23 de fevereiro de 2015

O Mistério dos Cinco Lixeiros

Algumas semanas atrás, comemoramos um ano que estamos morando na nova casa. Na verdade, a Esposa celebrou a casa nova; eu celebrei que estou há um ano sem precisar ter o menor contato com corretores de imóveis.

Não, minto. De vez em quando toca meu telefone, e é um corretor dizendo que no próximo sábado haverá o lançamento de um condomínio de luxo em alguma cidade do Mato Grosso do Sul e se eu não tenho interesse em conhecer. Antes, eu ainda me preocupava em perguntar “onde vocês, pessoas, arrumam meu telefone?”, mas como aceitei essas ligações como algo corriqueiro na minha vida, eu apenas finjo que não falo português e desligo o telefone.

Enfim, a casa nova. Estamos muito felizes aqui – sempre que passo pelo quintal, eu dou um abraço na churrasqueira, digo o quanto ela é importante para mim e o quanto sou uma pessoa mais completa com ela. E já tenho os meus cantos na casa, os locais onde fumo e penso na vida e em textos – algo que não vivo sem. Sim, os vizinhos poderiam falar um pouco mais baixo, mas paciência. Dos males, o menor.

Ou seja, tudo vai muito bem, obrigado.

Tudo menos o lixeiro.

Faz pouco mais de um mês que estou em uma guerra particular com o lixeiro. Tudo começou no início do ano. Até então, o lixeiro era algo extremamente regular e que funcionava como um relógio, de acordo com o seguinte esquema:

Terça-Feira: o caminhão de lixo comum passa à noite.
Quinta-Feira: o caminhão de lixo comum passa à noite.
Sexta-Feira: o caminhão de lixo reciclável passa à noite.
Sábado: o caminhão de lixo comum passa à noite.

Não é preciso ser um gênio para lidar com isso. Terça, quinta e sábado depois do jantar eu preciso colocar o lixo para fora. Sexta eu faço o mesmo, mas com o lixo reciclável. Eu levei pau duas vezes no primeiro colegial, e, nas duas bombas, uma parte bastante importante do pavio se chamava “Matemática”, mas até eu conseguia lidar com isso.

Mas, com o início do ano, recebemos uma circular dizendo que a rotina do caminhão de lixo mudaria, com algumas regras. O caminhão que recolhe o lixo normal continuaria passando terças, quintas e sábado, mas em novo horário. Já o caminhão de reciclável mudou para segunda e quinta.

Certo. Então, agora eu precisaria colocar o lixo para fora quatro dias por semana (segunda, terça, quinta e sábado). Ok. Eu também consigo lidar com isso. Tranquilo.

Mas os problemas começaram com os horários do caminhão. A circular dizia que eu devo colocar o lixo para fora no máximo duas horas antes do caminhão de lixo passar. Bom, isso é fácil também. Se ele passar às 22, eu coloco o lixo para fora às 20. Se ele passar às 23, eu coloco o lixo às 21. Eu também consigo lidar com isso. Assim, peguei a circular e procurei o horário previsto para o caminhão de lixo passar na minha rua.

E não dizia.

Tudo o que ela dizia a respeito do assunto era algo como “fique esperto aí na janela com um relógio na mão que em algum momento da terça-feira o caminhão de lixo vai passar. Se você não souber como é o caminhão de lixo, preste atenção a veículos grandes, fedorentos, cheios de saco de lixo na parte traseira, e sempre derramando um líquido viscoso por onde passam”.

Aparentemente, o problema era a unidade. Eu estava trabalhando com a unidade horas e a prefeitura com a unidade dias. Basicamente, eu precisava encontrar o valor de X na seguinte equação:

X = Y – 2h
(Onde Y pode ser qualquer hora das 24 horas contidas na terça-feira.)

Coloquei isso no papel e tive a sensação de que a resposta seria aquelas coisas que sempre estiveram além do meu alcance, tipo Números Irreais, Números Fantasiosos, Números Fantasmas ou qualquer outro nome que simboliza que soa como um aviso para que a humanidade não se aproxime daquele conjunto de números sob risco de abrir um portal para o inferno e soltar demônios pelo planeta (e o número de demônios seria, certamente, a raiz quadrada de um número negativo).

