30 de maio de 2011

Garotos Incríveis

Ai, que saudades que eu tenho
dos meus doze anos,
que saudade ingrata!
Dar banda por aí,
fazendo grandes planos
e chutando lata.




Esta é rua em que eu nasci.

É rua pequena e com cerca de vinte casas, no meio de Moema. Meus pais compraram a casa ali anos antes de eu nascer, quando o bairro era somente um pântano, com poucas casas e quase nada de comércio. Hoje, o bairro é entupido de prédios e avenidas. Tem até um Shopping Center que, durante minha adolescência, foi quase o meu segundo lar.

Mas, enquanto eu crescia nesta rua, as coisas eram diferentes – apesar de não possuir uma memória do bairro sem os prédios. A rua era mais tranqüila (mas menos sossegada do que as fotos mostram), porque, na verdade, acho que a vida era mais tranqüila.

Não me lembro do dia em que cheguei lá pela primeira vez, mas durante quase três décadas, esta rua foi meu mundo. Era aqui que meus pais me levavam para tomar Sol quando eu era bebê e devo ter começado a aprender a andar em algum lugar destas fotos. Apesar de eu me lembrar bem pouco de tudo isso, sei que a rua estava ali, comigo.

Já um pouco mais velho, lembro de me deitar na cama do meu quarto – cuja janela dava para a rua – e demorar a dormir por causa do medo que eu sentia do barulho dos aviões esquentando os motores no aeroporto de Congonhas. E adorava quando acordava pela manhã e o barulho havia sumido. À noite, aquele barulho era um monstro, mas, durante o dia, o som dos aviões pousando e decolando era apenas o “barulho do aeroporto”.

Tenho poucas memórias da infância, mas todas – especialmente aquelas vinculadas a esta rua – são doces.

Lembro-me de estar voltando de algum lugar com a minha mãe e, ao descobrir o carro do meu avô (acho que era um Corcel marrom) estacionado, gritar que “o vovô está em casa” e sair correndo em direção ao portão. Lembro do medo – sim, hoje até mesmo este medo é doce – do dia em que minha mãe deu permissão para que eu fosse à banca de jornal, sozinho pela primeira vez. Não lembro qual era o dia, mas lembro que estava frio, com o céu totalmente acinzentado e que eu mal conseguia andar direito com tantos casacos.

E, por morar lá desde que nasci, lembro-me de cada uma das casas e de quem morava nelas, especialmente durante minha infância. Especialmente a dos meus amigos – sim, várias casas desta rua tinham crianças da mesma idade. Quando éramos crianças, éramos uma espécie de benção da rua; já mais velhos, nos tornamos o inferno do bairro.

Foi nesta rua, ao lado deles, que eu cresci. Esta rua me viu crescer e aprender a falar palavrão, a brincar de barra manteiga, esconde-esconde, pega-pega, polícia e ladrão e Guerra nas Estrelas. Sim, brincávamos de Guerra nas Estrelas, e brigávamos para escolher quem iria interpretar cada papel. Ou, nos dias de chuva, nos reuníamos na casa de um deles – às vezes era a minha – para jogar videogame ou algum outro jogo de tabuleiro.

Mas, nos dias de Sol, estávamos na rua. Jogávamos taco, andávamos de rolimã, e me lembro de algumas vezes termos estendido uma corda entre um portão e outro para usar como rede de vôlei. Mas o nosso negócio era mesmo futebol. Ao menos o meu. E, quando a bola começava a rolar pela rua, ela deixava de ser uma rua e se tornava meu palco.

Durante anos, fiz gol de tudo que era jeito. Fiz gol de placa e gol de bico. Fiz gol tirando o goleiro, por cobertura, fiz o gol que o Pelé não fez contra o Uruguai (deixando a bola passar por baixo das pernas e enganando o goleiro), fiz gol entrando com bola e tudo. Isso tanto em jogos “de brincadeira” com meus amigos, como nos “grandes clássicos” disputados contra turmas de outras ruas – cuja maioria dos jogos terminava em briga.

Tudo isso no campinho que pintamos um dia e cujo cheiro da tinta me fez vomitar à noite inteira dentro de casa. Tínhamos um campo e tínhamos regras. Além da ”prensada é da defesa”, regra máxima do futebol de rua, era proibido fazer gol tabelando com alguma coisa (portão, veículo) e lateral somente quando a bola caía em uma garagem.

Mesmo sendo o menor do time, inventava, às vezes, de jogar no gol. E fazia algumas defesas bonitas, especialmente porque conseguia esconder dos atacantes o fato de que eu não sabia pular para a esquerda. E gritava com o time inteiro – às vezes minha mãe precisava vir até o portão e me mandar parar de gritar palavrões – arrumava a defesa, saía do gol dando carrinho ou espalmava para escanteio.

E, quando a bola caía em alguma cobertura, eu era um dos primeiros a subir pelos portões para buscá-la, porque na época eu não tinha medo de altura. Ou, se tinha, não sabia disso. Eu estava sempre andando por cima das coberturas, atrás da bola ou atrás de farra.

E foi justamente assim – correndo atrás da bola ou correndo atrás de farra – que eu cresci.


Ai, que saudades que eu tenho
duma travessura,
um futebol de rua.
Sair pulando muro,
olhando fechadura
e vendo mulher nua.


Mas claro que conforme o tempo foi passando, e a proporção mudou: de repente, eu passava mais tempo correndo atrás de farra do que da bola. Minha mãe deve ter odiado quando o filho caçula dela começou a aprender a beber e a fumar, algo que aconteceu nas calçadas desta rua. Descobri músicas, filmes e livros, que me acompanham até hoje, conversando nestas calçadas.

Sim, porque às vezes apenas não fazíamos nada. Apenas conversávamos. Sentávamos na calçada e conversávamos sobre tudo: mulheres, futebol, amizade, escola, família, vida. E conversávamos de verdade. Não existia internet. Era uma época em que, para conversar com alguém, era preciso ligar para a casa da pessoa – ou, no caso dos meus amigos da rua, ir até a casa da pessoa e tocar a campainha.

Assim, a comunicação era mais direta, mais humana. E mais verdadeira. Mentia-se menos, porque quase tudo era olho no olho e mentir desta forma é muito difícil. Se você estava chateado com alguém, ao invés de ficar invisível no Messenger, bastava chamá-lo de canto, sair para dar uma volta no quarteirão e resolver o problema. Em casos extremos era preciso até mesmo sair na porrada para se resolver, mas se resolvia. Porque um olhava para a cara do outro, e não para a um punhado de emoticons que poderiam ter sido digitados enquanto a pessoa falava mal de você para um terceiro, em outra janelinha.

Não era mais fácil (porque sair na chuva para chamar o amigo era bem mais complicado que chamá-lo no Messenger ou no Gtalk), mas era mais honesto (justamente porque você saía na chuva para chamar seu amigo, ao invés de chamá-lo no Messenger ou no Gtalk). Era uma época que você sabia exatamente como cada pessoa era, também porque você sabia como a família de cada pessoa era – vivíamos uns nas casas dos outros, sempre.

E se você um dia pisasse na bola com alguém (seja por causa de mulher, seja por ter espalhado mentiras sobre esta pessoa, seja por qualquer outro assunto) você era desmascarado em dias e recebia o maior castigo possível: ia para a geladeira e era totalmente ignorado pelo resto da molecada. E lá você ficava até pedir desculpas publicamente para todo mundo.

Talvez por isso que até hoje, para mim, o Messenger não seja suficiente. Adoro conversar por ele – não sou avesso à tecnologia, pelo contrário – mas sei que não é suficiente para mim. Sinto falta do olho no olho, do bate papo na calçada. Porque foi batendo papo na calçada, olhando nos olhos, que eu aprendi a crescer e formei boa parte do meu caráter. Ali, olhando nos olhos.

Mas foi também nesta rua que estraguei boa parte do meu caráter. Ao menos, é o que a minha mãe iria colocar aqui se tivesse a senha do meu blog. Eu não vejo como “falha de caráter”, mas como “aprontar”.

Tínhamos alguns alvos preferidos, como a Velha Louca que morava na esquina (na casa com muro verde, à direita da foto que abre o post), porque se existe uma constante na natureza é que “toda rua que possui uma turma de moleques certamente terá também uma Velha Louca”. Explodíamos o muro dela com bombinhas, e era impossível passarmos em frente à casa dela sem tocar a campainha e sair correndo. Qualquer dia eu falo melhor dela aqui.

Outro alvo nosso era uma família de gorduchos que se mudou para a rua quando eu já devia ter uns 14 anos. A família tinha um moleque da nossa idade e o ritual (nunca oficializado) é que qualquer garoto não nascido na rua precisaria sofrer antes de entrar para a turma. Era uma espécie de batizado.

Eu nem me envolvi muito – acho que estava em semana de provas –, até um dia em que o Gordinho, da janela do quarto, jogou um ovo na minha direção quando eu passeava com meu cachorro. Fui até o portão – o moleque estava rindo na janela – e disse a ele simplesmente que ele havia comprado uma briga maior do que ele poderia agüentar.

O moleque continuou a rir. Nos meses seguintes, a vida de todos que moravam naquela casa se tornou um inferno. Fizemos coisas que não caberiam em um post (por exemplo, pulei no quintal da família com uma lata de spray e passei boa parte da madrugada pintando todas as plantas, folha por folha, de vermelho). E mais não digo, pois em dez minutos minha mãe já estaria gritando para o meu pai pegar o testamento da família e uma borracha. Mas certamente contarei estas histórias para o meu filho (sem a mãe dele saber, claro).

Mas não aprendi apenas a jogar bola, a ter caráter e a aprontar.

