27 de fevereiro de 2015

A Alma Mais Humana



Spock!

Eu não lembro a primeira vez que assisti Jornada nas Estrelas. Mas, por outro lado, eu não consigo imaginar a minha vida sem Jornada nas Estrelas. Quando eu era criança, meus heróis eram outros. Quando eu era criança, eu queria ser Luke Skywalker. Queria ser Han Solo. Queria ser Indiana Jones. Mas Jornada nas Estrelas já estava na minha vida desde essa época.

A paixão pela série é uma herança dos meus pais, que adoravam. Herança do meu irmão, cuja paixão pela ciência – hoje ele é físico – nasceu junto com as aventuras de uma espaçonave que explorava a galáxia, audaciosamente indo onde nenhum homem jamais esteve. De lá para cá, muitas outras espaçonaves surgiram na minha vida. Mas a Enterprise continua sendo meu lar.

Não sofra, Almirante.

Nunca deixei de admirar meus heróis de infância, e até ganhei heróis novos. Mas, conforme eu cresci, parei de sonhar em me transformar nos meus heróis. Comecei a perceber que eles viveram suas aventuras da mesma forma que eu estava vivendo a minha. A minha vida, como a de todos nós – e até mesmo a dos meus heróis – era uma enorme aventura. Talvez tudo o que a gente precise fazer, em alguns momentos, é imaginar que um garoto está assistindo nossa vida. Com isso, nossa aventura ganha cores. Com isso, sabemos que é preciso fazer o possível para nos tornarmos o herói desse garoto.

Entretanto eu não deixei de querer ser um herói por me tornar adulto, mas sim por me transformar em outro tipo de garoto. Mais crescido, mais responsável, mais maduro, mas ainda assim um garoto. Com algumas cicatrizes aqui e outras ali, com erros que fazem o que sou e – mais importante de tudo – sabendo qual o meu lugar no universo.

Eu nunca havia feito o teste do Kobayashi Maru até agora.

Quando eu era criança, eu queria me transformar em meus heróis. Adulto, eu não quero mais ser um herói do cinema ou da televisão. Mas, muitas vezes, assistindo a um episódio de Jornada nas Estrelas, eu pensava “isso é o que eu preciso ser”, ao ver o Capitão Kirk.  É outro tipo de heroísmo, que vai além de murros no queixo. É um heroísmo que envolve tomar decisões imediatamente, saber quando é melhor arriscar e quando optar pelo caminho mais seguro – e, mais importante, colocando o bem estar dos outros acima do seu. As necessidades da maioria (normalmente) têm mais peso que as da minoria. Ou que as necessidades de um.

Kirk não é herói pela sua coragem ou ousadia; Kirk é herói por carregar não fugir da responsabilidade de ter centenas de outras vidas dependendo de cada passo seu. “Quanto mais eu dou, mais ela toma; quanto mais eu dou, mais ela toma”, Kirk lamentou quase enlouquecido em um episódio da série. Ele estava falando da sua responsabilidade com a Enterprise. Quem nunca sentiu o mesmo sobre a vida?

O que você achou da minha solução?

Mas Kirk sempre prevaleceu. Sim, isso se deve a sua coragem, inteligência e ousadia. Pela capacidade de quebrar regras para um bem maior. Mas Kirk sempre prevaleceu por ter as pessoas certas ao seu lado. Especialmente o seu oficial de ciências meio vulcano, cujo intelecto e capacidade de raciocínio lógico eram menores apenas que sua lealdade ao capitão. Ao amigo. Uma lealdade que ele mesmo classificaria como lógica, mas que não era. Muito menos extraterrestre. Era uma lealdade humana. Afinal, como Kirk disse no funeral de Spock... “De todas as almas que encontrei em minhas viagens, a dele era a mais humana”. Era verdade. Nós não víamos isso quando víamos a série na TV entre e aula e a lição de casa, mas entendemos isso anos depois, mais adultos.

