26 de agosto de 2012

O Primo Mais Velho


Dia desses foi aniversário do meu primo.

Antes de continuar, vamos falar do meu primo.

Oito anos mais novo que eu. Era o netinho caçula da minha avó, e eu sempre o vi como “meu priminho”. E isso, na verdade, não mudou. O sujeito tem quase trinta anos de idade, mas, para mim, ainda é o meu “priminho”.

Querem uma prova? Quando estamos juntos e vamos atravessar uma rua, eu ainda coloco a mão no peito dele, deixando claro que ele só pode colocar os pés fora da calçada com a minha autorização. E não consigo controlar isso, é instintivo. Porque mesmo sendo mais alto – eu bato nos ombros dele – ele vai ser sempre meu primo mais novo. E eu aprendi que é a minha obrigação cuidar dele.

Mas, anos atrás, nosso relacionamento mudou. Por causa de uma história grande demais para contar aqui, meus pais se mudaram para o interior e, em contrapartida, ele e minha tia foram morar na minha casa. Ele devia ter uns quinze anos e não me lembro, ao certo, quanto tempo isso durou, mas creio que foi mais de um ano.

Com oito anos de diferença, vivíamos em mundos diferentes. Afinal, uma pessoa de 60 anos pensa da mesma forma que uma de 68 anos; mas entre uma pessoa de 15 e uma de 23 existe um abismo intransponível.

Ou quase.

Porque eu e ele pulamos este abismo. De repente, eu “adotei” meu primo. Começou como devia começar: com filmes, músicas, quadrinhos... Mostrava a ele tudo o que eu sabia ser bom – ou, ao menos, o que eu achava ser bom – e que ele ainda não conhecia. Em algum momento, os filmes, as músicas e os quadrinhos se tornaram muitos, e eram tantos que não eram mais suficientes (sim, algumas coisas na vida funcionam desta forma – me lembrem de escrever uma crônica sobre isso um dia).

E justamente por isso, em algum momento deste processo, ele deixou de ser meu primo mais novo e se tornou o irmão caçula que eu nunca tive.

Querem saber um segredo? Eu sempre quis ter um irmão caçula. Ou uma irmã. Não sei ao certo o motivo. Talvez para ser visto por alguém da mesma forma que eu enxergava meu irmão; talvez para ser – ao menos em parte – responsável por alguém. Não sei. O ponto é que eu sempre quis um irmão caçula.

E, de repente, lá estava ele, morando comigo. Meu irmão caçula.

Aliás, minto. Quando meu primo foi morar comigo, eu não ganhei um irmão caçula, mas sim uma série deles. Meu primo era meu irmão caçula de sangue; seus amigos, que passaram a frequentar a minha casa, eram meus irmãos caçulas agregados.

Assim, minha casa se tornou uma espécie de quartel-general desta molecada. Eram meninos e meninas de quinze anos, que se reuniam ali para estudar, fazer trabalhos de escola, inventar churrascos ou festinhas – ou se encontravam apenas para não fazer nada, que é uma das coisas mais legais de se fazer quando você tem quinze anos.

E eu ali, no meio deles. Recém formado na faculdade, ainda não sabia ao certo o que fazer da vida. Procurava emprego, mas sem um rumo exato, sem saber como começar. Hoje, eu sei que estava esperando por um sinal. E não me chamem de sonhador: este sinal rolou meses depois, e norteou toda a minha vida profissional desde então – o que inclui este blog.

Assim, sem estudar e sem emprego, eu estava quase sempre com eles. Às vezes “sozinho”, às vezes com meus amigos. Porque meus amigos, que sempre haviam freqüentado a minha casa, continuaram a fazer isso enquanto meu primo morou ali. E muitos deles também “adotaram” meu primo, cada um a seu modo.

Meus amigos, todos da minha idade, sabiam que aquela molecada era “algo meu”, que eu era uma espécie de responsável por eles. E respeitavam, não somente isso, mas cada um dos meninos.

As histórias são muitas e, sozinhas, dariam um blog.

As mais famosas?

Certo. Tem o vídeo do trabalho de escola que eu os ajudei a fazer, e a professora não apenas deu nota dez como abaixou a nota dos outros grupos; teve a reunião de pais que fui, no lugar da minha tia, e comecei a gargalhar na frente da professora de português do meu primo ao descobrir que ela era igualzinha à noiva do Chucky; tem a noite do famoso churrasco do “eu fateio” (essa eu prometo que ainda contarei aqui).