Mas outras descobertas minhas aconteceram nessa rua, conforme eu crescia. Subíamos nas coberturas para ver a mulher do vizinho – linda – se trocando ao sair do banho. Tomei porres homéricos, chegando a vomitar as tripas em algumas destas esquinas e até mesmo a cair na fogueira (literalmente) durante uma festa junina, junto com outro amigo bêbado. Comemorei gols do Brasil em Copas do Mundo gritando pela rua e correndo de braços abertos em direção a um abraço, como se o gol tivesse sido meu.

Algumas das minhas primeiras paixões nasceram nesta rua, seja na calçada ou em bailinhos nas garagens, com o portão coberto por uma lona e dançando de rosto colado depois de criar coragem para ir falar com a garota. E voltava para casa totalmente apaixonado, sem conseguir tirar a garota da cabeça e certo de que havia descoberto a mulher da minha vida.

Mas também aprendi – existe uma grande diferença entre aprender e descobrir – nesta rua. Muitas vezes voltei para casa tarde da noite, sozinho e com lágrimas nos olhos, por ver paixões minhas jogadas no lixo, me questionando o sentido de tudo aquilo e se existiam regras para aquele jogo que eu queria jogar.

Mas poucas coisas – isso, contando até hoje – doeram tanto quanto o dia que meu pai me levou para tomar um chopp e disse que meu basset hound havia morrido. E ao entrar em casa, percebi que nunca mais o veria correndo na minha direção pelo corredor lateral do quintal.

No momento em que vi o quintal vazio, entendi que havia perdido o meu melhor amigo, sem sequer ter me despedido dele. O choro que eu estava segurando desde a hora que recebi a notícia escapou feito uma tempestade. Perdi a força nas pernas, caí sentado no chão e chorei compulsivamente por um dez minutos, sem conseguir parar de chorar ou me levantar, sem me importar se alguém na rua estava vendo.

Mas foi nesta rua que aprendi a beijar e a abraçar. Foi nesta rua que aprendi a confiar e a desconfiar. Foi nesta rua que aprendi que você xinga e brinca de luta somente com aqueles que gosta muito, tratando cordialmente e com respeito aqueles que você jamais viraria as costas. Foi nesta rua que aprendi a proteger (e escolher) meus amigos.

Foi morando nesta rua que aprendi a amar, a me apaixonar, a querer o bem de quem me quer bem. Foi morando nesta rua que aprendi a contar histórias. Quer dizer, primeiro foram piadas; depois as histórias, transformando-me no contador de histórias das noites de bebedeira. Ou seja, foi morando aqui que eu aprendi a escrever, mesmo sem escrever nada, apenas falando.

Foi morando nesta rua que me tornei o que sou. E se você quer realmente saber como sou, sente-se comigo em uma calçada e converse comigo, sobre qualquer assunto, durante horas. Porque é assim que eu fui criado: olhos nos olhos e com a bola rolando na rua. Nesta rua.

Na rua em que cresci.



Ai, que saudades que eu tenho
dos meus doze anos,
que saudade ingrata!
Dar banda por aí,
fazendo grandes planos
e chutando lata.



Nota: Ultimamente, tenho escrito bastante no Chronicles. Aliás, escrito mais rápido do que é possível acompanhar, como já vieram me dizer. Então, caso tenha perdido os últimos textos dali, convido a ler Louco de Amor, Ligue os Pontos e O Cadáver de Terno Cinza.



24 de maio de 2011

Teaser [2]

Em uma semana.

23 de maio de 2011

Encontros

Algumas coisas estão começando a acontecer para o meu blog. E uma delas rolou semana passada, quando recebi um release – aqui no e-mail do blog – sobre o festival de música Natura Nós, convidando este que vos escreve e um (a) acompanhante. Poucos dias depois, tocou meu telefone.

– Alô.

– Rob?

Meu impulso foi dizer que “não, não tem ninguém com este nome” e desligar. Sim, por mais que eu assine meus textos com este nome há anos, eu ainda não me acostumei com o “Rob” como palavra falada. Mas aí eu parei e pensei: “Você tem um blog e ele é escrito pelo Rob Gordon, lembra? Logo, você é o Rob.”

Ainda bem que a pessoa do outro lado do fone aguardou pacientemente eu resolver meu problema mental. Assim, continuei conversando com ele sobre o evento, pegando mais informações, combinando o local de encontro...

E, mais importante: identificar a proposta do evento. É engraçado: eu acredito que aprendi a escrever dentro de uma redação; contudo, na primeira oportunidade que tive em “trabalhar” com o blog, foi o meu instinto de jornalista que prevaleceu. Fiquei um pouco apreensivo – nunca havia sido chamado para uma “pauta” pelo blog, mas logo isso passou. Tratei o tema como se fosse uma matéria comum. Quanto à abordagem do texto? Depois eu pensaria nisso.

Assim, no final da tarde, cheguei, junto com a Srta. Acompanhante, ao show. Ou melhor, “aos” show. O Natura Nós, para quem não conhece – e eu não conhecia – é um festival de música com dois palcos e diversos artistas: alguns alternativos; outros (bem) mais badalados.

Assim, os grandes nomes desta edição eram Maria Gadú, Roberta Sá, Laura Marling, Jamie Cullum e Jack Johnson (no sábado); domingo, as principais atrações eram Palavra Cantada e Toquinho.

Logo na entrada, fui avisando o meu contato.

– Antes de começarmos a brincar, você precisa saber que a coisa mais leve que ouço, atualmente, é Alice Cooper.

Ele deu risada.

– Você vai gostar. Não se preocupe. Aqui, vamos além da música.

Levantei a sobrancelha, desconfiado. Não seria a primeira vez que alguém de um departamento de marketing ou comunicação teria me prometido algo assim, em vão. Mesmo assim, dei um voto de confiança e fui em frente.

A Área Vip estava já estava cheia quando entrei – graças ao trânsito de São Paulo, que vai além da música, do bom senso e do suportável, consegui chegar somente na metade do festival, num breve intervalo entre alguns shows. E aproveitei para explorar a Área Vip, algo que nunca havia feito sem um crachá de “imprensa” pendurado no pescoço.

Poucas vezes vi um espaço tão bem montado em termos de exposição da marca – e olhe que tenho dez anos de eventos (maiores e menores) deste tipo nas costas. A marca Natura estava exposta em todos os cantos do local, mas nunca de forma ofensiva ou exagerada. Em momento algum você se sentia “invadido” ou “comprado”, somente discretamente (quase elegantemente) cercado pelo nome da empresa.


A Área Vip - ou parte dela.

Mas, claro que, por ser um convidado – o que tornava um pouco diferente das outras pessoas que estavam ali, boa parte delas que havia comprado ingressos para a Pista Premium, ao qual eu tinha acesso, vale citar – tive certas regalias, em especial mimos oferecidos pela Natura. Mas daqui a pouco eu volto a falar sobre isso, quero falar um pouco da minha experiência na Área Vip.

Para mim, é uma novidade estar numa área destas, ainda mais num show assim. Já estive em áreas Vip de eventos relacionados a cinema, mas nunca em um show, ainda mais de músicas que não fazem parte do meu cotidiano. Assim, ao invés de encontrar pessoas vestidas de preto da cabeça aos pés, encontrei pessoas de outras tribos: desde o público que certamente passou horas se arrumando, em casa, para ir ao evento, até espectadores “comuns”, que estavam lá para curtir seus artistas preferidos.


No meio disso, uma pessoa xingava furiosamente seu celular, que se recusava a acessar o Twitter ou, na maior parte das vezes, a fazer ligações para outras pessoas. Evidentemente, era eu.

Mas logo o problema se resolveu e meu celular voltou ao normal, a tempo de conferir o show de Jamie Cullum, um dos que mais me interessava em toda a programação.

De todos os artistas da noite, ele era o que eu estava mais familiarizado. E, caminhando pela pista Premium, cheguei a poucos metros do palco, de onde assisti o que talvez tenha sido o “meu” momento musical da noite: sua versão de I Got a Woman, de Ray Charles, com o jovem britânico dançando e tocando piano ao mesmo tempo, acompanhado de sua banda.

Ao final do show, fomos investigar o segundo palco (as atrações principais aconteciam no Palco Verde; os secundários, no Azul), onde também conhecemos o Espaço Criativo, que reunia lojas de artesanatos, roupas e acessórios (chapéus, roupas, bolsas, maquiagem) que estavam disputando com os shows a atenção do público feminino presente, praticamente palmo a palmo.

Agora, antes de voltarmos ao Palco Verde, onde Jack Johnson encerraria a noite, hora de falar da Natura. Como eu disse, já havia recebido alguns mimos da Natura – daqueles que fazem a alegria das convidadas mulheres ou das namoradas de convidados homens – mas isso sempre faz parte do processo. Mas o interessante é que os produtos foram entregues numa sacola de pano (sustentabilidade é um dos lemas do festival), pequena (discrição é um dos lemas deste blogueiro) e fácil de carregar.

E, pouco antes do Jack Johnson entrar no palco, foi a hora de conhecer o projeto Natura Musical. Guiado por um representante da empresa, fui apresentando a todo o conceito por trás do evento em si, que promove a música como cultura e, mais importante ainda, como forma de encontro entre pessoas diferentes, de diversas partes do mundo. Basicamente, a música une as pessoas. E eu não preciso deixar de gostar de Slayer e passar a ouvir Jack Johnson para concordar com isso.

Evidentemente, existem espaços para as mulheres experimentarem os novos produtos da Natura – sobretudo das linhas mais sofisticadas – porque o evento é todo patrocinado pela marca (e, realmente, em alguns momentos você chega a esquecer isso). Mas o projeto cultural, que está em seu sexto ano (eu não sabia disso) vai além e patrocina desde CDs de novos artistas a turnês de nomes consagrados, além de realizar projetos que resgatam e mantém viva a história da música brasileira. E da música mundial, o que intensifica ainda mais o conceito de encontro.

