11 de janeiro de 2013

Mariposalipse Now

(Aviso: é altamente recomendável que você tenha
assistido a Apocalypse Now antes de ler este texto.
Caso contrário, assista assim que
possível para sacar as referências.)



Eu estava em casa, no sofá, ouvindo música. E, sem mais nem menos, o shuffle do iTunes escolheu The Doors. Mais precisamente, The End.

This is the end... THUD-THUD-THUD-THUD-THUD my only friend, the end…

E eu comecei a pensar sobre a vida. Sobre ainda estar aqui. Porque todas as vezes que acordo, acho que vou estar na floresta. Estou aqui há uma semana, esperando por uma missão. Amolecendo.

Can you picture… THUD-THUD-THUD-THUD-THUD what will be?

A cada minuto que passo nesta sala, eu fico mais fraco. E a cada minuto que o Charlie rasteja nos arbustos, ele fica mais forte. A cada vez que olho ao redor, as paredes parecem estar mais apertadas.

Lost in a roman… THUD-THUD-THUD-THUD-THUD wilderness of pain...

And all the children are insane… THUD-THUD-THUD-THUD-THUD

Foi quando não aguentei mais. Pausei a música.

- Que merda de barulho é esse? Eu estou ouvindo música!

Da cozinha, a Esposa respondeu:

- Tem uma mariposa do tamanho de um carro aqui dentro!

Fui até a cozinha e era verdade. O negócio deveria ter uns 30 centímetros de uma asa à outra. THUD-THUD-THUD-THUD-THUD Tanto que no primeiro momento eu achei que fosse um morcego. Na verdade, eu nem sabia que existiam mariposas desse tamanho. Provavelmente, THUD-THUD-THUD-THUD-THUD era alguma arma soviética fabricada durante a Guerra Fria, porque um inseto desta envergadura certamente foi criado para fins militares.

E aquele protótipo militar estava ali, voando na cozinha e dando rasantes na cabeça da minha esposa. Na verdade, o caos estava completo. THUD-THUD-THUD-THUD-THUD O inseto – que poderíamos arredondar para “ave” – voava pela cozinha; ao mesmo tempo, a esposa corria para escapar e, ao mesmo tempo, THUD-THUD-THUD-THUD-THUD desviava de Mefisto, o gato das trevas, que, no chão,  gesticulava freneticamente e com olhos vermelhos em direção à mariposa – o que THUD-THUD-THUD-THUD-THUD me fez pensar que talvez a criatura fosse um servo dos infernos invocado pelo gato.

E os cachorros latiam para tudo.

Depois de alguns minutos, a mariposa pousou no alto da porta e lá ficou, batendo as asas freneticamente, indo de um lado para o outro, mas sem sair de cima da porta. A Esposa voltou para a cozinha – quer dizer, apenas uma parte dela, já que ela enfiou somente a cabeça pela porta – e perguntou:

- Onde está aquele bicho?

- Ali, em cima da porta.

- Onde?

- Ali, olhe. Parece que está surfando sobre a porta.

- CHARLIE NÃO SURFA!

- Oi?

Tarde demais. Ela já havia desaparecido novamente. Olhei para o bicho que batia as asas freneticamente, e ignorei a música clássica que saía de seu corpo (acredito que era A Cavalgada das Valquírias, de Wagner).

A única maneira de colocar o bicho para fora de casa seria espantá-lo com um pano. Olhei ao redor, mas não vi nada, somente o gato, que recitava algum encantamento num idioma há muito esquecido pelo homem. E eu já aprendi que quando os olhos do gato ficam vermelhos, é melhor não chegar perto dele.

Fui até a sala e procurei pela minha camiseta. Nada. Como a mariposa não sairia da cozinha tão cedo, subi as escadas e fui até meu quarto, buscar minha camiseta. Quando voltei, apaguei as luzes da cozinha, acendi as do quintal e comecei a abanar a camiseta, tentando guiar a mariposa-demoníaca-soviética para fora de casa. Em alguns minutos, consegui. Ela voou para fora, batendo num dos muros – um dos tijolos caiu por causa disso – e sumiu de vista.

Assim que eu respirei aliviado, senti um odor estranho. Um cheiro diferente, forte, que eu não havia sentido antes de pegar a camiseta.

Fui até a sala e encontrei a Esposa. Ela usava roupa militar e um chapéu estranho, com duas espadas cruzadas. Parecia ser da Cavalaria. E ela parecia alheia à minha presença. Mesmo assim, começou a falar, sem me olhar nos olhos.

- Está sentindo esse cheiro?

- É justamente isso que eu queria falar com você. Que cheiro é esse?

- Inseticida. Nada mais no mundo tem cheiro.

Foi quando ela agachou-se ao meu lado e pareceu olhar para o horizonte. Certamente, ela havia se esquecido da minha presença ali. Mas isso não a impediu de continuar falando.

- Eu adoro o cheiro de inseticida pela manhã. Sabe, um dia, bombardeamos um cupinzeiro por doze horas seguidas. Quando acabou, fui até lá. Não encontramos um corpo sequer. E o cheiro, sabe... Aquele cheiro, você sentia no cupinzeiro inteiro... Aquele cheiro... Cheirava como... Vitória.

Foi quando ela olhou para mim, bem dentro dos meus olhos, e disse:

- Um dia, esta guerra vai acabar.

Levantou-se e foi embora. Ficamos apenas eu e o gato na sala. Aliás, o gato ainda está lá, escondido num canto escuro há horas, balbuciando frases desconexas e sem sentido. A última vez que passei perto dele, ouvi algumas delas. Eram mais ou menos assim:

- É impossível descrever em palavras o que horror significa... O horror... O horror tem um rosto, e você deve fazer dele o seu amigo. O horror e o terror moral são seus amigos. Caso contrário, são inimigos a serem temidos. São inimigos verdadeiros.

A Esposa tem razão. Um dia, esta guerra vai acabar.

Mas, no que depender do gato, esse dia ainda irá demorar bastante.

8 comentários:

Adriano disse...

Também escreveu todas as falas de cabeça, né? Você, hein!

Elise Garcia disse...

Olha, a borboleta que tava na área de serviço da minha mãe era pequena, em nada comparável a esse monstro bélico... ele pode ter sido construído pelo gato, já pensou nisso?
E é, eu não vi Apocalypse Now, mas acho que saquei as referências, rs.

Vinicius disse...

Só discordo da frase "Aviso: é altamente recomendável que você tenha
assistido a Apocalypse Now antes de ler este texto.". O certo seria "Aviso: é altamente recomendável que você tenha
assistido a Apocalypse Now." :-)

Fagner Franco disse...

Vamos fazer assim, você toma conta das baratas que aparecerem em casa e eu mato todas as aves-mariposas-soviéticas-demoníacas-felinos que surgir, beleza?

Cara, bica esse gato daí, isso só vai piorar...

Fagner Franco disse...

(e concordo com o cara aí de cima, não Deus, esse aqui do comentário: tem que ter visto Coppola)

Sérgio Miranda Leitão disse...

É por causa do Mefisto que desisti de ter gatos sabiam???

Varotto disse...

O horror... O horror...

Ricardo Wagner disse...

Pelo menos meus gatos pagam a ração deles.

Se fosse em minha casa, a mariposa teria no mínimo perdido alguma asa. =)