Tem muito mais.

Mas tem as pequenas histórias também.

Aquelas que não têm título, muito menos potencial para virar crônica, mas que funcionam como base de tudo. Algumas delas ainda estão estampadas na minha memória como um álbum de fotos.

Este sou eu dando conselhos para aquela menina sobre o namorado; este sou eu dando um toque para aquele moleque sobre a escola; aqui sou eu tirando sarro da cara daquele outro menino. Aqui sou eu sentado no quintal, tarde da noite, contando histórias para eles. Mais ou menos como eu faço aqui no blog com vocês, mas em voz alta e com uma garrafa de cerveja na mão.

Já nesta foto aqui sou eu e meu primo, andando pelas ruas do bairro, de madrugada, conversando e ensinando e aprendendo sobre a vida.

Estas pequenas histórias, que se perderam no tempo, são as importantes. As outras, as que têm nome, as grandiosas, as que podem virar posts... Essas são apenas perfumaria. São quase anedotas.

Agora, o curioso é que sempre fiz tudo isso com essa molecada porque eu me divertia tanto quanto eles. Talvez até mais. Claro que às vezes eu pensava na forma que eles me viam, afinal, eu ainda era o “primo mais velho”. Mas nunca dei muita atenção a esse rótulo – ou a esse status, caso queiram usar este nome –, nem mesmo quando minha namorada na época me disse que:

- Você sabe que você é a principal referência deles, certo?

- Bobagem.

- Só você não enxerga isso.

E eu realmente não enxergava. Para mim, eles eram apenas meu primo mais novo e seus amigos, todos muito legais. Claro que sempre que podia, eu aconselhava (“enquanto Freud explica as coisas, o Diabo fica dando os toques), e sempre que eles aprontavam algo, eu provavelmente não dava bronca porque estava junto. Mas nada além. Nunca tentei ser referência de nada. Eu era apenas eu.

Os anos se passaram. Meu primo se mudou, meus pais voltaram para São Paulo, e eu comecei a trabalhar feito louco. Outros anos se passaram. Fui morar sozinho, deixando aquela casa para trás – ou, ao menos, parcialmente, já que meus pais voltaram para lá e continuam morando ali até hoje. Agora, o Besta-Fera está lá também.

E, com o passar dos anos, veio o passar da vida. Vitórias e derrotas, mágoas e gargalhadas. Pessoas que entraram na minha vida, pessoas que saíram dela. Um pouco menos de cabelos, um pouco mais de rugas ao redor dos olhos. Um pouco mais de experiência, talvez um pouco mais de cansaço. Porque os anos passam, mas não têm coragem de mostrar isso diretamente; eles passam escondidos, e você pega apenas pistas disso.

E agora nós avançamos o tempo até o dia do aniversário do meu primo, justamente a primeira vez que fui ao seu apartamento. Sim, porque aquele menino de quinze anos agora tem o seu apartamento, e mora com sua esposa. Porque o tempo passou para ele também.

E, em determinado momento, perto do final da noite, estávamos apenas em três casais. Eu e a Esposa, meu primo e sua esposa, o melhor amigo do meu primo e sua namorada. E, cerveja na mão, nós começamos a nos recordar destas histórias.

Papo vai, papo vem, risadas explodem, saudade implode.

Papo vai, papo vem, hora de ir embora.

E, foi ali, perto do portão do prédio, que a namorada do amigo do meu primo conversou um pouco com a Esposa. As duas andando atrás de mim. E eu peguei um trecho da conversa.

- Ele comentou comigo estava até um pouco emocionado que iria se encontrar com ele. No caminho para cá, disse que “na minha adolescência, esse cara era importante demais”.

- Sim, eu imagino...

- Mas dá para entender. Eles eram meninos, e ele era mais velho, cool... Era um modelo para eles.

Fingi que não ouvi nada, e comecei a me despedir das pessoas.

Mas, na verdade, meu impulso foi me virar e dizer que “sabe, outro dia estava andando pela rua e sem querer bati o ombro numa daquelas árvores pequenas, plantadas pela prefeitura, e fiz com que chovesse sementes em cima de mim. Fiquei coberto de sementes amarelas, como se fosse uma criatura folclórica da Amazônia. E no meio da rua. Eu sou um boçal, eu não sou cool. Eu nunca fui cool”.

