15 de julho de 2015

Sobre Ser Adulto e Outras Coisas que Crianças Pensam

Existe algum momento em que você fica adulto de verdade?

Acho que toda criança pensa nisso. Eu, pelo menos, pensava sobre isso. Imaginava que, em algum momento da minha vida, eu viraria adulto, como que num passe de mágica. Ou melhor, mais ou menos como os índios daquelas tribos que atravessam aquele ritual de passagem, onde saem de casa meninos, fazem uma, duas ou três coisas e são reconhecidos como adultos.

Nunca aconteceu comigo. Nunca precisei escalar a árvore mais alta, nunca tive que atravessar um rio a nado, nunca fui obrigado a matar o urso mais feroz da floresta. O mais perto que cheguei disso foi subir em uma árvore ao lado da padaria dos meus pais para pegar um balão que havia caído ali – um balão daqueles que as pessoas vêm de carro pegar – algo que dificilmente me classificaria como adulto. Na verdade, como eu tenho medo de altura e só percebi que a árvore era alta demais quando eu já estava nos últimos galhos, minha aventura provavelmente faria com que eu fosse reconhecido como um boçal.

Então, quando eu paro para pensar, não consigo em momento algum imaginar o dia que eu virei adulto. E isso vale para todos os assuntos. Bebida? Quando eu criança, achava que beber cerveja era coisa de adulto. Mas bebi cerveja e ainda era moleque, então entendi que para ser adulto precisaria beber uísque ou algo destilado. Mas bebi também e nada mudou, a não ser o fato de que descobri minha bebida preferida.

Mulheres? O raciocínio foi parecido, basta trocar a cerveja por beijo (porque quando eu tinha 13 anos um beijo era tudo o que eu queria), e o uísque por sexo (porque quando eu tinha 16 anos, só um beijo era tudo o que eu não queria). Fiz tudo isso e voltei para casa me perguntando quando será que eu viraria adulto.

E isso pensando apenas em sexo – já em relacionamentos, fiz de tudo também. Me apaixonei, me apaixonei por pessoas erradas, me apaixonei para sempre (mais de uma vez). Respeitei, menti, traí, perdoei. Fiz loucura, fiz bobagem, fiz o certo e o errado. Tudo coisa de adulto? Com oito, nove anos de idade eu acharia que sim. Com oito ou nove anos de idade eu tinha certeza que casar era coisa de adulto. E hoje estou casado.

Profissionalmente eu fiz muitas coisas de adulto. Varei noite trabalhando, briguei, ensinei, aprendi. Trabalhei até a exaustão, saí na chuva para resolver coisas que não eram minha obrigação, mas tive que dar exemplo. Fui subalterno, fui chefe, fui chefe de mim mesmo. Trinta anos atrás, eu olharia para o meu futuro e pensaria: “coisa de adulto”.

Amigos? Mesma coisa. Dia desses encontrei um grande amigo que não via há anos. Quando ele entrou em casa, dei-lhe um abraço que não foi de “seja bem vindo”, e sim de “porra, quanto tempo passou”. É aquele abraço de ainda estamos aqui, mas sim, o tempo passou. Quando eu era criança, eu acharia que ficar tempo demais sem ver os amigos talvez fosse coisa de adulto, porque adulto está sempre ocupado e nunca tem tempo para o que é importante.

Hoje, à beira dos quarenta, eu olho tudo isso e penso “não é coisa de adulto, é apenas... O que eu faço. O que eu sou”.

Sim, estou à beira dos quarenta. E até pouco tempo atrás eu estava pensando quando eu iria virar adulto. Na verdade, ainda penso. Penso isso quando estou fazendo coisas de adulto, penso isso quando estou fazendo coisas de adolescente, penso isso quando estou fazendo coisas de criança.

Mas teve um dia... Um dia em especial que eu acho que dei um passo grande para virar adulto.

Havíamos acabado de nos mudar para cá; era a primeira ou segunda noite que dormíamos aqui e, antes de dormir, eu fui ver se a porta da sala estava trancada. E, enquanto eu checava, percebi que essa era minha obrigação: cuidar dessa casa e das pessoas que estão dentro dela. E uma delas implica em fechar tudo antes de dormir. É a minha obrigação. Ou, como eu mesmo diria, “é apenas o que eu faço”.

