28 de novembro de 2009

Let There be Rock!

Shows de rock – ou, ao menos, os bons – começam na fila. Existe uma regra não oficial que aponta que, quanto mais pessoas estranhas você na fila do show, melhor será o espetáculo. Partindo desse princípio, o show do AC/DC em São Paulo seria inesquecível, já que a fauna que habitava a fila do Morumbi era bem diversa.

Claro que 90% das pessoas que estavam ali eram pessoas normais: roqueiros trajando camisetas pretas e calças jeans, que esperavam apenas ver seus ídolos. Mas, como todo bom show de rock, o público apresentava algumas pessoas totalmente abandonadas por Deus.

Sério, não entendo o que leva algumas pessoas se fantasiarem para ir a shows. Enquanto eu estava na fila, enxerguei uma dez pessoas que se vestiam como se morassem na Los Angeles dos anos 80: calças de couro, botas de cowboy, correntes penduradas em todas as partes do corpo e (obviamente), cabelos com laquê. Muito, muito laquê. Sem exagero, alguns davam a impressão de ter usado Vaporeto para empestear o cabelo com laquê.

Um grupinho, em especial, me chamou a atenção: eles andavam sempre juntos, como se fosse uma espécie de Poison dos pobres, pedindo moedas na fila para comprarem ingressos. Partindo do princípio que eles eram três, e que o ingresso na mão dos cambistas não deveria sair por menos de R$ 500,00, a tarefa deles era inglória – e isso sem falar no mico que pagavam.

Ou seja, a fila dava sinais de que o show seria inesquecível. Mas, cá entre nós, estamos falando de AC/DC. Ou seja, independente do que fosse possível avistar na fila, seria inesquecível de qualquer jeito. E qualquer dúvida disso se dissipou quando, por volta das 17:00, o céu começou a se fechar e um trovão ensurdecedor ecoou. A multidão, já no clima, não perdeu tempo e respondeu em uníssono:

– THUNDER!

Ou seja, até São Pedro estava ansioso pelo show.

Infelizmente, São Pedro exagerou na empolgação e, poucos minutos depois – logo que os portões se abriram – começou a chover torrencialmente em São Paulo. Eu, Sra. Gordon e todos que estávamos na fila colocamos, imediatamente, aquelas capas de chuva ridículas que são vendidas na porta do estádio. Quem visse de longe imaginaria que um exército de camisinhas marchava para dentro do estádio. Assim como aconteceu no show do Iron Maiden, no Pacaembu, São Paulo havia se transformado numa espécie de Vietnã.

E, para completar, quando entramos no estádio o sistema de som estava tocando November Rain, já que sarcasmo pouco é bobagem.

Assim, passamos o resto da tarde nos adaptando ao clima. Começava a chover, colocávamos as capas; parava de chover, tirávamos as capas, porque a temperatura ambiente dentro delas é de mais ou menos 40 graus.

Enquanto isso, o Morumbi ia lotando. Ondas de pessoas entravam no estádio, tanto para a pista, como para as arquibancadas. Por volta das 20:00, já era quase impossível transitar pelo local.

Mesmo assim, muita gente (provavelmente por causa do trânsito) perdeu o show de abertura, com Nasi e Andreas Kisser. A apresentação foi legal, mas curta, com cerca de meia dúzia de músicas (a maioria covers) e sem direito a telões, que permaneceram desligados. Os dois são figuras extremamente respeitadas pela platéia, mas, cá entre nós: shows de abertura nunca empolgam a platéia. As luzes se apagam, todos se levantam, mas, na segunda ou terceira música, metade do estádio está sentada novamente.

Assim, no momento em que Nasi deixou o palco, a platéia começou a entoar:

– Olê, olê, olê! Ei ci! Di ci!

Tudo bem, como festa era válido. Mas ninguém percebia que “olé” e “di ci” não rimam? Porque não fazer como o resto do planeta, e fazer coros de “Angus! Angus!”? O resto da banda não iria se ofender, afinal, eles mesmo vendem o guitarrista como símbolo do grupo.

Porque, cá entre nós: a banda conseguiu transformar a “marca” Angus Young em algo tão forte quanto a marca “AC/DC”. Sua figura, com seu terno, shorts e boina, correndo pelo palco enquanto toca, é uma das imagens mais emblemáticas da história do rock. E a banda usa isso – muito bem – a seu favor. Angus Young é o cartão de visitas do grupo: ele é guitarrista, mas também é capa de disco, é decoração de palco.



