9 de janeiro de 2013

O Enigma da Máquina de Senhas

Hoje, mais cedo, tive que voltar ao mesmo Bradesco que quase enfrentou uma insurreição dos clientes algumas semanas atrás (falei sobre isso aqui). Tinha que pagar uma conta que foi cobrada a mais no boleto, então era preciso pagar no banco para ter o desconto certo.

Agora, uma coisa que eu não falei sobre este Bradesco é que ele tem um sistema de senhas que desafia a compreensão humana. Funciona assim: você entra e, antes de ir ao caixa, pega uma senha. Mas o caixa não chama o próximo cliente pela senha: basta um guichê esvaziar para o próximo na fila ser atendido. Ou seja, sua senha não serve para nada.

Na primeira vez que fui ao banco, fiquei segurando a senha na mão, feito bobo, procurando qual lugar chamava a senha. Nenhum. Aí imaginei que a senha fosse um brinde aos clientes, quase como um brinquedinho que você ganha em festas infantis, porque dava para dobrar o papel e fazer um aviãozinho, ou um chapeuzinho. Seria o diferencial do banco: vá ao Bradesco e ganhe um papelzinho com um número para poder brincar.

Ou, quem sabe, ao entrar no Bradesco você automaticamente se inscreve numa rifa e ganha um número. Quem sabe você não um conjunto de panelas enquanto espera na fila do caixa?

Nada disso. Quando fui atendido, o caixa me pediu a senha. Eu, evidentemente, nem lembrava mais que estava com o negócio na mão – já que não chamam o cliente pela senha, eu coloquei o papel no bolso e esqueci totalmente dele.

- Sua senha, por favor?

- Senha?

- Isso. A senha para ser o senhor atendido.

- Hum... Sei lá... Deixe eu ver... Abre-te Sésamo?

- Senhor, preciso do papel com a senha.

- Ah, essa senha! Está aqui no bolso. Pronto.

- Como posso lhe ajudar?

- Espere, espere. Uma dúvida: por que eu preciso pegar uma senha, se vocês não chamam os clientes pela senha?

- Para que o Bradesco possa ter um controle sobre o tempo que o senhor demorou na fila.

- Ou seja, a senha é de vocês para vocês. Eu sou apenas o portador. Certo. E se eu não estiver com a senha...

- O senhor não é atendido.

- Entendi.

- Como posso lhe ajudar?

Paguei minha conta e fui embora, pensando sobre isso. Mas confesso que pouco depois eu já havia esquecido sobre isso, e nem pensei mais sobre o assunto até hoje, quando entrei no banco e dei de cara com a máquina das senhas. Fui até lá, apertei o botão e a máquina ordenou que eu pegasse a senha impressa.

Nada.

Nem um mísero papel.

Repeti o procedimento. Novamente, a mensagem na tela dizia para eu pegar minha senha.

Nada.

Bom, não havia mais alternativa. Olhei ao redor e vi um funcionário gordinho sentado numa mesa ali perto. Fui até ele.

- Com licença?

- Pois não?

- Sabe aquela senha que não serve para nada?

- Como?

- A senha que eu preciso para ser atendido no caixa?

- Ah, sim.

- Então, eu estou apertando o botão ali e não sai nada.

Aparentemente, o sujeito era o encarregado da máquina de senhas, pois ele pareceu ter levado a coisa para o lado pessoal. Olhou para mim, para a máquina e de volta para mim, com a expressão de alguém que acaba de descobrir que está tem poucos dias de vida e sua única salvação é a única operação que seu plano de saúde não cobre.

- Como assim?

- Bem, eu apertei o botão. E não saiu papel algum.

- Deve ter engripado.

- Sim, eu imaginei isso.

- Vamos até lá dar um jeito nisso.

Pensei em dizer a ele que, "olhe, eu posso ficar ao seu lado enquanto você arruma a máquina, mas eu prefiro não me meter, pois parece que você e esta máquina de senhas têm algum problema pessoal e antigo e que, aliás, se eu pudesse esperar aqui mesmo, acho que seria melhor para todo mund...

- Vamos até lá comigo.

- Hum... Certo.

Nos aproximamos da máquina e o sujeito se ajoelhou no meio do banco. Pelo seu olhar fanático, imaginei que ele fosse fazer alguma oração, ou até mesmo me oferecer como sacrifício para algum deus da senha. Estava pronto para sair correndo, mas respirei aliviado quando ele abriu uma tampa de metal e começou a mexer na pequena impressora dentro do negócio.

- Sim. Estava engripado. As senhas não estavam saindo.

- Que coisa. Olhe, enquanto você arruma aí, acho que vou indo para a fila...

Ele me olhou. Sua expressão era ainda mais fanática. Aparentemente, ele não era um adorador da máquina de senhas, mas sim uma espécie de sumo-sacerdote.