Mais alguns mimos recebidos e hora de partir para casa. Jack Johnson ainda estava no palco, fazendo as mulheres gritarem a cada vez que sorria no telão, quase como um Bon Jovi do Havaí.


No Natura Nós, o mundo é,
antes de tudo, verde.


Mas, antes da saída, ainda houve tempo para colocar em prática na pele a filosofia de encontros. Encontrei, em momentos distintos, duas pessoas que já atuaram (por empresas diferentes) no mercado em que atuei durante antes. Abraços, beijos e “como você está?”, “o que está fazendo da vida?” além de um elogio, daqueles superlativos, que me deixou extremamente sem graça por ter me pegado tão desprevenido.

Imediatamente, meus olhos fugiram dos olhos da minha acompanhante e rezei baixinho para alguns dos produtos oferecidos pela Natura ter a capacidade de disfarçar meu rosto corado. Porém, imediatamente me lembrei de que jamais aplicaria aquele produto ali e fiz uma nota mental para responder apenas “é o frio” ao primeiro sinal de “você ficou vermelho com o que ele disse?”.

Fiquei. Mas fiquei feliz e orgulhoso.

Porque talvez seja esta a graça dos tais encontros promovidos pela música. Você encontra não apenas pessoas que não esperava ver (ou rever), mas também acaba encontrando, com a música, um pouco mais de você, um pouco mais do seu passado e – por que não? – do seu futuro.

E eu, apaixonado por música há mais de vinte anos, jamais imaginei que seria uma empresa de cosméticos que me faria pensar nisso tão a fundo. Obrigado, Natura. Não pelos brindes ou pelo conforto, mas sim por ter cumprido sua promessa e ter ido, realmente, muito além da música.


Nota 1 - As fotos foram tiradas com meu celular. Apesar da fraca qualidade delas, decidi publicá-las para aumentar a MINHA experiência no local. Para quem desejar, o site do Natura Musical (linkado no texto) conta com um Flickr com dezenas e dezenas de imagens profissionais.

Nota 2 - Por motivos éticos, nunca publiquei fotos dos brindes, acho desnecessário. Desta vez, porém, eu teria feito isso sem problemas, caso meu blog fosse voltado à maquiagem e beleza (algo que o meu barbear na terceira foto deixa claro que não é o caso).



20 de maio de 2011

Sobre Ontem a Noite

Hoje, após o almoço, comecei a receber diversos e-mails de leitores do blog reclamando não terem sido convidados para a festa realizada por conta dos 500 seguidores do Champ.

Alguns me acusavam de demagogo, pois me refiro aos leitores como amigos e – teoricamente – não convidei para a celebração. Outros, por sua vez, exigiam que uma nova festa fosse marcada, desta vez com todos os seguidores presentes. E um e-mail continha a mensagem “pena que você não convidou para a festa, mas curti muito seu blog, topa parceria? Vlw!”.

A todos vocês:

Eu também não fui convidado, pois não sabia de festa alguma.

Tanto que, a priori, achei que fosse alguma brincadeira, ou um viral. Mas, conforme os e-mails começaram a chegar, vi que algo realmente tinha acontecido. Foi aí que sai para investigar.

Aparentemente, sim, houve uma festa aqui no meu prédio, com todos os personagens do blog. E eu não fui convidado. Descobri, no chão da garagem, restos de um flyer (queimado nas pontas e com restos de maconha em seu interior), com o título: “Balada 500 do Champ” e as frases “Show da banda Síndica Brick Top e Seus Porcos Selvagens” e “Mulher até as 10 não paga!”.

E eu em casa. Tentando dormir, apesar do barulho da festa que acontecia no prédio ao lado. Mal podia eu imaginar que a festa era aqui. No meu prédio. Sobre o meu blog.

E, assim, caiu outra ficha. Comecei a me recordar que não me lembrava de ter visto o Besta-Fera em casa ontem à noite. Bom, bastou uma pesquisa no Google para começar a descobrir evidências – encontrei uma notícia informando que a polícia invadiu uma festa em Pinheiros esta madrugada, mas não consegui localizar o endereço exato, então não sei se foi aqui (e, se foi durante o show da banda da minha síndica, espero, pelo bem dos policiais, que não tenha sido).

Mas achei, sim, algumas provas. Fotos de mulheres vestidas como legionárias romanas e besuntadas de óleo; pessoas seminuas dançando em gaiolas no hall do prédio; consumo de drogas. Bebidas, drogas, mesas de jogo (aparentemente, o fantasma Jonas ganhou fortuna nas mesas de pôquer). Ou seja, tudo aquilo que torna a vida mais colorida. E que certamente vai me render uma multa de condomínio no valor da dívida externa de um país africano (porque certamente o cachê da minha síndica será pago com o dinheiro da multa).

Assim, deixo vocês com três fotos que encontrei na internet e que mostram o caráter “comportado” do evento.


"Oi?"



"A gente não vai gravar vlog hoje, né? Não tenho condição."



Sim. Ele está nu.
Ou melhor, nu em pelo.


Peço a colaboração de todos no envio (discreto) para o meu e-mail de eventuais fotos que surgirem na internet.

Porque hoje o tempo vai fechar aqui em casa, assim que esse cachorro acordar direito (ele acordou agora há pouco, foi até o banheiro, vomitou e voltou para a cama).

Certo de sua compreensão,

Rob


(Nota: nenhum animal foi ferido de algum modo durante a realização deste post. Já durante a festa, eu não garanto.)

(Nota 2: Quem quiser um texto um pouco mais sério - mas ainda assim de criança - tem coisa nova aqui, no Chronicles)

19 de maio de 2011

Isso, Sim, São Outros Quinhentos

“Do meu amigo, posso dizer apenas uma coisa. De todas as almas que encontrei em minhas jornadas, a dele era a mais... Humana.”

(Capitão James Kirk
Jornada nas Estrelas II – A Ira de Khan)



Eu sempre achei fascinante observar o mundo de madrugada, pela janela do meu quarto ou em pé, na varanda aqui ao meu lado enquanto escrevo. Vejo os prédios ao redor de mim, estudando quais janelas estão acesas e apagadas. E presto atenção naquelas iluminadas, brincando comigo mesmo. Tento inventar quem mora ali, o que esta pessoa está fazendo naquele momento e qual será sua história.

Cada janela é uma crônica. Cada janela é um mundo.

Hoje, o Champ chegou aos quinhentos seguidores. São quinhentas pessoas diferentes de diferentes partes do mundo. Cada uma tem seus sonhos, desejos e medos. São quinhentos pequenos rostos, em pequenas janelas, que iluminam o box “Clientes Preferenciais” na barra esquerda do blog.

Cada janela é um leitor. Cada janela é um amigo.

Sim, este é o termo exato é este. “Amigo”.

Há quem diga que este blog tem fãs. Há até pessoas que já me falaram, mais de uma vez, que este blog é famoso. Eu sempre discordo. Na minha concepção, este blog tem a sorte de possuir amigos. E isso é bastante diferente. Não são simplesmentes quinhentos nomes acompanhados de uma pequena foto. São quinhentas pessoas reais que me visitam, passam um tempo comigo e conhecem um pouco mais sobre mim.

Já faz alguns anos que este blog se tornou uma espécie de bar, para mim e muitos de vocês. É um lugar onde me sento, estico as pernas e converso. E eu me comporto, aqui, exatamente como me comportaria num bar, sentado na mesma mesa que vocês. E para a alegria de alguns, às vezes eu até mesmo apareço no bar com o meu cachorro.

E eu falo bastante. Quem me conhece, sabe disso. Quem me lê, sabe disso. Falo bastante. E, junto com vocês, eu dou risada, eu choro, eu penso, eu sinto. Porque ir a um bar e não fazer nada disso, não experimentar nada disso, é perder tempo.

Talvez por isso que um dos meus maiores orgulhos seja ouvir, das pessoas que me conhecem pessoalmente, que eu escrevo no blog exatamente do mesmo jeito que falo. Ouço isso tanto de gente que me conhece desde antes do blog nascer, como também de pessoas que conheceram primeiro o blog e depois a mim.

Por isso que quando vocês riem e choram comigo, eu abro um sorriso do tamanho do mundo. Não é ego. É amor. Seria hipócrita dizer que não estou nem aí para ser lido – desconfie de alguém que escreve e afirma não querer ser lido – mas é diferente. Mais do que ser lido, eu quero vocês aqui, ouvindo minhas histórias e contando as suas (os mais antigos certamente se lembram de textos cujos comentários se tornaram verdadeiros fóruns de discussão). Porque assim, estas histórias deixam de ser minhas ou suas e se tornam nossas.

Quero vocês rindo, chorando, sentindo e pensando. Mas comigo. Sempre junto comigo. Porque eu converso com muita gente durante meu dia, mas eu me permito sentir tudo isso somente com amigos. Ou melhor, com velhos amigos. Com vocês.

Pois, como eu disse acima, cada janela é um leitor. Cada janela é um amigo. Cada janela de todas estas quinhentas é, na verdade, um grande amigo.

A todos vocês,

Obrigado por tudo.

Rob.

**********


Como manda a tradição, é hora de apresentar os mais recentes “grandes amigos” deste blog, que apareceram por aqui depois do post escrito quando o blog chegou aos quatrocentos seguidores, em setembro do ano passado.

