15 de fevereiro de 2014

Onde Começa o Inferno



Tem uma loja aqui ao lado de casa que é uma daquelas lojas que vendem tudo. Absolutamente tudo. Você deve conhecer lojas assim: são aqueles estabelecimentos comerciais apinhados de coisas de todos os tipos, tamanhos e cores, normalmente em avenidas e que parecem desafiar o tempo, sendo mais antigas que o próprio bairro. Esta aqui perto fica na Lins de Vasconcelos e parece ter sido aberta durante o Brasil Colônia.

E esta loja é um dos principais entraves ao meu casamento ser perfeito. Isso porque a Esposa não pode passar na frente dela sem sentir vontade de entrar; e eu, que normalmente estou com ela, consigo manter minha sanidade lá dentro por, no máximo três minutos – um dia eu consegui ficar quase três minutos e meio, mas aí fui obrigado a sair correndo para a calçada, com taquicardia, falta de ar e tontura.

Porque além do ambiente ser extremamente claustrofóbico (a largura dos corredores entre as prateleiras – que vão até o teto, com uma altura semelhante aos andaimes que Michelangelo usou para pintar o teto da Capela Sistina) é de aproximadamente quatro centímetros, o local tem mais informação que um cérebro consegue processar.

Depois de cinco minutos me espremendo em corredores e desviando de cornetas, esbarrando em escorredores de louça, derrubando chinelos, escorregando em bandeiras de festa junina, tropeçando em chaves de fenda, batendo em cadernos, pisando em pastas de dente, abrindo passagem em carrinhos de plástico, me espetando em talheres e chutando isqueiros, minha vontade é deitar no chão da loja, resmungando que “Stop.... Dave... I’m afraid... Dave... Dave...Stop...” e esperar aquele pesadelo parar.

Não é exagero. A loja tem tudo. Sabe aqueles programas que mostram as pessoas obcecadas em acumular coisas em casa? É a mesma coisa, mas com CNPJ e fins comerciais. Ela tem até mesmo coisas que nem os vendedores sabem o que são. Tipo uma coisa de plástico branca. O rótulo diz que a melhor solução para sua casa, mas se esquece de dizer qual problema ela resolve. E o vendedor também não sabe.

- Cara, o que é isso aqui?

- É de colocar na parede.

- Sim, mas para que serve?

- Para ficar na parede.

- Tá, mas o que eu coloco nisso?

- Ah, o que você quiser. Xampu. Pano. Bola.

- Bola?

- Eu tenho também. É aqui no final do corredor. Vai precisar de chuteira também.

- Oi?

- Eu vendo as traves, se precisar. Agora, o campo eu não sei se tem. Tinha um conjunto aqui com campo, traves, 21 jogadores, juiz, bandeirinhas, torcida e a bola. Mas acabou e não sei se chegou mais. Eu vou ver aqui. Tem o campo sem bola, só com jogadores e traves. Vem com xampu.

- Xampu?

- Isso. Fica aqui ao lado das ferramentas de agricultura. Vai querer as bombinhas de São João?

- Dave... Stop... Please... Dave...

Hoje entramos na loja. A Esposa precisava comprar um escorredor de louça e, como estávamos passando em frente ao lugar, entramos. Mas o problema é que, neste lugar, ela se comporta exatamente como eu dentro de uma loja de quadrinhos, andando pelos corredores e pegando tudo o que encontra pela frente, com aquele olhar ensandecido de “eu sempre quis essa coisa que eu não sabia que existia até agora”.

Hoje foi assim. E quando percebi, estávamos pela primeira vez no fundo da loja. Foi quando eu reparei como o lugar é grande. Por fora, você tem a impressão o lugar tem uns 10 metros de comprimento. Hoje, quando eu percebi, havíamos andando durante horas num corredor que não acabava nunca. Passamos por pilhas de fones de ouvido, montanhas de parafusos, amontoados de galochas, lotes de tapetes de banheiro, cercados com cabras vivas, altares de sacrifício, florestas subterrâneas...

No momento que eu estava segurando uma tocha e percebi que o local havia se transformado em uma caverna, resolvi bater no ombro da Esposa.

- Eu acho que a gente fez uma curva errada depois das galochas.

- Não. Os escorredores de louça ficam por aqui.

- Nós não estamos mais na loja. Você reparou como este corredor é inclinado? Nós estamos descendo.

- Eles estão por aqui, o vendedor disse que é nesse corredor.

- Você não está sentindo cheiro de enxofre?

- Não. Aquilo é um escorredor de louça?

- Parece um corpo torturado. Aposto que dá para colocar naquele negócio branco de pendurar na parede que eu vi lá na frente.

- Que negócio branco?

Eu não tive tempo de responder, pois estava mais ocupado dando um pulo e quase enfartando ao ouvir um urro demoníaco atrás de mim. Olhei para trás e vi uma criatura de meio metro de altura, rabo de cavalo e correndo na minha direção com os olhos injetados de sangue. Um demônio-bebê.

Atrás dela, vinha sua mãe, que parecia ser da mesma espécie do Demônio de Fantasia, gritando:

- HELOÍSA! VOLTA AQUI! JÁ FALEI PRA NÃO SAIR ANDANDO SOZINHA!

