19 de outubro de 2015

Último Pedido

Lembro quando assisti O Poderoso Chefão – Parte II (que para mim é o melhor da trilogia), eu fiquei impressionado com a cena em que se discute o fim de cidadãos romanos que cometiam traição ao Imperador. O filme conta que, descoberto o crime, seu autor tinha a opção de buscar uma saída mais honrada: o suicídio, que impediria o nome de sua família de ser manchado.

A coisa funcionava da seguinte forma: o sujeito dava uma festa em casa, para se despedir das pessoas e de tudo o que gostava. Comia e bebia do bom e do melhor, até que, em determinado momento, ia para o banheiro, entrava em uma banheira e abria os pulsos.

Anos depois, quando assisti a Os Bons Companheiros, percebi algo parecido quando um mafioso era preso. Certo, a cadeia não era exatamente um tormento na vida dos personagens do filme, que mandavam e desmandavam lá dentro, mas mesmo assim eram anos em que o sujeito ficava trancado numa cela.

Achei curioso como o sujeito que era preso podia ir para casa e ganhava uns dias para se preparar para a sentença. Na última noite, normalmente ele dava uma festa enorme, também comendo e bebendo do melhor e normalmente passando a noite em claro para aproveitar cada minuto de liberdade, até que, no dia seguinte, ele se entregava às autoridades no horário combinado, quando era levado para a prisão.

Foi inevitável pensar sobre isso nos últimos dias. Mas – diferente do que acontecia com romanos e mafiosos – minha festa não durou apenas uma noite, e sim diversos dias. Começou na quinta-feira, quando pedi para a Esposa fazer bife à milanesa – comi uns dois pratos. No dia seguinte? Almocei normalmente, mas, à noite, joguei a carta na mesa.

– Vamos pedir pizza.

Ela me olhou com canto de olho, mas não disse nada. Sabia que era a minha festa de despedida. E eu comi quatro ou cinco fatias, regadas a um bom azeite.

Mas o ápice da celebração foi no final de semana. Fomos a um açougue chique aqui perto, e ficamos apenas alguns minutos lá dentro. Entramos, perguntamos se tinha barriga de porco e fomos embora.

Barriga de porco.

Algumas pessoas chamam de pururuca.

Eu chamo de orgasmo.

Sim, comer barriga de porco é quase um ato sexual. As preliminares que acontecem quando a carne é preparada; o começo do ato em si, quando o cheiro começa a se espalhar pela casa e você, passando perto do forno, sente sua pele se arrepiando com o barulho da gordura estalando no calor. A intensidade de fazer o prato, de regar com limão, de sentar com um balde de Coca-Cola do lado e um episódio de Jornada nas Estrelas na televisão...

E o clímax quando você dá a primeira garfada e sente aqueles pedaços de gordura se espalhando pela boca. E eu deixo a pele torrada para o final, encerrando com chave de colesterol dourado aquele ato libidinoso capaz de fazer a alma atingir o nirvana.

No domingo foi a mesma coisa. Almocei o resto do orgasmo – ou barriga de porco, ou pururuca, como queiram – do mesmo jeito. Com arroz, limão, Coca e Jornada nas Estrelas.

Foi um bom fim-de-semana. Todos os meus pedidos como condenados foram atendidos, e tenho certeza que os traidores romanos e os mafiosos ficariam orgulhosos de mim.

Mas, tradições devem ser mantidas, e agora é o dia de cumprir com minha palavra. Já me despedi dos meus amigos, da carne de porco, da pizza, do bife à milanesa. Assim, hoje acordei, troquei de roupa e me entreguei às autoridades para pagar por todos os crimes que cometi nos últimos anos. Antes, um último café que tomei na cozinha, olhando ao redor e pensando quando eu estaria ali novamente.

O café acabou antes que a resposta aparecesse. Olhei no relógio. Era hora. Fui até a sala e encontrei a Esposa ali, mexendo no computador. Não esperei ela falar e resolvi acabar logo com aquilo. Respirei fundo me enchendo de coragem e anunciei.

– Estou pronto, Como nós combinamos, eu começo a dieta hoje.

6 comentários:

Trotta disse...

Eu por mim fiquei orgulhoso de você.

Marcos Bonilha disse...

Olha, parabéns, mas, também, que "deus tenha piedade de sua alma".

Abs, Rob!

Varotto disse...

Força e honra!

Pedro Modesti disse...

Comecei a ouvir o podcast "gente que escreve" semana passada.
Não conhecia nem seu trabalho, nem do Barreto (apenas suas participações no Rapaduracast).
Resolvi ir atrás de seus textos.
Agora, lendo apenas este, já tenho certeza que sabes o diz no podcast.
Parabéns, texto incrível.

Fagner Franco disse...

Cara, tô numa fase sinistra (uns pobreminha na barriga, ainda não sei se é intestino, pâncreas, fígado, já estou investigando). Até pensei, quando o fim do texto se aproximava, que tava nessas também. Mas ô desgraça é deixar nossos crimes pra trás. Minhas 10 xícaras (no mínimo) diárias caíram pra 1 ou 2, nos dias que estou aventureiro. Coca-Cola (no meu caso, refrigerante se resume a: Coca-Cola) praticamente nos fins de semana (mas em compensação tomo sem dó no sábado e domingo). Evitando carne vermelha, evitando pimenta. Puta fase foda. Vamos ver se, no caminho, pelo menos, perco essa pança lixo que tenho. Boa sorte aí na dieta, brother.

Eduardo Cabrini disse...

Resta saber se após um mês de "cárcere", Rob Gordon ainda permanece preso ou se arrumou um habbeas corpus!