Entretanto, fiquei quieto.

Estava ocupado demais pensando sobre o que havia escutado. Fomos embora e eu ainda ouvia esse trecho do diálogo dentro da minha cabeça. E isso me fez pensar. Não sobre aquela época, mas sobre mim. Porque talvez não exista nada mais recompensador do que você ser admirado por alguém que você ama.

Na verdade, pensei sobre isso, sim. Mas fui um pouco além.

Com tudo o que enfrentei ano passado, eu descobri que existe algo tão ruim – ou pior – que não ser admirado por alguém que você ama. É não ser admirado por você mesmo. E teve muitos momentos da minha história recente que eu passei por esta sensação. Mais de uma vez eu me surpreendi me questionando – de uma forma mais cruel do que eu merecia – a pessoa que sou.

Porque existe uma grande diferença entre você ser bom e você sentir que é bom. E, por bom, eu não me refiro à competente, capacitado, dedicado, nada disso. Estou falando de poder deitar a cabeça no travesseiro à noite e dormir em paz, sabendo que você fez o melhor que podia. Pois se você não se sente bom, não importa o quão bom você seja.

Já se vão mais de dez anos desde que meu primo morou na minha casa.

Em muitos momentos desta década, talvez eu não tenha me sentido tão bom quanto meu primo ou seus amigos me enxergam. Claro que eles viram muito mais as pingas que eu tomei que os tombos que levei (na verdade meu primo viu, sim, muito dos tombos), mas o Rob Gordon de dez anos atrás, que não carregava tantas coisas consigo, o Rob Gordon que existia antes do passar dos anos, ainda existe. E isso graças também a estes moleques.

Mas o mais importante de tudo isso não é que este Rob Gordon de dez anos atrás continua vivo – ao menos, na memória deles. O mais importante é que, hoje, eu coloco a cabeça no travesseiro, à noite, e sei que não estava tentando ser “o primo mais velho”, “o cara cool”, nada disso. Eu não estava tentando ser nada.

Eu estava apenas sendo eu mesmo.

E, no fim das contas, é isso que importa.

22 comentários:

Elise Garcia disse...

Eu acho que na maior parte do tempo as pessoas que realmente importam olham pra gente sendo a gente mesmo, enquanto a gente tenta alcançar um patamar que a gente mesmo se impõe. Já dizia Leibniz, na teoria do melhor dos mundos, que as escolhas que fazemos são as melhores dentre as possibilidades existentes. E só a gente não percebe isso. A gente perde tanto tempo tentando provar que a gente pode ser melhor do que é que se esquece de ser a gente mesmo da melhor maneira possível, só sendo.
Felizmente as pessoas que importam sempre dão um jeito de fazer a gente se tocar de que não é bem assim. =)

Varotto disse...

Mas não tem jeito. Você pode até achar que parece figurante do boi-bumbá, mas os moleques deviam achar que você era o John Lee Hooker.

Continue sempre a ser o mesmo MoFo...

leonardo disse...

Paraben - tuuuuuuummmm

Adriano disse...

Lembrei mais uma vez daquele seu texto que é meu favorito. Talvez você saiba qual é, aquele dos meninos no supermercado.

Enfim, eu penso da mesma forma, não sou admirado por mim mesmo. Mas de uma coisa eu não posso reclamar: A vida me permitiu ser não só um fã, mas um amigo das pessoas que eu admiro. Você é uma delas! E também é muito bom ser fã de um amigo. :)

Abração

Michele disse...

well... será q por isso q eu acabei confundindo-o por um irmão seu?

afinal, vc é o Yoda dele(ele = Luke), né? os tamanhos já batem mesmo =P(roubei a ideia da Elise. Elise, processe-me).

e enfim, depois do comentário do Varotto, não tem muito o que se dizer, né?

beijo

Elise Garcia disse...

Michele, associação livre de ideias, pega nada. Processar dá trabalho, rs...

E Rob, acho que vc era cool before it was cool.

[é, vou dormir, tou invadindo o blog alheio pra fazer comentários malucos...]

Rodrigo Rigotti disse...