Assim, caros

Fernando Mozol, Yole, Whazzupmand, Tenda, Zoiverd, Udi Godinho, Renata de Toledo Ribeiro, Brenu S,, Bruninha*, Sara Jane da Silva, Adônis T D, Vanessa de Sales Rio, Marina, Paulo Kehl, Luizmiguel.s, Carlos Neto, Camaleão do Aquário, Eduardo, Nathalia, Filipe Ribeiro, Gustavo, Jonathan Landucci, Fagner Franco, Eduardo Leal, Isadora Moraes, Musicais BR, Dianna Montenegro, Anna Julia Tavares de Melo, Elaine Gaspareto, Nathi, Patrícia Melo, Luis Gustavo Guimarães, Gi, Bboy Guil, Pupin, Gabe, Gui, Rafael, Isa de Paula, Circus, M. Sarge, Juliana, Silvia Claro, Becka, Lunnafe, Dona D, Lucia Burmeister, Descharth, Júlia, Lucas (Pinduca) Manoel, Tati Santana, Natan Mestrinelli, Hey Dan, Bookess, Bob Mussini, Portal Messejana, Alexandre Cesar Costa Teixeira, Carol, Kelly Ribeiro, Mika, Juliano Pereira Muniz, Iris Figueiredo, S., Eduardo Rabelo, Ray Fernandes, Mulher ao Cubo, Stela de Oliveira, G7, Honey Pie, Ryoki, Darlana, Carla Ribeiro, Matoooos, Nelson, Isabel Veronica, Harumi, Lennon Faimison, Haru, Lívia, Bruxa, Poison-Mandy FPB, Angela Romanini, Matheus Brollo, Shiori_Carol, Silvia Sayuri, Adriano Duarte, Jeff Ryw,Dayana, Sol No Lenta, Estela Marques, Gaby Almeida, Mayra, Bruna Marotinho, Rea.Lisa, Frazie Ferraz, Srta. Cor de Rosa, Angela Lyra ,Barhuk, Del Lang, Valdeir, Iza, The Pillow, Angela, Mony, Nicole Nicolela, Mac, Bárbara Garcia, Rachel B. e Rockin’ Puppig:

Sejam sempre muito bem vindos.

Como um presente de boas vindas, dedico a citação que abre este post a cada um de vocês.



Cabe aqui, também, um pedido de desculpas. Graças à interminável zona que o Google faz com os seguidores do blog, é preciso sempre descobrir quais os novos seguidores, já que eles surgem sempre fora de ordem. Assim, a lista conta pouco mais de cem nomes, por este motivo (e porque alguns seguidores sempre mudam de nome). Além disso, faço questão de linkar todos os blogs que encontro - se você possui um blog e seu nome estiver na lista acima sem link, me avise nos comentários que eu arrumo na mesma hora.


18 de maio de 2011

"Embrulha para Presente, Por Favor?"

– Quer de presente para você?

– Ah... Não...

– Você gostou, não gostou? Eu vi seu olho brilhando.

– Gostei. Claro.

– Então. Eu dou de presente.

– Mas é caro...

– Não tem problema. Mesmo.

– Mas não precisa...

– Eu quero dar de presente para você. De verdade.

Eu sempre gostei de dar presentes. Sempre. Ou, ao menos, até onde posso me lembrar, já que, até os 15 anos de idade, eu não tinha dinheiro algum – e sair por aí dando presentes comprados com o dinheiro dos pais não deve contar muitos pontos no céu.

Mas, no início da década de 90, aconteceu uma coisa que me ensinou a ser generoso com quem está ao meu lado: a adolescência. E, com ela, veio meu primeiro emprego, numa loja de material de limpeza – o estabelecimento pertencia à minha tia, mas era um emprego de verdade, com carteira assinada, roupas manchadas de cândida e tudo que eu tinha direito. E, claro, vieram os primeiros salários.

E, com eles, descobri a generosidade.

– Vamos tomar uma cerveja?

– Estou sem dinheiro.

– Eu pago. Você paga a próxima.

Claro que eu não saía pela rua oferecendo cervejas de graça para qualquer pessoa – mesmo porque, com meu salário de auxiliar administrativo, eu não chegaria nem na esquina se fizesse isso – mas sim aos amigos. Ou melhor, aos “melhores amigos”. Você conhece o tipo. São aqueles que andam com você para cima e para baixo pelo bairro, são aqueles que vão para a sua casa quando você está doente e não pode sair.

Nesta época, eu tinha dois grandes amigos – ainda são grandes e ainda são amigos, mas não nos vemos com a freqüência que gostaríamos. Enfim, todo aniversário e todo natal, lá vinham os presentes. Nada demais: um CD, uma camiseta. Até onde eu sei, éramos os únicos que fazíamos isso no bairro, e fazíamos somente entre nós. Quase uma maçonaria. Posteriormente, adotamos mais um amigo e viramos um grupo de quatro, obrigando a abandonar a acunha de Los Três Amigos e passando a chamar o recém-chegado de D’Artagnan. E cada um passou a ganhar mais um presente no aniversário e no natal.

Foi graças a eles que eu descobri a graça de dar presentes. Poucas recompensas eram maiores do que passar a tarde na galeria do rock escolhendo um disco (sim, quando eu tinha quinze anos, comprávamos discos de vinil) para um deles e ver nos olhos dele que você tinha escolhido certo no momento em que ele abrisse o embrulho.

Porque isso mostra que você conhece bem a pessoa a ponto de saber o que ela quer. E quanto mais especial a pessoa for para você, maior sua responsabilidade em conhecê-la bem e saber o que ela quer. Tanto de aniversário como da vida. Assim, você dá de presente o que ela quer de aniversário, ao mesmo tempo em que torce todos os dias – ajudando e apoiando – para que ela consiga o que quer da vida.

Porém, com os vinte e poucos anos, outro elemento surgiu na “equação dos presentes” da minha vida: as namoradas. E foi com elas que descobri de verdade como dar presentes, e que este ato, para mim, significa demais. Pois, quando eu estou apaixonado – já me apaixonei sem namorar, mas nunca namorei sem estar apaixonado – eu quero dar o mundo inteiro para aquela pessoa.

É uma das formas que eu encontro de mostrar que o mundo inteiro deveria pertencer à pessoa, justamente porque a pessoa é o meu mundo inteiro.

Não se trata de comprar um sorriso, não se trata de querer impressionar, mas sim de ver, nos olhos da pessoa, aquele brilho que, por alguns segundos, faz a sua vida inteira brilhar por dias. E você se sente o melhor homem do mundo, o mais correto, o mais sortudo, o mais feliz. Daí a minha paixão em dar presentes. Amo apoiar quem amo, amo me dedicar a quem amo, mas sou apaixonado por dar presentes.

E, veja bem, não estou falando em dar jóias ou aparelhos eletrônicos caríssimos, apesar de já ter dado os dois. Uma ex-namorada minha, por exemplo, estava se apaixonando por música clássica. Assim, combinei com a mãe dela e, no natal, eu dei um aparelho de som, enquanto minha ex-sogra deu uma coleção com não sei quantos CDs do gênero. Já quanto à jóia: como não entendo nada do assunto, passei horas dentro da joalheira mandando as vendedoras experimentar cada peça que eu gostava para ver qual “caía” melhor e qual teria mais a cara da minha namorada (precisei de uma hora e meia e três vendedoras para isso).

Mas, como eu disse, não precisa ser caro. Desculpem o clichê, mas basta ser com amor. Um bombom comprado na padaria com amor tem mais valor que uma televisão comprada de qualquer jeito. Então, eu nunca vi problema em dar presentes pequenos. Como já falei: a intenção nunca é impressionar (mas vamos ser honestos, quando você impressiona, é melhor ainda), mas sim mostrar à pessoa que ela é especial. Ou melhor, que ela é única. Mostrar à pessoa que você pensa nela mesmo quando está longe, porque você pensa nela o tempo inteiro.

E isso não é uma jóia no aniversário ou um aparelho de som no natal que irá mostrar. Quando você namora, presentes de natal, de aniversário, de Dia dos Namorados e de aniversário de namoro (ou de casamento) são obrigações. É o mínimo a ser feito no quesito “presente”. O que importa são os presentes fora de hora. Os presentes sem data. São esses presentes-surpresa que fazem a diferença. Ao menos, para mim. Não são os presentes que damos por convenção (como num aniversário), mas que damos estritamente por amor.

Brincando com as palavras aqui, estes presentes fora de hora são os únicos que podem ser chamados de “presentes”. Pois são eles que agradecem de verdade pelo passado e dizem de verdade que você quer aquela pessoa no futuro.

Por isso que estou sempre procurando presentes, mimos, coisas engraçadinhas que vão enfeitar o quarto ou o corpo da pessoa. Quando entro numa loja ou caminho pelo shopping, estou sempre procurando algo para mim, mas ao mesmo tempo, caçando algo para quem amo. E é por isso que eu tenho dois olhos.

De repente, algo brilha em uma vitrine. De repente, algo tem a cara, o jeito e a cor da pessoa que amo e descubro que algo foi inventado para a pessoa que eu amo. Pode ser um livro caríssimo como um pequeno mimo, um bonequinho qualquer em uma loja de brinquedos. Independente do preço, o objeto se torna a coisa mais importante do mundo naquele momento. Porque ele é da pessoa que eu amo, mesmo que ela ainda não saiba disso.

E me dá aquele estalo, que repete a sensação que tive quando olhei a pessoa pela primeira vez. Olho com calma todos os modelos, as cores, pergunto para a vendedora qual é o mais bonito, qual ela daria de presente. E saio de lá com um troféu nas mãos, tomando cuidado para ele ficar por cima sacola e não amassar o embrulho.

É caro? Não importa. Quando eu me apaixono pelo presente, eu preciso dar o presente. Dou um jeito. Coloco no cartão, deixo de comprar algo para mim. Eu sou apaixonado pela pessoa, logo sou apaixonado pela ideia de mimar esta pessoa. E, para mim, paixão não tem preço.

