23 de março de 2018

Sobre Meninos e Lobos


Se tem uma coisa que eu descobri com a paternidade é que eu me torno uma pessoa melhor quando canto para meu filho. Claro que eu não fico parado na frente do carrinho fazendo apresentações de música e dança para ele... Bom... Ok. Já fiz isso algumas vezes. Mas eu quero falar mesmo sobre eu cantar para ele dormir.
Meu filho é daquelas crianças que luta contra o sono. O quebra-pau é visível: ele está morrendo de sono, mas não quer dormir, então começa a ficar bravo. Aí que ele não dorme mesmo, independente do sono aumentar.
Encontramos algumas maneiras de lidar com isso, e uma delas envolve em eu cantar para ele. A parte operacional é fácil: eu o pego no colo, deixo ele bem aninhado e começo a andar pela casa. No começo foi tranquilo. Eu normalmente usava Beatles. Ia cantando baixinho, e ele ia sossegando até começar a fechar os olhos – aí eu usava minha arma secreta (Something) e dava o golpe de misericórdia.
Mas, de repente, meu repertório de Beatles começou a perder o efeito. Something ainda é bem eficaz, mas as outras não estavam ajudando. Aí experimentei Chico Buarque – e descobri uma nova arma secreta: Acalanto.
E Chico Buarque também funcionou durante um tempo. O problema é que todas as músicas que sei de cor do Chico são da fase Construção, e comecei a me sentir meio mal em colocar meu filho para dormir ao lado de pessoas que morreram na contramão atrapalhando o tráfego ou que tiveram mães que o ninaram com cantigas de cabaré.
Aí abri o leque. Fui para rock nacional, para blues, para outras coisas de rock clássico... Só deixei heavy metal de fora. Eu consigo transformar She Loves You em algo com uma sonoridade delicada, mas é impossível fazer isso com músicas como Orgasmatron ou Symphony of Destruction.
Todas essas músicas tiveram efeito, mas não tanto quanto o Beatles que usei no começo. Então, decidi seguir o caminho óbvio e fui para canções infantis.
O problema é que eu não lembro quase nada de músicas infantis. A única coisa que eu recordava era que a maior delas era sempre estrelada por animais – e, bem, eu tenho 42 anos, então é provável que todos esses bichos dessas cantigas já morreram de velhice. Se bobear, até mesmo suas espécies foram extintas.
Mas, enfim, comecei a puxar algumas pela memória. Comecei com Escravos de Jó, que jogavam o tal caxangá – eu nunca soube o que era caxangá, mas aquele lance do tira, põe, deixa ficar, sempre me pareceu meio pornográfico. Mas ignorei isso e cantei.
Depois fui para O Cravo e a Rosa e comecei a reparar em detalhes que nunca tinha percebido. Você já reparou na violência dessa música? Eles brigam, e o Cravo sai ferido, mas a Rosa aparentemente leva a pior, porque saiu despedaçada. Veja bem, ela não sai com o caule arranhado, com uma pétala amassada... Não. Ela sai despedaçada!
Assim que eu percebi isso, comecei a imaginar uma versão do Cravo e a Rosa dirigida pelo Tarantino, com um final onde o Cravo perde completamente o controle, arranca a Rosa da terra e começa a rasgar suas pétalas gritando histericamente.
Mas fiquei curioso e fui pesquisar o resto da letra. Descobri que depois disso o Cravo fica doente, a Rosa vai visitá-lo, e aí um dos dois chora e parece que eles se entendem e acabam se casando.
Olha, eu não tenho nada a ver com a vida da Rosa, mas alguém podia avisar a ela que não é inteligente casar com alguém que despedaçou você na última briga? Isso com certeza deve valer também para flores. Terminei de ler com a certeza que a música acaba no casamento só para não se tornar uma história de violência doméstica, daqueles que a gente vê no Datena quando já é tarde demais. Eu não iria me surpreender se um dia descobrissem a letra inteira da música, e ela continuasse assim:
O Cravo começou a beber
A Rosa tomava calmante
O Cravo perdeu o emprego
A Rosa arrumou um amante

O Cravo puxou uma faca
A Rosa desafiou: “venha”
O Cravo foi enquadrado
Na Lei Maria da Penha

O Cravo teve sua foto
Publicada nos jornais
A Rosa foi justiçada
Em todas redes sociais


