Por ocasião da publicação do post O Filho do Demônio, meu irmão tornou-se um assunto bastante comentado (e temido) entre os leitores. Por isso, ele exigiu que eu abrisse espaço para a publicação de um direito de resposta, deixando claro que se eu cortasse algum trecho do texto, ele me cortaria deste plano de existência.
Desta forma, democraticamente (e com medo de levar uma surra), dou um exemplo de cidadania e abro espaço no Champ para que ele possa se defender da forma que achar melhor.
Afinal, quem tem, tem medo, já diz o ditado. Aliás, aconselho vocês a terem muito cuidado quando lerem o texto abaixo. Não façam movimentos bruscos e tomem cuidado para não rirem nas horas erradas. Se ele descobrir isso, levará para o lado pessoal. E ai de vocês se isso acontecer.
Posto isso, sem mais delongas... Senhoras e senhores: meu irmão.
"Vocês devem ter lido as várias (e falsas) descrições que o Rob fez do irmão dele aqui no blog, no post O Filho do Demônio.
Pois bem: o irmão dele sou eu.
Assim, fiz uso da democracia e, usando um argumento de peso (“você vai morrer se não publicar isso”), fiz questão de obter um direito de resposta.
Vamos à verdade.
O Rob é realmente um demônio, uma criatura das trevas que foi criada com o único propósito de me irritar. Às vezes, imagino que quando não está me irritando, ele dorme em uma tumba ou simplesmente desaparece.
Vocês podem estar pensando que é exagero, que o Rob é uma boa pessoa ou algo assim. Errado. Vou apresentar a prova definitiva:
Vejam a foto abaixo: eu e meu pai, felizes com a chegada do Rob (minha mãe, orgulhosa, estava tirando a foto). Atentem à expressão do Rob (no destaque), como ele me encara com olhar de ódio.
Quem pode imaginar o que se passava pela mente perturbada desse serial killer?
Senhores, não confiem no Rob, ou nas inverdades que ele publicou ao meu respeito aqui no blog. Sou apenas um inocente tentando sobreviver.
Se isso ainda não os convenceu, por favor, psicólogos de plantão, analisem o fato a seguir:
Quando éramos crianças, meus pais tinham uma propriedade no interior. Uma bonita casa com um terreno de 1000 m2 (ah, vale dizer que, obviamente, o Rob não sabe o que é m2). Qual era a diversão do Rob? Ele descobriu uma espécie de formigas gigantes e extremamente ferozes no quintal da casa.
Assim, ele passava seu tempo colocando outras pobres formigas de tamanho comum em uma arena (na verdade, era uma garrafa de Coca-Cola) junto com alguns exemplares dessas formigas selvagens, e ria enquanto as menores eram, literalmente, destroçadas.
E eu ficava apenas assistindo tudo no canto da sala com medo, vendo os olhos dele brilhando a cada vida que era arrancada. Conseguia pensar apenas que, com o tempo, ele iria crescer e, um dia, seria eu a ser jogado em um fosso repleto de criaturas demoníacas, enquanto ele aplaudiria, feliz.
Outros casos: chegava em casa de madrugada, totalmente embriagado e ia me acordar apenas para contar que estava bêbado; esperava eu começar a estudar para ligar os discos de heavy metal no máximo; quando éramos crianças e brigávamos (sempre por culpa dele), ele se vingava dando nós no meu pijama ou jogando açúcar na minha cama. Isso sem falar que, ainda criança, ele demorava quase uma hora no banho, pois ficava ensaboando o chão do banheiro, na tentativa de fazer com que eu caísse quando entrasse no chuveiro.
Ou seja, eu poderia escrever um blog inteiro sobre as desventuras do Rob, mas não é necessário. Sempre foi assim. Creio que, com isso, vocês já podem imaginar o que eu passei. E ainda passo.
Fui chamado de demônio neste blog. Concordo. Sou um demônio. Mas apenas porque minha vida foi um verdadeiro inferno desde que o Rob nasceu."
Shows de rock – ou, ao menos, os bons – começam na fila. Existe uma regra não oficial que aponta que, quanto mais pessoas estranhas você na fila do show, melhor será o espetáculo. Partindo desse princípio, o show do AC/DC em São Paulo seria inesquecível, já que a fauna que habitava a fila do Morumbi era bem diversa.
Claro que 90% das pessoas que estavam ali eram pessoas normais: roqueiros trajando camisetas pretas e calças jeans, que esperavam apenas ver seus ídolos. Mas, como todo bom show de rock, o público apresentava algumas pessoas totalmente abandonadas por Deus.
Sério, não entendo o que leva algumas pessoas se fantasiarem para ir a shows. Enquanto eu estava na fila, enxerguei uma dez pessoas que se vestiam como se morassem na Los Angeles dos anos 80: calças de couro, botas de cowboy, correntes penduradas em todas as partes do corpo e (obviamente), cabelos com laquê. Muito, muito laquê. Sem exagero, alguns davam a impressão de ter usado Vaporeto para empestear o cabelo com laquê.
Um grupinho, em especial, me chamou a atenção: eles andavam sempre juntos, como se fosse uma espécie de Poison dos pobres, pedindo moedas na fila para comprarem ingressos. Partindo do princípio que eles eram três, e que o ingresso na mão dos cambistas não deveria sair por menos de R$ 500,00, a tarefa deles era inglória – e isso sem falar no mico que pagavam.
Ou seja, a fila dava sinais de que o show seria inesquecível. Mas, cá entre nós, estamos falando de AC/DC. Ou seja, independente do que fosse possível avistar na fila, seria inesquecível de qualquer jeito. E qualquer dúvida disso se dissipou quando, por volta das 17:00, o céu começou a se fechar e um trovão ensurdecedor ecoou. A multidão, já no clima, não perdeu tempo e respondeu em uníssono:
– THUNDER!
Ou seja, até São Pedro estava ansioso pelo show.
Infelizmente, São Pedro exagerou na empolgação e, poucos minutos depois – logo que os portões se abriram – começou a chover torrencialmente em São Paulo. Eu, Sra. Gordon e todos que estávamos na fila colocamos, imediatamente, aquelas capas de chuva ridículas que são vendidas na porta do estádio. Quem visse de longe imaginaria que um exército de camisinhas marchava para dentro do estádio. Assim como aconteceu no show do Iron Maiden, no Pacaembu, São Paulo havia se transformado numa espécie de Vietnã.
E, para completar, quando entramos no estádio o sistema de som estava tocando November Rain, já que sarcasmo pouco é bobagem.
Assim, passamos o resto da tarde nos adaptando ao clima. Começava a chover, colocávamos as capas; parava de chover, tirávamos as capas, porque a temperatura ambiente dentro delas é de mais ou menos 40 graus.
Enquanto isso, o Morumbi ia lotando. Ondas de pessoas entravam no estádio, tanto para a pista, como para as arquibancadas. Por volta das 20:00, já era quase impossível transitar pelo local.
Mesmo assim, muita gente (provavelmente por causa do trânsito) perdeu o show de abertura, com Nasi e Andreas Kisser. A apresentação foi legal, mas curta, com cerca de meia dúzia de músicas (a maioria covers) e sem direito a telões, que permaneceram desligados. Os dois são figuras extremamente respeitadas pela platéia, mas, cá entre nós: shows de abertura nunca empolgam a platéia. As luzes se apagam, todos se levantam, mas, na segunda ou terceira música, metade do estádio está sentada novamente.
Assim, no momento em que Nasi deixou o palco, a platéia começou a entoar:
– Olê, olê, olê! Ei ci! Di ci!
Tudo bem, como festa era válido. Mas ninguém percebia que “olé” e “di ci” não rimam? Porque não fazer como o resto do planeta, e fazer coros de “Angus! Angus!”? O resto da banda não iria se ofender, afinal, eles mesmo vendem o guitarrista como símbolo do grupo.
Porque, cá entre nós: a banda conseguiu transformar a “marca” Angus Young em algo tão forte quanto a marca “AC/DC”. Sua figura, com seu terno, shorts e boina, correndo pelo palco enquanto toca, é uma das imagens mais emblemáticas da história do rock. E a banda usa isso – muito bem – a seu favor. Angus Young é o cartão de visitas do grupo: ele é guitarrista, mas também é capa de disco, é decoração de palco.
Dessa forma, não é todo dia que você pode assistir a um show de um dos maiores grupos da história, e, ao mesmo tempo, um dos maiores ícones de todos os tempos. Não é à toa que o Morumbi começou a tremer (literalmente, quem estava na arquibancada sentiu) quando as luzes se apagaram e a animação que abre o show começou a ser exibida no telão.
Mas o que chamava a atenção de verdade era o mar de pequenas luzes vermelhas na platéia. Milhares de chifres vermelhos, que eram vendidos na porta do estádio, piscavam na pista e nas arquibancadas.
O Morumbi havia se transformado numa espécie de inferno. E, curiosamente, os milhares de demônios presentes estavam ali para assistir nada menos que cinco deuses.
Sim, o termo é esse: deuses. Esqueça bandas de rock com integrantes lindos e que fazem música para vender. A palavra de ordem no AC/DC é autenticidade. O grupo executa o mesmo tipo de som corajosamente há décadas, sem jamais se vender. Talvez seja a única banda de hard rock que não possui sequer uma balada, já que os temas de suas canções são, normalmente, sexo fácil, dinheiro fácil e bebida fácil. Se o rock pode ser resumido à curtição, AC/DC é o maior exemplo.
E, quanto à aparência... Bem, enquanto as bandas da geração MTV se preocupam em ser cada vez mais fotogênicos, os australianos dão tanto valor à sua imagem quanto um mendigo. Fora que são todos maravilhosamente feios: Brian Johnson, com sua boina, está cada vez mais parecido com Stenio Garcia em Carga Pesada; já Angus Young não tem problema nenhum em exibir a careca, e, conforme seu cabelo começa a ficar molhado de suor ele fica a cara do Gollum, de O Senhor dos Anéis.
E isso não é ofensa: ele não está ali para ser bonito ou causar suspiros nas meninas. Ele está ali para tocar.
E isso, ele faz como ninguém.
Quando a banda entrou no palco, o Morumbi explodiu. Mesmo. Abrindo com Rock N’ Roll Train (do excelente disco novo) e emendando com Hell Ain’t a Bad Place to Be, Brian Johnson, Malcolm Young, Cliff Williams e Phil Rudd – desnecessário citar Angus Young nessa frase – levaram à platéia à loucura.
E foi logo no começo do show que Johnson cometeu uma das gafes mais deliciosas que eu vi num show. “Nós não falamos bem ‘brasileiro’, mas falamos rock’n’roll”. Não deu nem tempo de rir. Quando o famoso riff inicial de Back in Black começou a tocar, ninguém mais falava brasileiro ou português ali. Aliás, ninguém falava no estádio.
As pessoas apenas urravam.
Porque, cá entre nós, não há outra forma de reagir quando você percebe que está vendo o AC/DC tocar Back in Black na sua frente.
E algum mais desavisado que acha que AC/DC se resume somente a Back in Black se enganou totalmente, porque, a partir daí, o show apenas melhorou. Alternando sempre músicas novas como Big Jack e clássicos do nível de Dirty Deeds Done Dirt Cheap, os australianos deram uma aula de como se faz um show de rock.
Tudo, absolutamente tudo, é calculado para levar à platéia à loucura, desde a movimentação dos músicos – que incluía corridas de Angus e Johnson pela passarela que cortava a pista, que demonstra um preparo físico invejável – aos gritos do vocalista, conclamando a platéia a cantar junto com eles.
Aliás, os momentos chaves do show também são escolhidos a dedo. As músicas que farão o estádio tremer, como Thunderstruck, Hell Bells (que inclui um pique de Brian Johnson, antes de se pendurar no famoso sino, que deixaria muito jogador de futebol com inveja) e You Shook Me All Night Long são colocadas dentro do set list em posições friamente calculadas para não ficarem muito próximas umas das outras, mantendo a qualidade do show constantemente no alto.