A Heloísa continuou correndo na minha direção e resolveu responder colocando todas as ameaças de morte registradas na história em um pequeno conjunto de fonemas que, de onde eu estava, soou como “GRRRRRAAAAAAAURRRRRR”.

Comecei a me afastar lentamente, tropeçando em enxadas e derrubando garrafas térmicas. E preparado para dar com minha tocha na cabeça do demônio. Para minha sorte, a Heloísa se distraiu momentaneamente após perder um chinelo em sua corrida assassina.

- Vamos embora daqui! Os demônios acordaram!

- É uma criança.

- Nenhuma criança faz um som daqueles! Eu falei que aqui não era mais a loja!

- É uma criança.

- Ela está parada olhando para nós e bufando. Olhe os olhos dela. Aquilo não é normal.

- Eu vou pegar o escorregador de louça e vamos embora.

- Aposto que se eu perguntar o que aconteceu com os olhos dela, a mãe vai responder que ela tem os olhos do pai, e todos os vendedores vão gritar Ave, Satã! Você não viu O Bebê de Rosemary?

- Rob...

- Aaaaaaaaaave-Mariiiiiiiii-iiiiaaaaaaaaaaaa....

- O que você está fazendo?

- Estou cantando Ave Maria de Schubert. Se no Fantasia funcionou para espantar o demônio, aqui pode funcionar também.

- GRRRRRAAAAAAAURRRRRR!

Meu plano não deu certo. Pelo contrário, a Heloísa ficou ainda mais enfurecida. É isso. Nós íamos morrer. E ninguém iria ficar sabendo, porque as chances dos nossos corpos serem encontrados numa loja como essa eram minúsculas.

Comecei a procurar por uma rota de fuga, mas fui interrompido ao sentir algo passando por baixo das minhas pernas. Olhei para baixo e dei um berro de medo ao ver outro demônio-bebê, menor que a Heloísa, passando por baixo. Pelo que consegui entender, os dois pequenos demônios estavam em conflito. E nós estávamos no meio do campo de batalha.

O novo bebê-demônio correu na direção da Heloisa, que tentou se defender jogando um chinelo na boca do oponente. Já o demônio-bebê novo contra-atacou jogando biribinhas no pé de Heloísa. Ambos urravam.

- Heloísa! Pare com isso! Peste, se você jogar mais uma bomba na sua irmã, eu mato você!

Peste. Este era o nome do segundo demônio-bebê.

Heloísa e Peste, jovens demônios lutando pelo direito de possuir minha alma e a da Esposa, para nos torturarem durante a eternidade no meio de esfregões cordas de varal e cabides. Nossa única vantagem é que, como os demônios lutavam entre si e, concentrados em arremessos de chinelos e biribinhas explodindo – e no demônio-mãe que tentava controlá-los antes que quebrassem algo na loja – pareciam ter se esquecido da gente.

Era nossa chance. Segurei a mão da esposa e fomos para o corredor ao lado. E começamos a correr no meio das prateleiras, na direção contrária do caminho que havíamos andado, rumo – talvez! – em direção à porta.

No meio do caminho, fomos abrindo caminho pelo mato com a tocha e desviando de regadores de plantas, conjuntos de lápis-de-cor e de um vendedor que tentava explicar para um mulher como aquele engate da mangueira também pode ser usado para pendurar copos.

- Acho que estou vendo uma luz!

- Espera, isso é um escorredor de louça!

- Pega essa merda e vamos embora!

- Tem dois diferentes!

- Pega qualquer um! Olha a tal da Heloísa ali atrás!

Era verdade. Percebendo nossa fuga, Heloísa nos perseguia arremessando chinelos na nossa direção.

Mas a luz se aproximava. Já era possível ver a Lins de Vasconcelos e o mundo real com ônibus, carros e pessoas andando pelas calçadas e cuidando de suas próprias vidas. Passamos pelo balcão, jogando uma nota de dez reais – o escorredor de louça devia custar uns 2 reais – e corremos para a calçada.

Ainda sem fôlego, olhamos de volta para a loja. Heloísa e Peste estavam na porta da loja. Ela, com medo da luz, permanecia nas sombras vociferando palavrões em sumério e em outras línguas mortas; ele tomava safanões do demônio-mãe, respondendo com novos ataques de biriba.

Para mim, é evidente o que aconteceu. O pessoal da loja cavou tão fundo, séculos atrás, que descobriram um portal para o inferno. Assim, demônios começaram a explorar os corredores e hoje caminham livremente ali dentro. Até aí, tudo bem, já que eles não podem sair para a rua.

O problema é que mais cedo ou mais tarde a Esposa vai querer entrar naquela loja de novo.

E eu tenho certeza que a Heloísa vai se lembrar da gente...

2 comentários:

Adriano disse...

Eu acho que já vi essa Heloísa, vagando por aí com o demônio-mãe!

Camila Guedich disse...

hahahahhaha muito bom, fez meu dia :D
cresci endo uma loja dessas -do lado- da minha casa, e a sua história pareceu muito real...