2 de dezembro de 2009

The End is Nigh

Alguma coisa acontece no meu coração, quando eu entro no meu prédio e dou de cara com a Síndica Mafiosa.

E o problema é que isso acontece com mais freqüência que eu gostaria. Chega a ser curioso. Eu não tenho horários fixos, mas, toda vez que entro ou saio do prédio, ela dá um jeito de estar no meu caminho, normalmente rosnando algo para os porteiros ou (pior ainda) em silêncio, me encarando.

Como tenho noção do perigo, eu apenas a cumprimento, da forma mais respeitosa que consigo, evitando-a olhar nos olhos e saindo logo de perto dela.

Mas dias atrás, não consegui. Eu estava no meio das minhas férias, voltando da padaria. Entrei no prédio e ela estava conversando com dois vizinhos. Abaixei a cabeça e, planejando andar rápido na direção do elevador, apertei o passo.

Não deu certo.

No meio do caminho, um dos vizinhos me chamou:

– Rob? Venha até aqui, por favor.

Ai.

Me aproximei e um deles me explicou que estavam tentando convencê-la a construir uma piscina no prédio. Interessante. Um deles mora ali há mais tempo que eu, mas parece não ter entendido que a minha síndica não é uma pessoa que se deixa ser convencida de algo. Se ela decidir que quer uma piscina no prédio, é porque foi uma decisão dela.

E ai dos funcionários, dos moradores e até mesmo da piscina, se não estiver tudo pronto no dia seguinte.

Antes que eu pudesse me manifestar, ele me perguntou:

– Você não acha que nós deveríamos construir uma piscina no prédio?

Todos ficaram em silêncio, esperando pela minha resposta. Eu havia entrado numa situação política bem delicada. É evidente que eu acho que o prédio deveria ter uma piscina, por dois motivos. 1, por causa do calor lawrencedarabiano que vem fazendo; e 2, o que eu pago de condomínio é suficiente para construir um complexo olímpico inteiro no prédio, e não somente uma piscina.

Agora, meu instinto de sobrevivência começou a gritar comigo. Se eu falasse que “sim, deveríamos ter uma piscina” e minha síndica achasse que não, eu me tornaria seu inimigo mortal. Ou seja, capaz de conseguirmos uma piscina, e eu ser (misteriosamente) afogado nela na primeira semana.

Eu poderia até mesmo dizer que “não, não está fazendo tanto calor assim”, e sair pela tangente. Mas o fato de eu estar totalmente suado e carregando uma sacola com uma dúzia de picolés não me ajudaria a vender essa idéia.

Felizmente, o destino me ajudou e foi a Síndica quem disse, com suas tradicionais letras em caixa alta e com ponto final (sim, se você é novo aqui, acostume-se: ela fala em caixa alta sem gritar).

– NÃO HÁ ESPAÇO PARA A CONSTRUÇÃO DE UMA PISCINA.

Tem gente que não tem amor à vida mesmo. Meu vizinho respondeu:

– Tem, sim. Venha até aqui.

E saiu andando na direção do jardim que fica ao lado hall, sendo seguido por nós. Chegamos ao jardim e ele começou a apontar para o chão:

– Podemos mexer nessas plantas aqui, transportar esse jardim para lá e construir a piscina aqui.

Aparentemente, ele não percebeu que sua teoria permitia a construção de uma piscininha montável. Ia ficar lindo. Todo mundo numa piscina montável, ouvindo pagode e fazendo churrasco de espetinho em churrasqueiras de tijolos.

E, aparentemente, ele não percebeu que o jardim tinha algum significado para minha síndica.

– NÓS NÃO PODEMOS MEXER NO JARDIM.

– Mas é só transportar para lá, ele insistiu.

– NÓS NÃO PODEMOS MEXER NESSAS PLANTAS.

– Porque se a gente...

– EU GOSTO DESTAS PLANTAS.

Foi aí que eu percebi o que estava acontecendo de verdade. Aquilo não é um jardim. É uma desova. Comecei a imaginar o número de corpos que foram enterrados ali pelo zelador, de madrugada, sob as ordens da síndica.

Cheguei perto do jardim, para ver se a terra havia sido mexida recentemente (porque há um apartamento para alugar no prédio), mas, antes que eu pudesse verificar isso, meu vizinho resolveu usar um novo argumento.