Às vezes, claro, eu faço o presente. Já fiz textos e mais textos de presente, é evidente. Mas já fiz livros, já fiz montagens de fotos, vídeos. E, quando eu não sei fazer, não desisto. Peço ajuda. Diagramadores, por exemplo. E, quando o presente está pronto (ou seja, exatamente da forma que eu imaginei), eu sinto orgulho demais dele. E tento caprichar o máximo possível na letra, do cartão, como um garoto que está fazendo sua primeira lição de casa. Porque eu estou ali, inteiro, naquele presente.

E, por mais que eu tenha inúmeros defeitos, jamais dei um presente em substituição a algo. Presentes nunca substituem, por exemplo, apoio incondicional a respeito de tudo o que a pessoa quer ou decida para ela – algo que eu me esforço o tempo inteiro para dar. Eu apoio, eu incentivo, eu aconselho, eu até discordo. E eu dou presentes. Faço única e exclusivamente por amor, porque boa parte do que sinto por aquela pessoa está naquele pequeno objeto, escolhido com cuidado e carinho. É um símbolo do que sinto e do que quero com aquela pessoa.

Logo, é um símbolo do que sou.

E, por gostar tanto de dar presentes a quem amo, gosto de fazer a coisa da melhor forma que consigo. Assim, tento me reinventar a cada minuto. “Não são as flores que importa, mas sim o cartão” é algo que todo homem deveria decorar. As flores morrem, e o cartão fica – minha avó me mostrou, outro dia, o cartão que mandei para ela junto com as flores, num aniversário alguns anos atrás. O presente pode ser lindo, mas sem o melhor cartão do mundo – e, por favor, escreva o melhor cartão do mundo em todos os presentes – ele não funciona.

Mas, tão ou mais importante quanto o cartão, é o modo de dar o presente. Como sou ansioso, tenho uma dificuldade muito grande em guardar segredo. Então, eu tento colocar o “segredo” na hora de dar o presente.

Já simulei dor de barriga no meio do shopping para fingir que ia ao banheiro e correr (correr mesmo) pelos corredores do shopping em direção à loja, para comprar algo que a pessoa havia visto e se apaixonado dez minutos antes, voltando para a mesa com o embrulho e um sorriso no rosto. Já pedi para a pessoa esperar um pouco no meio de uma avenida, entrar escondido num jardim e sair de lá com uma flor. Já escondi CD na bolsa da pessoa, já fiz mágica e fiz bombons surgirem do nada, no bolso do casaco que a pessoa está vestindo. Já fiz até mesmo caça ao tesouro dentro da minha casa, com a pessoa tendo que seguir dicas escritas em papeizinhos até achar o presente.

Coisa de criança? É, é assim que eu sou. Eu posso fazer muitas coisas (certas ou erradas) como um adulto, mas amo como menino.

Isso nunca vai mudar, é o que sou. Quando eu tiver um filho, um dos presentes será um mapa da minha casa, com o X marcando o lugar do verdadeiro presente (ou “do tesouro”, como vou falar para ele). Talvez eu até queime a ponta do mapa para envelhecê-lo e crie um pirata, morto há séculos, para ser o dono original do tesouro.

E, claro, existem outras formas de dar presentes. Estou na loja com a pessoa e ela se encanta com algo, mas não tem dinheiro. Os olhos dela brilham, mas ela não pode pagar. Se eu não posso também, guardo mentalmente aquilo para comprar assim que tiver dinheiro. Mas, quando posso, me ofereço para dar de presente ou para ajudar a pagar. “A gente racha, fica de presente para você, que tal?”. E se a pessoa reluta, eu insisto, seduzo, brinco com o presente nas mãos, danço com ele no meio da loja dizendo que “você vai adorar este livro”, ou que “você ficou linda nesta roupa”.

E, quando consigo, nunca cobro. Ou melhor, cobro, dizendo, na porta da loja, que “este presente vale... Hum... Deixe-me ver... Uns seis abraços. Pode ser?”.

Porque presente de verdade tem que ser dado sem que se espere absolutamente nada em troca, a não ser um sorriso de criança nos lábios e o brilho de amor nos olhos. E todo o presente que dei na vida – seja uma jóia, seja um vidrinho de esmalte; seja algo que escolhi sozinho, seja algo que a pessoa viu numa vitrine e entramos para comprar – foram presentes de verdade.

E é por isso que quando me agradecem, me abraçando, eu abraço de volta, mas é muito difícil eu dizer o tradicional “de nada”.

Eu digo sempre “você merece”. Porque eu realmente acredito nisso. “Você merece porque estou feliz do seu lado”. “Você merece porque me faz querer ser uma pessoa melhor”. “Você merece porque me dá o maior presente do mundo que é a capacidade de sonhar”.

“Você merece porque eu amo demais a pessoa que sou quando estou ao seu lado”.

Por isso que eu amo dar presentes. Presentes feitos, presentes comprados, presentes escolhidos a dedo, presentes com meses de planejamento, presentes decididos ali na hora. Presentes escritos, presentes com som, presentes com fotos.

E talvez seja por isso que eu dê tanto valor a cada presente que recebi na vida. Porque dar presente para mim é algo especial, mas, como eu sempre dei muito mais que recebi, não estou acostumado a ser presenteado. Meu nome normalmente está no “de”, e não no “para”.

Talvez por isso que eu seja tão fácil de ser agradado, de não saber como agradecer direito, de não saber onde enfiar a cara, e, às vezes, até mesmo de sentir os olhos encherem de lágrima. Porque eu sou fácil de ser agradado, mas não pelo presente, e sim pelo gesto. Por me sentir mimado por alguns minutos. E me emociono demais.

O diálogo que abre este post aconteceu de verdade, alguns dias atrás.

Eu estava numa livraria, folheando um livro que sempre namorei e que descobri em promoção. Ainda estava caro – estou desempregado, lembram-se? – então me contentei apenas em olhar para “matar a saudade”, torcendo para que ele ainda estivesse em promoção quando eu recebesse algum dinheiro.

Aí, este diálogo aconteceu. E eu saí da livraria com o embrulho embaixo do braço, me sentindo mimado, querido, cuidado. Sentindo exatamente o que eu quero que a pessoa sinta quando eu dou um presente. E, confesso, subi a Teodoro de volta para casa, com um nó na garganta. Porque é muito difícil para quem mima muito mais que é mimado se sentir assim.

Mas é inesquecível. E tomara que todos os presentes que eu dei, na minha vida, tenham sido inesquecíveis também.

Porque eu estou em todos eles.


"Obrigado, mãe. Adorei."

13 de maio de 2011

Carta Aberta à Banda Restart

Cara banda Restart:

Antes de tudo, peço desculpas antecipadas pelo tamanho desta carta. Tentei resumi-la ao máximo para o maior conforto de vocês, mas creio que falhei nisso.

Fui surpreendido, ontem, com a declaração de um de seus integrantes, afirmando à imprensa que uma das inspirações para suas composições seriam as musicas da banda inglesa Black Sabbath.

Creio que posso afirmar ser admirador do Black Sabbath. Tenho todos os álbuns de estúdio da banda e já assisti a shows de dois ex-vocalistas do grupo: Ozzy Osbourne e Ronnie James Dio, que se apresentaram no Brasil. E esta informação é pertinente, visto que a declaração não cita uma “fase” específica da banda britânica como influência – logo, devo admitir que nada menos que toda a discografia da banda funciona como inspiração para suas composições.

Contudo, vamos à declaração em si, dada à imprensa por Pe Lanza. Aliás, antes de prosseguir, desculpem minha falta de conhecimento, mas eu não faço ideia de qual seja o “cargo” do Pe Lanza na banda (e não vou perder tempo procurando qual instrumento ele toca, visto que esta informação será desnecessária aqui. O que me interessa é ele ser integrante do Restart).

Enfim, a declaração é:

“A gente escuta Black Sabbath e, em seguida, coloca a nossa emoção nas músicas".

Ok, Pe Lanza. Antes continuarmos este texto, é hora de começarmos a numerar algumas informações essenciais aqui. De acordo com sua frase, fica claro que Black Sabbath é a maior influência musical nas composições do Restart. Este dado será extremamente importante mais para frente – até coloquei-o em negrito para facilitar. Vamos chamá-lo de “Informação Rosa Choque” (eu pensei em chamar de “Informação 01”, mas vou trabalhar com cores, pois, aparentemente, vocês se sentem mais confortáveis assim). Pronto.

Agora guardemos a Informação Rosa Choque para usá-la mais tarde. Vamos falar um pouco sobre Black Sabbath? Ou melhor, vamos falar sobre a importância do Black Sabbath. E a melhor maneira de fazer isso é traçar uma linha do tempo do heavy metal. Mas vamos fazer isso de uma forma bem rasa (e o mais sucinta que eu conseguir), apenas para ilustrar a importância da banda, considerando somente os grupos principais de cada época.

Para facilitar ainda mais para vocês, vamos ser puristas e não abordar o hard rock praticado nos anos 60 (por bandas como Led Zeppelin, Deep Purple, Blue Cheer, The Jimi Hendrix Experience e até mesmo pelos Beatles, na música Helter Skelter), arredondando a conta e apontando o Black Sabbath como verdadeiro e único criador do heavy metal – o que, de qualquer forma, não deixaria de ser verdade em hipótese alguma.

Então, Pe Lanza e demais membros do Restart, acompanhem comigo. Vou tentar fazer a coisa da forma mais simplificada possível, ok?

O Black Sabbath criou o heavy metal e influenciou diretamente o Judas Priest que, por sua vez, “geraria” toda a New Wave of British Heavy Metal (cujo maior expoente é o Iron Maiden, do qual vocês devem ter ouvido falar, visto que a banda se apresenta no Brasil com freqüência). Tendo a NWOBHM como novo ponto de partida, podemos cruzar o Atlântico e chegar ao thrash metal californiano (cujo maior nome, Metallica, irá tocar no Rock in Rio este ano e contém bastante material na internet, caso queiram pesquisar).