- O senhor precisa da senha para ser atendido.

- Certo. É que, na verdade, a fila não está grande...

- Sem a senha o senhor não será atendido.

Assim que ele disse, encaixou um negócio na impressora que fez a máquina ligar sozinha. Imediatamente, o negócio começou a cuspir dezenas de senhas, todas elas no meu pé. Aparentemente, eram todas as senhas da história do Bradesco. Era como se a máquina estivesse morrendo e sua vida inteira estivesse passando na frente dos seus olhos – mas caindo aos meus pés, em forma de papeis numerados.

O sujeito sorriu aliviado. As senhas continuavam caindo no meu pé e já chegavam ao meu tornozelo. Pelas minhas contas, aquele mar de senhas se tornaria fundo demais para mim e eu e meu 1.60m morreríamos afogados em papéis do Bradesco em, no máximo, meia hora.

O sacerdote das senhas olhou para mim.

- O último papel será sua senha.

- Estas senhas eram as que estavam presas, sem imprimir?

- Isso.

- Mas e os donos das senhas?

Veja bem, minha pergunta fazia sentido. Se a pessoa não é atendida sem senha, como ela teria sido atendida se a sua senha estava ali aos meus pés? O sujeito olhou para mim e respondeu apenas:

- Elas se foram.

E, pela primeira vez, eu senti medo do sujeito. E achei melhor ficar quieto e não pedir para ele desenvolver o assunto. Dei uma olhada com calma nele e constatei que se ele tivesse alguma foice usada em rituais de sacrifício estava muito bem guardada, ou na sua mesa.

Uns vinte segundos depois – no qual as pessoas olhavam para mim e eu tentava agir como se uma máquina cuspindo papel em mim fosse a coisa mais normal do mundo e quem nunca passou por isso, não é mesmo? –, a máquina parou de cuspir senhas. Peguei o papel que ficou pendurado nela.

- Esta é a sua senha.

- Sim. Obrigado.

- Cuide bem dela.

- Hã... Certo. Obrigado.

Fui para a fila e esperei para ser atendido. E, de vez em quando, eu pegava o gorducho das senhas olhando para mim, talvez receando que eu amassasse o papel ou desrespeitasse a senha de qualquer outra forma.

Fui atendido – entreguei o papel da senha para o caixa com muito cuidado e fazendo uma reverência respeitosa com a cabeça – paguei minha conta e voltei para casa.

E desde a hora que coloquei os pés em casa, tenho a sensação de que estive mais perto de morrer do que posso entender. E tenho a certeza de que escapei por muito pouco. Afinal, se existem mais mistérios entre o céu e a terra do que supõe nossa vã filosofia, que dirá, então, dos mistérios e perigos que se abrigam em um Bradesco?

7 comentários:

Elise Garcia disse...

Usa a senha como arma. Quando eu tenho que ir no Bradesco a máquina cospe duas senhas em cima de mim, daí eu entrego elas pro cara, ele devolve uma com a hora em que eu tou sendo atendida. Se você passar mais tempo do que diz a lei esperando, chama um advogado e dá-lhe processo...

Mas sério: como é que você consegue engripar uma máquina só com o fato de precisar usá-la?

Varotto disse...

Completamente "Além da Imaginação". E o pior é ninguém na agência achar nada demais no procedimento. A humanidade tem de sofrer muito mesmo.

Eu acho que você devia ter pego uma braçada de senhas e levado ao caixa e pedir para ser atendido um monte de vezes. Ou pegar a primeira senha e dizer que você estava ali esperando o atendimento há três horas, e que ia processar o banco por isso. Só por diversão mesmo...

Elise Garcia disse...

Mas Varotto, com a sorte do Rob, capaz de o sacerdote conjurar algum encantamento na hora em que as senhas estivessem sido recolhidas e os papéis transformariam-se em pequenos soldadinhos verdes prontos para acabar com a vida dele...

Rafiki Papio disse...

Que criatura dual esse funcionário e seus sentimentos mistos de adoração e revolta com a máquina de senhas.

Se for alguma espécie de seita, gostaria de saber quem é o deus das senhas e filas.

Sérgio Miranda Leitão disse...

"Dei uma olhada com calma nele e constatei que se ele tivesse alguma foice usada em rituais de sacrifício estava muito bem guardada, ou na sua mesa."

Eu sei que vai parecer meio sem consideração, mas eu ri muito nessa parte.

O Bradesco sempre com uma pegadinha melhor que as do Silvio Santos. Irei preparado na próxima vez que for lá.

Michele disse...

sabe o que eu tou pensando? virarei cliente bradesco semana que vem. me ferrei? sim ou com certeza?

miriamb.ferreira disse...

Isso me parece um conto do Stephen King...