19 de julho de 2015

007 Contra O Quinto Elemento

De repente, eu olhei para o lado e percebi que já havia visto aquilo em algum lugar. O cenário... A frase... Era tudo muito familiar, mas não era nada que eu tinha vivido antes. Mas eu já tinha visto aquilo antes... Um filme! Eu estava dentro de uma cena de um filme!

Isso já aconteceu com você alguma vez? Você olha ao redor e descobre que, de alguma forma, está vivendo uma versão distorcida de uma cena que está guardada em seu cérebro. Comigo aconteceu mais de uma vez. A mais recente foi sexta-feira.

Tive uma reunião no Itaim, no final da tarde. Decidido a ir e voltar de táxi, eu fucei na carteira e vi que tinha por volta de quarenta reais, o que daria para apenas uma corrida. Mas tudo estava sob controle: eu podia pegar o táxi, pagar com dinheiro e, depois da reunião, tomar um café e sacar dinheiro que é uma das coisas mais fáceis de fazer quando você está no Itaim.

Sim, eu sei que eu poderia usar o Easy Taxi para chamar um táxi que aceita cartão, mas acontece que eu tenho alguns problemas com tecnologia. E não porque eu sou velho e tenho medo de novidades tecnológicas, mas sim porque sou cliente da TIM, então tenho medo de qualquer tecnologia que dependa de 3G. Para mim, ainda é mais fácil sacar dinheiro e pegar um táxi no ponto do que ter que subir em um poste e ficar com o braço levantado para sinal e chamar um táxi pelo celular.

Na ida, deu tudo certo. Na reunião, também. Mas aí o problema começou quando saí da reunião. Andei dois quarteirões e cheguei ao banco 24 horas que eu tinha em mente.

Não gosto muito de caixas eletrônicos. Acho que eles têm uma burocracia ridícula e exagerada. Os bancos dizem que aquilo tudo é para nossa segurança, mas sempre que uso aquilo tenho a impressão que estou usando um daqueles brinquedos feitos para avaliar a coordenação motora de crianças.

Insira o cartão. Retire o cartão. Digite sua senha. Diga o que você quer. Insira o cartão. Digite sua senha. Retire o cartão. Coloque o dedo no leitor ótico. Insira o cartão. Retire o cartão. Levante a perna esquerda. Ainda com ela no ar, insira o cartão. Abaixe a perna e digite sua senha. Aponte para o Norte e retire o cartão. Digite sua senha. Dê duas voltas sobre você mesmo gritando seu nome.

Toda vez que uso o caixa eletrônico, tenho certeza de que estou sendo filmado, e novamente não por motivo de segurança, mas sim para o pessoal do banco dar gargalhadas enquanto assistem ao gordinho careca fazendo uma dancinha ou imitando uma galinha no meio da rua para conseguir pegar quarenta reais. É humilhante demais.

Entretanto, desta vez não tive que fazer nada disso, já que o procedimento foi abreviado. Insira o cartão. Retire o cartão. Digite sua senha. Diga o que você quer.

“Este terminal não está fazendo saques e agora você está em outro bairro com dois reais no bolso. Que beleza, hein? Tenha um bom dia!”

Chutei a máquina e fui embora. Agora, eu tinha três alternativas:

1 – Voltar a pé.
2 – Entrar na internet e procurar um banco 24 horas.
3 – Entrar na internet e chamar um táxi.

Ou seja, minha situação não era boa, já que eu tinha que escolher entre bancar o Lawrence da Arábia e atravessar três ou quatro bairros a pé ou usar o 3G da TIM. Por motivos óbvios (39 anos de idade) resolvi arriscar o 3G e chamar um táxi. Peguei o celular do bolso e fui andando pela rua, até descobrir que, trinta centímetros ao lado de um bueiro, o sinal pegava – o que me leva a pensar se o sinal da Tim não pega melhor no esgoto. Bastava eu dar um passo para qualquer lado e o sinal desaparecia.

Assim, tomando cuidado para não fazer movimentos bruscos, abri o Easy Taxi e chamei um carro. O mapa apareceu mostrando que o taxista estava a três quarteirões e o tempo de espera seria dois minutos.

O carro andou. Parou. Andou. Parou. E nunca mais andou. Virei o corpo na direção do bueiro e ele voltou a andar. E Parou. Três minutos depois, recebo uma mensagem do taxista:

“Já estou a caminho!”.

