5 de março de 2018

(I Can't Get No) Vaccination

Faz mais ou menos duas semanas que estamos nos preparando, aqui em casa, para um evento razoavelmente importante: o dia do meu filho tomar as primeiras vacinas. Quer dizer, as segundas vacinas, porque as primeiras ele tomou na maternidade.

Na verdade, eu só percebi que essa ocasião seria algo marcante na minha vida quando comentava isso com as pessoas. Quem não tinha filhos, encarava como algo normal. Mas, aqueles que são pais, ao ouvirem que “no próximo sábado ele vai tomar vacinas”, apenas colocavam a mão no meu ombro e assumiam uma expressão que ficava no meio do caminho entre pena e preocupação.

“Boa sorte”, todos me diziam.

“Quem precisa de sorte é meu filho, né?”, eu respondia.

“Não.”

“Mas é ele quem vai tomar as vacinas. Eu só vou estar ali ao lado”.

Assim que eu respondia isso, eles suspiravam e me olhavam como se eu fosse uma criança dando palpites em conversas de adultos. Na terceira ou quarta vez que ganhei esse olhar, decidi simplesmente agradecer o boa sorte e mais nada.

Finalmente, no dia marcado, eu, a Esposa e meu filho entramos, debaixo de um calor infernal, na clínica que aplica as vacinas. A mulher da recepção nos recebeu com um sorriso de orelha a orelha e nos indicou para a sala de um médico. E aí começou o problema.

Veja bem, meu filho estava ali para tomar vacinas, e muitas delas poderiam ter reações adversas. E eu queria ouvir o médico, porque me recuso a olhar esse tipo de coisa na internet. Vocês já repararam como qualquer coisa relacionada à saúde é mais grave na internet? É só olhar o fórum de maternidade que a Esposa participa.

“Meu filho tomou a vacina X e o pinto dele caiu. Devo ir no pediatra?”

“Ontem minha filha tomou a vacina Y e agora ela está brilhando como uma lâmpada. Isso é  normal, meninas? Minha conta de luz vai aumentar?”

Não. Olhar na internet nunca funciona. Eu queria mesmo era falar com o médico. E essa conversa não seria complicada. Como já havíamos falado com o pediatra, achei que o médico fosse apenas confirmar tudo o que o pediatra disse.

Eu estava enganado. Quer dizer, talvez o médico tenha apenas repetido o que o pediatra disse. Mas eu não posso dizer isso com certeza, porque o médico da clínica tinha um problema de fala – parecia uma língua presa multiplicada à décima potência – que tornava algumas de suas palavras incompreensíveis. E o engraçado é que isso acontecia sempre nos momentos mais importantes de cada frase.

“Essa vacina aqui é extremamente importante, porque laqvaipedseufilplodi. E temos que tomar cuidado porque, às vezes, ançameçatardenejo e aí podemos ter castrementegravearo”.

“Oi?”

“Castrementegravearo. Entendeu?”

“Bem...”

“Mas, claro, senhor Rob, o seu filho pode semunetodpécidença e isso faria com que ele assecinasetassenolho. Mas isso somente em casos raros.”

“Espera, o que mesmo somente em casos raros?”

“Seu filho assecinasetassenolhar.”

“O que é isso mesmo?”

“Uma consequência da semunetodpécidença.”

“Ah.”

“Vamos tomar as vacinas?”

“Você pode falar um pouco mais sobre aquele castrementegravearo?”

“Está aqui no papel”.

“Ah. Ok. O papel está em português, né?”

Enfim, fomos até o caixa e pagamos as vacinas. Só achei meio engraçado o fato de que uma vacina para impedir uma doença provavelmente custa mais que o tratamento da doença; mas, acredite, quando você é pai, isso ainda é bom negócio. E, de repente, estávamos na sala de espera.

E foi aí que o pesadelo começou.

Aqueles dez minutos na sala de espera foram uma das experiências mais traumáticas da minha vida. Havia três portas fechadas a nossa frente. Atrás de cada porta, havia uma sala. Em cada sala, havia apenas (pelo menos) uma criança. Todas elas choravam desesperadamente. Ouvi também barulho de correntes vindo de uma sala – e tenho quase certeza que escutei um tiro sendo disparado atrás da porta do meio (coincidentemente, o som de choro daquele sala parou logo após o tiro).

E eu ali, com meu filho no colo, me sentindo como se estivesse na sala de espera do consultório do Mengele.