Dessa forma, não é todo dia que você pode assistir a um show de um dos maiores grupos da história, e, ao mesmo tempo, um dos maiores ícones de todos os tempos. Não é à toa que o Morumbi começou a tremer (literalmente, quem estava na arquibancada sentiu) quando as luzes se apagaram e a animação que abre o show começou a ser exibida no telão.

Mas o que chamava a atenção de verdade era o mar de pequenas luzes vermelhas na platéia. Milhares de chifres vermelhos, que eram vendidos na porta do estádio, piscavam na pista e nas arquibancadas.

O Morumbi havia se transformado numa espécie de inferno. E, curiosamente, os milhares de demônios presentes estavam ali para assistir nada menos que cinco deuses.

Sim, o termo é esse: deuses. Esqueça bandas de rock com integrantes lindos e que fazem música para vender. A palavra de ordem no AC/DC é autenticidade. O grupo executa o mesmo tipo de som corajosamente há décadas, sem jamais se vender. Talvez seja a única banda de hard rock que não possui sequer uma balada, já que os temas de suas canções são, normalmente, sexo fácil, dinheiro fácil e bebida fácil. Se o rock pode ser resumido à curtição, AC/DC é o maior exemplo.



E, quanto à aparência... Bem, enquanto as bandas da geração MTV se preocupam em ser cada vez mais fotogênicos, os australianos dão tanto valor à sua imagem quanto um mendigo. Fora que são todos maravilhosamente feios: Brian Johnson, com sua boina, está cada vez mais parecido com Stenio Garcia em Carga Pesada; já Angus Young não tem problema nenhum em exibir a careca, e, conforme seu cabelo começa a ficar molhado de suor ele fica a cara do Gollum, de O Senhor dos Anéis.

E isso não é ofensa: ele não está ali para ser bonito ou causar suspiros nas meninas. Ele está ali para tocar.

E isso, ele faz como ninguém.

Quando a banda entrou no palco, o Morumbi explodiu. Mesmo. Abrindo com Rock N’ Roll Train (do excelente disco novo) e emendando com Hell Ain’t a Bad Place to Be, Brian Johnson, Malcolm Young, Cliff Williams e Phil Rudd – desnecessário citar Angus Young nessa frase – levaram à platéia à loucura.

E foi logo no começo do show que Johnson cometeu uma das gafes mais deliciosas que eu vi num show. “Nós não falamos bem ‘brasileiro’, mas falamos rock’n’roll”. Não deu nem tempo de rir. Quando o famoso riff inicial de Back in Black começou a tocar, ninguém mais falava brasileiro ou português ali. Aliás, ninguém falava no estádio.

As pessoas apenas urravam.

Porque, cá entre nós, não há outra forma de reagir quando você percebe que está vendo o AC/DC tocar Back in Black na sua frente.

E algum mais desavisado que acha que AC/DC se resume somente a Back in Black se enganou totalmente, porque, a partir daí, o show apenas melhorou. Alternando sempre músicas novas como Big Jack e clássicos do nível de Dirty Deeds Done Dirt Cheap, os australianos deram uma aula de como se faz um show de rock.


Tudo, absolutamente tudo, é calculado para levar à platéia à loucura, desde a movimentação dos músicos – que incluía corridas de Angus e Johnson pela passarela que cortava a pista, que demonstra um preparo físico invejável – aos gritos do vocalista, conclamando a platéia a cantar junto com eles.

Aliás, os momentos chaves do show também são escolhidos a dedo. As músicas que farão o estádio tremer, como Thunderstruck, Hell Bells (que inclui um pique de Brian Johnson, antes de se pendurar no famoso sino, que deixaria muito jogador de futebol com inveja) e You Shook Me All Night Long são colocadas dentro do set list em posições friamente calculadas para não ficarem muito próximas umas das outras, mantendo a qualidade do show constantemente no alto.

E, entre um ou outro grande sucesso, dá-lhe clássicos, como Shoot to Thrill e The Jack, com direito ao tradicional strip-tease de Angus, que deixa claro que aquelas cinco pessoas em cima do palco estão se divertindo tanto quanto (ou mais) que a platéia. Aliás, essa é a magia do AC/DC. A banda não é burocrata, toca com (e por) tesão. Muito tesão.

