena, me encontrar com uma pessoa a respeito de um projeto envolvendo uns textos (é uma coisa diferente, mas qualquer hora eu falo mais disso por aqui).
Enfim... Apesar de morar em Pinheiros, eu não sei chegar ao metrô Vila Madalena. Isso porque eu fui criado em Moema, que é um bairro projetado por crianças de cinco anos de idade que, um dia descobriram que tinham um lápis e uma régua, e decidiram criar um bairro no meio de São Paulo. Tudo em Moema é reto.
Em Pinheiros, não. Aqui, o bairro é formado por curvas, jardins e praças. Você contorna uma praça durante dez minutos até chegar ao mesmo lugar onde estava sem encontrar sequer uma rua para escapar daquele looping. Às vezes, você atravessa uma rua e descobre que chegou do outro lado do bairro, mas em outro dia.
Ou seja, o bairro foi projetado pela mesma pessoa que desenhou o Shopping Paulista. Além disso, quando eu coloco o pé na Vila Madalena, começo a me perder no meio daquelas ruas com nomes que fazem com que eu me sinta num episódio do Meu Querido Pônei. Rua Alegria, Avenida Sorriso, Rua Amizade, Alameda Cafuné, Travessa do Carinho. Sério, é deprimente.
Bom, tudo o que eu sabia é que precisava sair do meu prédio e virar à direita. Andando nesta direção, uma hora eu chegaria à estação Vila Madalena.
Quer dizer, em “uma hora” não. Como logo percebi, seria mais exato dizer “algum mês”. Porque eu andei, andei, andei. Passei por praças, subi montanhas, passei pelo planeta gelado de Hoth, nadei através de lagos, cruzei todo o território de Mordor (encontrei dois hobbits e, como sou do mesmo tamanho que eles e estou desempregado, me ofereci para levar o anel para eles como frila, mas eles não se interessaram).
E nada do metrô aparecer.
Ou seja, eu estava perdido. Ou melhor, eu estava perdido dentro do meu próprio bairro (porque, tecnicamente, Pinheiros e Vila Madalena são o mesmo lugar).
Continuei andando. Todos os meus instintos me avisarem para qual lado o metrô estava (além de gritarem o tempo todo que o metrô estava próximo), mas, no momento em que contornei uma praça e dei de cara com um prédio pelo qual eu já tinha passado, meus instintos desistiram de tudo e começaram a ver preços de bússolas no Mercado Livre.
Eu estava sozinho, perdido naquela terra estranha.
Só me restava apenas encontrar alguém na rua e perguntar onde ficava o metrô. Olhei ao redor e lá estava ela, vindo na minha direção: uma loira, aparentemente da minha idade, carregando um saco repleto de frutas. Ninguém, ao menos em sã consciência, vai comprar frutas do outro lado da cidade. O saco de frutas era um atestado (com firma reconhecida em cartório) de que a mulher morava ali perto. E, se ela morava ali perto, sabia onde era o metrô. Conan Doyle ficaria orgulhoso de mim.
Me aproximei e pedi licença.
– Pôs nán?, ela respondeu.
“Pôs nán.” Certo.
Milhões de pessoas em são Paulo, e eu escolho justamente uma gringa para pedir informações. Típico. Bem bastava driblar o sotaque dela e apenas descobrir para qual lado ficava o metrô. Depois de anos conversando com assessores de imprensa, isso não seria tão difícil.
– O metrô fica para lá?, perguntei, apontando com o dedo para a direção da qual ela vinha.
– No. No. No métro.
– Não? Para que lado fica, então?
– No métro. Nooooo métro.
– Oi?
– No métro. Ânibus.
– Oi?
– Ânibus. No métro.
– Não, o metrô, sabe? A estação Vila Madalena? Ela fica para esse lado?
– Harmonia.
Pensei em responder para ela que tudo o que não estava acontecendo nesta conversa era justamente isso: Harmonia. Mas mudei de ideia. Eu precisava apenas saber onde estava o metrô e não começar uma DR com a gringa das frutas sobre nossa incapacidade de se comunicar. Porém, antes que eu pudesse falar algo, ela emendou.
– Harmonia. Rua dos báncos. Rua dos báres.
– Ah. A Rua Harmonia?
– Si. Qual ânibus? Harmonia?
– Olhe, podemos focar no meu metrô primeiro?
– No precsisa de métro. Precsisa de ânibus. Rua dos báncos. Harmonia.
– Eu chamei você na rua porque preciso saber se o metrô...
– Harmonia. Báncos. Báres. Qual ânibus?
Suspirei. Era um caso perdido, a mulher das frutas. Apontei para o lado do qual estava vindo.
– A Rua Harmonia fica para esse lado.
– Grat! Grat!
– Então, mas o meu metrô...
– Grat!
E foi embora, levando suas frutas. Conan Doyle teria gargalhado com isso.
Assim, descobri minha nova vocação. Eu farejo pessoas perdidas na rua e paro com o objetivo de fornecer informações.
Só falta agora ser remunerado por isso.
14 de abril de 2011
Todas as Crianças do Mundo
Ontem eu recebi um e-mail indicando que eu havia sido marcado numa foto do Facebook. Achei que era uma daquelas bobagens tipo “quem mais interage comigo”, ou “meus seguidores mais fieis”. Abaixo, havia um link. Cliquei por hábito, apenas por clicar para ver o que era antes de apagar o e-mail.
Não era bobagem.
Um antigo professor meu – do qual, confesso, me lembrava apenas vagamente – postou, nas fotos de seu perfil, os “carômetros” de todas as classes em que lecionou. “Carômetro”, como o nome indica, eram fichas com o retrato de todos os alunos da sala, acompanhados do número e do nome. No caso de algumas classes em especial, era quase uma ficha policial.
Não faço ideia se isso ainda é usado nas escolas, mas no meu tempo – e no meu colégio, que tinha mais de 40 alunos por sala – era algo bastante comum.
E, com apenas um toque no mouse, mais de vinte anos desapareceram. Eu estava de volta aos meus 13 para 14 anos, ao lado de todos os outros meninos e meninas que passaram o ano de 1989 ao meu lado, convivendo comigo todas as manhãs.
Não sei quanto tempo fiquei em silêncio, meio emocionado, olhando as fotos. Sim, fotos. Como os carômetros das outras oitavas séries estão no site, eu vasculhei um por um, encontrando pessoas que haviam estudado comigo em outros anos (alguns até mesmo mais de uma vez).