Na minha cabeça, todas as salas atrás daquelas portas eram sujas e escuras, parecidas com o porão de uma casa abandonada. Eu depositaria meu filho em uma cama suja, onde ele seria amarrado e, horas depois, abriria os olhos e encontraria ao seu lado algumas seringas de vacina e um pequeno gravador. Ao dar play, ele ouviria a frase:

“Hello, Filho do Rob. I want to play a game.”

Aos poucos, as crianças iam saindo da sala. Todas saíam chorando. Todas, menos uma, que saiu mancando, com os olhos arregalados e uma expressão de quem nunca mais iria sorrir na vida. Quando os pais dela se distraíram, eu me abaixei e perguntei baixinho:

“Cara, o que aconteceu lá dentro? Você tem alguma dica?”

O menino olhou para mim e vi que tentar qualquer tipo de comunicação seria inútil. Seu olhar era vazio, como alguém que havia visto a morte de perto – mas, ao invés de uma foice, a morte carregava uma seringa enorme. Aquela criança nunca mais iria falar coisas coerentes. Creio que foi nesse momento que eu decidi que se o Zé Gotinha se candidatar a qualquer cargo público, ele terá meu voto.

A fila foi andando e respirei fundo. Eu olhava as três portas, tentando imaginar onde entraríamos. Era como se fosse um programa de auditório roteirizado pelo Freddy Krueger. Demônios aplaudindo na plateia, cenário decorado com crianças sendo torturadas e o apresentador sorrindo e anunciando os próximos competidores – que, no caso, éramos nós.

“Rob! É hora de você e sua família escolherem uma porta! Uma delas leva a uma sala com centenas de cobras! Outra leva ao quinto círculo do inferno! E a terceira fará você experimentar uma chuva de navalhas! Onde você e sua família vão entrar?”

“Eu queria só ir embora daqui.”

“Não. Essa porta nós não temos.”

“A gente não pode ficar na sala de espera sem escolher porta nenhuma? Eu prometo que não vamos atrapalhar nem ficar no caminho de ninguém”.
“FILHO DO ROB GORDON!”
Ao ouvir meu nome, abri os olhos – eu nem havia percebido que eles estavam fechados – e dei de cara com a porta do meio aberta e uma enfermeira esperando por nós. Pelo que entendi, como demorei para escolher uma das portas, escolheram por mim. Assim, eu, a Esposa e nosso filho entramos na sala.

Era pequena, com uma maca no meio. Procurei por sinais de sangue no chão e nas paredes, mas não vi nada. Bom sinal. Na verdade, era uma sala normal, parecida com a de qualquer consultório médico. A única diferença era a enfermeira. Seu olhar era vidrado e o fato dela ficar dando risadinhas sempre que olhava para meu filho não ajudava em nada. Se estivéssemos num manicômio, eu teria certeza de que ela era uma paciente usando as roupas do enfermeiro que ela estrangulou horas antes.

“Vocês vieram tomar as vacinas, certo?”

“Não”, eu corrigi rapidamente. “Quem veio tomar é o bebê”.

“Certo, certo”. Ela deu mais uma risadinha, desta vez olhando diretamente para alguém atrás de mim. Virei a cabeça mas não havia ninguém ali. Quando olhei para ela de novo, percebi que ela encarava meu filho da mesma forma que um leão observaria um filhote de antílope. De repente, ela parou de sorrir e seus olhos ficaram ainda mais vidrados. Olhando para o vazio, ela murmurou:

“Vocês sabem dos perigos da vacina do rotavírus, certo?”

“Bem, nós sabemos que essa vac...”

“Não. Vocês não sabem. Ninguém sabe o poder do rotavírus. Mas eu vou explicar. A vacina para o rotavírus é muito violenta. E ela é violenta porque o rotavírus é violento com aqueles que são violentos com ele. Louvado seja o rotavírus.”

“Oi?”

“A vacina do rotavírus é violenta”.

“Sim. Essa parte eu entendi. O que você disse depois disso?”

“Nada. Eu estou apenas falando sobre a vacina do rotavírus. O seu filho irá receber os vírus vivos. E eles serão eliminados pelas fezes. Vocês vão precisar descartar as fezes do bebê”.

Pensei em perguntar o que ela achava que nós fazíamos com as fezes do meu filho, mas ela já estava falando novamente.