E a primeira parte do show termina com um solo de Angus, em meio a (também clássica) Let There Be Rock, que deixou claro ao público que aquela não era uma noite comum, e o show do AC/DC não é um show comum. Esqueça a pirotecnia (chuva de papéis picados, plataformas que se elevam do palco). O que importa é Angus Young.

Sou veterano de shows e já vi vocalistas comandarem estádios inteiros com apenas um grito. Angus vai além: ele comanda a platéia sem abrir a boca. Ou melhor, ele conversa com a multidão por meio de sua guitarra. Ele faz a platéia gritar o que (e o quanto) ele quiser escolhendo acordes e gestos para isso. E a platéia responde, sem ter dúvidas do que o ídolo quer. E ele corresponde, tocando correndo, tocando deitado, tocando com uma mão, sempre exibindo caretas que deixam claro que ele não está nem aí com as fotos que sairão nos jornais, no dia seguinte. Angus Young é praticamente um solo de guitarra que ganhou vida.

Pausa para respirar, e o bis abre com Highway to Hell (que, assim como Back in Black, dispensa quaisquer apresentações) e se encerra com For Those About to Rock, com direito aos clássicos canhões disparando salvas de tiros em homenagem às milhares de pessoas presentes. E, assim, sem mais nem menos, a banda deixa o palco, sem se preocupar em fazer demagogias com bandeiras brasileiras, ou fazer apologia do Brasil, dizendo o quanto o país é bonito e o quanto o público é especial.



Porque, sejamos sinceros: dizer que o público é especial, que a cidade é maravilhosa e que as pessoas ali são lindas é frescura. Mas o rock não tem lugar para frescuras, e o AC/DC parece ser uma das poucas bandas a se lembrar disso. Ao final do show, a sensação que fica é a de que você vai sair do estádio e encontrar os sujeitos tomando cerveja no bar da esquina.

Realmente, it’s a long way to the top if you wanna rock n’ roll. E o AC/DC está no topo, há muito tempo. E, o que é melhor, sem precisar deixar de fazer rock (puro, simples e delicioso) para isso. Esteja onde estiver, o falecido Bon Scott está orgulhoso dos rumos que sua banda tomou.

E o público que esteve ontem Morumbi está até agora tentando compreender o que foi exatamente aquilo que assistiram ontem. Porque foi mais que um show. Foi muito mais que um show.

Assim, finalizo com o meu Top 5 Shows Inesquecíveis (atualizado):

1. Iron Maiden – 2008, Parque Antárctica. O show do AC/DC foi absurdo, mas, nesse caso, o lado sentimental pesa mais. Afinal, estamos falando de Rime of the Ancient Mariner, Powerslave e Aces High.

2. AC/DC – 2009, Morumbi. Graças a tudo que você leu aqui.

3. Metallica – 1994, Parque Antárctica. Uma banda no auge, antes de se render à mídia. Talvez eu não vá em janeiro, para não estragar a lembrança deste show.

4. Judas Priest – 2005, Arena Skol – O termo Metal Gods não foi criado por acaso, acredite em mim.

5. Ozzy Osbourne – 2008, Parque Antárctica – A sensação de ver Ozzy cantando War Pigs é a mesma de ver AC/DC tocando Back in Black. É um pedaço da história acontecendo na sua frente.

(crédito das fotos: Ig)

15 comentários:

Eduardo disse...

Parabéns,
A sua resenha foi perfeita em relação ao show, uma verdadeira aula de Rock and Roll, com muito peso, adrenalia e alta voltagem!!!!!
Um abç
Outro amante da boa música
Eduardo

leonardo disse...

Metallica, foi 1993 quando alugamos o onibus para irmos todos da rua, do colegio, de sao caetano....

Hally disse...

Se inveja matasse eu tava morta à esta altura... Mas esperança de fã não morre nunca, ainda verei isso de perto.

E a resenha me fez chorar, por vários motivos, mas o maior é que eu queria ter estado lá.

Leonor disse...

SEN-SA-CIO-NAL...é essa a palavra q define o show do AC/DC...
Seu post, como sempre, ótimo...
Qto ao top 5, tirando Metallica, fui em todos, amei todos, mas o do AC/DC foi, pra mim, o mais esperado, desde sempre...

Vinicius disse...