E, entre um ou outro grande sucesso, dá-lhe clássicos, como Shoot to Thrill e The Jack, com direito ao tradicional strip-tease de Angus, que deixa claro que aquelas cinco pessoas em cima do palco estão se divertindo tanto quanto (ou mais) que a platéia. Aliás, essa é a magia do AC/DC. A banda não é burocrata, toca com (e por) tesão. Muito tesão.
E a primeira parte do show termina com um solo de Angus, em meio a (também clássica) Let There Be Rock, que deixou claro ao público que aquela não era uma noite comum, e o show do AC/DC não é um show comum. Esqueça a pirotecnia (chuva de papéis picados, plataformas que se elevam do palco). O que importa é Angus Young.
Sou veterano de shows e já vi vocalistas comandarem estádios inteiros com apenas um grito. Angus vai além: ele comanda a platéia sem abrir a boca. Ou melhor, ele conversa com a multidão por meio de sua guitarra. Ele faz a platéia gritar o que (e o quanto) ele quiser escolhendo acordes e gestos para isso. E a platéia responde, sem ter dúvidas do que o ídolo quer. E ele corresponde, tocando correndo, tocando deitado, tocando com uma mão, sempre exibindo caretas que deixam claro que ele não está nem aí com as fotos que sairão nos jornais, no dia seguinte. Angus Young é praticamente um solo de guitarra que ganhou vida.
Pausa para respirar, e o bis abre com Highway to Hell (que, assim como Back in Black, dispensa quaisquer apresentações) e se encerra com For Those About to Rock, com direito aos clássicos canhões disparando salvas de tiros em homenagem às milhares de pessoas presentes. E, assim, sem mais nem menos, a banda deixa o palco, sem se preocupar em fazer demagogias com bandeiras brasileiras, ou fazer apologia do Brasil, dizendo o quanto o país é bonito e o quanto o público é especial.
Porque, sejamos sinceros: dizer que o público é especial, que a cidade é maravilhosa e que as pessoas ali são lindas é frescura. Mas o rock não tem lugar para frescuras, e o AC/DC parece ser uma das poucas bandas a se lembrar disso. Ao final do show, a sensação que fica é a de que você vai sair do estádio e encontrar os sujeitos tomando cerveja no bar da esquina.
Realmente, it’s a long way to the top if you wanna rock n’ roll. E o AC/DC está no topo, há muito tempo. E, o que é melhor, sem precisar deixar de fazer rock (puro, simples e delicioso) para isso. Esteja onde estiver, o falecido Bon Scott está orgulhoso dos rumos que sua banda tomou.
E o público que esteve ontem Morumbi está até agora tentando compreender o que foi exatamente aquilo que assistiram ontem. Porque foi mais que um show. Foi muito mais que um show.
Assim, finalizo com o meu Top 5 Shows Inesquecíveis (atualizado):
1. Iron Maiden – 2008, Parque Antárctica. O show do AC/DC foi absurdo, mas, nesse caso, o lado sentimental pesa mais. Afinal, estamos falando de Rime of the Ancient Mariner, Powerslave e Aces High.
2. AC/DC – 2009, Morumbi. Graças a tudo que você leu aqui.
3. Metallica – 1994, Parque Antárctica. Uma banda no auge, antes de se render à mídia. Talvez eu não vá em janeiro, para não estragar a lembrança deste show.
4. Judas Priest – 2005, Arena Skol – O termo Metal Gods não foi criado por acaso, acredite em mim.
5. Ozzy Osbourne – 2008, Parque Antárctica – A sensação de ver Ozzy cantando War Pigs é a mesma de ver AC/DC tocando Back in Black. É um pedaço da história acontecendo na sua frente.
Pela primeira vez nesta década – e isso não é exagero – estou de férias. Sim, descontando férias coletivas de final de ano, eu não tirava férias desde o ano 2000. Tudo bem, admito que quando troquei de emprego, anos atrás, fiquei uma três semanas parado. Mas sejamos sinceros, isso não são férias, ao menos no sentido exato da palavra.
Enquanto isso, um mundo distante passa por alterações geológicas.
Daí meu sumiço do mundo virtual nesta semana. Larguei mão de blog, de Twitter, mal olhava o meu e-mail. Isso porque eu andava pela sala e, assim que colocava os olhos no computador, sentia náuseas.
Pedaços de terra que formavam um único continente começam a se transformar, encolhendo em alguns pontos.
Sério, não conseguia chegar perto dessa máquina. O mais próximo de trabalho que eu chegava era assistir a DVDs – especialmente as segundas temporadas de Californication e Dexter. Mas o computador, não dava. Admito que na segunda-feira tentei escrever no blog, mas assim que abri o Word, comecei a sentir tontura. Acho que tive até um pouco de febre.
Após eras ocupando o mesmo espaço, enormes trechos do solo começaram a recuar, devido às ações do ambiente, especialmente do vento e dos mares.
Ok, cheguei perto do computador sim, mas somente para jogar. Além do Farmville, estou tirando o atraso dos meus saudosos jogos de estratégia (Civilization, alguém?), que é algo que fazia tempo que eu não curtia direito. Então, esta semana, finalmente o computador se tornou lazer para mim.
Assim, o mundo sofreu transformações radicais. Alguns espaços, antes ocupados por campos verdejantes, florestas, ou até mesmo por desertos, desapareceram totalmente.
Mas o que marcou minhas férias foram os livros. Finalmente coloquei a leitura em dia. Primeiro, terminei Watch You Bleed, a biografia do Guns N’ Roses, que é simplesmente sensacional, narrando como a banda foi do nada para o estrelato e voltou para o nada num período menor que cinco anos.
Alguns estreitos, baías e istmos sumiram; outros, por sua vez, surgiram do nada. Aos poucos, os mares iam avançando sobre as diversas formações geológicas, modificando totalmente a paisagem vigente.
E, assim que terminei o livro, fui para o quarto e escolhi o próximo a ser devorado. Não sei se cheguei a comentar aqui no blog, mas este ano eu descobri a magia dos pocket books. Agora, eu compro apenas pockets em inglês, porque tem muita coisa que eu sempre quis ler e que nunca foi publicada aqui (como alguns livros de Star Wars). E o preço dos pockets é ridiculamente bom: em qualquer Cultura ou Fnac, custam por volta de R$ 20,00.
No meio de alguns destes continentes, extensos lagos surgiram. Rios apareceram, recortando ainda mais a nova geografia.
Enfim, acabei me decidindo por Storm Front, algo que eu não conhecia e descobri fuçando na Cultura. Trata-se do primeiro livro de um personagem chamado Harry Dresden, um mago que trabalha como detetive particular em Chicago. E, apesar de mexer com magia, está muito mais para Sam Spade e Phillipe Marlowe que para Harry Potter. Até agora, não achei sensacional, mas dá para ler gostoso.
Anos – ou décadas – depois, as mudanças diminuíram de intensidade. E, com o tempo, finalmente cessaram. Mas só depois daquele mundo distante ter todo o seu formato alterado.
Aliás, para mim, essa sempre foi a grande graça das férias. O número de opções que você tem. Você acorda numa manhã e percebe que, como não tem nada para fazer, você pode fazer o que você quiser. Se você escolher ir para a rua, pode. Ler durante a tarde no sofá? Pode também. Ligar o ventilador e ficar jogando PC? Também pode. Ou seja, você monta seus horários. Liberdade total. E isso não tem preço.
Graças às forças da natureza, o planeta não tinha mais um enorme e compacto continente. Agora, ele era ocupado por diversos continentes, separados por mares e oceanos.
Quer dizer, liberdade quase total. Já há alguns dias, uma dor no lado esquerdo estava me incomodando. Ela ia e voltava, ia e voltava. E, na segunda-feira, ela decidiu mostrar quem mandava aqui. Acordei gemendo de dor.
E, seja para o bem ou para o mal, o mundo nunca mais voltaria ao formato que tinha antes.
Era meu dente. Ou melhor, era minha boca. Estes parágrafos em itálico não são o início de um romance de ficção científica, mas sim algo que vem acontecendo na minha boca já há alguns anos.
O “mundo distante” na verdade, não é tão distante assim. É a minha gengiva. Isso porque eu herdei quatro coisas do meu pai: duas boas (talento para falar besteira e bater falta de trivela) e duas ruins (calvície e gengiva fraca). Ou seja, minha gengiva é oficialmente uma coisas mais frágeis criadas pela natureza.
Assim, hoje tive que ir correndo ao dentista, porque – graças à minha Ultimate Periodontite Aguda Extrema Crônica Hiper Power – um dos meus dentes estava ameaçando abandonar o corpo, como um daqueles refugiados cubanos que migram para Miami em jangadas. Aliás, descobri que alguns dos dentes se chamam molares porque, ao menos no meu caso, eles ficam moles da noite para o dia.
Não cheguei ao cúmulo de precisa extrair o dente, no meio das minhas férias.
Ao menos, não ainda.
Minha dentista resolveu brincar de E. R. e fez uma massagem cardíaca no dente. Aparentemente, ele ressuscitou. Ainda está na UTI, em observação (o estado é grave), mas está vivo. A chance de morrer ainda é grande.
Minhas férias? Continuam até o final da semana. E, com isso, eu permaneço com a mesma liberdade de antes: posso ler o que quiser, jogar o que quiser, dormir a hora que quiser... Mas, claro que agora eu tenho que tomar antibiótico a cada oito horas, e fazer gargarejo com um negócio que parece Super Bonder a cada 16 segundos.
Ou seja, eu estou de férias, mas meu azar continua trabalhando a todo vapor, provavelmente de olho em algum bônus de natal. E assim, vamos levando, tentando encarar a coisa de bom humor – mas sem exagerar, porque dói (demais) quando eu dou risada.
O que eu disse no último post, sobre eu e meu irmão termos brigado todos os dias durante anos, não é verdade. Isso porque nossos desentendimentos não podiam ser classificados como brigas, já que eu não brigava, eu apenas apanhava. Mas quanto à freqüência, a informação está correta: era todo dia – às vezes, mais de uma vez por dia.
E não sei se mereci apanhar em todas essas surras, mas calculo que, em uns 99%, sim. Verdade, eu fui um irmão caçula exemplar. Isso, claro, partindo do princípio que a função universal do irmão caçula é atrapalhar a vida do mais velho.
E, nesse ponto, eu era um mestre.
Deixo vocês com um exemplo para vocês formarem sua própria opinião a respeito disso.
Eu devia ter uns 16 anos, e estava sozinho em casa com meu irmão, vendo Sessão da Tarde.
Vale dizer que ele, provavelmente, estava vendo TV porque não tinha nada para fazer. E tenho quase certeza de que eu estava vendo TV porque deveria ter toneladas de coisas de escola para fazer, mas como minha mãe não estava em casa, declarei independência e fui para a sala. Ou seja, eu já estava errado antes mesmo da história começar.
Enfim, por volta das 15h, a campainha tocou e fui atender.
Abri a porta e caminhei até o portão. No percurso, senti um arrepio na espinha quando percebi que era uma testemunha de Jeová. Isso poderia simplesmente assassinar o resto da minha tarde. Testemunhas de Jeová são como aqueles banners expansivos: se você acidentalmente passa o mouse em cima, ela aumenta de tamanho, começa a falar absurdamente, e não há quem feche aquilo.
Assim, resolvi tomar cuidado, mal fazendo contato visual com a mulher.
– Oi, pois não?
– Boa tarde, tudo bem? Eu vim trazer a palavra do Senhor.
– Oi?
– Sim, nós, da Igreja Whatever, estamos visitando as residências do bairro para levar um pouco de luz e sabedoria aos moradores.
– Olhe, acho essa iniciativa louvável. Mas, infelizmente, eu já tenho uma religião e estou muito feliz com ela.
– Puxa, que pena.