“As fraldas precisam ser descartadas”, ela disse. “Caso contrário, o rotavírus irá se espalhar pela casa. E, depois da casa de vocês, pelo mundo, dando início a uma era de fogo e destruição. O planeta será coberto de enxofre e a fome e a peste se sentarão ao lado do rotavírus. Louvado seja o rotavírus”.

“Espera. Quem vai se sentar do lado de quem?”

“Nada, nada. Vocês precisam descartar as fraldas”.

“Mas nós meio que já fazemos isso. Aliás, a fralda chama fralda descartável justamente por causa disso.”

“Ela não pode ficar no lixo dentro da casa. Caso contrário, a família inteira será infectada”.

Certo. Então, aprendemos que o rotavírus é perigoso. Mas não acho que isso seja surpresa, já que estamos falando de um negócio chamado ROTA vírus. O vírus tem nome de polícia, é claro que ele ia ser perigoso, ainda mais no Brasil. Aposto que ele infecta primeiro e pede os documentos depois. Tenho certeza que o Rotavírus fica andando pelas periferias da cidade fazendo chacinas.

De qualquer forma, fiz uma anotação mental para conversar com a Esposa sobre jogar as fraldas no quintal da vizinha que deixa a piscina descoberta como uma espécie de resort para os mosquitos da dengue, e voltei minha atenção para a enfermeira. Ela estava de costas mexendo em instrumentos sobre uma bancada. De onde eu estava, consegui ver uma serra (com marcas de sangue) e uma foice de metal. Enquanto ela fazia isso, cantarolava baixinho alguma coisa sobre o rotavírus. Subitamente, ela se virou para nós com um tubo na mão. Seus olhos brilhavam.

“Vamos começar? A primeira vacina é a do rotavírus.”

“Certo.”

E sim, a parte do rotavírus foi tranquila, já que a vacina é via oral. Quer dizer, pelas caretas que meu filho fez, a enfermeira podia muito bem estar dando a ele vacina temperada com água de esgoto e muco, mas, no geral, foi fácil. Especialmente se comparado à vacina seguinte. A enfermeira voltou para sua bancada e começou a mexer em novos instrumentos. Um alicate. Uma motosserra. Por fim, escolheu uma lança.

Foi só quando olhei com cuidado que vi que não era uma lança, e sim uma seringa.

“Segurem o bebê”.

O tom de voz dela foi tão gélido que meu filho começou a chorar só de ouvir a frase.

Você já segurou seu filho na hora dele tomar vacina? Bom, se você já fez isso, diga aqui para mim nos comentários qual é a sensação, porque eu nunca fiz isso na vida. O que rolou foi que meu filho estava no colo da Esposa, a enfermeira se debruçou por cima dele como um anjo da morte e eu... Bem, eu fiquei paralizado, no meio da sala, querendo olhar para outro lado mas sem conseguir desviar os olhos.

Mas o problema foi quando a vacina terminou. Meu filho estava aos berros e a enfermeira decidiu pegar um chocalho para acalmá-lo. Mas não era um chocalho na forma de ursinho ou de abelhinha ou de qualquer coisa que um chocalho possa ser. Na verdade, era uma lata de algodão vazia e com algumas coisas (Pedras? Feijão? Dedos fossilizados de crianças?) dentro dele.

A enfermeira começou a balançar aquilo na cara do meu filho e da Esposa de um jeito meio frenético, e dançandinho, como se estivesse numa espécie de transe. Foi quando eu comecei a desconfiar que talvez tudo aquilo fizesse parte de algum ritual, e a alma do meu filho estava sendo entregue como alimento para alguma divindidade chamada rotavírus. Talvez a enfermeira até mesmo estivesse possuída pelo rotavírus naquele momento.

Quando o ritual acabou, ela se virou para o meu filho.

“Você está mais calmo?”

Meu filho continuou a gritar. Eu pensei em avisar a enfermeira que “olha, ele ainda não fala”, mas estava aterrorizado demais para falar qualquer coisa.

“Então vamos tomar o outro pic-pic”.

“Desculpe”, dessa vez, eu interrompi. “Pic-pic seria o quê, exatamente?”

“A outra vacina”.

“Ah... Pic de... Picada. É isso?”

“Isso. A vacina”.