Muitos eu não me lembrava, mas assim que bati o olho me recordei de alguma história que me fez rir alto na frente do computador. Mas outros, eu reconheci de imediato.
Estavam todos ali.
Os grandes amigos, aqueles que você escolhia – e era escolhido – para compartilhar dúvidas e segredos, para dividir gargalhadas e goles de refrigerante. Os inimigos que, na época, não eram “inimigos”, apenas pessoas com quem você “não ia muito com a cara” (num claro exemplo de como a vida aos 14 anos é muito mais simples do que se imagina). E, claro, os amores, todos eles platônicos e responsáveis pela eterna (e intensa) guerra entre paixão e timidez travada todos os dias, no pátio – no meu caso, a timidez sempre ganhava.
E eu. Sim, eu estou na foto aí ao lado (clique para aumentar), com muito mais cabelo e provavelmente alguns (não muitos) centímetros a menos. E ainda sem marcas de cansaço abaixo dos olhos, mas sorrindo. Eu sorria sempre. Ao menos, é o que dizem. Eu não me lembro, porque quando você é adolescente, você está muito mais preocupado em perceber quem está sorrindo para você do que em sorrir de verdade.
Curiosamente, eu me recordo muito pouco deste ano em si. Olhando os rostos ao lado, me lembrei, claro, de diversas passagens que me fazem sorrir, mas nenhuma muita grandiosa. Na verdade, quando penso nesta época, a primeira história que me vem à cabeça aconteceu no ano anterior. Talvez valha a pena contar aqui.
Eu estava mal de matemática – o ano ainda estava no começo, mas minhas notas não estavam nada boas. E não era preguiça, eu apenas não entendia a matéria. Na segunda-feira, seria prova. Passei o domingo na mesa da sala estudando com meu pai, e fui dormir aquela noite manjando tudo. No dia seguinte, fiz a prova com um pé nas costas. Não garantia um 10, mas pelo menos um 8 ou 9, eu tirava fácil. Contei isso em casa, mal escondendo o orgulho.
Na terça-feira, recebi a prova corrigida na primeira aula. Fiquei branco. Não lembro agora minha nota, mas era 3 ou 4. Acho que foi 4. Eu nunca havia me sentido tão decepcionado comigo mesmo. Eram sete e pouco da manhã e passei o resto da manhã com nó na garganta, segurando o choro.
Por volta das 13 horas, entrei em casa, ainda com a garganta amarrada e dei de cara com a minha mãe. Ela perguntou sobre a prova, cheia de expectativa. Tentei não chorar, mas não consegui. No momento em que eu abri a boca para dizer o quanto havia tirado, desmoronei. Eu estava cagando para a nota, só não queria ter decepcionado meus pais. Gosto desta história: bem ou mal, ela diz muito a meu respeito.
Mas de volta às fotos.
Aos poucos, os comentários das imagens se tornaram uma espécie de pátio da escola. Diversos alunos começaram a aparecer, comentando sobre os penteados bizarros, e identificando este ou aquele menino, e como chamava aquela japonesinha mesmo, alguém lembra? Eu e mais algumas pessoas passamos o dia analisando as fotos e procurando por rostos conhecidos.
Algumas das pessoas eu me recordo do nome completo (algumas pessoas até comentaram como era possível eu me lembrar de tanta gente), enquanto de outras eu mal consigo me lembrar do nome, somente do apelido (porque, na minha escola, todos tinham apelidos). E, claro, existem algumas das quais – e espero que elas me desculpem por isso – eu realmente não consigo me lembrar nem do rosto. Da mesma forma, pessoas que eu não me lembrava mais me reconheceram nos comentários, me chamando exatamente da forma que eu era chamado nos corredores e na sala de aula.
Com alguns poucos tenho contato até hoje, mas a grande maioria, mesmo, se perdeu no tempo. Meses atrás, um sujeito que havia sido um grande amigo nesta época esbarrou comigo na fila de um Starbucks, o que rendeu um café de duas horas e gargalhadas para disfarçar a saudade. Mas este foi uma exceção. A maioria mesmo desapareceu. Descobriram novos amigos, novas pessoas para não ir com a cara e novos amores, provavelmente menos platônicos que os daquela época.
Nunca mais os vi. Justamente por isso que, para mim, eles terão sempre 14 anos.
Não consigo olhar para qualquer uma das pessoas desta foto e imaginá-la com 34, 35 anos de idade. Como eu nunca mais os encontrei, eles ainda estão naquela época, dentro da minha memória. Não envelheceram. Ao menos, não para mim. Todos eles continuam com 14 anos, e estão mais preocupados com a prova de Geografia da próxima semana do que com as contas para pagar ou com a educação dos filhos.
Pois, naquela época, não fazíamos ideia de onde estaríamos no futuro. Ok, eu também não faço ideia de onde vou estar amanhã, mas é diferente. Naquela época nós não pensávamos muito nisso. Éramos crianças. Provavelmente discutiríamos com alguém que nos chamasse de criança, mas éramos.
E (isso me ocorreu agora, enquanto escrevo) esta talvez seja a minha última foto de infância. Se bobear, um menino de 13 anos dos dias de hoje tem mais experiência que eu; mas, em 1989, éramos apenas crianças, jogando bola no pátio, trocando impressões sobre desenhos animados e tentando descobrir porque algumas meninas tinham peitos e outras não.
Tudo era novidade, tudo era descoberta. Teríamos tempo de sobra para pensar em ser adultos, era cedo demais para isso. Pouco mais de vinte anos atrás, tínhamos todo o tempo do mundo pela frente. E, se alguém me dissesse que em vinte anos eu estaria escrevendo sobre isso, morando sozinho, com meu cachorro deitado aos meus pés e um cigarro queimando no cinzeiro, eu responderia apenas:
– Não. Eu não fumo.
E sairia correndo pelo pátio, atrás da bola, sem sequer olhar para trás.
Porque, vinte anos atrás, eu também tinha todo o tempo do mundo.
Não era bobagem.
Um antigo professor meu – do qual, confesso, me lembrava apenas vagamente – postou, nas fotos de seu perfil, os “carômetros” de todas as classes em que lecionou. “Carômetro”, como o nome indica, eram fichas com o retrato de todos os alunos da sala, acompanhados do número e do nome. No caso de algumas classes em especial, era quase uma ficha policial.
Não faço ideia se isso ainda é usado nas escolas, mas no meu tempo – e no meu colégio, que tinha mais de 40 alunos por sala – era algo bastante comum.