Não sei se foi a primeira vez que os meus neurônios começaram a trabalhar sozinhos, mas foi uma das primeiras, com certeza. Eles começaram a jogar carvão na caldeira, e meu cérebro começou a acelerar. Comecei a fazer contas. Testemunha de Jeová. Meu irmão. Minha mãe não está em casa.
De repente, a idéia se formou na minha mente. Na verdade, ela praticamente brotou da terra, maravilhosa, brilhante, em todo seu esplendor de genialidade.
Abri meu melhor sorriso – tomando cuidado para ele não se transformar numa gargalhada – e respondi:
– Agora, se a senhora quiser, eu posso chamar o meu irmão. Ele se interessa muito por esse assunto.
– Verdade?
– Sim. Ele adora discutir religião. As palavras de Deus, então, o deixam fascinado.
– Ah, mas que maravilha! Posso conversar com ele?
– Claro, ele não está fazendo nada agora. Só um minuto.
Detalhe: meu irmão é ateu. Aliás, ele é muito ateu. Tenho certeza de que meus pais resolveram batizá-lo quando ele era apenas um bebê, porque, se ele já soubesse falar, certamente iria começar a discutir com o padre no meio da cerimônia.
Não, não. Minto. Ele tem uma religião, sim, e os templos que ele freqüenta são as churrascarias da cidade. Dizem que todo homem precisa acreditar em alguma coisa; e meu irmão normalmente acredita que vai pegar mais um pedaço de picanha. Esse é o credo dele. Se bem que, até aí, eu também participo desse culto.
Contudo, enquanto eu caminhava de volta para a sala, tinha apenas uma crença: aquilo ia ser ótimo.
Antes de abrir a porta, olhei novamente para a testemunha de Jeová. Ela brilhava e sorria, ansiosa em discutir os 10 Mandamentos ou o Sermão da Montanha com uma alma jovem e fiel.
Sorri para ela e entrei na sala. Engoli a gargalhada e assumi o ar mais casual que consegui.
Meu irmão estava largado no sofá.
– Quem era?
– Não conheço. Mas é para você.
Ele olhou pela janela.
– Eu não conheço essa mulher.
– Eu também não. Mas ela mandou te chamar.
– Como assim?
– Ela tocou aqui e pediu para te chamar, ué. Falou seu nome e tudo.
– Porra, o que essa mulher quer?
– Não sei, ela pediu para falar com você, não comigo.
Ele fez cara de desconfiado e atravessou a porta, em direção ao quintal.
Eu não consegui chegar ao sofá. Assim que ele saiu da sala, eu caí no chão, gargalhando. E fiquei deitado, chorando de rir e socando o chão durante minutos.
Mais precisamente, quarenta minutos.
Sim, quarenta minutos. Este foi o tempo que meu irmão demorou para conseguir se desvencilhar da mulher. De vez em quando, eu dava olhadas pela janela, e via a mulher falando pelos cotovelos, mostrando trechos da Bíblia, e ele tentando (em vão) cortar o assunto.
Às vezes, ele arriscava rápidas olhadas na direção da janela, e, quando me via ali, assumia a sua tradicional expressão de “você vai morrer, filho da puta”.
Quando ele conseguiu se livrar da testemunha de Jeová, entrou na sala, obviamente, espumando de ódio. E não pensem que ele arrombou a porta com os pés, para dar mais dramaticidade à cena. Ele não precisou. Como até a casa em que morávamos tinha medo dele, a porta se abriu sozinha, com medo de que sobrasse para ela também.
Aparentemente, a mulher não havia conseguido fazer a palavra de Deus entrar na vida do meu irmão. Bondade e perdão não exatamente faziam parte da sua filosofia. Pelo olhar dele, aquela história de dar a outra face não era bem o que ele tinha em mente. Aliás, ele parecia bastante disposto a esfregar a minha face no cimento da calçada.
Cazuza disse uma vez que “eu vi a morte de perto e ela estava viva”. Aquela tarde, em casa, foi pior. Eu vi a morte de perto, e ela estava sentada num canto da sala, lambendo os beiços e rindo da cara do meu irmão. E isso não me ajudaria em nada naquela hora.
Eu sabia que ia morrer, mas não conseguia parar de rir. Assim, mesmo gargalhando, assumi a posição de defesa clássica de qualquer filho caçula numa situação dessas: me encolhi no sofá e esperei pelo pior. Meus neurônios ligaram o alerta vermelho, e uma sirene começou a tocar no meu cérebro. Um deles pegou um microfone e avisou o resto do corpo para se segurar, gritando que o impacto seria iminente.
Eu estava prestes a encenar uma reconstituição da história do Titanic, na qual meu irmão interpretaria o gigantesco iceberg. E eu não seria o Titanic, e sim um barco a remo.
Por alguns momentos, naquele dia, meu irmão acreditou na Bíblia. Ou, ao menos, numa parte específica dela: a crucificação.
Foi a Paixão de Rob.
Com algumas diferenças, claro: no lugar do julgamento, foram murros; no lugar da coroa de espinhos, foram murros; e no lugar das chibatadas, foram murros. Se Barrabás estivesse na sala aquele dia, não iria escapar, teria sobrado para ele também.
Menos de um minuto depois, eu estava morto. Mas, diferente de Jesus Cristo, eu havia morrido pelos meus próprios pecados. Além disso, não precisei de três dias para ressuscitar.
Provavelmente na mesma noite (ou no máximo no dia seguinte), eu ressurgi dos mortos e aprontei alguma outra coisa com meu irmão.
Meu pai sempre quis uma neta. Sempre. Na verdade, ele fala tanto no assunto que, às vezes, desconfio que ele teve dois filhos somente para conseguir uma neta, já que a biologia proíbe que as pessoas pulem uma geração.
Desde que sou adolescente, ouço ele fazer esse pedido a mim e ao meu irmão. Às vezes, ele chegava até mesmo a descrever a menina, dando detalhes sobre cabelo, roupas e sapatinhos, como se a garota estivesse ao lado dele. Sério, a coisa beirava a esquizofrenia.
Já minha mãe... Bem, acredito que ela sempre quis netos, mas nunca tocou no assunto, pois sabe que isso implicaria no fato de pelo menos um dos filhos praticar sexo, o que cimentaria o fato de que eu e meu irmão somos adultos hoje (ao menos, cronologicamente falando), algo que ela, até hoje, reluta em acreditar.
Enfim, isso está próximo de acontecer. Não comigo, já que na equação filho-livro-árvore eu ainda estou no primeiro estágio, mas com meu irmão. Esta semana, fui surpreendido com a notícia de que minha cunhada está grávida, e que meu irmão, aquela pessoa que brincava de Falcon comigo na sala, vai deixar de ser filho e se tornar pai.
E eu, oficialmente, me torno tio.
Tio.
A palavra soa estranha. Sei que já passei dos 30, mas, toda vez que uma criança me chama de tio na rua, acho estranho. Sério, eu me sinto ainda como se tivesse uns 14 anos. Na verdade, toda a minha família parou no tempo, dentro da minha mente. Meus pais têm uns 40, meu irmão está chegando nos 20 e eu fiquei ali nos 14.
O tempo passou. Hora de cair na real. Ou, melhor ainda, hora de cair na real, tio.
Agora, eu vou ser sincero. Esse negócio de tio é muito legal, especialmente na parte de corromper o moleque. Sim, corromper, porque eu e meu irmão sempre tivemos um acordo: a respeito de nossos filhos, eu cuido da parte que me cabe (futebol, shows de rock) e meu irmão fica encarregado daquilo que ele entende (aulas particulares de qualquer matéria de exatas). O resto, as mães que se virem.
Mas isso me fez pensar. Sério, em que mundo nós vivemos? Como assim uma pessoa do nível do meu irmão pode ter um filho? Quem for leitor do blog e amigo meu sabe do que estou falando: meu irmão é o tipo de sujeito que deveria ter uma licença especial do Ibama para se reproduzir. Em muitos aspectos, ele é um Rob Gordon piorado (sim, isso é possível) e é, de longe, uma das pessoas mais bizarras que eu conheço.
O meu irmão reúne algumas características que Deus deve ter colocado na mesma pessoa apenas como caráter experimental, para “ver no que dava”.
Ele tem força sobre-humana e tem a frieza de um computador. Ele nunca chorou e sorriu apenas duas vezes na vida, mas estava distraído. Quando percebeu que estava sorrindo, parou e socou as pessoas que haviam percebido o que ele havia feito. Além disso, ele tem o mesmo gosto por sangue que um serial killer teria. Para se ter uma idéia, classifica futebol como “coisa de viado” e prefere esportes com... um pouco mais de contato, como futebol americano e vale-tudo.
E, antes que vocês comecem a achar que ele é um energúmeno que mal sabe escrever o próprio nome, aviso aqui que ele é físico, e a tese dele foi sobre estatística dos fótons, ou algo assim. Ou seja, o sujeito beira a genialidade.
E minha adolescência foi um verdadeiro horror, por causa da existência dele.
Além de ele ter cinco anos a mais que eu, passou metade da vida fazendo halteres. Sim, você leu certo, não escrevi musculação, escrevi halteres. Então, um dos hobbies dele era arremessar carros no outro lado da rua. Se o pintassem de verde, ele seria quase uma action figure do Hulk. (update: action figure mesmo, porque ele tem poucos (poucos mesmo) centímetros a mais que eu).
E, durante minha adolescência, toda vez que ele colocava o pé em casa e me via na sala, assistindo TV, ele não me cumprimentava com um “oi”. Ele apenas falava:
– Hora da porrada diária.
Assim mesmo, com essa displicência toda. Não tinha uma exclamação, nada disso. Era ponto final. Ele não estava bravo, apenas atestando um fato. Eu, claro, começava a me borrar e tentava escapar de alguma maneira.
– Olhe, eu apenas moro aqui...
Segundos depois, eu estava deitado no chão, gemendo, e ele na cozinha, tomando Coca.
É verdade, brigávamos o dia inteiro. Mas, como éramos apenas nós dois, as tarefas eram muito bem definidas. Eu provocava e ele socava. Cada um fazia sua parte com perfeição. Sim, eu fui um irmão caçula de merda.
E até hoje eu me pergunto o que ganhava provocando o sujeito, já que, quando ele ficava nervoso (ou melhor, quando ele fica nervoso, já que isso ainda não mudou) a coisa pega. Manjam aquelas histórias do Wolverine, quando ele perde o controle e sai fatiando as pessoas? É pior. Numa briga de bar, o Wolverine ficaria mais tranqüilo se o meu irmão estivesse no mesmo time que ele.
Querem uma prova de que não estou exagerando? Quando eu tinha uns 16 anos, tinha me estranhado com um moleque do bairro, que jurou me pegar. Eu consegui evitá-lo por alguns dias (e fiz bem, já que o moleque dava dois de mim), mas, um dia, estava voltando de um lugar qualquer com meu irmão e meu pai. Assim que colocamos os pés na rua, vi que tinha uma turminha de conhecidos perto da minha casa.
E o moleque no meio.
Resignado, aceitei meu destino, mas enfrentei como homem.
Disse a meu pai que não iria para casa naquela hora, e fui falar com o pessoal, pronto para apanhar mais que bife de pensão. Meu pai e meu irmão continuaram andando, e o moleque já veio para cima de mim. Se aproximou e começou a me encarar de perto. A surra inevitável, e uma questão de segundos.
Mas meu irmão viu tudo isso.
Antes que entendesse o que estava acontecendo, meu irmão estava na frente do moleque. A diferença de altura entre os dois era nível Rocky Balboa X Ivan Drago. Meu irmão batia no peito do moleque. Independente disso, ele olhou o sujeito nos olhos e disse:
– Se você encostar a mão no meu irmão, eu vou matar você.
Novamente, sem exclamação, sem grito, sem nada. Só o ponto final. Chupa, moleque que queria me socar. Entretanto, o sujeito ignorou o perigo que corria e deu uma risadinha de lado.
– Como assim?
– É exatamente o que você ouviu. Se você encostar a mão no meu irmão, eu vou matar você. Eu não vou bater em você, nós não vamos brigar. Você vai morrer. Não é difícil de compreender isso, até mesmo para você. Eu vou matar você.
