4 de outubro de 2012

As Crônicas da Barra Funda - As Laranjas, A Feiticeira e o Escritor


Como muitos de vocês já sabem, estou fazendo um frila que me ocupa literalmente durante sete dias por semana. É na Barra Funda.

Assim, todos os dias eu venho de metrô para cá, e ando uns 20 minutos da estação Barra Funda até aqui. E normalmente venho muito bem acompanhado, com meu iPod no bolso e, nos dias mais quentes, uma lata de Coca na mão (café da manhã dos campeões mode: on).

Eu gosto da sensação de caminhar até o trabalho. Quando eu morava em Pinheiros e ia a pé até a redação, tentava sempre aproveitar estes dez minutos de caminhada para planejar meu dia, organizar prioridades, pensar em textos... Mas nunca conseguia. Afinal, como a caminhada era na Teodoro Sampaio, sempre acontecia algo que invariavelmente fazia eu me dar mal – e que muitas vezes rendia textos aqui.

Já na Barra Funda é diferente. Podemos dividir meu percurso em duas partes: a primeira metade é rodeada de advogados e pessoas envolvidas em processos trabalhistas, por causa do Fórum que fica no meu caminho.

A metade final, porém, é totalmente deserta: ando três ou quatro quadras de uma avenida que parece cenário de um filme apocalíptico: os carros são poucos e as pessoas raras. Existem dias em que não cruzo com ninguém, encontrando somente tufos de mato seco rolando ao vento.

A partir do terceiro ou quarto dia que fiz esse caminho, procuro sempre largar a minha Coca e andar esta segunda metade com uma pedra na mão, para me defender de possíveis ataques de mortos vivos. Ou de gangues de motoqueiros nômades em busca de alimento. Ou de alienígenas que se escondem no subterrâneo e ouvem meus passos.

Ou até mesmo dos tufos de mato seco – porque, como eu sou eu, é bem capaz que eles sejam criaturas vivas, conscientes e famintas, e estão me observando todos os dias, esperando o momento certo para atacar.

De acordo com os maias, o mundo acaba agora em dezembro. Bem, o departamento de marketing da Barra Funda já lançou um teaser disso – ou ao menos um projeto piloto – aqui na Barra Funda.

O mundo já acabou na Barra Funda.

E a única esperança dos sobreviventes, o único resquício de presença humana naquelas terras ermas, é uma velhinha que vende suco de laranja na porta da sua casa, justamente na esquina da rua em que trabalho.

É uma velhinha que aparenta ter três ou quatro eras geológicas de idade, e que fica sentada num banquinho à frente da porta, cuidando de um caixote com a inscrição “Suco de Laranja” e uma três ou quatro garrafinhas. É quase uma versão apocalíptica de um personagem coadjuvante das histórias da Luluzinha.

Nunca falei com ela. Afinal, do jeito que as coisas funcionam comigo, é capaz da velha se identificar como uma vidente, apontar um olho de vidro na minha direção para me olhar melhor e afirmar que eu sou o Escolhido, que meu papel no mundo é liderar os refugiados do apocalipse barrafundiano à Terra Prometida, depois de escalar uma montanha e derrotar os exércitos infernais. Eu explicaria a ela que “olha, acontece que hoje eu tenho mais de vinte textos para fazer”, ela começaria a gritar que é a profecia, que eu sou o Escolhido, que não adianta eu tentar fugir do meu próprio destino, eu ia pedir desculpas e deixá-la falando sozinha, e a velha ia me seguir gritando pelas ruas...

E ela fica bem na esquina do trabalho.

Não ia pegar bem arrumar um barraco, logo de manhã e ali na calçada, com uma velha feiticeira sobre profecias, montanhas e terras prometidas.

Entretanto, dia desses passei ali e a velha não estava lá. O caixote estava lá e a porta da casa estava aberta. Mas nada da velha. No lugar dela, três mutantes descarregavam sacos e mais sacos de laranjas de dentro de um caminhão (com lâminas nas rodas e caveiras pintadas na carroceria), transportando para dentro de casa.

Parei na calçada e dei uma espiada dentro da casa. Pilhas e pilhas e mais pilhas de sacos de laranjas, empilhados até o teto.

Por uma fração de segundos, vi que a conta não fechava. A velha feiticeira devia vender, quando muito, uma garrafa de suco por semana, para algum viajante solitário. Mas, dentro de sua casa, havia laranjas suficientes para alimentar um pequeno país durante meses. Ou aquilo era lavagem de dinheiro, ou a velhinha havia decidido expandir seu negócio, de forma bastante incisiva, montando o Império Cítrico da Velha Feiticeira.

Ou não, já que não havia nem sinal da velha por ali. Nem dela, nem do olho de vidro, nada. Somente os mutantes descarregando as laranjas, como se a Velha nunca tivesse existido. Provavelmente, eles eram soldados do exército infernal, com ordem de apagar sua existência para que a profecia desaparecesse com o tempo, eliminando qualquer possível ameaça ao seu império.