Agora, o problema mesmo começou quando lembrei daquela história do “eu vou passear no bosque”. Na boa? Essa música é uma espécie de lavagem cerebral. Eu comecei a andar com meu filho no colo e a cantarolar isso pela sala. Mas eu me lembrava só dos primeiros versos, “vou passear no bosque, enquanto o Seu Lobo não vem”. 
Comecei a cantar isso. Vou passear no bosque, enquanto o Seu Lobo não vem. O tempo passou e meu filho não dormiu. Vou passear no bosque, enquanto o Seu Lobo não vem. Meu filho olha para mim. Vou passear no bosque, enquanto o Seu Lobo não vem. Vou até a cozinha. Vou passear no bosque, enquanto o Seu Lobo não vem. Meu Deus, estou fazendo isso faz vinte minutos. Vou passear no bosque, enquanto o Seu Lobo não vem. Merda de lobo. Vou passear no bosque, enquanto o Seu Lobo não vem.
Chegou um determinado momento que eu já não cantava mais. Eu apenas carregava meu filho no colo recitando esse negócio do bosque e do lobo como se fosse um mantra. Meu cérebro estava derretendo e nada da merda do lobo aparecer. Completamente hipnotizado, olhei para meu filho e vi que ele estava com os olhos vidrados.
E eu não conseguia parar de cantar! A letra da música me puxava cada vez mais dentro de um bosque imaginário, onde eu esperaria um lobo que não aparece nunca. Para tentar quebrar o encanto, tentei comecei a cantar a música em outro ritmo e finalmente consegui fazer isso usando Beatles.
Se você quiser tentar, é fácil. Sabe Can’t Buy Me Love? Aquele trecho que diz “Can't buy me love...  Everybody tells me so!”? Ele funciona certinho se você colocar “Passear no shopping... Enquanto o Seu Lobo não vem” como letra. Tenta aí.
Mas isso também não adiantou muito, porque eu comecei a cantar esse lance do Lobo na versão Beatles, e logo estava começando a ficar hipnotizado também. Eu não precisava de outros ritmos, e sim de mais frases.
Foi quando comecei a tentar a puxar o resto da música pela memória. Eu conheci essa canção vendo minha avó cantando isso para o meu primo mais novo. Como meu primo é padrinho do meu filho, deduzi que isso seria um bom sinal. Assim, me baseei por essa letra, que puxei de memória. E a letra era:
Vou passear no bosque,
Enquanto o Seu Lobo não vem.
Está pronto Seu Lobo?
Estou sim, senhor.


Certo. Agora eu tinha quatro frases. Só que, assim que eu comecei a cantar, percebi que essa canção não é uma cantiga de ninar, mas sim uma armadilha.
Porque vamos pensar: eu estou andando com meu filho no colo, falando “vamos passear no bosque, enquanto o Seu Lobo não vem.” O que isso quer dizer? Que o lobo não está no bosque. A letra diz que aquele bosque é seguro porque é desprovido de lobos. É um bosque lobo-free.
Mas, logo em seguida, rola um plot twist. Eu pergunto: “está pronto, Seu Lobo?” É claramente uma traição! Eu era um agente duplo, levando meu filho para o bosque com a promessa de passear em segurança e, ao mesmo tempo, perguntando se o Lobo está pronto para ir até o bosque. Na minha cabeça, o significado da música era: “Lobo, estou entrando com meu filho no bosque como combinamos! Você está pronto? Não demore e não esqueça de levar a mala com os dólares!”
E o pior é que o Lobo está pronto! É tudo um golpe! Eu e o Lobo, aliados contra meu filho! Eu comecei a me sentir um monstro com isso tudo: Rob Gordon, o cara que vendeu o filho para o Seu Lobo. Depois eu pesquisei a letra da música e parece que tem toda uma odisseia que o Lobo nunca está pronto porque está colocando a roupa, penteando o cabelo, passando desodorante, procurando as chaves de casa... Enfim, isso não muda o fato de que eu não canto mais essa letra. Agora eu canto que:
Vou passear no bosque,
Enquanto o Seu Lobo não vem.
Está pronto, Seu Lobo?
Porque se você estiver e simplesmente pensar em pisar nesse bosque e ousar chegar perto do meu filho, saiba que eu tenho uma arma e não tenho medo de usá-la, seu lobo maloqueiro filho da puta.