Tudo (tudo!) com pontos finais. Ele falava com a naturalidade de alguém que pedia bebidas a um garçom. Obviamente, o moleque ficou branco, e começou a dizer que não era bem assim, que ele só queria conversar.
Fiquei sabendo depois que meu pai, que observava tudo de longe, morreu de orgulho com isso. Ao menos, por cinco segundos. Quando meu irmão se reaproximou dele, meu pai disse:
– Muito legal isso, você defender seu irmão.
– Ninguém tem o direito de bater no meu irmão a não ser eu. O Rob é meu.
Provavelmente, meu pai discordou disso, mas não teve coragem de argumentar. Ninguém tem coragem de discordar do meu irmão em alguns momentos. Aliás, na maioria dos momentos. Na verdade, em quase nenhum momento.
Agora, vamos voltar ao assunto do post. Meu irmão vai ser pai. Vocês conseguem imaginar o que essa criança vai enfrentar na vida?
Imaginem o (a) filho (a) dele, daqui a uns 15 anos, tentando explicar, durante o jantar, como ele tirou apenas dois na prova de matemática.
– É que eu não consigo entender equação do segundo grau.
– Dois não é nota que se apresente. Isso é uma nota que o imbecil do seu tio tiraria.
– Mas a classe inteira foi mal.
– Mas eu não vou matar a classe inteira. Apenas você. Tem mais suco?
– Mas, pai...
– Esta discussão não tem mais propósito. Continuaremos este assunto quando você receber a próxima nota. E o tom da conversa será definido pela nota.
– Mas, pai...
– Chega.
Pobre criança. Aliás, tenho mais pena ainda da minha cunhada, uma das pessoas mais doces do mundo, que terá que separar as brigas entre meu irmão e o herdeiro, ou herdeira.
Mas, falando sério, espero que a criança sobreviva ao meu irmão. Afinal, é bom demais saber que a linhagem Gordon não irá parar na minha geração. E, cá entre nós, vai ser delicioso viciar o filho, ou filha, do meu irmão, que adora Bossa Nova, em heavy metal. Já estou pensando em coletâneas para apresentá-lo aos clássicos do gênero.
Esta será minha nova missão de vida.
E a cada vez que meu irmão reclamar para mim sobre o “volume que o moleque ouve aquelas merdas que você mostrou”, eu vou dar um CD novo ao meu sobrinho (ou sobrinha) como recompensa.
Por outro lado, sei que meu irmão não se importará se eu moldar a cabeça do infante com alguns outros gostos. Na verdade, ele vai adorar. Segue, assim, o Top 5 Coisas que Meus Filhos e Os Filhos do Meu Irmão Vão (Obrigatoriamente) Adorar:
1. Carne 2. Filmes de Zumbi 3. Jornada nas Estrelas 4. RPG de computador 5. Carne (sim, de novo)
E aí, convenhamos, o problema será todo da minha cunhada. E quanto ao meu sobrinho ou sobrinha, um pedido: daqui a algumas décadas, venha comentar comigo sobre esse post. E não repare se eu chorar quando você fizer isso.
Sim, as pessoas são diferentes do seu pai, elas choram às vezes.
Update: Depois que escrevi este texto, fiquei pensando em algumas brigas com meu irmão. Em especial, uma delas, que, acredito, foi a vez que mais apanhei na vida. E foi merecido. No próximo post, eu conto essa história.
A Besta-Fera está, neste exato momento, se digladiando com uma mosca que está presa na porta de vidro da varanda. A luta não tem favoritos, porque ambos enfrentam grandes desvantagens: enquanto a mosca não consegue entender que aquilo é uma porta, e fica tentando voar para fora através do vidro, a Besta-Fera, com sua famosa miopia, perde o inseto de vista a cada 10 segundos.
Mas, pelo andar da carruagem, se eu fosse obrigado a fazer uma aposta agora, colocaria R$ 10,00 na mosca.
Contudo, o ponto não é esse. O ponto é que estava no computador procurando algum assunto para escrever, e acabei me distraindo com isso. E fiquei pensando sobre o estilo de vida do meu cachorro.
Hoje, logo depois que acordei, fui obrigado a brincar com ele e com um dos seus brinquedos destruídos. Eu jogo o negócio para o outro lado da sala, ele sai correndo, morde o bicho e traz de volta para mim. Às vezes, ele banca o difícil e não devolve o brinquedo, fica apenas ameaçando colocá-lo na minha mão, e eu sou obrigado a arrancar da boca dele para começar a brincadeira de novo.
E assim, ele passa seus dias: ontem, por exemplo, tive que brincar de luta com ele. Aliás, não é luta, é luta e dança, porque eu e ele dançamos, às vezes. Aliás, se alguém for escrever um dia minha biografia não-autorizada, deixo uma dica aqui: eu danço apenas quando estou a) bêbado o suficiente ou b) quando estou sozinho em casa com meu cachorro. Isso, claro, sem contar as danças lentas, de rosto colado, já que um dos meus hobbies sempre foi tirar minha mãe (às vezes, minha avó) para dançar no meio da cozinha, enquanto elas faziam almoço.
Mas voltando à Besta-Fera: minha conclusão é que eu queria ter os problemas dele. Seu dia se resume a brincar comigo, dormir, ou brincar sozinho (ele está se aprimorando cada vez mais na arte de pegar meu travesseiro na cama e trazer para a sala). E seus problemas se resumem a eu cuidar dele (o que envolve desde dar comida a brincar). Ou seja, os problemas dele, na verdade, são meus.
Assim, não é preciso muita análise para descobrir qual de nós dois leva uma vida de cão.
Mas ele tem seu papel social aqui em casa, e o desempenha com esmero. Mais que um animal de estimação, ele é um roommate. Já tive outros cães antes. Aliás, cães e gatos. Mas a Besta-Fera é diferente, justamente porque eu moro sozinho. Ele é minha válvula de escape, às vezes, meu confidente, quase minha consciência.
Ontem, voltei para casa lá pela meia noite e me sentei no chão, encostado na porta, para brincar com ele. Mas, assim, que eu coloquei os pés em casa – ainda estava em pé, colocando minhas coisas na mesa – ele já havia explodido de alegria.
Eu estava fora há algumas horas, mas a felicidade dele era de uma sinceridade notável. Sim, eu sei que isso acontece todos os dias com quem tem cachorro, mas resolvi escrever sobre isso hoje. Porque, para quem tem cachorro, essa demonstração de alegria é algo banal: toda vez que você entra em casa, seu cachorro faz festa por causa disso. Ou seja, não valeria a pena nem começar a escrever sobre isso.
Por outro lado, uma demonstração de alegria como essa, tão sincera, tão “simplesmente feliz”, é algo raro hoje em dia. Chega a ser curioso você ser recepcionado por alguém (sim, ainda estou falando do meu cachorro, apesar do termo “alguém”) que está feliz apenas porque você está ali, e faz questão de demonstrar isso.
Porque a regra, hoje em dia, é você ganhar um sorriso daqueles que dizem “que bom te ver, mas ainda temos que resolver tal assunto”, “é bom te ver, mas estou muito chateado com o que você falou” ou o clássico “que bom te ver, mas estou meio sem tempo hoje, depois a gente se fala”. E ele não. Ele sempre tem tempo.
O que estou tentando mostrar aqui é que ele tem tempo não graças ao fato de não fazer nada, ele tem tempo porque, mesmo se não tivesse, ele arrumaria.
Quando eu coloco os pés em casa, ele arruma tempo e engole todas as nossas brigas e vem apenas mostrar que está feliz porque estou ali. Talvez seja o jeito dele demonstrar que, se eu estou ali e ele está ali, mais uma vez, talvez a briga que tivemos não tenha sido tão séria assim. Ou talvez seja, mas jamais será maior que a gente.
Claro que não estamos falando de um organismo psicologicamente perfeito. Descontando tudo o que falo dele aqui no blog, ele ainda tem um temperamento um tanto quanto difícil de lidar, especialmente na teimosia. Por outro lado, eu, sem parar para pensar muito, tenho toneladas de defeitos (incluindo a teimosia) – ou seja, provavelmente a desvantagem fica com ele.
Mas o número de defeitos dele – ou os meus – não importa. Porque algo está mais do que claro aqui. Mais do eu aceitar os defeitos dele e vice-versa, nós nos gostamos justamente por causa dos nossos defeitos (eu ia usar o termo “amamos”, mas dois amigos homens não fazem isso). Os meus defeitos me tornam menos “dono da casa” aos olhos dele; e os defeitos dele o tornam mais humano aos meus olhos.
Nossos defeitos, mesmo sendo diferentes, nos transformam em iguais. Essa é a graça da coisa. Assim, ele me admira como eu sou, incluindo defeitos e qualidades. E eu e ele sempre deixamos claro um para o outro que pedidos de desculpas são necessários apenas quando um de nós faz algo errado, e mais nada. Ele jamais teve que me pedir desculpas por ser quem ele é, e eu jamais tive que pedir desculpas a ele por ser quem sou.
Aliás, essa é a base da nossa convivência: a partir do momento em que nos gostamos por causa dos nossos defeitos, é fácil aprender a cada um de nós lidar com os defeitos do outro. E, com isso, as qualidades se sobressaem. Porque, sejamos sinceros: quando há amor (agora tive que usar, Besta-Fera que me desculpe) dos dois lados, há respeito. Ele me respeita, e eu o respeito. Logo, não existem defeitos, existe apenas a frase “é o jeito dele”.
E aí, penso no relacionamento que ele construiu comigo. Aliás, penso na forma que ele construiu este relacionamento. Explodindo de alegria quando eu entro em casa; pedindo para brincar quando está com vontade; não perdendo nunca uma oportunidade de ficar do meu lado – o que inclui também quando estou dormindo; colocando a cabeça sobre meu pé quando estou no computador, apenas para “ficar junto”.
E acredito que todo cachorro seja assim. Mudam as manias, as brincadeiras, as demonstrações de afeto, mas a essência é a mesma. E a nossa essência... Bem, é aquilo que conhecemos.
Nunca temos tempo para nada, sempre temos algo nos preocupando, estamos sempre chateados com fulano, com o saco cheio das atitudes de sicrano. E nunca encontramos tempo (ou vontade, ou coragem) de dizer para alguém, quando encontramos com esta pessoa, o quanto estamos felizes por ela estar ali. O quanto estamos felizes apenas por isso, por ela estar ali, com todas as qualidades e defeitos que ela possa ter.
E isso é algo que o meu cachorro, como qualquer outro cachorro, faz todos os dias.
Assim, toda vez que penso nisso, fico com uma pergunta na cabeça: quem são os verdadeiros animais: eles ou nós?
Eu sempre disse que a humanidade não deu certo. Cachorros, por outro lado, deram. Não seria nada mal se a gente conseguisse aprender um pouco com eles. Porque eu acho que eles teriam a paciência de nos ensinar - ao contrário de nós, que não temos paciência para mais nada.
O nome disso não é Preguiça; é Consciência Tranquila.
Não sei se para todo mundo que escreve – ou melhor, que tem um blog – as coisas funcionam dessa forma. Mas, para mim, escrever é quase como sexo. Antes que vocês comecem a imaginar que eu digito meus textos totalmente nu e com apenas uma das mãos (e deixo a critério da mente imunda de vocês onde a outra mão estaria), eu explico.
Uma vez eu li que as pessoas fazem apenas duas coisas na vida: ou estão fazendo sexo ou estão esperando pela próxima vez em que farão sexo. Isso é verdade. Desde que o mundo é mundo as coisas são assim.
Por outro lado, para quem escreve, a coisa funciona mais ou menos do mesmo jeito: ou está escrevendo, ou está pensando no próximo texto que irá escrever.
Quem escreve, sabe.