Rob,
Não sei o que falar, seu texto me deixou meio sem palavras (como muitos aqui ficam, afinal de contas!)
Só posso dizer que o sentimento que você teve ao ganhar um irmão mais novo é praticamente o mesmo que eu tive ao ganhar um irmão mais velho. Alguém pra beber, conversar sobre coisas de homem, sair às 2 da madrugada para comprar salgadinho e coca cola na loja de comveniência e jogar Quake II até as 7 da manhã.
Apesar de os tempos que moramos juntos terem sido os "anos dourados" da nossa amizade-fraternidade, nunca vejo que aquilo acabou, de certo modo. As vidas mudam, as prioridades mudam, mas os irmãos, de verdade ou não, estão sempre ali para o que precisarmos. É por isso que chamamos alguém de, de fato, irmão :)
Um abraço,
Rodrigo

Fagner Franco disse...

Olha, sempre meus comentários aqui vêm fácil. Hoje, foi bem diferente. Fiquei com a mão no teclado. Não pela história, que é linda e fácil de se identificar, mas pelo final, pela parte de dormir em paz. Eu realmente não sei se tenho sido assim, realmente, não tenho sido bom. Realmente, nem tenho o que comentar, tenho mais é que pensar. Como sempre seus textos fazendo a gente pensar. Obrigado. (estou meio tenso mesmo, depois de pensar o que você disse).

Pri disse...

Sim, é o que realmente importa.

Hydrachan disse...

Você estava só sendo você mesmo, e isso é o que importa, de verdade.

Mas a vida é assim. Quando estamos com pessoas que amamos, conseguimos ser nós mesmos e, ainda assim, sermos admirados. Porque as pessoas que nos amam nos admiram pelo que realmente somos.

Bjs!!

Rob Gordon disse...

Elise:

"as escolhas que fazemos são as melhores dentre as possibilidades existentes". Adorei essa frase. Muito obrigado!

E, sim, felizmente algumas pessoas dão um jeito de mostrar que estamos certos em sermos exatamente como somos. Pois não existe nada mais recompensador que essa sensação.

Beijos!

Rob

Rob Gordon disse...

Varotto:

Gargalhei alto com seu comentário aqui. Mas John lee Hooker foi um pouco de exagero, não? Afinal, o John Lee Hooker... Bem, o John Lee Hooker é o John Lee Hooker!

Abraços!

Rob

Rob Gordon disse...

Varotto:

Gargalhei alto com seu comentário aqui. Mas John lee Hooker foi um pouco de exagero, não? Afinal, o John Lee Hooker... Bem, o John Lee Hooker é o John Lee Hooker!

Abraços!

Rob

Rob Gordon disse...

Leonardo:

Ele mesmo. :)

Abraços!

Rob

Rob Gordon disse...

Adriano:

Duas coisas: primeiro, eu adoro esse texto também. E me lembrei dele outro dia - assim que tiver um tempinho, vou reler.

Outra coisa: você diz que é muito bom ser fã de um amigo? Eu sei. Eu tenho a mesma sorte. :)

Abraços!

Rob

Rob Gordon disse...

Michele:

Será que foi por causa disso? Acho que não, acho que foi coincidência mesmo... Afinal, fisicamente eu e ele não temos nada a ver. :)

Beijos!

Rob

Rob Gordon disse...

Elise:

Fiquei até sem graça agora.

(Eu não sou cool, não)

Beijos!

Rob

Rob Gordon disse...

Rodrigo:

Não vou responder seu comentário. Seria redundante, porque eu estou há dez anos respondendo ele. E pretendo passar os próximos dez, e os dez seguintes, e por aí vai, respondendo.

Beijos!

Rob

Rob Gordon disse...

Fagner:

Cara, vou falar uma coisa por experiência própria. Algo que aprendi nos últimos anos. Se você pensa se é uma pessoa boa quando coloca a cabeça no travesseiro, uma dica: ruim você não é. Talvez não esteja numa fase boa, mas você não é uma pessoa ruim. Porque uma pessoa ruim não se importa com a forma que ela está agindo.

Abraços!

Rob

Rob Gordon disse...

Pri:

E somente isso.

Beijos!

Rob

Rob Gordon disse...

Hydrachan:

Isso é uma verdade. As pessoas que nos amam nos admiram pelo que somos. Isso é uma grande verdade.

Michele disse...

mas eu só ví foto do Rodrigo DEPOIS de tê-lo confundido. e qt a altura, só soube disso agora...