Entenderam tudo? Se precisarem reler – são muitos nomes, eu sei –, não tem problema. Eu espero.

Ok. Vamos continuar.

A partir daí – estávamos no início dos anos 80 – o heavy metal se multiplicou totalmente, ganhando inúmeras novas vertentes e estilos. Death Metal. Speed Metal. Doom Metal. Gothic Metal. Funk Metal. Melodic Metal. A lista é enorme. O que importa, para nós, é saber que a árvore ganhou ramos e mais ramos, mas seu tronco permanece formado por Judas Priest, Iron Maiden (e demais bandas da NWOBHM) e Metallica (e as outras bandas da Bay Area).

Contudo, o que precisamos olhar aqui é a raiz. E o nome dela é Black Sabbath. Todo e qualquer tipo de heavy metal tem sua fonte em na banda do guitarrista Tony Iommi. O gênero está em constante evolução, e (evidentemente) cada banda apresenta influências diretas da geração anterior à sua, mas todas elas têm como base o Black Sabbath, seja na temática, nos riffs, ou até mesmo no visual.

Pronto. Agora, vamos lá: onde eu queria chegar? Estou provando aqui que existe uma regra: Black Sabbath influenciou todas (sim, todas) bandas de heavy metal existentes. Da mesma forma, toda banda influenciada primordialmente pelo Black Sabbath pertence ao heavy metal.

Esta é a segunda informação importante do texto – viram como ela também está em negrito? Vamos chamá-la de “Informação Verde Limão”.

Agora sim podemos começar a brincar de verdade.

Combinando a Informação Verde Limão (“toda banda influenciada por Black Sabbath pertence ao heavy metal”) e a Informação Rosa Choque (“Black Sabbath é a maior influência musical nas composições do Restart”) não é preciso ser um gênio para deduzir o resultado:

Restart é uma banda de heavy metal. Ao menos, Pe Lanza, é isso o que sua declaração aponta. Restart e heavy metal. Nunca achei que fosse encontrar estas palavras na mesma frase, mas, paciência. Nem sempre as coisas são como queremos. Vamos em frente.

Aliás, não vamos em frente. Vamos além.

Se Restart é uma banda de heavy metal, como já comprovamos, é nossa obrigação tentar encaixá-la na evolução do estilo, arrumando um lugar naquela árvore do heavy metal.

Ok. Restart é uma banda influenciada DIRETAMENTE por Black Sabbath (afinal, a única outra influência das músicas da banda é o vasto repertório emocional de seus integrantes), creio que podemos fazer uma projeção aqui.

Afinal, como eu disse, o gênero está sempre evoluindo. As bandas da quarta geração são influenciadas pelas três gerações anteriores; as bandas da terceira geração, pelas duas anteriores, e por aí vai. Consequentemente, uma banda de heavy metal influenciada somente por Black Sabbath (que sozinho, é a primeira geração) pertence obrigatoriamente à segunda geração do heavy metal.

Até agora, o maior expoente da segunda geração do heavy metal era o Judas Priest (esta geração contaria também com Blue Öyster Cult, mas não quero me aprofundar tanto). Uma banda que, influenciada diretamente por Black Sabbath, desenvolveu o estilo e inspirou o trabalho de grupos como Iron Maiden, Saxon, Metallica, Slayer, Megadeth, Anthrax, Diamond Head e Pantera.

Bem, analisando sua declaração, Pe Lanza, acabei de descobrir que a história do heavy metal foi mudada. Os dois maiores nomes da segunda geração do heavy metal são Judas e Priest e Restart. E, como quase 40 anos separam estas bandas, podemos ir mais além ainda e concluir que, de acordo com Pe Lanza, Restart é o novo Judas Priest.

E, não, Pe Lanza, não estou colocando palavras na sua boca. Estou apenas usando o pouco que conheço sobre heavy metal para interpretar a fundo o que você disse.

E eu gosto muito de Judas Priest. Sempre gostei. A banda tem algumas das músicas que considero verdadeiros hinos do gênero, como Victim of Changes, Metal Gods, Painkiller, Eletric Eye e Breaking the Law, além de praticamente ter criado o conceito das “guitarras gêmeas”, que seria aplicado depois a tantas outras bandas, com destaque para o Iron Maiden. Isso sem falar que seu vocalista, Rob Halford, é, em minha opinião, o mais competente de toda a história do metal.

Bem, se existe uma banda que pode ser chamada de “novo Judas Priest”, é a minha obrigação conhecê-la. E cabe aqui um mea culpa, Pe Lanza: desculpe pela completa falta de interesse que eu havia demonstrado até hoje com seu trabalho. Se o Restart é o novo Judas Priest, eu que marquei bobeira em não ir atrás e não conhecer mais.

Mas precisei de dez minutos e três canções para entender que suas músicas passam longe – bem longe – do que conheço de Judas Priest. Tanto em conteúdo, como em estilo. Aliás, elas passam longe de qualquer coisa que eu conheça como heavy metal. Aliás, suas músicas passam longe de qualquer coisa que eu goste – e eu sempre gostei muito de rock.

Assim, rock de verdade, sabe?

E, por mais que eu me esforce, não consigo identificar vocês como rock, muito menos como heavy metal. E isso tanto no aspecto musical como no visual. Esta comparação foi mais fácil de ser feita. Existem tantas fotos de vocês espalhadas na internet que passei a acreditar que esta a ocupação principal de vocês: aparecer em fotografias – suas músicas seriam uma atividade paralela, compostas e gravadas apenas para promover as fotos.

Bem, me esforcei para achar alguma semelhança com Judas Priest e Black Sabbath ali. Mas não dá. Me parece que vocês estão mais interessados em lançar tendências usando roupas com cores que existem apenas num guia Pantone – algo que parece não ter propósito algum, a não ser vender roupas. Bem, teoricamente, o punk foi criado por um empresário inglês que desejava vender roupas, mas, ao menos, os músicos do estilo (The Clash, Sex Pistols, Ramones) tinham mais atitude que aparecer em fotos mostrando a língua ou fazendo caretas. Ou seja, tinha um pouco mais de conteúdo.

Talvez esta “atitude” funcione com seus fãs, mas não funciona com alguém que goste de Black Sabbath. Pois, quem ouve Black Sabbath normalmente espera um pouco mais de maturidade musical. E não vou entrar aqui no mérito das canções da banda inglesa servirem como metáfora da situação da classe operária inglesa. Seria entregar pérolas aos porcos.

Agora, Pe Lanza: o interessante é a arrogância da sua frase. Ao dizer que “vocês ouvem Black Sabbath e colocam suas próprias emoções nas músicas”, sou obrigado a fazer duas leituras. A primeira é que vocês, do Restart, ouvem Black Sabbath e, não identificando nenhum tipo de emoção ou sentimento na música deles, resolvem preencher esta lacuna por conta própria. A segunda: vocês escutam Black Sabbath, não concordam com a emoção que eles transmitem em suas músicas e decidem alterá-la, usando seu próprio repertório emocional para isso.

Em ambos os casos, vocês “aprimoram” a música do Black Sabbath. Aparentemente, as músicas do Black Sabbath não possuem emoção suficiente (ou as emoções erradas) e é preciso “arrumá-las”. E vocês fazem isso em canções como: Música do Chupim, Final Feliz, O Meu Melhor e Pra Você Lembrar.

Música do Chupim.

Certo.

Deixe-me encerrar explicando algo a vocês. Na mesma matéria, o Pe Lanza informa que “para fazer rock não é preciso ser mau. Rock é emoção”.

Concordo. Rock é emoção. Mas rock também é talento, é atitude, é coragem, é rebeldia, é um modo de vida. E, sinceramente, não vejo nada em vocês que possa ser associado a isso. Talvez isso funcione com seus fãs, mas é só.

E, caso alguém aqui diga que "rock é apenas diversão", Restart abre mão de ser "apenas divertido" no minuto em que se coloca no mesmo patamar que Black Sabbath. E isso não pelo fato de eu adorar Black Sabbath - estou deixando meu gosto pessoal de fora disso –, mas pelo teor politizado e sombrio das canções da banda inglesa. Então, se você quer ser "apenas divertido", compare-se a um programa infantil, a um brinquedo, ou a um desenho animado.

Acho que vocês devem um pedido de desculpas por ter criado esta expectativa sobre seu trabalho de vocês, com a declaração infeliz do Pe Lanza. E acho que vocês devem um pedido de desculpas aos seus fãs que não conhecem heavy metal, por ter passado a eles uma expectativa tão errada sobre o gênero.

Porque existe uma diferença bem grande por trás de versos como “Generals gathered in their masses, just like witches at black masses” (Black Sabbath), “You're tryin' to find your way through life, you're tryin' to get some new direction” (Judas Priest) e “Eu tô na rádio, eu tô na Metropolitana, ouvir Restart no Chupim vai ser bacana” (É, bem... Vocês).

Falta comer muito feijão ainda.

E não acredito que haja feijão suficiente no planeta. Não para isso.

Sinto muito.

Grandes abraços e boa sorte,

Rob Gordon


11 de maio de 2011

Na Natureza Selvagem

Foi numa madrugada dessas, quando eu estava indo ao Pão de Açúcar. Ao contrário do que vocês devem imaginar, a minha rua não cruza – ao menos, não no sentido exato da palavra – com a Teodoro Sampaio. Na verdade, ela passa por baixo dela.

Então, para chegar a Teodoro, eu preciso subir uma pequena escada (que, aos fins de semana, funciona como banheiro público do bairro). É a maior inversão de valores que vi na vida: para chegar ao inferno, eu preciso subir, e não descer. Se morasse na minha rua, Dante teria que reescrever toda A Divina Comédia baseado nisso.

