6 de agosto de 2012

...And Justice for All. Ou Não.


Foi uma separação amigável. Ao menos, tecnicamente.

Depois de trabalhar dez anos na mesma empresa, arrumei as coisas da minha mesa e saí para não voltar mais. Isso aconteceu há mais de um ano (eu falei sobre isso aqui). Os motivos foram muitos, nenhum deles envolvendo meu desempenho ou comprometimento. Na verdade, o motivo básico foi dinheiro: eu havia me tornado um profissional caro demais para o que a empresa podia pagar naquele momento.

Assim, juntei minhas coisas e fui embora. A empresa ficou me devendo dinheiro, mas como eles não podiam me pagar tudo ali, na mesma hora, o “tecnicamente” que eu disse lá em cima entrou na equação.

Vou explicar melhor. A empresa quer me pagar, mas precisa que a dívida seja parcelada. Eu, do meu lado, quero receber de qualquer forma. Assim, foi fácil entrarmos num acordo. O problema é que o acordo, neste caso, não envolve somente a mim, ou a empresa. Fizemos o acordo no sindicato, mas, para que a dívida seja parcelada, é preciso uma audiência num fórum, com juiz, testemunhas... Aquela burocracia toda.

Bem, semana passada, me chamaram no sindicato para eu retirar a notificação da audiência.  Isso, como disse também lá em cima, mais de um ano depois que saí da empresa, o que mostra toda a velocidade e agilidade da nossa Justiça. Um ano e quatro meses, na verdade.

Ou seja, quando dizem que a justiça tarda, mas não falha, eu sou obrigado a concordar. Especialmente na parte do “tarda”. E hoje eu iria descobrir se a parte do “não falha” era verdade.

Pelo menos, era o que eu achava que iria acontecer, até as 10h05min.

Eu estava no carro, a caminho da audiência, acompanhado pelas minhas testemunhas, quando toca meu telefone. Atendi.

- Senhor Gordon, aqui é Beltrano do sindicato.

- Oi, Beltrano, tudo bom?

- O pessoal está à sua espera ali para a audiência.

- Sim, eu sei disso. Eu estou a caminho, com as minhas testemunhas.

- Ah, o senhor está a caminho?

- Isso, eu devo chegar lá daqui a uma meia hora.

- Mas a audiência do senhor é agora, às 10h10min.

- Não. Minha audiência está marcada para as 11h10min.

- Não, senhor. Ela foi marcada para as 10h10min.

- Sabe, Beltrano, por uma feliz coincidência, eu estou com o papel que vocês me entregaram na minha mão. Na verdade, estou olhando para ele agora. E tenho quase certeza de que isso aqui é um “1”, e não um zero. A audiência é às 11h10min. Confie em mim.

- No papel do senhor está 11h10min?

- Isso.

- Só um minuto. Eu já ligo para o senhor.

E desligou. Antes mesmo que eu pudesse entender melhor o que aconteceu, o telefone tocou novamente. Era o mesmo número.

- Oi.

- Senhor Rob?

- Isso.

- Eu preciso pedir desculpas para o senhor. A audiência é mesmo às 10h10min. O papel que o senhor recebeu teve um erro de digitação.

- Espere... Um erro de digitação? E só na minha cópia?

- Isso mesmo. Sinto muito.

- Saber que você sente muito não é exatamente o que eu preciso agora. Eu quero saber o que vai acontecer agora.

- Seu processo vai ser arquivado, e teremos que dar entrada novamente.

- Faz um ano que estou esperando esta audiência, e não vou poder ir porque vocês digitaram errado?

- Sinto muito. Se o senhor puder passar aqui amanhã...

- Vem cá, não tem como vocês explicarem ao juiz que o erro foi de vocês, que estou a caminho e fazer a audiência ser às 11h10min?

- Não, senhor. O processo vai ser arquivado.

- Certo. E provavelmente, eu terei que esperar mais um ano até isso se resolver.

- Bem, isso fica a cargo do juiz...