Eu não quis ser Kirk desde que nasci. Mas passei a vida inteira procurando ter Spocks ao meu lado. E passei a vida inteira procurando ser o Spock de todos os meus amigos. Provavelmente não consegui fazer isso sempre. Afinal, Spock só existe um. Mas, como Kirk, eu nunca desisti de tentar. Como McCoy, fiz questão de não ficar azedo com meus fracassos. Afinal, eu era humano.

Eu sempre fui...

Tive bons amigos. Muitos deles eram Spocks. Tive alguns McCoys também. Alguns estão na mesma nave que eu até hoje. Outros estão em outras missões, outras viagens. Mas eu sempre soube que é preciso ter um Spock ao lado. Alguém que se oferece para ir com você, e você responde “fique na nave, porque se algo der errado, é com você que eu conto para me tirar de lá”.

A Série Clássica de Jornada nas Estrelas é uma série sobre ficção científica, mas seus filmes para cinema (em especial a partir do segundo) são todos sobre amizade e passagem do tempo. Pois é preciso que o tempo passe para que você compreenda que sua viagem será curta e sem graça sem um amigo. É preciso que o tempo passe para que você compreenda que, para ser Kirk, é preciso ter Spock e McCoy ao seu lado. Afinal, como o próprio Kirk disse em Jornada nas Estrelas V, “eu sabia que não ia morrer porque vocês estavam comigo; e eu sempre soube que vou morrer quando estiver sozinho”. E hoje Kirk está sozinho. Magro morreu mais de dez anos atrás. Hoje morreu Leonard Nimoy.

...E sempre serei seu amigo.

Os sites dizem que era um ídolo de milhões de pessoas. Eu nunca o vi assim. Para mim, ele sempre foi um velho amigo. Isso aconteceu quando o vi pessoalmente, quando esteve no Brasil. Foi um dos poucos atores que vi de perto que fez minhas pernas tremerem. Dias depois da coletiva, novo encontro, um rápido aperto de mãos e um cumprimento. Minutos antes, eu estava quebrando o pau com uma assessora de imprensa totalmente débil-mental numa sala lotada – uma das únicas duas vezes que levantei a voz com uma assessora, a outra vez, ano depois, seria novamente com ela – e quase não consegui tirar uma foto com ele.


 Acabei tirando a foto junto com outra pessoa com quem nem tinha contato - e que por isso está fora da foto acima, já que ela não cabe aqui - mas hoje sei que era isso ou nada. No momento, eu queria ter falado sobre tudo o quanto ele era importante para mim e agradecido por tudo que aprendi com ele, mas não tive chance. Mas não era preciso. Afinal, ele era meu amigo de infância. Era meu velho amigo. E velhos amigos sempre sabem disso. E agora, em homenagem ao meu amigo, tudo o que preciso saber é que “ele nunca estará realmente morto enquanto nos lembrarmos dele”.

Vida longa e próspera.

7 comentários:

Elise Garcia disse...

Quando a Michele me avisou parecia que alguém tinha colocado um phaser na posição stun e atirado em mim. Ontem mesmo estava revendo os últimos episódios da segunda temporada da série clássica e admirando a personalidade vulcana-humana do Spock. Ainda estou stunned. E chorei lendo esse texto.

May Nimoy LLAP in our memories.

Diego disse...

orra Rob, chorei aqui.

André Moraes disse...

Mais um chorando aqui, pelo menos dessa vez é na sala de casa.

Eder Potter disse...

Lindo texto *-* ual !!!

Anônimo disse...

Spock pra muitos so um personagem fictício mas pra mim uma grande expiração.�� <3

Menina Cósmica disse...

Infelizmente não tive a chance de ouro de conhece-lo, mas sei que ele está em nova jornada além da fronteira final. Lembro de uma palestra que fiz sobre o Spock, me deixou totalmente feliz por conhecer uma alma humana como a do nosso querido Harold Spock, sim esse é o nome completo de Spock, que sua mãe lhe deu....

Adorei seu depoimento, Rob. Lindo! Virei fã kkkkkk

Vida Longa e Próspera!

Vinicius Lemos disse...

Provavelmente um dos textos mais tocantes que eu li sobre a morte de Nimoy e da importância e proximidade de Star Trek na vida da nossa geração. Vida longa e próspera a tudo o que ele significou e ainda significa.