6 de outubro de 2015

FranciscAna

Ontem, no final da tarde, fiz uma operação matemática. A soma de “todos os textos em dia”, “tempo nublado” e “enxaqueca” resultaram no único valor possível para esse tipo de conta:

– Vou deitar um pouco.

E deitei sabendo que seria difícil dormir. Afinal, dormir à tarde na minha casa é luxo, já que basta eu colocar a cabeça no travesseiro que alguns acontecimentos ocorrem:

1 – Os vizinhos começam a gritar.
2 – Os meus cachorros começam a latir porque os vizinhos estão gritando.
3 – Os vizinhos aumentam o volume porque os cachorros estão latindo.
4 – Os cachorros começam a latir mais alto, acompanhando os vizinhos.

Dizem que aquele que não entende o passado está fadado a repeti-lo. Bom, alguma coisa eu fiz de errado, porque eu entendo perfeitamente o que acontece, como acontece, em qual ordem acontece... E mesmo assim isso continua acontecendo. Assim que eu deito à tarde, os passos acima começam a acontecer repetidamente (e tem até uma espécie de promoção, que consiste em “junte cinco gritos do vizinho ou latidos de cachorro e troque por um gato correndo sobre sua cabeça”).

Mesmo assim, deitei, com a esperança de que os vizinhos iriam se comportar, ou ao menos compraram um cone do silêncio. E, desta vez, eu consegui cochilar por uns vinte minutos, quando a bagunça começou.

Na verdade, não era uma bagunça... Era um lamento, contínuo e agoniado. No começo, achei que estava sonhando, mas abri os olhos e o som continuava. Parecia vir do quintal. Ou do telhado. Sem saber ao certo, levantei para ver o que estava acontecendo, já esperando encontrar o Bela Lugosi na sala de casa, todo empolgado e comentando que “Listen... The children of the night. What music they make”, mas eu estava sozinho em casa.

Sem Bela Lugosi. Sem Esposa. Sem ninguém. Minha casa estava vazia. Tudo o que existia era aquele lamento, como o de uma alma lastimando não encontrar o caminho para a luz.

Comecei a desconfiar que aquilo talvez fosse um pesadelo.  Tudo parecia irreal demais. A casa vazia, aquele grito que parecia vi r de todos os lugares ao mesmo tempo... Tudo o que eu precisaria fazer era olhar para trás e ver um sujeito de chapéu e camisa listrada avançando pelo corredor na minha direção, enquanto raspava as garras de sua luva pelas paredes, arrancando faíscas e gargalhando.

Na dúvida, olhei para trás e não vi ninguém no corredor – mas imediatamente senti um arranhão no tornozelo. Ou seja, o Freddy Krueger era mais rápido que eu imaginava. Então era isso. Quarenta anos de idade, escritor, e iria morrer sozinho dentro de um pesadelo, nas mãos de um personagem criado pelo Wes Craven. Bem, acho que podia ser pior.

Olhei para baixo, esperando ver minha perna completamente fatiada, mas descobri que 1) ela ainda estava inteira; e 2) o arranhão não havia sido causado por uma criatura de filmes de terror dos anos 80, e sim pelo #GatoRidículo, que passou correndo por baixo de mim e deduziu que me arranhar para abrir caminho daria menos trabalho que desviar da minha perna ou pedir licença.

O arranhão me trouxe de volta à realidade. E mudou todo o cenário. Afinal, agora eu não estava mais sozinho, e aparentemente o gato também estava ouvindo aquele grito das profundezas infernais, já que ele correu até a porta da sala e ficou completamente alucinado ali, tentando ver o que estava acontecendo. Aguçando os ouvidos, percebi que os gritos vinham mesmo do outro lado da porta.

Caminhei até ali, abri a porta e fui para o lado de fora da casa. Foi quando eu vi...

Minha Esposa.

Em cima do muro.

De meias.

Parei ao lado da escada e observei a cena, pensando em como abordar o assunto com ela. Os urros, claramente, vinham do telhado. E ela estava mexendo no telhado. Isso era óbvio. Mas, mesmo assim, quando você encontra uma pessoa de meias em cima do muro, perguntas do tipo “como está o seu dia?” e “e aí, quais são as novas?” não parecem fazer muito sentido. Sim, quando você encontra uma pessoa de meias sobre o muro da sua casa, é sinal que a civilização já ruiu completamente.

Se fosse uma pessoa desconhecida, eu imediatamente voltaria para dentro, trancaria a porta e começaria a gritar que “estou armado, então é melhor você colocar seus sapatos, tomar seus remédios e ir embora!”. Mas era minha Esposa. Eu não podia fingir que nada estava acontecendo. Afinal, tem toda aquela história do “na alegria e na tristeza, na riqueza e na pobreza, na sanidade mental e no surto psicótico que faz a pessoa desistir de tudo, arrancar os sapatos e subir no muro porque as vozes falaram que era o mais correto a ser feito”.

