24 de outubro de 2015

O Super-Homem da José Paulino

Ontem participei do Enter+, evento sobre comunicação digital. Para mim, foi uma honra ser convidado para dar uma palestra sobre conteúdo e adorei o evento como um todo – especialmente as conversas antes e depois das palestras.

Aliás, sempre que sou chamado para dar palestras, eu pareço um menino que precisa tomar banho. Eu não quero ir, acho que vai ser horrível, que eu vou fazer tudo errado... Mas depois que a coisa começa, eu não quero mais sair, porque eu começo a descobrir que tenho mais a falar que imaginava. Eu sempre preciso de um grau de maturidade bem alto para não pedir “só mais cinco minutinhos” quando os organizadores dizem que o tempo acabou.

Mas, enfim, essa crônica é sobre a minha volta para casa. O evento foi no Bom Retiro e tudo o que eu sabia que entre onde eu estava e o metrô, existia a Rua José Paulino. Eu conheço alguns pedaços ali do centro, especialmente Anhangabaú – anos e anos gastando dinheiro com discos na galeria do rock me ensinaram isso – mas tudo o que eu sei da José Paulino é que ela fica lotada quando chega perto do Natal. Nada mais que isso.

Assim, comecei a pedir informações na rua, seguindo um método que aprendi com os anos – e que foi a maneira que encontrei de lidar com o fato de que as pessoas não sabem dar informações. Vou tentar explicar com um diálogo.

– Amigo, o metrô é para qual lado?

– Você vai aqui até o posto de gasolina e vira à direita. Aí você anda três quadras e quando chegar em um ponto de táxi vai ver que a rua divide em duas. De um lado tem um boteco e do outro tem um banco. Aí é só seguir reto, passar embaixo do pontilhão na frente do mercado... Não é o mercado grande, é o pequeno, na frente de uma farmácia. Anda até a banca de jornal e vira à esquerda e aí você chegou no metrô.

– Entendi tudo. Obrigado.

E saio de lá com minha estratégia: usar apenas o que entendi. Que, em outras palavras, seria “andar até o posto de gasolina, virar à direita, andar algumas quadras e torcer para que em algum momento aquela rua se divida em duas”. Aí eu paro e pergunto para outra pessoa.

É assim que faço, porque já aprendi que é perda de tempo explicar para as pessoas que instruções como “quando a rua se dividir em duas, você segue reto” só fariam sentido na boca do Mestre dos Magos. Então, vou de grão em grão, como um detetive que a cada três ou quatro quarteirões colhe pistas novas para descobrir onde é o metrô.

Ontem foi assim. Saí do evento, andei, achei a José Paulino. Falaram para eu virar à esquerda, e eu obedeci e andei, andei, andei e caí na José Paulino de novo. Andei, andei, andei e pedindo informação para outra pessoa descobri que estava perto do Metrô Luz, que não era o metrô que eu estava procurando, mas...

Enfim. Estava (teoricamente) perto da Estação da Luz quando ela apareceu.

Bonita, devia ter uns vinte e cinco anos e andava carregando sacolas de compras. Eu de um lado da rua e ela de outro. E apenas nós na rua, pois as lojas já estavam fechadas. Eu já havia reparado que todos os carros que passavam por ela buzinavam.

Em determinado momento, ela atravessou a rua na minha direção. Eu aproveitei para colher mais uma migalha na minha busca incessante pelo metrô.

– Com licença, se eu continuar por aqui, vou encontrar a Estação da Luz, certo?

– Isso.

– Obrigado.

Mas ela não havia atravessado para me dar informações. Não. Ela tinha um motivo particular para ter atravessado a rua e caminhado na minha direção.

– Eu posso andar do seu lado?

Olhei para ela, sem entender direito.

– Oi?

– Eu posso andar ao seu lado?