Bem, desisti de resolver a equação. Assim, na primeira terça-feira do ano, acordei e coloquei o lixo para fora. E passei o dia em casa, dando olhadas pela janela para tentar descobrir o horário de lixeiro. Eu estava convencido que não adiantaria nada. Algo me dizia que o lixeiro poderia passar às 10 horas da manhã, e na semana seguinte passar às 23 horas, e na terceira decidir que seria legal passar no meio da tarde. Mas me surpreendi ao perceber que não foi nada disso que aconteceu.

Na verdade, naquela terça-feira, o lixeiro não passou.

Meu lixo – e o dos vizinhos – ficou ali, entregue ao Deus dará, durante o dia inteiro, como uma criança que fica na calçada esperando por algum sinal que prove a existência do Coelhinho da Páscoa. E se você acha triste a situação do meu saco de lixo, lembre-se que, dentro da casa, eu desempenhava o papel do pai retardado que não apenas acredita no Coelhinho da Páscoa como está na janela preparado para marcar em qual horário ele passa por aquela rua.

Por mim, eu teria deixado o saco de lixo ali, apodrecendo, na frente de casa. Aliás, até pensei em colocar uma plaquinha com “Lixo Hospitalar Radioativo Extraterreno – Recolher com cuidado para não assustar os mosquitos da dengue” só de sacanagem, mas fiquei com preguiça. Além disso, eu teria um problema. Quinta-feira era o dia do caminhão que recolhe o lixo reciclável (que também passaria em qualquer horário que ele se sentisse à vontade para isso) e, com isso, eu precisava tirar o lixo normal e trocá-lo pelo lixo reciclável.

Assim, na quinta-feira pela manhã, abri o portão e fui até a lixeira carregando um saco de lixo. Peguei o saco de lixo que estava lá e coloquei o saco de lixo reciclável no lugar dele. Sacudi as mãos após um trabalho bem feito e fui cuidar do meu dia, voltando para casa carregando o saco de lixo antigo e olhando com cara de “sim, eu levo lixo para dentro de casa, meta-se com a sua vida” para o vizinho que saía para trabalhar.

As horas se passaram e, à tarde, eu saí para ir a algum lugar qualquer. Abri o portão e vi que meu lixo ainda estava ali. Olhei ao redor e não vi saco de lixo algum. Meu vizinho estava voltando para casa e eu perguntei, casualmente:

– Você sabe que horas o lixeiro passa hoje?

– Acho que à noite.

– Obrigado.

– Você está perguntando sobre o reciclável, certo?

– Isso.

– Ele passa à noite. O lixeiro normal passou.

– Como assim?

– Ele já passou. Você perdeu o horário do caminhão de lixo?

– Não quero falar sobre isso.

– Ele passa umas sete da manhã.

– Ok. Depois eu falo com você. Agora eu preciso entrar em casa, ter um ataque histérico e quebrar alguma coisa. Talvez esmurrar uma parede. Mas muito obrigado mesmo assim.

– Por nada.

Entrei em casa batendo portas, socando coisas e decretando que nunca mais colocaríamos o lixo para fora. Aquele saco de lixo que estava ali fora seria o último que colocaríamos na lixeira. Até que o caminhão se dignasse a recolher aquilo, nós seríamos uma nação independente, com nossas próprias leis e alheios ao sistema de coleta de lixo. A Esposa olhou para mim e disse:

– Na verdade, você precisa tirar o saco de lixo lá fora e colocar o do reciclável. Ele passa hoje.

– Como assim, hoje? Eu acabei de descobrir que hoje passou o caminhão de lixo normal.

– Sim, e agora à noite passa o reciclável.

– Dois no mesmo dia?

– Sim. O normal passa terça, quinta e sábado. O reciclável passa segunda e quinta.

– Dois caminhões no mesmo dia?

– Você não tinha percebido?

Não. Não tinha. Mas não pegava bem eu admitir isso. Afinal, eu estava prestes a fundar meu próprio país, e um líder precisa passar confiança para seu povo.

– Sim, eu havia reparado! É evidente que eu havia reparado nisso! Você acha que eu sou idiota? Está escrito lá, quinta-feira!

– Bem, você precisa colocar aquele lixo de volta na garagem e colocar o reciclável para fora.

