12 de fevereiro de 2014

O (Novo) Estranho Mundo de Rob Gordon



Com a mudança de casa, é o momento de falar dos meus novos vizinhos.

Claro que, justiça seja feita, o novo vizinho sou eu, e não eles. Mas, do ponto de vista do blog, quem tem novos vizinhos sou eu. É todo um grupo de pessoas que agora vêm se juntar a uma tradicional galeria de personagens inaugurada ainda quando eu morava em Pinheiros (que, se não me falha a memória, nasceu com o casal gay Jasmim e Gerânio, que morava no apartamento ao lado do meu).

Antes de continuar, vale lembrar que hoje eu moro ao lado da casa antiga. Assim, os últimos vizinhos deste blog – como o Velhinho Homem Pássaro e a sequestradora de crianças e amantes dos morangos tuc-tuc – continuam sendo tecnicamente meus vizinhos. Mas são os vizinhos imediatos que quero apresentar aqui.

Vamos começar pela casa à direita. Parece ser uma família normal, com exceção de que o pai é uma versão terceiro-mundista do Peter Gallagher. Um dia eu estava no quintal dos fundos e a esposa – que deve ter mais ou menos minha idade – se apresentou. Deus as boas vindas, comentou que tinha crianças, pedindo desculpas antecipadamente pelo barulho.

Eu, claro, respondi que tudo bem, por dois motivos: primeiro, temos três cachorros e uma enorme coleção de CDs de heavy metal, o que não são exatamente uma prova de quanto sou silencioso. Segundo, porque na casa antiga morávamos ao lado das crianças Linda e Blair, que urravam músicas do Carrossel e vomitavam na parede ininterruptamente durante todos os sábados e domingos. Depois de um fim de semana de Sol com Linda e Blair entoando cânticos demoníacos sobre a professora Helena no quintal por oito horas ininterruptas, as crianças do vizinho soam, quando muito, como uma sonata de Beethoven.

Já ao lado esquerdo...

Bem, eu não sei como começar a falar dos meus vizinhos do lado esquerdo porque, teoricamente, eu não sei nem quantos são. Não estou exagerando: em pouco mais de uma semana, eu já vi dezenas de pessoas entrando e saindo dessa casa. São pessoas de todas as idades, etnias, religiões e classes sociais que você possa imaginar. É como se fosse uma filial da ONU, mas sem as bandeiras na frente.

Assim, um dos meus passatempos se tornou mapear as pessoas da casa. No começo eram apenas vozes e pessoas que passavam de relance, mas, eu já comecei a identificar algumas pessoas.

A primeira delas fica sempre no quintal do fundo. É uma velha com cara de mexicana – na verdade, ela é igualzinha a Mama Solis, do Desperate Housewives – que às vezes aparece sentada no quintal, numa cadeira de praia, cantarolando baixinho. Curiosamente, eu nunca a vi em outra posição; nunca a vi chegando com a cadeira, indo embora para dentro da casa. Eu olho, ela esta lá, cantando baixinho. Eu olho de novo, ela desapareceu.

Isso já aconteceu umas três vezes, e estou cada vez mais convencido que se trata de um espírito preso no quintal dos fundos, sem conseguir encontrar uma saída para uma existência melhor em outro plano. A próxima que vez que encontrá-la, vou tentar puxar assunto – dando bom dia, dizendo que é um prazer conhecer a senhora e perguntando casualmente se ela já experimentou correr em direção à luz – e ver o que acontece.

Além dela, tem a galera do churrasco – sim, a galera; como eu disse, a casa tem uma densidade demográfica que faria alguns países asiáticos baixarem os olhos sentindo um misto de vergonha e inveja. Não sei quantos são, mas calculo que estejam na casa das dezenas.

Curiosamente, eu só vi um deles até hoje; é um sujeito grandão com uns vinte e poucos anos. Aliás, aqui temos outro mistério: ele entra em casa (sozinho), vai até o quintal do fundo (sozinho), acende a churrasqueira (sozinho) e imediatamente dezenas de vozes começam a conversa sobre os mais diversos assuntos.