Mas, a primeira vez que tranquei a porta da casa foi o dia que virei adulto. Acho.

Pensei isso enquanto trancava a porta e fui para a cama pensando sobre isso, provavelmente me lembrando do meu pai fechando a porta de casa quando eu era criança, que era o sinal do encerramento do dia. Aliás, é isso. Eu não tranco a porta, eu determino quando o dia da casa acabou. Isso é ser adulto. Isso tem que ser adulto.

Mas aí eu me pego dançando pela casa com o gato no colo. Percebo que estou andando mais rápido para casa porque tenho um jogo novo de PC. Sento sozinho pensando em textos e dou risada, falando sozinho e montando historinhas – que nada mais é que brincar de faz de conta. E, às vezes, descubro um livro e me apaixono como se eu tivesse acabado de aprender a ler.

Não é possível. Nada disso é muito adulto.

Mas, como eu disse, tenho quase quarenta anos e cuido da casa. E cuidar da casa implica em pagar o guarda da rua – ele é meio gago, qualquer dia eu falo dele aqui. Aí mês passado eu dei um aumento para ele, porque tudo está mais caro e acho que ele merecia ganhar mais.

– O senhor é muito bacana.

– Oi?

– Muito obrigado. O senhor sempre me cumprimenta, sempre para conversar comigo.

“É apenas o que eu faço”, pensei, mas não disse. Ao invés disso, pedi:

– Não me chama de senhor, cara.

De lá para cá, ele me chama de “você”, mas no começo foi mais difícil. Porque toda vez que eu olho no espelho eu vejo os quarenta anos ali. A careca, as marcas de expressão, o ar cansado. Mas, eu sei que de vez em quando eu deixo escapar uma gargalhada que faz os olhos brilharem e a pele alisar um pouco – mas não nasce cabelo, o que é uma pena. Enfim, eu olho no espelho e penso que sim, para o garoto que eu era com oito ou nove anos, o homem que eu sou hoje é um senhor.

Um adulto.

Espero que esse garoto não perceba que hoje, quando eu trancar a porta de casa e for para a cama, eu provavelmente vou me perguntar “que dia será que eu vou virar adulto?”

Que dia você virou adulto?

11 comentários:

Trotta disse...

Comentário óbvio: Acho que o segredo é nunca virar adulto.

Se um dia eu virar, eu te aviso.

Varotto disse...

O dia em que acontecer eu te aviso.

Anônimo disse...

Não tem graça virar adulto!

Alexandre Rigotti disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Alexandre Rigotti disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Alexandre Rigotti disse...

Quando eu fiz 40 anos peguei o controle do ps3 e pensei:

Ainda posso jogar???? Hoje jogo com meu filho....

Leitor novo disse...

Ainda não cheguei nos meus 20 e poucos e não penso em casar. Ainda jogo videogame, assisto séries e odeio rotinas. Mas comecei e trabalhar e vejo q ser adulto é um saco, porque vc tem cada vez menos tempo para dedicar às coisas q gosta de verdade. No ultimo ano transei pela primeira vez, fiquei bêbado pela primeira vez e saí do país pela primeira vez. Ainda estou na fase de primeiras vezes e espero que ela dure bastante tempo ainda.

Eduardo de Souza Caxa disse...

Sempre achei que adulto é a pessoa que serei "daqui a 10 anos". OU seja, faltam (sempre) 10 anos pra eu chegar lá. :-) Mas enquanto não chego, me divirto com a viagem!

Celle Fonseca disse...

Ainda me sinto uma menina, mesmo tendo tomado decisões, feitos escolhas e vivido histórias, e com
isso hoje carregar cicatrizes, que apenas adultos poderiam.

Celle Fonseca disse...

Ainda me sinto uma menina, mesmo tendo tomado decisões, feitos escolhas e vivido histórias, e com
isso hoje carregar cicatrizes, que apenas adultos poderiam.

Alex Gemeos disse...

Acho que no dia que meu avô morreu e eu prometi tomar conta da família... Eu tinha 12 anos e desde então sempre sou chamado pra resolver as coisas...
Mas não deixo de ler minhas hqs e comprar meus actions Figures por isso...