E, com apenas um toque no mouse, mais de vinte anos desapareceram. Eu estava de volta aos meus 13 para 14 anos, ao lado de todos os outros meninos e meninas que passaram o ano de 1989 ao meu lado, convivendo comigo todas as manhãs.
Não sei quanto tempo fiquei em silêncio, meio emocionado, olhando as fotos. Sim, fotos. Como os carômetros das outras oitavas séries estão no site, eu vasculhei um por um, encontrando pessoas que haviam estudado comigo em outros anos (alguns até mesmo mais de uma vez).
Muitos eu não me lembrava, mas assim que bati o olho me recordei de alguma história que me fez rir alto na frente do computador. Mas outros, eu reconheci de imediato.
Estavam todos ali.
Os grandes amigos, aqueles que você escolhia – e era escolhido – para compartilhar dúvidas e segredos, para dividir gargalhadas e goles de refrigerante. Os inimigos que, na época, não eram “inimigos”, apenas pessoas com quem você “não ia muito com a cara” (num claro exemplo de como a vida aos 14 anos é muito mais simples do que se imagina). E, claro, os amores, todos eles platônicos e responsáveis pela eterna (e intensa) guerra entre paixão e timidez travada todos os dias, no pátio – no meu caso, a timidez sempre ganhava.
E eu. Sim, eu estou na foto aí ao lado (clique para aumentar), com muito mais cabelo e provavelmente alguns (não muitos) centímetros a menos. E ainda sem marcas de cansaço abaixo dos olhos, mas sorrindo. Eu sorria sempre. Ao menos, é o que dizem. Eu não me lembro, porque quando você é adolescente, você está muito mais preocupado em perceber quem está sorrindo para você do que em sorrir de verdade.Curiosamente, eu me recordo muito pouco deste ano em si. Olhando os rostos ao lado, me lembrei, claro, de diversas passagens que me fazem sorrir, mas nenhuma muita grandiosa. Na verdade, quando penso nesta época, a primeira história que me vem à cabeça aconteceu no ano anterior. Talvez valha a pena contar aqui.
Eu estava mal de matemática – o ano ainda estava no começo, mas minhas notas não estavam nada boas. E não era preguiça, eu apenas não entendia a matéria. Na segunda-feira, seria prova. Passei o domingo na mesa da sala estudando com meu pai, e fui dormir aquela noite manjando tudo. No dia seguinte, fiz a prova com um pé nas costas. Não garantia um 10, mas pelo menos um 8 ou 9, eu tirava fácil. Contei isso em casa, mal escondendo o orgulho.
Na terça-feira, recebi a prova corrigida na primeira aula. Fiquei branco. Não lembro agora minha nota, mas era 3 ou 4. Acho que foi 4. Eu nunca havia me sentido tão decepcionado comigo mesmo. Eram sete e pouco da manhã e passei o resto da manhã com nó na garganta, segurando o choro.
Por volta das 13 horas, entrei em casa, ainda com a garganta amarrada e dei de cara com a minha mãe. Ela perguntou sobre a prova, cheia de expectativa. Tentei não chorar, mas não consegui. No momento em que eu abri a boca para dizer o quanto havia tirado, desmoronei. Eu estava cagando para a nota, só não queria ter decepcionado meus pais. Gosto desta história: bem ou mal, ela diz muito a meu respeito.
Mas de volta às fotos.
Aos poucos, os comentários das imagens se tornaram uma espécie de pátio da escola. Diversos alunos começaram a aparecer, comentando sobre os penteados bizarros, e identificando este ou aquele menino, e como chamava aquela japonesinha mesmo, alguém lembra? Eu e mais algumas pessoas passamos o dia analisando as fotos e procurando por rostos conhecidos.
Algumas das pessoas eu me recordo do nome completo (algumas pessoas até comentaram como era possível eu me lembrar de tanta gente), enquanto de outras eu mal consigo me lembrar do nome, somente do apelido (porque, na minha escola, todos tinham apelidos). E, claro, existem algumas das quais – e espero que elas me desculpem por isso – eu realmente não consigo me lembrar nem do rosto. Da mesma forma, pessoas que eu não me lembrava mais me reconheceram nos comentários, me chamando exatamente da forma que eu era chamado nos corredores e na sala de aula.
Com alguns poucos tenho contato até hoje, mas a grande maioria, mesmo, se perdeu no tempo. Meses atrás, um sujeito que havia sido um grande amigo nesta época esbarrou comigo na fila de um Starbucks, o que rendeu um café de duas horas e gargalhadas para disfarçar a saudade. Mas este foi uma exceção. A maioria mesmo desapareceu. Descobriram novos amigos, novas pessoas para não ir com a cara e novos amores, provavelmente menos platônicos que os daquela época.
Nunca mais os vi. Justamente por isso que, para mim, eles terão sempre 14 anos.
Não consigo olhar para qualquer uma das pessoas desta foto e imaginá-la com 34, 35 anos de idade. Como eu nunca mais os encontrei, eles ainda estão naquela época, dentro da minha memória. Não envelheceram. Ao menos, não para mim. Todos eles continuam com 14 anos, e estão mais preocupados com a prova de Geografia da próxima semana do que com as contas para pagar ou com a educação dos filhos.
Pois, naquela época, não fazíamos ideia de onde estaríamos no futuro. Ok, eu também não faço ideia de onde vou estar amanhã, mas é diferente. Naquela época nós não pensávamos muito nisso. Éramos crianças. Provavelmente discutiríamos com alguém que nos chamasse de criança, mas éramos.
E (isso me ocorreu agora, enquanto escrevo) esta talvez seja a minha última foto de infância. Se bobear, um menino de 13 anos dos dias de hoje tem mais experiência que eu; mas, em 1989, éramos apenas crianças, jogando bola no pátio, trocando impressões sobre desenhos animados e tentando descobrir porque algumas meninas tinham peitos e outras não.
Tudo era novidade, tudo era descoberta. Teríamos tempo de sobra para pensar em ser adultos, era cedo demais para isso. Pouco mais de vinte anos atrás, tínhamos todo o tempo do mundo pela frente. E, se alguém me dissesse que em vinte anos eu estaria escrevendo sobre isso, morando sozinho, com meu cachorro deitado aos meus pés e um cigarro queimando no cinzeiro, eu responderia apenas:
– Não. Eu não fumo.
E sairia correndo pelo pátio, atrás da bola, sem sequer olhar para trás.
