4 de dezembro de 2009

Sonhos de Kurosawa Gordon III

Eu estava em uma guerra.

Na verdade, eu estava dentro de um trem, junto com outros soldados, em meio a uma guerra. Era um vagão de carga, daqueles com porta de correr, igual vemos em filmes. Tínhamos que esperar ele passar por diversas metralhadoras inimigas, que disparavam sobre nós, até acharmos espaço para desembarcar. Ao fundo, uma floresta.

Quando finalmente conseguimos sair do trem, começamos a correr por túneis escuros, cobertos de vegetação. Eu ia correndo alucinadamente e atirando em quem aparecesse na minha frente, com minha metralhadora. Nós já não éramos mais um grupo de soldados, pois acabamos nos separando no meio dos túneis.

Durante a correria, comecei a desconfiar que minha arma estava descarregada. Olhei para baixo e vi que ela não era mais uma metralhadora, mas sim uma caixa branca de papelão, comprida e retangular. Eu apertava a caixa e ela cuspia balas. Ainda desconfiando que eu estava sem balas, apertei a caixa com minha mão direita e dei alguns tiros ao lado da mão esquerda. Eu ainda tinha munição.

Assim, continuei correndo pelos túneis, massacrando os inimigos. Às vezes, parava em alguma curva e via soldados inimigos tentando me cercar por trás, e passava fogo. Lembro que, em um momento, eu estava ao lado de um dos meus companheiros e ainda gritei com ele:

– Os japoneses são rápidos demais, é difícil mirar!

Sim, eram japoneses. Ou, ao menos, orientais.

E eu estava correndo sozinho, novamente, tentando abrir caminho. Algo me dizia que, de todos os meus colegas, eu era o mais avançado, o que deixava com a obrigação de ir abrindo caminho. Assim, eu ia avançando alucinadamente pelos túneis, ainda cobertos de vegetação, atirando em tudo. Corria na direção dos soldados inimigos gritando e atirando.

Um deles, mesmo após levar meia dúzia de tiros, não caiu morto, ficou apenas tonto. Corri na direção dele, e, colando minha arma no olho dele, enchi de chumbo. Ele morreu. Mais um.

De repente, cheguei a uma clareira. O túnel se abria, numa espécie de aldeia.
Tudo ficava claro. Diferente dos túneis, o local era iluminado pelo Sol.

Corri para atravessar a aldeia. E vi que não era uma aldeia, apenas um enorme gramado. Mulheres e crianças – ocidentais – estavam sentadas na grama, fazendo piquenique. Eu não atirei nelas, pois não ofereciam perigo.

Dois jovens loiros e magros, com não mais de dezoito anos, e vestindo apenas bermudas, corriam paralelamente a mim, a uns dez metros de distância. Não lembro se eles estavam apenas olhando para mim enquanto me acompanhavam, ou se gritaram algo. Atirei e matei os dois.

Eu precisava de um lugar para me refugiar. Algum lugar onde eu pudesse me encostar, tendo certeza de que eu não seria atacado pelas costas, e pudesse vigiar o movimento daquela “aldeia”. E uma pequena gruta, do outro lado do descampado, seria ideal para isso. Corri na direção dela.

Me assustei quando, a uns dez metros da gruta, vi uma leoa deitada, tomando Sol. Era enorme, com uns três metros de comprimento. Apesar do medo de ser atacado, não atirei. E não fui atacado, ela apenas olhou para mim. Havia outros animais ao redor dela, mas não prestei atenção neles. Corri para a gruta – que, na verdade, não era uma gruta, apenas uma falha na montanha.

Mas, assim que passei pelos animais, vi alguma coisa branca e disforme na entrada da “gruta”. Algo que se parecia com um monte de lençóis amarrotados. Planejei apenas olhar aquilo, me certificar de que não era nada e ficar ao lado daquilo, apoiado na montanha, descansando e esperando pelos meus companheiros.

Passei correndo e parei. Olhei para o negócio branco, e vi que eram realmente lençóis, que formavam uma espécie de cama. Dentro dos lençóis, havia um bebê. Não lembro se ele estava dormindo ou chorando.

Era a manjedoura de Cristo. Eu estava presenciando o nascimento de Cristo.

Lembro apenas de abaixar minha arma e dizer:

– Puta que pariu, eu não mereço estar aqui. Não depois de ter matado tanta gente.

Me recriminei – mas ao mesmo tempo, achei engraçado de uma forma amarga – por ter a oportunidade de presenciar aquele momento tão importante, e mesmo assim não deixar de falar palavrões.

