24 de fevereiro de 2015

... E Outras Histórias de Egoísmo.

(Peço que, antes de ler esse texto, leia este aqui).


Foi há poucos minutos atrás. Fui comprar cigarros no posto a duas quadras de casa. Apressei o passo, pois uma tempestade cairia em minutos, e segui meu caminho.

Na metade do caminho, ouvi um pássaro cantando. Na verdade, não era um canto, era o mesmo grito, no mesmo tom e com o mesmo intervalo de tempo. Eu estava na Lins de Vasconcelos e, mesmo com todo o movimento de pessoas e carros, era possível perceber isso.

Pelo som, tive a sensação de que era uma maritaca, pois o bairro é cheio delas. Assim, sem diminuir o passo, olhei para o alto e comecei a procurar por ela, em postes e telhados ao redor. Demorou quase dez segundo para eu encontrá-la, pousada num fio do outro lado da rua. Virada de costas e cantando. E sozinha.

Estranhei ela estar sozinha. Maritacas normalmente andam em bando e cada bando parece ser formado por casais. Mesmo quando não estão em bando, elas estão sempre em pares – às vezes colocamos comida para elas no quintal do fundo, e nunca uma vez sozinha. Ou elas aparecem pares, ou em bando.

Foi quando eu percebi que seu canto não era um canto.

Era um chamado.

Provavelmente, havia se perdido do bando – ou do companheiro – e estava tentando chamando por eles. É um bicho inteligente: sabe que se sair voando para qualquer lado as chances de ser encontrada diminui; assim, fica parado em lugar visível, chamando aquele que estiver mais perto.

Eu parei na calçada e comecei a olhar ao redor, procurando por sinais do resto do bando, ou de alguma outra maritaca. Não vi nada. Provavelmente, as outras pessoas na rua estranharam o fato de eu estar ali, parado, olhando para cima. Devem ter pensado que sou louco ou, no mínimo, desocupado a ponto de poder estar de bermuda e chinelos parado no meio da rua e olhando para o alto feito um imbecil.

Mas eu não me importei, e não porque não me importo com o que as outras pessoas pensam – vamos ser sinceros? Todo mundo se importa com isso em maior ou menos escala – mas sim porque eu não sei lidar com animais perdidos. Sei que isso deve parecer cafona (e provavelmente é), mas, a meu ver, animais são criaturas puras demais para se perderem e enfrentarem sozinhos um mundo tão hostil como esse que nós construímos. Para mim, são gotas de bondade que se diluem numa tempestade de maldades, crueldades e pouco caso.

Sinto isso ao ver cartazes com fotos de animais que sumiram de suas casas, quando Besta-Fera fugiu da casa da minha mãe, quando comecei a cuidar do gato que apareceu nos telhados da vizinhança. É um dos poucos assuntos que eu já escrevi sobre, mais de uma vez, e que mesmo assim não aprendi a lidar.

Eu não pensei nada disso enquanto ao ver aquela maritaca sozinha, chamando pelo bando, mas senti tudo isso. E imediatamente comecei a olhar ao redor, procurando por outras maritacas. Um trovão explodiu no céu e eu não vi maritaca alguma. Nem nos telhados, nos outros fios, nos postes. Nas árvores eu certamente não enxergaria, mas escutaria. E eu não escutava nada. Tudo o que eu ouvia era a maritaca perdida gritando mais alto e olhando para os lados.

Meu instinto foi pensar o que eu poderia fazer. E imediatamente me veio à resposta: nada. Eu não poderia subir nos telhados atrás das outras maritacas, e mesmo se eu pudesse isso não daria certo, eu apenas as espantaria. E ficar ali parado na calçada não resolveria nada já que, se de onde eu estava eu encontrasse outra maritaca, a maritaca do fio já enxergaria suas companheiras muito antes.

Foi quando eu tive a sensação de que eu estava sendo egoísta. Eu não estava parado e olhando para a maritaca em busca de uma solução. Talvez eu estivesse ali esperando para ver se ela era encontrada apenas porque eu não queria sair de casa para comprar cigarros e voltar com o cigarro no bolso e uma história triste na cabeça. Eu não estava procurando solução alguma, eu estava esperando o final feliz acontecer para eu poder tocar meu dia em paz.

Eu não estava pensando na maritaca, porque não adiantava pensar na maritaca. Eu estava pensando em mim, porque eu não queria uma história triste. Sim, eu gosto de histórias tristes, mas sempre no cinema, quando eu sei que é mentira, que os atores acabaram de filmar, trocam de roupa e vão para casa, deixando para trás os dilemas de seus personagens e a música triste.

Mas a maritaca era real. Estava perdida de verdade no mundo real, assustada demais com isso para perceber que, caso não seja encontrada, sua vida será muito mais difícil – e provavelmente mais curta – que ao lado de seu bando, onde cada uma cuida de todas. Tudo o que eu estava fazendo era assistir a isso, esperando que fosse apenas um susto e que seu companheiro e o resto do bando aparecessem – na minha cabeça, estavam preocupados e procurando por ela.

Basicamente, comecei a perceber que a maritaca estava preocupada com ela e fazendo o que podia para consertar isso. As maritacas do seu bando deviam estar preocupadas com ela e fazendo o que podiam para consertar isso. E eu estava preocupado apenas comigo mesmo e com o bem estar do meu dia.

Em minha defesa, digo que não havia nada que eu poderia fazer. Mas, como promotor, digo que eu não estava preocupado com a maritaca. Ou, ao menos, apenas com ela. Eu também estava preocupado com o bem-estar do meu dia. Porque talvez seja isso que a gente sinta sempre que vê uma história triste na nossa frente. Não digo que somos egoístas a ponto de nos colocar acima da história, mas talvez a gente torça por um final feliz não apenas por causa dos personagens da história, mas sim para que a gente consiga encerrá-la de forma alegre e pacífica dentro de nossas cabeças, para que possamos continuar tocando nossas vidas sem nunca mais pensarmos naquilo.

Não estou dizendo que não nos importamos. O que estou tentando dizer é que o fato de nos importarmos não é prova suficiente de que estamos preocupados apenas com a história e com seus personagens, mas também com a forma que essa história vai afetar nosso dia. E muitas vezes estamos mais preocupados com isso do que com a própria história que estamos vendo.

Assim, abaixei a cabeça e tentei não pensar mais a respeito disso – o que pode ser visto como evidência de culpa – e fui comprar meu cigarro. Comprei, paguei e voltei para casa. No caminho de volta, olhei para o alto em busca da maritaca e não vi nada no fio. Ela havia ido embora.

Fui para casa e comecei a escrever sobre isso, transformando o maior susto do bicho em uma crônica que deve me render meia dúzia de cliques, alguns comentários e elogios. Em minha defesa, digo que estou aqui torcendo para ela ter encontrado as outras maritacas. E realmente estou. Mas algo me diz que eu desejo isso somente porque quero um final feliz. Pois estou mais preocupado comigo que com a maritaca. 

2 comentários:

Adriano T. disse...

Cadê seu amigo Homem-Pássaro quando se precisa dele?

Anônimo disse...

Eu gostaria que todos os egoístas de São Paulo fossem tão altruístas quanto você...