- E, provavelmente, o mundo acaba antes disso, em dezembro deste ano. Você deve ter ouvido falar isso.

- Bem, senhor.

- Esquece. Amanhã eu passo aí.

- Obrigado, senhor. Desculpe mais uma vez.

- Adeus.

E assim, eu e minhas testemunhas demos meia-volta e fomos tomar um café. Daqui a alguns meses, se o planeta não explodir e os mortos levantarem da sepultura, o que está programado para acontecer em 21 de dezembro (isso se o papel que recebi sobre o fim dos tempos não contém nenhum erro de digitação), eu volto a mexer neste assunto.

Até lá, tenho bastante tempo para refletir sobre minha vida profissional, sobre a dívida que a empresa tem comigo e, mais importante ainda, porque é sempre comigo.

Tenho tempo de sobra. Na verdade, como dizia Louis Armstrong, We have all the time in the world. Mesmo. Porque realmente “a justiça tarda”, como dizem por aí.

Mas o pior é que ela não apenas tarda. Ela tarda, tarda, tarda mais um pouco, tarda, toma um cafezinho, deixa alguns processos para segunda-feira, tarda, dá uma última enroladinha e quando você nem lembra mais que ela existe, ela finalmente chega.

E aí você descobre que ela não apenas tarda como fez merda e vai ter que começar tudo de novo.

Porque a justiça pode ser cega, mas, pelo que percebi, ela também é bem tapada.

38 comentários:

Ana Claudia Savini disse...

Lixo de país.
Af... ¬¬

Elise Garcia disse...

"O erro é nosso, mas o ônus é seu. Desculpa aí se a gente errou, mas sabe, quem vai pagar o pato é você, porque a gente precisa jogar o resultado da nossa incompetência em algum lugar, e obviamente não vai ser em cima da gente."

Meus pêsames, Rob. Isso é uma merda, não há o que discutir.

Camila disse...

É sempre assim, Rob. Eles erram e a gente paga o pato.

Varotto disse...

Como diria Manuel: "Se eu fosse americano minha vida não seria assim..."

Caranguejo Excêntrico disse...

Vogons.

renata de toledo disse...

AHAHAHAHAHAHAHA
Benvindo ao meu mundo, senhor Rob Gordon!!!
Mas fique em paz consigo mesmo antes de eu te contar que aqui em Campinas, pelo menos, as audiências marcadas para as 10h10 não começam antes das 12h50, de forma que provavelmente dava para você ter ido e ainda tomado um cafezinho lá no forum trabalhista, onde a fama de atraso é mais ou menos semelhante.
P.S - amei a projeção do mundo acabando e os mortos se levantando.

Ricardo Wagner disse...

Nos EUA você pode resolver isso a bala (aqui também, mas culturalmente é mais complicado).

Por isso que a justiça de lá funciona. Juristas e legisladores sabem que se ela falha, o cidadão resolve de qualquer jeito.

Por isso fazem campanhas aqui para nos proibir de comprar armas.

Porque um cidadão armado é um cidadão capaz de fazer justiça (ainda que seja pelas próprias mãos). Um cidadão desarmado é refém da sua classe política e jurídica.

Natalia Máximo disse...

Vish, sério? Que stress desnecessário, gente =~~

Adriano disse...

Veja pelo lado bom, pelo menos rolou um cafezinho com o Fernandão!

Hally disse...

Tá louco... começar a semana nessa "alegria" não é fácil. Boa sorte da próxima vez, que o erro de digitação seja pra mais cedo na sua cópia, e não mais tarde.

Anônimo disse...

Meu amigo, se faz um ano e quatro meses que você saiu da empresa e te pediram mais tempo para uma nova audiência, na boa, procure um advogado trabalhista. Eles querem ganhar tempo para impossibilitar a cobrança através de um processo trabalhista, pois até onde sei, voc~e tem até dois anos para entrar com processo.
Kátia

Infinito disse...