E não me importa que o ritmo não encaixou com essa letra, porque tem certas músicas que a mensagem é mais importante que a melodia. Enfim... Desencanei desse papo do Lobo, de Bosque. Sinto muito, mas não rola. Nem de bosque eu gosto, deve ter mosquito, deve ter plantas venenosas, se bobear tem até o Cravo chifrando a Rosa e eu não quero me envolver no problema dos outros.
Vou continuar com Beatles. É meu filho. Vai funcionar.

8 comentários:

Jackson S deJesus disse...

Grande estória, quase fiquei com pena no lobo, rs (e falando nestes, com meus sobrinhos funcionava a Bachiana nº 5 de de Villa-Lobos)...

Evaristo Ramos disse...

Eita! Agora que li sobre o Cravo e a Rosa, rapaz....

Adriano Trotta disse...

A pior cantiga pra mim é a da Sambalelê, que tá doente e COM A CABEÇA QUEBRADA! Acho terrível, sempre fiquei com medo. Imagino um crânio quebrado que nem uma casca de ovo.

Agora, fiquei preso no primeiro parágrafo, imaginando você cantando e dançando "hello my baby, hello my darling, hello my ragtime gal"! ♫

Bom, com uma coisa eu concordo: Beatles é muito bom pra dormir.

Eduardo Silva disse...

Mano, a minha tem 9 meses. Você já entrou no mundo da Galinha Pintadinha? Absolutamente nada faz sentido. NADA.

Leonardo Carnelos disse...

Excelente crônica. As músicas infantis de outrora não fazem o menor sentido. Quando meu filho era bebê, a música preferida que eu cantava pra ele é Can't Take my eyes off you, música que o Frankie Vallie compôs para a filha.
A habilidade especial que desenvolvi foi a de compositor e improvisador. Eu sempre criei paródias de músicas para ocasiões específicas. Por exemplo uma música para ele arrotar ao ritmo da primavera de Vivaldi, ou ainda uma música para o soluço passar ao ritmo do tchan. Todas as ocasiões eram cantadas: choro de fome, fralda, tosse, pum, cólica. E o céu era o limite.
Pra ele dormir, eu comecei colocando música clássica, semrpe de ninar. Depois Beatles para bebês. Na sequeência, outras bandas também com arranjos infantis. Depois de um tempo passei o colocar as músicas originais. E cada ponto da rotina tinha também uma música especial. Meu filho toma banho ao som de Elvis, acorda ao som de Blues Brothers e assim por diante.
Em vídeo, já tentei clássicos da Disney, Pica-pau, Tom & Jerry e Pernalonga; mas ele não liga muito não.
Em inglês, o que funciona muito bem são os video-clips dos Muppets e um tal de jack's big music show.
Eu também não gosto de Galinha Pintadinha, muito agitado, muito psicodélico. Minha recomendação é: Mundo Bita e Palavra Cantada. Papagaio Reginaldo, por exemplo, é o Faroeste Cabloco da criançada. Criança não trabalha equivale ao Águas de Março de Tom e Elis.
Sds

R disse...

Boa crônica, sempre que analiso essas cantigas e músicas infantis fico me perguntando: isso é para criança???

Bel Lucyk disse...

Rob, por aqui uso muito São Francisco, com Ney Matogrosso, da Arca de Noé. A Maria adora e dá certo. Mas o que dá certo mesmo é a nossa voz. Volta e meia eu vou inventando musica e cantando pra ela até adormecer! É tiro e queda! <3

Louco Mon disse...

Beatles, ótima escolha. Joga um Legião Urbana e um Queen, se puder - o risco de errar com Renato Russo e Freddie Mercury deve beirar o zero.

E, Datena? Puatz, nunca pensei a fundo sobre o Cravo e a Rosa, mas temos um vencedor! Casar com quem despedaçou ela? Diabos, por que tem meninas que topam fazer isso?

A propósito, parabéns; acho que vou ter que comprar um Kindle. Porque sua história da Inspiração é sensacional - ao menos, o que deu pra ler na Degustação da Amazon - mas não existe em formato papel. E eu sou um dinossauro da era papel, que sempre curtiu dar uma cheirada nas páginas do livro novo.

Mas eu vou ter que ler a história da Inspiração inteira. Minha única crítica era... fumando? Ela precisava estar fumando?

Provavelmente -_-' Você não manda na Inspiração, isso é fato. E se bobear, a minha também fuma. Diabos...!

Forte abraço, e continue escrevendo!