Talvez o corpo da velha estivesse no meio das laranjas. Ou talvez ali estivessem todas as laranjas do mundo, que serviriam para alimentar as tropas infernais. Ou, quem sabe, na nova ordem mundial, laranjas seriam usadas como combustível, dinheiro, ou fonte de energia para os reatores...

- Fala aí.

Meus pensamentos foram interrompidos por um dos mutantes, parado na porta da casa, me encarando fixamente. Se a profecia sobre escalar a montanha fosse verdade, talvez a montanha fosse ele, já que eu batia nos seus joelhos.

- Oi?

- Fala aí. Quer suco?

- Não. É... Não, não.

- Então, fala.

- Não. Eu não sou o Escolhido não, viu? Estou só de passagem, nem conheço a velha daqui.

- Tá. Você vai querer suco?

- Não, não. Já estou indo. Tchau.

Fui embora apressado. Sinto muito, mas que encontrem outra pessoa para cumprir a profecia. Afinal sou só um redator. Se quiserem posso fazer uma crônica ou um poema sobre a profecia.

Mas só isso.

20 comentários:

Lilian disse...

Não sei aonde você compra Coca, mas achava bom mudar de ponto. Deve estar batizada e por isso você tá alucinando. :P

Fagner Franco disse...

"Império Cítrico da Velha Feiticeira"....hahahahaha...
Importante é que toma Coca no café da manhã, isso, querendo ou não, te torna O Escolhido. dos bons.

Nelson disse...

A Barra Funda sempre me lembra do episódio em que eu e meu primo precisávamos ir no fórum alí perto, mas não sabíamos onde era. Descemos no metrô e eu perguntei pra dois taxistas:
- Oi... onde é o fórum?
- Trabalhista ou criminal? - perguntou um deles. No ato, o outro taxista respondeu:
- Pela cara dos dois, é o criminal. Faz o seguinte...
O pior é que realmente era o fórum criminal que eu precisava ir, nem dava pra ficar bravo com ele, haha.

Varotto disse...

Cara! Difícil apontar o ponto alto. Um de seus textos mais tragicamente engraçados (e a concorrência é grande).

Varotto disse...

Cara, no 18o parágrafo:

"Somente os mutantes descarregando as laranjas, como se a Velha nunca tivesse esquecido"

Não seria "... como se a Velha nunca tivesse existido"?

Elise Garcia disse...

Eu tive que parar de ler o texto no meio da descrição do mato seco pra te mostrar isso aqui: Vento move as plantas rolantes . Agora posso voltar a ler.

Elise Garcia disse...

Ok, é bom vc começar a dizer o que vc coloca dentro da Coca antes de começar a beber, porque eu também quero... hehehehehe =)

Max Reinert disse...

huahauhauhaua....demente!!!!

Hally disse...

O mundo, na sua cabeça, é tão legal *u*
Hehehehe

Sil disse...

Barra Funda : conheço bem.

Andar a pé por ali? Nem que me paguem muito bem.

Agora, ao contrário da Lilian eu sou a favor da coca cola batizada que você toma porque eu nunca ri tanto ao visualizar o cenário do fim do mundo que você descreveu.

Beijos

fflush disse...

Ótimo texto!

Já que gosta de caminhar por locais ermos, sugiro um passeio pelas imediações do Terminal Parque Dom Pedro, em um fim de tarde de domingo, de preferência em um dia chuvoso, não vai se arrepender!

Rob Gordon disse...

Lilian:

Olhe, isso me fez pensar. Talvez seja hora de mudar de boteco. :)

Beijos!

Rob

Rob Gordon disse...

Fagner Franco:

Coca no café da manhã é receita básica dos campeões (ao contrário do que os médicos dizem)!

Abraços!

Rob

Rob Gordon disse...

Nelson:

"Pela cara dos dois, é criminal" é sacanagem!

Abraços!

Rob

Rob Gordon disse...

Varotto:

Valeu! E sim - estava errado ali ainda, provavelmente por causa dos efeitos da Coca alucinógena que a Lilian falou. Já arrumei!

Abraços!

Rob

Rob Gordon disse...

Elise:

Quanto ao link, pelo que entendi a planta morre mas espalha as sementes? Tipo uma planta zumbi?

E quanto à Coca, eu juro que peço somente "uma Coca". Não sei o que colocam nela.

Beijos!

Rob

Rob Gordon disse...

Max:

É a Coca... Acho.

Abraços!

Rob

Rob Gordon disse...

Hally:

Não é? Eu gosto bastante também! :)

Beijos!

Rob

Rob Gordon disse...

Sil:

Ao menos, a Coca batizada deixou dividendos no blog!

Beijos!

Rob

Rob Gordon disse...

fflush:

Vou anotar a dica! :)

Valeu!

Rob