Rob, creio que o erro foi: 1 - do sindicato, que foi quem passou a informação errada; 2 - do Conselho de sua área profissional, que exige a intervenção dos anteriores, ao invés de aproveitar a celeridade da justiça trabalhista; 3 - da pessoa do juiz do trabalho responsável pelo seu caso. Dificilmente com um pouco de boa fé ele não pudesse ver que, sendo uma causa amigável, poderia simplesmente homologar um acordo entre você e a empresa só com o aval de assistente do sindicato; 4 - você. Sim. Indo ao site do Tribunal de Justiça do Trabalho, você poderia se inteirar de tudo relativo ao seu nome, inclusive horário da audiência. Ainda mais o senhor, que tem este histórico de estar cercado por pessoas "especiais".

Hoje em dia não adianta só ser correto: Deve-se ser correto-e-meio.

Jú Garcia disse...

O meu comentário não tem nada a ver com esse post. Eu queria comentar no Chronicles, mas lá não posso postar sem ter uma conta no google ou blog, então espero que você não leve a mal, mas vou comentar aqui mesmo...


Que belo texto para animar uma terça-feira sonolenta.
Me transportou para o meu 3° colegial, quando eu tinha uma paixão platônica assim.
Escrevia cartas e mais cartas, que claro, ele nunca leu.
Lembro que quando ele entrava na minha sala, minhas mãos suavam, meu corpo tremia, meu coração acelerava, e logo eu ficava decepcionada porque não era comigo que ele ia falar.
Muito tempo depois, mais precisamente ano passado, eu o reencontrei. Assim, sem mais nem menos, em um lugar que eu jamais pensei que pudesse encontrá-lo.
Já quase não lembrava dele, mas assim que o vi, minhas mãos começaram a suar, meu coração começou a bater mais forte e meu corpo tremia. Não consegui prestar mais atenção no que as pessoas falavam, fiquei até meio boba, sem saber o que fazer. Mesmo sabendo, que ele não iria ter a menor idéia de quem eu era. Me senti de volta a minha adolescencia.
Imagina qual não foi minha surpresa, ao perceber, que o cara que fez parte dos meus sonhos e da minha imaginação, estava com o namorado. Meu terceiro ano, foi inteirinho por água abaixo.
Obrigada por todas as gostosas lembranças que o seu texto me trouxe.
=D

Michele disse...

Rob, advogado trabalhista AGORA!

tô te falando pq já processei escola(fiquei nem 6 meses nela, mas enfim). eles vão te enrolar pra n pagar e vc n conseguir entrar com o processo. isso é simples e claro.

e não, não mancha mais seu cv e eles não podem dar referencias negativas sobre você antes/durante/depois do processo sob pena de tomar outro processo nas ideias.

escuta o q eu tou dizendo, entra com o processo na hora. lá vc vai acordar valores e td certinho. melhor do q esse absurdo.

beijos.

Bonaldi disse...

Kafka feelings... =S
Been there!

Leonardo Moreno disse...

Triste!
Mas recomendo procurar um advogado meu caro, ainda que para responsabilização do sindicato caso, ou, melhor ainda, preventivamente para resolver seu caso logo e não deixar nas mãos só do sindicato, melhor prevenir que remediar tendo que tentar a responsabilização do sindicato mais tarde.

Abraço!

gilgomex disse...

Rob have "no time for us?"

Patricia Borges disse...

Rob,
Nunca pensei que minha profissão ia poder ser util ao escritor do blog que sou tão fã ! Vamos lá : sou advogada trabalhista atuante e trabalho, veja só, com jornalistas ! Claro que tenho pouquissimos elementos do seu caso para me meter a falar mal de qq uma das partes...mas posso tecer alguns comentários :
1) Na justiça do trabalho acontece realmente oque mencionaram acima: se vc atrasa um minuto o processo é arquivado (ou pior, vc vira revel), mas o juiz atrasa horas e vc tem de esperar;
2) Muito estranha essa exigência de que seu acordo trabalhista tenha de ser homologado em audiência...em 10 anos de advocacia sindical eu jamais vi isso...
3) Olho no tempo...como outro comentarista falou vc só tem 2anos para reclamar na justica !