Eu sou assim. Às vezes, estou andando pela rua e a idéia de um texto surge dentro da minha cabeça. Pode ser na forma de um pensamento rápido que passa pela minha cabeça, pode ser algo ou alguém que vi na rua. Tanto faz. Imediatamente, eu começo a imaginar o tipo de texto que aquilo pode virar, se vale a pena investir nele. Eu não consigo mais ver algo na rua sem pensar naquilo como texto.
Assim, quando a idéia passa pela minha cabeça, dá aquele estalo, e começo a criar diálogos, trabalhar piadas. Fico tentando imaginar como o texto iria começar, como deveria terminar. Fico construindo a personalidade de cada personagem, fico elaborando o cenário. E coloco as mãos aqui, dou um beijo ali... São as preliminares.
E, de repente, no meio disso tudo, eu encontro um fio condutor da história. Aí não tem mais volta. A barriga congela. Em um ou outro caso, os pelos da minha nuca se arrepiam. Estou entregue. Totalmente. É impossível segurar a excitação, preciso apenas arrancar a roupa e partir para cima. Ou, melhor dizendo, para o Word. E de roupa mesmo, fiquem tranquilos.
E não, não estou exagerando. É bastante comum eu entrar em casa, correr para o PC e nem abrir o e-mail, porque “não dá tempo”. O tesão é forte demais. Preciso pegar o texto pelo braço, rosnar um “vem cá” e puxar ele para mim.
Quem escreve, quer.
E começo a escrever alucinadamente. Vou praticamente devorando o teclado, insaciável. Piadas surgem em cima de piadas. Diálogos começam a crescer conforme eu digito.
Admito que às vezes, vou com um pouco mais de calma. Talvez seja um pouco de experiência, afinal, são quatro anos de blog. Assim, tem textos que vou com um pouco mais de jeito e carinho, tocando cada frase, me dedicando melhor a cada linha. Consigo até mesmo, às vezes, encontrar tempo para colocar uma música. E não é falta de tesão, e sim apenas para controlar a fome e acabar não atropelando as coisas.
Mas, como acontece em qualquer na primeira vez que você transa com alguém (porque quando você escreve uma crônica, é sempre a primeira vez), o começo acaba sendo meio desordenado. Sabe, a blusa que não sai, a calça que não abre? Existem palavras que eu não consigo alcançar e idéias que não consigo traduzir em palavras.
Mas o tesão é grande demais, então nada disso atrapalha a coisa de forma geral. Se um parágrafo não sai, eu apenas volto e mudo a forma que ele está sendo escrito e pronto, tudo volta a acontecer, quase de forma explicita.
Já em outros trechos a coisa flui totalmente, como se eu tivesse feito isso a vida inteira, com aquela pessoa. Ou melhor, com aquele texto.
Quem escreve, faz.
Sem sacanagem (ou melhor, com), parece instintivo. Os personagens vão conversando dentro da minha cabeça, eu vou apenas digitando o mais rápido que consigo. Tem textos que vocês leram aqui no blog que foram praticamente psicografados: acontecem dentro da minha cabeça mais rápido do que minhas mãos conseguem acompanhar.
E atire a primeira pedra quem nunca teve uma transa dessas. E atire a primeira pedra um blogueiro que nunca teve um texto desses.
Agora, e quando o texto resvala em algum lugar que faz cócegas? Vocês vão dizer que “não, você já tem 34 anos, não é mais cócegas...”. Mas eu digo que são cócegas, sim. Ao menos, é o que eu imagino que acontece, porque tem horas que eu paro de digitar, jogo a cabeça para trás e dou uma gargalhada que deve acordar os vizinhos. E mesmo se ninguém gargalhar naquele trecho quando estiver lendo, não importa. São as minhas cócegas. É o meu tesão.
Mas claro que existem os momentos nos quais a coisa não funciona. Tento terminar aquele maldito parágrafo, ou trabalhar um trecho legal de um diálogo e simplesmente não consigo. Apago, reescrevo, apago, reescrevo, e nada. Sabe quando você quer porque quer dobrar a perna de uma maneira na cama, e ela se recusa a obedecer? Aí, não adianta mesmo, o melhor é desistir, mudar de posição e continuar indo em frente, antes que dê câimbras. Porque, no final das contas, sempre há outra posição, uma maneira diferente. Basta se mexer um pouco.
Escrever, para mim, é quase como sexo.
Acho que é por isso que invejo os escritores que trabalham em romances. O sujeito passa meses, às vezes anos, trepando com os mesmos personagens, sem se atracar com mais nada ou ninguém. Quando muito, uma aventurazinha com uma crônica aqui, um flerte rápido com um conto ali.
Crônicas, as minhas crônicas, não são nada mais que sexo casual; romances, por outro lado, são relacionamentos sólidos. Aquilo é o cúmulo da fidelidade.
E, conforme o texto vai se aproximando do seu final, a coisa começa a se intensificar. Os dedos já trabalham sozinhos, sem você precisar comandá-los. Instinto puro. Não consigo mais me controlar, o coração começa a acelerar, a respiração aumenta. Não existe nada mais, apenas o texto.
Quero chegar logo no final, não porque aquilo está ruim, pelo contrário, está ótimo. Mas porque o final vai ser melhor do que já está. E não consigo pensar em mais nada conforme o texto se aproxima do final. O telefone toca, o cara grita “gol!” na TV, mas não estou nem aí, não consigo parar. Só existe o texto. Quando muito, consigo gemer um "putz, este trecho ficou um tesão".
Quem escreve, gosta.
E, de repente, tudo explode.
Eu explodo, o texto explode.
Fico olhando maravilhado aquilo escrito, como se fosse a primeira vez que tivesse escrito um texto. Ajusto um pedaço aqui, mudo uma frase ali, faço um carinho naquele parágrafo ali, abraço aquela outra frase ali. É a conversa mole depois do sexo.
E, com um cigarro na boca, brinco com o texto, me lembro de um outro trecho e rio sozinho, feito um bobo. Mas um bobo satisfeito.
Por que quem escreve nunca está sozinho.
E quem tem blog, então? Aquele prazer de postar o texto? Já tentou descrever um orgasmo? Eu não consigo. Nunca consegui. E eu não consigo descrever a sensação de postar um texto e entregá-lo para os leitores. Muita gente fala que textos são como filhos, que você os faz para o mundo. Não são. Textos são orgasmos.
A diferença é que um orgasmo acaba segundos depois de começar. E o orgasmo de postar um texto volta o tempo inteiro, a cada comentário recebido. Você passa dias dentro do mesmo orgasmo. Esse momento é o nosso momento. Mas, como todo orgasmo, é de quem lê também.
Quem tem blog, sabe.
Imediatamente após postar o texto, surge aquela sensação de leveza. Física, mental, emocional. O texto saiu de mim. Ainda estou com a respiração um pouco alterada – dependendo do texto e da velocidade com que digitei, estou até meio suado, juro – e não consigo parar de sorrir. O texto saiu de mim, mas eu ainda não saí do texto.
Preciso levantar, andar, entrar em contato com a realidade, voltar para o mundo.
E aí, como qualquer amante – ou como qualquer blogueiro? – deito relaxado, e espero os elogios à minha performance, que chegam nessa janelinha aqui embaixo.
Às vezes, claro, chegam críticas: “você foi muito bruto aqui”, “você já fez aquela coisa ali melhor”. Paciência. Ninguém pode ser perfeito sempre. Mas eu, particularmente, gosto do meu desempenho. Não sou o melhor amante do mundo, mas acho que dou no couro. Ou isso, ou eu escrevo mal, mas vocês ficam sem graça de falar. Mas não importa, o tesão que sinto é o mesmo.
E sei que daqui a pouco – sejam horas, sejam alguns dias – eu vou morrer de tesão de novo, e vou começar tudo de novo. E aí, logo vem aquela fome, aquela fúria, preciso urgentemente de um teclado e uma tela em branco para mim. Frase por frase, beijo por beijo, parágrafo por parágrafo.
Sexo é a melhor coisa do mundo (lembrando, claro, que "morango com chantilly" e "acordar de madrugada com o barulho da chuva e lembrar que o dia seguinte é sábado" não concorrem). Mas, acreditem em mim, escrever chega bem perto disso. Quem escreve, sabe. Quem tem blog, sabe. Por isso que, às vezes, na cama, sozinho, antes de dormir, eu me lembro de um outro texto que fiz. Lembro de como e onde escrevi, lembro da minha vida na época em que escrevi. E lembro com saudade, mas segurando o sorriso.
Mas, na verdade, gosto de pensar que meu melhor texto sempre será o próximo. Não sou cafajeste a ponto de terminar um texto pensando em outro – se bem que já lembrei de outro texto enquanto escrevia, acontece – mas tenho a esperança de que o melhor de todos (e não aquele pelo qual serei lembrado, mas sim aquele do qual me lembrarei daqui a anos) sempre será o próximo.
Estou com essa história na cabeça desde que escrevi o post sobre minhas idas à sala da diretora. Como contei outro dia isso no trabalho – e, pelas risadas, a história ainda funciona –decidi colocar no blog. Sim, às vezes eu “experimento” textos contando a história para algumas pessoas, antes de publicar no blog.
Apesar de ter sido bom aluno, eu sofri alguns percalços no colegial que me fizeram perder alguns anos e mudar de escola. Acabei parando num colégio pequeno, ao lado de casa. A rotina lá era deliciosa: além de metade dos meus amigos da rua estudarem lá – ou seja, eu já entrei no colégio sendo respeitado – fiz alguns amigos para a vida toda ali.
O único problema é que não podia fumar na escola. Ou seja, foi lá que eu comecei a desenvolver minha criatividade para fumar em locais proibidos. Vale lembrar que eu tinha 17 anos, então não fumava por vício, mas sim por que era proibido. E foi aí que nasceu um dos meus maiores inimigos: a Dona Ida, bedel encarregada de cuidar do colegial.
Na verdade, a Dona Ida não era uma inimiga, mas sim uma adversária. Ela não era má pessoa, apenas cumpria seu dever. Aliás, era uma velhinha muito da simpática, com uma força desproporcional (mais de uma vez, ela me segurou pelas calças e me atirou para dentro da sala) e uma peculiaridade: ela não falava assim, como eu e você; ela falava “axxim”, e ainda trocava os “r” por “l”.
Logo, vivia soltando frases como “Lob, voxxê não vai xxubir pala a claxxe?” e “Voxxê vai acabar xxendo xxuspenxxo”. A Dona Ida foi quase uma precursora dos MiGuxXxXxXox do Orkut.
Assim, nos intervalos, eu e a Dona Ida ficávamos brincando de gato e rato. Eu procurava por cantos inusitados para fumar; e ela andava farejando tudo em busca de fumaça, pois ela já sabia que onde havia fumaça, havia Rob.
O engraçado era que o regulamento da escola jogava a meu favor: ela só poderia me levar para a diretoria se me visse fumando; caso contrário, ela estava de mãos atadas. Eu, obviamente, usava essa brecha na lei, a torto e a direito.
Então, não era difícil eu e mais dois ou três dementes se trancarem no banheiro masculino (que devia ter 1x1m) e transformarmos aquilo na ala de fumantes da escola. Logo, não dava dois minutos e ela estava esmurrando a porta, querendo ver o que acontecia lá dentro – o que era uma doce ilusão dela, já que não daria para ver nada, por causa da fumaça.
E era eu quem tinha que ficar próximo à porta, negociando com ela, como se fosse um seqüestrador pedindo para o capitão de polícia por uma fortuna em dinheiro, um carro para me levar até o aeroporto e um avião abastecido. Faltava só gritar “se você não me obedecer eu vou matar um refém, não estou blefando!”
– Quem exxtá aí dentlo?
– Estamos no banheiro, Dona Ida. Não incomode.
– Abla exxa porta, eu quelo entlar!
– Dona Ida, aqui é o banheiro masculino. Vá procurar pelo seu, fica no outro andar!
– Eu xxei que vocês exxtão fumando aí dentlo!
– Como a senhora sabe? A senhora está olhando pela fechadura? Que pouca vergonha!