Enfim, era madrugada. Já havia pulado os dejetos e mendigos que habitam a escada à noite e faltavam poucos degraus para alcançar a Teodoro. E lá estava ele, pousado, imponente, no pequeno muro da escada, já na Teodoro:

Um gavião.

Minto. Não era um gavião. Era “o” gavião. Sem exageros, um gavião enorme. Ele estava na escada, mas, se estivesse no chão, deveria bater na minha cintura – ok, até mesmo alguns eletrodomésticos batem na minha cintura, mas lembre-se que estamos falando de uma ave – e com um bico maior que algumas cidades do interior.

Estava pousado no pequeno muro, olhando para a rua (e provavelmente entediado, pois não há muito que se ver na Teodoro Sampaio às 2 da manhã). E assim ele ficou: imóvel, concentrado no trânsito da Teodoro, até eu me aproximar, o que chamou sua atenção.

Ele virou a cabeça. Eu, evidentemente, parei. Ninguém em sã consciência passa ao lado de um gavião quando não há uma grade de ferro entre você e o animal. Eu estava a uns três metros dele.

Ele olhou para mim. Eu olhei para ele.

– Oi, arrisquei de forma tímida.

– Cr-roc!, ele respondeu.

(Sim, eu também não sabia que gaviões faziam “cr-oc”.)

– Eu vou ter que passar pelo seu lado. Você não se importa, certo?

– Cr-roc!

Fiquei em silêncio, sem saber ao certo o que fazer. Felizmente, o gavião parecia ter tudo sob controle e continuou:

– Cr-roc! Cr-oc!, ele insistiu.

Pronto. Tudo o que eu queria era uma Coca e um chocolate, mas na verdade eu conseguiria ser imortalizado na literatura nacional como astro de uma versão barata e tupiniquim do poema O Corvo, de Edgar Allan Poe. Provavelmente, a obra seria chamada de Carcará, e seria vendida em bancas de jornal com a minha foto na capa. Ô fase.

Eu teria ficado mais tempo ali esperando o gavião se mexer – eu não ia passar ao lado dele nem a pau – mas duas pessoas passando pela Teodoro Sampaio assustaram o bicho, que voou alguns metros, em direção ao Itaú que fica logo ao lado da escada.

Imediatamente, duas coisas me ocorreram: primeiro, ele não conseguia voar direito, estava machucado.

E a segunda é que ele pousou exatamente na porta do banco, como se fosse entrar na agência. Imediatamente me lembrei de que, dias atrás, recebi um e-mail informando que outro gerente estava incumbido de cuidar da minha conta (aparentemente, meu antigo gerente enlouqueceu ou algo assim).

Na hora eu matei a charada: o gavião é meu novo gerente. Só podia ser. Seria típico da minha vida. E, como se não bastasse, o gavião ainda está precisando chegar de madrugada ao trabalho somente para ver meu extrato com calma – ou seja, ele não deve estar particularmente contente comigo.

Enfim, como ele não me chamou (ele soltou um “cr-oc”, mas creio que não era para mim), e ficou quieto ali na porta do banco, resolvi fingir que não era comigo. Fui até o Pão de Açúcar e voltei. Lá estava o gavião, andando pelo jardim do Itaú. Eu precisava fazer algo. No primeiro mendigo que passasse, o gavião iria levar uma pedrada e virar canja; e, além disso, se ele realmente for meu gerente, ajudá-lo nessa hora poderia me garantir benefícios no cheque especial ou no limite do cartão.

Entrei em casa, tirei a roupa, peguei o telefone e começou a odisséia.

Entrei no site do departamento de Zoonoses e peguei os dois números de plantão. Ninguém atendia. Liguei no serviço de informações e consegui um terceiro número. Liguei e ninguém atendeu. Às vezes, eu ouvia uns “cr-oc!” vindo da Teodoro. Sem saber o que fazer, liguei para a polícia em busca de um novo telefone. O sujeito me informou que eu deveria ligar para a polícia ambiental e me passou um número. Liguei e ninguém atendeu. Sério, quando eu morrer, não quero voltar como gavião. Deve ser uma merda conseguir uma viatura sendo um pássaro.

Aí tentei minha última cartada. Entrei no site da Polícia Ambiental e descolei dois telefones. No primeiro – adivinhem? – ninguém atendeu. No segundo, consegui falar com um sujeito que informou que ali era a central e eu deveria ligar direto para o batalhão de Pinheiros. Eu pedi o telefone e ele me deu dois. No primeiro – adivinhem, mais uma vez? – ninguém atendeu. No segundo...

– Polícia Ambiental, Tenente Fulano, bom dia.

– Bom dia. Eu estou aqui em Pinheiros, perto da Teodoro Sampaio, e tem um gavião machucado na rua.

– Como ele está?

– Ele não consegue voar.

– Como você sabe?

– Porque ele fica andando de um lado para o outro, na frente da agência.

– Ah, então ele não está conseguindo voar.

A frase “não, talvez ele seja o vigia da agência, vamos esquecer isso e deixá-lo trabalhar em paz” quase escapou pela minha boca, mas consegui segurá-la a tempo. Felizmente. Afinal, um “soldado da Polícia Ambiental” ainda é um “soldado da Polícia, então seria mais esperto eu me comportar.

– Isso.

– Ele está lá sozinho?

Respirei fundo e me contive. Assim, segue uma pequena interrupção com o Top 5 Respostas que eu Pensei na Hora:

1. “Não, ele está com um monte de amigos. Acho que é uma festa, e estou ligando para reclamar do barulho.”

2. “Não, ele está lá com o Homem Pássaro, mas o Homem Pássaro precisa de ajuda porque ele se recarrega com o Sol, e estamos no meio da madrugada”.

3. “Não, ele está com o Quadrilha de Morte, tentando matar a Penélope Charmosa. Talvez este Gavião seja o Tião Gavião.”

4. “Não, ele está com o Gavião Arqueiro e com o Gavião Negro. Deve ser uma espécie de sindicato.”

5. “Sim. Ele está sozinho.”


Por motivos de segurança (novamente), eu escolhi a quinta alternativa. O soldado respondeu:

– Então, mas você precisa ligar para o batalhão de Pinheiros. Aqui é o batalhão da Zona Sul.

Suspirei.

– Olhe, eu já liguei para uns dez telefones. Será que você não pode acionar o Batalhão de Pinheiros? Por favor?

– Posso, sim.

– Obrigado. Você precisa do endereço?

– Sim. Mas a viatura pode demorar um pouco.

– Bom, acho que tudo bem.

– Você não conseguiria colocá-lo numa caixa?

– Oi?

– Numa caixa de papelão.

– Então, esta parte eu entendi. Não entendi o que você quer que eu faça.

– Que você tente prender o bicho em uma caixa de papelão.

– Mas o bicho do qual estanos falando é um gavião. Não é um gatinho.

– É que a viatura pode demorar. Se você colocar ele numa caixa, ele não vai escapar.

– Olhe, eu estou de cueca e camiseta. Ele é um gavião e está com o bico e com as garras. Se eu tentar colocá-lo numa caixa, quem não vai escapar sou eu.

– Bem, como eu disse, a viatura pode demorar.

– Ok.

Passei o endereço certinho e fiquei em casa esperando um pouco. Na verdade, algo entre quarenta minutos e uma hora. Nada da viatura chegar. Às vezes, eu ia à varanda e via o gavião andando pelo jardim lá do Itaú, soltando os “cr-ocs” dele.

Mas aí não agüentei e fui dormir.

No dia seguinte, passei por ali e não vi nem uma pista do gavião. Mas também não havia sinal de penas (tampouco de alguma panela de sopa na escada), o que, acredito, deve ser uma boa coisa.

(Dedicado aos leitores corintianos deste blog.)



6 de maio de 2011

In Treatment I

(Ou: Porque minha psicóloga
tem o pior emprego do mundo)



– Deve ser por isso que alguns homens saem com putas. Para extravasar, colocar tudo para fora. E sem manter laço algum.

– Talvez.

– Bom, eu não vou fazer isso, você sabe. Eu extravaso aqui.

– Eu sei.

– Aliás, você é meio puta, né? As pessoas vêm aqui e você faz com que elas coloquem tudo para fora. É quase a mesma coisa.

– Rob...

– E você ainda atende nessa salinha! Você tem um quarto só para isso!

– Rob...

– E você ainda cobra por hora! Sério! Isso é coisa de puta!

– Rob! Chega!

– Ok. Só mais uma coisa?

– Diga.

– Quando eu vier para cá, a partir de agora, vou falar para os meus amigos que estou indo na zona.

– Chega!

– Desculpe. Parei.

– Ok.

– Se você atendesse em casa, você cobraria o táxi, né?

– Rob!

– Ok. Parei. De verdade. Do que estávamos falando?


5 de maio de 2011

Killed in Action

“Senhores, eu tenho uma carta aqui, escrita há bastante tempo, destinada a um certo Senhor Gordon, de São Paulo. Gostaria que ouvissem.

Caro senhor:

Mostraram-me, nos arquivos do Departamento de Guerra, provas de que você é o pai de um dente molar que morreu gloriosamente no campo de batalha. Eu imagino o quanto inúteis e infrutíferas seriam minhas palavras para tentar aliviar uma dor tão arrebatadora.

Mas eu não posso me furtar a lhe apontar o conforto que pode ser encontrado nos agradecimentos da República que seu molar faleceu para salvar. Eu rezo para que Nosso Senhor possa aliviar seu sofrimento, lhe deixando somente com as memórias felizes deste dente amado e perdido, e com o enorme orgulho que você possa sentir pelo enorme sacrifício que colocou nos pés do altar da liberdade.