Mas eu não queria ficar ali. Eu não merecia estar ali.

Deixei o pequeno berço de lençóis para trás, e comecei a percorrer o caminho pelo qual havia passado, mas desta vez, andando, com calma. Eu não queria chamar a atenção. Quando andei alguns metros, olhei novamente para trás, e vi um sujeito de barba, trajando bermuda e camiseta regata vermelha. Era José, o pai de Cristo. Ou, ao menos uma versão moderna dele. José, de bermuda e regata, soa engraçado aqui, neste texto, não tenho como evitar. Mas não foi engraçado no sonho.

Me afastei mais ainda. Alguns animais me olhavam; outros, apenas me ignoravam. E de repente eu percebi que eles conviviam pacificamente. Vacas e leões ficavam lado a lado. E cuidavam uns dos outros. Uma vaca estava deitada, lambendo os filhos de algum outro animal – não me lembro de qual espécie.

O ponto é que eles viviam pacificamente, ali.

Respirei fundo e pensei: “que pena que a Besta-Fera já morreu. Ele adoraria estar aqui e poder brincar com esses bichos”.

Acordei.

13 comentários:

Dragus disse...

Besta-Fera morreu?

O final foi um pesadelo terrível...

Matheus Silva disse...

nossa, quando li "pena que a besta fera morreu" quase começei a chorar
hahaha

Amanda Ullmann disse...

O meu foi um pouquinho diferente, eu estava assistindo uma novela da globo, e na abertura aparecia o nome "Rob Gordon".

Por sinal, adoro seu blog, li ele inteiro nas ultimas semanas, e o Chronicles também. O bom é que não preciso me preocupar em não dar risada no trabalho, pois sou só uma adolescente desocupada. Mas tive que ouvir minha mãe dizer várias vezes: "Que tanto você ri no site dessa bolinha cabeçuda?" Minhas sinceras desculpas ao Champ e obrigada por tornar minhas tardes tão divertidas.

Thiago Neres disse...

Procure um psiquiatra, Rob.

:-P

Kika® disse...

Mais uma vez: inveja dos seus sonhos com enredo, personagens, falas...

A gente podia dar mil interpretações pro seu sonho mas... pra que? Assim é mais engraçado. Procure um psiquiatra mesmo, Rob... ;)

May. disse...

"Respirei fundo e pensei: 'que pena que a Besta-Fera já morreu. Ele adoraria estar aqui e poder brincar com esses bichos'".



Que sensação horrível.

Varotto disse...

Purple haze all in my brain,

Lately things just don't seem the same...

Rafiki disse...

E eu já nem consigo me lembrar dos meus sonhos quando acordo. Esse seu foi muito bom.
Como vai a Besta-Fera?

Jerri Dias disse...

Noto um forte sentimento de culpa católico projetado nesse sonho.
Algum trauma com padres quando foi coroinha?
;-)

Abraço.

Hally disse...

Como sempre, seus sonhos são... estranhos. Parecem eu em uma redação. Começo falando sobre o contraste sócio-econômico do país e acabo com bananas.

Com a diferença que seus sonho são muito mais interessantes de se ler (sonha então, é para apenas um homem).

Ah, em tempo: nunca mais dê sustos assim em seus leitores. Diga-nos que Besta-Fera está vivo e passa muitíssimo bem, fazendo suas meias de refém. =P

P.S.: Como anda a estratégia da sua síndica do mal? Seja como for, estou feliz que ainda estejas vivo.

P.S.2: Nesse sonho, acho que os japoneses eram sua síndica, e os animais que conviviam pacificamente, eram os porcos selvagens que ela cria na sauna, somente esperando o almoço de 1,60.

Tá, parei... =D

7Seven7 disse...

Kika, na verdade todo mundo tem sonhos bastante complexos, embora sejam sempre bastante irreais. O problema é que quase sempre nos lembramos deles muito vagamente ou nem mesmo lembramos deles.

Ah, Rob, sua postagem me lembrou de postar no meu blog novo, que é um blog de sonhos. Ele já tava no ar há séculos e sem nenhuma postagem nele. Se tiver interessado em ler o sonho que acabei de postar, visite: alemdotravesseiro.blogspot.com

E poutz, o final desse seu sonho foi tenso.

Leandro disse...

o que você anda comendo antes de ir dormir?

Anônimo disse...

Definitivamente vc precisa de ajuda profissional