É como se se a churrasqueira fosse um portal para outra dimensão e assim que ela se acende, divindades adoradas por povos esquecidos e criaturas de outras realidades surgem no quintal da casa ao lado e formam uma roda. E passam horas tomando Itaipava, comendo espetinhos e conversando em línguas mortas sobre assuntos propícios para churrascos da nossa realidade (futebol) ou mais adequados para churrascos de dimensões paralelas (uma vez, passaram horas debatendo se dor de cólica renal é maior que a do parto).

Mas nada disso teria a mesma graça sem os dois japoneses que, pelo que entendi, são os donos da casa. Quer dizer, acredito que somente o homem seja do Japão, já que é impossível que a mulher seja japonesa, visto que parece ser mais velha que o próprio Japão – minha teoria é que eram duas irmãs: enquanto a caçula foi morar numa ilha e deu origem ao povo japonês, a mais velha veio morar na Vila Mariana e, com preguiça de criar um povo, resolveu ficar assistindo televisão o dia inteiro com o volume no máximo. E sempre são programas japoneses: eu passo o dia, agora, escutando velhas reprises de Changeman e do Japan Pop Show.

E quem cuida dela é o seu tataraneto, que parece todas as bruxas de todos os filmes do Kurosawa. Quem já viu os filmes do Kurosawa sabe que basta entrar numa floresta para encontrar uma bruxa que passa o dia inteiro numa cabana abandonada usando um tear e esperando viajantes se aproximarem para recitar profecias ininteligíveis.

Este é meu vizinho. E eu, claro, sou o viajante, já que estou sempre fumando lá na frente.

E o problema é que o Bruxa do Kurosawa é simpático, sorridente e gosta de cumprimentar sempre que vê – ele também fuma lá na frente, com a diferença de que, enquanto eu tenho um cinzeiro, ele tem pote de Claybon Cremoso.

Vocês são os novos vizinhos?
 
E eu, adepto da política da boa vizinhança, sempre cumprimento. Mas é impossível travar um diálogo com ele, já que como toda bruxa do Kurosawa, meu vizinho Bruxa de Kurosawa passa o dia inteiro esperando eu me aproximar para disparar profecias.

- Bom dia. Tudo bom?

- Quando a luz do castelo mais alto se apagar, o feno irá rolar e derrubar o trono poderoso.

- Oi?

- A espada do guerreiro será partida pelo galho seco no dia que a floresta caminhar até o castelo.

- Eu sou o vizinho n...

- E o sangue escorrerá pelas ilhas e transbordará no barril quando o samurai acenar do alto do túmulo sagrado.

- Certo. Olhe, eu vou entrar.

- O urso irá conduzir o guerreiro por meio de suas cinzas quando o mar se transformar em doces de crianças.

- Com licença. Boa noite.

- A madeira da cerejeira irá dividir o rio entre três irmãos: um navegará, outro será pescador e o terceiro se afogará nas águas.

Aí viro as costas e deixo o Bruxa do Kurosawa recitando seus versos que parecem tirados de canções do Engenheiros do Hawaii e entro em casa. E sempre comento com a Esposa:

- Vai ser divertido morar aqui.

- Oi? Não dá para ouvir.

- Eu disse que vai ser divertido morar aqui.

- Não estou ouvindo nada.

- É porque a Japonesa Mais Velha que o Japão está vendo um show de calouros no máximo. Vamos até o quintal do fundo que eu te conto.

- Quintal do fundo? Está rolando um churrasco ali no vizinho.

- Certo. Deixa para lá. Vou escrever no blog.

Vai ser divertido morar aqui.

4 comentários:

Adriano disse...

A Mama Solis só pode ser o espírito guardião do portal churrasqueira!

Thathá disse...

Amo seus textos! Sempre me transportam pra outro lugar, era...e fazem meu cérebro rir!

Varotto disse...

Demais! Sempre me levando a mudar meus parâmetros de comparação e me forçando a dizer que ESTE aqui agora, é o seu texto mais inspirado de todos os tempos.

Fernanda disse...

Rob, já pensou que a galera do churrasco que é amiga do grandão de vinte e poucos anos pode ser toda anã?! Por isso que vc nunca os viu!