12 de julho de 2013

O Estranho Caso do Dr. Rob Jekyll e Mr. Rob Hyde



Mulher: Você vai descer neste ponto?

Dr. Rob Jekyll: Como?

Mr. Rob Hyde: É evidente que não! Eu estou sentado no primeiro banco do ônibus, imediatamente atrás do cobrador. O ônibus está parado no ponto faz dez segundos e eu estava imóvel, lendo um livro, até você me interromper. Eu não estou parado na porta do ônibus atrapalhando todo mundo, e nada do que eu tenha feito indicaria que talvez eu fosse descer aqui. Aliás, já que você me interrompeu, eu adoraria saber qual a linha de raciocínio que este negócio do tamanho de uma noz que você chama de cérebro desenvolveu a ponto de culminar na conclusão “talvez este cara vá descer neste ponto, já que ele está sentado ao meu lado lendo enquanto o ônibus está parado no próprio ponto”.

Mulher: Você vai descer neste ponto?

Dr. Rob Jekyll: Ah, não… Na verdade, eu estou parado aqui lendo.

Mr. Rob Hyde: Você é idiota? Eu não perguntei “como?” porque não ouvi sua pergunta, mas sim porque ela é a manifestação da imbecilidade humana mais gloriosa desta semana. Se houvesse um concurso anual de perguntas imbecis, a pergunta que você acabou de me fazer seria a franco-favorita, e caso outra pergunta ganhasse ela se desculparia no discurso de agradecimento, dizendo que se houvesse justiça no mundo, o prêmio seria seu. Aliás, seria uma situação win-win para a imbecilidade humana. Se você ganhasse, seria o auge de séculos de imbecilidade; se você perdesse, seria a prova da existência da imbecilidade. Seria a prova de que nem mesmo a imbecilidade é a prova de imbecilidade e que a humanidade falhou miseravelmente. O meu “como?” não foi um “você pode repetir que eu estava distraído?”, mas sim um “não acredito que você me perguntou isso, tem certeza de que não quer reformular não apenas sua questão, mas sim toda a sua vida, começando pela maneira com a qual você se expressa?”. Ou, melhor ainda, o meu “como?” foi, na verdade, o meu modo de dizer “por favor, prove que você é um ser humano e não um portal para uma dimensão de boçalidade que se abriu ao meu lado sem eu perceber”.

Mulher: Ah. Porque eu vou descer neste ponto.

Dr. Rob Jekyll: Ah. Talvez fosse interessante você se apressar.

Mr. Rob Hyde: Certo. Vamos conversar sobre isso. O ônibus parou aqui faz vinte segundos. Pessoas estão descendo por uma porta, outras pessoas estão subindo por outra. Até um recém-nascido teria percebido que isso aqui é um ponto de ônibus. Você não. Você está sentada nesta janela, olhando tudo isso acontecer, e demorou todo este tempo para entender que talvez aqui seja um ponto de ônibus. E demorou ainda mais tempo para perceber que estamos perto do inferno para o qual você se dirige e que talvez seja interessante descer aqui. Assim, o que você faz? Você se vira para a pessoa ao lado, que está quieta e lendo – o que indica que a probabilidade de nada, dentro da vida dela, ter algo a ver com este ponto – e pergunta se ela vai descer aqui. Sabe, talvez você deva descer neste ponto, mas só porque estamos falando de São Paulo. Se estivéssemos falando da evolução humana, você nem no ônibus deveria estar. Deveria estar correndo na calçada, atrás do ônibus evolutivo, gritando que “me deixem entrar, por favor! Eu prometo que vou me comportar e aprender a usar ferramentas com esse polegar opositor!”.

Mulher: Já que você não vai descer neste ponto, será que...

Dr. Rob Jekyll: Claro.

Mr. Rob Hyde: Tudo isso para se levantar? Será que sua espécie ainda não se desenvolveu a ponto de usar a expressão “com licença?”. Se eu estivesse no controle, eu iria apenas esticar as minhas pernas e dizer “não”. E se você tentasse passar por mim, eu ia começar a gritar desesperado, dizendo que você está tentando me estuprar! E não ia descansar enquanto não fôssemos parar na delegacia! E eu quero ver você numa cela lotada, sem espaço nem para respirar, sem conhecer a expressão “com licença” e tendo que perguntar aos outros presos se “você vai descer neste ponto?” sempre que quiser usar o vaso ou ficar mais perto da janela. MATE ELA, JEKYLL! PULE SOBRE ELA E A ESTRANGULE! ARRANQUE A VIDA DELA! MATE-A! MATE-A AGORA, DESÇA DO ÔNIBUS E FUJA PELOS TELHADOS DA CIDADE! NINGUÉM IRÁ NOS CAPTURAR!

Mulher: Obrigada.

Dr. Rob Jekyll: De nada.

Mr. Rob Hyde: Aposto que este nem é seu ponto. Se bobear, você não está nem na cidade certa!

Mulher: Até logo.

Dr. Rob Jekyll: Até logo.

Mr. Rob Hyde: Sua imbecil!

4 comentários:

sarahcastanha disse...

hAUSauhsuASUhausAUHSUahuhsuHSHuahsUASHauhsuAHSUahus chorei de rir aqui com o "ônibus evolutivo" hUAHSuahsuHSUahsuHAAUSHushuHSU

Celyne Viana disse...

adorei a ideia de gritar kkkkkkkkkkkkkkkk muito bom XD

Adriano disse...

Ela realmente disse "até logo" para um estranho no ônibus, que ela nunca mais vai ver na vida? É, concordo com o Hyde dessa vez.

Rafiki Papio disse...

Certa vez eu estava cochilando e uma mulher que eu nunca vi na vida, que estava em pé, me acordou para perguntar:

- Não é nesse ponto que você desce?

Eu olhei meio atordoado... e não, eu pegava aquele ônibus todos os dias e nunca havia descido naquele ponto.