Porque, vinte anos atrás, eu também tinha todo o tempo do mundo.
7 de abril de 2011
Um Bourbon, Um Scotch, Uma Cerveja
Quero contar uma história a vocês,
É o blues sobre a casa de um homem.
Eu entrei em casa numa sexta-feira,
E contei a minha senhoria que havia perdido o emprego
Ela disse: “Isso não afeta a minha vida,
Desde que eu receba meu dinheiro na próxima sexta.”
A próxima sexta chegou, eu não tinha o dinheiro do aluguel.
E saí pela porta.
Então eu disse à senhoria
Eu falei “você deixa eu entrar de mansinho?
Eu vou ter o dinheiro do aluguel amanhã
Mas depois de amanhã eu já não sei mais.”
Pedi que ela me deixasse entrar de fininho, sabem?
Reparei que toda noite, quando eu entrava em casa
Ela não tinha nada agradável para me dizer
Mas por cinco anos ela havia sido tão simpática.
Sempre havia sido muito amorosa.
Eu entrei em casa numa noite específica
A senhoria me perguntou “você já tem o dinheiro do aluguel?”.
Eu respondi que “não, não consigo arrumar emprego
Logo eu não tenho o dinheiro para pagar o aluguel”.
Ela falou “não acredito que você esteja tentando encontrar emprego”
Disse: “Vi você hoje parado em uma esquina, apoiado num poste”.
Eu respondi “mas eu estava cansado, havia andado o dia inteiro.”
Ela disse que “isso não afeta a minha vida”
Desde que eu receba meu dinheiro na próxima sexta.”
A próxima sexta chegou, eu não tinha o dinheiro do aluguel.
E saí pela porta.
Então fui para as ruas
até a casa de um amigo meu.
Disse “Cara, eu estou sem lugar para ficar,
Posso ficar uns dias com você?”
Ele disse que “deixe-me perguntar a minha mulher”.
Ele saiu de casa, e eu podia ver no seu rosto que a resposta era “não”.
Ele disse que “sei lá, cara, ela é meio estranha, sabe?”
Eu respondi “eu sei, todo mundo é meio estranho.
Agora você é estranho também”.
E voltei para casa.
E disse à senhoria que arrumei um emprego
E que iria pagar meu aluguel.
Ela disse “Mesmo?”
E eu disse “Mesmo”.
E ela foi super agradável.
Porque ela sempre foi agradável.
Subi até meu quarto, guardei minhas coisas e saí.
Saí escondido pela porta dos fundos.
E fui para as ruas.
Ela estava reclamando sobre os aluguéis adiantados
Ela teria sorte se recebesse os atrasados.
Ela não vai receber nenhum!
Então parei no bar ali perto, sabe?
Fui ao balcão, pendurei meu casaco
Chamei o barman
E disse “Venha até aqui!”
Ele foi até mim e perguntou “o que você quer?”
Um bourbon, um scotch e uma cerveja.
Eu não vejo minha garota desde sabe-se lá desde quando
Então estou bebendo bourbon, uísque, scotch e gim
Quero ficar louco, quero me perder
preciso de uma dose tripla desse negócio aí
Quero ficar de fogo, não precisa se assustar.
Eu quero um bourbon, um scotch, uma cerveja.
Um bourbon, um scotch e uma cerveja.
Então estou sentado no bar
Ficando bêbado, me sentindo mole.
bebendo bourbon, bebendo scotch, bebendo cerveja
Olhei para o bar, lá estava o barman.
E disse “Venha até aqui”
Ele foi até mim e perguntou “o que você quer?”
Um bourbon, um scotch e uma cerveja.
Não vejo minha garota desde a noite de anteontem
Preciso de um drink, preciso ficar ligado.
Preciso ficar alto, e ainda não é suficiente.
Preciso de uma dose tripla desse negócio ai
Vou ficar de fogo, então preste atenção.
Eu quero um bourbon, um scotch, uma cerveja
Um bourbon, um scotch e uma cerveja.
A esta altura eu já estava ficando de fogo.
Você sabe disso quando sua boca começa a ficar seca.
Olhei para o bar, lá estava o barman.
E disse “Venha até aqui”
Ele foi até mim e perguntou “o que você quer agora?”
Eu perguntei “cara, que horas são?”
Ele respondeu que o relógio da parede dizia que eram três horas.
“É a última dose de bebida por hoje. O que você precisa?”
Um bourbon, um scotch e uma cerveja.
Eu não vejo minha garota há uma semana e uma noite
Quero ficar de fogo até nem conseguir mais falar.
Quero ficar alto, então preste atenção
Uma dose não vai ser suficiente, melhor me dar logo três.
Eu quero um bourbon, um scotch, uma cerveja.
Um bourbon, um scotch e uma cerveja.
Post dedicado a George Thorogood, que, ao reunir duas das melhores canções de John lee Hooker em uma única canção, conseguiu resumir absolutamente tudo o que está acontecendo na minha vida.
É o blues sobre a casa de um homem.
Eu entrei em casa numa sexta-feira,
E contei a minha senhoria que havia perdido o emprego
Ela disse: “Isso não afeta a minha vida,
Desde que eu receba meu dinheiro na próxima sexta.”
A próxima sexta chegou, eu não tinha o dinheiro do aluguel.
E saí pela porta.
Então eu disse à senhoria
Eu falei “você deixa eu entrar de mansinho?
Eu vou ter o dinheiro do aluguel amanhã
Mas depois de amanhã eu já não sei mais.”
Pedi que ela me deixasse entrar de fininho, sabem?
Reparei que toda noite, quando eu entrava em casa
Ela não tinha nada agradável para me dizer
Mas por cinco anos ela havia sido tão simpática.
Sempre havia sido muito amorosa.
Eu entrei em casa numa noite específica
A senhoria me perguntou “você já tem o dinheiro do aluguel?”.
Eu respondi que “não, não consigo arrumar emprego
Logo eu não tenho o dinheiro para pagar o aluguel”.
Ela falou “não acredito que você esteja tentando encontrar emprego”
Disse: “Vi você hoje parado em uma esquina, apoiado num poste”.
Eu respondi “mas eu estava cansado, havia andado o dia inteiro.”
Ela disse que “isso não afeta a minha vida”
Desde que eu receba meu dinheiro na próxima sexta.”
A próxima sexta chegou, eu não tinha o dinheiro do aluguel.
E saí pela porta.
