21 de setembro de 2006

Longa Jornada Noite Adentro

Nas últimas semanas, três pessoas diferentes – e que não se conhecem – pediram para que eu fizesse a lista dos 5 melhores filmes de todos os tempos. Assim, com esse descaso todo, como se estivesse pedindo para eu passar o sal ou perguntando "vamos até a padaria comigo?". Absurdo. Não se pede uma coisa dessas a um tarado por listas como eu. Você quer brincar de listas comigo? Peça os 5 melhores filmes do Brando, os 5 melhores filmes de máfia (italiana ou não), as 5 melhores trilhas do John Williams, etc. Agora, os 5 melhores filmes da história? Esse tipo de coisa não se faz. Seria como pedir para Moisés escolher os três melhores mandamentos.

Nas três vezes, comecei a suar frio na mesma hora. Uma lista dessas não se pede assim. Caso você queira uma lista dessas, o bom senso recomenda que você me ligue primeiro e fale algo como; "Vamos jantar essa semana? Preciso conversar com você". Mas as pessoas não têm noção da profundidade de uma lista dessas e pedem isso, assim, à queima-roupa.

Depois de surtar e sentir enjôo, comecei a impor regras. Abri negociações e disparei que "Não, tem que ser pelo menos 10. E as trilogias, tipo O Poderoso Chefão, têm que ser consideradas como um filme só".

Não colou, o máximo que eu consegui foi só o lance de "aumentar para 10". "Se você quiser colocar Chefão, Chefão II e Chefão III, pode colocar. Mas são três filmes. Vão sobrar só 7 espaços". Ou seja, num português claro: fudeu. Simples assim. Fui para casa, tomei banho, coloquei minha melhor roupa. Desliguei a TV, fechei o messenger, tirei o fone da tomada e sentei no sofá com um bloco e uma caneta, supervisionado pelo cachorro que, para variar, parecia se divertir com meu desespero.

Não sabia nem por onde começar. Arrisquei colocando os aqueles nomes que seria falta de educação deixar de fora. Kurosawa, Fellini, Hitchcock, Scorsese. Cheguei a uma lista de uns 30 diretores e comecei a limar. Corta daqui, tira dali, mexe aqui... Consegui reduzir para 28. Na verdade, 28,5 porque não cortei definitivamente o Polanski, só marquei um ponto de interrogração ao lado do nome dele, deixando em stand-by para futura análise.

Não vai dar certo.

No desespero, comecei a pensar em alternativas como fazer uma lista ridícula, abrindo com Vanilla Sky e ainda colocando uma justificativa como “um filme à frente do seu tempo, que terá seu valor reconhecido apenas em 3 ou 4 décadas”. Não, não tenho coragem de fazer isso. O que as pessoas iriam pensar de alguém que gosta de Vanilla Sky? Isso seria usado contra mim o resto da vida.

Hum... Idéia. Posso colocar filmes (bons) que nenhuma das três pessoas tenha assistido, assim não geraria polêmica e eu ainda teria a imagem de ousado. Eu pegaria só o “lado B” dos grandes diretores. É o mesmo esquema usado pelos indies que freqüentam o Espaço Unibanco. Se o filme só passou lá, durante 3 dias, “é sensacional, talvez seja o melhor do ano, que pena que você não viu”. Agora, se o mesmo filme estreou com 450 cópias, “você gostou? Eu achei uma merda, comercial demais”.

Perfeito. Scorsese, eu coloco Caminhos Perigosos. Coppola, hum... Vou de A Conversação. Hitchcock eu pegaria algum da fase inglesa, tipo O Homem que Sabia Demais (o original), e ainda arriscaria um comentário como “depois disso, ele apenas se copiou, ficou preguiçoso”. Kubrick, eu arriscaria Barry Lindon, já que ninguém consegue assistir ao filme sem cochilar.

“Perfeito. Amanhã trabalho nisso. Vou dormir”, pensei, inocente.

Acordei no meio da noite suado, passando mal. Levantei – sob protestos do cachorro que dormia em cima das minhas costas – e acendi um cigarro. Algo me incomodava. Sentei no sofá, liguei a TV e comecei a passar os canais. Algo realmente me incomodava. E eu não fazia idéia do que poderia ser. Apaguei o cigarro e, assim que levantei, dei de cara com ela, sobre a TV, me olhando fixamente.

A caixa do Chefão.

