24 de abril de 2014

A Velha da Fila e Outras Histórias de Gripe



O homo sapiens surgiu há 200 mil anos. Grosso modo, isso aconteceu quando os homens desceram das árvores, endireitaram as costas e resolveram que era hora de criar responsabilidades e assumir o papel de espécie dominante do planeta.

Foi nessa época que os humanos começaram a fazer diversos questionamentos: por que diabos esse polegar é diferente dos outros dedos? O que acontece se eu bater com esse osso na cabeça de outro homo sapiens? O que acontecerá se eu jogar esse pedaço de carne nessa luz que queima?

Com o passar dos séculos, os humanos construíram civilizações, progrediram científica e socialmente, e as perguntas, claro, mudaram. O que estamos fazendo aqui? Para onde vamos? Qual nosso destino? Quem diabos tira um centroavante e coloca mais um volante quando o time está perdendo de 1 x 0 e jogando em casa?

Mas uma pergunta em especial permanece sem resposta. Desde a aurora do homem, o homo sapiens vem tentando entender a diferença entre homens e mulheres. Através dos séculos, poetas, filósofos, artistas, dramaturgos, políticos, cientistas e religiosos tentarem responder a esta pergunta, que permanece como o grande mistério da natureza.

A resposta, porém, é mais fácil do que parece. A diferença entre homens e mulheres é que mulheres são claramente um organismo superior. Ao contrário dos homens, elas se adaptaram com mais facilidade a um dos maiores inimigos da espécie: a gripe.

E se você acha que estou exagerando, é porque você não é casado. Aqui em casa isso é muito claro. Por exemplo, alguns dias atrás, durante o feriado, eu e a Esposa pegamos uma gripe violenta, daquelas de fazer a pessoa querer ficar na cama o dia inteiro.

O que minha Esposa fez? Limpou a casa. Saiu para fazer compras. Fez almoço de Páscoa. Cuidou dos cachorros. Cuidou dos gatos. Atualizou a planilha financeira. Lavou a louça. Tirou a roupa da máquina. Pendurou a roupa no varal. Brincou com os gatos. E, ao final do dia, comentou que “vou deitar mais cedo porque estou péssima da gripe”.

Eu? Eu passei o feriado estatelado e inerte no corredor da casa, de bruços e gemendo, resmungando que estou morrendo e que quero apenas um pouco de clemência e uma morte rápida.

Sim, este foi o meu feriado. E, claro que, no meio da gripe, ela ainda encontrou tempo para dizer que eu estava exagerando, o que eu respondi prontamente com:

– Na alegria e na tristeza, na riqueza e na pobreza, na saúde e na doença. Lembra?

– Sim.

– Certo. Agora, você não reparou que ao lado da palavra “doença” tinha um asterisco?

– Que asterisco?

– Um asterisco que levava para as letras miúdas do contrato. Se você assinou sem ler, problema seu.

– Chega de drama.

– Não é drama. Eu estou morrendo. Eu não passo de hoje.

Mas, no Domingo de Páscoa, decidi que iria fazer uma última boa ação antes de morrer. Assim, me arrastei até o mercado ao lado de casa parar comprar umas coisas que faltavam para o almoço – me controlando para não andar mais umas três quadras, entrar no cemitério da Vila Mariana, deitar ao lado de uma tumba qualquer e aguardar meu fim inevitável.

Entrei no mercado, peguei as três coisas que eu devia comprar, liguei para a Esposa (para perguntar qual era a quarta coisa mesmo e dizer que se eu não conseguir voltar para casa almoce sem mim), peguei a quarta coisa e fui para os caixas.

Lotados. Todos eles.

– Oi, com licença. Vocês têm algum caixa preferencial para pessoas que estão se decompondo?

– Não, senhor.

– Certo.

Assim, escolhi a fila mais curta. Tinha um sujeito terminando de pagar suas compras, uma velha esperando para passar duas ou três coisas. Entrei atrás dela e fiquei ali, cambaleando. E permaneci ali, cambaleando. E continuei ali, cambaleando. E fiquei mais um pouco ali, cambaleando. E de repente todo mundo das outras filas já havia ido embora e eu ali. Cambaleando.

Olhei para o caixa. O sujeito que estava pagando as compras havia ido embora. Provavelmente, estava em casa, com a família, cercado de amor e afeto e chocolate. E a velha ali, na minha frente, com um pacote de Whiskas e um sabão.

Olhando para mim e sorrindo.

– Você está com pressa?

– Oi?

– Você está com pressa?

Por um momento, achei que tivesse cambaleado para cima da velha e a empurrado de alguma forma, mas logo vi que isso era impossível já que eu estava a quase meio metro dela. Então, passei a me concentrar no que responder a ela.