Com sinceridade e respeito, Abraham Lincoln.
’”

General George Marshall
(O Resgate do soldado Ryan)

2 de maio de 2011

Eu

Eu já me apaixonei. Já me apaixonei por pessoas, mas também por filmes, músicas e livros. Já me apaixonei até mesmo por histórias que eu contei (ou ouvi) em mesas de bar. Já me apaixonei por textos meus. Mas também já seduzi, já conquistei, já amei e desapaixonei. Já me apaixonei até por mim mesmo, algumas vezes. Já me apaixonei pela pessoa que eu era ao lado de outra pessoa. Ja me apaixonei para sempre, já me apaixonei por dez minutos. Já me apaixonei de sofrer, já me apaixonei de viver, já me apaixonei de morrer. E, como toda pessoa que se apaixona, eu já chorei.

Eu já chorei. Já chorei por causa de filmes, já chorei sentado no chão da sala achando que não tinha solução. Já chorei em conversas no computador, já chorei escrevendo, já chorei sozinho e na frente de outras pessoas. Já chorei engasgado, já chorei de soluçar, já chorei em silêncio, baixinho, para ninguém ouvir. Já chorei de dor, já chorei de perda, já chorei por quem merecia ou não. Já chorei de felicidade. Já chorei de deixar lágrimas caírem, já chorei de não molhar o rosto. Já chorei de raiva, já chorei de amor. E, como toda pessoa que chora, eu já sorri.

Eu já sorri. Já sorri muito, a ponto de dizerem que quando eu era criança eu sorria o dia inteiro. Já sorri de orgulho, já sorri de paz e conforto. Já sorri por ver meu destino traçado e achar que ele seria doce, mas já sorri amargo por ver a estrada mudar de rumo de novo. Já sorri sabendo que era para sempre, já sorri apenas de ver a pessoa, já sorri até mesmo chorando. Já sorri de vingança, sorri de orgulho, já sorri de amor e de excitação. Já sorri na cama, já sorri na vida, já sorri no mundo. E, como toda pessoa que sorri, eu já brinquei.

Eu já brinquei. Eu já brinquei em casa e brinquei na rua. Já brinquei de contar histórias, já brinquei de inventar universos e personagens. Já brinquei de inventar diálogos, já brinquei de fazer os outros rirem. Já brinquei de ser amante, de ser menino. Já brinquei de ser adulto e de ser sozinho. Já brinquei sozinho, já brinquei acompanhado. Já brinquei com meu cachorro, já brinquei de salvar meu amor e ser carregado feito herói. Já brinquei de ser vilão. Já brinquei em outros mundos, outros tempos. Já brinquei de “se atravessar a rua antes daquele carro ela vai ser minha para sempre”. Eu já brinquei de sexo, já brinquei de amor, já brinquei de raiva, já brinquei de transformar minhas brincadeiras em texto. E, como toda pessoa que brinca, eu já sonhei.

Eu já sonhei. Já sonhei com monstros e princesas e já sonhei em ser o herói. Já sonhei com textos, filmes, músicas. Já sonhei acordado. Já sonhei acordado olhando nos olhos de alguém. Já sonhei em público, já sonhei sozinho e junto. Já sonhei no trabalho. Já sonhei até mesmo dormindo. Já sonhei com meus medos, já sonhei com meus sonhos, já sonhei em estar em paz. Já sonhei com quem ficou para trás, já sonhei com gente que ainda não encontrei. Já sonhei em ter para sempre, já sonhei com o que ficou, já sonhei que era diferente, já sonhei com o que virá. E, como toda pessoa que sonha, eu já lutei.

Eu já lutei. Já lutei o dia inteiro pelo que achava certo. Já lutei com a esperança de não ter que lutar nunca mais. Já lutei jogando sujo, já lutei de forma honrada. Já lutei com todas as minhas forças, já lutei com descaso. Já lutei para perdoar, já lutei para me perdoar. Já lutei para entender, já lutei para entender as outras pessoas, já lutei para entender a mim mesmo. Já lutei por lutar, já lutei por princípios, já lutei por ciúmes, já lutei por amor. Já lutei por pessoas. Já lutei pelo que quero. E, como toda pessoa que luta, eu já perdi.

Eu já perdi. Já perdi amigos e amores. Já perdi memórias que deveriam ser doces para sempre, já perdi paixões, noites que definiriam minha vida, já perdi preciosidades e já perdi coisas das quais apenas eu via valor. Já perdi noites de sono, já perdi minha paz, já perdi textos e fotos. Já perdi cães, já perdi vidas, já perdi palavras que escaparam com o vento. Já perdi títulos e jogos, já perdi na vida, já perdi empregos. Já perdi sonhos e rotinas, já perdi na bola e no tapetão, já perdi a vergonha. Já perdi o medo e já perdi a raiva. Já perdi até o que eu sou. E, como toda pessoa que perde, eu já ganhei.

Eu já ganhei. Já ganhei amigos em lugares que não imaginava. Já ganhei amores e memórias secretas que moram dentro de mim. Já ganhei sonhos e presentes, já ganhei abraços e beijos e orgasmos que explicam a vida inteira. Já ganhei cheiro de outra pessoa nas minhas roupas, ganhei cabelos diferentes nos meus travesseiros. Já ganhei declarações e poemas, já ganhei livros, músicas e filmes. Já ganhei pessoas, já ganhei mulheres, já ganhei inimigos. Já ganhei surpresas, já ganhei verdades e socos na cara, mas já ganhei mentiras e facadas nas costas. Já ganhei admiração, mas já ganhei broncas. Já ganhei brinquedos, já ganhei noites, já ganhei o dia. E, como toda pessoa que ganha, eu já tentei.

Eu já tentei. Já tentei dormir com minha consciência tranqüila. Já tentei acertar sempre, mesmo quando tudo parece errado. Eu já tentei perdoar sabendo que não iria esquecer, tentei me perdoar sabendo que não iria entender. Eu já tentei melhorar a cada dia, tentei fazer meus pais sentirem orgulho de mim, tentei fazer quem eu amo saber que estaria sempre ao lado. Eu já tentei fazer os outros rirem, tentei fazer os outros chorarem de alívio. Já tentei escrever, tentei cozinhar, tentei viver. Eu já tentei ser adulto quase o tempo inteiro, tento ser criança para sempre. E, como toda pessoa que tenta, eu já explodi.

Eu já explodi. Já explodi em casa e na rua. Já explodi querendo matar, já explodi gemendo o nome de alguém. Já explodi sozinho, já explodi acompanhado. Já explodi em textos, já explodi em gritos. Já explodi na cama, já explodi de raiva, já explodi na sala, já explodi de raiva. Já explodi de frustração, de não conseguir arrumar erros que não eram meus, já explodi de satisfação, ao fazer as pessoas entenderem. Já explodi por sonhos e decepções, já explodi de saudade, já explodi de cansaço, de tristeza. Mas já explodi em cores, amores e sabores. Já explodi de orgulho, já explodi de ansiedade, já explodi de amor. E, como toda pessoa que explode, eu já senti.

Eu já senti. Já senti amor maior que a vida, eu já senti paixões amedrontadoras. Já senti medo de perder, já senti ódio por perder. Já senti orgulho de mim, já senti orgulho de quem amo, já senti vontade de cuidar para sempre. Já senti raiva de mim mesmo, já senti amor pelas pessoas certas, já senti tesão por amor e por quem não deveria. Já senti pontadas no peito, já senti dor de cabeça, já senti que ia morrer de tristeza. Já senti felicidade daquelas de fotografia, já senti vontade de sair dançando na rua e de conversar com estranhos. Já senti saudade de gente que nunca conheci. Já senti que ia dar certo, já senti que deu errado. Já senti culpa, já senti traição, já senti que estavam mentido, já senti que era eterno. Já senti dor, já senti amor. E, como toda pessoa que sente, eu já amei.

Eu já amei. Já amei textos que fiz, já amei pessoas inteiras. Já amei detalhes como um olhar ou um sorriso. Eu já amei fragmentos de memórias, gemidos abafados ou o jeito que alguém prendia o cabelo. Já amei desesperadamente, já amei pacificamente, já amei para sempre porque não conheço outro jeito de amar. Já amei meus bichos, já amei o que faço, já amei o que sou. Já amei elogios, já amei dias e noites, já amei a ideia de ter alguém para amar. Já amei ficar alegre, já amei cada lágrima que derramei por amor, já amei cada bilhete que recebi. Já amei alma, já amei corpo, já amei o todo. E, como toda pessoa que ama, eu sou.

Eu sou.

Eu sou. Eu sou porque me apaixono, choro, sorrio, sonho, luto. Perco e ganho. Tento. Explodo, sinto. Amo. Talvez por isso que tenho a sorte de fazer vocês rirem ou chorarem com meus textos. Mas, antes de tudo, tenho a sorte de fazer vocês sentirem. Porque eu sempre fui assim. E torço para que eu seja assim para sempre. Porque o tal do Rob Gordon é assim, desde antes de existir. Ele é assim. Ele se apaixona, chora, sorri, sonha, luta. Perde e ganha. Tenta. Explode, sente. Ama. Da mesma forma que eu.

Porque Rob Gordon é apenas um nome. Poderia ser qualquer outro.

Por outro lado, eu sou Rob Gordon, sim, porque é cada um dos meus textos – independente do nome que está assinando o post – que explica o que sou. Eu vivo, penso e sinto (para o bem ou para o mal) todos os textos antes de redigi-los.

Eu não sou o que escrevo, eu escrevo o que sou. E existe uma grande diferença nisso.

Por isso que quem me lê de verdade, me conhece muito. E por isso que quem me conhece de verdade me vê nos meus textos. Poucas coisas me dão mais orgulho que isso. Não como escritor. Como pessoa, mesmo.

Obrigado pela visita.