– Ablam exxa porta agola!
– Dona Ida, se a senhora não for embora, eu vou chamar o segurança!
Claro que esse diálogo servia apenas para ganharmos tempo e acabarmos com o cigarro. E, quando abríamos a porta do banheiro, lá estava ela, esperando por nós. Quer dizer, acho que era ela – não dava para ter certeza, pois, por causa da fumaça, o banheiro parecia uma sauna turca.
Às vezes, minha cara de pau chegava a níveis extremos, já que eu ainda soprava a fumaça da última tragada na cara dela. Ninguém mandou criarem uma lei que pregava que eu só poderia ser aprisionado com o cigarro na mão. E ela sempre me pegava pela roupa, me cheirava e resmungava:
– Voxxê está xxheilando a xxigalo!
– Estou? Não sei, eu não conheço o cheiro de cigarro, sou muito jovem ainda.
E assim íamos vivendo, Dona Ida e eu. Eu fumando escondido com meus amigos, e ela desenvolvendo planos – às vezes, até mesmo recrutando serventes e faxineiros – para me capturar.
Assim, conforme o cerco foi se apertando – pois, alguns dias, a Dona Ida parecia ter sido clonada – eu e meus amigos fomos obrigados a recrutar a ajuda dos garotos do ginásio. Aliás, recrutar é eufemismo: nós mandávamos sempre um membro da turma – que tinha 1.90, andava com uma camiseta do Ratos de Porão e era tão sociável quanto um homem de neanderthal – explicar aos meninos da oitava série que eles deveriam nos ajudar em troca da própria vida.
Sempre funcionou. Na verdade, choviam voluntários. Estar no terceiro colegial é ocupar o degrau mais alto da cadeia alimentar estudantil.
O esquema era o seguinte: todo intervalo, a Dona Ida saía pelo colégio para fazer sua ronda, como um oficial da Gestapo caminhando num campo de prisioneiros. Provavelmente ela deveria estar procurando túneis e vendo se as cercas estavam reforçadas. E, claro, tentando me pegar em flagrante com um cigarro - algo que era, na verdade, sua grande ambição profissional.
A falha da ronda da Dona Ida é que o colégio era pequeno. Provavelmente, ela achava que isso jogava a favor dela, pois nos daria poucos esconderijos. Na verdade, isso era uma benção para nós, pois ela era obrigada a fazer percursos diferentes todos os dias.
Assim, colocamos uma meia dúzia de moleques ao longo da trajetória dela. A função de cada um deles era avisar o moleque seguinte que a Dona ida estava se aproximando. E isso deveria ser feito da forma mais discreta possível.
Por exemplo: o moleque que ficava na porta da sala dos professores – que era a base da Dona Ida – precisava dar um sinal para o menino que ficava no final do corredor (algo como tirar o boné). Este menino, ao ver isso, sabia que ela estava saindo para andar na escola, e dava um sinal – como subir num banco, ou algo assim – para ser avistado pelo próximo. Assim, a informação estava sempre cerca de 10 metros à frente da Dona Ida. Quando ela pensava em ir para a quadra, já havíamos apagado uns dois cigarros antes.
Todos eles estavam conectados, por meio de bonés, tampas de latões de lixo e casacos. Era o princípio da internet, ou, melhor ainda, da internet sem fio. Acredito que até hoje a Dona ida nunca entendeu como, no momento em que ela colocava os pés na quadra, ninguém estava fumando, apesar do lugar parecer um bairro de Londres devido à fumaça.
E justamente por isso acredito que ela nunca conseguiu entender como conseguiu num belo dia, me pegar com o cigarro na boca.
Eu mesmo entendi somente depois. Foi um acidente.
Um dos moleques precisou sair da linha de informação (foi ao banheiro, sei lá) e a conexão entre todos foi bruscamente interrompida. Era o princípio do Speedy. Assim, a Dona Ida caminhou tranquilamente pela escola e, quando colocou os pés na quadra, deu de cara comigo dando uma tragada digna de um comercial de Marlboro.
Numa situação normal, eu teria dito algo como “Dona Ida, finalmente você veio para onde está o sabor” ou “veio fumar também, Dona Ida?”, mas o susto que levei foi tão grande que eu fiquei sem ação.
E o susto não foi por ter sido pego, mas sim pelo berro que ela deu da porta da quadra:
– PEGUEI VOXXÊ FUMANDO!
Seria preciso um poeta para descrever a sensação de vitória nos olhos dela. Eu não sei fazer poesia, então vou fazer uma analogia com futebol: imagine que a seleção da Coréia do Norte vença a Copa de 2010, derrotando a Itália por 3 x 1 (de virada) na final. O técnico da Coréia, ao final do jogo, terá um olhar parecido com o da Dona Ida, naquele minuto.
Felizmente, eu me recuperei logo do susto. Mas vi que não tinha muito que fazer. Flagrante delito. Se dependesse da Dona Ida, eu estaria nas páginas policiais de todos os jornais do dia seguinte. Graças a Deus isso não aconteceu (porque estar nas páginas policiais seria algo relativamente difícil de explicar para minha mãe). Mas ela tinha seus próprios planos para mim.
– Noxx vamoxx AGOLA pala a xxala da diletola.
– Nós? Por quê?
– Porque voxxê estava fumando.
– Eu sei. Mas a senhora não estava, então porque a senhora tem que ir?
– Porque eu quem xxurpleendi voxxê fumando.
– Ah, bom. Eu vou ser suspenso?
– Plovavelmente. Ixxo vai ficar a cargo da diletola.
Ou seja, eu estava perdido.
É por isso que eu gosto de quadrinhos. Eles me ensinaram muita coisa. Uma história em especial, A Queda de Murdock, do Demolidor, me ensinou que um homem que perdeu tudo não é um homem que perdeu tudo. Um homem que perdeu tudo é um homem que não tem mais nada a perder.
E se deu certo com o Demolidor, daria certo comigo.
– Bom, já que eu vou ser suspenso...
– XXim?
– A senhora sente-se e espere eu acabar o cigarro.
– Não, noxx vamoxx agola!
– Não, Dona Ida. A senhora já me pegou fumando, contente-se com isso. Como cortesia profissional, deixe ao menos eu acabar de fumar. É o último pedido de um condenado.
Ela parou e pensou. E não é que ela se sentou ao meu lado? Ficou me segurando pelo braço, com medo de que eu fugisse, mas esperou pacientemente.
Passei a admirar muito mais a Dona Ida. Ela era um adversário à altura.
Mas tudo que é bom dura pouco. E aquele cigarro durou menos que eu gostaria. Minutos depois, eu entrava na diretoria, sendo escoltado de perto pela Dona Ida. A diretora lançou um olhar de “você de novo?”, mas ficou em silêncio. Dona Ida, que, além de policial, assumia o papel de promotora quando preciso, leu as acusações.
– Ele exxtava fumando na quadla!
A diretora olhou para mim.
– Isso é verdade?
– Sim.
Convenhamos, negar, à esta altura, não adiantaria nada. Provavelmente, a Dona Ida deveria ter fotos disso, de vários ângulos, que seriam apresentadas como "Evidência A".
– Você sabe que é proibido fumar na escola.
– Eu sei.
– Então porque foi fumar?
– Eu sou um viciado. Eu preciso de ajuda e compreensão, e não de repressão da sociedade.
Eu havia usado essa frase com um segurança de shopping e havia dado certo. Quem sabe...
– Vou ligar para sua mãe.
É. Não deu.
Ela pegou o telefone, minha ficha – Deus tenha piedade do que havia escrito naquele pedaço de papel – e começou a discar o número da minha casa.
Eu tentei uma última cartada. Minha mãe sabia que eu fumava. Isso deveria correr a meu favor.
– Se a senhora falar com ela, pode pedir a ela para comprar cigarros para mim?
– Oi?
– É, eu fumei o último na quadra.
– Sua mãe sabe que você fuma?
– Bem, toda a noite eu fico lendo no quarto e fumando. Quando saio de casa pela manhã, o cinzeiro está cheio. Na hora do almoço, quando eu volto para casa, ele está vazio. Então ela sabe que eu fumo e limpa meu cinzeiro. Ou minha casa é assombrada pelo fantasma de um mendigo que fica fumando as bitucas.
– Rob...
– Ok, desculpe. Sim, ela sabe.
A decepção no rosto da diretora era visível. A da Dona Ida, então, nem se fala. Ela colocou o telefone no gancho.
– Não faça mais isso. Ok?
– Ok. Posso ir?
– Pode.
Assim, sem suspensão, sem nada. Acho que foi a única vez que a operação aritmética mãe + sala da diretora resultou em algo positivo.
A Dona Ida levou aquilo para o lado pessoal. Passou o resto do colegial andando na minha cola, como um perdigueiro, provavelmente rezando para me pegar bebendo uísque no gargalo ou vendendo drogas dentro da escola.
Claro que nunca aconteceu. Mas ela também não viu eu e meus amigos, no dia seguinte, jogando o moleque que havia quebrado a conexão num latão de lixo.
Assim, a linha nunca mais caiu. Nunca mais fui pego fumando. Mas, até hoje, quando acendo um cigarro, dou uma olhada ao redor, para ver se a Dona Ida não está por perto. Ou seja, a longo prazo, não sei se ela chegou a vencer, mas arrancou um belo de um empate.
No dia seguinte ao casamento, acordei cedo e fiquei deitado na cama, esperando meu corpo começar a desenrugar. Sem exagero, acho que terminei de me secar umas seis horas depois que acordei.
Enfim, para não perder a viagem, passamos o domingo juntos, na casa da amiga-noiva – o feliz casal iria viajar somente após o feriado, no dia 2. Assim, deu ao menos para matar a saudade, tomar meia dúzia de cervejas e dar (muitas) dúzias de gargalhadas.
Mas eu ficava o tempo todo de olho no céu.
A chuva parava e recomeçava, parava e recomeçava. Cada vez que ela parava, eu pensava: “amanhã volto para São Paulo”; aí, ela recomeçava, e eu me decidia: “vou morar no Espírito Santo”. Eu estava com uma passagem de volta para a manhã do dia 01. E, sinceramente? Seria avião ou nada. Eu não encararia 15 horas de ônibus novamente, era mais fácil achar um apartamento em Vitória e mandar o dinheiro da passagem para a Besta-Fera.
Assim, na manhã seguinte, me despedi dos recém-molhados na porta do aeroporto e fui para o balcão, fazer o check in. Assim como em São Paulo, o atendente era cheio de sorrisos. Ou seja, mau sinal.
– Seu vôo está atrasado, senhor.
– Ah. Que surpresa.
– É por causa da chuva.
– Qual seu nome?
– Rosbileno.
– Rosbileno, preste atenção. Aconteça o que acontecer, não vamos falar sobre chuva. É um pedido pessoal meu. Entendido?
– Sim, senhor.
– Obrigado. Mas o vôo está apenas atrasado, certo? Ele não foi cancelado?
– Ainda não.
– Ainda? Como assim, ainda não? Ele será cancelado?
– Nunca se sabe, senhor. Os dias aqui estão difíceis, por causa da... Do...
– Da chuva. Eu sei.
Mesmo assim, peguei minha passagem e fui para o portão de embarque.
O amigo-noivo já havia me avisado que o aeroporto de Vitória era ruim e pequeno, mas achei que fosse exagero dele. Não era. Nada contra o aeroporto só ter um portão de embarque. O problema é o portão de embarque fica estrategicamente (e extremamente) mal colocado. E eu, claro, só percebi isso tarde demais, quando um japonês me cutucou no ombro:
– Você está na fila?
– Sim.
– Do café?
Ok. Vamos dançar conforme a música.
– Que café?, perguntei.
– Na fila do café.
– Eu não sei do que você está falando.
– Você não está na fila do café?
– Olhe, eu só quero pegar um avião e ir embora para casa. Nada mais.
– Ah, achei que aqui era a fila do café.
– Não, aqui é a fila do avião.