Tentei ignorar e voltei para a cama. Com o cachorro acomodado de novo em cima de mim, sonhei que James Caan recebia um embrulho com teclado e um peixe, e alguém virava para ele dizia: "É uma mensagem siciliana. Significa que Rob Gordon dorme com os peixes". Acordei e decididi abandonar o plano dos Lados B. Eu não me perdoaria jamais por escrever uma lista desssas e deixar um Corleone de fora. Mas tomei a decisão, também, de que eu precisava arrumar espaço na lista. E, se eu não consigo aumentar o tamanho dela ("não posso mesmo fazer 25 ao invés de 10?"), vou precisar dar um jeito de reduzir o conjunto universo.

Na noite seguinte, disparei um mail para uma das três pessoas, dizendo: “Vou colocar apenas filmes americanos, ok? Assim, se você quiser assistir algum, é mais fácil, porque a maioria dos europeus e orientais que eu colocaria não foi lançada em DVD no Brasil”, menti descaradamente. Qual não foi minha surpresa quando eu recebi, minutos depois, um simples (e sensacional) “OK”. Beleza, depois eu penso nos Kurosawas e Fellinis da vida.

Relacionei 10 filmes no Word e fiquei olhando a lista meia hora. Levanto, vou olhar meus DVDs. Volto, abro o IMDB. Levanto, vou olhar meus CDs de trilhas. Sento e mudo metade da lista. Levanto, vou olhar meus livros de cinema. Volto correndo pro computador e mexo de novo. Mudo, apago, escrevo, amaldiçôo a vida. Desço para comprar cigarros e volto correndo porque, quando estava no caixa, lembrei que tinha esquecido a merda do Casablanca. 6 cigarros e 1 litro de Coca depois (sim, Light. Merda de triglicéris) tenho algo que parece ser definitivo nas mãos.

Crio coragem, respiro fundo. Acendo o sétimo cigarro e mando o mail, com os filmes, os porquês de cada filme, regras para ler a lista e 35 menções honrosas de filmes que poderiam estar na relação. E um pedido de desculpas:

“Eu sei, ficou óbvia. Mas veja só, não tem Cidadão Kane”.

E deixei bem claro que essa é a MINHA lista. Ela não tem a pretensão de ser a lista definitiva dos melhores filmes americanos. É uma lista com os MEUS filmes, pensando qualidade, importância e, principalmente, gosto pessoal. Sim, estou falando isso para amenizar possíveis xingamentos.

Em todo o caso, são 10 filmes que eu levaria para uma ilha deserta. São 10 filmes que eu recomendo a qualquer pessoa. São 10 filmes que todo vertebrado tem que ter uma cópia em casa.

Aos poucos, vou postando os filmes aqui, com pequenos textos sobre cada um deles, alternando com posts comuns. E, diferente dos escritores de novela, não vou alterar os primeiros filmes da lista com base nos comentários que forem chegando.

Aliás, para já começarem os xingamentos, 5 filmes absurdamente doloridos de ter deixado fora da lista.

1. Uma Rua Chamada Pecado - Teve mais ou menos a mesma carreira da Alemanha na Copa. Era franco-favorito, mas acabou caindo perto da final.
2. Os Imperdoáveis - Ainda é o melhor filme do Clint. Mas fui direto à fonte e resolvi pegar a obra-prima de um dos professores dele.
3. Ben-Hur - Eu sei, o filme é tão grandioso que Jesus Cristo é coadjuvante. O problema é que é tão grandioso, mas tão grandioso, que não cabia na lista (eu disse que só 10 era foda).
4. Onde Começa o Inferno - Aproveito para informar que não há John Wayne na lista. E, antes que comecem a me apedrejar, ninguém se sente pior com isso do que eu.
5. 2001 - Uma Odisséia no Espaço - Eu sei, é Kubrick, é revolucionário, é único. Mas ficou de fora. Eu sei, eu sou um merda.

6 comentários:

FF disse...

2001 fora? Você é um merda.

Rob Gordon disse...

É, eu sei. Aliás, eu já disse isso.

Luciana Toledo disse...

Mas, escuta, você vai mostrar as listas que fez, afinal?

Anônimo disse...

Faço das palavras da Luciana as minhas.
Whatever: valeu pela lista, dos 100 ! É, isso nenhum Rob seria capaz !

Anônimo disse...

Faço das palavras da Luciana as minhas.
Whatever: valeu pela lista, dos 100 ! É, isso nenhum Rob seria capaz !

Felipe Goulart disse...

Se liga.... nesse fim de semana, está dando os 3 chefões... 1 por dia...
Qual tua ordem de preferência?