Assim, tomando o máximo de cuidado – e me segurando para gritar um “Não pule! Seja o que for que estiver acontecendo, você é mais forte que isso!”, respirei fundo e, com o máximo de cuidado, disse, baixinho, a única coisa que me ocorreu diante daquela cena.

– Oi.

Aparentemente, eu falei baixinho demais, porque a única resposta que consegui foi um novo urro dolorido do telhado. Assim, tentei mais uma vez estabelecer uma comunicação.

– Olha, você pode me dizer o que você está fazendo em cima do telhado? E não, eu não estou julgando ninguém, só para deixar claro.

– O GATO ESTÁ PRESO NUM ARAME!

Confesso que não me surpreendi. E não porque o gato – seja lá de qual gato ela estivesse falando – se prende no arame todos os dias, mas porque quando você pergunta a uma pessoa o que ela está fazendo de meias em cima do muro, nenhuma resposta seria surpreendente. “Estou me preparando para mergulhar no lago” ou “Estou procurando pela Princesa Leia” seriam respostas completamente aceitáveis – ou, pelo menos, aceitáveis para a realidade daquela pessoa, e isso precisa ser respeitado.

– Que gato? Que arame?

– UM DOS GATOS DO VIZINHO ESTÁ ENROSCADO NUM DOS ARAMES DO ALARME!

Ah, o arame do alarme. Eu devia ter desconfiado.

Antes de continuar, eu preciso falar sobre a minha casa. Quando alugamos esta casa, descobri que a proprietária do imóvel... Bem, sabe aquelas pessoas que ficam brincando de imaginar em como sobreviver a uma epidemia zumbi? Bem, a dona da casa aparentemente leva isso muito a sério.

As portas da sala e da cozinha podem ser trancadas com barras de ferro com ar medieval. Todas as janelas possuem grades e todos os muros têm fios de alarme que cercam a casa, apesar de estarem desligados (se você for um ladrão, não se anime: eu falei que eles estão desligados apenas para o post ficar mais engraçado; juro que todos funcionam, dão choque e acionam todas as viaturas de polícia do bairro). Sem exageros? Na primeira semana que moramos aqui, eu fiquei batendo com os dedos em todas as paredes procurando pelo fundo falso que levaria ao bunker com enlatados e água estocada, e tenho certeza que ela só não construiu um fosso com crocodilos porque não conseguiu licença com a prefeitura.

E, aparentemente, tudo o que o sistema de segurança digno de fortalezas de supervilões conseguiu foi capturar um dos gatos do vizinho. E fazer minha Esposa subir no muro de meias. E me acordar.

– Mas como isso aconteceu?

– EU NÃO SEI! EU ESTOU TENTANDO SOLTAR O GATO E ELE ESTÁ ME ARRANHANDO!

– Você experimentou explicar que você e ele estão do mesmo lado, e que o arame é um inimigo em comum?

– AI!

– Vai dizer que você também se prendeu no arame?

– O GATO ME MORDEU!

– Bom, pelo menos ele parou de gritar enquanto te mordia. Porque as pessoas estão olhando na rua. Acham que você está fazendo uma espécie de ritual. Aliás, sacrificar animais em cultos religiosos foi proibido, acho que vou lá explicar para as pessoas que não está acontecendo nada demais, que você sempre sobe no muro de meias e fica fazendo o gato do vizinho gritar, que ninguém tem nada com isso, e que, por favor, saiam de frente da minha casa.

– RRRROOOOOAAAAARRRRRRRRR!

– Deixe eu adivinhar... Esse grito não foi seu, certo?

– NÃO! AGORA O OUTRO GATO DO VIZINHO ESTÁ AQUI! ESTÁ ROSNANDO PARA MIM!

– Talvez ele tenha colocado o arame aí para capturar o outro. Eu acho que você não devia ter se metido. Esse gato deve ser daqueles que pensa que “o amigo do meu inimigo é meu inimigo”. Eu penso assim também.

– AI!

– E agora você está em menor número.

– AI!

– Não. Na verdade, não. Na verdade, são todos contra todos. Você contra o gato que está contra o outro gato que está contra você. É tipo uma guerra mundial dos Aristogatas, mas com você no meio.

– AI!

– Eu vou subir no muro também.

– NÃO! NÃO DÁ PARA NÓS DOIS MEXERMOS NO GATO!

– Na verdade, eu pretendia filmar tudo isso para ver depois com calma.

– NÃO VAI FILMAR NADA! EU PRECISO DA SUA AJUDA!