Achei que ele fosse demente. Mas como ele foi embora logo em seguida, deixei para lá. Cinco minutos depois, uma mulher bate no meu ombro:
– Aqui é a fila do café?
É oficial: Deus do céu.
– Não, aqui é a fila do embarque.
– Você sabe onde é a fila do café?
– Que café?
Ela apontou para trás e eu finalmente entendi.
O portão de embarque fica a cinco metros de uma cafeteria. Ou seja, se três pessoas estão na fila do embarque e uma duas na fila do café, já começa a dar confusão. E, obviamente, eu estava bem no ponto médio entre o embarque o café.
Eu era o elo entre as filas: as duas terminavam em mim. Se eu continuasse virado para frente, talvez – e somente talvez – voltasse para São Paulo; se eu desse meia volta, e me virasse para o outro lado, conseguiria um capuccino em alguns minutos.
Assim, desisti de ficar na fila. Como meu vôo estava atrasado, simplesmente fiquei ao lado do portão de embarque, olhando o monitor e acompanhando o horário do meu avião.
De tempos em tempos, o monitor piscava e atualizava as informações sobre os vôos. Assim, a cada três minutos, o atraso do meu avião aumentava uns dez minutos. Por isso, todas as vezes nas quais a tela piscava, eu ficava olhando atentamente, tenso, esperando aparecer logo o CANCELADO ali e acabar com tudo. As pessoas do aeroporto deveriam achar que eu estava acompanhando alguma disputa de pênaltis ali.
Finalmente, apareceu o tão sonhado CONFIRMADO ali, ao lado do meu vôo. Eu iria para casa!
Peguei minha mala e me dirigi à sala de embarque. Tudo o que eu queria era me sentar num canto, sozinho e ficar lendo meu livro. Não consegui. Na verdade, eu consegui me sentar e consegui abrir o livro.
Mas ler? Impossível.
Como o tempo estava fechado, não eram todos os aviões que conseguiam pousar em Vitória. Assim, a cada avião que era bem sucedido na tarefa e aterrissava na frente da sala de embarque, as pessoas começavam a gritar “uhu! uhu! uhu!”, para celebrar. Sabe, aqueles gritinhos típicos de surfista ou de personagens de novela das sete?
Eu não estava mais no aeroporto de Vitória. Eu estava na sede das Linhas Aéreas Malhação.
Além disso, aqueles avisos que as pessoas falam no alto faltante de aeroportos não deixam ninguém ler. Você está ali concentrado, quase embalando no livro, e, de repente:
Dir péssengers. You cain imbarqui in de flait TAM Tu-Tre-Tu-Faive to Rio de Janeiro in de gueite Uãn.
Porque não pagam um Yazigi ou um CCAA para essas pessoas que trabalham em aeroportos? É impressionante como o inglês deles é o pior do mundo. Se você colocar um americano, um inglês e um australiano ouvindo aquilo, eles precisariam debater a frase durante uns dez minutos para tentar descobrir o significado do que a menina queria dizer.
Desisti de ler. Mas, por outro lado, eu ia para casa. E de avião. Guardei meu livro na sala e relaxei.
E esse foi meu erro.
Eu tenho um grande problema. Quando estou em algum lugar cheio de gente, eu fico observando as pessoas ao meu redor e pensando bobagens. Como eu sempre falo aqui, são os 20% do meu cérebro sobre os quais eu não tenho controle. E, quando estou com sono – eu estava caindo de sono – estes 20% derrubam o governo e declaram posse sobre meu cérebro.
Internamente, o processo não muda muito: meus olhos ficam percorrendo o ambiente, procurando pessoas estranhas, parecidas com algo ou alguém etc. A mudança, quando estou com sono, acontece externamente.
Eu não consigo segurar a risada.
E ali, naquela altura, eu já sabia que toda a minha viagem entraria no blog. Assim, eu comecei a olhar o redor, pensando no blog. Olhava para as pessoas e ficava brincando, pensando em como eu escreveria sobre elas, como elas entrariam no post.
Mas, com sono, eu não consigo segurar a risada.
Assim, comecei a vasculhar a sala de embarque. Meus neurônios, em festa, com aquela multidão ali. E eu olhando velhos e crianças, homens e mulheres, procurando por figuras atípicas. E correndo enormes riscos.
Porque, com sono, eu não consigo segurar a risada.
E foi numa destas vasculhadas que eu topei com uma mulher que conseguia a proeza de se parecer com o Vagner Love, do Palmeiras, apesar de ser branca. Até as tranças ela tinha, mas eram de outra cor. Na verdade, ela era igualzinha ao Vagner Love. Talvez só um pouco mais velha, por volta de uns 40 anos, mas igualzinha.
Na mesma hora, pensei em sacar o celular e tentar tirar uma foto, mas daria bandeira mais. Mesmo porque ela estava sentada bem de frente para mim. E ela também olhava ao redor pelo saguão, e conforme ela virava a cabeça para os lados, se tornava mais Vagner Love ainda.
A risada começou a querer a escapar. Tentei ficar na minha. Daria muito na cara. Foi aí que ela se virou parte do corpo para olhar para trás e eu vi uma tatuagem, feita de forma tosca no seu braço: IVO. Mas bem tosca mesmo, como aquelas feitas em cadeia. Meus neurônios começaram a gritar:
– Ela é uma terrorista, Rob! Ela vai explodir o aeroporto de Vitória!
Mordi o lábio e ordenei para que eles calassem a boca. Evidente que não fui atendido. Meu cérebro funcionava a todo vapor. Eu comecei a imaginar ela colocando bombas no aeroporto no banheiro do aeroporto. E esta tatuagem? IVO! Ivo... Intense Victory of... Pelo amor de Deus, existe algum país com O? Oman! Intense Victory of Oman!
Resolvi não olhar mais para ela e abaixei os olhos. Aí, a coisa desandou de vez. Ela estava de havaianas. Nenhum terrorista que se preze usa havaianas. Meu neurônios decretaram ponto facultativo. Naquele dia, ninguém mais trabalharia no meu cérebro, pois havíamos acabado de encontrar a primeira terrorista brasileira, com havaianas e a cara do Vagner Love.
A risada começou a escapar pelo canto da boca. Isso deve ter feito algum som, porque a velha ao meu lado começou a me olhar incomodada. E eu ali, mordendo os lábios e apertando os dedos dos pés, me esforçando para não cair no chão gargalhando.
Aos poucos, comecei a me acalmar. Fiquei olhando fixamente para a pista de pouco, ouvindo os “uhu! uhu!”e tentando afogar a risada em algum lugar do corpo. A minha sorte é que os meus neurônios ficaram quietos alguns minutos. Por outro lado, não gosto quando eles fazem isso – é sinal de que estão aprontando algo.
Dito e feito. Não dá um minuto, e chega um neurônio – provavelmente, enviado como emissário – e me chama:
– Rob?
– Oi, resmunguei baixinho.
– Nós estávamos ali pensando na terrorista.
– Eu não quero falar sobre isso. Não agora. No avião você me conta.
– É rápido.
– Eu vou rir?
– Não, claro que não. É que nós estávamos com um problema lá no seu cérebro.
– Qual?
– Como as havaianas a transformaram numa terrorista brasileira, não sabíamos mais o que fazer com a sigla IVO. Porque, você sabe, se ela é brasileira, não dá para usar o Omã.
– Sei.
– Então, chegamos à outra saída.
– Eu não quero ouvir.
– Nós descobrimos que IVO, na verdade, significa "Impenhados nas Vitória de Osasco".
E o filho da puta disse isso e saiu correndo de volta para o cérebro.
Eu não agüentei. Coloquei as mãos no rosto, tapando o máximo que conseguia da boca, dos olhos, e comecei a gargalhar. A velha deve ter achado que eu era realmente louco. Na verdade, eu também achava. Eu não tinha controle sobre minha risada, mas, apesar (ou justamente por causa) disso, eu conseguia apenas pensar: eu sou doente.
Mas tudo piorou de verdade quando eu me acalmei, e respirando fundo, com lágrimas nos olhos, me sentei direito novamente.
A terrorista de Osasco olhava fixamente para mim, com a expressão “você está rindo de mim, né, seu filho da puta?” no olhar. Tive vontade de rir de novo. E, para piorar, um dos neurônios ainda gritou lá de dentro:
– Cuidado, Rob! Ela pode ter uma bomba!
Começou tudo de novo. Ela poderia ter uma bomba, mas quem iria explodir era eu. E, pior, logo em seguida eu iria apanhar. Era tudo o que eu precisava para terminar a viagem: apanhar em público de uma sósia do Vagner Love.
Mas fui salvo pelo gongo:
Dir péssengers, di fláit GOL Uãn-Siquis-Êit-Tu tu São Paulo is rédi tu embarqui. Procidi to di gueite tu.
Era o meu vôo.
Assim, com calma, e sem fazer movimentos bruscos para evitar que a risada escapasse, peguei minhas coisas e caminhei para o portão. E rezando para ela não embarcar no avião e se sentar ao meu lado – porque é o tipo de coisa que aconteceria comigo.
Foram quinze horas de viagem de ônibus. Espírito do Rogério no quarto. Água na altura da cintura, e não consegui ir ao casamento.
Nada disso importava mais.
Me sentei na janelinha – eu adoro me sentar na janelinha, sou criança mesmo – e vim gargalhando (o termo é esse mesmo, eu gargalhava) de Vitória até São Paulo. Pensando na Vagner Love, pensando na viagem como um todo, nas piadas e histórias que isso renderia.
Às vezes, mais importante que a viagem, é o modo que você se sente quando volta para casa.
Ou, ao menos, tentando passear, já que não parava de chover. E não estou falando de garoa, estou falando de chuva. Água mesmo, de verdade. Vocês se lembram daquilo que as professoras de ciências falavam no primário, que a água evapora dos rios e volta para a Terra em forma de chuva? Em Vitória, ela aparentemente levou para o lado pessoal essa coisa de ser obrigada a evaporar, porque resolveu voltar com reforços.
Resumindo, o mundo caía ininterruptamente.
Independente disso, às 19:00, lá estou eu, belo e pimpão, na porta da igreja. Terno e gravata, como manda o figurino.
A cerimônia? Foi linda. Aliás, eu tenho um ponto fraco: sempre me emociono quando a noiva entra. Se bem que é compreensível, já que tudo conspira para isso: a música, as pessoas se levantando... Não adianta, é o momento dela. E eu me emociono demais, acho tudo muito lindo. Provavelmente, no dia em que eu me casar, vou esperar a noiva de costas no altar, para não dar vexame logo aos 2 minutos do primeiro tempo.
Mas claro que eu não preciso estar no altar para dar vexame.
Missas – sejam elas de casamento ou não – têm códigos de conduta que eu nunca consegui aprender. Eu nunca sei quando é para sentar, quando é para levantar. Ou seja, eu faço sempre o que os outros fazem. Obviamente, por último. Claro que isso não me atrapalha na hora de levantar, mas, como eu sou sempre o último a me sentar, todos na igreja percebem isso.
Mas o pior mesmo é quando é preciso falar algo.
O padre diz uma coisa, e todo mundo responde algo como "Ele está no meio de nós". Eu tenho certeza de que todo mundo está seguindo um roteiro, menos eu, porque ninguém me deu uma cópia na entrada. E, claro, fico com a sensação de que todos os presentes (ou, ao menos, todas as mulheres de 60 anos ou mais, aquelas que comparecem à missa todos os domingos) estão olhando fixamente para mim e analisando meu desempenho.
Assim, eu tento disfarçar, para não dar bandeira. Quando o padre fala algo que todo mundo responde um “Ele está no meio de nós” ou um “Seja feita a Sua vontade”, eu disfarço soltando um “mum mum mum mum”. Ou seja, é só para mexer a boca mesmo. Mas Deus sabe que meu mum mum mum mum é sincero e de coração, tenho certeza.