É engraçado como eu fico ansioso por resenhas suas de shows aos quais eu fui também. Aliás, o que me trouxe ao seu blog foi justametente a resenha de 2008 do Iron (o fato de eu permanecer leitor são outros 500). Acho que quando eu releio suas resenhas, a sensação que eu tive na hora do show volta. Enfim, O SHOW de ontem foi fodástico. É a palvra que talvez mais se aproxime a sensação de ver aquele espetáculo ocorrendo na sua frente. Como eu disse no post anterior, amo Iron, mas não consigo deixar de achar esse show o melhor da minha vida. O único grande problema que terei com shows daqui em diante é que nenhum deles terá chance na comparação, que sempre será inevitável.
Abraço!

Varotto disse...

Já estava esperando sua resenha sobre o show.

Para falar a verdade, eu lembrei de você na hora do show e quase te liguei (só para, obviamente, ser ignorado, já que isso não é hora de ficar ligando pra ninguém).

Muitos criticam o AC/DC por ser o feijão com arroz do rock. E é mesmo. Mas, certamente, é um dos feijôes com arroz mais bem preparados que você já comeu na sua vida.

E já que você citou "It’s a long way to the top if you wanna rock n’ roll", é uma pena que eles não toquem mais essa nos shows, porque também é um hino.

P.S.: O Bon Scott não sabe o que está perdendo...

Matheus disse...

fui pra fila 8:30 da manhã, e realmente tinha todos os tipos de pessoas la! consegui pegar um lugar bem perto do palco, muito bom! o show nao preciso nem de comentar! cada linha que eu li dessa resenha eu arrepiei..

AC/DC da um tapa na cara de bandinhas de rock que se vendem e acham q tocam bem!

Thunderstruckz disse...

É meu rapaz... faltou falar de nossa tesuda Rosie... sem ela o Ac/Dc fica incompleto...

Eu estava lá, vi a Bambinera balançar mais que o trem de Francisco Morato, foi com certeza o maior espetáculo da minha vida... só não concordo com deixar Iron em primeiro...

milena disse...

Parabéns, você contou cada detalhe, cada segundo do show.. !!

May. disse...

Queria mesmo ser fã assim de algo pra saber como é. Mas acho que é bom eu não ser, eu sou mole. Com certeza, eu iria até o show, mas não veria nada de tanta emoção.

Matheus Carvalho disse...

puta que pariuuu... a dor de nao ter ido ao AC/DC é infinita bicho... putssss... queria poder voltar no tempo... =/

se eu soubesse que ia me arrepender tanto de nao ter ido eu teria comprado uns 3 ingressos...

cássio disse...

Ótima resenha sobre o show!! Estou indo para a Argentina ver tudo outra vez!!! Para quem tem orkut olhem essas fotos
http://www.orkut.com.br/Main#AlbumList?rl=ms
No facebook
http://www.facebook.com/home.php?#/profile.php?ref=name&id=1830515632

Só não morram de inveja!!
Abraço

Cidadão Entretido disse...

Perfeito embora a classificação de "excelente" para o disco novo talvez seja culpa do calor de São Paulo ou da ressaca de ver a banda ao vivo.

Quando muito é ok.

Claro que um ok deles é excepcionalmente melhor que 90% do que existe no mundo mas ainda assim...

Dragus disse...

Não sou fã como você, mas lamento muito o Rio de Janeiro estar de fora dos grandes shows desde há algum tempo...

Sinto saudades do Iron no Rock In Rio 2001. =)

Ana disse...

Ir em shows é uma das razões às quais me fazem levantar todos os dias e ir trabalhar p/ ganhar $.
P/ ter descargas de adrenalina, tem gente q curte esportes radicais, tem gente q assalta bancos, tem gente q faz roleta russa no farol, tem gente q responde p/ a síndica do prédio do Rob Gordon. Eu vou em shows.
Mas claro, não pode ser qualquer show. Tem que ser O show. E o show do AC/DC se enquadra perfeitamente nessa categoria. Foi só adrenalina. Lindo, emocionante, vibrante, c/ o Angus detonando a guitarra. Aliás, o Angus podia ser um serial killer ou algo assim, já q ele tem uma cara de physico que noooossa, mas resolveu ser guitarrista. Ainda bem porque ver ele tocar ao vivo (na verdade eu já tinha visto da outra vez q eles vieram ao Brasil) é um privilégio.
Ah! E só p/ o Rob ficar morrendo de inveja - vc não foi no Faith No More né? - o show do Faith No More no Maquinaria foi um dos melhores da minha vida! E esse eu tbém já tinha visto em 92.
Demonstrações do bom e velho rock'n'roll fazem a vida valer a pena. ;)