Pelos meus cálculos, eu tinha menos de dez minutos de vida. E eu não tinha vontade de morrer no mercado ou no meio da rua, porque é o tipo de coisa que sempre causa falatório na vizinhança. Preferia morrer em paz, em casa, cercado dos meus gibis e ouvindo Robert Johnson. Então...

– Sim, estou com um pouco de pressa.

– Então você pode passar suas compras.

– Olhe, se faltou alguma compra da senhora, eu espero sem problemas.

– Não. Não faltou nada. Eu só preciso do sabão e do Whiskas. E o meu gato ainda não está com fome.

Eu não sei se era a febre, mas comecei a perceber que a velha não fazia sentido algum. Talvez se eu estivesse saudável, eu tentaria argumentar com ela e explicar que não são assim que as coisas funcionam, e que quando temos um animal de estimação o correto é ter ração em casa, e não sair para comprar somente quando o bicho está com fome. Mas eu não pretendia passar os últimos minutos da minha vida explicando a ela a diferença entre os conceitos de comprar ração e pedir uma pizza.

– Entendi.

Sim, eu menti. Mas tenham um pouco de compreensão, eu estava morrendo.

– Então você pode passar suas compras.

– Olhe, eu agradeço. Mas a senhora só tem dois produtos, não tem problema.

– Eu sei. Mas eu estou esperando o mercado fechar.

– O mercado vai fechar daqui a umas quatro horas.

– Sim. Eu estou esperando fechar.

E de repente eu percebi que minha morte podia esperar um pouco. Eu havia acabado de descobrir um novo propósito na vida: entender a lógica daquela velha.

– Mas por quê? Tem desconto na hora de fechar? Ou a senhora vai ficar aqui no caixa esperando ser, sei lá, a milésima cliente e ganhar um brinde?

– Por que é Páscoa. Pode passar suas compras.

Apenas duas frases depois, descobri que meu novo objetivo de vida se resumia a uma tarefa impossível e abandonei minha resolução de viver mais.

Na verdade, me lembrei daquela cena do Apocalipse Now quando o Marlon Brando pergunta ao Martin Sheen se ele desaprova seus métodos, e o Martin Sheen responde que “eu não vejo método algum no que você faz”. Era exatamente isso. Eu estava de frente ao Coronel Kurtz da Vila Mariana. Provavelmente a velha enlouqueceu e se refugiou no mercado, falando loucuras e sendo adorada como uma divindade pelas funcionárias do caixa.

E talvez eu conseguisse lidar com isso se não estivesse parecendo uma cobaia de uma versão 2.0 da Peste Negra. Assim, agradeci e coloquei minhas compras na frente do Whiskas e do sabão da velha. Agradeci e ela respondeu que:

– Eu ainda tenho que passar lá no mercado Dia para dar a benção para as pessoas.

– A senhora sabe que aquele Dia não precisa de uma benção, mas sim de um exorcismo, certo?

– Como?

– Nada. Eu já vou indo. Feliz Páscoa para a senhora.

– Quer uma benção?

– Não, eu já estou no estágio da extrema-unção. Mas agradeço.

E voltei para casa, tropeçando e gemendo e pedindo para morrer.

Eu tenho certeza que nada disso aconteceu. Uma pessoa dessas não pode existir. Um diálogo deles não pode existir. Eu tenho certeza que foi tudo uma alucinação por causa da febre. Certeza.

E, na verdade, estou torcendo por isso. Pois a única alternativa que eu pensei é que tive uma experiência de quase-morte, e não sei se quero passar o resto da minha sabendo que existe vida após a morte, e as pessoas lá são bem piores que aqui.

PS – Voltei para casa e a Esposa estava – ainda gripada – lavando o quintal, o que para mim já caracteriza exibicionismo da parte dela.

4 comentários:

Giovana disse...

Rsrsrs, meu pai é o homem mais disposto da terra, nunca fica doente... mas cansei de chega em casa e encontra o médico o atendendo a domicílio por causa de dor de barriga! Não entendo! rsrsrsrs

Giovana disse...

Rsrsrs, meu pai é o homem mais disposto da terra, nunca fica doente... mas cansei de chega em casa e encontra o médico o atendendo a domicílio por causa de dor de barriga! Não entendo! rsrsrsrs

Ricardo Wagner disse...

A mulher é o verdadeiro homem da casa.

Sempre.

Fernanda disse...

Savinão, meu orgulho, quero ser como ela! E Rob, asco que esse "defeito" vem dos genes que decidem se é homem ou mulher, pq aqui em casa tb é mais ou menos assim. Bom, tirando a parte do encontro com a mensageira da morte.