Então fui para as ruas
até a casa de um amigo meu.
Disse “Cara, eu estou sem lugar para ficar,
Posso ficar uns dias com você?”
Ele disse que “deixe-me perguntar a minha mulher”.
Ele saiu de casa, e eu podia ver no seu rosto que a resposta era “não”.
Ele disse que “sei lá, cara, ela é meio estranha, sabe?”
Eu respondi “eu sei, todo mundo é meio estranho.
Agora você é estranho também”.
E voltei para casa.
E disse à senhoria que arrumei um emprego
E que iria pagar meu aluguel.
Ela disse “Mesmo?”
E eu disse “Mesmo”.
E ela foi super agradável.
Porque ela sempre foi agradável.
Subi até meu quarto, guardei minhas coisas e saí.
Saí escondido pela porta dos fundos.
E fui para as ruas.
Ela estava reclamando sobre os aluguéis adiantados
Ela teria sorte se recebesse os atrasados.
Ela não vai receber nenhum!
Então parei no bar ali perto, sabe?
Fui ao balcão, pendurei meu casaco
Chamei o barman
E disse “Venha até aqui!”
Ele foi até mim e perguntou “o que você quer?”
Um bourbon, um scotch e uma cerveja.
Eu não vejo minha garota desde sabe-se lá desde quando
Então estou bebendo bourbon, uísque, scotch e gim
Quero ficar louco, quero me perder
preciso de uma dose tripla desse negócio aí
Quero ficar de fogo, não precisa se assustar.
Eu quero um bourbon, um scotch, uma cerveja.
Um bourbon, um scotch e uma cerveja.
Então estou sentado no bar
Ficando bêbado, me sentindo mole.
bebendo bourbon, bebendo scotch, bebendo cerveja
Olhei para o bar, lá estava o barman.
E disse “Venha até aqui”
Ele foi até mim e perguntou “o que você quer?”
Um bourbon, um scotch e uma cerveja.
Não vejo minha garota desde a noite de anteontem
Preciso de um drink, preciso ficar ligado.
Preciso ficar alto, e ainda não é suficiente.
Preciso de uma dose tripla desse negócio ai
Vou ficar de fogo, então preste atenção.
Eu quero um bourbon, um scotch, uma cerveja
Um bourbon, um scotch e uma cerveja.
A esta altura eu já estava ficando de fogo.
Você sabe disso quando sua boca começa a ficar seca.
Olhei para o bar, lá estava o barman.
E disse “Venha até aqui”
Ele foi até mim e perguntou “o que você quer agora?”
Eu perguntei “cara, que horas são?”
Ele respondeu que o relógio da parede dizia que eram três horas.
“É a última dose de bebida por hoje. O que você precisa?”
Um bourbon, um scotch e uma cerveja.
Eu não vejo minha garota há uma semana e uma noite
Quero ficar de fogo até nem conseguir mais falar.
Quero ficar alto, então preste atenção
Uma dose não vai ser suficiente, melhor me dar logo três.
Eu quero um bourbon, um scotch, uma cerveja.
Um bourbon, um scotch e uma cerveja.
Post dedicado a George Thorogood, que, ao reunir duas das melhores canções de John lee Hooker em uma única canção, conseguiu resumir absolutamente tudo o que está acontecendo na minha vida.
2 de abril de 2011
Até o Fim
Apaguei a luz e, como de costume, não fui até a porta. Pelo contrário, voltei até a mesa e esperei meu computador desligar. Sempre fazia isso, com receio de ele inventar uma daquelas atualizações do Windows. E, parado ali, em pé, olhei ao meu redor.
Com exceção da minha mesa, todas as outras estavam vazias, desmontadas e fora de lugar. Ao meu lado, uma estante que antes ia do chão ao teto havia se transformado em um punhado de tábuas soltas, empilhadas num canto. E caixas e mais caixas de papelão se espalhavam pelo local. Algumas isoladas, outras empilhadas.
Mas, mesmo com a enorme bagunça, eu ainda reconhecia aquele ambiente inteiro como meu. Ou, ao menos, como “parte da minha vida”. Foram mais de oito anos ali dentro. Tempo suficiente para eu, conseguir andar por ali com as luzes apagadas antes de ir embora, como fiz muitas outras noites, sem esbarrar em absolutamente nada. Sabia a posição de cada mesa, o lugar de cada cabo no chão. Conhecia cada mancha no carpete, cada papel da enorme pilha sobre a minha mesa.
E, claro, cada texto de cada uma das dezenas de revistas que, até a tarde daquele dia, se espalhavam pela sala. Bastava eu folhear qualquer uma delas e me lembrar de como cada matéria havia nascido. Todas elas haviam passado, por algum momento, pelo pequeno e valente computador da minha mesa. Muitas foram redigidas ali, outras apenas revisadas. Algumas foram fáceis, outras atrasaram; algumas ficaram horríveis, enquanto outras eram das melhores coisas que eu tinha lido na vida.
E agora o computador, tão cansado quanto eu, desligava, pela última vez.
Oito anos. Um pouco mais. A primeira vez que entrei ali era um moleque – a pessoa que você era dez anos antes de qualquer idade que você tenha sempre será um moleque – e saí um homem. Aprendi, cresci, conquistei. Foi fácil? Não, foi difícil. Mas me orgulho de nunca ter fugido. E me orgulho de ter feito o melhor que pude, seguindo regras e descobrindo quais regras estavam ali para ser quebradas.
Por que algumas delas estão ali justamente para isso.
No final do ano passado, por exemplo, meu antigo estagiário estava com problemas para conseguir o preço dos produtos de uma marca caríssima. Não importa agora o que nem qual marca. Ele ligava e a assessora respondia que não podia informar o preço. E ele insistindo, tentando convencê-la de todas as formas. E eu precisava do preço do produto para fechar a revista. Meu prazo de horas se tornou “minutos”. Até que eu pedi para ele parar de perder tempo no telefone e que descobrisse o telefone de uma das lojas da empresa.
Com o fone em mãos, liguei para a loja e fiquei cinco minutos batendo papo com a vendedora, antes de explicar qual tipo de produto eu estava procurando; expliquei que era presente para uns clientes estrangeiros que estavam no Brasil para fechar negócios comigo. Fui bem atendido, e ela me informou todos os preços. Antes de desligar, agradeci a ajuda e me comprometi a passar lá mais tarde, ou que mandaria minha secretária com a relação do que comprar. Desliguei o telefone e disse ao meu estagiário:
– O modelo X custa tanto, e o Y custa tanto, coloca na matéria. E mais uma coisa.