– Você já considerou a hipótese de que este saco de lixo está amaldiçoado?

– Como assim?

– Eu estou há dias tentando me livrar deste saco de lixo e não consigo. Eu coloco o saco na lixeira, e tudo o que acontece é que eu preciso voltar até a lixeira, pegar o saco e trazer de volta para a garagem. Eu tenho certeza que se a gente abrir o saco de lixo e olhar lá dentro, nós vamos encontrar algum amuleto de uma religião antiga. Nós estamos amaldiçoados!

– Deixa de bobagem.

– Esse saco de lixo vai trazer a desgraça para todos nós!

– O lixo reciclável está ali. Coloca o outro na garagem e este aqui lá fora.

Nem cinco minutos após fundar meu próprio País e eu já havia descoberto que é impossível governar sem o Congresso. Peguei o saco de lixo reciclável, fui até a calçada, peguei o saco de lixo normal, coloquei o saco de lixo reciclável no lugar dele e carreguei o saco de lixo normal para a garagem. E fiquei olhando o saco de lixo durante alguns segundos, pensando se valia a pena abri-lo e fuçar dentro dele em busca de algum boneco asteca de vodu ou uma caveira da Babilônia que estivesse causando tudo aquilo.

Evidentemente, não tive coragem de abrir nada – afinal, não era um saco de lixo comum, mas sim um saco de lixo que estava há dias sendo levado para cá e para lá, gradualmente apodrecendo e ganhando consciência, provavelmente esperando alguém meter a mão lá dentro para capturar a vítima e usá-la como alimento.

Desta forma, achei mais higiênico mudar minha teoria: não é o saco de lixo que está amaldiçoado. A partir de agora, eu falo para as pessoas que minha casa foi construída em cima de um antigo cemitério da Vega Sopave e os espíritos dos lixeiros estão procurando se vingar dos novos moradores, especialmente daquele baixinho careca que está fumando ali na frente.

E a vingança tem dado certo. Agora, sou um escravo do lixo, cheguei até a tentar uma tabela no Excel para mapear os dias que preciso levar o lixo para fora, mas não tive sucesso. Primeiro, a questão de dois lixeiros passarem no mesmo dia. Segundo, assim como as crianças na escolinha tem o “Dia do Brinquedo”, o lixeiro tem o “Dia da Conjunção”. Trata-se da terça-feira, que é o dia que o lixeiro passa se quiser, quando quiser, onde quiser e como quiser.

Assim, desisti e aceitei meu destino. Mas, agora, tudo o que eu faço é colocar o lixo para fora. Estou trabalhando e a Esposa pede para eu colocar o lixo para fora. Levanto, pego o saco de lixo, coloco na lixeira e volto para o PC. Escrevo dois parágrafos e ela aparece.

– Precisa tirar o lixo.

– Você está tentando me enlouquecer?

– Como assim?

– Eu acabei de tirar o lixo. Eu tenho certeza que fiz isso faz dez minutos.

– Aquele era o normal. Agora precisa tirar o reciclável.

– Não dá para tirar tudo de uma vez? Duvido que se a gente fizer isso todos os golfinhos vão morrer, ou que o solo vai se tornar venenoso.

– O saco de lixo está aqui.

– Eu aposto que foi isso que aconteceu em Chernobyl. Mudaram o horário do caminhão de lixo, alguém se atrapalhou tentando descobrir se era a vez do lixeiro normal ou do reciclável, e pronto. Deu merda. Vai acontecer o mesmo aqui.

– Certo.

– Aliás, tomara que aconteça. Assim o planeta explode logo e todos nós morremos.

– Certo.

– E eu não me importo de morrer desde que o lixeiro morra também. O lixeiro e a pessoa que resolveu mudar o horário do caminhão de lixo. Faço questão de encontrar todos esses caras no inferno.

Mas pego o saco de lixo e vou até a calçada. Coloco o saco de lixo na lixeira e, antes de entrar em casa, dou uma olhada para os lados.

Eu sei que alguém está observando.

Eu sei que alguém está rindo disso.

Um comentário:

Viviane Lessa Fernandes disse...

Adorei!!! Inclusive me identifico muito com os"paus" em matemática e o vodu Asteca... Ri horrores