Certo. Olho para o mapa. O táxi está na mesma rua que eu. Andou. Parou. Andou. Parou. Parou... E desapareceu do mapa.

“O taxista sofreu um imprevisto e não pode completar sua corrida”.

Olhei indignado para o celular e para a rua e para o celular de novo – tudo isso sem poder me mexer ou dar as costas para o bueiro. Como assim um imprevisto? Ele estava a cinquenta metros de mim, que tipo de imprevisto? Um meteoro caiu no carro? O Godzilla emergiu das águas do Rio Pinheiros e decidiu que precisava ir até o Itaim, destruindo tudo em seu caminho, para pegar o meu táxi e arremessá-lo em Jundiaí?

“Deseja chamar outro táxi?”

Sim, é evidente que sim. Não é porque meu taxista caiu num portal que o levou à outra dimensão quando estava prestes a me encontrar que eu não preciso mais voltar para casa. Sim, desejo chamar outro carro. Sim, estou no mesmo lugar. Sim, a referência é a mesma. Sim, vou pagar com cartão.

Recebo a notícia que um novo carro está a caminho. É um táxi que está a dois quarteirões de mim. Parado. Parado. Parado. Parado. Parado. Parado.

Comecei a ficar enlouquecido. Minha vontade era andar os dois quarteirões a pé, dar um tapa na cabeça do motorista e falar que “Dá para ir logo até ali, onde estou esperando? Vai ligando essa merda aí e me encontra lá onde você acha que eu estou. Vai ser fácil de me achar agora que você sabe como é a minha cara”.

Andou. Andou. Andou. Andou. Andou. Andou. Andou.

E passou por mim. Com uma passageira – uma mulher de uns cinquenta anos e cara de azeda – no banco de trás.

Meu impulso foi procurar por uma pedra e jogar na cabeça do taxista. Uma fração de segundos depois, me lembrei de que não deve ser muito comum achar pedras no Itaim, então decidi que jogaria o celular mesmo. Com sorte, acertaria com a quina na têmpora. Mas aí me lembrei que o aparelho é novo e mudei de ideia – se fosse meu antigo Galaxy S2, o taxista teria passado a noite no hospital.

Assim, respirei fundo e peguei meu celular novamente. Imediatamente, cancelei a corrida.

“Cancelar a corrida pode prejudicar nossos taxistas. Você quer mesmo fazer isso?”

Sim, quero. Quero prejudicar esse taxista pelo resto da vida dele. Quero cancelar a corrida, fazer com que o Uber monte sua sede na frente do ponto onde ele trabalha. Quero que o carro dele exploda em uma manhã e, quando ele entrar em casa para procurar os papeis do seguro, vai me encontrar usando uma peruca da Glenn Close e cozinhando o coelhinho da sua filha.

Cancelei a corrida socando o celular e chamei outro táxi – sim, tudo isso sem sair de perto do bueiro.

Andou. Parou. Andou. Parou. Andou.

E parou ao meu lado. Entrei disposto a começar a resmungar, mas assim que olhei para o taxista, eu percebi que ele se parecia muito com alguém. Ele tinha cara de alemão, era gordo e completamente careca. Ele era a cara de uma versão careca de alguém. Se eu conseguisse imaginá-lo com cabelo, talvez eu descobrisse com quem ele era parecido.

Nesse momento, as luzes do meu cérebro se apagaram. Era como se uma enorme escuridão tivesse assolado meus pensamentos.

– Para onde o se-se-sesenhor vai?

Gago. Um taxista gago. O Easy Taxi fez isso de propósito, e fodeu com minhas corridas até me jogar na mão de um gago. Mas eu não me importei com isso, naquela hora. Eu precisava saber com quem aquele cara se parecia.

Foi quando um facho de luz branca se acendeu no meu cérebro. Agora, tudo estava escuro, menos este pedaço iluminado, que mostrava um pedestal e um microfone sobre um palco.  Meu Deus, com quem esse cara parece?

– Vila Mariana.

– O senhor tem algum ca-ca-caminho de prefe-fe-ferência?

Lentamente, um neurônio veio caminhando na direção do microfone. O neurônio usava um vestido dourado, de lantejoulas.