– Sim?
– Não comente com nenhum professor da sua faculdade que eu fiz isso.
A assessoria recebeu a revista semanas depois, e nunca reclamou que os preços entraram. Se bobear, ela nem viu a matéria direito.
Ou seja, existiam regras e regras. E não foi fácil aprender isso, apanhei muito para ter esse jogo de cintura.
Mas sempre estive preparado para assumir a responsabilidade em qualquer problema causado por uma regra quebrada. Eu jamais permitiria que meu estagiário ou qualquer outra pessoa do meu departamento fizesse isso sem meu consentimento. Se desse merda e a assessoria ligasse soltando os cachorros, a decisão teria sido minha.
A responsabilidade era minha, porque, com grandes poderes existem grandes responsabilidades. E, ao longo de cinco destes oito anos, eu tive o poder de tomar decisões, mas com isso recebi também a responsabilidade de assumir todas elas em seu nome. Nos últimos cinco anos, me tornei chefe de redação, o que era uma espécie de “filho do meio”. Eu continuava empregado e subordinado diretamente ao meu chefe, mas comandava um departamento inteiro.
E se você acha o seu chefe filho da puta – e talvez ele seja, porque é uma atribuição inerente ao cargo – saiba que ser chefe é algo solitário demais. Como chefe, você ouve todos, mas a decisão final é sua. E você não pode errar. E muitas vezes a decisão precisa ser tomada em segundos, sem poder pensar. Então, decore isso: a maior prova de confiança que você pode receber do seu chefe é quando ele pede especificamente sua opinião sobre um assunto. Foi como chefe que aprendi que o segredo não é saber bater, é saber cair – e isso não vale para trabalho, vale para a vida inteira. Parece frase de biscoitinho da sorte, mas é verdade.
Mas acho que o meu maior poder era o foco. Nunca perdi de vista que a minha grande responsabilidade era colocar a revista na gráfica no dia X. Esta era a minha meta profissional todos os meses. Quando algum amigo meu perguntava exatamente o que eu fazia, eu sempre respondia que “faço a revista ficar pronta no prazo.” Quase sempre consegui. Nunca consegui isso sozinho, mas quase sempre consegui.
Nestes oito anos e mais de cem revistas, talvez um punhado delas tenha entrado em gráfica um dia depois do “dia X”, porque nem sempre as coisas saem como esperado. Mas eu sabia quais delas suportariam um dia de atraso sem grandes cicatrizes. Esta é outra coisa que aprendi nestes anos: não perca tempo acreditando que você irá acertar sempre, é mais útil saber onde a merda irá causar menos estrago e direcioná-la para lá.
Também fiz amigos e inimigos (felizmente, muito mais amigos que inimigos). Se você é assessor de imprensa e recebeu, em algum momento, um e-mail meu pedindo material com um “Cadê minhas fotos, seu veado?”, saiba que você certamente entra no grupo de (grandes) amigos. E acho que era recíproco. Mais de uma vez, assessores de imprensa, funcionários de departamento de marketing, me ligaram pedindo conselhos ou buscando alguém com quem desabafar. Mas briguei com algumas pessoas, de colaboradores a assessores de imprensa. Faz parte.
Mas, se não quase nunca errei com essas pessoas, errei com as revistas. Mais de uma vez. Normalmente, eu estava em casa no final de semana, com a revista na gráfica, e me lembrava de algo que havia esquecido, ou que iria sair errado. Em algumas das vezes, dormi mal e preocupado, me odiando e com medo das conseqüências.
E foi aí que eu aprendi que a melhor saída era, no dia seguinte, entrar na sala do meu chefe e dizer que “fiz uma cagada enorme, vai sair uma coisa errada na revista, me desculpe”. Com o tempo, percebi que eu dava mais valor aos meus erros do que eles realmente tinham. Que, as vezes, a “cagada enorme” era apenas “cagada”. Mas isso eu nunca mudei. Sempre tive medo de errar. Ou melhor, sempre tive vontade de acertar. Isso não vai mudar nunca.
E se consegui isso com a ajuda de muita gente, consegui também porque aprendi – por pura necessidade – a fazer três ou quatro coisas ao mesmo tempo, e desenvolvi a habilidade de trabalhar horas e horas a fio madrugada adentro (às vezes acompanhado, muitas vezes sozinho). Não há outra maneira se você precisa fazer duas ou três revistas ao mesmo tempo e ainda quer ter uma vida.
Amigos meus me chamavam de herói, e muitos me perguntavam “como você consegue trabalhar tanto?”. Eu dava sempre a mesma resposta:
– O segredo é não pensar a respeito.
Porque no momento que você percebe que está trabalhando há doze, quinze horas seguidas, você se cansa e não consegue mais fazer nada. O segredo era ir fazendo. Não era difícil as pessoas me verem online ou no Twitter de madrugada, sabendo que eu estava na redação. Não era difícil as pessoas me ligarem durante o dia e eu responder apenas que “não posso falar agora, desculpe”. Se você é uma dessas pessoas, desculpe mais uma vez. Eu realmente não podia falar.
E eu sempre fui assim, desde antes de ser chefe. Não era questão de dar exemplo, pelo contrário. Da mesma forma que eu me orgulho de (antes de ser chefe) ter passado 36 horas direto dentro da redação, e com febre, saindo apenas de manhã para entrevistar um travesti francês (sim, um travesti francês) que estava no Brasil lançando um filme, me orgulho também de nunca um funcionário meu ter precisado passar a noite na empresa depois que virei chefe. Com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades. Lá dentro, as minhas eram com as revistas, mas com eles também.
Mas o tempo passa. E, como eu sempre falo, o problema não é a idade, mas sim a quilometragem. E a minha começou a ficar alta. Se, por um lado isso me deu a experiência de aprender alguns atalhos que facilitavam meu mês, por outro – somado a preocupações e problemas que ficavam fora da pilha de papéis da mesa – começaram a cobrar seu preço. Isso, claro, sem contar com o cansaço acumulado de praticamente oito anos sem férias (somente os eventuais quinze dias no final do ano).
Os mais próximos de mim sabem que foi difícil. Eu não deixava transparecer nada lá dentro da empresa, mas, não era difícil eu subir a Teodoro Sampaio as 2 e pouco da manhã com nó na garganta. Nó na garganta de cansaço. Entrava em casa, sentava no sofá e chorava cinco, dez minutos. Chorava de cansaço, de exaustão, de não ver mais propósito em nada. Isso foi muito freqüente durante o último ano. Nunca culpei ninguém.