Caso queira posso comentar por email mais detalhes do seu caso (relax, sem cobrar... nós advogados não somos sempre mercenários !Só pelo prazer de ajudar o escritor contemporâneo de quem eu sou mais fã ;-))

Fagner Franco disse...

Foda. Nem tem mais o que dizer. Foda. Que desgraça esse país, às vezes.

Rob Gordon disse...

Ana:

Podia ser pior. Podia ser...

Não, esquece. É pior.

Beijos!

Rob

Rob Gordon disse...

Elise:

O lado mais fraco é sempre quem paga o pato, né? É sempre assim...

Beijos!

Rob

Rob Gordon disse...

Camila:

É SEMPRE assim. Sempre.

Beijos

Rob

Rob Gordon disse...

Varotto:

Exatamente. :/

Abraços!

Rob

Rob Gordon disse...

Caranguejo Excêntrico:

Malditos vogons. Faltaram só os poemas.

Abraços!

Rob

Rob Gordon disse...

Renata:

Eu tive certeza, na hora que desliguei o telefone, de que se tivesse continuado e ido até lá, chegaria antes da audiência começar. Mas já não estava mais no meu alcance.

Beijos!

Rob

Rob Gordon disse...

Ricardo Wagner:

Cara, na verdade, eu não acho que uma arma mudaria tudo. Quer dizer, mudaria em alguns, mas não acho que seja o caminho. O problema aqui é que o "estar desarmado" significa sempre que "em alguns duas as pessoas esquecem", que "no domingo tem futebol e as pessoas esquecem", ou que "ano que vem tem carnaval e as pessoas esquecem".

O problema aqui é que tudo é a) esquecido ou b) vira motivo de piada, porque temos que manter a "fama" de povo divertido que temos com o mundo.

Triste.

Abraços!

Rob

Rob Gordon disse...

Natalia:

O problema nem foi o stress, mas sim a falta de perspectiva em ver uma solução agora.

Beijos

Rob

Rob Gordon disse...

Adriano:

Fernandão não foi, mas tá na minha lista de "convocados" aqui. :)

Abraços!

Rob

Rob Gordon disse...

Hally:

Eu pensei nisso também: se o erro de digitação tivesse mudado o horário para mais cedo, tudo o que aconteceria é levar um chá de cadeira de uma horinha. :/

Beijos

Rob

Rob Gordon disse...

Kátia:

O sindicato já deu entrada novamente no processo. Agora estou aguardando a marcação da nova audiência, mas ainda tenho os papéis da original aqui. Ou seja, é uma forma de me resguardar e dizer que a primeira audiência não houve por erro do sindicato.

Obrigado pelo aviso!

Beijos

Rob

Rob Gordon disse...

Infinito:

Dou razão a você. Apesar da notificação conter o horário - e eu não ter motivo para duvidar dela - não teria feito mal algum ter checado tudo em outra fonte. Tem razão.

Abraços!

Rob

Rob Gordon disse...

Jú Garcia:

Achei linda a história do seu amor platônico - apesar do final, digamos, inusitado!

Obrigado pelo comentário!

Beijos!

Rob

Rob Gordon disse...

Michele:

Meu irmão tem uma reunião com o advogado da família, e ele vai apresentar o caso ali. Obrigado pelo conselho!

Beijos!

Rob

Rob Gordon disse...

Bonaldi:

Totalmente Kafka, né?

Abraços!

Rob

Rob Gordon disse...

Leonardo:

Vou correr atras sim, valeu pelo toque!

abraços!

Rob

Rob Gordon disse...

Gomex:

Se você se referiu à demora na resposta dos comentários, tenha certeza de que o certo é "no time for me". Mas estou acompanhando tudo e lendo todos, sempre - mesmo que demore a responder.

Abraços!

Rob

Rob Gordon disse...

Patricia:

Como eu já disse para você na mensagem do Facebook, pode deixar que qualquer coisa eu grito!

Muito obrigado!

Beijos!

Rob

Rob Gordon disse...

Fagner:

De foder, né?

Abraços

Rob