– Olha, acho que podemos ir pela Sena Madureira.

– Certo. Então eu vou su-su-subir por essa a-a-a-aqui...

Eu parei de ouvir, pois o neurônio se aproximou do microfone, ergueu os braços, ressaltando suas curvas com o vestido dourado, e gritou:

GOOOOOOLDFINGEEEEER!!!!

– E vou cair ali na San-Santo Amaro...

HE’S THE MAN... THE MAN WITH THE MIDAS... TOUCH!

Segurei a risada e abaixei o volume da música no meu cérebro. Outros neurônios pediram para eu perguntar algo como “ah, Goldfinger, você também vai almoçar na Casa Branca?”, mas como o taxista poderia responder que “não, Mr. Gordon, eu espero que você morra!”, achei melhor não falar nada. Assim, decidi escolhi que iria usar o Goldfinger careca para reclamar dos outros taxistas.

– Você é o terceiro táxi que eu chamei.

– Como assim?

– O primeiro cancelou a corrida e o segundo pegou outro passageiro.

– Mas às vezes a gente pe-pega outro passa-passa-passa-passageiro sem querer.

– Como assim?

– Você é cha-cha-chamado para pegar um passageiro na rua tal e vo-você vai. Ba-ba-bum.

Ok. O Goldfinger careca não é gago. Ele é gago e tem um tique nervoso que se manifesta num vício de linguagem.

– Oi?

– Aí você chega lá e tem outr-tra pessoa espe-perando o táxi e ela entra no carro. Ba-ba-bum.

– Baba o quê?

– Aí, aque-quele que chamou o carro fi-fica lá. Ba-ba-bum.

– Olha, acho difícil que isso tenha acontecido. A não ser que ele tenha me confundido com uma mulher de cinquenta e poucos anos.

– Ah, então deve ter sido de saca-saca-saca...

– Sacanagem?

– Ba-ba-bum.

E foi quando eu percebi que estava dentro de uma cena de um filme. E não, não era de 007 Contra Goldfinger. Era uma ficção científica: afinal, eu estava dentro de um táxi com uma pessoa que ficava falando Badabum o tempo inteiro. Sim, eu estava em uma versão distorcida de o Quinto Elemento.

E sim, eu sei que a pessoa ao meu lado estava longe de ser a Mila Jojovich usando pouca roupa. Na verdade, tudo o que eu conseguia pensar ao olhar para ele era que os vilões de 007 haviam dado uma festa a fantasia e o Goldfinger, com preguiça de escolher uma fantasia bacana, apenas raspou a cabeça e disse que “estou fantasia de vo-vovocalista do Parala-lamas do Su-sucesso, ba-ba-bum”.

Mas quem não tem Mila caça com Goldfinger careca mesmo. Assim, dei meu melhor sorriso Bruce Willis e olhei para ele.

– Yeah. Badabum.

Ele olhou para mim com cara de interrogação e eu completei:

– Big Badabum.

Passei o resto da viagem tentando encontrar uma maneira de usar a expressão Multipass na conversa, mas não consegui. Aliás, antes da metade do caminho eu já estava até to-tonto. Primeiro, porque ele era gago, segundo porque ele falava ba-ba-bum e terceiro porque ele não parava de falar. Polí-lítica. Ba-ba-bum. Esporte. Ba-ba-bum. Pessoa do ca-carro do lado. Ba-ba-bum.

Chegou uma hora que eu fechei os olhos e reparei que o neurônio vestido de Shirley Bassey ainda estava cantando. Então aproveitei e aumentei um pouco o volume.

– IT’S THE KISS OF DEATH... FROM MISTER... GOOOOOOOOOOOOOOLDFINGEEEEER!

E fui ouvindo a música até em casa, pegando apenas um ou outro ba-ba-bum da conversa.

3 comentários:

Trotta disse...

Eu não tenho coragem de usar o Uber, mas sempre ouvi falar que o 99 Taxis é melhor do que o Easy.

Varotto disse...

Imagina o gago respondendo que o nome dele é Leeloo Minai Lekarariba-Laminai-Tchai Ekbat De Sebat. Ia dar tempo de chegar aqui no Rio até ele acabar.

Varotto disse...

Ou:

você: Cara, acho que você escolheu um caminho muito barra pesada.

ele: Me fifth element - supreme being. Me protect you.