Mal sabia ele que sua frase seguinte estaria colocando minha vida em risco.

– Porque nós temos apenas uma sauna no prédio. E está muito calor.

A síndica simplesmente o ignorou. Na verdade, ela olhou diretamente para mim e disse:

– TEM GENTE QUE MORA AQUI E NÃO SABE ONDE É A SAUNA.

Ela não disse isso em voz alta, simplesmente. Ela disse para mim. Especificamente para mim. Havia um "CERTO, SEU ANIMAL?" implícito no final da frase.

Senti um arrepio na espinha.

Ela sabe. Não sei como, mas ela sabe que eu não faço a menor idéia de onde fica a sauna. E, provavelmente, ela sabe que eu falo aqui no blog sobre os porcos selvagens, e escrevo sobre o sumiço dos corpos...

O blog! Ela lê o blog!

Aliás, pior. Ela lê o blog e sabe que eu sou eu!

Eu estou morto. É questão de tempo. Eu estou morto.

Esta frase dela foi quase um “você me desapontou, Fredo”, dito pelo Pacino no Chefão II. E todo mundo sabe o que acontece com o Fredo.

Eu dei um sorriso amarelo e concordei com o que ela disse. Segundos depois, já estava no elevador, depois de usar a desculpa “meus sorvetes estão derretendo, depois eu volto”.

É evidente que não desci mais. Mas eu sei que o fim está próximo. Provavelmente, enquanto digito isso, o zelador já está afiando as facas, e a Síndica ordenou que ninguém alimentasse os porcos durante dias, para que meu corpo desapareça logo – não que fosse preciso muito esforço, afinal, com meu 1.60, até mesmo um leitão daria conta.

Enfim, meu ponto é: se eu deixar de atualizar o blog nos próximos dias, vocês já sabem o que aconteceu. É porque eu não vou atualizar o blog nunca mais.

No meu prédio, já é 2012. Ao menos, para mim.


Ah, tem texto novo no Chronicles: Buarquianas.

13 comentários:

Hally disse...

O.o MEDO...

Dá um jeito de descobrir onde é a sauna, engane ela...

Mas se ela lê o blog, não há salvação para ti...

Rob, foi um prazer ser sua leitora durante tanto tempo. Pena não termos nos conhecido...
D:

O Frango... ® disse...

Pode deixar Rob, eu vou fazer uma proposta que ela não pode recusar...

Varotto disse...

Construam a piscina no fosso dos porcos...

The Owl disse...

Quem sabe uma focinheira estilo Hannibal Lecter imponha algum respeito....

...Nãaao, vc vai morrer mesmo..

Kika® disse...

Diz: "mas a conta de água não vai ficar muito cara?". Isso não é um sim e nem um não...

Me acabei de rir do seu medo da síndica. Eu tenho medo do porteiro mesmo. Ele começa qualquer frase com "UPA!"...

Larissa Bohnenberger disse...

Ah, Rob... vamos sentir sua falta... que sabe você atualiza o blog do alem? Com essa coisa de inclusão digital, até os fantasmas têm computadores... rssss! O próximo, acredito, seja o vizinho que queria mover o jardim de lugar.

Bjs!

May. disse...

Sério, é desagradável rir tanto da desgraça de alguém. Perdão.
Mas comece a se preocupar mesmo quando o vizinho sumir.

Layla Barlavento disse...

Vou sentir sua falta... Porque você não apornta alguns textos e deixa a besta fera incumbida de postá-los?

Dragus disse...

Se convencê-la que a piscina permitirá banhos de sangue com mais profundidade, ela aceita.

Tyler Bazz disse...

Caralho, to preocupado.
Sério.
Se vc morrer, posso ficar com o blog? =D


(Btw, CASO você sobreviva, e CASO Brick Top DECIDA que vai fazer uma piscina, provavelmente terá 1.70m de profundidade. afinal, vc é o Rob)

Alexandre Greghi disse...

Robs... você vai virar uma linda Hortência no jardim do prédio.
Se vc der a ideia de fazer um fosso com crocodilos ou tubarões ela pode te dar a chance q o Fredo não teve

Leandro disse...

Coragem!!!

Perci Carvalho disse...

que bom que vc ainda está vivo ^__^



fredo teve o que mereceu... mas tempo demais depois. o padrinho demorou muito a tomar atitude, na minha opinião.