Enfim, alguns “senta e levanta” e um punhado de mum mum mum mum depois, a cerimônia acabou. Partimos em direção ao buffet, onde seria realizada a festa. Eu, numa van, junto com a família da amiga-noiva.
E a chuva não parava. Pelo contrário, ela ia piorando a cada minuto.
Conforme a van percorria a cidade, eu comecei a perceber que as poças de água nas ruas eram maiores do que deveriam ser. Na verdade, elas não eram poças, mas sim pequenos lagos. Tinham metros. Mesmo assim, achei que era algo normal, pelo volume de água que caía.
Entretanto, aos poucos, as poças começaram a se unir. Ao invés de uma rua ter, por exemplo, dezenove poças, ela não tinha poça nenhuma. Porque não existia rua. Havia apenas água.
Mas comecei a me impressionar quando percebi que a água estava começando a cobri as rodas dos carros ao lado da van.
Minutos depois, o motorista parou a van e resmungou algo "como não dá para ir por aqui". Estiquei o pescoço e olhei à frente. Cerca de 50m à nossa frente, havia um mar. Me senti como um hebreu fugindo do Egito e dando de cara com o Mar Vermelho – a diferença é que, desta vez, não tinha nenhum Moisés na van. Olhei no chão do carro, procurei entre os bancos: nem um cajado nós tínhamos.
A solução foi tentar buscar outro caminho. Mas não conseguimos: Vira aqui? Água. Vamos tentar por trás da praça? Água. E se pegarmos aquela rua de trás? Água. E não estou mais falando de 30 ou 40 cm. Estou falando de um metro de água – em alguns lugares, mais que isso.
E a água não parava de subir.
Comecei a ficar assustado de verdade. Eu sou totalmente inexperiente com enchentes, o mais perto que cheguei delas foi via Jornal Nacional – e, mesmo assim, nunca era de perto, somente em filmagens feitas de helicóptero.
Não sei o que me assustava mais: a altura da água ou a velocidade que ela subia. Não, minto. O que mais me assustava era que ela não parava de subir. Olhei para trás: na van, estavam a avó da noiva, uma mulher com um bebê de colo... E a água subindo. Implacavelmente. Carros começaram a enguiçar ao nosso lado. Tudo o que eu conseguia pensar era "fodeu". E a água subindo.
E, novamente, tenta aqui, vira ali, e aquela outra rua? Água. Muita água. E a chuva apertando. Pessoas começaram a subir em pontos de ônibus, objetos boiavam pelas ruas. Objetos! Não eram sacos de pão e garrafas de plástico, eram lixeiras.
A única alternativa foi estacionar num lugar um pouco mais alto para esperar a chuva passar. A ironia é que estávamos a menos de um quilômetro do buffet, mas era impossível chegar lá.
E eu, evidentemente, desesperado para fumar.
Claro que se acendesse um cigarro ali, iniciaria um motim na van-barco. E tudo o que eu não precisava era aparecer no Jornal Nacional, no meio de uma matéria sobre as enchentes do Espírito Santo, andando vendado sobre uma prancha colocada na janela da van e sendo obrigado a pular na água - e, como eu sou eu, evidente que haveria tubarões naquela região.
Aparentemente, um dos tios da noiva estava com o mesmo problema que eu, e, assim que a van estacionou, saltou para fora e correu (já fumando) para baixo de uma marquise.
Não tive dúvidas. Fui atrás. Logo em seguida, o pai da noiva se juntou a nós. Assim, voltamos à uma época onde o mundo era mais fácil, com os papéis mais definidos: os machos olhavam o perigo de perto, e, na ausência de uma caverna, as fêmeas e crianças ficavam abrigadas dentro da van para se proteger. Ou para não desmanchar o cabelo com a chuva.
O motorista da van, para evitar confusões sobre sua sexualidade, logo se juntou a nós.
E foi ali, em pé, olhando uma antiga rua, agora rio, que eu vi cenas assustadoras a poucos metros de mim.
Uma delas foi uma pessoa andando com água na cintura. Fiquei assustado de verdade, porque se a água está na cintura das pessoas normais, é sinal de que ela estaria no meu pescoço. Foi aí que eu percebi que, numa enchente, eu sempre serei o primeiro homem adulto a morrer. Ô fase.
Mas o mais assustador de tudo foi quando um casal simplesmente emergiu da água, ele de terno e gravata, ela de vestido fino, como se fossem o Sr. e Sra. Monstro da Lagoa Negra.
Não sei se eles haviam chegado até ali nadando, ou de submarino. Sei apenas que, quando eu vi, a dupla estava tentando desesperadamente sair da água antes de serem carregados pela correnteza. E nós não podíamos fazer nada.
Felizmente, o casal escapou e veio em nossa direção. E foi aí que o sujeito explicou que eles também estavam tentando chegar à festa, mas o carro havia quebrado. Assim, haviam decidido, então, esperar dentro do veículo, mas mudaram de idéia quando o carro, nas palavras dele, "começou a boiar e ser levado pela correnteza".
Era o apocalipse. Literalmente falando. Se vocês viram o que aconteceu no Espírito Santo em algum outro noticiário, acredite em mim: o que você viu não faz jus. E não porque essa foi a maior enchente da história, mas porque agora eu sei que ver este tipo de coisa pela TV é absolutamente ridículo e insignificante em comparação a ver ali, in loco, com os pés na lama, e preparando-se para subir num muro ao menos sinal de perigo.
Juro que eu esperava, em algum momento, começar a ouvir a maldita música do Titanic ecoando pela cidade e dar de cara com o Leonardo Di Caprio boiando em alguma rua. Porque a cidade não estava alagada, ela estava naufragando. Faltava apenas o iceberg.
Entretanto, é evidente que eu também presenciei cenas que demonstram que, mesmo durante uma tragédia, a humanidade não deu certo. O que leva uma pessoa a andar no meio de uma enchente, com a água batendo na cintura, e ainda assim usar um guarda-chuva para se proteger da chuva? Aposto que esse é o tipo de pessoa que, quando começa a chover, mergulha numa piscina para não se molhar.
Aliás, Vitória enfrentava o Apocalipse literalmente falando. Como era noite de Halloween, algumas pessoas haviam se aventurado pela cidade, fantasiados de criaturas sobrenaturais. Acreditem em mim: estar numa cidade alagada, com vários trechos sem luz e árvores caídas, e ainda por cima dar de cara com três sujeitos vestidos de zumbi é algo que coloca qualquer filme do George Romero no chinelo.
Mas o melhor da noite foi um cara que havia saído vestido de Jesus Cristo. Sim, Jesus Cristo, versão A Paixão de Cristo, com coroa de espinhos e marcas de chicotadas nas costas. Faltava apenas a cruz. No momento em que eu o vi, quase fui pedir ajuda, gritando algo como
– Você anda em cima das águas, eu me lembro de ter lido isso na Bíblia! Ajude a gente a chegar à festa do casamento, é logo ali!
Mas fiquei quieto, claro. Afinal, não sei o que quanto o pessoal que estava na van comigo era religioso, poderia dar confusão. Eu já havia escapado de andar na prancha por causa do cigarro, não iria querer começar uma guerra santa ali e ter que andar na prancha por heresia.
Bobagens à parte? Ficamos parados cerca de uma hora ali.
Logo em seguida, chegou outro carro – mais alto e resistente – para buscar os pais da noiva.
A promessa era que ele os levaria lá e voltaria para nos buscar. Eu, obviamente, me comportei e decidi esperar minha vez. Por segurança, eu deveria estar na primeira viagem, já que eu era o mais baixinho – acho que eu só perdia para o bebê – o que é relativamente importante quando você está num lugar onde a água está subindo.
Na verdade, eu tive o impulso de fazer como o Billy Zane em Titanic: arrancaria o bebê das mãos da mãe, e gritaria que era o meu filho para conseguir um lugar no outro carro. Mas não daria certo, porque todo mundo conhecia o bebê. Ou seja, eu escaparia da prancha pelo cigarro e pela heresia, mas seria obrigado a andar na prancha por falsidade ideológica.
Achei melhor ficar quieto e esperar o carro voltar.
O carro não voltou. Esperamos, esperamos e nada.
Fiquei sabendo, depois, ao deixar a porta do buffet, a água já fazia ondas por cima do capô.
Assim, decidimos voltar ao hotel, para esperar a água baixar. Tentamos várias vezes voltar lá, com a van mesmo, mas não conseguíamos de jeito nenhum. Aos poucos, as pessoas foram desistindo.
Menos eu. Tentei, com o sujeito do van, até as 2:30 da manhã. E eu olhando para as casas, procurando por um colchão de ar ou uma daquelas bóias de braços que as crianças usam – ou mesmo aquela de patinho. Nada. Malditos infláveis Lídice, nunca aparecem quando você precisa deles.
Entreguei os pontos.
– Vamos dar mais meia hora e tentar?, o motorista perguntou.
– Não. Não vai dar. Daqui a pouco eles estão fazendo bodas de prata e nós ainda estamos aqui.
Foi uma piada (ele riu) mas foi amarga. O gosto na minha boca era bastante amargo.
Muita gente não conseguiu ir à festa. Os pais do amigo-noivo não chegaram à festa, e isso é algo que, provavelmente, jamais será esquecido.
E eu não tenho aqui a pretensão de comparar a minha frustração com a deles.
Mas a minha frustração foi muito grande. Eu brincava com as pessoas ("vim pensando no uísque a viagem inteira"), mas era tudo muito amargo.
Outro dia alguém me disse, ou comentou aqui no blog, não lembro: “eu gosto da maneira que você encara as coisas”, se referindo à minha capacidade de fazer piada de tudo. Desta vez, eu estava fazendo piada porque liguei no modo automático, e é assim que ele funciona. Em algum momento, em alguma tentativa frustrada de chegar à festa, eu pedi arrego.
A cidade estava alagada, mas quem transbordava era eu. Eu transbordava frustração.
Foram quinze horas de ônibus. Quase 24 horas em jejum. Dor nas costas, sono atrasado. Eu, literalmente, me fodi para chegar àquela festa.
E não consegui. Atravessei dois estados e parei a 500 metros dela, sem conseguir chegar.
Acho que só segurei o choro porque tudo o que aquela cidade não precisava era de mais água.
Mas voltei ao hotel certo de que, naquele momento, a vida estava me ensinando algo que eu jamais conseguiria entender. Ou, ao menos, que eu ainda não estava pronto para entender.
Entrei no meu quarto e comecei a tirar o terno, me sentindo como um garoto da 1ª série, sentado numa sala da aula, observando a Vida, vestida de professora escrevendo na lousa, tentando me ensinar a resolver equações do segundo grau. Eu jamais entenderia aquilo.
Fiquei quase quinze minutos sentado no sofá do quarto, com a camisa aberta e sem sapatos, pensando em qual seria a lição de tudo isso – porque eu sei que deve ter uma – e não consegui nem começar a entendê-la.
Os noivos sabem que fiz de tudo para chegar. Eu sei que eu fiz de tudo para chegar.
Não importa.
Por tudo o que essas duas pessoas significam para mim, toda vez que eu me lembrar disso, vou me perguntar se eu não deveria ter tentado mais uma vez, lá pelas 3 da manhã.
Daria certo? Eu conseguiria? Evidente que não. Mas eu vou passar o resto da vida me perguntando se eu não poderia ter feito um pouco mais, se eu não poderia ter tentado uma última vez, sempre que me lembrar dessa história.
Porque eu devia isso a mim. E, mais importante ainda, eu devia isso a eles.
Aos noivos: o casamento de vocês é muito abençoado. Porque um casamento que nasce com uma história dessas precisa ser diferente, especial. E eu vou fazer uma promessa pública aqui: mesmo sem ter conseguido ir à festa de vocês (ou melhor, justamente por causa disso), prometo que, sempre que algo ameaçar fazer água por aí (seja literal ou metaforicamente), eu prometo que ajudarei a colocar as cadeiras em cima da mesa e a arrastar os móveis. Prometo.
É o mínimo que vocês dois merecem de mim, "beachos".