Muita gente fala que eu sou talentoso e que sou um ótimo profissional. Talvez esse seja o preço a ser pago.
Mas, agora, acabou. Sem briga, sem estresse. Acabou porque algumas coisas na vida apenas acabam. A empresa precisou passar por uma reestruturação. Acontece. Esta sexta-feira foi meu último dia. E, como de costume, fui o último a sair de lá – eu jamais deixaria minha mesa com uma revista não finalizada – por volta das 11 e meia da noite, sem conseguir manter os olhos abertos por causa de uma enxaqueca.
E, quando meu PC finalmente desligou, eu percebi que jamais o ligaria novamente. Que oito anos da minha vida foram debruçados sobre aquele teclado – foi ali que criei o blog, uma quinta feira antes do almoço; foi ali que escrevi boa parte do meu livro, entre uma matéria e outra. Quando o PC desligou e a redação ficou totalmente escura, oito anos da minha vida se encerraram.
E eu não tinha ideia do que ia fazer da vida. Ainda não tenho. Tudo é muito recente. Sei que vou sentir falta. Vou sentir falta demais da correria, da adrenalina. A revista era quase uma filha minha – eu era pai (mais de uma vez) todos os meses. A grana está curta? Bastante. Mas novas estradas devem surgir. Novos caminhos sempre surgem.
Fiquei ali, em pé, no escuro, por quase dois minutos. Imóvel. Até que hora de dar adeus. Gentilmente, passei o dedo pelo meu teclado e disse baixinho:
– Obrigado. Por tudo.
Tranquei a porta pela última vez. Saí do prédio e fui jantar.
Com exceção da minha mesa, todas as outras estavam vazias, desmontadas e fora de lugar. Ao meu lado, uma estante que antes ia do chão ao teto havia se transformado em um punhado de tábuas soltas, empilhadas num canto. E caixas e mais caixas de papelão se espalhavam pelo local. Algumas isoladas, outras empilhadas.
Mas, mesmo com a enorme bagunça, eu ainda reconhecia aquele ambiente inteiro como meu. Ou, ao menos, como “parte da minha vida”. Foram mais de oito anos ali dentro. Tempo suficiente para eu, conseguir andar por ali com as luzes apagadas antes de ir embora, como fiz muitas outras noites, sem esbarrar em absolutamente nada. Sabia a posição de cada mesa, o lugar de cada cabo no chão. Conhecia cada mancha no carpete, cada papel da enorme pilha sobre a minha mesa.
E, claro, cada texto de cada uma das dezenas de revistas que, até a tarde daquele dia, se espalhavam pela sala. Bastava eu folhear qualquer uma delas e me lembrar de como cada matéria havia nascido. Todas elas haviam passado, por algum momento, pelo pequeno e valente computador da minha mesa. Muitas foram redigidas ali, outras apenas revisadas. Algumas foram fáceis, outras atrasaram; algumas ficaram horríveis, enquanto outras eram das melhores coisas que eu tinha lido na vida.
E agora o computador, tão cansado quanto eu, desligava, pela última vez.
Oito anos. Um pouco mais. A primeira vez que entrei ali era um moleque – a pessoa que você era dez anos antes de qualquer idade que você tenha sempre será um moleque – e saí um homem. Aprendi, cresci, conquistei. Foi fácil? Não, foi difícil. Mas me orgulho de nunca ter fugido. E me orgulho de ter feito o melhor que pude, seguindo regras e descobrindo quais regras estavam ali para ser quebradas.
Por que algumas delas estão ali justamente para isso.
No final do ano passado, por exemplo, meu antigo estagiário estava com problemas para conseguir o preço dos produtos de uma marca caríssima. Não importa agora o que nem qual marca. Ele ligava e a assessora respondia que não podia informar o preço. E ele insistindo, tentando convencê-la de todas as formas. E eu precisava do preço do produto para fechar a revista. Meu prazo de horas se tornou “minutos”. Até que eu pedi para ele parar de perder tempo no telefone e que descobrisse o telefone de uma das lojas da empresa.
Com o fone em mãos, liguei para a loja e fiquei cinco minutos batendo papo com a vendedora, antes de explicar qual tipo de produto eu estava procurando; expliquei que era presente para uns clientes estrangeiros que estavam no Brasil para fechar negócios comigo. Fui bem atendido, e ela me informou todos os preços. Antes de desligar, agradeci a ajuda e me comprometi a passar lá mais tarde, ou que mandaria minha secretária com a relação do que comprar. Desliguei o telefone e disse ao meu estagiário:
– O modelo X custa tanto, e o Y custa tanto, coloca na matéria. E mais uma coisa.
– Sim?
– Não comente com nenhum professor da sua faculdade que eu fiz isso.
A assessoria recebeu a revista semanas depois, e nunca reclamou que os preços entraram. Se bobear, ela nem viu a matéria direito.
Ou seja, existiam regras e regras. E não foi fácil aprender isso, apanhei muito para ter esse jogo de cintura.
Mas sempre estive preparado para assumir a responsabilidade em qualquer problema causado por uma regra quebrada. Eu jamais permitiria que meu estagiário ou qualquer outra pessoa do meu departamento fizesse isso sem meu consentimento. Se desse merda e a assessoria ligasse soltando os cachorros, a decisão teria sido minha.
A responsabilidade era minha, porque, com grandes poderes existem grandes responsabilidades. E, ao longo de cinco destes oito anos, eu tive o poder de tomar decisões, mas com isso recebi também a responsabilidade de assumir todas elas em seu nome. Nos últimos cinco anos, me tornei chefe de redação, o que era uma espécie de “filho do meio”. Eu continuava empregado e subordinado diretamente ao meu chefe, mas comandava um departamento inteiro.
E se você acha o seu chefe filho da puta – e talvez ele seja, porque é uma atribuição inerente ao cargo – saiba que ser chefe é algo solitário demais. Como chefe, você ouve todos, mas a decisão final é sua. E você não pode errar. E muitas vezes a decisão precisa ser tomada em segundos, sem poder pensar. Então, decore isso: a maior prova de confiança que você pode receber do seu chefe é quando ele pede especificamente sua opinião sobre um assunto. Foi como chefe que aprendi que o segredo não é saber bater, é saber cair – e isso não vale para trabalho, vale para a vida inteira. Parece frase de biscoitinho da sorte, mas é verdade.