Foi quando os mais de trinta anos assistindo Jornada nas Estrelas tiveram uma espécie de auge. Se você conhece a série, sabe que o Doutor McCoy tem uma frase clássica, que todo fã adoraria usar ao menos uma vez. Eu, claro, nunca havia encontrado uma chance disso até aquele momento. Pois, naquele minuto, o destino sorriu para mim. Eu estufei o peito e respondi que:

– Eu sou um médico, não um serralheiro!

– EU NÃO PRECISO QUE VOCÊ VENHA AQUI MEXER NO GATO!

– Sim, eu tinha desconfiado. Mas eu não podia perder a chance de responder isso.

– ENTRA EM CASA E PEGA UM ALICATE!

– Não seria melhor você pegar a permissão da família do gato antes de fazer algo tão radical assim?

– O ARAME! EU VOU CORTAR O ARAME!

– Ah, claro. Só um minuto.

Entrei correndo, me sentindo a pessoa mais importante do mundo. Peguei o alicate na caixa de ferramentas e voltei rapidamente para onde ela estava. Parei ao lado do muro e estiquei o abraço:

– Alicate.

Sim, eu não precisava ter falado o nome do instrumento. Mas agora que eu era um médico (e não um serralheiro) iria fazer todo o ritual de cirurgias que vi nos filmes. Mas infelizmente minha Esposa não pediu mais nenhum instrumento algum. Ela começou a fazer movimentos mais bruscos, tentando acalmar o gato enquanto desenroscava o arame da pata dele. Na rua, as pessoas estavam começando a fazer apostas. Pelo que ouvi, as cotações pagavam 2 para 1 em casa de vitória do gato, 5 para 1 em caso de vitória do arame e 16 para 1 em caso de vitória da Esposa.

Mas deu zebra. Ninguém imaginava que a Esposa seria uma espécie de Costa Rica na Copa do Mundo, eliminando um campeão atrás do outro.

Dois minutos depois, o gato saiu mancando e correndo e bufando e amaldiçoando a vida pelo telhado, enquanto ela soltou um “consegui” triunfante e desceu do muro.

Mas a pergunta... Bem, eu precisava fazer a pergunta.

– Olha... Só por curiosidade... Por que você estava de meias no muro?

– Porque eu estava com a sandália e fiquei com medo de subir com ela nos pés.

– Qual sandália?

Ela apontou para o chão e eu olhei na direção indicada. E lá estava o seu par de sandálias birken. Sim, eu tive que perguntar a ela como era o nome disso enquanto escrevia esse post, pois eu sempre chamo aquilo de “sandália franciscana”, porque só minha Esposa e os monges usam isso. Se você é como eu e não faz ideia do que é uma sandália birken, clique aqui.

Eu fiquei indignado.

– Espera! Você tirou essa sandália?

– Sim, eu ia cair do muro com isso.

– Você faz ideia do que você fez? Você estava em cima do muro bancando o São Francisco e salvando os animais! E você podia ter feito isso com uma sandália franciscana! Ia ser perfeito! O meu post no blog ia terminar de forma maravilhosa!

– Mas eu ia cair do muro!

– E não é só isso! A gente mora na frente de uma igreja! Se o padre visse você salvando um animal com essa sandália, a gente estava feito! Iam achar que você é um São Francisco do século 21, e nunca mais precisaríamos trabalhar na vida!

– Passa a minha sandália. Você leva a escada?

– Você não entende? Você ia se tornar um ícone religioso! Deve ter alguma vantagem nisso!

– Eu só queria salvar o gato.

Foi quando olhei para suas mãos. Estavam vermelhas, arranhadas e mordidas. E aí o post deixa de ser engraçado por um minuto, porque eu a abracei e disse:

– Você não faz ideia do orgulho que eu tenho de você. Você é completamente louca, mas eu tenho muito orgulho de ser seu marido.

Ela sorriu e entrou em casa. Foi lavar e desinfetar as mãos, torcendo para que o gatinho ficasse bem.

Mas, no momento que ela fechou a porta, esse post deixou de ser sério. Porque eu imediatamente comecei a pensar em alguma maneira do gato se prender no arame de novo. Não vai ser fácil, porque isso precisa acontecer num momento em que o padre estiver passando pela calçada e minha mulher esteja com a sandália franciscana.

Na dúvida, eu já tenho ficado no portão, observando a igreja e anotando os horários que o padre passa aqui em frente.

3 comentários:

Hally disse...

Ana, tu tem muita paciência mesmo! Hahahaha!!!!

Fernanda disse...

Santa Ana!!! Canonização já!

Pedro Modesti disse...

Um gato fica preso duas vezes no mesmo arame, ainda, como o plus de o padre estar passado no momento do resgate, apenas uma vez na vida, ou pelo menos a cada 75 anos, como o cometa Halley.

Muito bom