Eu já desconfiava o motivo daquilo, mas queria ouvir da boca dela. Afinal, sejamos sinceros: eu podia estar errado. Uma pessoa que sai rumo ao metrô Tiradentes e chega à Estação de Luz não tem um instinto exatamente apurado.

Assim, com o tom mais casual do mundo, respondi:

– Claro. Mas... Por quê?

– Porque eu não aguento mais os homens buzinando para mim e mexendo comigo. Se eu andar ao seu lado, isso não vai mais acontecer.

Agora eu era herói e meu cavalo só falava inglês.

Este sou eu. O Super-Homem. O defensor dos fracos e oprimidos, o justiceiro que se coloca entre as pessoas inocentes e o mal que habita as cidades grandes. Ah, se alguém mexesse com aquela garota sentiria toda a extensão do meu poder e a injustiça seria derrotada. Pois aqui é a minha cidade. Eu sou seu protetor. Eu sou seu campeão. É graças a mim e aos meus poderes que trabalhadores dormem de madrugada, crianças brincam nas ruas, mulheres podem andar pela José Paulino depois que as lojas fecharam. Aliás, já passou da hora de ter um gibi sobre mim.

– Sim, pode caminhar comigo, eu disse, me segurando para não soltar um “não tema! Agora você está ao meu lado”.

Mas, menos de cinco metros depois, eu percebi que faltava alguma coisa ali. Se eu tivesse criado aquela cena em um texto, teria percebido que o roteiro tinha um buraco enorme. Afinal, a garota não queria andar sozinha para que não mexessem com ela. Certo. Mas quem escolheria andar com qualquer pessoa que visse na rua apenas por causa disso? Afinal, eu era o Super-Homem, mas ela não sabia disso. Eu podia muito bem ser o Maníaco da José Paulino.

Todo herói tem um ponto fraco e o meu é a curiosidade.

Não aguentei e perguntei:

– Desculpe, mas... Como você sabe que eu não vou me aproveitar disso para mexer com você?

– Eu não sei. Mas você é menor que eu, ela disse, rindo.

Agora eu era um idiota e meu cavalo só falav...

Não, meu cavalo não falava nada porque ele não era um cavalo. Era um pônei, provavelmente a única montaria que eu conseguiria usar. Ou uma mula. Sim, Rob Gordon, seus dias de Dom Quixote acabaram. Assuma seu papel de Sancho Pança, sente-se ali e não mexa em nada.

Mas não aguentei. Deixei escapar uma gargalhada. Gostei do raciocínio dela.

Andamos duas quadras conversando sobre a situação econômica do país e como as coisas estão difíceis para ela, que mora em Fortaleza e veio até São Paulo, comprar roupas na José Paulino para vender na sua loja – algo que ela faz várias vezes por ano.

Quando chegamos numa esquina, ela me disse:

– A Luz é nessa rua. Olha a estação ali.

– Obrigado.

Cada um foi para seu lado.

Ela levou suas sacolas, com roupas, tecidos e os restos da minha carreira de super-herói, que deve ter durado cerca de seis segundos.

Eu?

Eu encontrei o metrô.

Para alguém que não conhece aquele pedaço de cidade, já está bom demais.

6 comentários:

Ewaldy Marengo disse...

Essa é uma estratégia bem comum que muitas mulheres usam. Quando eu saia do trem à meia-noite, quase todo dia alguma mulher fazia isso. Nunca perguntei porque, mas com certeza minha cara de nerd e óculos davam pra elas a certeza que eu ia no máximo gaguejar se fosse tentar algo com elas.

Trotta disse...

Te vi mais como o Babalu, amigo do Pepe Legal, que também resolve problemas. Acho que eu leria uma revista do Babalu.

Varotto disse...

Quem sabe o mal que se esconde nos corações humanos?

O baixinho do pônei sabe.

Daniel disse...

Texto gostoso, como sempre!

Darcio Payá disse...

:)

Eduardo Cabrini disse...

Leve e gostoso de ler!