Mas acho que o meu maior poder era o foco. Nunca perdi de vista que a minha grande responsabilidade era colocar a revista na gráfica no dia X. Esta era a minha meta profissional todos os meses. Quando algum amigo meu perguntava exatamente o que eu fazia, eu sempre respondia que “faço a revista ficar pronta no prazo.” Quase sempre consegui. Nunca consegui isso sozinho, mas quase sempre consegui.
Nestes oito anos e mais de cem revistas, talvez um punhado delas tenha entrado em gráfica um dia depois do “dia X”, porque nem sempre as coisas saem como esperado. Mas eu sabia quais delas suportariam um dia de atraso sem grandes cicatrizes. Esta é outra coisa que aprendi nestes anos: não perca tempo acreditando que você irá acertar sempre, é mais útil saber onde a merda irá causar menos estrago e direcioná-la para lá.
Também fiz amigos e inimigos (felizmente, muito mais amigos que inimigos). Se você é assessor de imprensa e recebeu, em algum momento, um e-mail meu pedindo material com um “Cadê minhas fotos, seu veado?”, saiba que você certamente entra no grupo de (grandes) amigos. E acho que era recíproco. Mais de uma vez, assessores de imprensa, funcionários de departamento de marketing, me ligaram pedindo conselhos ou buscando alguém com quem desabafar. Mas briguei com algumas pessoas, de colaboradores a assessores de imprensa. Faz parte.
Mas, se não quase nunca errei com essas pessoas, errei com as revistas. Mais de uma vez. Normalmente, eu estava em casa no final de semana, com a revista na gráfica, e me lembrava de algo que havia esquecido, ou que iria sair errado. Em algumas das vezes, dormi mal e preocupado, me odiando e com medo das conseqüências.
E foi aí que eu aprendi que a melhor saída era, no dia seguinte, entrar na sala do meu chefe e dizer que “fiz uma cagada enorme, vai sair uma coisa errada na revista, me desculpe”. Com o tempo, percebi que eu dava mais valor aos meus erros do que eles realmente tinham. Que, as vezes, a “cagada enorme” era apenas “cagada”. Mas isso eu nunca mudei. Sempre tive medo de errar. Ou melhor, sempre tive vontade de acertar. Isso não vai mudar nunca.
E se consegui isso com a ajuda de muita gente, consegui também porque aprendi – por pura necessidade – a fazer três ou quatro coisas ao mesmo tempo, e desenvolvi a habilidade de trabalhar horas e horas a fio madrugada adentro (às vezes acompanhado, muitas vezes sozinho). Não há outra maneira se você precisa fazer duas ou três revistas ao mesmo tempo e ainda quer ter uma vida.
Amigos meus me chamavam de herói, e muitos me perguntavam “como você consegue trabalhar tanto?”. Eu dava sempre a mesma resposta:
– O segredo é não pensar a respeito.
Porque no momento que você percebe que está trabalhando há doze, quinze horas seguidas, você se cansa e não consegue mais fazer nada. O segredo era ir fazendo. Não era difícil as pessoas me verem online ou no Twitter de madrugada, sabendo que eu estava na redação. Não era difícil as pessoas me ligarem durante o dia e eu responder apenas que “não posso falar agora, desculpe”. Se você é uma dessas pessoas, desculpe mais uma vez. Eu realmente não podia falar.
E eu sempre fui assim, desde antes de ser chefe. Não era questão de dar exemplo, pelo contrário. Da mesma forma que eu me orgulho de (antes de ser chefe) ter passado 36 horas direto dentro da redação, e com febre, saindo apenas de manhã para entrevistar um travesti francês (sim, um travesti francês) que estava no Brasil lançando um filme, me orgulho também de nunca um funcionário meu ter precisado passar a noite na empresa depois que virei chefe. Com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades. Lá dentro, as minhas eram com as revistas, mas com eles também.
Mas o tempo passa. E, como eu sempre falo, o problema não é a idade, mas sim a quilometragem. E a minha começou a ficar alta. Se, por um lado isso me deu a experiência de aprender alguns atalhos que facilitavam meu mês, por outro – somado a preocupações e problemas que ficavam fora da pilha de papéis da mesa – começaram a cobrar seu preço. Isso, claro, sem contar com o cansaço acumulado de praticamente oito anos sem férias (somente os eventuais quinze dias no final do ano).
Os mais próximos de mim sabem que foi difícil. Eu não deixava transparecer nada lá dentro da empresa, mas, não era difícil eu subir a Teodoro Sampaio as 2 e pouco da manhã com nó na garganta. Nó na garganta de cansaço. Entrava em casa, sentava no sofá e chorava cinco, dez minutos. Chorava de cansaço, de exaustão, de não ver mais propósito em nada. Isso foi muito freqüente durante o último ano. Nunca culpei ninguém.
Muita gente fala que eu sou talentoso e que sou um ótimo profissional. Talvez esse seja o preço a ser pago.
Mas, agora, acabou. Sem briga, sem estresse. Acabou porque algumas coisas na vida apenas acabam. A empresa precisou passar por uma reestruturação. Acontece. Esta sexta-feira foi meu último dia. E, como de costume, fui o último a sair de lá – eu jamais deixaria minha mesa com uma revista não finalizada – por volta das 11 e meia da noite, sem conseguir manter os olhos abertos por causa de uma enxaqueca.
E, quando meu PC finalmente desligou, eu percebi que jamais o ligaria novamente. Que oito anos da minha vida foram debruçados sobre aquele teclado – foi ali que criei o blog, uma quinta feira antes do almoço; foi ali que escrevi boa parte do meu livro, entre uma matéria e outra. Quando o PC desligou e a redação ficou totalmente escura, oito anos da minha vida se encerraram.
E eu não tinha ideia do que ia fazer da vida. Ainda não tenho. Tudo é muito recente. Sei que vou sentir falta. Vou sentir falta demais da correria, da adrenalina. A revista era quase uma filha minha – eu era pai (mais de uma vez) todos os meses. A grana está curta? Bastante. Mas novas estradas devem surgir. Novos caminhos sempre surgem.
Fiquei ali, em pé, no escuro, por quase dois minutos. Imóvel. Até que hora de dar adeus. Gentilmente, passei o dedo pelo meu teclado e disse baixinho:
– Obrigado. Por tudo.
Tranquei a porta pela última vez. Saí do prédio e fui jantar.
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