Tive vontade de perguntar como as pessoas cantavam “parabéns para você” na casa dela, querendo saber se, na hora do “é pique-pique-pique” os convidados ficam enfiando seringas no corpo do aniversariante. Mas meus devaneios foram mais uma vez interrompidos quando vi o tamanho da segunda agulha. Se um dia a enfermeira precisasse atravessar um rio, ela poderia usar aquela agulha como ponte.

“Esta vai doer um pouco.”

“Um pouco? Qual seu conceito de pouco? Porque parece que a primeira injeção já d...”

“Segurem o bebê”.

Meu filho começou a chorar novamente antes mesmo da agulhada. E eu não o culpo, já que eu mesmo estava quase chorando só de ficar no mesmo ambiente que a Psicótica do Pic-Pic. Mais uma agulhada. Mais um grito. Mais um suspiro de prazer da enfermeira. Mais uma alma devorada pelo rotavírus. Louvado seja o rotavírus.

“Pronto. A criança está vacinada.”

“Certo”, eu disse, pegando a Esposa pelo braço e indo embora da sala o mais rápido possível. A cada passo, eu pedia desculpas para o meu filho. Quando pisamos na sala de espera, arrisquei uma olhada para trás. A enfermeira estava parada na porta e vi, pela primeira vez, que seus olhos eram vermelhos.

“Até o mês que vem”, ela disse sorrindo e fechou a porta. Mesmo com meu filho gritando, ouvi o barulho do chocalho ritualístico sendo usado e uma espécie de cântico num idioma que não reconheci.

Mês que vem eu vou levar um padre comigo.

10 comentários:

cLEYDSON bARBOSA disse...

Já que tirei o FDS para ver Terapia de uma vez e agora estou ativo na comunidade do Gente Que Escreve, também resolvi tomar a vacina chamada Vergonhanacara e deixar um comentário por aqui.

Tive que ler correndo, mas logo me sentei para compartilhar 3 conclusões:

1 - Não é à toa que se lê "Vá, Sina".

2 - Não é à toa que rima com "chacina".

3 - Devo ser muito bom com set up, mas certamente sou péssimo com pay back.

cLEYDSON bARBOSA disse...

*pay off

Isaque Fontinele disse...

Hahahaha, muito bom. Imagino que a sensação de um pai deve ser exatamente essa mesmo.

Evaristo Ramos disse...

Eu não sou pai mas já presenciei situações de vacina e olha... Se eu fico aflito, que dirá um pai ao ver o seu filho sendo furado por agulhas enquanto chora desesperadamente.

Mas eu também já vi pais aflitos pelo filho não chorar quando tomam uma agulhada. "Ele não tinha de chorar? As outras crianças choram, né? Por que ele não chora, meu Deus!?".

Louvado seja o rotavírus.

Eduardo Silva disse...

Hahaha, a minha nenem tem 8 meses. É tenso, mas não tem jeito. Minha esposa não tem coragem de segurar, aí vou eu mesmo. Até agora a pior foi o testo do pezinho. Dá pena, mas num tem jeito...

Aline Sodré disse...

Hahahahaha muito bom!
“Pensei em perguntar o que ela achava que nós fazíamos com as fezes do meu filho, mas ela já estava falando novamente.”
Chorei de rir!
Tadinho do Felipeee! Vacina é uma judiação que só😣

Elise Garcia disse...

Eu não sou mãe, mas acho que meu medo de um neném (qualquer um) pegar uma doença que é prevenível com vacina me faria ter sangue-frio suficiente pra ficar numa boa.

Anyway, texto ótimo, pra variar =D

Adriano Trotta disse...

Tirando a piada com o Mengele, que eu achei que pesou um pouco, muito bom o texto! O título talvez poderia ser Sympathy for the Rotavirus. Espero que o Robinho esteja bem! Abraço!

Varotto disse...

Cara, um de seus melhores. Coitado do pequeno F.

P.S.: quanto a segurar o bebé para tomar vacina, eu já passei para um nível superior. Segurar para ter a testa costurada. Acredite, você nao vai querer passar por isso.

Louco Mon disse...

Imaginação pode rimar com injeção, mas as duas não combinam. Não. Nunca. Péssima mistura.

Concordo com o Varotto. Se puder aceitar um conselho, deixe seu filho traumatizado com guerras de giz. E, se não puder desencaminhá-lo de tomar parte de uma, ensine que se esquivar baixando a cabeça, só a uma distância BEM segura do aparador da lousa.

É pro bem dele. Juro.

Forte abraço.